domingo, 25 de março de 2018

Fim da Evolução - Sentinela Norte

Uma das simples questões que não tem uma resposta simples, é por que razão houve tribos que não evoluíram, e praticamente ficaram estagnadas no Paleolítico? - É daquelas questões em que o "politicamente correcto" aconselha a não responder, porque arriscamos a ser mal entendidos.

Um caso particular, diz respeito a uma tribo completamente isolada, no Oceano Índico, no Arquipélago Andamão, tribo que terá entre 50 a 400 pessoas, e que domina a pequena ilha Sentinela Norte, com uma área pouco superior à ilha do Porto Santo.

Desde 1880 foi registada a primeira tentativa de contacto, com o desembarque de um navio inglês, mas com infrutíferos resultados, um contacto nunca foi estabelecido -  ou porque a resposta era extremamente violenta (na maioria dos casos), ou porque os indígenas desapareciam na floresta, quando um desembarque era feito. Há alguns vídeos que ilustram respostas agressivas, e em 2006 dois pescadores acabaram por ser mortos. Aparentemente, o tsunami de 2004 não os afectou, e quando um helicóptero avaliava os danos, foi recebido a tiro de flechas. 


A Índia que administra a ilha, organizou um contacto mais amistoso em 1991, e acabou por decidir declarar a zona proibida, deixando os nativos à sua sorte... conforme terá acontecido nos últimos milhares de anos.  

Não é caso único... e há uma lista razoável de mais de uma centena de tribos que resistem ao contacto "civilizacional", muitas das quais no Brasil, na selva amazónica.

De um modo geral, estas tribos chegaram pelo menos ao estado fulcral que determinou o ascendente humano face ao meio-ambiente - o arco e a flecha. Mesmo sendo desconhecida, todas as tribos têm alguma espécie de língua, têm habitações rudimentares, mas no caso da Sentinela, não têm agricultura e julga-se que nem sequer dominam o fogo.

Fim da Evolução...
O problema que se coloca nestas tribos é a ausência de passo seguinte... foi como se tivessem atingido um estado de harmonia com a natureza, e entre si, que lhes prescindiu evoluir.
O problema que se coloca, em oposição, será perceber se a evolução civilizacional, que se desenvolveu na restante parte do mundo, teria ocorrido?
- É aqui que se coloca uma resposta simples, tão típica do Séc. XIX, que argumentaria que nem todas as raças estariam predispostas a uma evolução civilizacional.
Não me parece que essa abordagem simplista seja minimamente satisfatória.

Para chegar ao estado estável do "arco e flecha", que permitiu viver com considerável desembaraço, houve razoáveis passos evolutivos, e não haveria razão aparente para terminar ali a "evolução".
Mas a pergunta surge de outra forma - haveria então razão para continuar a "evoluir"?

No caso da ilha da Sentinela, sendo esta suficientemente rica para fornecer sustento a uma centena de habitantes, que assim entraram em equilíbrio no ecossistema, o problema maior seriam as relações dos habitantes entre si. Tendo desenvolvido um conjunto de tradições culturais, que resolvessem de forma satisfatória esses problemas entre si, a situação poderia ficar estável. Tanto mais que, por razões de espaço numa pequena ilha, não havia propriamente possibilidade de desenvolver dois clãs, que se opusessem. A economia ainda que hierárquica, seria comunitária, de completa partilha familiar - sendo certo que todos os elementos seriam pelo menos primos entre si.

Ou seja, é perfeitamente aceitável considerar que a evolução da tribo parasse quando não tinha razão objectiva para exigir novos desenvolvimentos tecnológicos. Como isso ocorreu em diferentes tribos, de diferentes raças, não parece que tivesse qualquer motivo genético profundo. Aliás, também nos anos 60, com certas comunidades hippies, se desenvolveu uma ideia anti-evolutiva, no sentido de comungar em sintonia com a natureza, em economia de partilha.

Tradição
O aspecto crucial que determinaria a necessidade de continuar, ou não, a evoluir, seria uma tradição enraizada na sociedade. Para um aglomerado pequeno, com uma história de sucesso na sua sobrevivência, como no caso da ilha Sentinela, a tradição impor-se-ia de forma determinante, e as inovações seriam vistas como novidades ameaçadoras ao equilíbrio alcançado. A educação dos jovens seria feita nesse pressuposto, e por exemplo, uma expansão para além da ilha seria possivelmente vista como indesejável.
Assim, apesar da criatividade ser possivelmente educada como inconveniente, isso não significaria que os elementos da ilha não tivessem possibilidade de exibir a sua criatividade, fora das circunstâncias tradicionais em que tinham sido educados. 
Aliás, não é difícil associar os períodos de maior estagnação criativa exactamente aos períodos em que a educação social era mais dirigida ou condicionada por uma tradição dominante. Aconteceu isso durante o período medieval, quer ocidental, quer oriental, na China.

O fim de uma evolução não é necessariamente marcado por uma imposição contra as pessoas, é sobretudo conseguido numa forma de acomodar as ambições da população ao que estas podem obter na sociedade.
Quando as ambições eram limitadas à ilha de Sentinela, uma pequena população familiar pode satisfazer e limitar os seus desejos áquele espaço abundante, mas quando as ambições ultrapassam o pequeno cenário familiar, então a Terra foi-se revelando um pequeno espaço para tanta ambição, e a evolução teve que prosseguir sem limites.

sexta-feira, 23 de março de 2018

dos Comentários (35) - Velha Zelândia

Por email de João Ribeiro recebi a indicação de um documentário bastante interessante sobre as "velhas" origens da Nova Zelândia.

New Zealand Ancient History Documentary "The Redheads" [2020: link anterior indisponível]

O tema principal do documentário é a história mal contada, enfim nada de espantar... mas neste caso incide em particular sobre a presença de pessoas com cabelo louro ou ruivo, no meio dos maoris.
Os próprios maoris, têm origem incerta numa migração polinésia que teria levado à colonização das ilhas do Pacífico. No caso da Nova Zelândia, a "estória" oficial coloca a colonização maori como recente, em 1280, ou seja, ao tempo do reinado de D. Dinis. 

Segundo, o documentário, os próprios maoris reconheciam a presença de outras tribos, quando chegaram à Nova Zelândia. O problema resulta na presença de indígenas com cabelo louro e ruivo, o que necessitava de explicação adicional, não se devendo a interacção com os colonos ocidentais.

Ao longo do documentário podemos ver a presença de mulheres louras, uma das quais mostra o traço dos seus ancestrais, com fotos onde igualmente se apresentavam como louros...
Foto antiga com criança Putiputi e pai Tonini, ambos louros, e descendente deles (à direita)

A história que lhe teria sido passada pela sua família, seria uma origem na zona da Pérsia/Índia, segundo ela, de refugiados da guerra descrita na saga indiana Mahabharata. Esses refugiados, teriam seguido o caminho de África até se estabelecerem na América, primeiro no México, zona de Aztecas e Maias, depois no Perú, zona dos Incas. 
Aí novas guerras teriam-nos afastado de novo, até arriscarem um percurso no Pacífico, onde teriam chegado à Ilha da Páscoa (Rapanui), Taiti, e finalmente à Nova Zelândia (Aotearoa). O percurso é assim ilustrado:

O documentário segue um rumo mais estranho quando a descendente de Putiputi e Tonini faz um teste de DNA, que é dito concordar com origens na Pérsia... indo ao mesmo tempo embarcar no aspecto de semelhanças de monumentos, esculturas, e até escrita. Neste caso, já abandonando o tema da Nova Zelândia, mas procurando juntar outras semelhanças conhecidas, algumas das quais a que já fizemos referência.
Semelhança entre Anedotos da Pérsia e do Equador (possivelmente de origem falsa)
Semelhança entre inscrições na Ilha da Páscoa e na Civilização do Indu (??).

Um problema com quem desmonta versões oficiais é que tem que ter o triplo do cuidado... e aqui não houve esse cuidado ao misturar com as possíveis falsificações remetidas à colecção do Padre Crespi (e que são abundantemente divulgadas por Klaus Donna). Não havendo esse cuidado, uma pequena incorrecção pode colocar em causa a certeza de tudo o resto.

Finalmente o vídeo termina com uma exploração arqueológica de muros que nos fazem lembrar tantos outros existentes nas ilhas açorianas, ou na serra dos Candeeiros, e que neste caso poderia ter levado a uma datação de 2 mil anos, e assim bem anterior à presença maori. No entanto, o documentário refere que o projecto foi terminado no momento em que iriam ser oficializados os resultados das datações.
Muros neo-zelandeses possivelmente com mais de 2 mil anos...

Conclusão...
Ainda que o documentário tenha interesse e coloque interrogações pertinentes, segue por caminhos menos seguros, ou duvidosos, comprometendo uma parte com outra. A versão oficial tem sempre "costas quentes", não precisa de responder a tudo, e quando erra notoriamente, só raramente se dá ao trabalho de rectificar o erro... porque muito poucos se interessam verdadeiramente.

Quando se coloca crédito num passado com tradição oral de 160 gerações, é preciso entender que isso corresponde a um número de avós da ordem de 10 mil biliões, e mesmo que se reduzam a poucos milhares, por serem os mesmos... só se mantém um passado desprezando os outros. Mesmo ao fim de 10 gerações, digamos 200 anos, já são mil avós e é complicado garantir que não houve pelo meio um marinheiro inglês ou holandês.
Uma terra passada em memória, que depois é identificada à Índia ou Pérsia, seria uma terra tão mal descrita que poderia ser qualquer uma, e assim toda a história parece pouco mais que um wishful thinking, colado a informação posterior. Afinal, também os povos das ilhas Salomão têm cabelo louro, e estão mais perto para explicação.
No entanto, é claro que restam muitas peças soltas, na falta de explicações sobre toda a exploração marítima em redor das ilhas do Pacífico.

Aditamento: (25/03/2018)
Um outro documentário da mesma Plumtree Productions:
https://www.youtube.com/watch?v=9RITfMMxcRc
que junta mais uma série de evidências sobre a presença antiga na Nova Zelândia.

sábado, 17 de março de 2018

Teatro dos Descobrimentos (2)

Recupero o assunto do mapa do Museu da Marinha.
Como escrevi há pouco tempo, comprei uma cópia do mapa há uns anos, e não ligando mais ao assunto, deixei-o enrolado conforme o comprei... mas tendo voltado a falar nisto, desenrolei-o.

Sem querer falar de novo sobre a origem do mapa, há outros aspectos que merecem notas detalhadas.

1. Origem do mapa
Como o próprio mapa indica (embora não se veja isto nas reproduções "vintage"), foi:

"Executado pelo pessoal técnico do Museu de Marinha - Maio de 1970"


... e é justamente nesse aspecto "técnico" actual que se colocam também algumas questões.

1. América do Norte
- Primeiro, aparece uma cidade perdida no meio do Canadá, justamente com o nome Canadá!
Não há nenhuma cidade aí... os cinco grandes lagos apontados no Canadá serão (de cima para baixo):
- Great Bear Lake, Great Slave Lake, Lake Athabasca, Reindeer Lake, Lake Winnipeg.

Trata-se de uma das zonas mais desabitadas do mundo, um frio labirinto de montes e pequenos lagos, no estado canadiano de Sasktchewan, onde aparecem os Lagos Atabasca e Reindeer, que limitam a referência à tal "cidade Canadá". 


- Segundo, aparece uma viagem de Gaspar Corte Real (1500-01) que, partindo dos Açores, terá rodeado toda a península da Florida, basicamente até ao Mississipi (~Nova Orleães), para depois seguir sempre junto à costa da América do Norte até Cape Breton, onde aparece uma bandeira nacional. Nada disto foi alguma vez reportado... que eu saiba!
- Terceiro, fica definido todo um território que engloba as províncias do Quebéc e Labrador, Terra Nova, sob uma grande coroa nacional.
- Quarto, aparecem pequenos montes em forma de pirâmide... um dos quais na zona onde se poderá localizar Monks Mound, um monte que é a maior pirâmide artificial da América. O outro(s) seria no Canadá, junto à Baía de Hudson, mas nada se conhece aí (pelo menos por enquanto).
- Quinto, a viagem de João Rodrigues Cabrilho em 1542 tem a seta conforme partisse bem acima de S. Francisco na Califórnia em direcção ao México... e não no sentido oposto, conforme é suposto. 

2. América do Sul
- O problema na América do Sul começam por ser todas as bandeiras portuguesas no lado oriental da costa, ao longo de toda a Argentina (escrita "Terra de Gigantes"). Como as bandeiras coincidem com o percurso da viagem de Fernão de Magalhães, poderá pensar-se numa atribuição nacional por via da nacionalidade do explorador, mas isso não aconteceu com Cabrilho, onde não são assinaladas bandeiras.

- Além disso junto à cidade do Lima, escrita "Cidade dos Reis", aparecem duas bandeiras, uma castelhana, mas a outra portuguesa, ao tempo da "união ibérica". Isso deve referir claramente a origem do piloto nacional, tanto que depois são colocadas as quinas nas Novas Hébridas (agora Vanuatu), como ponto de chegada da sua viagem.
- Vemos ainda as diversas ilhas atlânticas descobertas pelos portugueses. 

3. Gronelândia
O único problema da Gronelândia é a marcação da viagem de "João Fernandes Labrador - 1495", partindo dos Açores e assim mostrando a perfeição do contorno que encontrámos, desde o início, no mapa de Cantino.

4. China e Japão
Começo por notar que nada é escrito na península da Coreia, nem no Vietname (então Conchichina).

Pontos no Japão: 
- Kioto e Tokio, que têm as mesmas letras, estão colocadas em simetria.
- Não longe de Tokio está Yokohama, e mais abaixo Tana Shima, que corresponde à ilha de Tanegashima, onde foram feitas as primeiras armas de fogo pelos japoneses... após a célebre história dos portugueses naufragados (António da Mota, Francisco Zeimoto e António Peixoto). Aliás, a navegação de António da Mota (ao que consta num junco...) é assinalada a vermelho - justamente até Tana Shima, ou seja, Tanegashima.
- Duas bandeiras portuguesas - uma em Nagasaki, outra em Tanegashima. Nagasaki era o principal porto de comércio português, e a cidade esteve mesmo sob administração portuguesa de 1580 a 1586. Será de supor que o mesmo possa ter ocorrido em Tanegashima.


Pontos na China:
- Cidade de Cantão - está desenhada, tal como mais acima deve estar desenhada Pequim (mas não mencionada).
- Bandeira na Ilha Formosa, que foi descoberta por portugueses, e que depois passou a ser também espanhola, até que os holandeses conquistaram a ilha aos espanhóis em 1642.
- Passando a ilha de Ainão, surge a exploração de Jorge Álvares que chega à China em 1513.

5. Molucas
- Nas Filipinas - Cebu, vemos a cruz do local da morte de Fernão de Magalhães.
- Mais abaixo vemos as ilhas Molucas (antes, ilhas Malucas) com bandeira portuguesa, e está marcado o fim da viagem de António de Abreu, que terminou esta exploração em 1512, nas ilhas de Timor e Banda.
- Vemos depois a Austrália, sem qualquer marcação (demoraria 100 anos, depois da viagem de Abreu, até ser marcada parcialmente pelos holandeses), e os estranhos desenhos de cangurus, bem como mais a sul, os eucaliptos. Presume-se acreditar que estes bonecos tenham sido feitos em 1970 pelo pessoal técnico...

Ou seja...
Não há grandes dúvidas que a marcação da viagem de Pedro Queirós terá ocorrido depois de 1606, e por isso, essa inscrição no mapa teria que ser posterior. Acresce a menção às "Novas Hébridas", que só poderia ocorrer depois da viagem de Cook, ou seja, depois de 1760.

No entanto, não está neste mapa a viagem de David Melgueiro - pela passagem Nordeste, rota que era habitual mencionar em 1970, como uma das proezas nacionais.
Por outro lado, um dos aspectos mais estranhos, é a inclusão da viagem de Gaspar Corte Real pela costa americana desde a Florida, ao mesmo tempo que era atribuída a sua navegação à Gronelândia, antes de ter desaparecido em 1501.

Não querendo sobrecarregar o assunto com detalhes, o mapa mantém as suas incoerências, juntando inscrições e um recorte de costa próprio do Séc. XX, com uma formação estética e técnica do Séc. XVI. O mapa que aparece como "vintage" é uma variante deste que, incluindo as rotas das viagens, será posterior a 1606 e talvez anterior a 1660 (por não incluir a viagem de Melgueiro), e se também tiver a designação "Novas Hébridas" então não é um mapa antigo...

domingo, 11 de março de 2018

dos Comentários (34) ... um judeu Nasi

A abreviatura Nazi para "Nationalsozialismus", relativa ao partido NSDAP de Hitler, seria usada pelos opositores, e ganhou especial uso no exterior, sendo usada raramente pelos nazis, para se identificarem.
Curiosamente, um principal problema que os Nazis identificaram foram os judeus AshkeNazis, e não dou ênfase especial à palavra ashkenazi terminar com nazi.

O problema com os judeus tinha ficado bem caracterizado pelo Imperador Guilherme II (Wilhelm II), quando a Alemanha perdeu a 1ª Guerra Mundial:
(...) "Let no German ever forget this, nor rest until these parasites have been destroyed and exterminated from German soil!" (...) [Wilhelm] further believed that Jews were a "nuisance that humanity must get rid of some way or other. I believe the best thing would be gas!"
in Wikipedia, citando John Röhl: 
The Kaiser and His Court: Wilhelm II and the Government of Germany 
(Cambridge University Press, 1994), p. 210 

Portanto, a ideia de eliminar os judeus através de câmaras de gás não foi um original nazi, e a conservadora Alemanha imperial, não deixaria de partilhar o mesmo tipo de sentimentos.

Quando se fala na "solução final" como sendo o plano nazi de "gasear" os judeus, é preciso notar que o termo se aplicou a encontrar um destino final para a comunidade judaica, e nunca constaram documentos de que o termo se referisse à eliminação por gás - excepto talvez as palavras do imperador deposto em 1919, e exilado na Holanda até morrer em 1941. O imperador tendo sido inicialmente um adepto das ideias nazis, acabou por desprezar Hitler, e também o sucesso militar desse plebeu.

Os Rothschild lideravam um plano de fazer renascer um estado israelita... em Israel, no contexto da declaração de Balfour em 1917. Havia outras soluções que os alemães preconizavam, e assim sugeriam a ida para o Canadá, Austrália ou para a Rússia (cf. Oblast judeu), ou de certo modo, para sítios onde não houvessem problemas em ter que desalojar outras comunidades existentes. Conforme se sabe, um problema óbvio da localização em Israel foi o desalojar da comunidade palestiana árabe.

Ora, os judeus andavam em diáspora praticamente desde a invasão muçulmana ocorrida no Séc. VII, tendo-se espalhado por todo continente europeu, e Mar Mediterrâneo, em comunidades que chegaram a ser bastante mal tratadas pelos anfitriões. No entanto, havia uma forte convicção religiosa de que não deveriam regressar, até que o Messias aparecesse... e por isso nem todos os judeus teriam a ideia de largar tudo, e ingressar num novo estado israelita (isso seria mais uma ideia dos Ashkenazi).

Tudo se modificou decisivamente com o chamado "holocausto judaico", porque ficaria aí óbvio que os judeus não tinham outro lugar, do que criar a sua própria nação. Mesmo assim, e ainda que à custa de algumas bombas terroristas, a efectivação do Estado Israelita tenha sido rápida, após a 2ª Guerra Mundial, houve um considerável número de judeus que ficou onde estava, e não foi para Israel, ajudar na construção de um novo estado. Poderia ser duvidoso o efectivo sucesso de Israel, caso não tivesse havido um efeito dramático que os uniu após o holocausto, na procura do melhor sucesso para um estado ameaçado pelos vizinhos árabes.

Yosef Nasi
Se os nazis acabaram por ter sucesso de reunir os judeus no regresso a Israel, pelas piores razões, já muito antes tinha havido alguém que procurou reunir os judeus junto ao Mar da Galileia, na cidade de Tiberias. 
A cidade israelita de Tiberias, junto ao Mar da Galileia.

Era português de nascimento em 1524, com o nome "João Micas", e ficou com o nome hebraico de Yosef Nasi. A sua tia, Gracia Mendes Nasi igualmente judia portuguesa, foi uma figura influente que permitiu a fuga de centenas de judeus portugueses, que assim escapavam dos processos da Inquisição.
Se a tia era já uma figura influente da comunidade sefardita exilada em Constantinopla, o sobrinho Yosef Nasi tornou-se bastante próximo dos sultões Suleiman I e Selim II, tendo sido nomeado Duque de Naxos. 
Foi isso que lhe permitiu ser o primeiro a tentar reinstalar os judeus em Israel, algo que ia contra a política religiosa mais ortodoxa, que só aceitava o regresso a Israel com a vinda do Messias.

Assim, de forma estranha... foram primeiro os Nasis que procuraram reinstalar os judeus em Israel, ainda no Séc. XVI, e foram só depois os Nazis que provocaram a efectiva criação do Estado de Israel, a seguir à 2ª Guerra Mundial, essencialmente por uma significativa migração dos Ashkenazis.

Este tópico resultou de um email que recebi de David Jorge, mencionando a figura de Yosef Nasi, e também uma significativa migração de judeus para Ragusa (actualmente Dubrovnik). 

Pareceu-me curiosa a semelhança do nome, e especialmente curioso, resultar do mesmo propósito - o regresso judaico a Israel. Yosef Nasi morre em 1579, um ano depois de D. Sebastião ter desaparecido em Alcácer Quibir, onde o rei português, tão odiado pelos judeus, visava travar o avanço otomano.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Estado da Arte (12)

Na região do país basco, entre Santander e Bilbau, está a Caverna de Cullalvera com inscrições pré-históricas, que tem uma entrada com 30 metros de altura... 



... e que serve de apresentação a uma interessante pequena palestra de Genevieve von Petzinger, que é bastante elucidativa, do tipo de investigação que decidiu fazer sobre a arte rupestre.
Não se focou na imagem dos animais, mas sim nos múltiplos desenhos geométricos que polvilham as cavernas, e que segundo ela, são mais do dobro das representações de animais.


Em particular, ficou mais conhecida por definir 32 símbolos geométricos frequentes, que aparecem na arte rupestre, comuns a diversas cavernas europeias.

1) Timidez...
Desculpem, mas só pintamos se ninguém ver!
Conforme é dito no vídeo, é suficientemente estranho só encontrar os primeiros símbolos depois de se entrar 800 metros na caverna. As paredes não eram boas para escrever?
Uma situação mais típica, é outra... todos os registos na entrada acessível podem ter sido destruídos, e só os registos mais inacessíveis, ou considerados pouco relevantes, foram poupados.
Porquê?
Para simplificar, coloquemo-nos ao tempo romano do imperador Augusto, que finalmente arrumou com toda a resistência ibérica. Os chefes locais ainda poderiam ser tentados a mostrar aos jovens a sua ascendência a tempos mais gloriosos, fazendo-os visitar cavernas magnificamente pintadas, ao estilo de Altamira. Ora esse despertar de consciência nacionalista, seria um rastilho para rebelião e inconveniente para uma potência invasora. Assim, tudo o que seriam símbolos visíveis de um passado notável, deveriam ser ocultados.
Por isso, com escopro e martelo, nada seria mais fácil do que destruí-los. 
Como se isso não fosse muito ético, fica a esperança de que os desenhos tenham sido reproduzidos em pergaminho, e mandados para Roma, para as catacumbas do Vaticano, antes de serem destruídos.

Podemos perguntar, isso não implicaria igualmente destruir monumentos megalíticos?
A questão é que uma civilização estar associada a monumentos de pedra não trabalhada, não se compararia minimamente com a sofisticação e imponência que os edifícios romanos tinham.
Acrescia um problema maior... as pinturas pré-históricas mostrariam animais extintos, como bisontes, mamutes, tigres de dente-de-sabre, etc. Isso remeteria para um passado demasiado longínquo, que convinha ser ignorado. Tanto pior quando o cristianismo começou a despontar a sua faceta mais ortodoxa, que foi levando à destruição de referências a outras divindades, vistas como diabólicas.
Basta lembrar que esse mesmo espírito levou a que no tempo de Teodósio, em 393 d.C. tivessem terminado os jogos olímpicos, e abandonada a cidade pagã de Olímpia, que os acolhia.

Por outro lado, ainda uma explicação mais simples, é que seria natural que os sítios mais acessíveis, podendo ser facilmente vandalizados, não fossem convenientes a desperdiçar tempo com pinturas demoradas e sofisticadas. No entanto, em contraponto, convém não esquecer as diversas pinturas ou relevos, encontrados ao ar livre, que contrariam essa tendência.

2) Montanheses
Acima de 500 metros só cabras e montanhas...
Depois há um pequeno grande problema!
Na Idade do Gelo o nível do mar estaria umas boas centenas de metros abaixo do actual, por isso o mais natural seriam as povoações estarem concentradas junto ao nível do mar, e hoje em dia isso significa... umas boas centenas de metros submersas, como foi exemplificado no caso da Caverna Cosquer. Ou seja, aquilo que recuperamos enquanto registo civilizacional, é apenas aquilo que está acima do nível da água, e que antigamente seriam regiões em altitude, ou montanhosas.
Curiosamente uma boa maioria das cavernas pré-históricas encontra-se na zona basca, onde a diferença entre o anterior nível marítimo e o actual, seria menos significativa, o que não é muito diferente da zona occitana, onde ocorre a mesma frequência de pinturas rupestres.

Não estamos a falar apenas da questão do nível do mar, porque a Idade do Gelo também é supostamente fria... e assim os ambientes mais elevados, onde a densidade atmosférica seria menor, seriam igualmente os mais frios, e os menos convidativos à vivência.

Para se entender melhor a questão, pensemos que o nível do mar subitamente passava a ser superior a 5000 metros... o que temos como vestígios humanos acima dessa altitude? Praticamente só não ficaria submersa a região montanhosa dos Himalaias, e como Lhassa está abaixo de 4000 metros de altitude, praticamente não ficaria uma única povoação significativa, só restariam montanheses nepaleses...

3) Os símbolos geométricos
O que há e o que falta...
Conforme é colocado por Petzinger, o problema não está apenas no que está representado, está também em tudo o que não foi representado!
Não se vêem desenhos de árvores, de pássaros, dificilmente se encontram referências às fases da Lua, às constelações, não há desenhos de rios, de mares, de nuvens, de armas, são praticamente raras ou quase inexistentes figuras humanas,  etc...
Parece ter havido um propósito de desenhar apenas certas coisas, muito específicas... como fossem os animais que constituíam parte da dieta paleolítica.
A razão pela qual há essa selecção de temas, parece um aspecto fulcral, sem grandes respostas convincentes. Uma possibilidade, que já considerei, seria o uso da técnica da camera obscura para a fazer as pinturas com um elevado nível de precisão.
Mas, conforme é referido, surge um grande número de símbolos abstractos, geométricos, cuja intenção ultrapasaria uma representação concreta. A sua difusão, ou presença comum em diferentes paragens, mostra que haveria contactos reais entre os diveros grupos pré-históricos, e mesmo que se pretenda algum significado, na tentativa de servir de passo conducente a uma línguagem escrita, o ponto principal que Petzinger consegue é mostrar que o conjunto existe, sem avançar nada mais, do que escassas especulações.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Números em Éfeso

Há uns tempos fiz uma visita turística às ruínas de Éfeso, e este era o aspecto geral das ruínas da antiga cidade grega, focando em especial a "reconstruída" Biblioteca de Celso (à esquerda), e que era considerada a terceira maior do seu tempo, após Alexandria e Pérgamo.

 As ruínas de Éfeso, com a Biblioteca de Celso. 

Não se tratando de um blog de trivialidades históricas, ou de viagens, vou deixar os detalhes de parte, exceptuando dois.

- O primeiro é que entrámos 10 Km no interior da Turquia, para reencontrar esta cidade "costeira", que tinha um dos maiores portos da Antiguidade... e isto é mais uma, das dezenas (ou talvez centenas) de situações, em que se evidencia como na Antiguidade o nível do mar seria mais alto!

- O segundo detalhe está explicado em duas fotos que tirei a uma mesma pedra, no exterior. 

A pedra estava junto a várias outras, sem nenhuma identificação especial, parecendo ser restos por classificar, da exploração arqueológica. 
Pedra em Éfeso, com os algarismos 6 1 numa face...

... e com os algarismos 7 3 na face oposta.

Ora, o detalhe interessante é que ao contrário das restantes pedras, que tinham inscrições especialmente em grego, ou romano, esta pedra tinha grandes algarismos, com os números 61 e 73, numa inscrição que seria mais própria de ter sido feita no Séc. XX, do que em tempos antigos... 

Pior, se tivesse sido feita em tempos antigos, teria que ser no tempo de domínio árabe, já que o sítio foi completamente abandonado depois da invasão otomana, no Séc. XV, e não se notavam nenhuns símbolos, de presença árabe, ou otomana. 
Não consegui saber mais nada sobre a pedra, mas também não me preocupei em saber... poderia ser uma pedra colocada para marcação das escavações arqueológicas recentes - o que seria o mais natural como explicação, mas que não justificaria o destaque dado à pedra naquele conjunto, nem justificava a degradação da pedra.

Assim, ainda que tivesse arrumado o assunto, não deixei de o guardar na memória, como "oopart" , até porque esta questão já não era nova na minha opinião...

A questão é que os algarismos que usamos parecem ter uma lógica intrínseca, podendo representar o número de ângulos formados pelas linhas - ou seja, o 1 sinaliza 1 ângulo, o 2 pode significar 2 ângulos, o 3 relacionar 3 ângulos, e até o 4 invoca 4 ângulos... 

A razão desta observação, prende-se com o símbolo de 1 ser diferente do simples traço I que era usado pelos romanos, e a conclusão segue normalmente até ao 4, mas não extrapolei assim para 5 e seguintes (aqui o 7 e 9 parecem-me extremamente forçados) - simplesmente os restantes poderiam ter mudado de forma, ou de posição.
O ponto engraçado era o mesmo - o zero seria uma bola - zero ângulos!

Ainda que seja incerta a origem desta conjectura, o proponente que vi associava esta representação aos fenícios... algo que contraria a teoria habitual sobre a numeração fenícia, e que fica sem ter outra justificação, que não seja uma conveniência própria. 

Também não é habitual ver-se uma distinção entre as 12 letras que são feitas sem traços redondos:
 - AEFHILMNTVXZ
e as 11 letras que usam traços redondos:
 - BCDGJOPQRSU
... considerando as 23 letras do alfabeto português tradicional.
Múltiplas coisas podem ser ditas, querendo especular sobre o assunto, mas não interessa estar a especular sobre coisa nenhuma, sem que se veja alguma razão ou sentido nisso.

Os números hindo-árabes
Não é difícil encontrar derivações que fazem os números aparecer, desde um sistema Brahmi até à forma ocidental que eles hoje têm... Deve notar-se que há mesmo entre os árabes diferenças significativas, consoante estejam a Ocidente ou a Oriente da Líbia.

Evolução dos números hindo-árabes até à forma ocidental (wikipedia).

Um caso típico será um telefone egípcio que irá apresentar dígitos em árabe, que são bastante diferentes daqueles a que chamamos "árabes" no Ocidente.
Dígitos/algarismos árabes num telefone egípcio actual.

Portanto os Algarismos (nome devido ao matemático persa Al Guarismi, Al Khwarizmi, Séc.IX), terão tido diversas variantes, sendo claro que nessa versão oriental, os três primeiros dígitos seguem uma lógica do número de vértices na parte superior da letra.

Sendo Éfeso uma cidade grega na costa turca, o seu sistema numérico era esperado ser semelhante ao grego, que depois influenciou o romano. Ou seja, seria uma numeração baseada no valor das letras, e se tal podia ser prático, também poderia levar a confusões desnecessárias.
Não me parece nada impossível que, comerciantes mais pragmáticos, como eram os fenícios, ou os gregos, necessitassem de outro tipo de numeração mais eficaz. Tal seria possível de ocorrer em qualquer cidade, e Éfeso seria apenas um possível exemplo.
Da mesma maneira que as letras latinas chegaram até hoje sem qualquer alteração significativa, seria possível que um conjunto de dígitos viesse a ser guardado até que houvesse autorização para ser usado de novo!
Claramente que a matemática grega estava desenvolvida a um ponto tão avançado, que só por teimosia ou feroz proibição, não iriam preferir usar uma representação posicional, como o fizeram os Caldeus ou Babilónios.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Almadraba de Cadiz

Numa gravura do Séc. XVI, de Georgius Houfnaglius, podemos ver as "Torres de Hércules":

"La muy noble y muy leal ciudas de Cadiz" por Georgius Houfnaglius (Séc. XVI), com as duas Torres de Hércules.

Legenda: 1- Mar Oceano, 2 - Sant Sebastiano, 3- Santa Catherina, 4- Torres de Guardia, 5- Yglesia Maior, 6 - Castillo;
7- Puerta del Muro, 8- Camino para la ysla, 9- Puntal, 10- Goertas de Safia, 11- Arenas, 12- Torres de Hercules;
13- Stanca, 14- La Baija, 15- Los puercos, 16- Tierra firma d'España, 17- Punta de Sant Lucar, 18- Scipiona;
19- Rotta, 20- Sant Catalina, 21- Pa barra, 22- Puerto Sta Maria, 23- Mar Oceano, 24- La Ysola.

As torres não exibem nenhuma dimensão impressionante, e aparecem aqui a enquadrar ou limitar uma "almadrava", técnica da pesca de atuns. Usamos também a expressão "armação" como em "Armação de Pêra", para designar essa pesca com rede, que redunda numa matança dos animais encurralados.

Relevam para este assunto, textos aqui publicados:
mas esta gravura é curiosa por englobar dois aspectos de tradição antiquíssima - por um lado, a almadrava enquanto armação para "pesca em massa"; e por outro lado as Torres de Hércules.

Conforme já referimos nesses textos anteriores, não restam vestígios ou sinais de quaisquer Torres de Hércules em Cádis. No "maremoto" cultural que ocorreu com o Terramoto de 1755, o que restou de vestígios da primeira torre, passou a ser designado como "Torregorda", e ainda assim encontramos apenas esse nome numa praia.

Mapa de Cádis com o local onde se erguia uma das torres, notando que a paisagem, 
que vemos na gravura acima, estaria orientada para a cidade de Cádis, seguindo o istmo de terra.

Na gravura, a presença de homens em ambas as torres parece indicar uma altura que estaria entre os 10 e 20 metros, e a utilidade das torres parecia aqui muito ligada a esta pesca de atum, ainda que possa não ter sido esse o propósito inicial da sua construção. E também não é nada claro que estas duas torres fossem ou não as chamadas Colunas de Hércules.

O nome Torregorda liga-se a Montegordo, pelo sufixo "gordo", e devido à história dos pescadores de atum que viram as suas cabanas incendiadas pelo Marquês de Pombal, que os queria empurrar para a nova Vila Real de St. António.

Nota: Ainda procurei alguma referência a um "Monte Hércules", sem sucesso... mas curiosamente em 1873, devido a uma descrição falsa de um capitão J. A. Lawson, sobre a Nova Guiné (ver pág. 22), acreditou-se existir aí uma montanha com quase 10 Km de altura, e assim maior que o Everest. Só passadas uma década tal pretensão foi declarada falsa.


Adenda - Dolmen de Poitiers
Ainda do mesmo autor, G. Houfnaglius, não deixa de ser curiosa uma figura que traz de um antigo dólmen às portas de Poitiers (França), onde se vêem vários sujeitos a deixarem marca da sua passagem:

Actualmente este dólmen "pierre levée" ainda sobrevive, junto a uma estrada de Poitiers, mas apresenta a pedra superior partida (ver megalithic.co.uk)

domingo, 18 de fevereiro de 2018

do Sótão (10) «Ré vista (5) ...»

Disse há pouco tempo, num comentário, que a linguagem servia para a compreensão e entendimento humano, e não para o contrário.
- No entanto, como conjugamos isso com todo o desentendimento que se propaga por sua via?
... e falamos de conflitos, que muitas vezes passam de guerras de palavras a guerras efectivas!

Surge este assunto a propósito de um texto que seria o 5º da série "Ré vista", e que não concluí.
Aliás, nunca mais escrevi nenhum texto para essa série, e esta foi só uma razão parcial para isso.

O propósito da série era rever, ou seja "re-ver", ver a ré, ver de novo o que tinha ficado escrito atrás.
O último texto tinha sido o Ré vista (4) escrito no mês anterior, onde tinha ficado no 19º tópico aqui publicado em 2010 (... e ainda bem que não prossegui porque já está a chegar aos 500 textos)!

Bom, e conforme é fácil ler no que se segue, ao rever o 20º texto, um comentário de Maria da Fonte, fez-me coincidir referências a "Cruz", com a notícia da morte de Paulo Cruz, alguém que aqui comentara extensivamente.
Essa coincidência fez-me parar, e ali parei a série "Ré vista".

Também se pode notar que o texto se inicia com uma referência ao ex-primeiro ministro que acabara então de ser detido e constituído arguido... mas esse é um detalhe insignificante.

Coloco aqui ainda outro texto, que não tinha título, e ficou igualmente pendurado nessa altura. Seria o início de uma abordagem genérica a "muros e barreiras", numa perspectiva meio ética e filosófica. Não me lembro se na altura já se falava dos muros que a Hungria veio a construir em 2015, para evitar o acesso dos refugiados. Mas não era nada de novo... a imperial Espanha há muito que os erguera para proteger os seus dois resquícios africanos, e assim não se sentir humilhada pela posse de Gibraltar, pela imperial Inglaterra.

___________________  26 de Novembro de 2014  ________________

Dado o assunto do momento, o título apropriado por esta altura seria mais do género "Réu visto" e não tanto o feminino "Ré vista". Porém aqui a ré é da rectaguarda, no sentido da ré que te aguarda, ou da ré que te a guarda.

(020) West fall é capaz de ser o primeiro dos textos "complicados". Porquê? 
Para perceber isso, veja-se o comentário da Maria da Fonte que ali está:
E se a Cruz tiver outro significado?
Se for o símbolo de uma Herança Ancestral.
Nefer, era representado com um Coração estilizado em coração de cordeiro, cravado numa Cruz, colocado sobre a Traqueia.
Se a Cruz for o símbolo da Voz, do som das ideias? (...)
O significado que tinha na altura fica agora diferente, depois da passagem tempestiva do Paulo Cruz por este blog. Repito que as coincidências são o que são, estamos educados para não lhes dar importância, mas por vezes elas aparecem, desafiantes.


___________________  10 de Novembro de 2014  ________________

Um muro evidente em Melilla (foto de J. Palaizon)

A postura local leva rapidamente a um erguer de muro.
O muro protege o adquirido, mas não deixa de ser um simples muro.
O muro pode ser físico, herança de um arremesso hispânico à costa marroquina, onde o Duque de Medina-Sidónia quis imitar os portugueses na Seta africana.
Porém Melilla não era Ceuta, e por isso esta Seta era a verdadeira Cepta.

Barreira
Qualquer barreira entre corpos, ou é indetectável, e a sua existência é desconhecida, ou é detectada, e a sua existência é questionada.
- Há a ilusão habitual de que o questionar barreiras arbitrárias pode ser evitado.
- Não pode.

A perspectiva local é intrinsecamente ignorante do contexto global. É uma visão exacerbada do "eu" que, ainda que preze o "tu", despreza o "ele". Respeita os segundos, para definir terceiros.

Só que esta visão de grandeza é tão pequenina, tão pequenina, que mete dó... porque os terceiros são sempre a parte monstruosamente maior, aliada de todo o caos universal.

A redução, ou controlo, dos efeitos caóticos é um rotundo nada, porque ou seca a fonte caótica, e congela toda a inspiração, ou a deixa solta, e nesse caso é incapaz de controlar o caos.
É algo triste ver a mediocridade reinante, tão presa à visão pequena do seu enorme umbigo.

Definida uma barreira, a questão universal inevitável é - quem fica de um lado e quem fica do outro?
A arbitrariedade da escolha é a arbitrariedade da barreira, e carece de fundamento.
Não há herança, só há errança, num acaso e espasmo temporal.
A existência de semelhantes, invoca um princípio de reflexão inevitável:
- Colocados uns no lugar de outros, o que fariam esses de diferente face a estes?
Fariam pior... sim, talvez o mesmo.

A lógica que preside à construção da barreira actua com a mesma arbitrariedade na sua destruição.

Interessa avaliar a sua estrutura moral, ou seja, até que ponto resiste à tensão dos desequilíbrios que traz consigo. Trata-se de uma simples questão física, onde a temperatura financeira aparece quase em razão inversa da temperatura climática. Os pontos mais quentes estão localizados nos centros financeiros, e os pontos gélidos estão dispersos pela restante parte subdesenvolvida.
Assim, a termodinâmica financeira, acentuadas as diferenças, exerce um fluxo natural dificilmente separável por um simples muro.
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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

do Sótão (9) «Trópico de Cancer»

Ainda em 2014, deixei por publicar este texto acerca do "Trópico de Cancer", na altura do solstício de Verão... se bem me lembro, foi apenas porque demorei a escrevê-lo, e não o completei.
Tem uma informação interessante acerca da história da Ursa Maior que considerei semelhante ao desenho na caverna da Crimeia.
No entanto, não terei dado a isso relevo suficiente, e no mesmo dia publiquei um texto
sobre a ridícula "estória" que o Canal História trazia nessa altura.

_____________________ 25 de Junho de 2014 __________________

O Zénite é o ponto no céu tirado acima da cabeça do observador. A trajectória solar atinge o seu ponto mais elevado ao meio-dia, mas nas zonas não tropicais o Sol nunca atinge o zénite.
Os trópicos delimitam assim a zona tropical, onde a sombra pode desaparecer... quando o Sol está a pino.

Trópico de Cancer é a linha limite norte - no dia de solstício de Verão a sombra fica na perpendicular, dando ideia de desaparecer em qualquer relógio solar. Como podemos ver na figura seguinte, e porque há sempre imprecisões naturais e mínimas, a linha tem-se deslocado aproximadamente 15 metros por ano em direcção ao equador:
Marcação anual do Trópico de Cancer (México)

De forma semelhante, o Trópico de Capricórnio assinala o limite sul, no solstício de Inverno, e entre os dois, passará pelo Equador nos equinócios.

Acima do Trópico de Cancer, no hemisfério norte, o meio-dia aponta sempre a sul, de onde em latim "meri-dies" originou a palavra meridional para sul, tal como setentrional se associava às sete estrelas da Ursa Maior, para indicar o norte.

Várias notas acerca disto. 
O Cabo Bojador é um ponto relevante na costa africana antes de passar o Trópico de Cancer. 
A partir daí, o meio-dia, que indicava o sul, podia aparecer a norte, e a sombra poderia desaparecer... alguns temas que poderiam fazer as delícias metafísicas da Idade Média. Já antes disso, Eratóstenes usara o fenómeno para medir a circunferência terrestre, com uma distância e simples trigonometria.
Por outro lado, esta indicação latina especificava bem o que era norte e o que era sul, e associação das Sete Estrelas à Ursa Maior não remete para nenhuma alteração significativa da posição das estrelas e do norte. A menos que as Sete Estrelas passassem a ser as Pleiades... e que a Estrela Polar fosse uma Estrela "Pular"... que então pulara para norte.
Ainda que nada disto bata certo, não deixam de ser muito estranhas as orientações sugeridas por Plínio ou Estrabão para a localização dos pontos geográficos da península ibérica, que parecem invocar uma posição menos correcta dos pontos cardeais, como os entendemos hoje. Porquê hoje? Porque falar em nascente poderia não significar Leste, mas sim sudeste, já que só nos trópicos o Sol nasce mesmo a Leste, acima do Trópico de Cancer o sol vai nascendo cada vez mais a sul.

No sentido de não ter havido grandes diferenças até ao tempo greco-romano, há a referência habitual à Odisseia, onde se terá dito que as Sete Estrelas eram a única constelação que não mergulhava no Oceano... e isso só é verdade acima do Trópico de Cancer. Portanto, a ida para paragens a sul tinha este aspecto de perder as referências habituais de navegação... mas que seria um problema muito ligeiro, já que outras referências se estabeleceram sem problemas - nomeadamente o Cruzeiro do Sul.

Ainda sobre este assunto, e a propósito da Ursa Maior, encontrei esta referência na wikipedia:
«Using statistical and phylogenetic tools, Julien d'Huy reconstructs the following Palaeolithic state of the story: "There is an animal that is a horned herbivore, especially an elk. One human pursues this ungulate. The hunt locates or get to the sky. The animal is alive when it is transformed into a constellation. It forms the Big Dipper".»
Esta descrição é curiosa porque, sendo mero resultado de análise de lendas "paleolíticas", a descrição de uma caçada a um veado, ou outro grande herbívoro com chifres, e a sua relação com um fenómeno celeste, enquadra-se perfeitamente na história que se subentende da gravura rupestre na gruta da Crimeia, conforme detalhámos no fim de um texto anterior "à volta do Mar Negro".
Bom, mas se há registos de lendas que associam a constelação a veados ou a touros, a principal que herdámos é grega e associa a ursos, nomeadamente à mãe Calisto e ao filho Arcas, imortalizados no céu como ursa maior e urso menor...
Assim, dando crédito a que sejam as mesmas estrelas, a disposição estelar, ou a posição orbital da Terra, não se teria alterado significativamente desde o final do paleolítico, pelo menos... (uma outra curiosidade é que a Estrela Polar, apesar de pouco brilhante, é afinal a mais brilhante das estrelas variáveis cefeidas).

A existência de desertos na zona do Trópico de Cancer marcava ainda o antigo limite romano do "mundo habitável".
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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

do Sótão (8) «Alternativa (4)»

Há 4 anos atrás, no início de 2014, escrevi aqui três textos que fizeram sentido para estabelecer uma eventual "Estória Alternativa":


não publiquei o quarto texto, ou antes, acabei por publicar uma outra versão dele em 2016:


Fica aqui o rascunho que comecei, para o que iria ser o quarto texto, mas que nunca acabei por publicar, simplesmente porque a tarefa ficou demasiado complicada, para não ser apenas uma "estória"...

_________________ 19 de Janeiro de 2014 ________________

Escritas
O nexo histórico só começa a ser escrito consistentemente no 1º milénio antes de Cristo. Antes disso há as referências mesopotâmicas e egípcias, mas são interpretações por tradução conveniente feita no Séc. XIX.
É preciso notar que o registo egípcio e mesopotâmico estava praticamente perdido até essa altura, e nem tão pouco havia mitos reportados no ocidente (o movimento anti-Beroso-Viterbo tinha desacreditado muitas teorias não bíblicas). Como vimos, as primeiras imagens das pirâmides são feitas por viajantes isolados, apresentando contrastes face ao depois reportado por Napoleão.
Para além dos disparos contra a esfinge, e um desbaratar de achados transportados para França, é nessa expedição que a Pedra de Roseta leva à tradução de textos egípcios. Pouco depois, pelo lado inglês, é feita a tradução de inscrições cuneiformes sumérias.
Em poucos anos, no início do Séc.XIX, já se começa a fazer nova história com traduções de hieróglifos e inscrições cuneiformes. A tradução egípcia foi proeza exaltada, e no entanto a solução foi quase imediata ao problema, consensual. Mas, vejamos diversas formas de escrever Set (o deus que se opôs a Hórus)

Portanto, temos aqui três conjuntos, completamente diferentes, supostamente representando o mesmo nome (com a posterior identificação a Tot, juntam-se pelo menos mais dois). A isto, acresce uma certa compressão evitando as vogais, que veio a acontecer em muitas escritas (por exemplo, hebraico, abreviaturas romanas).

É habitual ver dúvidas sobre interpretações de textos em latim e grego, onde muita gente conhece as línguas, e é muito menos frequente ver dúvidas sobre textos sumérios ou egípcios... onde a incerteza seria enorme.
Como dizia Disraeli, acrescia haver mais que uma interpretação sobre os hieróglifos. Uma do conhecimento da escassa população letrada, outra apenas do conhecimento sacerdotal.
Qual tem sido traduzida? O que concluir?
Devemos continuar a usar primordialmente a tradição vinda pelos textos greco-romanos.
A outra sofre do método educacional. Quem ensina, condiciona a interpretação. Se há dúvidas remete-se sempre para o topo, onde prevalece a hierarquia... o antigo aluno raramente questiona os mestres.
Depois, tratam-se de profissões, onde ninguém quer ser desacreditado ou ridicularizado pela comunidade, logo é melhor concordar do que discordar. Tudo razões para não tomar "demasiado à letra" o que resulta dessas traduções modernas... e que trouxeram reinos perdidos pela história, como os Hititas.
O reino hitita, apesar da enorme influência hoje atribuída, só foi "desenterrado" no Séc. XIX.

Portanto, não se trata de duvidar por duvidar, porque certamente um nexo de tradução foi encontrado.
Só que o nexo encontrado foi também o que se quis encontrar, o que se ajustou a muitos factores, uns mais subjectivos que objectivos. O amador quando encontra uma inscrição envia para tradução, raramente arrisca traduzir juntando os hieróglifos. Porém, se repararmos nas traduções que são feitas, podemos ver que dificilmente se trata de uma ciência muito exacta... 
Não falamos do registo chinês, supostamente bem mais antigo e bem melhor guardado, mas igualmente envolto em incerteza e secretismo.

O Egipto, sendo a grande referência do mundo antigo, merece alguma atenção especial.
Preferia não entrar em detalhes, alguns já mencionados, mas podemos olhar para este caso especial, indo de novo à época do dilúvio. Este dilúvio é também chamado de Ogyges, o que é um nome grego para Oceano, mas também se liga a um rei mítico de Tebas.
Surge aqui uma das confusões entre a Tebas grega e a egípcia, até porque o início faraónico começa na zona de Tebas, em Abidos.
A versão oficial aponta para um faraó Ro (ou Iry Hor), denominado companheiro de Horus, sendo que na mitologia ibérica Horus correspondia a Hércules Líbico... que depõe os Geriões. Nessa versão, este Hércules tinha sido antecedido por Júpiter, a que os egípcios chamariam Osíris, cujo filho seria Hórus, que irá eliminar Seth, tal como o correspondente Hércules eliminaria o Gerião.

Há assim analogias não negligenciáveis nesta parte inicial, também com Tot e Mayat, cujo nome não se deixa de associar a Maia, mãe de Hermes, explicitamente associado a Tot em Hermopolis. O culto de Tot associado a Hermes Trimegisto será intenso no período ptolomaico, de fusão cultural.
Há ainda uma história egípcia com Ka e com o mítico Rei Escorpião...

A queda de Tróia poderá ter sido o equivalente à queda de Roma. 
Após o período destabilizador com os povos do mar, semelhante às invasões bárbaras, a zona mediterrânica e europeia terá entrado num longo equilíbrio, semelhante a uma Idade Média. 
Nessa época o foco religioso foi o Egipto, especialmente Heliópolis, que faria o papel de controlo papal, semelhante ao que se fez em Roma depois. Continuava o poder militar na Mesopotâmia, sempre pronta a intervir e a invadir até mesmo o Egipto.
A situação geográfica seria praticamente a mesma antes e depois da Guerra de Tróia, mas com novos acordos de paz, mais estáveis, entre as elites sacerdotais. A Europa continuaria raptada, com controlo pelas cidades e reinos da Ásia Menor, havendo alguma liberdade de navegação em Tarsis, e por extensão com os fenícios do Líbano, que se encarregariam de navegações purpurinas, para além das colunas de Hércules. Autorização semelhante conseguiria Salomão e os hebreus, também com um entreposto na Ibéria. Os gregos, apesar da sua vitória, saíriam menos bem, ficando espalhados pela costa e ilhas do Mediterrâneo. A aliança de Agamémnon desvanecer-se-ia após o fim de Tróia.
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sábado, 10 de fevereiro de 2018

A braça e a brasa, abraça e abrasa (2)

O brasão e o braseiro - a brasa e a braça
Ainda que a etimologia seja uma espécie de "ciência oculta", remetida a diversos segredos e especulações convenientes, é um bom exercício remeter as palavras às suas sílabas.
Protesto contra ferrar animais.
Neste caso, é interessante especular sobre a semelhança dos termos "brasa" e "braça".
A conjectura é simples... as palavras podem ser semelhantes, porque referiam colocar uma brasa num braço. Recentemente, em protestos contra marcar os animais com brasas, houve activistas que aceitaram ser marcados no braço com uma brasa. 
Um brasão diferente, mas igual noutro sentido... os escravos, na Antiguidade, e na Idade Moderna, eram muitas vezes marcados com ferros em brasa, especialmente em caso de fuga. Um local de fácil observação, menos escondido por roupa, seria justamente o braço.
Por coincidência, em inglês, "arm" tanto significa arma como braço. A derivação enquanto arma é latina, e enquanto braço será germânica. Curiosamente, brasão diz-se "coat of arms", e essa cota de armas também pode ser entendida como uma "malha no braço", uma espécie de insígnia, que de ser marca de escravos, passou a ostentação militar ou burguesa. A semelhança inglesa entre braço e arma faz ainda sentido, já que os braços foram uma primeira arma.

De forma genérica a sílaba "bra" remete ao braço, sendo claro que esta suposição parece ligeira, e mais, é gratuita. Porém vendo palavras como "dobra", notamos que o dobrar é típico do braço; e a própria "quebra" ocorre como um dobrar do braço. Tal como a primeira "obra" terá remetido para trabalho braçal; ou ainda "abra", se entendermos que um "abraço" começa por um abrir de braços.  Depois podemos até entender que "bradar" não seria mais do que "dar aos braços", ou que "vibrar" seria um "vi braço" - a acenar, a mexer. Poderíamos ir até à "cobra" na forma e flexibilidade do braço, ou num braço que cobre, mas dificilmente chegaríamos a conexão com "cabra". No entanto, apesar de parecer mais um exercício de imaginação, não é difícil imaginar que "bravo" seria o que avançava, confiante nos seus braços.

Feita esta pequena introdução, continuamos com os brasões de mais três vilas:
- Alenquer, Almada e Almeida.
Nalguns casos já vimos estas vilas serem mencionadas por João de Barros, mas aqui iremos concentrar-nos no que Vilhena Barbosa diz no seu livro.

Antes de especificar cada vila, notamos que o antigo brasão é diferente nestes três casos, também no que diz respeito ao nicho superior. Nos três brasões das vilas anteriores era sempre uma vieira que se enquadrava no nicho superior. Aqui isso só acontece com Alenquer, já que Almada tem uma coroa imperial fechada, e Almeida uma coroa real aberta... o que pode indiciar uma origem mais recente para ambas, que não é remetida à Antiguidade.

ALENQUER
Invocando uma lenda sobre D. Afonso Henriques e um cão de nome Alão... Vilhena Barbosa, diz que as armas da vila são "em campo de prata, um cão pardo preso a uma árvore com um grilhão de oiro".
Temos uma substancial mudança para o actual, onde o cão passou a negro, está em campo de ouro (amarelo), não há grilhão nem árvore, passando a haver um castelo azul. A página da Câmara de Alenquer explica o brasão actual de 1936, e menciona o de Vilhena Barbosa.
Acerca da toponímia, Vilhena Barbosa refere a ligação à romana Jerabriga, mencionada por João de Barros, e que o nome lhe poderia advir dos Alanos, enquanto Alan-Kerke, significando "templo dos alanos", ou dos Suevos, como Alankerkana
Como já aqui mencionei num comentário, gosto da possível ligação dos Alanos no nome Alancastro (castelo de Alanos), e também o Calisto fez referência aos Alanos nas tropas do rei Artur. Há ainda a referência ao cão Alano (alaunt), mesmo que Vilhena Barbosa diga que o símbolo alano seria um "gato" que, de ser toscamente representado, parecia um cão.

ALMADA
Aparentemente a origem de Almada é "recente", e Vilhena Barbosa diz: "não conserva esta povoação padrão algum da sua antiguidades, mais do que tradição e memórias. Do castelo que os ingleses aí levantaram no Séc. XII não restam vestígios." Quer no brasão antigo, quer no actual, um mesmo castelo, que invocará o edificado pelos cruzados ingleses que ajudaram D. Afonso Henriques.
Quanto ao topónimo, a origem seria "Al Maden", nome de uma povoação árabe arrasada na conquista cristã, nome que os ingleses aí estabelecidos teriam mantido, segundo Vilhena Barbosa.
Em Espanha há uma cidade de nome Almadén, que tem o nome resultante de "al ma'din" referindo a mina, a maior do mundo na produção de mercúrio líquido. O mercúrio tornou-se importante na extracção do ouro americano, formando amálgamas que permitiam retirar o metal da escória. Não sei se assim podemos falar num paralelo com Almada. Uma outra raiz, "al madina" (a cidade), de onde surge Almedina, ou Almadina, também se poderia ajustar ao topónimo.
Vilhena Barbosa refere um incidente notável, de Frei Luís de Sousa (Manuel de Sousa Coutinho), que teria incendiado a sua casa, para não servir de habitação aos governadores espanhóis que em 1599 pretendiam aí refugiar-se da peste que atingia Lisboa.
Refere ainda a "Torre Velha", uma fortaleza oposta à Torre de Belém, que funcionaria a par desta.
Torre Velha e Torre de Belém num mapa inglês de 1810.

ALMEIDA
As armas de Almeida são remetidas a D. Manuel, nomeadamente a sua esfera armilar. Vilhena Barbosa, diz: "As armas de Almeida são um escudo com as armas reais, sendo a coroa destas aberta, ao uso antigo, e ao lado a esfera armilar, divisa d'el rei D. Manuel, que foi quem lhe deu este brasão".
Actualmente no brasão consta apenas um castelo.



Duarte de Armas - Castelo de Almeida
Sobre a origem do nome, e conforme é dito na página camarária, a origem é provavelmente árabe. Vilhena Barbosa, ou Bernardo de Brito, falam em Talmeida ou Talmayda, como significando um hipódromo (Atmeidan), ou remete-se ainda para uma "mesa", lugar plano que estaria mais a norte, num certo vale de nome "Enxido da Carça".

D. Dinis teria deslocado a povoação com a construção do castelo (que depois desapareceu numa explosão do general Massena, em 1810), mas que podemos ver num esboço de Duarte de Armas, onde a esfera armilar está como estandarte numa das torres, e a cruz de cristo, noutra.
Barbosa refere ainda as fontes termais junto ao rio Côa, a Fonte Santa (que tem hoje um moderno equipamento termal).

______________________ 11/02/2018