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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Lemuria

Nos estudos sobre migrações, um elemento de controlo, e que deveria ser particularmente tido em conta, seriam os estudos sobre os animais que podem ter acompanhado essas migrações. Tais estudos não parecem ter colhido a mesma atenção que os estudos directos, pelo menos em alguns casos.

Lemuria
No entanto, quando se fala no continente "Mu" ou "Lemuria", isso relaciona-se com os Lemures:
Lemures (Madagascar), Loris Tardigradus (Ceilão), Lemure voador (Sunda, Filipinas)

O nome Lemúria parece ter sido sugerido para explicar uma ligação dos primatas através do Oceano Índico, que seria assim explicada pela existência dessa plataforma continental, algo que veio a ser abandonado ao considerar-se a deriva das placas tectónicas.
No entanto, como esta versão encaixava ainda com um mito dos Tamil, de um reino afundado, criou uma ideia de "atlântida" no Índico... que se estendeu depois ao Pacífico.

Algumas notas:
  • (i) Lemurias - é ainda nome de festividades romanas, de 9 a 13 de Maio. Celebravam o espíritos "lemures" que atormentavam os vivos por terem sido vítimas de morte violenta. Foi o nome destes espíritos que Lineu usou para os primatas, seguindo talvez a sugestão de Paracelso.
  • (ii) Tardigradus - é o nome de um Loris, parente próximo dos Lemures, e que basicamente designa os seus passos vagarosos, foi ainda designação aplicada aos Tardigrades - os ursinhos espaciais (cf. Portugalliae). O Loris Tardigradus é encontrado no Ceilão, e no sul da Índia, entre os Tamil.
  • (iii) Acerca de Kumari Kandam, o míto Tamil refere esse continente afundado, e liga-o à personagem mítica: Maya Danava (Mayasura, Mamuni Mayan). Esse "asura" Maya é ligado à construção de construções notáveis - inclusive de cidades voadoras: Tripura. Este registo é usado na ligação mítica a fenómenos ETs.
__________
Os lemures (propriamente ditos) são uma excepção de Madagáscar, onde não há macacos, ou outros primatas. Os primatas têm essa particularidade de não serem nadadores, e como tal uma continuidade migratória deveria ter sido feita naturalmente por terra. Por outro lado, no lado americano apenas se encontram pequenos macacos, que diferem dos outros pelo facto de usarem uma cauda preensil.
Vejamos a distribuição dos primatas (não humanos):

Tornam-se razoavelmente evidentes algumas coisas normalmente menos consideradas.
  • (i) Os primatas gostam de calor. O número de primatas fora das zonas tropicais é quase reduzido ao Japão.
  • (ii) À excepção dos humanos, os primatas têm pêlo e não são nadadores.
  • (iii) Não há primatas na Austrália e na Papua - Nova Guiné.
Começamos por rever um mapa com a situação perante uma diminuição considerável do nível do mar, dentro dos limites habitualmente considerados para a Idade do Gelo (circa 200m):
Aumento continental (a azul claro) por descida do nível do mar (época glaciar).

Ou seja, a população de primatas que avançou para a zona das ilhas da Indonésia pode ser justificada pela mancha terrestre (azul clara) que praticamente levou a uma extensão contínua do sudeste asiático até à Austrália. A grande profundidade marítima na Fossa de Timor poderia justificar uma separação efectiva face à Nova Guiné e Austrália, mesmo em época de glaciação.
Nesse caso de separação marítima, a única possibilidade para a deslocação humana na direcção australiana seria por algum método de navegação primitiva. A restante possibilidade seria uma caça intensiva dos aborígenes, e específica dessas regiões (Austrália, Nova Guiné), que teria levado à extinção de quaisquer outros macacos ou hominídeos. 

Nota-se ainda neste mapa a ligação do Ceilão à Índia, com um eventual prolongamento terrestre na direcção do Índico (Dorsal de Chagos-Laquedivas), o que pode corresponder a esse mito antigo do "Kumari Kundam" (ver também o Planalto das Ilhas Mascarenhas, Reunião e Seychelles).
Parece-nos ainda natural considerar que Mu (para além da extensão de Kumari Kundam) poderia corresponder a todo o planalto afundado que vai de Java ao Japão. Esse certamente estaria emerso durante a Idade do Gelo.

Por oposição podemos ver o mapa que obtemos quando fazemos o oposto, ou seja subindo o nível do mar, por situação simétrica (a azul claro as partes que seriam submergidas). Há grandes extensões que têm uma altitude reduzida, e o efeito mais dramático seria na Europa-Rússia.
Submersão de zonas de baixa altitude (a azul claro) por aumento do nível do mar.

Numa situação deste género mantinha-se a grande cadeia montanhosa que é praticamente contínua entre Portugal e o Vietname ou pela China até o nordeste siberiano (as descontinuidades são nos Pirinéus e o Dardanelos; nesta situação Pequim passaria a cidade costeira...). 
Manter-se-iam muitas ilhas montanhosas da Indonésia à Nova-Guiné, mas haveria novas ilhas - em particular, a Austrália dividir-se-ia, a Índia e a Coreia passariam a ser, tal como o Japão, ilhas. Da grande extensão russa, não oriental, restaria a linha dos Urais.

É habitual folclore dizer-se que tais transformações demoram milhares de anos, etc... No entanto, nem sempre é assim. O Aral era um dos maiores lagos do mundo, aliás era chamado Mar Aral, e só era ultrapassado em dimensão pelo Mar Cáspio, e pelos lagos Superior e Victoria.
No espaço de 20 anos ficou reduzido a uma dimensão insignificante.
O que aconteceu ao Mar Aral?
Desaparecimento do Mar Aral em 20 anos (entre 1989 e 2009)

Pode falar-se do desvio dos rios, mas as causas do desaparecimento do Aral são essencialmente naturais... e o Cáspio também sofreu uma redução significativa.
Já aqui falámos de como o Mar Cáspio se deve ter ligado ao Oceano Ártico, e no Aral restaria uma outra parte desse enorme Mar que dividia a Europa da Ásia. 
A situação começou a ficar pantanosa já no tempo dos romanos, permitindo fácil migração dos mongóis, Hunos, até às paragens europeias. Ainda hoje toda aquela região tem inúmeros lagos, devido a essa baixa profundidade.
______
Tentou-se sempre tomar como fabulosas as referências dos geógrafos antigos que davam o Cáspio como um verdadeiro mar ligado ao Oceano Ártico. Esta situação recente mostra como se podem processar grandes alterações num curto espaço de tempo. Dentro de poucas décadas o próprio mar Aral poderá ser visto como um registo fabuloso, só conhecido por estudiosos e pela memória das populações locais. 

Nova Guiné - Múmias, Mãos, Antas 
Voltamos a insistir na questão singular da Papua - Nova Guiné, neste caso para notar que a tribo dos Anga tem uma tradição de mumificar antepassados:
«Mummies are not only found in Egypt. 
In Papua New Guinea, mummies show respect to their ancestors 
and are treated as if they’re still alive.» (http://blogs.ksbe.edu/lenelson/ )

De facto, a tradição de mumificar corpos não é apenas egípcia, conhecem-se outros casos, mas é especialmente notável esta tradição na Papua-Nova Guiné, que parece ser contínua desde os tempos mais remotos. O método é aqui "fumegante" e pode ter origem nalguma observação canibalesca...
É significativa esta atribuição religiosa de presença dos mortos, fortalecida certamente por algumas "inspirações" dos xamãs locais.
Portanto, para além de ter sido um ponto de origem da agricultura, também a Nova Guiné surpreende nesta remota tradição de mumificação... Isto liga ainda com a migração vista nos haplogrupos, que parece ter como ponto de origem as paragens da Oceania... e provavelmente as circunstâncias de variação do nível do mar, a variação entre a ligação continental (Mu) e a formação de ilhas, causando uma diversificação e competição acentuada. 

Temos ainda outras tradições que se mantêm - cavernas com mãos pintadas... num tom mais colorido do que o habitual:
Awim Cave Art (A. Toensing, National Geographic)

E o que é interessante, devido à tradição se manter naquelas paragens, compreender como isto resultava de um sangrento ritual de iniciação juvenil, neste caso da tribo Karawari.
Aparentemente há várias outras cavernas com inscrições variadas, para além de mãos... mas a informação parece ser mais escassa (actuam para isso outro tipo de mãos).

Ainda na Nova-Guiné, numa ilha chamada Unuapa, encontrámos um excelente artigo:
Reflections from Uneapa Island, Papua New Guinea", Public Archaeology 11(1), 2012.

onde, entre muitas interessantes considerações, parece ficar evidente que os dólmens tiveram um interesse prático algo surpreendente:
 

É claro que chegados à Europa, os dólmens cresceram, talvez crescendo a importância dos chefes locais, que requeriam um lugar mais alto à "mesa"... (Abraracourcix montado no seu escudo é uma boa caricatura dessa "necessidade de elevação").
Há ainda outras referências mais complicadas... de monumentos megalíticos na Nova Guiné, mas faltam imagens (por exemplo, no caso de Bunmuyuw ou Muyuw - Ilha de Woodlark - ver reconstrução simulada).

Deixamos um link para uma lista muito interessante de monumentos na Oceania - Melanesia:

Porque afinal, não há apenas a Ilha da Páscoa no Pacífico, e se ela tem concentrado todas as atenções, é apenas uma parte de um fenómeno muito maior, que se estendia pelo oceano.
Já tínhamos falado do Taiti e da Pirâmide de Mahaiatea... juntamos apenas mais alguns exemplos de outras construções, espalhadas pelas ilhas do Pacífico:
Ilha de Tonga - Anta denominada Ha amonga a Maui

 
Ilhas Marquesas (tiki)[à esquerda] ....  Micronésia (Palau) - "Pedra Dinheiro" [à direita]

Há um misto entre a diversidade de construções, a sua discutível datação, e algumas analogias directas que se estabelecem com outras construções universais.

Parece-nos mais natural entender que as alterações geológicas, nomeadamente devido ao isolamento em ilhas, provocaram conflitos com rápida evolução daquelas populações... esse terá sido o contributo de um eventual afundamento de terras correspondentes a Mu ou a uma Lemuria perdida. As comunidades sobreviventes herdaram "lamúrias" passadas a violentos rituais sociais.

A parte de herança comum parece denotar que se restabeleceu uma cultura primitiva, baseada na zona da Nova-Guiné que veio a influenciar de forma definitiva todo o mundo... seriam evidências disso a mumificação, a pintura em cavernas, ou até os dólmens - que afinal podem ter servido mais de tronos do que de monumentos funerários. 
A passagem do K para M, S é feita nessas paragens, e é dessa mesma linha que surgem os N (siberianos), os O (chineses), os Q (indios-americanos) e os R (indo-europeus).
O poderoso controlo xamã teria mantido uma sociedade estagnada nas ilhas de origem, principalmente na Papua-Nova Guiné. Nos outros locais para onde migraram essa estagnação foi desaparecendo progressivamente, até ter resultado na civilização ocidental... que de alguma forma parece ser herdeira, para o mal e o para o bem, dessa primitiva forma de ser que foi reencontrada naquela ilha "parada no tempo".
24 a 27 Fevereiro 2014

terça-feira, 9 de julho de 2013

Com chás

Perante as informações dispersas, algo contraditórias, abundantes na irrelevância e escassas na importância, é sempre um risco especular novas hipóteses sobre as primeiras migrações humanas. Não há suficiente informação nem para rebater, nem para sustentar categoricamente nenhuma hipótese... o resto é inércia conveniente. Com chás, é mais fácil alinhar pela teoria que se foi estabelecendo, por mais interrogações que se deixem sem resposta... mas o espírito inquieto prefere o caminho das conchas - neste caso procurar uma versão consistente que responda a interrogações fundamentais.

Constava no Séc. XVI que o nome Nova Guiné era devido à oposição à outra Guiné, africana. Tal como a Guiana, todas estas terras partilhavam a proximidade equatorial em diversos continentes. 
O registo mais antigo do nome Guiana é o nome do território basco francês, na zona da Aquitânia, que esteve na origem da Guerra dos Cem Anos.
Essa Guiana occitana fazia parte dos domínios ingleses, nomeadamente de Eduardo III, fundador da Ordem da Jarreteira, que quebrando as promessas de paz com o rei francês, passou o Ducado da Guiana ao filho, o Princípe Negro, Eduardo de Woodstock! A mesma Guiana esteve em posse do irmão, Eduardo de Gant, pai de D. Filipa de Lencastre... e foi reivindicação inglesa até ao fim da Guerra dos Cem Anos.

De forma rápida, chegamos da Guiana occitana/basca ao nome da Nova Guiné, e no texto anterior procurámos ver se fazia sentido o caminho inverso, partindo de uma Velha Guiana.

Tudo isto parece arbitrário, mas há uma questão fundamental, que carece de resposta:
- Como manter no decurso de milénios uma guerra brutal entre tribos rivais numa ilha limitada?
- Não seria natural que uma das tribos ganhasse ascendente, aniquilando as restantes?
Quando a violência vai ao ponto de antropofagia cultural, o único valor dados aos outros parecia ser o de recurso alimentar... No entanto, as diversas tribos coexistiram ao ponto de criarem quase 900 línguas diferentes, o que mostra uma assumida diferença e herança ancestral.
Como manter o equilíbrio entre tribos que visavam aniquilar as outras?
Ao fim de tantos milénios, o que evitou que uma das tribos crescesse a ponto de criar um exército de guerreiros que derrotasse as restantes?... 
Como se deu o controlo populacional na ilha?
Eram as batalhas apenas rituais destinados a esse controlo populacional? Ou seja, não visavam a destruição dos rivais, mas apenas uma "selecção" dos mais jovens?
Afinal, se a agricultura deu ali os primeiros passos, e se havia uma técnica apurada no manejo de arco e flecha, acrescido do uso de venenos naturais, onde foi estabelecido o limite do génio inovador, para estabelecerem novas defesas e armamento? 
A imaginação ficou nos rituais algo estranhos e exóticos? 
Quem orientou essa educação guerreira ineficaz para batalha?
Quem aconselharia uma política não expansionista, deixando a tribo sob ameaça constante de se ver aniquilada (ou comida...) pelas tribos rivais?

Portanto, há aqui uma quantidade apreciável de perguntas que estão sem resposta.
À falta de melhor, a única resposta que encontro é a de uma coordenação global dos xamãs locais.
Os xamãs, conselheiros típicos da favorabilidade da batalha, da educação condicionada por rituais, exerceriam um papel fulcral na formação daquelas sociedades. A eventual fragilidade de cada um seria irrelevante perante o papel coordenado dos restantes. Ou seja, se um fosse banido, essa tribo arriscaria o ataque coordenado das outras tribos, ordenado pelos outros xamãs... 

Esta evolução para uma coordenação entre xamãs seria um processo natural de reflexão social. 
Afinal, quando uma tribo dominasse por completo a ilha, o que se seguiria? 
Uma regência única? Não havendo inimigos na ilha, entrar-se-ia numa competição interna... mas onde apareceriam esses focos de dissensão, seriam controlados pelos xamãs, ou organizariam-se contra eles?
Como se controlaria uma explosão populacional? 
Rapa Nui (pintura de Hodges, 1775) e o problema dos Coelhos da Páscoa...

Um aumento descontrolado da população esgotaria os espaços e os recursos, entrando-se num conflito e colapso social, semelhante ao que se supõe ter ocorrido na Ilha da Páscoa.
As ilhas polinésias apresentavam esta dualidade... por um lado ambientes paradisíacos, mas quando a liberdade permitia o descontrolo populacional, a reprodução dos coelhinhos era um modelo inevitável para prever o que se seguiria - um esgotar de recursos, conflitos crescentes caóticos levando ao colapso social.
Por isso, a nova "Paz-côa", a "paz filtrada", trazia um ovo diferente do de Colombo[*], trazia um acordo de paz que visaria um controlo populacional... o "crescei e multiplicai-vos" tinha o limite Malthusiano, o limite da estrutura para os recursos disponíveis. 
[*] Sobre a tradição dos ovos da Páscoa, 

Não é preciso ler Robinson Crusoe, para ver que os paraísos tropicais traziam vários problemas, onde foram aplicadas diversas soluções ao longo de gerações... normalmente condicionando a mentalidade pela educação, pelos rituais, pela cultura, pelas histórias. Não se trataria apenas de um problema de sobrevivência, seguir-se-ia um problema de vivência... ou seja, que objectivos de vida manteriam um funcionamento regular da sociedade?  Sob esse aspecto, a manutenção dos inimigos tribais, como na Nova Guiné, reteria um foco de atenção para a vivência... parece ter sido essa a solução encontrada, durante inúmeras gerações.
No Taiti, ilha cuja descoberta deve remontar a Pedro Fernandes Queirós[**], ocorreu a famosa história da revolta da Bounty. Alguns marinheiros amotinaram-se, querendo viver em tal paraíso, ofereceram armas para o desequilíbrio de forças, em favor de um rei, Pomare I, que assegurou o controlo total da ilha entre 1788 e 1791. O capitão Bligh retornou, e perante a ameaça externa o rei entregou os amotinados que lhe tinham fornecido o poder. O Taiti entraria em contacto com os ocidentais como reino unificado, mas em 1842 os franceses usariam as famílias dos rivais depostos para impor um protectorado francês contra a rainha Pomare IV, e ainda hoje o Taiti faz parte da França (... o país modelo da liberdade dos povos, que nunca abdicou das suas colónias, sem deixar de acusar os outros de colonialismo).
Sim, é verdade que falta a folha com as páginas 110 e 111, mas o 
borrão consegue fazer ler o nome de Pedro Fernandes Queirós
(... foi pior a emenda que o soneto!)

Ainda sobre o Taiti, o mesmo livro "O Viajante Universal" refere a particularidade de na viagem de Wallis ter sido reportado haver habitantes "ruivos", e Bougainville, chegando no ano seguinte, refere o uso de conchas como castanholas, e de pérolas como o único meio de moeda de troca. 
O Taiti afinal tanto tempo incógnito é abordado por Wallis, Bougainville e Cook em 1767, 1768 e 1769.
Os espanhóis cruzariam o Pacífico durante 250 anos, e afinal parecia difícil era não passar pelo Taiti.
A viagem de Cook tem um propósito científico - o trânsito de Vénus em Junho de 1769.
O mítico nascimento de Vénus, como pérola saída de uma concha
... parece "maluquice" uma mulher sair de uma concha, mas isso depende do tamanho da concha:
Segundo o National Geographic as conchas da 
zona do Recife Australiano podem atingir... 1m 20cm.
Com essa dimensão, poderiam bem albergar uma criança!

Portanto, afinal a ideia de uma criança poder sair de uma concha, faz sentido na zona das Ilhas Malucas, nos Mares Austrais... e as pérolas, as pérolas saem de "Ostras", ou será preciso "ostracizar" para dizer que saem de "Austras"?
Quanto às pérolas taitianas podem ser "pérolas negras", e como dissémos, serviam de moeda. 
Desde os primeiros registos civilizacionais que foi dada grande importância às pérolas, antes mesmo de pedras preciosas, porque saíam naturalmente brilhantes da "ostra". 
Sumérios, chineses, egípcios, japoneses, gregos, romanos, etc... todos tinham os seus pescadores de pérolas... os hindus afirmariam que teria sido Krishna a criar a primeira. Diferentes culturas, algumas que pouco teriam de marítimas, teriam os seus mergulhadores especializados em suster respiração e encontrar pérolas nas ostras. A maior pérola é disforme e ostenta o nome de Lao Tzé. Cleópatra dissolveu uma pérola para mostrar a Marco António que poderia ter uma refeição mais cara que o orçamento de uma cidade, e outras pérolas como "La Peregrina" têm histórias de 500 anos.

Se há local que tipicamente se prestava a uma população marítima vocacionada para apanhar as primeiras pérolas terá sido a Oceania. Bom, e agora vamos regressar ao mapa do logotipo:
O que tem de especial, de novo, este mapa?
Não é o que tem... é o que falta.
O último registo marcado a Oriente... é a Nova Guiné!
Os mapas começam a ser modificados, e são sucessivamente inventados contornos alternativos...
A Nova Guiné vai ficar incompleta, a Austrália não vai aparecer, o mundo fica suspenso até Cook.
Timidamente serão marcadas as Ilhas Salomão (o nome parece simbólico), ao lado da Nova Guiné, e os holandeses vão arriscar entrar pela Austrália até ao limite definido pelo meridiano português de Tordesilhas (convém reparar que os holandeses se especializaram mais no hemisfério português).

A pérola com o nome "La Peregrina" leva-nos à continuação!
Qual era a rota de peregrinação típica durante quase toda a Idade Média?
Havia a cruzada a Jerusalém, a via Francigena, que levava a Roma... mas curiosamente a peregrinação mais importante, era a de Santiago de Compostela:
Caminhos europeus de Santiago de Compostela
"Estrada de Santiago"... a Via Láctea 
A vieira indicando o Caminho de Santiago.

O que fazia tantos peregrinos europeus seguirem a rota do Apóstolo Santo Iago?
É claro que havia todo o factor religioso, mas nem sequer podemos considerar que se tratasse de uma figura crucial no cristianismo, e mesmo a lenda envolvendo a sua presença na Galiza seria muito controversa.
Acresce que a Estrada de Santiago nem acabaria ali... muitos seguiam o caminho até Finisterra!
Finisterra, onde seria o ponto mais ocidental (por erro, já que era o Cabo Magno), e constando que as rotas eram mais ancestrais, remetem-nos para uma tradição celta, associada a quê?
- À Vieira... que se diz também "venera", ou seja, a uma Vénus, saída da concha!

É claro que a vieira foi tida como símbolo do peregrino pela sua eventual utilidade para beber água, tal como a cabaça... mas sobre a cabaça evitarei falar. Apenas direi que se a concha tinha este lado feminino, a cabaça, um dos primeiros alvos de agricultura, poderia encerrar um aspecto masculino... que se resume no contexto da Oceania à palavra koteka, porque as coisas são como são, e o resto são preconceitos induzidos pelos xamãs da nossa cultura. É assumido que os cultos de fertilidade foram primevos.
Bom, e se as taitianas usavam conchas, a migração cigana da Índia até à Andaluzia popularizou as castanholas
... que têm origem reportada aos fenícios, afinal a civilização que se baseou num domínio marítimo, desde o Mediterrâneo até ao Atlântico. Seriam os fenícios a definir o alfabeto que dominaria o mundo das línguas indo-europeias, e não só.

Compostela poderia aparecer no contexto de peregrinação marítima como uma rota que terminava num grande lago proibido à navegação, seria um "santo lago" que se ligava a "Santo Iago", tal como alguns cultos de Santo Antão estão claramente ligados às Antas. Curiosamente a outra Santiago, do Chile, foi repousar à beira de um lago ainda maior, o oceano Pacífico. Com o decorrer das descobertas, o caminho estava aberto para o lago atlântico, e a contra-reforma terminou a harmonia católica - o caminho de Santiago deixou de ser popular durante os quase cinco séculos seguintes, tendo apenas sido reavivado recentemente.

Objectivamente, o que se pode reter daqui?
Muito pouco, grande parte do texto pode ser considerado especulativo e arbitrário nas associações.
Afinal, se Vénus é Venera, daí tanto vem a palavra "venerar" como a palavra "venérea". 
Se um Puto é um pequeno anjo, associável a Cupido, para fazermos o feminino associado à mãe Vénus, devemos recorrer ao filme japonês LaPuta: Castle in the Sky, em que o nome Laputa se refere a uma cidade nos céus, na obra Gulliver de Jonathan Swift.
Os xamãs guardaram os métodos e as conchinhas, os cravos e as pimentas, e no seu percurso peregrino fizeram as naves subir aos céus, até que reencontraram o simbolismo perdido. Superada a prova, passaram a magos que bebem chá... os problemas são os mesmos, e os métodos pouco diferentes.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Encoberto (22/12/2009)

Depois do "Colombo", coloco aqui o quarto texto da série "Tese de Alvor-Silves", sob o título "Encoberto", conforme foi escrito há três anos. Creio que esta foi a primeira versão lançada em 22/12/2009, mas depois fiz algumas alterações e acabei por concatená-lo com o texto seguinte (denominado "Adamastor"), para suprimir as muitas opinações fruto do estilo que ia assumindo. Com a supressão do Knol, muitas das imagens já nem tinham ligação, e tive que recuperá-las em ficheiros gravados. Ao procurar nos ficheiros antigos, fui recuperando muitas coisas que escrevi e que deixei para trás. A mais interessante é a do mapa de Jorge Aguiar, que vou aqui colocar em breve.

Neste texto há dois detalhes sem grande importância, mas que quero referir, pois envolvem o programa de José Hermano Saraiva, que ainda passava na RTP-2. Foi nesta altura que o vi colocar a interrogação sobre a ideia do Infante D. Henrique no desembarque em Ceuta para um ataque terrestre a Tanger. Essa lenta progressão terrestre tinha sido a principal causa do desastre militar, que veio a sacrificar o Infante D. Fernando, que era quem comandava o ataque naval e não estava em perigo...
- Nessa altura estava bastante convencido (como é visível) de uma oposição política sobre a direcção das descobertas... de um lado o Ocidente oferecia-se a uma colonização, aparentemente mais pacífica, e pelo lado Oriental esperavam-se sangrentas batalhas, para a reconquista de Jerusalém (projecto antigo dos Templários, herdado na Ordem de Cristo). Este ideal da reconquista de Jerusalém prosseguia da Idade Média, passados vários séculos sobre a recuperação liderada por Saladino. Feito o Índico um mar cristão, abriria uma frente de ataque - pela rectaguarda, para entrada pelo Mar Vermelho e reconquista da Terra Santa. Tal plano seria seguido por D. Manuel, e executado admiravelmente por Afonso de Albuquerque, até à sua deposição. Nesta hipótese, a linha de acção da Casa de Viseu, iniciada pelo Infante D. Henrique, concretizada por D. Manuel, seria essa - a da cruzada templária a oriente. Por outro lado, a linha da Casa de Coimbra, iniciada pelo Infante D. Pedro, seria (por hipótese aqui colocada) a oposta... seria a de uma expansão colonial e comercial a Ocidente. A Casa de Coimbra tem o seu principal protagonista em D. João II, e a prova objectiva do seu interesse a Ocidente será o Brasil marcado em Tordesilhas. Preterido D. Jorge a D. Manuel na sucessão de D. João II, a sua Casa de Coimbra vê-se forçada a mudar de nome para Aveiro, e os partidários desse projecto de D. João II, ao governarem a Índia, vão esquecendo o objectivo de cruzada. Finalmente, a Casa de Bragança aparecia na sombra, tal como em Alfarrobeira, claramente opositora de Coimbra, representaria essencialmente a oposição a qualquer iniciativa, manobrando nos bastidores da corte. Acabará tanto por convidar a entrada de Filipe II como ser catapultada para o derrube de Filipe IV.
A ideia de que o Infante D. Henrique estaria mais motivado pela cruzada, do que pelas descobertas, ficou mais consolidada naquele programa, pela questão levantada por José Hermano Saraiva.
- O outro detalhe, ocorreu poucas semanas depois. Tendo mencionado o antigo relógio nas Caldas da Rainha, vi outro programa de José Hermano Saraiva que invocava um ainda mais antigo relógio de Serpa, e apesar deste estar datado de 1440, creio que ele o dava como mais antigo. Apresentava ainda, como curiosidade do Museu de Serpa, um relógio de navegação que, ao seu estilo, avisava ser francês... como se avisasse que tal prodígio não era suposto constar das nossas navegações.

Por outro lado, relendo o texto, devo avisar que a minha suspeita da utilização de um sistema de coordenadas local, zenital, baseado nas direcções que partiam das rosas-dos-ventos, e outros centros, se revelou à época menos promissora do que aparentava... verdade seja dita que também não tive vontade de inspeccionar mais. Ou seja, na altura, pareceu-me estranho que se desenhassem cartas mais imprecisas nos anos seguintes às descobertas, para além de muitas marcações, que estavam claramente erradas. Poderia ser só para despiste, mas tal como virando o Reinel se descobre em África um contorno Mexicano, pareceu-me ser natural que os mapas tivessem outros segredos. A pista de Pedro Nunes seria fundada no modo mais prático de navegação, ou seja seguindo as direcções locais que convinham aos "mareantes" pela sua posição. Poderia ser que escondessem num contorno impreciso do continente europeu, um contorno preciso de outras paragens... Mas a inspecção disso não é fácil, porque não é possível saber o que pretendiam representar, nem há mapas suficientes para o confirmar.
Já coloquei aqui a análise da Carta do Atlântico Norte para dar uma ideia do tipo de coisas que se podem procurar, mas terá pouco valor objectivo... a menos que seja para rebater interpretações mais mirabolantes feitas com outros mapas, nomeadamente o de Piri Reis.

O globo de João de Lisboa (que nos serve aqui de logotipo) é um claro exemplo de uso de coordenadas polares - com um só pólo, o pólo norte:
e já aqui fiz a conversão para aparecer como um planisfério típico:
Para que se perceba o trabalho envolvido nestas coisas, tive que assinalar manualmente cada pontinho na carta, para depois programar automaticamente a conversão que se vê.

Se aceitarmos que se trata de um mapa de 1514 e não uma adição feita até 1560 ao seu Tratado (cf. Cortesão), e já apresentámos várias provas, dará uma ideia parcial do que se sabia 5 anos antes da circum-navegação de Magalhães.

Depois, é claro, estas coisas são esquecidas, e como sabemos que não temos capacidade para coisas complicadas, aparece, passados 134 anos, em 1648, um francês de nome Louis de Mayerene Turquet, com a mesma representação centrada no pólo norte, reclamando a sua autoria:
La Nouvelle maniere de representer le Globe terrestre
... inventée par Louis de Mayerene Turquet 
(1648)

Repare-se que muito provavelmente Turquet não sabia da existência do mapa de João de Lisboa, tal como hoje a maioria dos estudos em cartografia que vemos parecem ignorar olimpicamente a maioria dos mapas constantes na Portugallia Monumenta Cartographica, lançada há mais de 50 anos... enfim, também parece que está esgotada.

Segue o texto, que me recorda o também o dia em que o contador do Knol "decidiu parar", e a que se devem dar os devidos descontos de entusiasmo, de quem tinha acabado de cair "na real":



sábado, 29 de dezembro de 2012

Colombo (17/12/2009)

Não me interessa especialmente a pessoa de Colombo, interessa-me mais a personagem. Por isso, é para mim razoavelmente secundário saber onde nasceu, ou a sua filiação biológica. 
"Personagem" hoje tem significado diferente de "pessoa", mas ambas derivam de "persona", que deve decompor-se em "per-sona", no sentido "per"-através, e "sona"-soa... ou seja, que o som vem através de si. É hoje algo estranho associar uma pessoa apenas como veículo de emissão de som, é mais apropriado à figura auxiliar de uma personagem, de um actor.
Uma personagem pode ser interpretada por vários actores, várias pessoas.
Na minha opinião Colombo foi personagem, pouco escreveu no guião que o viria a tornar famoso. A personagem poderia ter tido outro actor, e a as particularidades da pessoa de Colombo têm só interesse para compreender por que razão se tornou "o escolhido".

Recupero aqui o texto com o título "Colombo", que publiquei no Knol em 17 de Dezembro de 2009, e que entretanto desapareceu, devido ao cancelamento do projecto Knol da Google. Aliás, já antes o tinha cancelado, e por isso, a reclusão deste texto foi mais resultado de auto-censura induzida à época.
Ora, apesar de poder justificar as razões que levaram à reclusão de alguns textos, acabo por notar que fazem falta... Fazem falta porque permitem comparar uma opinião "mais entusiasmada" à época, com a distância que o tempo deixou correr. Para além disso, fazem parte da história deste blog, e seria algo contraditório criticar a supressão histórica e fazer o mesmo aqui...
Nem é que tenha mudado de opinião, pelo contrário, relendo os textos até me surpreende nem ter mudado quase nada, simplesmente hoje não exporia assim, para não me expor...
A falta de sentido na vida de muitos, leva-os a procurar retirar sentido à dos outros. Isso é uma característica tipificada na vida de algumas alimárias, que se resume a uma competição territorial, alimentada pela sua biologia. Quando o indivíduo se julga o campeão da carica, ou similar, é a sua biologia competitiva a falar mais alto. Qual o sentido dessa biologia competitiva? - Não é a preservação do indivíduo, porque esse é condenado à morte pela própria biologia celular (nem as bactérias são imortais). Será o apuramento da espécie? - Até que ponto, até que só restasse uma? - Para quê? - Será que se pensa que o universo é uma entidade masoquista que vai criar uma espécie que o dominaria (como se tal fosse possível...), ou será que se pensa que é uma entidade sádica que visa aniquilar as espécies menos aptas? Já sei que nem se pensa uma coisa, nem outra, agora é moda pensar que é tudo fruto do "acaso". O "acaso", tal como Deus, é tido como uma entidade supra-universal, condicionaria o universo, mas não faz parte dele, contrariando a própria definição de universo - que engloba tudo. Não sei se a epistemologia moderna se esqueceu deste "detalhe" de contradição lógica, ou quer fazê-lo passar por esquecido, mas tem feito Escola, e que Escola!
O que me parece evidente é que a humanidade se entretém em criar objectivos num universo artificial, construído por si própria, a que chama "sociedade", e que sob o ponto de vista da competição genética, terá tanto sentido quanto as cortes sexuais feitas pelos pavões - sem dúvida que há muito pavonear digno de admiração.

Bom, como isto já parecerá pavonear filosófico, segue o texto:



terça-feira, 6 de março de 2012

Nuno Gonçalves (14/12/2009)


Nuno Gonçalves
Painéis de S. Vicente de Fora

O que está representado nos Painéis de S. Vicente de Fora? 
Um longo instantâneo da família Avis, na sua interpretação em 1491-92.
Tese de ALVOR SILVES
14 de Dezembro de 2009

A época



Para compreender os painéis de Nuno Gonçalves é preciso perceber o que faz sentido e o que não faz...
Comecemos pelo 3º painel, dito Painel do Infante.

  • (i) O Infante D. Henrique está representado... isto é basicamente indiscutível, dada a imagem semelhante que existe nas Crónicas dos Feitos de Guiné de Zurara. 

Dado que na imagem das Crónicas o Infante tem um aspecto ligeiramente mais jovem, é de admitir que no mínimo, este quadro seja posterior ao das Crónicas, posterior a 1453. Isso exclui teses mais estranhas, que colocam esta pintura nos anos de 1440-50. É de notar que se o nome de Nuno Gonçalves aparece como pintor da corte em 1463, será difícil conceber que o tenha feito antes. E se não foi Nuno Gonçalves, então será preciso justificar outro autor...

Por outro lado, o quadro deverá ser anterior a 1492, pois Nuno Gonçalves terá desaparecido nessa altura. Surge uma hipótese habitual e que faz sentido ~ entre 1470-80 ~ mas então é preciso admitir que o Infante D. Henrique já está morto. Haverá maneira de ver isso?

  • (ii)  O Infante D. Henrique, tal como outros personagens no quadro, têm as mãos unidas. Típico sinal de falecimento, não será?
  • (iii) Assim, será ainda possível associar o Infante D. Pedro à figura (muito semelhante ao seu retrato mais jovem) que surge em primeiro plano no 5º painel, dito dos Cavaleiros.
Mas agora, reparemos noutro detalhe importante:

  • (iv) À excepção de um, no 5º painel (do qual não se vêem as mãos), todos os personagens sem as mãos unidas têm a barba cortada... nota-se aliás que há quem a use e a tenha mal feita.

Há algum facto de tal forma marcante, em que todas as pessoas do reino tenham feito a barba? 
Sim, ocorreu em 1491... foi a morte do herdeiro - o príncipe Afonso, filho de D. João II.

Estamos no limite atribuível a Nuno Gonçalves... talvez exactamente por razão deste quadro!

Este quadro terá sido encomendado por D. João II, para promover a sucessão de Dom Jorge, seu filho "bastardo", e ao mesmo tempo prestar homenagem ao filho morto... que não aparece no quadro.
Como a sucessão se deu pela linha oposta, ou seja, por D. Manuel, é natural que o quadro tenha sido escondido durante séculos!
Nada é acidental... nem a consequente morte de D. João II, escolhida para Alvor, nem o repouso em Silves, antes de seguir para o Mosteiro da Batalha. 
O clima fúnebre e sinistro do quadro, mantém-se hoje... 



Tese de Alvor Silves

Este quadro será um instantâneo único, de todo um processo que levou à morte de D. João II em Alvor, fora da corte, quase isolado. Esse desfecho até já se antevê no magnífico quadro!

Painel real (o terceiro)

Fará tudo o resto sentido, com base nesta hipótese?

  • (v) O rei ajoelhado no 3º painel é D. João II, aos 36 anos. A criança é D. Jorge, com 10 anos. Não está ao lado da Rainha, está na sucessão do pai, na linha do "navegador" D. Henrique.
  • (vi) Quem são as duas figuras femininas poderosas, que aparecem nesse 3º painel?
    A mais velha e também a mais poderosa, será Dona Beatriz de Viseu (com 61 anos), mãe da Rainha D. Leonor (com 33 anos), que se encontra ajoelhada, do outro lado do Rei. Ambas as figuras fazem jus a outros retratos contemporâneos. Haverá outras duas figuras femininas, mais marcantes, à época dos descobrimentos?
Todos estes protagonistas estão vivos, e sem dizer nada, dizem-nos muito!
Nuno Gonçalves capta a alma de forma muito sublime.
Nesse 3º painel, dito do Infante, falta apenas falar de uma figura que tem algum destaque, mas que está na sombra dos acontecimentos... com as mãos unidas, está morto. Poderia estar no 2º painel, mas não será acidental o espaço que surge entre o personagem que se ajoelha por terra, em sinal de penitência, e a personagem seguinte... trata-se de Dom Afonso, 1º Duque de Bragança. Aparece ao lado do meio-irmão, Henrique, em aparente oposição, e mais acima! 
O Infante Dom Pedro não poderia estar neste painel. Surge inequivocamente no plano do seu neto, o Rei D. João II, mas noutro painel, no 5º painel. 
A Batalha de Alfarrobeira nunca desaparecerá do futuro português.

Outros painéis

A partir daqui, não será tão fácil, mas é ainda assim possível encontrar uma linha de raciocínio consistente.
  • (vii) No 1º painel (dito dos frades), estão por ordem de sucessão os reis de Avis, anteriores a Dom João II. Ou seja, primeiro D. João I (mãos juntas, morto), depois D. Duarte (dá indicação das mãos juntas, morto), depois D. Afonso V (mãos juntas, morto). As figuras dos três estão dentro das descrições ou outras imagens que temos deles. Este será o Painel dos Reis... ou da Ordem de Avis, já que é natural que a sua representação invoque a sucessão de Avis pelo lado religioso. Dessa forma se justifica o aparecimento em bastidores de outros protagonistas de menor relevo, ligado ao seu papel enquanto mestres da ordem.
  • (viii) No 2º painel (dito dos pescadores), está a descendência pelo lado de Nun'Álvares Pereira. Será ele o protagonista, em penitência, com as mãos juntas (morreu bastante velho). Há um espaço em branco, de onde terá saído o sucessor genro, o Duque de Bragança, que passou para o 3º painel, por razões já explicadas (parcialmente). Por isso, a seguir aparece uma figura dúbia, representando uma neta. Poderá ser uma representação dupla, invocando a mãe de Dona Beatriz de Viseu, pois assim aparece ao lado da filha (no painel seguinte). Mas também, invocando a irmã, mãe da Rainha Isabel de Castela, a Católica. Parecerá um pescador?
  • (ix) É natural que essa importante figura do 2º painel se pareça com um pescador. Tem a rede, onde foi colocado o corpo do príncipe morto, e daí ter surgido o símbolo do camaroeiro da Rainha D. Leonor. A rede é uma rede política, muito complexa, que herdámos. D. João II olha de frente, nessa direcção da sogra, herdeira das irmãs Bragança, pela sua cumplicidade com a sobrinha, Rainha de Espanha. Procurará apontar aí as culpas desse destino do filho? É muito provável. Não tenho ainda dados suficientes consistentes, para alvitrar o personagem que se encontra ao seu lado... Com a herança deixada por este painel, torna-se clara a posição de grande penitência em que se encontra Nun'Álvares.
  • (x) No 4º painel (dito do Arcebispo), em primeiro plano surge uma corda. Representa, como habitual as navegações. Por razões, que mais tarde explicarei, deverá representar Gama, o escolhido pelo Santo, através de D. João II, para anunciar a Índia. Do outro lado, deverá ser Diogo Cão, que será preterido na escolha. Neste é momento, apenas posso conjecturar que colocado em posição semelhante à da mãe, surja D. Diogo, o duque de Viseu, com as mãos juntas, morto pelo rei. Para os outros dois há, entre os navegadores, demasiadas hipóteses. Em cima, aparece um Cardeal ou Arcebispo, morto, poderá ser D. Pedro de Noronha (mas não é de excluir a hipótese de ser Jorge da Costa, morto para D. João II, exilado em Roma). Os bispos podem ser os próximos de D. João II, o de Coimbra, de Tanger e do Algarve, e depois o prior do Crato.
  • (xi) No 5º painel (dito dos Cavaleiros), aparece em destaque o Infante Dom Pedro, o avô materno que foi grande inspirador de D. João II, morto pelo seu pai em Alfarrobeira. Depois deveria aparecer outro infante, o Infante Dom João, mas devendo estar morto, talvez as luvas verdes permitam uma excepção simbólica... permitindo ainda incluir o Infante posterior, o pai da Rainha Dona Leonor, Dom Fernando de Viseu, também morto, e no seguimento desta sucessão aparece o filho D. Manuel, irmão da Rainha e pretendente à sucessão. Por outro lado, seguindo a linha dos primeiros Infantes, mais acima confirma-se dever ser o Infante Santo, morto, e as suas mãos nem são vistas, indicando talvez que não teve o repouso de morte digna. 
  • (xii) No 6º painel (dito da Relíquia), devem estar representados em destaque os dois sábios em que mais confiava D. João II. O físico-mor Mestre Rodrigo (de Lucena) e o matemático Mestre Josepe (José Vizinho, de origem judaica). O mais velho, parece ser alguém representando o conhecimento popular, que não frequenta a corte, e por isso está curvo, tal como dois navegadores no 4º painel. A relíquia, o osso craniano, pode ser uma alusão ao defunto Afonso, indicando a fractura da futura cabeça do reino. Falta a relíquia - o cérebro, para ler tudo o que o painel representa. Falta ainda o cérebro para prosseguir a herança do conhecimento de Avis - é essa a relíquia que o Mestre Rodrigo nos mostra.

A representação dos diversos estratos sociais não é errada. Foram todos habilmente vestidos para que os painéis permitam ainda essa interpretação imediata. O 1º, 3º e 5º painéis representam protagonistas de realeza, contendo figuras de infantes e reis, são os painéis ímpares. Os outros, painéis pares, representam de alguma forma personagens igualmente fulcrais, mas que não tinham ascendência directa na realeza.

O impacto deste retrato de família, promovendo como herdeiro Dom Jorge, para além dos outros detalhes referidos, deve ter sido devastador na facção já dominante na corte, que pretendia ver apenas como solução de sucessão Dom Manuel. Essa sucessão foi mesmo inserida como condição no Tratado de Tordesilhas. Não admira o desaparecimento do pintor, depois do quadro, e finalmente o envenenamento do Rei (bem enfatizado por Garcia de Resende, dadas as circunstâncias...) que ainda assim demorou mais tempo a morrer.



Detalhes



A dualidade Poente-Nascente

Nuno Gonçalves, é um ímpar entre ímpares... e este quadro poderá ter influenciado a "última ceia" de Leonardo da Vinci, que aparecerá poucos anos depois. Estranho?

Os painéis exploram uma dualidade esquerda-direita, i.e. poente-nascente, ou ainda ocidente-oriente!
O mesmo santo, S. Vicente, apareceria ora virado para ocidente, ora virado para oriente!
Mesmo se S. Vicente estiver de fora... será irrelevante, pois o nome tanto poderá resultar de terem ocultado os painéis, como pode ser o nome original, e querer indicar que há dois santos.
Havendo dois santos é natural que possam representar uma dualidade entre São Tiago e São Tomé, ou ainda entre São Jorge e São Bartolomeu... aqui há demasiadas hipóteses!

De facto, não é acidentalmente que há personagens virados para ocidente e outros virados para oriente. E isto não tem a ver com aspectos que promovam a centralidade do quadro... o Infante Santo é o mais claro, e a sua direcção oriental desfavorece essa centralidade:
  • Ocidente - é o lado de D. João II, e do Infante Dom Pedro, e por agora ficamos por aqui...
  • Oriente - é o lado dos que se lhe opuseram, é o lado da gloriosa cruzada contra os infiéis a Oriente, é o lado da guerra na Índia. Será o lado de S. Bartolomeu... ou será coincidência que o nome de quem "dobra" o cabo da Boa Esperança é o - até então - anónimo Bartolomeu Dias... ou será melhor escrever mesmo:
    DIA S   BARTOLOMEU

    e será preciso dizer que o DIA S. BARTOLOMEU se torna um dia repetidamente importante?  Será preciso dizer que S. Bartolomeu é suposto ter pregado o cristianismo na Índia? Será preciso dizer que a tomada de Arzila, crucial para os preparativos da Cruzada, se deu no Dia de S. Bartolomeu? Já não falo do Massacre de S. Bartolomeu, em França... porque isso faz parte de capítulos seguintes. Claro que deve ter havido alguém encontrado, que foi assim rebaptizado, mas isso não foi feito com o devido profissionalismo, e deixou estas dúvidas.

Os painéis exploram assim a ideia de reflexão num espelho, e essa reflexão faz parte da Relíquia do conhecimento nesta obra... mas há um desequilíbrio propositado, tal como na "Última Ceia" de Leonardo de Vinci. Há uma força que se vira para Oriente que é maior do que a força virada a Ocidente. Dada a importância de Portugal à época, enquanto grande potência, convém notar que o problema português está colocado num tabuleiro muito maior. 
Na "Última Ceia", Da Vinci coloca obviamente um só Cristo, que se vira a Oriente, e coloca mais vida numa representação de Andrea del Castagno (... época da morte do Infante Dom Pedro). Em Da Vinci, a centralidade da coluna, atrás no horizonte, é deslocada e Cristo, ao centro, vira-se para o lado que irá dominar, o lado Oriental-Nascente. - É o lado da Cruzada, dos sacrifícios de guerra por Cristo, é o lado da Ordem de Cristo, e tem 8 elementos (inclusivé Cristo). Virado a Poente está João, o lado Evangelista, ao lado de Cristo, mas caído (1495: data atribuída ao início do quadro, morte de João II). Há apenas 5 elementos virados a ocidente, que ou protestam/ou se resignam a mais esta decisão de Cristo. Podem parecer forçadas as comparações, para um posicionamento de reinos e não de figuras nacionais, e por isso não adiantarei mais... já que não me parecem acidentais todas as relações que aparecem na tese do "Código da Vinci", similares nas conexões, mas diferentes no moto e na essência!

Leonor

Acerca de Camões, faltará dizer muito, e não é para já... mas não posso deixar de incluir aqui a descrição que ele faz de Leonor - se o leitor quiser fazer o esforço de se libertar de condicionantes culturais.... deveremos ver Leonor como uma camponesa dos "amores mundanos" de Camões?




À esquerda, a loura e alva Princesa Perfeitíssima, Leonor
Em baixo, o poema de Luís Vaz de Camões

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Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura
Vai fermosa e não segura
Leva na cabeça o pote
O testo nas mãos de prata
Cinta de fina escarlata
Sainho de chamelote
Traz a vasquinha de cote
Mais branca que a neve pura
Vai fermosa e não segura
Descobre a touca a garganta
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado
Tão linda que o mundo espanta
Chove nela graça tanta
Que dá graça à fermosura
Vai fermosa e não segura

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Talvez me esteja a antecipar, Camões não será assim tão óbvio! 
Onde está a fonte? Quem está descalça? Onde está a verdura?.... 

Optar por entender que é Leonor que vai descalça para a fonte... é opção do leitor/comentador.
Retirei as pontuações, pois não tenho acesso ao original. Alguém terá? Fica a cargo do leitor decidir.