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domingo, 23 de junho de 2013

Pontas da língua

Ao analisar um mapa da distribuição das linguagens no mundo, somos confrontados com um misto de diversidade e homogeneidade.
Na wikipedia é apresentado um tal mapa, devendo dar-se o desconto na colonização europeia da América e da Austrália, na parte Boer da África do Sul, ou na penetração russa até Vladivostok. Tudo isso aumenta a dimensão das línguas europeias, neste caso indo-europeias (marcadas a azul escuro):

Em muitos aspectos este mapa "bate certo" com a distribuição genética dos haplogrupos.
Esta é uma dificuldade maior para quem pretender considerar uma influência e domínio à escala mundial, desde os tempos primitivos. 
Não há interesse nenhum em secundarizar o problema... para entender várias coisas há que tratar com o problema com os dados fornecidos. Não apenas com estes, mas também os registos escritos e com os legados arqueológicos - artefactos e monumentos que sobraram...
É claro que muitos destes estudos pretendem ser mais do que são, e há claros problemas.

Um desses problemas são os índios americanos: Ojibwe, Chippewa, Seminole, Sioux, Cherokee, Algonquian, Papago, todos eles com percentagens de haplogrupo R superiores a 40%, pelo que ficariam melhor na Europa Ocidental do que na costa atlântica americana. Percentagens superiores ao Norte de África também se vêem entre os Maias e Cheyenes.
O caso dos Ojibwe parece exemplificativo pois os valores atingem 80%, ficando quase ao nível dos Bascos,  Galegos, Bretões, Galeses, ou Irlandeses. Uma fotografia dos Ojibwe feita no Séc. XIX dá-nos uma ideia do que se fala:
Olhando bem para o rosto do personagem central na fotografia, ou até para todos, podemos perguntar - "por que razão os disfarçaram de índios?"... e isto acontece sistematicamente com muitos "índios".
Aliás, chamar "peles vermelhas" aos índios é quase paródia, quando vemos muitos europeus na praia, que são autênticas lagostas...
Portanto, trata-se daquela situação em que é complicado perceber se houve alguma migração europeia, ou simplesmente alguns navegadores ou colonos que foram acolhidos entre os índios americanos. Como a população índia também se foi integrando nas sociedades americanas, estes estudos acabam por ter sempre um número reduzido de indivíduos.

A linguagem desempenha aqui um papel mais complicado. Nas linguagens ameríndias não parece haver grande traço de palavras indo-europeias... ou seja, se houve integração parece algo estranho não ter sido influenciada por algumas palavras dos novos elementos. Só que aí surge a subjectividade do estudo, em que normalmente uma semelhança de palavras europeias seria entendido como resultado do posterior contacto.
Depois, se houve algum traço escrito, também se perdeu... ou seja, tudo aparenta remeter para tempos muito antigos.
 
Inscrições índias na zona dos Grandes Lagos. 
À esquerda podemos ver o que pode ser uma canoa, duas serpentes, 
e um grande "bicho" com escamas - convém não esquecer que os dinossauros estavam extintos!

Ou seja, não temos culturas índias a escrever caracteres latinos, nem a dançar o vira, nem o fandango... pelo menos dos que restaram. Se houve desses, e muito naturalmente deveria ter havido, perdeu-se-lhes o rasto... e alinharam todos na dança-da-chuva.
Consta ainda que estas tribos dos Grandes Lagos teriam vivido no Atlântico até ao Séc. X, tendo depois sido aconselhadas por "sete magos" a sairem do Atlântico e seguir uma concha para oeste, até ao lagos.

Trata-se de um registo comum, quer na América, quer na África Atlântica... não houve propriamente muitos europeus a serem recebidos por índios em canoas, ou de haver índios sediados em povoações costeiras. Ficou a ideia de que estavam escondidos no interior, na floresta... algo diferente do que se veria nas ilhas do Pacífico. Os Incas tinham a cidade de Tumbés no Pacífico, enquanto que os Aztecas, Maias, etc... pareciam não ter nenhuma cidade costeira. Na África do Índico havia várias cidades costeiras, ao passo que na África Atlântica parece que não se passava nada!
O Atlântico sempre foi um oceano complicado...

Em 1889, durante uma escavação num monte fúnebre no Tennessee foi encontrada uma pedra com inscrições que pareciam ser fenícias:

Quem a encontrou, classificou "sabiamente" a inscrição como tendo sido feita pelos Cherokee, e o facto passou despercebido, entrou na literatura, até que passados quase 100 anos a polémica surgiu, notando que seria escrita fenícia ou proto-hebraica.
O mais engraçado é que a maneira de varrer o problema como falsificação antiga é curiosa.
A ideia é que haveria uma inscrição semelhante, paleo-hebraica, num livro maçon à época:
Portanto, concluiu-se, foi uma brincadeira, feita pelo responsável do Smithsonian a C. Thomas, que conduzia a escavação. Porquê? Porque Thomas queria encontrar registos Cherokee, e à falta de melhor, o outro teria copiado umas letras do seu livro maçon, para o deixar contente. O homem ficou contente e isso é que interessa, durante quase 80 anos ninguém notou. Assim funcionaria o Smithsonian...
Esta paródia justificativa, saída da imaginação de dois arqueólogos operacionais, conseguiu que a pedra esteja classificada como "falsificação".

Como é óbvio o que vai interessando é manter a versão de que antes de Colombo não se passava nada!
Poderiam usar o discurso que se ensina na Faculdade de Letras - "se Colombo foi o primeiro a fazer a viagem Atlântica até à América, como é que os fenícios ou hebreus o fizeram?".
A universidade não mudou muito desde os tempos medievais, nessa altura dir-se-ia - "se Deus fez o homem, quem pode falar em evolução?". Normalmente os que ridicularizam esta frase são os primeiros a defender a outra! Porque a única coisa que mudou foi o credo, não o método...

sábado, 29 de dezembro de 2012

Colombo (17/12/2009)

Não me interessa especialmente a pessoa de Colombo, interessa-me mais a personagem. Por isso, é para mim razoavelmente secundário saber onde nasceu, ou a sua filiação biológica. 
"Personagem" hoje tem significado diferente de "pessoa", mas ambas derivam de "persona", que deve decompor-se em "per-sona", no sentido "per"-através, e "sona"-soa... ou seja, que o som vem através de si. É hoje algo estranho associar uma pessoa apenas como veículo de emissão de som, é mais apropriado à figura auxiliar de uma personagem, de um actor.
Uma personagem pode ser interpretada por vários actores, várias pessoas.
Na minha opinião Colombo foi personagem, pouco escreveu no guião que o viria a tornar famoso. A personagem poderia ter tido outro actor, e a as particularidades da pessoa de Colombo têm só interesse para compreender por que razão se tornou "o escolhido".

Recupero aqui o texto com o título "Colombo", que publiquei no Knol em 17 de Dezembro de 2009, e que entretanto desapareceu, devido ao cancelamento do projecto Knol da Google. Aliás, já antes o tinha cancelado, e por isso, a reclusão deste texto foi mais resultado de auto-censura induzida à época.
Ora, apesar de poder justificar as razões que levaram à reclusão de alguns textos, acabo por notar que fazem falta... Fazem falta porque permitem comparar uma opinião "mais entusiasmada" à época, com a distância que o tempo deixou correr. Para além disso, fazem parte da história deste blog, e seria algo contraditório criticar a supressão histórica e fazer o mesmo aqui...
Nem é que tenha mudado de opinião, pelo contrário, relendo os textos até me surpreende nem ter mudado quase nada, simplesmente hoje não exporia assim, para não me expor...
A falta de sentido na vida de muitos, leva-os a procurar retirar sentido à dos outros. Isso é uma característica tipificada na vida de algumas alimárias, que se resume a uma competição territorial, alimentada pela sua biologia. Quando o indivíduo se julga o campeão da carica, ou similar, é a sua biologia competitiva a falar mais alto. Qual o sentido dessa biologia competitiva? - Não é a preservação do indivíduo, porque esse é condenado à morte pela própria biologia celular (nem as bactérias são imortais). Será o apuramento da espécie? - Até que ponto, até que só restasse uma? - Para quê? - Será que se pensa que o universo é uma entidade masoquista que vai criar uma espécie que o dominaria (como se tal fosse possível...), ou será que se pensa que é uma entidade sádica que visa aniquilar as espécies menos aptas? Já sei que nem se pensa uma coisa, nem outra, agora é moda pensar que é tudo fruto do "acaso". O "acaso", tal como Deus, é tido como uma entidade supra-universal, condicionaria o universo, mas não faz parte dele, contrariando a própria definição de universo - que engloba tudo. Não sei se a epistemologia moderna se esqueceu deste "detalhe" de contradição lógica, ou quer fazê-lo passar por esquecido, mas tem feito Escola, e que Escola!
O que me parece evidente é que a humanidade se entretém em criar objectivos num universo artificial, construído por si própria, a que chama "sociedade", e que sob o ponto de vista da competição genética, terá tanto sentido quanto as cortes sexuais feitas pelos pavões - sem dúvida que há muito pavonear digno de admiração.

Bom, como isto já parecerá pavonear filosófico, segue o texto:



segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A Mina e A Méjica

Neste "peça a peça" vou colocando algumas das coisas que fui vendo ao longo destes três anos, mas que aqui não escrevi, porque acabavam por ser "mais do mesmo". Mais provas, e alguma documentação, que ia sempre ao encontro da tese principal - a História ensinada é uma estória onde se esconde outra história...
Como me vou relembrando de algumas coisas, e encontrando outras novas, acaba por me parecer útil reunir os diversos elementos, que acabam por acrescentar alguns detalhes. O material é tanto que dará para encher muitos textos, mas são essencialmente muitos indícios do mesmo, e não propriamente grandes novidades.
É claro que é fácil rebater um documento isoladamente, enquanto que contra uma extensa lista de documentos e evidências, a Academia usa os expedientes habituais:
- ignora até poder, pode também falar em "algo absurdo" ou em "algo interessante" (é indiferente), mas requer mais explicações (infindáveis, ao bom estilo kafkiano), e quando, esgotando a paciência de todos, finalmente aceita... nada faz, e continua a ignorar como antes, até que venha a nova geração, e tudo se repete. Andamos nisto há séculos... podemos dizer milénios. 
Temos aqui exemplos ilustrativos.

O assunto é sobre a descoberta do Brasil, e menciono três textos.
- Uma bem conhecida carta de Mestre João Faras, um espanhol da migração judaica, ao serviço do Rei de Portugal, D. Manuel, na esquadra que colocou o carimbo de descobrimento no Brasil.
- O livro de Faustino da Fonseca, "Descobrimento do Brazil" e um texto com o mesmo nome, de Garcia Redondo, académico brasileiro, que cita e elogia Faustino. Ambos os textos são do início do Séc. XX, passaram-se 100 anos, e praticamente estão esquecidos. O texto de Garcia Redondo é mais curto, e encontra-se mais facilmente... já o de Faustino não se encontra às primeiras tentativas.

Mestre João
Sobre a carta de Mestre João, descoberta por Vernhagen no Séc. XIX, não há muito a dizer, bastaria um "sem comentários" e ler bem o que ele escreveu. Há uma página razoavelmente completa na Wikipedia, há a documentação na Torre do Tombo, e a transcrição associada:

Excerto da carta de Mestre João (Faras), onde desenha 
o Cruzeiro do Sul para orientação do pólo antártico.

O que tem a descrição de especial? Não é apresentar o Cruzeiro do Sul, pois desde as viagens aceites de Diogo Cão em 1482 seria impossível não o ver...
A maior particularidade é esta citação:
Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina.
Portanto, Mestre João, que acaba de chegar ao Brasil com Pedro Álvares Cabral, diz que aquela terra estava num mapa de Bisagudo. 
Resumindo: por acaso acabavam de descobrir o Brasil, mas tinham deixado em Portugal um mapa que já tinha desenhada aquela costa. 
Há gente que engole isto, e de facto só tem um problema de interpretação dado o significado da palavra "des-cobrir" - Cabral conseguiu "descobrir" por sorte, já o mapa de Bisagudo, esse ficou "encoberto" por azar.
Há um detalhe que ninguém parece mencionar, mas que para mim é muito importante... a Mina.
Aquilo que se torna claro é que a Mina era na América, ou antes - havia um Castelo da Mina junto aos incas, e um Forte da Mina no Benim - algo que escrevi há três anos, quando reparei no paralelismo das descrições entre as costas africana e americana.

Faustino da Fonseca e Garcia Redondo
Este episódio do mapa de Bisagudo é notado no livro 
Descoberta do Brazil, de Faustino da Fonseca.
Aliás, terá sido notado a partir do momento em que Francisco Varnhagen vai desencobrir as cartas, e há muito tínhamos referido Cândido Costa, que compilara informação no mesmo sentido. Na transição de 1900 sucedem-se os achados contraditórios, e pela não divulgação, são vários a chegar às mesmas conclusões. Uns terão ficado inconformados, outros terão-se conformado a alguma irmandade que cuida destes desvios.
Faustino da Fonseca, tentará publicar a sua compilação de factos por ocasião do 4º centenário da descoberta do Brasil, em 1900. Como ele diz, foi a popularidade do seu texto que evitou que ele ficasse completamente encoberto, e acabou por ser editado, para ser hoje convenientemente esquecido.
De acordo com a wikipedia, seria afiliado maçon, foi senador e director da Biblioteca Nacional, depois da implantação da República. Não terá sido o primeiro, nem o último director, que demonstrara antes as inconsistências na descoberta do Brasil.

Há muita informação importante no trabalho de Faustino da Fonseca, e são tantos os elementos que ele reúne que acaba por ser difícil retirar alguns do contexto.
Garcia Redondo, em palestra na Academia Brasileira, rendido à demonstração de Faustino, sintetiza assim as conclusões ("O Descobrimento do Brazil", Garcia Redondo, página 34):
  • 1436—Regista André Bianco nas suas cartas e no seu portulano as descobertas do Brazil ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sargaços.
  • 1447—Um navio parte do Porto e vae á Groelandia onde os marinheiros desembarcam.
  • 1448—Regista André Bianco nas suas cartas a existencia do Brazil á distancia precisa de 1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do Cabo Verde e o Cabo de S. Roque.
  • 1452—Diogo de Teive e seu filho João descobrem a ilha das Flores e chegam á latitude da terra do Lavrador.
  • 1472—Descobre João Vaz Corte Real a Terra de João Vaz, ou Terra Nova, ou Terra dos Bacalhaus, na America do Norte.
  • 1473-1484—Affonso Sanches descobre as Antilhas.
  • 1487—Viagem á America de Fernão Dulmo e João Affonso Estreito, acompanhados de Martim Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo que construiu e no mappa do erario real portuguez, a existencia da peninsula da Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.
  • 1492—Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14 de abril, da terra do Lavrador, por João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos.
Para quem começa a ler a documentação, como diz Garcia Redondo, o que é quase impossível é mostrar que foi Colombo o primeiro a realizar tal viagem...
O mais notável será a leitura do próprio Colombo, que vai à "Terra Firme" (Colômbia, Venezuela), para confirmar da existência das terras que el-Rei Dom João II lhe assegurava existirem, ou seja, de toda a América do Sul, em particular do Brasil, demarcado pelo afastamento do meridiano de Tordesilhas.
Conforme diz Faustino da Fonseca, não era Colombo que inovava pela ideia de circum-navegação, essa ideia era vendida a D. João II, e depois a Colombo, por Toscanelli e pela academia externa, que ignorava a extensão prática da América, bloqueadora da passagem.
Reconstrução da visão de Toscanelli (1474)
(esta ideia de Circumnavegação será adoptada depois por Colombo)

Os portugueses é que se afastavam da escolástica, e afirmavam a experiência, "a madre de todas as cousas", conforme dizia Duarte Pacheco Pereira. O relato da extensão americana, que Pacheco descreve ao delimitar correctamente pela parte portuguesa do continente americano, surpreende Humboldt, já que à época as navegações espanholas nenhuma informação traziam da ligação contínua entre a América do Norte e do Sul.

A Méjica
Garcia Redondo vai ainda juntar uma nota sobre Vespúcio, e como a América resultaria de uma manobra francesa para lembrar o seu cartógrafo Rigmann... mas nacionalidades são ali uma capa que esconde outra estrutura, em que os francos são armados em galos. Redondo refere ainda a possibilidade do nome advir de uma designação dos Índios da Nicarágua para "Terras Altas".
Já aqui abordei o tema, e não me oferecem dúvidas que o termo Américo nada tem a ver com Alberico Vespúcio, que depois passou a ser conhecido como Américo...
Notei depois outro detalhe, que aproveito para escrever agora. 
Figueiredo fazia a separação - falava "da Mérica" e nem sempre da América
Ora, entre Mérico e México, temos apenas um ligeiro desvio de "r" para "x", acresce que os espanhóis ainda escrevem alternativamente "Méjico" enfatizando o som "r" no nome.
Por outro lado, Mexica era o nome dado ao povo Azteca, e pronunciava-se Méhícá, onde o "h" pode ser substituído sem grande distorção pelo "rr" do "j" espanhol.
Ou seja, se perguntassem a um português, diria A Mérrica, um espanhol A Méjica.
As suas malaguetas, paprikas ou amrikas, seriam afinal a pimenta, cujo o prato principal seria o ouro, disfarçadamente misturado no paralelo africano da Costa da Malagueta.
Se a Mexica caíu com Cortés, o nome já em uso acabou por brindar um Alberico renomeado Américo, mantendo-se alguma fonética original.

O atlas Miller 
Já vimos como Faustino da Fonseca (1900), Garcia Redondo (1911), ambos membros da Academia das Ciências de cada país, tomaram conhecimento do assunto, moveram-se para publicar as redescobertas, pelos cargos influentes conseguiriam alguma tomada de posição institucional. Porém, isto foi antes da Primeira Guerra Mundial, depois o assunto parece ter ficado algo esquecido, ou talvez não, e houve uma Segunda Guerra Mundial, e depois um grande silêncio.
Só que este problema acaba por aparecer ciclicamente, porque as coisas não batem certo, e alguém descobre, ou porque as coisas passam de uns a outros, quanto mais não seja em conversa casual.
Chegou-me a notícia (via KT-USA) de uma tese de doutoramento polémica sobre o Atlas Miller, de Alfredo Pinheiro Marques, na Universidade de Coimbra (e que parece ser levado o autor a mover processo judicial). Incluía-se um título significativo:

  • MARQUES, Alfredo Pinheiro
    Para o Silêncio da História: Carta ao Primeiro-Ministro do Meu País, sobre a Censura e a Mentira na História de Portugal
    [For the Silence of History: a Letter to the Prime Minister of My Country, on the Censorship and Lies in the History of Portugal], Coimbra - Figueira da Foz: Edição do Autor, 1999; 235 pp., c/il.; Dep. Legal (Portugal) 139040/99, ISBN 972-97193-2-2. The book about the censorship in Portuguese historiography and commemorations, and the international scandal of the 17th International Conference on the History of Cartography, Lisbon 1997.
Apesar de ter a curiosidade inerente em ver o que é dito sobre o Atlas Miller (de que já aqui falei), o título da "Carta ao PM" é suficientemente esclarecedor. Passados 100 anos, não foi Faustino da Fonseca a ter problemas ("O escândalo dos dramas do concurso do Centenário da Índia". Lisboa, Editora Agência Universal Publ., 1898), mas aparece sempre alguém... neste caso o director do Centro de Estudos do Mar. Se Luís de Albuquerque resistiu à tentação, parece que a nova geração nem tanto...
Não tenho grandes dúvidas que há segredos na representação das cartas portuguesas, e o mais simples - que consiste em virar o portulano de Pedro Reinel, será um deles. É bem possível que Alfredo Marques tenha identificado outros e se tenha deparado com o processo kafkiano inerente (felizmente que não é dirigido contra ele). Porém, parece-me que o segredo que escapou a Alfredo Marques é que se tratam mesmo de segredos... ainda hoje.

Essa reacção da parte culta, do culto, vi em inacção e acção há três anos... nos últimos quinze dias de Dezembro de 2009, e não me surpreendeu. Já as manifestações mais ocultas, essas vieram nos quinze dias seguintes, e deram-me uma dimensão suplementar do problema... essas diabruras é bom que fiquem de onde nunca deveriam ter saído.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Grande Alca e outras extinções

Há já bastante tempo coloquei aqui um mapa datado de 1970, do Museu da Marinha, que pretendia ilustrar os descobrimentos portugueses.
Apesar do mapa dizer ser feito pelo "pessoal técnico do Museu da Marinha", não deixava de conter indicações algo enigmáticas. Uma que notei foi a presença de pinguins na Gronelândia, a que erradamente atribuí um erro de execução, e também a de cangurus na Austrália (algo que não se parece observar em nenhum mapa anterior a Cook):

Acontece que desenhar pinguins árticos num mapa de 1970 parece muito estranho, mas não o seria se fosse baseado num original, desconhecido... Porquê? Porque os últimos pinguins árticos foram mortos em 1844, perto da Islândia. Isso eu não sabia, e parece ser propositadamente pouco divulgado!
Encontrei essa informação neste blog: oeco.com.br, e daí encontrei depois a informação natural sobre as "grandes alcas" - assim se chamavam os pinguins do Ártico:
A grande alca - o pinguim ártico, extinto em 1844.

Assim, a menos que se pretenda a coincidência do erro, a ilustração do Museu da Marinha assentará num mapa que tinha esses pinguins do norte e que colocava a Terra de Corte Real sob coroa portuguesa. E como a coroa está aberta, não será provavelmente de D. Sebastião, que a veio a fechar, em sinal de independência ao poder imperial, será talvez do seu avô, D. João III. No entanto, tal como se ilustram os pinguins do norte, também aparecem desenhos de cangurus na Austrália, com uma imprecisão que até sugere autenticidade...

Sobre estes pinguins e sobre a presença portuguesa na Terra Nova e Canada, acho que é suficientemente esclarecedora a obra de Jean de Laet, "L'Histoire du Nouveau Monde...", 1640. 
Na página 33, introduz a Nova França e Terra Nova, atribuindo a descoberta da Terra Nova aos Cabotos, venezianos a serviço de Inglaterra, tal como Colombo seria genovês a serviço de Espanha.
A rivalidade Génova-Veneza, habitual na escolha dos Papas, era transportada na legalização da descoberta americana... um genovês para as Antilhas, em 1492, e um veneziano para as Satanazes - Terra Nova, em 1498. É praticamente óbvio que Génova e Veneza sabiam perfeitamente os contornos desse mundo, mas pelas suas limitações logísticas seguiam os cuidados necessários para a aceitação das descobertas - navegaram em serviço de potências externas.

No entanto, Laet não deixa de referir Gaspar Corte Real, dizendo 
"Pouco depois dos Cabotos, a saber no ano 1500, Gaspar Corterealis visita as mesmas terras a comando do rei de Portugal e as descobre pouco depois" (pág. 34). 
Algo perfeitamente justificável... D. Manuel queria definir as possessões outorgadas por Tordesilhas, e assim em 1500, dois anos depois da incursão de Caboto a norte, retira do encobrimento a Terra Nova e o Brasil. Durante um século os ingleses não mais se aventuraram aí e, até à morte de D. Manuel, ninguém reclamou a Terra Nova ou o Canadá.

Depois, Laet justifica o nome "Nova França", dizendo que se chama assim porque os franceses foram os primeiros a penetrar no meio do país, e a se estabelecer a mando do rei. Portanto, é suficientemente lúcido para não atribuir nenhum papel especial de descoberta a Jacques Cartier, que apenas ali chegou em 1535, uma quinzena de anos após a morte de D. Manuel, quase quarenta anos após Caboto.

É sempre instrutivo rever a carta "Pedro Reinel a fez", datada de 1504, mas que suspeitamos ser contemporânea ao Tratado de Tordesilhas. Para além das outras suspeitas, de representação implícita, atentemos aos nomes atribuídos à parte da carta respeitante à Terra Nova (clicar p/ aumentar):

De cima para baixo, podemos ver os nomes:

- y da fortuna,   - y da tormenta
- c do marco,     - sam joham
- sam pedro,      - y das aves
- a dos gamas,           - c de boa ventura
- y de boa ventura,    - c do marco
- y de frey luis,         - b de santa ana (?)
- y dos bacalhaos,     - b da comcepção
- c da espera,            - r das pa...
- r de sam (?)...
- c Raso
( mais em baixo: sam johã e santa cruz)







Uma boa parte destes nomes vai ser mantida na descrição de Jean de Laet, que fala no Cabo de Raz (cabo raso), na ilha das aves, na ilha dos bacalhaus, baía da concepção, na ilha de Frei Luís, e na ilha da tormenta (nome a que associava origem francesa, e de que já falámos a propósito de Melgueiro).

Os nomes portugueses ainda por lá estão: Baccalieu Island na Conception Bay (baía da Concepção), Bonavista, o Manuel's river e St. Johns, sendo o mais explícito Portugal Cove (já mencionado no Portugalliae.blogspot) que, tendo sido destruída e incendiada pelos franceses em 1696, talvez reporte a si o incidente ilustrado "na descida dos franceses à Terra Nova".

Jean de Laet dá-nos uma imagem diferente do simples aportar de Corte Real à Terra Nova. Numa citação (carta enviada a Hayklut), fala-se claramente numa seca de peixe (bacalhaus, claro) e no Cap. III, dá uma descrição dos portos que vão desde o Cabo Raso, falando nos nomes e seguindo as cartas portuguesas:
- Porto Formoso, Água Forte, Ponta do Farilhão, Iheu de Galeotas, Ponta de Ferro, Cabo de Esp(h)era,  St. Jean (São João), Baía da Concepcion, Ilha dos Bacalhaos, Cabo da Boa Vista, Ponta dos Ilhéus de Frei Luis... ilhas de S. Pierre - São Pedro, e ainda uma Ilha dos Pinguins - certamente as Grandes Alcas, que viriam a ser extintas dois séculos mais tarde.
Depois retornando ao Cabo Raso, no outro sentido, fala da Angra dos Trespassam, de um rio Chincheta, indo em direcção ao Cabo dos Bretões (Cap Breton) e passando pelo Porto dos Bascos... (o que dá uma clara ideia de que os pescadores da orla do atlântico, não apenas portugueses, mas também galegos, bascos, bretões e até irlandeses, cruzavam aqueles mares, pela abundância de peixe nos grandes bancos da Terranova).
Fala ainda claramente (pg. 40) de estabelecimentos portugueses na Ilha do Cap Breton, nomeando Ninganis ("enganos" hoje Ingonish, segundo o site dightonrock.com), que depois foi abandonado, bem como outros lugares, devido ao rigor climático. Também diz que os portugueses se tentaram estabelecer na Ilha de Sable, mas sem sucesso, como aconteceria com os franceses através do Marquês de la Roche.

Ou seja, acaba por ser através de Jean de Laet que temos o melhor panorama da presença portuguesa na Terra Nova. Sendo um relato francês, restam poucas dúvidas sobre a permanência naquelas paragens, pelo menos desde 1500 até 1696, aquando da "descida dos franceses"... 
Dada a existência de material estrangeiro atestando a presença nacional na Terra Nova e Nova Escócia (as Satanazes no mapa de Pizzigano de 1424), quanto mais não fosse pela presença para secar o bacalhau... percebe-se pouco a persistência interna em ignorar o assunto, talvez porque se tenha vergonha de assumir que a colónia foi abandonada à sua sorte.
Para além disso, existem mapas que atestam esse senhorio da Terra Nova e Lavrador ao Rei de Portugal e em particular aos Corte-Reais (cf. JM-CH, ver o Catálogo Huntington HM41- folha 4).

Note-se que "Canada" é uma palavra portuguesa antiga para medidas líquidas - era um duodécimo do almude, e dividia-se em seis quartilhos. À época de D. Manuel, uma "canada" seria um litro e meio, em Lisboa, e chegava a mais de dois litros a norte (ver "Mosteiro de St. Tirso", de F. Carvalho Correia). No site dightonrock.com fala-se num imposto de um décimo para o pescado na Terra Nova, sendo a "canada" um duodécimo do almude, não é de descartar que o termo se aplicasse nesse sentido de um imposto menor (8% em vez de 10%...).

Os pinguins do ártico acabaram por desaparecer, tal como praticamente a notícia dos portugueses que colonizaram a Terra Nova, ficou talvez a pequena "Portugal cove". Com o perigo da extinção dos bacalhaus no Canada, a criação de cotas restritivas no início dos anos 1970, e depois o fim dos navios coloniais em 1975, colocaram um ponto final na grande tradição marítima portuguesa. O patrocínio ao abate das frotas de pesca, no final dos anos 80, foi o golpe final. Em pouco menos de 10 anos, a tradição da nação de navegadores reduzia-se à pesca costeira artesanal.

Os colombos americanos
Termino com um outro apontamento de extinção surpreendente.
No Séc. XIX a colombofilia norte-americana parecia concentrar-se na figura de Colombo, recuperando o mito do descobridor caído em desgraça. Do outro lado, para os nativos pombos americanos, os pombos-migratórios, a columbofilia foi diferente. 
Último pombo-migratório (passenger pigeon) - Cincinati zoo.

Consta que os sociáveis pombos-migratórios infestavam os céus americanos, estimando-se em milhares de milhões a sua população. Porém, este sucesso reprodutivo acabaria por levar à sua extinção num curto período de tempo. Foi instaurada uma caça ao pombo, que só pode ser satirizada com o clássico "Stop the pigeon", ainda que este desfecho nada tenha de comédia:

Compreende-se o efeito devastador nas colheitas que poderia ter um bando de pombos com centenas de milhares de indivíduos, e nesse sentido a sua caça indiscriminada pode ser vista nesse contexto. Porém, ao que parece houve um autêntico patrocínio à exterminação completa, terá havido caçadores que sozinhos abateram mais de um milhão de aves.  Havia competições e jogos cujo objectivo era o extermínio. Quando alguns ambientalistas solicitaram uma protecção no estado do Ohio, em 1857, foi considerada absurda pelo número de pássaros existente. Em 1897 as leis de protecção foram ineficazes para travar a extinção. O último exemplar em cativeiro morreria em 1914 no zoo de Cincinati.

Os pombos eram associados a paragens euro-asiáticas, e foi talvez com alguma surpresa que foram sendo encontrados em todo o globo, na África tropical, nas Américas e até na Nova Guiné (onde a espécie "columba coronata" é algo curiosa).

Não me parece que o carácter migrátorio particular aos pombos americanos carregasse alguma mensagem perigosa que levasse a colombofilia a atacar a columbofilia. Já aqui falámos no papel simbólico mensageiro dos pombos, e do seu contraponto na falcoaria.
E acaba por ser simbólico termos as Pleiades, as pombas filhas de Atlas, na Hespérida ocidental, a América, termos um "Colombo" a desencobrir essas paragens,  e depois olhar para a foto de Martha, a última dos pombos-migratórios, vítimas de um holocausto programado:

Nota complementar (2/12/2012): 
Na sequência do comentário do José Manuel, lembrando o acordo de exploração de 1461, entre Afonso V e Cristiano I da Dinamarca, que envolveu viagens ocidentais do pai dos Cortes-Reais, ficam aqui os links por ele indicados, que complementam a informação:
http://portugalliae.blogspot.ch/2009/06/o-amundsen-ex-quebra-gelo-sir-john.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pesca_do_bacalhau

Aproveito ainda para referir a página do Instituto Camões sobre Diogo Teive:
onde se fala da sua descoberta das ilhas do Corvo e Flores, em 1452, confirmada por cartas de régias de doação, de Afonso V. Em particular é relevante a informação do filho de Cristovão Colombo, que reportando uma viagem ocidental ao Faial de 150 léguas (aprox. 900 km), coloca Diogo Teive mais próximo da Terra Nova do que do Corvo ou Flores (a 200 km).
E também é relevante a informação de Lorenzo Anania já aqui citada, que fala sobre a partida (em 1576) de Aveiro de numerosa frota de navios para a pesca ao bacalhau na Terra Nova.

domingo, 11 de novembro de 2012

Hwui Shan e Fusang

Na sequência do texto anterior, sobre a eventual presença de Cristo na Índia, comentei sobre o papel dos missionários budistas na divulgação da religião. Esse aspecto está bem salientado no livro 
"An Inglorious Columbus", de Edward Vining, 1885

O livro fala do relato missionário de Hui Shan, monge budista do Séc. V, que teria abordado o desconhecido país de Fusang em conjunto com um grupo de budistas do Afeganistão.  Este seria o mesmo Fusang reportado por Marco Polo, e que começava a constar na Cartografia do Séc. XVIII, conforme já aqui abordámos.
Na realidade este debate sobre uma Fusang americana começa a ser explícito em França, em 1761, por Joseph de Guignes, que lança nesse ano duas memórias (cf. wiki):
  • Recherches sur les Navigations des Chinois du Cote de l'Amerique, et sur quelques Peuples situés a l'extremite orientale de l"asie. (1761)
  • Le Fou-Sang des Chinois est-il l'Amérique? Mémoires de l'Académie des Inscriptions et Belles Lettres, tome 28, Paris, 1761
A Companhia das Índias Francesa cessaria funções pouco depois, e passados 5 anos Cook é autorizado a zarpar pelo Pacífico - o Fusang americano desaparece sem rasto. No entanto, durante o Séc. XIX e até à 1ª Guerra Mundial, a questão da ligação chinesa à América estará presente nas discussões, como verificámos com Cândido Costa
Dez anos antes de Vining, em 1875 Charles Leland já tinha lançado o livro:
que praticamente aborda o mesmo tema. Ou ainda, 
Notices of Fusang de William Wells, 1881, traduzido de Ma Twan-Lin (Séc. XIII).

É perfeitamente natural que a determinação dos monges budistas, na propagação da sua religião, os tivesse levado a paragens americanas. As civilizações americanas, por exemplo a Azteca ou a Inca não parecem ter acolhido essa filosofia, e se os houve, não restaram nenhuns Budas de pé, nem sentados ou mesmo deitados... ainda que Vining tenha procurado encontrar poses budistas nalgumas figuras Aztecas. De acordo com Vining, a rota seguida por Hwui Shan teria sido a seguinte:
E. Vining - suposta navegação feita por Hwui Sheng

A terra de Fusang, Fu Sang Kwoh, situar-se-ia na região californiana, e já na parte mexicana encontramos assinalado o "país das mulheres"... lembrando a motivação feminina que levou à designação do Amazonas, já em plena América do Sul.

Fu sang seria o nome dado a uma árvore sagrada, associada ao Aloe ou Agave Americano (ver chinahistoryforum.com), ou Piteira, uma espécie de cacto que quando floresce produz uma notável árvore:
A "árvore" da Piteira - Aloe ou Agave Americano

Noutra versão, o nome Fu Sang é associado a uma outra árvore - a Amoreira. A este propósito, citamos Alexander M'Alan:
Mulberry land is there, say the Chinese.
Mulberry land is here, say the Mexicans.

Porém, de entre estes autores, Joseph de Guignes levanta uma hipótese surpreendente, e que foi fortemente rebatida pelos seus contemporâneos - Teria sido a China uma colónia egípcia?
E se a argumentação assentava essencialmente no carácter ideográfico de ambas as escritas, não sei por que razão não seria de levantar o recíproco... até porque o Egipto apareceu quase singular a ocidente na sua faceta ideográfica. Essa argumentação continha ainda a pretensão da ligação chinesa aos povos mexicanos, que também tinham desenvolvido escritas ideográficas.

É interessante encontrar estas possibilidades abordados no Séc. XVIII, e talvez só pecassem por tardias... e por mais inverosímeis que possam parecer, é mais estranho terem desaparecido, e no meio do politicamente correcto, numa altura em que sabemos já da existência de pirâmides na China, ninguém ousa retomar as ligações.

Será que os construtores de pirâmides estavam destinados a desenvolver escritas ideográficas? 
Não parecerá estranho terem sido desenvolvidas pirâmides no Egipto, na China, no México, e sempre associadas a povos com escritas ideográficas? Não será de suspeitar de um elo comum?
Para esse efeito, Vining vai buscar uma notável associação feita por Humboldt, entre a designação dos animais associados aos signos tibetanos e os hieróglifos mexicanos para a ordem dos dias, evidenciando uma coincidência que dificilmente se poderá tomar como acidental:
Tabela de Humboldt - signos tibetanos e dias mexicanos

Ainda que se ofereça perguntar por que razão os mexicanos falariam em tigres, talvez se trate de associação com o jaguar, não sendo de excluir outras possibilidades menos convencionais - afinal foram encontradas representações de leões - ver Leão de Techialoyan, e ver agora também as piteiras, que constavam na página ao lado...

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Tabula Peutingeriana

Aparentemente, o único registo de estradas romanas está contido num manuscrito do Séc. XIII, a chamada "Tabula Peutingeriana", um extenso mapa mundi distorcido, privilegiando a topologia à topografia (ao estilo dos esquemas de linhas de metropolitano, hoje em dia). A versão sobrevivente, num museu de Viena, está amputada da parte mais ocidental, com a Península Ibérica, Ilhas Britânicas e Marrocos. Foi reconstruída posteriormente no final do Séc. XIX, da forma que se apresenta:

Tabela Peutingeriana com a extensão ibérica
Tabula Peutingeriana - Detalhe da reconstrução da Península Ibérica (Konrad Miller, 1898).

A Tabula Peutingeriana terá sido encontrada por Conrad Celtes na cidade de Worms, sobre o Reno, uma cidade que teria como designação celta Barbetomagus, centro da saga dos Nibelungos. Talvez a versão original da Tabula estivesse ainda completa, mas Conrad Celtes não a conseguiu publicar, tendo ficada associada a Peutinger, antiquário que a traz à luz em 1508 (já mutilada?) e lhe dará o corrente nome.
Brazão da cidade de Worms - Barbetomagus

É interessante esta ligação a Worms, e ao reino de Gunther da Borgonha, entre 406-411 d.C, com a migração de Alanos, Vândalos, e Suevos, que terminará depois na Península Ibérica, pois é nessa altura que o poder imperial romano de Honório começará a ser ilusório. Nestas paragens do Reno consta que Gunther iria controlar o anterior pretendente ao império, Jovinius. Este é um dos enredos da saga dos Nibelungos que envolve ainda o fim do reino de Gunther pelo ataque dos romanos com a ajuda de mercenários hunos. Siegfried é personagem central, e as figuras de Krimhilda e Brunhilda lembram ainda a posterior querela entre Fredegunda e Brunilda, já sob implantação merovíngia. Já tinhamos referido que o mapa de Piri Reis reporta a chegada da informação por via dos francos (burgúndios ou vândalos?) que fugiram do Egipto, aquando da expansão árabe em 641 d.C.
 
Execução da visigoda Brunilda, rainha da Austrásia (à esq.)
Siegfried e Krimhilda, com um falcão (à dir.)

A parte inicial da saga dos Nibelungos, começa com um sonho de Krimhilda sobre um falcão morto por duas águias, adicionando a decoração. As águias podem estar associadas aos dois impérios que acabaram por destruir o reino de Gunther, o romano e o tártaro, mongol, dos hunos. Quanto ao falcão, podemos associar ao legado cultural egípcio...
Num mundo em que a informação era controlada em cidades isoladas, havia um meio expedito de passar informação, já usado ao tempo dos egípcios e persas... o pombo-correio. Contra os pombos, havia outra arma... os falcões! Portanto, convém aqui explicitar que o falcão, enquanto representação de Hórus e também símbolo aqueménida de Ciro, torna implícito um "olho apurado" e ainda um interceptor de comunicação, de mensagens.

Assim, quando aparece um Colombo passando a mensagem d'A Mérica, será figurativamente um pombo que escapa aos falcões, que lançavam o seu olhar acutilante e as suas garras para manter o mundo restrito às fronteiras da Antiguidade, representadas na Tabula Peutingeriana.
Também de forma columbófila, encontramos o deus Hermes/Mercúrio, filho de uma "pomba" que é Maia, já que as Pleiades são pombas (gr. peleiades) filhas do titã Atlas, inseridas na constelação de Touro, na sua fuga ao gigante caçador Orion (ou Oriœnte). Também no cristianismo, a mensagem que Maria recebe é figurativamente representada, enquanto Espírito Santo, por um pombo, sem corpo de autor, relevando apenas o conteúdo. A utilização da columbofilia na expedição de mensagens teve como contraponto o desenvolvimento da falcoaria, como actividade nobre, especialmente nas monarquias medievais.

A saga dos Nibelungos, com Gunther de Borgonha, no séc. V, será escrita no séc. XII, e depois adaptada por Wagner, no magnífico Anel dos Nibelungos, sendo reincorporada no nacionalismo alemão, então mutilado pela cisão do Sacro-Império Germânico no Tratado de Vestfália, mostrando como aquela encruzilhada cultural no Reno se arrastaria por séculos e por diferentes paragens.
A migração ibérica dos suevos, aliados de Gunther, irá definir um isolamento histórico, que estará na origem de substanciais diferenças com a parte sob domínio visigodo. Desse lado temos a constituição de Espanha, e do lado suevo a constituição de Portugal, um reino que irá definir uma origem dinástica de Borgonha, apesar da ligação a Bolonha evidenciada por Damião de Goes. Os limites do mundo da Tabula Peutingeriana seriam ultrapassados justamente com a autorizada expansão portuguesa, conseguida pelo Infante D. Henrique, e por uma motivação comercial própria de Hermes.

Há duas concepções de Hermes, que acabam por se misturar. Na mitologia grega, sendo um deus mensageiro ligado a viagens, ao comércio, tem também um aspecto menos honesto, ludibrioso, que o liga aos trapaceiros. A mensagem, tendo em vista uma transacção comercial, pode ser distorcida com o intuito de um lucro facilitado. Assim, subjacente a um poder de moto comercial está também uma mensagem deturpada, sugestiva, como acontece na propaganda. O referencial de verdade colectiva, anteriormente representado pelo poder monárquico, foi com a ascensão comercial substituído na governação, onde a balança do comércio passou a balança de poder, numa hierarquia segura pelos segredos das transações, pelas ilusões criadas, que se pode dar ao luxo de responsabilizar os cidadãos pelas suas escolhas, sem nunca perder o controlo sobre a mensagem publicitada, e assim obter o maior controlo da verdade colectiva, à escala mundial. A ideia subjacente deixou de ser a falcoaria, como meio de caçar pombos... ao inundar os céus de pombos, inunda-se o meio informativo de mensagens, deixando como efeito residual e marginal qualquer mensagem incómoda.
caduceu de Hermes, para além das asas do mensageiro, mostra o confronto entre duas serpentes, o confronto entre o conhecimento e a sua oposição, um lado real e um lado ficcionado, serpentes que podem mudar de pele, enrolando-se num bastão de poder.
A outra concepção é a de Hermes Trimegisto, ligada ao gnosticismo, que esteve inicialmente ligado ao cristianismo, e que surge como ligação ptolomaica entre o deus grego Hermes e o egípcio Tot, que já referimos, mencionando a ligação à tradição maçónica. Aqui a simbologia destoutro Hermes embebe em filosofia fundamental (que se encontra também em Parménides), e é representado equilibrando uma esfera armilar, semelhante à que encontramos na bandeira portuguesa, e que remonta a D. João II e D. Manuel.
Se os descobrimentos levaram à consolidação comercial através das Companhias das Índias, dando asas um desenvolvimento técnico e social, as duas serpentes de conhecimento, real e ficcional, confundem-se e têm deixado submerso o homónimo Hermes, o total de Tot que aparece nas três componentes do Trimegisto (tendo a sua Tabula Esmeralda sido chamada o "segredo dos segredos").


 
Hermes Trimegisto e a Tabula Esmeralda (que surge na literatura árabe como
referência de carta de Aristóteles a Alexandre Magno) 

Para além do conhecimento filosófico, gnóstico, tido como secreto, haveria outros segredos de ouro na tradição egípcia, ptolomaica. Em particular, deveria estar conhecimento secreto que justificou limitar o mundo ocidental às fronteiras atlânticas, ao limite persa, e a um trópico acima de Cancer. O mundo em que "todos os caminhos iam dar a Roma", é o mundo da Tabula Peutingeriana.
Hércules abriu a passagem pelo Atlas que segurava o mundo antigo nos ombros, deixando o Mediterrâneo de ser limite navegável, abrindo caminho para as ilhas britânicas. Nova abertura foi lentamente conseguida pela dinastia de Avis, ensinando a cavalgar em toda a sela, domesticando os garranos. Adamastor cedeu e o mundo abriu-se o suficiente para que todo o Atlas viesse a ser revelado uns séculos depois.
Mas se os Atlas de hoje nos mostram muito mais que a Tabula Peutingeriana, também é certo que outras Pleiades, as pombas filhas de Atlas, permanecem sob segredo, e a diferença entre o ocultado e o descoberto será da mesma monta.




sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Puto de Vénus

Um famoso quadro de Botticeli, "Nascimento de Vénus" ilustra o nascimento de Afrodite/Vénus, das ondas do mar (Ponto), resultado do corte adamantino de Cronos a Urano:
(é dito que Botticeli teria seguido uma descrição de Angelo Poliziano)

A modelo usada para o quadro foi Vespucci, Simonetta Vespucci, que casou em Florença com Marco, um primo de Alberico, depois dito Américo, Vespucci.

Convém notar que há uma confusão de Afrodites... uma original, que é a que sempre referimos - a Afrodite Uraniana, ligada a Dione, e a sua filha com Zeus, designada Afrodite Pandemos, ligada ao amor físico.
Parténon: Vesta, Dione e Afrodite (Pandemos).

Se começámos a "Questão Gaia" com uma ousada ligação de Gaia pela substituição de I por J, o que daria Gaja, e falámos ainda dos gaiatos, vamos terminar o tópico com os "Putos".

Putti
Os Putos são pequenas crianças, representados na Arte Renascentista e Barroca, e que não são exactamente os habituais anjos (Querubins e Serafins) - têm "estatuto inferior" por serem associados a entidades pagãs - ou seja, Cupido/Eros:


A associação de Vénus a Cupido é bem conhecida e antiga. A entidade pagã, a pequena criança que dispara setas de amor, é o original Puto de Vénus. Há uma relação maternal que se estabeleceu entre estas duas divindades, caso raro em que são representadas quase sempre em conjunto:

Afrodite com Eros 
(terracota do Séc. IV a.C., Hermitage Museum)

Após o Renascimento, esta representação singular de associação divina, numa relação mãe-filho, será retomada em múltiplos quadros... e como é óbvio não estamos a referir-nos apenas à representação destas divindades pagãs. Esta relação nem será nenhuma novidade, pois há vários textos que sinalizam as semelhanças.

A relação divina entre mãe e filho passa claramente para o catolicismo, e será um dos focos de cisma entre protestantes e católicos. Numa primeira análise superficial esta associação seria desadequada para ser retomada pelo catolicismo... mas depende do nível a que a colocamos. Tal como existia uma Afrodite primordial, na Teogonia de Hesíodo também Eros é colocado a um nível ainda mais primevo, um amor surgindo como fonte de luz, e resultando do Caos, tal como Gaia e Tártaro (Eros, é assim mesmo anterior a Urano, filho de Gaia). Como Afrodite, também Eros tem uma segunda encarnação, mais conhecida, enquanto filho de Afrodite e Ares, e é aí representado como uma criança que surge da relação entre os deuses do amor e da guerra, que dispara flechas de paixão. (Este novo Eros será mesmo vítima da sua própria flecha, ficando apaixonado por Psique, numa história que terá inspirado o beijo da Bela Adormecida.)

A representação simultânea de Vénus e Cupido, está muitas vezes presente na pintura e escultura:

 

Não colocamos aqui a imagem da mais famosa Vénus de Milo... mas, seguindo esta linha, talvez não faltassem apenas os braços, talvez faltasse ainda um Cupido ao colo (assim o sugere o olhar, a posição da perna avançada e do braço elevado). Uma representação assim poderia colidir de "forma grave" com as imagens clássicas, denominadas "Madonas"... isso justificaria a mutilação, uma polémica secreta e a consequente fama associada à estátua. Se Renoir a chamou "grande polícia" talvez não se referisse à falta de beleza, que claramente possui, mas sim ao que representaria a sua mutilação. 
Mais precisamente, aludimos a uma possível representação desta forma:

Há, é claro, uma versão alternativa, relacionada com a devolução da Vénus de Medici, que tem ambos os braços em baixo,  tal como a Afrodite de Cnido (onde Eros está ausente). Aliás a própria "Vénus de Medici" tem uma cópia com um Cupido maior:

"Venus de Medici" (de Praxiteles?) e "cópia romana" (imagens)


Vieira
Na representação de Botticeli temos essa Vénus primordial, que emerge adulta da espuma do mar primevo, como uma pérola de uma vieira (ou ostra). Isso já ocorre antes, conforme podemos ver num fresco de Pompeia:

Há assim, uma associação muito antiga, que liga o nascimento de Vénus, enquanto deusa primeva do amor, a uma vieira, e que foi recuperada no quadro de Botticeli.
Não podemos deixar de notar que essa vieira é ainda o símbolo de Santiago, e que os peregrinos seguiam esse caminho levando num cajado esse símbolo primevo do amor. A mensagem profunda da vieira de Santiago, é assim o reflexo em Cristo desse símbolo ancestral do amor espiritual, ligado ao nascimento da Afrodite Uraniana.
Isso terá tido uma grande influência na comunidade peninsular que já venerava Cupido (chamado Endovélico), conforme escreveu Carvalho da Costa. Venerar, de Venera (Vénus), é aqui mesmo a palavra correcta. A relação entre mãe e filho terá factores acrescidos de ligação, na propagação dessa mensagem de amor primeiro. O caso singular do cristianismo enquanto religião é a capacidade de colocar um Deus omnipotente em posição humana, com as fragilidades inerentes na situação de reflexão literal, recuperando uma noção primeva de amor, complemento ao equilíbrio dinâmico, possível com o corte temporal de Cronos.
A lâmina adamantina de Cronos cindiu um universo de todos os tempos, de Úrano, mostrando um tempo de cada vez, em contínuo. As ideias, os verbos, iriam ser definidos pela sua emergência dessa sequência imparável. O tempo surgia assim como uma ilusão de reprodução dinâmica do estado anterior, saindo de todo o caos possível uma aparente inteligibilidade. É assim que emerge a noção de amor, de partilha dinâmica do mesmo universo, pelos seres pensantes... e esse amor pode ser local, quando os seres reduzem o seu universo, a uma pessoa, ou a uma ocasião, ou pode ter contornos mais profundos, procurando uma harmonia global. Digamos que estão definidos todos os caminhos das Moiras, mas não o caminho que cada um decide seguir... é isso que o define enquanto ser emergente da estrutura estática, e que assim passa a "existir" na "ilusão" temporal.

Pombas e Peleiades
Se o Corvo está muitas vezes associado a Helios/Sol/Apolo, por outro lado, a pomba está associada a Afrodite e a Eros, havendo várias representações nesse sentido!

Será escusado dizer que também a pomba foi colocada no cristianismo como elemento revelador a Maria, para a concepção de Jesus, e ainda como um símbolo de paz e amor ligado à mensagem cristã.

Deus ao colocar-se numa posição humana através de Cristo, terá o seu complemento, o Espírito Santo, representado na pomba. Fica obviamente definida a trindade inevitável, pela abnegação do todo numa parte... teria que existir o seu complemento. 
Convirá referir que Zeus, escrito com um dzeta, se poderá ler Dzeus, da mesma forma que na componente romana, Júpiter tinha como nome alternativo Jove, que não difere muito de Jeova. Ou seja, os nomes não são assim tão diferentes quanto aparentam, à primeira vista... 

Peleiades significa em grego - pombas, e encontramos aqui ligação à designação das Pleiades, que enquanto agrupamento estelar representa as filhas de Atlas, um bando de pombas perseguidas pelo caçador Orion,. As referências às Pleiades são variadas, e estão inevitavelmente ligadas ao Ocidente, ao paraíso perdido, após o Atlas e Atlântico. 
Limite do Atlântico que será quebrado, após o Corvo (ilha), por um pombo que se chamará Colombo.
Colombo terá sido antes Colón, ou terá tido outro nome... mas seria afinal um pombo que se iria juntar às pombas passando o Atlântico, do pai Atlas que sustentava o mundo. A viagem de Colombo toma assim um aspecto simbólico de revelação, que ultrapassou o limite ocidental do Corvo, ave de Apolo.
[Peleiades era ainda o nome das sacerdotisas do templo de Dodona, ligado a Gaia, Reia e Dione (de alguma forma identificadas), sendo Dione a Afrodite Uraniana.]

Vénus ou Lucifer?
Uma das Pleiades é Maia, filha de Atlas e mãe de Hermes/Mercúrio. Tal como Gaia e Reia, também Maia acabou por ser uma divindade ligada à Terra, em diversas culturas. 
Se Vénus estava ligada a Mercúrio, e como ambos os planetas têm órbitas aparentes próximas um do outro, e próximas do Sol, não é de excluir que Mercúrio possa ter sido identificado ainda a Eros/Cupido. Há outros aspectos que concorrem nesse sentido, nomeadamente a célebre menção do Hermes Trimegisto e o hermético Hermetismo, onde a mensagem do caduceu se complementará com as ligações pelas setas de Cupido.

Um aspecto sinistro nestas ligações mitológicas, acabam por ser as contradições propositadas, criadas com objectivos obscuros... um dos mais evidentes é transformar Lucifer (em latim "o portador da luz"), a estrela da manhã, ou seja Vénus, a deusa do amor, numa personificação do mal. Como vimos, as contradições disto seriam totais, se Vénus não fosse também a estrela da tarde, e como tal Hesper... a esperança! 
É claro que, pretendendo-se manter a obscuridade, qualquer luz será encarada como um mal, que subverte a ordem instalada... nem que para isso se tenham que colocar educacionalmente reflexos condicionados. Pensar-se-à assim sobrepor uma "verdade social fabricada", mas até quando? Até que ponto será preciso ir, para que a verdade do passado deixe de pesar sobre o presente e ensombrar/assombrar o futuro?