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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Chapéus há muitos...

... e barretes também!

Um dos barretes que não deixa muitas dúvidas de identificação é o barrete frígio: 
no símbolo da República, nos Estrumpfes, e no culto de Mitra 

Ao ter falado sobre o filme "Nazaré, praia de pescadores", de Leitão de Barros, de 1929, a certa altura não deixei de reparar que ele faz uma observação sobre as silhuetas fenícias. A semelhança pareceu-me estranha, e apenas consegui encontrar uma figura que possa ser enquadrada à época e contexto:

Apesar da expressão "chapéus há muitos..." fazer parte do cinema português da época, não é de nenhum filme de Leitão de Barros, que menciona a silhueta, mas mostra outros chapéus usados pelas mulheres da Nazaré: 

Quando olhei para o mercado, com as mulheres usando aqueles trajes, só me pareceu uma cena boliviana. Os chapéus nazarenos parece que entretanto perderam as abas, e esse detalhe que os tornava próximos dos chapéus bolivianos, perdeu-se. Quando existia era demasiado evidente para não ser notado, e até mesmo uma flor do lado direito pode ser encontrada nalguns chapéus aimaras.
São 4 a 5 as saias (polleras) usadas na comunidade aimara/quechua, mas o valor de 7 saias, tipicamente falado para as nazarenas, também parece pouco fixo, e mais relacionado com o mar, ou com os 7 mares. A manta também perdeu o colorido, e passou a ser presa pelo chapéu.
As cores vivas perdiam-se facilmente na Nazaré... as fatalidades do contexto, em que o mar era apenas um dos visíveis executores, são ilustradas no filme Maria do Mar, também de Leitão de Barros, que o filma logo no ano seguinte, 1930.
Leitão de Barros esclarece que a saída para o mar é decidida pelos "entendidos"... a cena do documentário aponta para dois indivíduos (ver figura seguinte, central). Um apresenta um barrete normal, típico da Nazaré, o outro entendido parece enfiar outro tipo de barrete. Remetendo à comunidade aimara/quechua, podemos encontrar barretes com um berloque semelhante ao do pescador. O que pescador ganhou em comprimento, perdeu na cor e nas abas laterais. Já o barrete do entendido da direita... ou é um saco de batatas, ou remete para outro tipo de barretes (à direita, desfile do KKK nos EUA).

Esta coincidência, entre mulheres que usam chapéu, e homens que usam barrete, vale o que vale, e apenas a quero acrescentar a um outro detalhe sobre a comunidade quechua.

Amaro
Sobre os barretes frígios, o seu uso é extenso, remetido a várias épocas e contextos... ser usado em banda desenhada belga, não tem nada de especial, até porque grande parte da banda desenhada de referência parece ter ganho raízes na Bélgica. 
Waterloo é na Bélgica, e ali caíram as esperanças napoleónicas, mas o liberalismo despontou. Com Leopoldo I, tio da rainha Vitória, começou a construir-se uma nova Bruxelas, e uma outra ordem mundial, de que já falámos.
É por aqui que fazemos ligação de escrita a uma outra pequena coincidência, através do liberalista J. Ferreira de Freitas, um dos muitos portugueses que alinharam pelo exército napoleónico, numa senda de um liberalismo europeu.
"Padre Amaro" foi uma publicação feita por Ferreira de Freitas no exílio londrino.
Quando passado meio século, Eça de Queirós escandaliza com o romance "O Crime do Padre Amaro", estaria ou não a referir-se implicitamente ao autor do jornal com o mesmo nome que saía de Londres? 

Mas, não é pelo Padre Amaro que fazemos uma ligação atlântica, é através de Santo Amaro, que tal como São Brandão é conhecido por uma hipotética viagem atlântica, em direcção a "paraísos terrestres"... ou seja, provavelmente em direcção às Bahamas. É curiosa a sua referência ao Mar Vermelho... que seria início do Atlântico - como já vimos noutros casos. Seguindo depois o curso do Sol, ou seja, em direcção ao Poente, Amaro só poderia chegar à América. Esta história, mais ibérica, parece estar ligada a outras referências irlandesas, não só de São Brandão, mas de outras aventuras (Immram) que também desembarcariam em ilhas paradisíacas.

Porém, o que prenderia os pescadores da Nazaré a terra, perdido o medo do mar? O contexto familiar, certamente, mas também todo o contexto educacional, simbolizado pelos "entendidos". Assim, os pescadores de toda a costa atlântica, mais do que presos pela imensidão do mar, estavam presos a terra pelos laços que circunscreviam a sua acção aos valores herdados e a um pensamento condicionado. Só esses os impediam de progredir na direcção do Sol Poente, onde estavam os paraísos terrestres.

Barreul e Robison
O condicionamento da acção pode ser feito de muitas maneiras, e é mais subtil quando o próprio nem se apercebe que está a ser condicionado. Se isso afecta uns pela consequência, afecta outros pela causa. O predador sabe que tem que comer, mas não sabe o que o obriga a comer. Pode encontrar um nexo, mas não encontra nexo para esse nexo. 

Em 1798, o Abade Barreul, jesuíta, e John Robison, maçon, publicam textos que alertam para um plano de controlo mundial que se instalava a partir da Maçonaria:
Os textos são longos, e apenas li alguns excertos... que não me motivaram muito a prosseguir.
Procuro gerir o meu tempo não olhando demasiado para informação que não me desperta interesse imediato, e que considero ir parar mais aos detalhes, do que propriamente a matéria auto-suficiente.

Os dois textos são mais do que suficientes para mostrar que a chamada "Teoria da Conspiração" é coisa antiga, com pelo menos 200 anos... e terá certamente mais séculos, e até milénios. Serve tanto de argumento para desvalorizar - dizendo que "sempre houve", como de argumento para valorizar - dizendo que "sempre houve", também... pois isso só significa que a conspiração é antiga.

As posições levam sempre à tentativa de baralhação, onde o argumento num sentido, é usado contra o próprio sentido... ao estilo do judo, onde se procura que a investida do adversário seja usada contra ele.
Por isso, não merece muito relevo enquanto jogo de palavras. 
Barreul era jesuíta, e atacava os maçons... por sua vez um maçon escocês denunciava a mesma infiltração Illuminati dentro da Maçonaria. Desde aí, sempre houve acusações de que os jesuítas infiltravam a maçonaria, e de que a maçonaria infiltrava os jesuítas, já para não falar em remeter a culpa para uma terceira entidade - neste caso os Illuminati.

O propósito que constituíam as associações eram sempre os mistérios antigos... no fundo, os segredos milenares, que alguns sabiam que existiam, e poucos saberiam verdadeiramente quais eram. Pior, nem era claro que os que soubessem estivessem seguros de estarem no último degrau da pirâmide, já que a confusão tinha sido de tal ordem que se prestava a todas as confusões. 
Provavelmente, o que se leria no último degrau é que não era claro que aquele fosse o último degrau... e se não leram isso é porque não chegaram ao último degrau!

No entanto, o que é claro é que uma biblioteca de conhecimento não é mais do que uma grande cadeia informativa, que transporta registos do passado, tal como uma cadeia de DNA transporta informação genética para a geração seguinte. Como já mencionei, nessa solução de armazenamento informativo ganham as amebas, e não os humanos! 
As amebas podem ter aprendido a manobrar a sua forma notavelmente, podem guardar cristais bipiramidais surpreendentes, mas a sua compreensão do universo reduz-se a um charco de água. Nos seres multicelulares, as células aprenderam a ser dependentes, a confiar, e a merecer confiança, porque todas as células dependiam do sucesso do conjunto. Com essa colaboração emergiu uma percepção do universo de conjunto, superior a cada célula. Todas as células tinham um propósito, uma função, e eram praticamente indispensáveis para o sucesso desse conjunto. A consciência do organismo pôde emergir acima do corpo, mas não deixou de lhe estar completamente ligada, e essa ligação é cobrada até à morte física - esse é um preço devido à lógica individual de cada célula.


domingo, 15 de setembro de 2013

Pés e Cabeça

Um dos registos passados mais misteriosos é o que diz respeito à deformação cefálica.
Que motivo levou diferentes civilizações a deformarem os seus crânios de forma tão pronunciada?
Olhando para os crânios deformados da civilização de Paracas (Perú, zona Nazca), apenas pelos aspectos morfológicos, poderíamos até duvidar que se tratavam de Homo Sapiens...
Crânios deformados encontrados em Paracas... (ver também esta página)
Dada a sua vizinhança à paisagem Nazca, é de perguntar: 
- por que razão estes crânios expostos em museu, que lembram "figurações extraterrestres",
não aparecem habitualmente nos livros sobre Nazca, onde se fazem conjecturas sobre visitas passadas?

Não é só em Paracas (península de Ica, perto das figuras Nazcas) que se encontram crânios deformados.
A página da wikipedia que citámos (e que remete ao livro The Enigma Of Cranial Deformation: Elongated Skulls Of The Ancients, D.H. Childress and B. Foerster, 2012), indica vários casos: 
They were not unique in this, as the process of manipulating the shape of a child's head in infancy was practiced by many cultures, at different times, around the world. These other cultures include those in ancient Iraq, Russia, Melanesia, Malta, North America, Mexico, and possibly Egypt during the Amarna period: Tutankhamen has been cited as having an elongated head, but that is disputed by many scholars.
O que motivaria esta tradição em culturas que vão da Oceania (Melanésia) até à Europa (Rússia, Malta), ou às Américas (Mexico, Perú)?
Não se trata propriamente de uma moda de "corte de cabelo"... a deformação craniana é um processo violento, que poderia provocar dores inimagináveis.
Pintura do Séc. XIX (Paul Kane), representando o processo de deformação cefálica
numa criança índia Chinookan (EUA), e um resultado obtido no adulto...

No entanto, este processo estava normalmente associado a uma certa casta social... ou seja, parecia haver uma vontade de se parecer com algum modelo. Haveria uma ligação religiosa a xamãs ou sacerdotes, propagada pelas classes mais altas. É pouco verosímil que povos tão distintos se lembrassem do mesmo absurdo sem que houvesse um motivo forte, e sem dúvida que teria havido um elo ou influência comum. É dito ainda que tal prática, que ocorre modernamente, poderia colocar a pessoa mais próximo do "mundo dos espíritos"... pode ser por alucinações, ou por tradição de contacto com os tais "modelos".

Quanto à conexão entre estes crânios alongados, existentes nos Aztecas, Maias, Incas e os crânios alongados representados no Egipto, creio que esta imagem (daqui) é auto-suficiente:

Os crânios alongados de um lado do Atlântico... e do outro.
Quase todas as imagens apresentadas na página (que deve ser visitada)
... mostram bem as semelhanças e conexões culturais entre o Egipto e os Incas.

Bom, a sugestão de ligação habitual passa pela Atlântida perdida... mas convenhamos, isso não nos leva à Melanésia ou Polinésia, onde este costume ainda se mantinha, bem como que parece ter sido praticado entre os Aborígenes Australianos. Nem nos leva a registos russos... ou ainda à tradição que se manteve entre suevos e alanos (de que já falámos no texto "Suevos e os Arianismos", a propósito do texto "Mare Suevorum", no blog Portugalliae)

Isto é mais um dado no sentido da ligação que vai da Nova Guiné à Europa, passando pela América... falha aqui o registo indiano ou chinês. 
No caso chinês (ou japonês), as deformações não ficaram na cabeça, passaram para os pés.
O drama da deformação de pés, num conceito de "beleza" oriental.

Dir-se-à que isto "não tem pés, nem cabeça"... mas fico cada vez mais circunspecto com a língua e expressões que herdámos. Aliás, para além de alguns títulos "sugestivos", estou a evitar entrar na questão da linguagem, porque apesar de haver coincidências a um nível demasiado grande, não é fácil abordar o assunto de maneira clara, sem entrar em especulações. 
Porém, neste caso é inevitável falar na questão da palavra "colar"... lembrar a Cola do Dragão, cobra que afinal cobre e cobra, a troco de cobres, unindo o "cou" ao pescoço francês. E sendo coço a traseira, juntar pés e coço em pescoço, mostra como colam os colares ao pescoço, com as devidas Ordens. Bom, mas já dei o meu chá para essa procissão... 

O que me interessa aqui é abordar o "modelo"... ou seja, será que estas culturas pretenderam imitar um modelo de pessoas que tinham um aspecto diferente?
Haveria uma raça diferente, dominadora, que teria servido de modelo?
Poderia falar em extraterrestre... mas tenho largas dúvidas sobre essa teoria. 
O que teria mais de "extra" seria não se querer misturar com os outros, porque afinal de contas não deixariam de ter aspecto macacóide, como todos nós, desde o Erectus ao Sapiens, passando pelos Neandertal. Ah, e claro que também teriam "esperteza macaca"!

O que é perfeitamente natural, e é nisso que tenho insistido, é que estes últimos 100 ou 200 anos, nos mostraram como poderia evoluir rapidamente uma sociedade humana, quando o génio é libertado, e não fica preso em tradições absurdas que nos amarraram a cabeça e os pés.
Se houve dezenas de milhar de anos de estagnação não foi por falta de génio... foi porque uma educação condicionada, baseada numa estrita tradição, é a maior prisão que pode existir para o espírito humano. As pessoas são ensinadas a ter os seus objectivos programados para uma inserção na sua sociedade, e se essa sociedade está doente, os indivíduos são contaminados por essa doença. As ideias instalam-se e formatam os cérebros para determinadas expectativas e objectivos, são raros os que questionam o funcionamento, e só o fazem quando tiverem razões para isso.
Faço apenas notar uma coisa - o tempo mais importante é o tempo de perceber o que é importante.
Esse tempo nunca é uma perda de tempo, porque só depois de perceber a importância das coisas é que podemos falar em perda de tempo.

A verdade é importante, mas muito mais importante do que conhecer a verdade, é aprender a distinguir o que é falso. A verdade surge apenas como consequência desse processo. 
Por exemplo, o que será mais relevante? 
- Que se decida agora publicar os segredos, ou que se definam políticas educativas que mostrem a falsidade e de como a ocultação pode ser global?
Se os segredos fossem "revelados", ficaríamos convencidos?... Como dizia Albert Pike, o famoso mação, "revelar" é apenas colocar novo véu (velo). Tal coisa poderia ser feita numa grande encenação hollywoodesca, talvez até com  gente disfarçada de humanóides, para justificar a nossa provação (e de como os nossos dirigentes eram uns meros coitados, lutando contra forças extraterrestres)!

Não há qualquer dúvida que grande parte da humanidade foi enganada durante milhares de anos, e essa capacidade de enganar não desaparece pela simples vontade. Se somos capazes de enganar, o que é importante é ser capaz de reconhecer o engano. Se há estruturas sociais dedicadas ao engano, deveria também haver estruturas sociais dedicadas a combater o engano... caso contrário o desequilíbrio é imenso.

O maior engano das estruturas sociais é que passam a seres abstractos que se usam os indivíduos contra si próprios. Nunca nenhum indivíduo vai conseguir identificar-se à estrutura, e por isso, enquanto indivíduo, vai-se sempre sentir frágil. Pode julgar que ignora isso, por estar dentro e beneficiar da estrutura, mas não conseguirá nunca libertar-se do seu papel de simples indivíduo no meio da estrutura que o ultrapassa... 
O que uma sociedade faz de mal a um indivíduo, faz por medo a todos o que o souberem.

Bom, voltando à questão das cabeças alongadas, não posso deixar de mencionar o texto anterior Cobertura de Anedotos... onde fiz notar da semelhança das vestes dos Anedotos-Anunaki com os "bacalhaus", e também com a mitra papal. Ora, uma mitra alongada, sendo uma "cobertura" da cabeça, não pode deixar de ser referida neste contexto, porque tanto pode ter existido uma raça dominante com a cabeça alongada, como essa cobertura poderia ser disfarce, que depois levou a uma propagação desse costume entre os povos que sofriam a dominação dos outros.

No sentido da hipótese de ter havido mesmo uma raça com essa característica basta reparar numa grande diversidade de fisionomias humanas, que ainda existe, mas que seria muitíssimo mais acentuada há uns milénios atrás... e não deixo de lembrar uma figura que vi no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Uma pequeníssima cabeça mumificada da Amazónia, da tribo dos jívaros:
Apesar de se poder ler na descrição que a cabeça foi reduzida pela remoção do crânio, o tamanho das letras dá para ter uma ideia de que tal cabeça caberá numa mão, algo que me impressionou, e que me deixou muitas dúvidas sobre a dimensão original do indivíduo liliputiano. Conhecemos a espécie que sobreviveu, mas já aqui referimos várias notícias que apontam no sentido de terem havido homens quase gigantes na Patagónia, e homens muito pequenos, pigmeus na Indonésia, na ilha das Flores, perto de Timor.

domingo, 23 de junho de 2013

Pontas da língua

Ao analisar um mapa da distribuição das linguagens no mundo, somos confrontados com um misto de diversidade e homogeneidade.
Na wikipedia é apresentado um tal mapa, devendo dar-se o desconto na colonização europeia da América e da Austrália, na parte Boer da África do Sul, ou na penetração russa até Vladivostok. Tudo isso aumenta a dimensão das línguas europeias, neste caso indo-europeias (marcadas a azul escuro):

Em muitos aspectos este mapa "bate certo" com a distribuição genética dos haplogrupos.
Esta é uma dificuldade maior para quem pretender considerar uma influência e domínio à escala mundial, desde os tempos primitivos. 
Não há interesse nenhum em secundarizar o problema... para entender várias coisas há que tratar com o problema com os dados fornecidos. Não apenas com estes, mas também os registos escritos e com os legados arqueológicos - artefactos e monumentos que sobraram...
É claro que muitos destes estudos pretendem ser mais do que são, e há claros problemas.

Um desses problemas são os índios americanos: Ojibwe, Chippewa, Seminole, Sioux, Cherokee, Algonquian, Papago, todos eles com percentagens de haplogrupo R superiores a 40%, pelo que ficariam melhor na Europa Ocidental do que na costa atlântica americana. Percentagens superiores ao Norte de África também se vêem entre os Maias e Cheyenes.
O caso dos Ojibwe parece exemplificativo pois os valores atingem 80%, ficando quase ao nível dos Bascos,  Galegos, Bretões, Galeses, ou Irlandeses. Uma fotografia dos Ojibwe feita no Séc. XIX dá-nos uma ideia do que se fala:
Olhando bem para o rosto do personagem central na fotografia, ou até para todos, podemos perguntar - "por que razão os disfarçaram de índios?"... e isto acontece sistematicamente com muitos "índios".
Aliás, chamar "peles vermelhas" aos índios é quase paródia, quando vemos muitos europeus na praia, que são autênticas lagostas...
Portanto, trata-se daquela situação em que é complicado perceber se houve alguma migração europeia, ou simplesmente alguns navegadores ou colonos que foram acolhidos entre os índios americanos. Como a população índia também se foi integrando nas sociedades americanas, estes estudos acabam por ter sempre um número reduzido de indivíduos.

A linguagem desempenha aqui um papel mais complicado. Nas linguagens ameríndias não parece haver grande traço de palavras indo-europeias... ou seja, se houve integração parece algo estranho não ter sido influenciada por algumas palavras dos novos elementos. Só que aí surge a subjectividade do estudo, em que normalmente uma semelhança de palavras europeias seria entendido como resultado do posterior contacto.
Depois, se houve algum traço escrito, também se perdeu... ou seja, tudo aparenta remeter para tempos muito antigos.
 
Inscrições índias na zona dos Grandes Lagos. 
À esquerda podemos ver o que pode ser uma canoa, duas serpentes, 
e um grande "bicho" com escamas - convém não esquecer que os dinossauros estavam extintos!

Ou seja, não temos culturas índias a escrever caracteres latinos, nem a dançar o vira, nem o fandango... pelo menos dos que restaram. Se houve desses, e muito naturalmente deveria ter havido, perdeu-se-lhes o rasto... e alinharam todos na dança-da-chuva.
Consta ainda que estas tribos dos Grandes Lagos teriam vivido no Atlântico até ao Séc. X, tendo depois sido aconselhadas por "sete magos" a sairem do Atlântico e seguir uma concha para oeste, até ao lagos.

Trata-se de um registo comum, quer na América, quer na África Atlântica... não houve propriamente muitos europeus a serem recebidos por índios em canoas, ou de haver índios sediados em povoações costeiras. Ficou a ideia de que estavam escondidos no interior, na floresta... algo diferente do que se veria nas ilhas do Pacífico. Os Incas tinham a cidade de Tumbés no Pacífico, enquanto que os Aztecas, Maias, etc... pareciam não ter nenhuma cidade costeira. Na África do Índico havia várias cidades costeiras, ao passo que na África Atlântica parece que não se passava nada!
O Atlântico sempre foi um oceano complicado...

Em 1889, durante uma escavação num monte fúnebre no Tennessee foi encontrada uma pedra com inscrições que pareciam ser fenícias:

Quem a encontrou, classificou "sabiamente" a inscrição como tendo sido feita pelos Cherokee, e o facto passou despercebido, entrou na literatura, até que passados quase 100 anos a polémica surgiu, notando que seria escrita fenícia ou proto-hebraica.
O mais engraçado é que a maneira de varrer o problema como falsificação antiga é curiosa.
A ideia é que haveria uma inscrição semelhante, paleo-hebraica, num livro maçon à época:
Portanto, concluiu-se, foi uma brincadeira, feita pelo responsável do Smithsonian a C. Thomas, que conduzia a escavação. Porquê? Porque Thomas queria encontrar registos Cherokee, e à falta de melhor, o outro teria copiado umas letras do seu livro maçon, para o deixar contente. O homem ficou contente e isso é que interessa, durante quase 80 anos ninguém notou. Assim funcionaria o Smithsonian...
Esta paródia justificativa, saída da imaginação de dois arqueólogos operacionais, conseguiu que a pedra esteja classificada como "falsificação".

Como é óbvio o que vai interessando é manter a versão de que antes de Colombo não se passava nada!
Poderiam usar o discurso que se ensina na Faculdade de Letras - "se Colombo foi o primeiro a fazer a viagem Atlântica até à América, como é que os fenícios ou hebreus o fizeram?".
A universidade não mudou muito desde os tempos medievais, nessa altura dir-se-ia - "se Deus fez o homem, quem pode falar em evolução?". Normalmente os que ridicularizam esta frase são os primeiros a defender a outra! Porque a única coisa que mudou foi o credo, não o método...

terça-feira, 4 de junho de 2013

Fecho da abertura

10) Sobre a genética
Quais as conclusões que podemos retirar do que entretanto foi escrito?
Primeiro, que há evidências mais que suficientes de registos terrestres para construir uma "história humana", ainda que com muitas e naturais incertezas, ela não se afastará demasiado da história oficial... excepto na questão da ocultação.
Por um lado, há todo um registo fóssil e genético que parece concordar nalguns pontos fundamentais:
- Primeiro, uma evolução genética animal, acompanhada de registos fósseis, que leva dos mais pequenos seres até aos homens. No entanto, só aparentemente parecerá uma evolução aleatória - não foi. 
Volto a insistir, evoluções haveria muitas, umas poderiam nunca gerar vida, outras gerariam vida complexa vegetal, mas não animal, outras poderiam nunca permitir seres inteligentes. O único universo que ganharia consciência da sua existência teria que permitir (e justificar) vida inteligente. Bom, mas para falar disso convenientemente teria que começar por explicar o que é vida, distinguindo matéria inerte da animada, e distinguindo a singularidade da racionalidade humana. Já falei sobre o assunto, mas não em detalhe, nem o vou fazer agora. Estas perguntas são muitas vezes colocadas filosoficamente, mas com respostas que se enredam na retórica, e do ponto de vista científico nem se tenta a resposta...

- Segundo, houve uma evolução, cujo traço genético também se pode acompanhar com o registo de ossadas, com a genética, e ainda com a própria evolução do embrião.
A evolução do embrião tem a própria história do desenvolvimento humano, e pela comparação com o desenvolvimento de outros fetos podemos seguir o percurso evolutivo global, que é replicado, desde a formação do ovo, uma primeira divisão, depois a formação da blástula e gástrula - que é distintiva dos animais, a formação do sistema nervoso, etc... Até determinada altura, a diferença entre o embrião humano e o embrião de um outro animal é apenas potencial. Mas, rapidamente, torna-se completamente diferente.
Embriologia comparativa (de antranik.org)

Este tipo de evolução não tem a ver com o nexo darwinista da evolução lenta e aleatória, que contrariava aliás os registos fósseis - que apresentavam "grandes catástrofes". No entanto, como se mostra na primeira linha da figura, há uma flagrante semelhança externa entre embriões de vários animais.
Curiosamente, há uma distinção vertebrada logo no início da formação da gástrula... muito antes da fase apresentada na figura. Se o tubo digestivo abre primeiro pela boca, vamos parar a seres invertebrados... insectos, lulas, polvos, etc. No caso dos animais vertebrados o tubo digestivo abre primeiro pelo... outro lado! Por isso, ficámos geneticamente na classe dos peixinhos (deuterostomas) e não dos polvos (protostomas)...

Bom, para quem procura intervenções extra-terrestres para a génese humana, ficaria por explicar todo o traço natural consistente... ou seja, dados os registos, do ponto de vista material a grande dificuldade está em explicar a origem da vida, já que sobre a evolução ou desenvolvimento, essa intervenção só faria sentido com uma paciência divina.

Convém perceber que a codificação genética é apenas uma chave que funciona numa porta. É dentro do ambiente terrestre que se formaram materialmente as portas e as chaves... Ou seja, aquilo que aparece desapegado da essência evolutiva é que a Terra foi um útero participante no desenvolvimento. Por exemplo, no caso dos répteis, o ovo pode eclodir sem presença materna... isso dá a ideia de que a sua formação é independente do progenitor. Curiosamente, isso já não acontecerá com as aves, e obviamente não acontecerá com os mamíferos. Dependem de um ambiente viável e dedicação dos progenitores para que haja sucesso do seu descendente. Conceptualmente há uma diferença significativa - um réptil poderia encarar que "nascera do nada", o mesmo conceito não se aplica a aves e mamíferos, que têm um acompanhamento externo, que inevitavelmente entrará na formação da sua cognição.

Por isso, os mitos criacionistas ligados à figura do ovo da serpente, são focados na perspectiva da serpente que ignora o ovo que a formou. Assim, qualquer cognição do universo não pode deixar de questionar a própria formação da cognição, e remetê-la para uma origem anterior à cognição. De forma figurada ou não, depende do grau de misticismo, a formação humana num útero materno parece simular a própria evolução humana no útero terrestre, com os diversos passos que levaram à formação da espécie.

Ninguém o faz... mas podemos questionar coisas estranhas. 
Se olharmos para a duplicação de células, ela é feita pela mitose, que é um processo fundamental na formação dos tecidos dos indivíduos... no entanto, não há nenhum animal que se "duplique" dessa forma. Só nalgum filme de ficção científica poderíamos ver um ser a duplicar-se... e no entanto, não seria propriamente impossível do ponto de vista físico. A duplicação exige um crescimento, ou seja, os mais novos estariam em aparente desvantagem face aos já existentes... e isso seria definitivo sem o processo de morte. Essa desvantagem dos mais novos face aos já existentes só terminaria se terminasse a competição e se houvesse uma lógica cooperativa. Repare-se que se a duplicação fosse do próprio, os duplos, gémeos, ficariam em imediata igualdade - se tivessem uma lógica competitiva procurariam aniquilar-se imediatamente.
Há muitas outras perguntas... por exemplo, por que razão a nossa cognição não recebe informação interna explícita? Ou seja, o nosso corpo trata da sua defesa interna automaticamente, sem nunca nos informar sobre o que se está a passar... envia os seus glóbulos, tenta conter infecções, mas só temos informação disso por manifestações externas. Na prática é como se o nosso corpo nos fosse externo, e temos um limitado uso dele, na obediência a algumas acções conscientes. Do ponto de vista da evolução natural seria expectável que teria mais sucesso um organismo capaz de exercer maior controlo sobre o seu corpo. Isto já para nem falar nas vantagens de alguns pequenos animais - como a salamandra - que têm a possibilidade de regenerar os seus membros, mesmos quando são cortados.
A conclusão que se retira é que somos confrontados com uma existência, mesmo material, que nos oculta o próprio funcionamento do corpo que a suporta. Se quisermos saber, temos que fazer uma introspecção... médica, e precisamos de considerável aparelhagem para isso. Essa mesma existência dá-nos uma pequena margem de manobra sobre o corpo, muito circunscrita à sobrevivência alimentar, de resto a nossa função resumir-se-ia a uma lógica de espectadores-actores (muito limitados).

11) Sobre a mitologia
O registo fenício de Sanchoniato permite ver uma perspectiva completamente diferente do habitual. Ou seja, parece que os fenícios não teriam visto a necessidade de introduzir deuses no seu panteão. Se o faziam, não era pela linha filosófica de Taautus, seria por uma questão de acompanhar o ânimo da população.
É claro que quando as linhas filosóficas estão desajustadas da cognição da população, entrava-se no esquema de suprir isso com uma alegoria de divindades reconfortantes. Por exemplo, na China há vários templos dedicados a divindades particulares, que são mais ou menos populares consoante têm mais ou menos "milagres" associados. Acaba por ser uma efectiva competição divina, as pessoas dirigem-se aos maiores templos, porque eles foram erigidos como recompensa humana ao maior número de milagres. Se o deus quer ter maior protagonismo, tem que fazer mais milagres... 
Depois, é claro, há as outras religiões mais filosóficas, mas que não se adaptam bem ao desejos mundanos... o espectador-actor pura e simplesmente pretende que o filme lhe seja favorável, quando não consegue mais no enquadramento, com as suas limitadas acções.

Como vimos ainda, pelo registo de Beroso, parece ter havido uma interferência externa na civilização suméria. Os anedotos, ou os Anunaki, conforme lhe queiramos chamar, teriam educado alguns preceitos fundamentais, e apareciam como divindades... neste caso como homens-bacalhau. 
O registo genético dá-nos algumas informações curiosas. As populações de registo A, B, C, D mantiveram ao longo das diversas gerações uma tradição que as prendeu a uma forma de vida adaptada à sua sobrevivência. Devido ao relativo sucesso dessa cultura, algumas não mudam a sua forma de vida há muitos milénios.
Nos primeiros tempos a competição entre humanos deve ter sido pontual... a ideia seria "quem não está bem, muda-se". Assim, é razoavelmente fácil de prever uma migração dos mais novos para outros territórios de caça, já que os anteriores estavam ocupados. Isso teria um limite, e as coisas complicavam-se numa glaciação, ou por períodos de seca... alguns dos territórios passavam a inúteis, e começava-se a cobiçar, ou a entrar no território dos vizinhos, com os conflitos inerentes. Porém, isso só deverá ter acontecido quando houve uma cobertura humana quase completa do território terrestre. Ao ponto, de alguns, mais novos, não terem outra possibilidade senão migrar para paragens americanas. O grupo Q é um dos mais recentes, e no entanto tanto encontraríamos civilizações complexas, como Aztecas e Maias, ou outras civilizações que manteriam um estilo de vida semelhante às tribos africanas, australianas, ou da Nova Guiné. Esse grupo tem o mesmo antecedente que o grupo R, que se iria depois instalar na Europa Ocidental chegando à Índia, definindo talvez uma tradição comum indo-europeia.

Sem entrar em mais conjecturas, é possível que os assírios, que tinham um registo de "reis pastores", tivessem sofrido uma influência de uma cultura ligeiramente mais avançada, mas que permitiria iludir tribos mais antigas, por meio de algumas inovações criativas. Essa diferença de desenvolvimento poderia ser brutal, no espaço de umas centenas de anos... se as outras tribos permanecessem agarradas à sua tradição milenar.
No entanto, isto não significa que a civilização mais avançada se aproveitasse simplesmente das restantes... no caso assírio nota-se uma tentativa de ensinar, que depois será ainda complementada com os ensinamentos de Zoroastro. No entanto não iria interferir sempre, procuraria controlar os acontecimentos à distância... como nos viemos a habituar. Apoiaria a potência e prepararia um rival que se opusesse, equilibrando tanto quanto possível os acontecimentos na zona Euro-asiática.

É interessante citar aqui os Ainos, uma daquelas tribos que manteve o seu registo civilizacional durante milénios. Alguns antropólogos do Séc. XIX foram estudá-los e notaram a grande diferença civilizacional, tendo ficado impressionados com a sua dificuldade de comunicação... a conversa seria coisa entre pais e crianças, para passar a informação existente. Não havendo conversa entre adultos, seria complicada uma evolução (por outro lado não perderiam tempo com rumores e ofensas).
Assim, a informação às crianças era passada através de alegorias em contos. 
Um deles é instrutivo para o efeito deste texto. Tratava de uma lenda da coruja e do rato.
O rato teria roubado sementes à coruja, e esta acabou por encontrá-lo exigindo a devolução. O esperto rato pediu desculpa e disse que iria compensá-la com um segredo que lhe daria prazeres incríveis. 
A coruja concedeu, e o rato disse que ela deveria subir a um pau e depois deixar-se cair. A coruja assim fez, e só depois de empalada é que deu conta que tinha sido enganada de novo. 
A partir daí as corujas nunca deixaram de perseguir os ratos.

domingo, 2 de junho de 2013

Abertura genética

9) Lendas segundo a genética
O desenvolvimento moderno da genética abriu novas perguntas às teorias habituais da migração humana. No entanto, tem-se visto uma tentativa de manter as versões anteriores, que parecem ser inconsistentes com aquilo que a genética tem apresentado. É claro que, como em todas as coisas, há duvidas, e haverá quem as coloque quando as hipóteses não interessam. As teses acabam por ser compromissos comunitários, que mais do que seguirem a verdade, tentam seguir o consenso... para evitar problemas com quem teima na sua intransigência. Mas, para além disso, não é muito claro saber se as populações são mesmo nativas da área, ou quando ali se instalaram. De qualquer forma, há dados razoavelmente credíveis, que já levantam algumas dúvidas.
Esquematizamos num quadro alguns gráficos disponíveis na Wikipedia sobre a distribuição dos haplogrupos-Y, que seguem a linha masculina da ascendência (começou entretanto a investigação sobre os haplogrupos mitocondriais, que seguem pela linha feminina).
Há uma hierarquização genética, que começa nos grupos mais antigos A, até aos mais recentes NOQR, isto sem contar com as múltiplas variações. Sobre as variações em subgrupos mostramos apenas a diferença entre o R1a e R1b.
O resultado geral parece apontar para a chamada teoria "out of Africa"... ou seja, estes estudos parecem confirmar uma origem africana dos nossos ancestrais.

A--E) Dos haplogrupos mais antigos, o E manifesta-se especialmente por quase toda a África, com incidências a atingir os 100% em diversas partes. Essa variação "E" teve grande sucesso no continente africano, onde sempre se manteve e consolidou, a menos de pequenas excepções. 
F-G-H) A variação de que partirá a grande maioria da restante população humana será a F, que terá saído de África. Podemos suspeitar que tenha começado a entrar em territórios Euro-asiáticos, pelas suas variações G e H de que se encontram pequenos registos espalhados na Ásia central, até à India (H) e Europa (G). Variantes do "F" encontram-se ainda hoje entre ciganos e mongóis.

Convém aqui explicar que a forma como estamos a analisar difere do usual. Apesar da esmagadora presença do haplogrupo E em África, há quem sustente que a sua origem é da Ásia (porque a variante "irmã" D encontra-se residualmente em Tibetanos ou em Ainos no Japão).
Porém o ponto mais importante é outro. Há uma espécie de ancestralidade que se manifesta em 10 gerações principais até ao N-O-Q-R. Podemos ver o A como "trisavô" do E e do F, que seriam "primos".
Nas teorias habituais tem-se acomodado que o "trisneto" é mais velho que o "irmão"... e ainda que não seja impossível, parece-nos um exagero de forçar datação às crenças pré-definidas. Assim, é suposto o G ter-se originado há cerca 20 mil anos, mas o "irmão" IJK iria gerar um trisneto "O" que aparecia 10 mil anos antes, ou seja, há cerca de 30 mil anos. Todos sabemos de casos em que o irmão pode ser mais novo que o filho, e em vista de populações seria perfeitamente admissível situações dessas, mas não exageremos...

Por isso, vamos evitar essa "ginástica acrobática de datação", e seguir uma datação genética que seria natural, sabendo que não segue uma datação consensual e suas múltiplas justificações acessórias.

Uma questão antropológica é que a tez negra parece estar ligada aos grupos africanos A, B e E. Assim, o seu aparecimento noutras populações (por exemplo, indianas e australianas), pode ter resultado de uma expansão alargada de um destes grupos (provavelmente o CT, antepassado do E). Quando as novas populações chegavam às mesmas paragens, a sua "confraternização" poderia manter a tez negra materna, e o haplogrupo paterno.

Assim, será de admitir que o grupo original CT possa ter sido o primeiro a propagar-se globalmente atingindo a Europa, Ásia e depois a Oceânia. Uma razão para isso pode ter sido uma primeira "idade glacial", em que os limites continentais eram mais ténues pelo abaixamento do nível marítimo.

As razões para uma significativa diferença de "raças" pode ter a ver com subsequentes aumentos do nível marítimo, que isolavam populações. Ou seja, por um lado a época glacial forçava a uma migração para zonas equatoriais, e a baixa das águas permitiria uma expansão, mas depois essas zonas passavam a ilhas... quando o nível marítimo voltava a subir. Se as populações ficavam isoladas das outras, definiam-se particularidades genéticas distintivas, que levaram à noção de "raça". Isto aconteceria com todos os animais, e não apenas como humanos, como é claro...
Podemos ilustrar isto com um pequeno esquema:
Numa primeira fase, a população vermelha aparece no continente, e numa segunda fase, pela baixa de águas, pode entrar na ilha. Mas numa terceira fase o aumento de águas volta a isolar a ilha, que nesse novo ambiente pode adquirir, numa quarta fase, novas características (a azul) - por exemplo, adaptação ao frio. Um novo abaixamento de águas, numa quinta fase, pode gerar uma competição entre essas populações, que já se vêem como diferentes... e assim sucessivamente.
Assim, a oscilação do nível de águas, provocado por períodos glaciares/diluvianos, pode ter definido diferenças evolutivas significativas.

Voltando aos haplogrupos de que falávamos, podemos admitir uma idade glacial que permitiu a expansão CT, mas que depois, por factor diluviano - aumento de águas, distinguiu as populações, especialmente o F  que separadamente adquiria tez mais clara, do E (que teria evoluído no continente africano).
Acresce a este sinal, os dados que colocam descendentes directos do F na zona do Cáucaso (G) e na Índia (H), ou alguns D no Tibete ou Japão, e os C em paragens semelhantes (que se estendiam também à Oceânia).

Portanto podemos ter aqui uma primeira separação de características.

I-J-K) Da variante IJK "filha" de F, surgem dois grupos separados que ainda são hoje dominantes nas respectivas regiões. O grupo "I" que pode ser visto como "germânico", com incidências até 50% na Escandinávia, Lituânia, e superiores a 50% na zona da Croácia... ou seja, populações com grande estatura.
Por outro lado, o grupo "J" estará mais associado a populações semitas, com concentrações que chegam a 100% na Arábia, estando espalhadas desde o sul ibérico, pela bacia mediterrânica até à India.
Curiosamente haveria um ascendente comum IJ... talvez saindo Cáucaso, com a descida de águas, uns tivessem seguido o frio para norte (I), e outros regressado às paragens quentes a sul (J).

O que aparece como notável é que o outro "neto" do grupo F será um grupo K, de onde irá aparecer a maioria da população mundial - as populações orientais, europeias, nativas americanas e siberianas.
Isso foi o que mais me surpreendeu, já que aparentemente nos vemos mais próximos dos IJ do que dos N, O, ou Q... que são "primos" dos R.

NO-P) Surge assim o problema do K... de como se vai espalhar por todos os continentes.
A sua origem parece ser indiana. Ou seja, se os IJ sairam do Cáucaso, o K parece sair dos Himalaias (devido ao registo L na zona do Indo, mas também pelos vestígios T da Índia até à Ibéria, na zona concorrente com a presença dominante do J).
Parece fixar-se em território euro-asiático, mas surpreendentemente aparecerá no continente americano (talvez pela passagem de Bering, ou alternativamente via Irlanda-Terra Nova).
Quando se dá novo degelo diluviano, mais uma vez as populações teriam ficado isoladas. Só isto justificaria a posterior divisão do K. Por um lado um grupo NO tipicamente asiático, por outro lado o seu grupo "irmão" P que se estende da América até à Europa Ocidental. Em menor escala aparecem os grupos M e S, na Oceânia. A difusão do grupo K parece ter sido global...

Q-R) O isolamento do continente americano definiria a divisão do grupo P nos grupos Q (índios americanos) e R (europeus ocidentais)... enquanto que, pelo outro lado, a inundação do Mar Cáspio até ao Ártico teria definido uma diferença entre N (siberianos) e O (orientais).

A outra surpresa é uma dominância do R em parte dos nativos da América do Norte, especialmente Canadá (onde atinge quase 100%), havendo alguns focos na zona do Brasil e Perú.
No entanto, isso explica-se provavelmente doutra forma - pela cobertura, pela ocultação das viagens marítimas atlânticas, que instalaram populações de origem europeia na Terra Nova e Canadá. Entretanto a essas populações é dado o estatuto de indígena, e aparecem nestas estatísticas como nativos e não como colonizadores.
Normalmente os mapas do grupo R são focados na Europa e Ásia, para evitar mostrar esse "problema" evidente das navegações (há também um registo R na Austrália, mas bem mais pequeno).

R1a,b) Detalho o grupo do R, porque teve uma grande expansão europeia e asiática, mas há uma diferença geográfica razoável entre o R1a e R1b, o que pode indiciar nova separação por aumento do nível marítimo, numa separação do Mar Negro. A parte R1a está essencialmente a leste, estendendo-se até à Índia, enquanto que a parte R1b ficou mais concentrada na zona Atlàntica.

Para a conclusão...
Estes dados, apesar de terem suporte científico (acreditando na informação disponibilizada na Wikipedia), não devem ser sobrevalorizados face às outras informações, inclusivé míticas. Quando as informações vão sendo concordantes, é um sinal de seguir nesse caminho... quando não são, é preciso rever o que está em causa, e quem defende o quê, e porquê! 
Aquilo que coloquei foi a linha racional que encontrei que me pareceu fazer sentido, face aos dados disponíveis. Mesmo sem ter em atenção múltiplos outros factores, já não é muito fácil fazer uma teoria consistente que se limite a englobar estes dados, que parecem descoordenados, a menos que se usem teses mais fantasiosas, mas politicamente correctas.

Para uma conclusão retiram-se algumas novidades, que devem ser agora enquadradas com outros dados, nomeadamente as raízes linguísticas, culturais, os legados arqueológicos, míticos, etc... mas isso fica para outra oportunidade, pela óbvia complexidade.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Adamastor (26/12/2009)

Quinto texto da série "Tese de Alvor-Silves", publicado em 26/12/2009. Aqui, nalguns pontos, a interpretação "artística" vogou na corrente, e sobrepôs-se à necessária objectividade. Passados alguns dias, vendo isso, decidi concatenar a parte factual dos mapas (deste, e do texto anterior), suprimindo o restante. Por isso, o texto que aqui recoloco deve ser visto mais como uma obra de ficção com base nalguma documentação objectiva, por mais sentido que possa fazer.

Entretanto já percebera que o sistema estava completamente minado, não apenas pelas instituições formais, mas até nas informais. Por isso, a abordagem mais informal, mais polémica, acabou por ser menos eficaz do que tinha previsto. Antes, fruto de educação e informação distorcida, pensara erradamente que o sistema poderia reagir bottom-up, mas as mudanças conhecidas, mesmo aparentando a forma revolucionária, tiveram quase sempre uma génese top-down

A partir daí, tudo ficou mais fácil... não me tinha dado conta de que não precisava fazer quase nada, de que tudo se desenrolaria naturalmente, como uma evidência submersa que pela sua leveza terá forçosamente que emergir.

Segue-se o texto:



domingo, 30 de dezembro de 2012

Encoberto (22/12/2009)

Depois do "Colombo", coloco aqui o quarto texto da série "Tese de Alvor-Silves", sob o título "Encoberto", conforme foi escrito há três anos. Creio que esta foi a primeira versão lançada em 22/12/2009, mas depois fiz algumas alterações e acabei por concatená-lo com o texto seguinte (denominado "Adamastor"), para suprimir as muitas opinações fruto do estilo que ia assumindo. Com a supressão do Knol, muitas das imagens já nem tinham ligação, e tive que recuperá-las em ficheiros gravados. Ao procurar nos ficheiros antigos, fui recuperando muitas coisas que escrevi e que deixei para trás. A mais interessante é a do mapa de Jorge Aguiar, que vou aqui colocar em breve.

Neste texto há dois detalhes sem grande importância, mas que quero referir, pois envolvem o programa de José Hermano Saraiva, que ainda passava na RTP-2. Foi nesta altura que o vi colocar a interrogação sobre a ideia do Infante D. Henrique no desembarque em Ceuta para um ataque terrestre a Tanger. Essa lenta progressão terrestre tinha sido a principal causa do desastre militar, que veio a sacrificar o Infante D. Fernando, que era quem comandava o ataque naval e não estava em perigo...
- Nessa altura estava bastante convencido (como é visível) de uma oposição política sobre a direcção das descobertas... de um lado o Ocidente oferecia-se a uma colonização, aparentemente mais pacífica, e pelo lado Oriental esperavam-se sangrentas batalhas, para a reconquista de Jerusalém (projecto antigo dos Templários, herdado na Ordem de Cristo). Este ideal da reconquista de Jerusalém prosseguia da Idade Média, passados vários séculos sobre a recuperação liderada por Saladino. Feito o Índico um mar cristão, abriria uma frente de ataque - pela rectaguarda, para entrada pelo Mar Vermelho e reconquista da Terra Santa. Tal plano seria seguido por D. Manuel, e executado admiravelmente por Afonso de Albuquerque, até à sua deposição. Nesta hipótese, a linha de acção da Casa de Viseu, iniciada pelo Infante D. Henrique, concretizada por D. Manuel, seria essa - a da cruzada templária a oriente. Por outro lado, a linha da Casa de Coimbra, iniciada pelo Infante D. Pedro, seria (por hipótese aqui colocada) a oposta... seria a de uma expansão colonial e comercial a Ocidente. A Casa de Coimbra tem o seu principal protagonista em D. João II, e a prova objectiva do seu interesse a Ocidente será o Brasil marcado em Tordesilhas. Preterido D. Jorge a D. Manuel na sucessão de D. João II, a sua Casa de Coimbra vê-se forçada a mudar de nome para Aveiro, e os partidários desse projecto de D. João II, ao governarem a Índia, vão esquecendo o objectivo de cruzada. Finalmente, a Casa de Bragança aparecia na sombra, tal como em Alfarrobeira, claramente opositora de Coimbra, representaria essencialmente a oposição a qualquer iniciativa, manobrando nos bastidores da corte. Acabará tanto por convidar a entrada de Filipe II como ser catapultada para o derrube de Filipe IV.
A ideia de que o Infante D. Henrique estaria mais motivado pela cruzada, do que pelas descobertas, ficou mais consolidada naquele programa, pela questão levantada por José Hermano Saraiva.
- O outro detalhe, ocorreu poucas semanas depois. Tendo mencionado o antigo relógio nas Caldas da Rainha, vi outro programa de José Hermano Saraiva que invocava um ainda mais antigo relógio de Serpa, e apesar deste estar datado de 1440, creio que ele o dava como mais antigo. Apresentava ainda, como curiosidade do Museu de Serpa, um relógio de navegação que, ao seu estilo, avisava ser francês... como se avisasse que tal prodígio não era suposto constar das nossas navegações.

Por outro lado, relendo o texto, devo avisar que a minha suspeita da utilização de um sistema de coordenadas local, zenital, baseado nas direcções que partiam das rosas-dos-ventos, e outros centros, se revelou à época menos promissora do que aparentava... verdade seja dita que também não tive vontade de inspeccionar mais. Ou seja, na altura, pareceu-me estranho que se desenhassem cartas mais imprecisas nos anos seguintes às descobertas, para além de muitas marcações, que estavam claramente erradas. Poderia ser só para despiste, mas tal como virando o Reinel se descobre em África um contorno Mexicano, pareceu-me ser natural que os mapas tivessem outros segredos. A pista de Pedro Nunes seria fundada no modo mais prático de navegação, ou seja seguindo as direcções locais que convinham aos "mareantes" pela sua posição. Poderia ser que escondessem num contorno impreciso do continente europeu, um contorno preciso de outras paragens... Mas a inspecção disso não é fácil, porque não é possível saber o que pretendiam representar, nem há mapas suficientes para o confirmar.
Já coloquei aqui a análise da Carta do Atlântico Norte para dar uma ideia do tipo de coisas que se podem procurar, mas terá pouco valor objectivo... a menos que seja para rebater interpretações mais mirabolantes feitas com outros mapas, nomeadamente o de Piri Reis.

O globo de João de Lisboa (que nos serve aqui de logotipo) é um claro exemplo de uso de coordenadas polares - com um só pólo, o pólo norte:
e já aqui fiz a conversão para aparecer como um planisfério típico:
Para que se perceba o trabalho envolvido nestas coisas, tive que assinalar manualmente cada pontinho na carta, para depois programar automaticamente a conversão que se vê.

Se aceitarmos que se trata de um mapa de 1514 e não uma adição feita até 1560 ao seu Tratado (cf. Cortesão), e já apresentámos várias provas, dará uma ideia parcial do que se sabia 5 anos antes da circum-navegação de Magalhães.

Depois, é claro, estas coisas são esquecidas, e como sabemos que não temos capacidade para coisas complicadas, aparece, passados 134 anos, em 1648, um francês de nome Louis de Mayerene Turquet, com a mesma representação centrada no pólo norte, reclamando a sua autoria:
La Nouvelle maniere de representer le Globe terrestre
... inventée par Louis de Mayerene Turquet 
(1648)

Repare-se que muito provavelmente Turquet não sabia da existência do mapa de João de Lisboa, tal como hoje a maioria dos estudos em cartografia que vemos parecem ignorar olimpicamente a maioria dos mapas constantes na Portugallia Monumenta Cartographica, lançada há mais de 50 anos... enfim, também parece que está esgotada.

Segue o texto, que me recorda o também o dia em que o contador do Knol "decidiu parar", e a que se devem dar os devidos descontos de entusiasmo, de quem tinha acabado de cair "na real":



sábado, 29 de dezembro de 2012

Colombo (17/12/2009)

Não me interessa especialmente a pessoa de Colombo, interessa-me mais a personagem. Por isso, é para mim razoavelmente secundário saber onde nasceu, ou a sua filiação biológica. 
"Personagem" hoje tem significado diferente de "pessoa", mas ambas derivam de "persona", que deve decompor-se em "per-sona", no sentido "per"-através, e "sona"-soa... ou seja, que o som vem através de si. É hoje algo estranho associar uma pessoa apenas como veículo de emissão de som, é mais apropriado à figura auxiliar de uma personagem, de um actor.
Uma personagem pode ser interpretada por vários actores, várias pessoas.
Na minha opinião Colombo foi personagem, pouco escreveu no guião que o viria a tornar famoso. A personagem poderia ter tido outro actor, e a as particularidades da pessoa de Colombo têm só interesse para compreender por que razão se tornou "o escolhido".

Recupero aqui o texto com o título "Colombo", que publiquei no Knol em 17 de Dezembro de 2009, e que entretanto desapareceu, devido ao cancelamento do projecto Knol da Google. Aliás, já antes o tinha cancelado, e por isso, a reclusão deste texto foi mais resultado de auto-censura induzida à época.
Ora, apesar de poder justificar as razões que levaram à reclusão de alguns textos, acabo por notar que fazem falta... Fazem falta porque permitem comparar uma opinião "mais entusiasmada" à época, com a distância que o tempo deixou correr. Para além disso, fazem parte da história deste blog, e seria algo contraditório criticar a supressão histórica e fazer o mesmo aqui...
Nem é que tenha mudado de opinião, pelo contrário, relendo os textos até me surpreende nem ter mudado quase nada, simplesmente hoje não exporia assim, para não me expor...
A falta de sentido na vida de muitos, leva-os a procurar retirar sentido à dos outros. Isso é uma característica tipificada na vida de algumas alimárias, que se resume a uma competição territorial, alimentada pela sua biologia. Quando o indivíduo se julga o campeão da carica, ou similar, é a sua biologia competitiva a falar mais alto. Qual o sentido dessa biologia competitiva? - Não é a preservação do indivíduo, porque esse é condenado à morte pela própria biologia celular (nem as bactérias são imortais). Será o apuramento da espécie? - Até que ponto, até que só restasse uma? - Para quê? - Será que se pensa que o universo é uma entidade masoquista que vai criar uma espécie que o dominaria (como se tal fosse possível...), ou será que se pensa que é uma entidade sádica que visa aniquilar as espécies menos aptas? Já sei que nem se pensa uma coisa, nem outra, agora é moda pensar que é tudo fruto do "acaso". O "acaso", tal como Deus, é tido como uma entidade supra-universal, condicionaria o universo, mas não faz parte dele, contrariando a própria definição de universo - que engloba tudo. Não sei se a epistemologia moderna se esqueceu deste "detalhe" de contradição lógica, ou quer fazê-lo passar por esquecido, mas tem feito Escola, e que Escola!
O que me parece evidente é que a humanidade se entretém em criar objectivos num universo artificial, construído por si própria, a que chama "sociedade", e que sob o ponto de vista da competição genética, terá tanto sentido quanto as cortes sexuais feitas pelos pavões - sem dúvida que há muito pavonear digno de admiração.

Bom, como isto já parecerá pavonear filosófico, segue o texto:



domingo, 23 de dezembro de 2012

Fretum trium fratrum

Tive conhecimento apenas há dias da morte de Manuel Luciano da Silva, que passou de forma mais discreta que José Hermano Saraiva, ambos falecidos neste ano de 2012. O meu conhecimento dos dois resumiu-se ao que divulgaram, cada qual à sua maneira e contexto. Há três anos quando começava a pesquisar sobre estes assuntos, o site DightonRock foi talvez dos primeiros onde vi alguma contestação mais consistente às versões oficiais. Nessa altura foram ainda importantes:
- Portugalliae de José Manuel Oliveira, 
- Ilhas Míticas do Atlântico de Rui P. Martins, 
- Causa Mérita de Rui Duque. 

É reveladora a frase que Rui P. Martins tem no final da sua página:
Fica já agora um agradecimento a todos os editores que rejeitaram os meus livros por não ter já publicado (o chamado ciclo vicioso) e por não ser um descendente de alguém famoso. Bem hajam! (e que ardam todos no Inferno)
Esta é uma pura informação de marinheiro, que serve de aviso à navegação seguinte. É um aviso de baixios, onde encalharam tantos esforços de divulgação.
Para que conste, acho que são tudo esforços infantis contra-a-corrente, e refiro-me apenas aos dos editores e seus mentores encobertos. 
A parte não tem nenhum poder sobre o todo. 
Por isso, toda a ilusão de domínio, controlo, poder, etc... não passa disso mesmo, de uma ilusão temporária. No máximo, as dificuldades levantadas, os dramas vividos, cumprirão a posteriori uma justificação de apuramento da consciência.

Um ponto comum nos autores que citei foi dar relevo à exploração dos Corte-Real, e nesse sentido junto mais alguma informação sobre o
Fretum trium fratrum (Estreito dos Três Irmãos)
Esta designação é comummente atribuída aos três irmãos Corte-Real, na expedição de 1500, a mando do Rei D. Manuel, e que já aqui referimos muitas vezes.

No livro "Voyages in Search of the North-west Passage", de Richard Hakluyt (1552-1616) é elucidativa a menção:
And the King of Portugal, fearing lest the emperor would have persevered in this his enterprise, gave him, to leave the matter unattempted, the sum of 350,000 crowns; and it is to be supposed that the King of Portugal would not have given to the emperor such sums of money for eggs in moonshine.
It hath been attempted by Corterialis the Portuguese, Scolmus the Dane, and by Sebastian Cabot in the time of King Henry VII.
And it hath been performed by the three brethren, the Indians aforesaid, and by Urdaneta, the friar of Mexico.
Portanto, temos uma compra do Rei de Portugal (provavelmente D. João III) no valor de 350 mil coroas, dadas ao Imperador de Espanha, que teriam o objectivo natural de silenciar a Passagem Noroeste.
Como Hakluyt diz ironicamente, tal valor não seria dado para "ovos ao luar" (uma receita da época)... seria naturalmente para manter a exclusividade da Rota das Índias.
Por isso, a ocultação de que nos podemos queixar hoje, foi também, como é óbvio, resultado da política comercial que privilegiava "o segredo do negócio".

Hayklut refere-se à tentativa de João Vaz Corte Real e de John Scolvus (John Scolmus, ou ainda Jan Kolna), que teriam participado na expedição comum organizada por Afonso V e Cristiano I da Dinamarca, em 1473, que teria ainda Didrik PiningHans Pothorst (tidos como piratas), bem como Álvaro Martins. Estes exploradores foram recompensados, com capitanias (Corte Real e Álvaro Martins) e com o governo da Islândia (Pining)... e como diria Hakluyt não teria sido devido a "ovos ao luar".
Hakluyt inclui ainda na lista de tentativas falhadas Sebastião Caboto, filho de João Caboto, que teria sido forçado a regressar pela tripulação, ao tentar a Passagem Noroeste.

Mais notável é que Hakluyt não parece ter dúvidas que teria sido conseguida pelos três irmãos Corte-Real, sendo conhecida a história de Gaspar, que desaparece em 1501, do irmão Miguel que desaparece no seu encalce, e do irmão Vasco, que é proibido de os procurar por ordem de D. Manuel.

No entanto, aqui é preciso relativizar, e não cair no mesmo erro que criticamos (aceitar documentos sem olhar às intenções de quem os produz)... há intenções em Hakluyt - uma clara pretensão de convencer a Rainha Isabel I de Inglaterra a patrocinar as viagens pela Passagem Noroeste. Chega aliás a comparar a sua proposta, à proposta de Colombo à outra Isabel, a Católica. O objectivo era atingir o Oriente por essa Passagem Noroeste. 
Vai mais longe, e aqui vemos o problema de quem está fora do controlo da situação:
These things considered and impartially weighed together, with the wonderful commodities which this discovery may bring, especially to this realm of England, I must needs conclude with learned Baptista Ramusius, and divers other learned men, who said that this discovery hath been reserved for some noble prince or worthy man, thereby to make himself rich, and the world happy(...)
Ou seja, Hakluyt citava Ramusio (e "outros") para considerar que a descoberta estaria reservada para alguém devidamente "escolhido"... um autêntico "teórico da conspiração", este conselheiro de Isabel I. No entanto, é seguindo estes "teóricos da conspiração", que achavam que a Inglaterra estava a ficar "fora da submersa jogada" internacional, que Isabel I vai lançar as bases para a ascenção inglesa.
Richard Hakluyt (vitral na Catedral de Bristol)

Como já dissemos foi Hakluyt que traduziu António Galvão e o considerou uma preciosidade... tal como Galvão foi repudiado e acabou na miséria, Hakluyt cita outro exemplo:
Nevertheless, to approve that there lieth a way to Cathay at the north-west from out of Europe, we have experience, namely of three brethren that went that journey, as Gemma Frisius recordeth, and left a name unto that strait, whereby now it is called Fretum Trium Fratrum.  We do read again of a Portuguese that passed this strait, of whom Master Frobisher speaketh, that was imprisoned therefore many years in Lisbon, to verify the old Spanish proverb, “I suffer for doing well.”  Likewise, An. Urdaneta, a friar of Mexico, came out of Mare del Sur this way into Germany; his card, for he was a great discoverer, made by his own experience and travel in that voyage, hath been seen by gentlemen of good credit.
"Sofro por fazer bem...", é o ditado espanhol que Hakluyt usa para descrever a situação de um português que teria sido aprisionado muitos anos, por ter passado esse Estreito dos Três Irmãos, segundo Martin Frobisher. As explorações portuguesas pararam por decreto, e quem o desrespeitasse arriscava o cárcere. Hakluyt cita ainda o globo de Gemma Frisius que diz:

Fretum trium fratrum, per quod Lusitani ad Orientem et ad Moluccas nauigare e conati sunt

Esta afirmação de Frisius "Estreito dos Três Irmãos, pelo qual os Lusitanos navegaram e procuraram o  Oriente e Molucas" (assinalada por R.P.Martins), é uma das provas que Hakluyt usa para fundamentar a existência dessa mesma passagem. Ora, não são conhecidas razões que levassem o holandês Frisius a querer atribuir a navegação aos irmãos portugueses, a menos que ela tivesse de facto ocorrido. Para além disso, quer Ortelius, quer Lavanha, nos seus Theatrum Mundi, tinham contornos da zona ártica demasiado bons para serem apenas um mero acaso.
Há ainda uma curiosa menção ao frade e navegador espanhol André de Urdaneta, que também teria realizado a Passagem Noroeste, no sentido oposto. Porém, a partir daí, a partir do Séc. XVII, essa passagem irá revelar-se um plano falhado. A Inglaterra apostará nessa demanda, seguindo o conselho de Hayklut, e muitos dos nomes acabaram substituídos pelos nomes dos exploradores ingleses. Haveria um Promontório Corte-Real, perto de um rio Polisacus (referindo-se a Jan Scolvus), mas esses nomes foram convenientemente substituídos:
Moreover, the passage is certainly proved by a navigation that a Portuguese made, who passed through this strait, giving name to a promontory far within the same, calling it after his own name, Promontorium Corterialis, near adjoining unto Polisacus Fluvius.
Curiosamente, ainda hoje se mantém o nome "Labrador", referindo-se João Fernandes (Lavrador), que tem sido misturado na expedição de Caboto à Terra Nova. Injustamente parece que o nome de Caboto foi ignorado, e só permaneceu o nome do "lavrador"... Houve, é claro, um anterior João Fernandes ao serviço do Infante D. Henrique, mas não seria "lavrador". Até porque sabemos que as navegações do Infante iam sempre no contorno africano, e as do Atlântico resumiam-se a encontrar os Açores. Descobertos os Açores, que sentido é que fazia continuar para Ocidente? Parece que nenhum, parece que toda a exploração ocidental começara e terminara na descoberta dos Açores. Ora bem, nada mais lógico para a inteligência nacional.

O problema posterior, explica-se com um gráfico de alteração da temperatura:
Variação de Temperatura nos últimos 1000 anos (de john-daly.com)

Ao contrário do que tem sido propagandeado, o aumento de temperatura recente nada tem de tão artificial... e com isto ninguém está aqui a dizer que não há óbvios cuidados a ter com o meio-ambiente e poluição.
O que se passa é que há alguns ciclos naturais de temperatura (talvez pela actividade solar). A temperatura começou a aumentar no final da Idade Média ("Medieval Warm Period") atingindo o máximo no início das Descobertas, e depois vai começar a diminuir sucessivamente. No final do Séc. XIX terá atingido o seu mínimo global ("Little Ice Age").

Qual o problema disto? Os marinheiros dos Séc. XV e XVI estavam ainda a beneficiar desse período quente, as zonas árticas e antárticas não estavam tão inacessíveis à navegação quanto iriam ficar nos séculos seguintes. A Passagem Noroeste seria possível para os irmãos Corte-Real, mas começaria a ser quase impraticável para os exploradores que se seguiriam.

Talvez uma das mais dramáticas ocorrências é a de Hudson, que acabará abandonado pela tripulação, que se recusará a prosseguir na demanda pela Passagem Noroeste. A baía de Hudson que tomou o seu nome aparecia já sinalizada nos mapas de Ortelius e Lavanha. A concretização da passagem é atribuída a Amundsen, já no Séc. XX. 
No entanto, durante todo o Séc. XX a passagem esteve bloqueada pelos gelos, só sendo possível com quebra-gelos. Terá abrido recentemente com o degelo, que se atribui ao "aquecimento global", esquecendo o registo histórico da variação de temperaturas.
Ainda que haja uma nova passagem para os navios entre a Ásia e a Europa, parece que são preferidas as temperaturas mais frígidas, e o eventual perigo de desinteresse no Canal do Panamá é relativo, dada a cessão de controlo pelos EUA desde 1999.

O gráfico anterior é ainda instrutivo se atendermos a que se evidencia um ciclo de circa 500 anos, que colocaria a outra "pequena idade do gelo" no início da Idade Média, e um período mais quente na época romana, algo que já tínhamos sinalizado. Essa temperatura poderia ser de tal forma quente que os romanos consideravam as terras abaixo do Trópico de Cancer como inabitáveis.

Coloquei aqui apenas algumas citações do livro de Hakluyt relevantes para o tema, há ainda uma menção à chegada de índios na época do Império Romano e na época medieval, que Hakluyt associa à Passagem Noroeste. Provavelmente retira parte dessa informação de Galvão, conforme já mencionámos, mas o seu objectivo é forçar a via noroeste, negligenciando a rota nordeste, que depois será tomada por Melgueiro. A viagem de Melgueiro será especialmente notável, pois em 1660 os gelos já tornariam a navegação na Passagem Nordeste uma proeza única.

Nota: Hakluyt tem o nome numa Sociedade "The Hakluyt Society" onde se podem encontrar alguns textos que navegam contra a corrente oficial dos descobrimentos. Curiosamente tem também o nome associado a uma firma de "inteligência" que saiu do MI6 inglês -  Hakluyt Company.