domingo, 5 de novembro de 2017

Quando a constituição espanhola se sobrepõe à portuguesa...

A constituição espanhola sobrepõe-se à portuguesa, quando órgãos políticos portugueses, começando pela Presidência da República, ou pelo Governo, por via do inqualificável ministro socretino, Augusto Santos Silva, abordam o problema catalão como um problema interno de Espanha... e nesse sentido cumprem o nº1 do Artigo 7º da Constituição Portuguesa - que proclama a "não ingerência nos assuntos internos de outros Estados", mas aparatosamente esquecem o seu nº 3 que diz explicitamente algo incómodo:

"Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão."

Esta pequena observação foi feita pelo Bloco de Esquerda, para fazer notar que essa deveria ser a posição do Estado português. 
Algo verdadeiramente curioso, já que os órgãos portugueses se preocupam mais com o respeito das leis espanholas, do que com o respeito das leis portuguesas, que assim exigem, através da Constituição, ao direito dos catalães à autodeterminação e independência. Tanto mais grave é, quando são o Presidente da República e o Governo, os porta-vozes descarados de uma lei fundamental que legitima o seu poder, mas que fizeram gala descarada de não cumprir, apenas para aparecer na fotografia em boas relações com "nuestros hermanos".

Tanto pior, quando o estado espanhol, invocando uma lei anti-secessão, toma em vias de facto, penas de prisão pesadíssimas para os infractores, que ameaçaram a sua unidade territorial. Basicamente estão acusados de crimes muito menores do que estariam D. João IV e os restantes conjurados, quando se quiseram ver livres de uma lei que os obrigava a combater na Guerra dos Trinta Anos.

Protesto para a libertação dos presos políticos catalães. (img)

Na politiquice do facto consumado, e carneirismo aceitante, Carles Puigdemont aparece como um fugitivo da justiça, e sem comandar um exército capaz de se opor à força do estado espanhol, até poderá ser ridicularizado como uma figura impotente, mas nenhum dos seus críticos perspicazes teve uma ameaça real de 30 anos de prisão... meramente por executar o resultado de escrutínios eleitorais.

Tratam-se obviamente de presos políticos, e a Espanha, que só tolerou a independência portuguesa pela resistência das armas, continua presa no seu autismo despótico, num percurso de intolerância, que sempre caracterizou a sua história. Só os ignorantes podem afirmar que a Catalunha não tem um percurso histórico com diversas insurreições contra Castela. Esta é apenas mais uma, e não é muito diferente do que foi feito pelos independentistas em 2014, sem as consequências que Madrid quer agora tornar exemplo... como se obrigar alguém a ser espanhol à força, fosse algo "democrático".

Será tão "democrático", quanto foi a China inserir o Tibete como sua província... mas também toda a gente já se esqueceu de que Lassa reclamou a independência, e muitos foram os governos ocidentais que apoiaram essa vontade... até que as relações económicas crescentes com a China desaconselharam a insistência ocidental nessa autodeterminação, e o assunto é hoje em dia esquecido, para benefício das contas comerciais. O problema foi exorcizado para debaixo do tapete, dando ao Dalai Lama um exílio dourado em paragens americanas.

Revolta de 1959 em Lassa (Tibete) contra o poder chinês, efectivo desde 1950 (img)

Puigdemont não será um Dalai Lama, e mais facilmente se procurará fazer dele uma figura risível, para gáudio da espanholada, inclusive da muita espanholada que passa por ser portuguesa. No entanto, mesmo que a Espanha consiga os seus intentos de esmagar a independência catalã pela força, ou pelo ardil de condicionar próximas eleições, não resolverá nenhum problema, e apenas adiará a resolução duma vontade, que voltará a não ser esquecida pelas gerações vindouras... por muito que a Espanha procure reprimir, ou até invadir a Catalunha com residentes de outra províncias.

A escolha de Bruxelas, para fuga de Puigdemont, não terás sido apenas por se tratar da capital da UE, ou de haver uma vontade secessionista entre flamengos e valões. A Flandres belga conheceu durante séculos o domínio de rei espanhol, e só em 1714, no mesmo ano em que caiu Barcelona para Filipe V, é que a Flandres se livrou de um domínio real hereditário, com capital em Madrid. 
Portanto, é simbolicamente um apelo a um país que poderia também estar ainda sob domínio espanhol, mas em que as circunstâncias geográficas, permitiram depois um desfecho bem diferente, que não foi conseguido pelos catalães.

Passada uma semana, em que estive fora do país, foi sem surpresa que vi Portugal de novo ignorando os seus problemas estruturais (como os incêndios) e entretido em pequenos nadas, que tanto consomem os grandes nadas, que ocupam o vazio nacional.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O mapa em 27.10.2017

Em termos de auto-proclamadas independências e dependências, o novo mapa ibérico passou a ser:

Não é todos os dias que se pretende alterar o mapa ibérico, e a data foi escolhida nos números.

Sim, Espanha não reconhece a soberania inglesa sobre Gibraltar, nem reconhece a independência catalã. Desde hoje, Espanha perderia a fronteira com Andorra... e perderia mais o sentido do nome Espanha, que resultou da união entre os reinos de Castela e Aragão. O nome Espanha é directa importação do romano Hispania, um nome que via a Península Ibérica como um território íntegro e uno, conforme Filipe II, III e IV, nos apresentaram durante 60 anos.
O Presidente de Portugal, quando defende o respeito pela unidade de Espanha, apresenta uma engraçada ironia em si mesmo, já que Portugal se define justamente como território em oposição à unidade de Espanha, enquanto herdeira da unidade da Hispania romana.

Madrid irá aplicar o agora famoso artigo 155 da constituição espanhola a uma região autónoma, que já não existe... pois internamente passou a existir uma República da Catalunha, onde Filipe VI não é rei. Madrid pretende organizar eleições regionais na Catalunha, mas provavelmente o governo catalão irá organizar novas eleições para eleger o presidente da República da Catalunha, que interinamente será Puigdemont.
A legalidade espanhola não é aplicável a outro estado, e a Catalunha passará a usar as suas leis internas, ignorando as leis espanholas, tal como Portugal, ou qualquer outro estado independente, o faz. Em breve irá apresentar a constituição catalã a votação popular.

Rajoy arrisca fazer o papel de Gorbachov, ou pior... se usar força, de Milosevic, quando Belgrado foi lutando contra a dissolução da Jugoslávia em diversos estados independentes, levando a uma guerra balcânica bastante sangrenta.
Na altura, também os países externos avançaram cuidadosamente no reconhecimento de governos e independências, porque anteviam sérios problemas, que vieram a manifestar-se em guerras, muito em particular porque a comunidade internacional demorou a definir posições definitivas unânimes. Também em cada um desses novos países existia uma forte comunidade de origem externa - no caso dos países bálticos, uma forte comunidade russa, que estava contra a independência... mas aí, visando a fragilidade de Moscovo, não houve hesitação em apoiar Lituânia, Letónia ou Estónia.

O que parece inevitável é que a única solução para Madrid evitar Barcelona como uma capital independente, serão prisões, com o uso de força policial ou militar... já que não se antevê mudança no resultado, se houvessem novas eleições regionais, ainda para mais, impostas por Espanha.
A manutenção da situação anterior, que tem tantos defensores, inclusive todos os governos do mundo, deixa forçosamente na gaveta todas as auto-determinações dos povos, mesmo que tenham língua ou cultura diferente, e uma motivação histórica bem identificada, com diversas tentativas de independência. Para Guterres, que tanto perorou pela auto-determinação de Timor-Leste, será uma experiência interessante, enquanto secretário-geral da ONU.

Aguardemos agora, para vermos como Madrid pretenderá impôr a sua legalidade em território alheio, para vermos se o F. C. Barcelona continua a jogar na Copa del Rey, para vermos se Barcelona começa a estabelecer os órgãos de soberania próprios, que começam em nova legislação, nova polícia, nova economia financeira, com ou sem Euro, etc... os tempos afiguram-se complicados, não apenas em Barcelona e Madrid, mas também em Bruxelas, enquanto Londres sai da derrocada da UE, que se pode avizinhar em consequência.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Entre Tancos e Punhete

João Bautista de Castro, refere no seu "Mappa de Portugal, Antigo e Moderno" (Volume III, de 1763) que:
"Entre Tancos e Punhete passa o rio Zêzere que tem barca sempre de verão e de inverno."

Em 1836, com a vitória de D. Maria II nas guerras liberais, a notável vila de Punhete muda de nome, ao que consta a pedido dos habitantes, por ordem da rainha e Passos Manuel, pugnando como novo nome "Constância". Aliás João Bautista de Castro ainda acrescenta sobre o rio Zêzere.
Vai finalmente acabar em Punhete, mergulhando-se no Tejo com tanto impeto , que na distancia de mil e quinhentos passos ainda conserva a mesma cor azul , e sabor doce das suas águas, como bem advertem Resende, e outros.

Em 2003, quando as "armas de destruição em massa" estavam no ponto, a ferver, com suspeitas de que Saddam quisesse volatilizar o mundo com uma panela de pressão (panela ironicamente epitetada como "arma de destruição em massa", no atentado da maratona de Boston em 2013), havia quem estivesse a favor da invasão do Iraque (por exemplo, Pacheco Pereira), mas também havia quem estivesse contra...
Um desses comentadores era Azeredo Lopes, de que podemos ainda ler uma entrevista ao Público (31/03/2003):

... e este título resulta desta afirmação que Azeredo Lopes, agora Ministro da Defesa, fez à época:
«É enfim o que chamo de forma um pouco irónica uma espécie de intervenção baseada na bola de cristal. Isto é, os EUA decidiram, pela sua análise, que algures no futuro, não sabem quando, é inevitável que o regime iraquiano venha a conspirar contra o Ocidente e a servir-se ou transmitir as suas armas de destruição em massa a grupos que depois vão exercer acções contra o Ocidente. »
Independentemente de outros canhões que Saddam Hussein pudesse querer apontar aos céus, com o seu Projecto Babilónia, baseado num projecto HARP (e não HAARP) de Gerald Bull, só quem se cegue, seguia credulamente a manipulação da CIA, que permitiu a G. W. Bush invadir o Iraque, e a Durão Barroso, passar de garçon do chá nos Açores, para garçon de Bruxelas, seguindo a máxima - "que se segue, quem se cegue".

Como não soube de nenhuma conversão de Azeredo Lopes ao completo "ceguidismo", foi surpresa ser chamado pela geringonça para Ministro da Defesa, mas digamos que já não será surpresa que se pretenda arranjar uma panela de pressão, para que saia.
Essa pressão foi mais veemente com o roubo de armas em Tancos, ocorrido em 27 de Junho, quando a polícia se apressou a concluir, na semana seguinte, que as armas estariam já fora do país. Essa previsão sofreu uma pequena dificuldade na narrativa idealizada, quando na semana passada, em 18 de Outubro, as armas apareceram num terreno da Chamusca, não muito longe de Tancos.
Como o desaparecimento ocorre no rescaldo do incêndio em Pedrogão a 18 de Junho, e o aparecimento poucos dias depois dos incêndios de 15 de Outubro, ainda por cima na Chamusca, concelho que tinha reeleito Paulo Queimado como autarca, surgiram comentários sobre o humor negro da "coincidência" funesta.


No entanto, as armas surgiram por denúncia anónima, e não por investigação policial, que as já dera como perdidas no estrangeiro. Portanto, um completo sucesso policial, como se vê, enquanto o ministro padeceu do gozo cortês de ter admitido, por absurdo, que as armas nem tivessem sido roubadas.


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Luto e Luta nacional

A repetição da completa desprotecção civil perante os múltiplos incêndios que ocorreram, de novo, no passado domingo (com um número actual de 42 vítimas mortais), deixa uma pergunta no ar de Portugal - qual a confiança de milhões de portugueses, que não moram em centros de grandes cidades?
As imagens que vimos, mesmo em pequenas cidades como Tondela, Gouveia, ou Oliveira do Hospital, são de uma sujeição e impotência, perante grandes incêndios que as cercam e lançam fagulhas incendiárias para as suas casas. Um pequeno pinhal, um jardim, que antes eram locais aprazíveis, passam a ser vistos como rastilho para a propagação de incêndios, e ninguém se sentirá bem nestes dias, com uma moradia que confronta com árvores.

Serve para epíteto simbólico declarar "luto nacional", para o bem estar do politicamente correcto, que dança com mudanças de ministério, enquanto o magistério de uma "luta nacional" tende a repousar.

Interessam aqui as palavras, porque independentemente da pseudo-origem no latim de "luctus" ou "luctare", as palavras "luta" e "luto" indiciam mais que uma mudança de género. Escreveu-se lucta e lucto, usando uma latinização da língua, mas isso sinaliza apenas que o prefixo "luc" pode ser relacionado com "luz" como em tantas outras palavras.
luto é assim simbolizado com o negro, da ausência de luz.
luta, ao contrário, é a presença de luz.
Independentemente, do significado que outros encontrem para si, as palavras têm para mim um significado ancestral que procuro encontrar nas suas sílabas. Tão simples quanto em "ardeu" que ligo à simples conjugação de ar-deu, pois o fogo não arde sem ar que lhe . O verbo não é ar-dar, mas a má conjugação posterior não fez perder todo o sentido original. Ou, como a têmpera do aço, que tem paralelo no têmpero do que asso. E o que assem só vem de um acen-der inicial, mas também aí temos indicação do que ficou do nosso passado - as cinzas do que serviu p/assado.
É neste contexto que luto significa lu-tu, com quem diz "a luz em ti", e os outros vestem negro, enquanto luta significa lu-tá, como quem diz a "luz está"... colocando a luz como razão da luta, e assim o negro simboliza a morte de alguém que personificava a luz do combate.
Essa luz seria como um luar da Lua, e escusando os latinistas de serviço, não seria apenas a luz da noite, do lume, que alumiava. E dizemos a-lu-miar e não uivar, pois haveria outros cães e gatos de serviço.
A Lusitania claro, seria pátria dessa luz, e mátria das trevas da sua ausência, não me querendo mais alargar nesta poesia especulativa.
Interessa que luto é o interlúdio da luta que se segue... sendo claro que se segue quem se cegue, pois um seguidismo é um ceguidismo, que vê o sossego numa pronúncia do sou-cego, procurando afinal uma bengala alheia, em boa gala alheia.

Surge este texto para uma observação muito simples.
A evolução dos incêndios em Portugal, desde o tempo de Salazar, pode ser facilmente vista no seguinte gráfico, que vai desde 1943 até 1979, onde fica evidente um aumento súbito a partir de 1974.
Fonte: Grandes incêndios florestais na década de 60... (ver artigo de F. F. Leite, J. B. Gonçalves, L. Lourenço)

A interpretação do gráfico, mesmo que relativizada pelos dados disponíveis, não deixa grande margem de dúvida num aspecto - a partir de 1974, e com grandes picos em 1975 e 1978, o número de incêndios em Portugal subiu de forma drástica, chegando a ser 10 vezes superior, mas... pior que isso, tornou-se numa circunstância quase crónica. Não encontrei gráficos juntos, mas podemos ver o aspecto desde 1980 até aos nossos dias, com grandes picos em 2003 e 2005:

Que se saiba, em 1975 não houve mudanças climáticas, não houve abandono do interior, não houve uma plantação súbita de eucaliptos, não terá havido nenhuma das muitas razões que são usadas para oferecer aos seguidores televisivos dos comentários nacionais de serviço.
Houve sim, uma mudança de poder político, e em 1975 não havia apenas incêndios e falta de coordenação para os combater, havia bombas em sedes partidárias, e um clima contido quase de guerra civil em preparação.
Para quem nunca experimentou acender um churrasco, não é assim tão fácil fazer fogo sem ajuda de combustíveis e carvão, mesmo que o dia esteja quente. Tenho muitas dúvidas que 500 coincidências fortuitas, mesmo de agricultores irresponsáveis, consigam pôr o país em chamas... e apenas a norte do Tejo.

Do que me lembro, e olhando brevemente para o segundo gráfico, não será muito difícil estabelecer relações entre os picos de incêndios e o clima político eleitoral... sendo que os anos mais suaves se encontraram depois da governação Sócrates, e não foi certamente por virtude do SIRESP, nem por abrandamento das alterações climáticas. Se alguma relação fizer sentido, foi justamente no fim da semana passada que se deu a acusação do processo "Marquês" (outro nome do "Nero da Trafaria"), ou o conhecimento do Relatório de Pedrogão. Foi após isso que deflagraram estes incêndios, com mais de 500 focos em todo o país.

Mas essa coincidência não é mais nem menos importante, interessa que o problema incendiário está instalado desde a "revolução dos cravos", e é um problema que já tinha tido expressão antes, no tempo de Salazar, mas que tinha sido contido, e em nada era semelhante ao que se seguiu depois.
Diz-se que o Estado falhou... mas este Estado com 43 anos habituou-se a viver com um estado de coisas em que os incêndios são vistos como "normais", e que na necessidade de culpa, para evitar a desculpa, os culpados são os cidadãos.

Aquando da revolução republicana, a maçonaria também fez uso da carbonária, e de vários actos terroristas, com múltiplas bombas e pequenas revoluções constantes em Lisboa, que ocorreram até ao Estado Novo. Uma vez utilizada a arma, era difícil desactivá-la, e pior que isso... nem parecia interessar pô-la de lado.

Por isso, este é um problema de regime... que poderá nem ter a ver com este regime, e que pode até ser contra este regime pós-74, especialmente quando certos assuntos de bastidores são trazidos para a praça pública. Mas, uma coisa parece clara... enquanto o problema dos incendiários não for visto como um terrorismo global instalado no país, continuaremos a entreter-nos com razões fantasiosas ou científicas, para anualmente metade da área ardida na Europa pertencer a Portugal.
Neste ano as coisas foram longe demais... Junho teria sido suficiente para perceber isso, mas quatro meses depois, vemos que nem sequer se pode contar com contenção e o mínimo de bom senso, por parte de gente que julga poder escapar do seu inferno causando um inferno aos outros. As chamas já chamaram demasiadas vítimas, e agora chamam pelos culpados, com um foco que não sairá das suas cabeças.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Outubro de 1917

Comemoram-se brevemente 100 anos de dois eventos distintos:
- a última "Aparição de Fátima" a 13 de Outubro;
- a Revolução de Outubro bolchevique (7 de Novembro, porém 25 de Outubro na Rússia).

Os eventos foram agrupados num "segredo" da Irmã Lúcia, quando em 1929 revelou que o fim do comunismo e a devoção da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, seria o segundo segredo. 
O primeiro segredo revelado, que consistia no fim "próximo" da 1ª Guerra Mundial, teve o pronúncio adiado por mais de um ano, e milhões de mortes.

Independentemente do tempo de Verão ter sido marcado por furacões de nível 5, que foram baptizados Maria e Irma (e não Irmã), o ambiente ficou especialmente caótico com as novas tendências de Outono, na Catalunha.

Os segredos da Cova de Iria dificilmente se podem considerar como surpreendentes, ou até como minimamente cumpridos, quando comparados com as revelações constantes dos chamados "Protocolos de Sião", esses muito mais assertivos quanto ao passado e depois quanto ao futuro que se avizinhava, conforme referia Julius Evola nos anos 1930. Digamos que uma vidência que falha o final da 1ª Guerra, nem sequer menciona a 2ª Guerra, a Guerra Civil Espanhola (onde Lúcia estava), ou as catástrofes nucleares de Hiroshima e Nagasaki, focaria um atentado a João Paulo II, esquecendo a morte suspeita de João Paulo I.

Como é habitual neste tipo de fenómenos de "massas", o foco é temporário, condicionado pelos interesses e vontades particulares dos "peregrinos", e tendem a desaparecer subitamente, conforme aconteceu com os santuários de Delfos, Delos, Dodona ou Eleusis, mesmo que tivessem resistido por um milénio.
As sucessivas falhas de previsão ou concretização dos pedidos, nunca são um factor minimamente relevante para o descrédito, porque a sustentação do fenómeno não assenta em nada de verificável, mas tão somente assenta numa esperança infindável, que encontra lugar nos mais pequenos indícios como sinais orientadores. Fátima terá histórias individuais de pequenos "milagres", com a probabilidade natural, e que abafam a inexistência de qualquer história concreta de grande milagre, decorrido um século.

Com 30 anos passados sobre a Perestroika e Glasnost, e sobre o declínio da doutrina ortodoxa comunista, já poucos se lembram da angústia permanente da ameaça de um conflito nuclear, que tornaria ridícula qualquer comparação actual... tendo a Coreia do Norte como ameaça.
Os media tentaram desde logo capitalizar novos conflitos como causas de instabilidade mundial - como no caso da 1ª Guerra do Golfo, em 1991, que serviu para assustar os viciados no susto, e teve os efeitos dramáticos concentrados nas populações do Kuwait e Iraque, como previsível. A Guerra da Bósnia, com perto de 100 mil mortos, foi um conflito europeu bem mais caótico, mas não foi usado pelos media para instaurar o mesmo tipo de medo "globalizado". Isso só viria a ser feito com a ameaça "terrorista", dado ter sido implantada com efeitos dramáticos nos centros ocidentais. Mas, à excepção do estranho caso do 11 de Setembro (onde a Torre 7 foi demolida pela BBC antes de ter caído), o número de vítimas e actos terroristas depois de 2001 será bem inferior aos que ocorreram nas décadas de 1970 e 80... quando não havia nenhum controlo especial nos aeroportos, nem nenhum medo global instalado pelos media. Nessa altura, convém lembrá-lo, o risco de terrorismo era encarado como um risco de voo, tal como o seria uma falha mecânica... e nessa conta, o número de vítimas causadas por falhas humanas ou acidentes de voo continuou a ser muito superior ao causado por qualquer acção de grupos terroristas.

Se o comunismo não tivesse desaparecido do seu protagonismo político, seria previsível que os media estivessem desde já a reportar os 100 anos da revolução bolchevique, mas assim mal se ouve falar do assunto... e como as comemorações dos 100 anos de Fátima ocorreram no 13 de Maio, para este 13 de Outubro fica a atenção muito mais reduzida, como é habitual (... talvez à excepção da associação com a passagem do asteróide 2012 T4C, prevista para este 12 de Outubro).

Interessa ainda que passam ainda 100 anos sobre a  Declaração de Balfour, de que falámos também referindo o apoio que Lenine teria recebido pelos alemães e austríacos, para financiar a revolução bolchevique e assim colocar a Rússia fora da 1ª Guerra Mundial...

Essa declaração escrita em Outubro de 1917, antecederia a Batalha de Jerusalém e a entrada britânica na cidade em Dezembro, findo o poder otomano de 400 anos, e retomando a entrada como novos cruzados, após o abandono em 1187 por Balian de Ibelin para Saladino, e depois em 1244 por Frederico II, que a havia reconquistado antes, no contexto da 6ª Cruzada.
(Selo de Balian de Ibelin)


terça-feira, 3 de outubro de 2017

De 11/9 a 9/11, em 300 anos, esquecida a conquista de Madrid

Filipe não será o melhor nome de rei espanhol, no que diz respeito a portugueses e catalães!
Até porque antes do actual Filipe VI, houve Filipe V...

11 de Setembro (11/9) 
Em 11/9/1714, as forças de Filipe V venceram Carlos III e Barcelona caiu.
Desde essa altura o 11 de Setembro é dia nacional da Catalunha.

9 de Novembro (9/11)
Em 9/11/2014, passados 300 anos, a Catalunha, com Artur Mas, realizou a primeira consulta referendária para uma independência, onde obteve similares resultados aos expressos agora no 1-o (o referendo neste domingo passado). Ou seja, há três anos, obteve 80% de votos sim-sim (havia 2 perguntas) com uma participação de 2,305 milhões de votantes. 
Em percentagem, subiu agora para 90% na vontade independentista, subida que muito deve à desastrosa política de Rajoy. Mas fiando-nos nestes resultados, pouco mudou, e pouco tenderá a mudar. Uma parte maioritária da Catalunha quer ser independente...

9/11 era domingo em 2014, mas a escolha da data invertida face ao 11/9, não terá sido acidental, e diz muito do simbolismo nestes pequenos actos, quando então se comemoravam 300 anos. O inverter da data, seria um bom augúrio, para inversão do passado, passados 3 séculos... mas o efeito foi pouco notado, por comparação com a publicidade que a actuação de Rajoy agora deu ao 1-o. Dir-se-ia que o galego Rajoy parece estar a trabalhar bem para a independência da Catalunha.

Filipe - Carlos (bis)
Bom, nesta disputa estão ainda Filipe VI pela monarquia e Carles Puigdemont pela república...
Uns 300 anos antes estavam Filipe V e Carlos III, monarcas de origem francesa e austríaca.
3 séculos, mas de novo um antagonismo entre Filipes e Carlos.
Filipe V, sendo neto de Luís XIV de França, foi o primeiro monarca da Dinastia Bourbon espanhola, porque foi o vencedor da Guerra de Sucessão (1702-14) contra Carlos III (Arquiduque e Imperador Carlos VI da Áustria).

Filipe de Bourbon era o herdeiro nomeado, mas uma boa parte das potências externas não acharam boa ideia que a Casa Bourbon acumulasse os tronos francês e espanhol... apoiando assim o arquiduque austríaco, Carlos. Carlos começou por desembarcar em Portugal, mas depois fixou-se em Barcelona, até ser derrotado. Os catalães apreciaram a escolha, e lutaram até que Barcelona caísse.

A conquista de Madrid por António Luís de Sousa em 1706
No decurso das hostilidades, em que Portugal, tal como Inglaterra, estavam do lado de Carlos III, o Marquês das Minas, António Luís de Sousa, teve a pequena ousadia de pegar num exército de cerca de 15 mil portugueses e 5 mil anglo-holandeses, seguir em direcção de Salamanca, e numa série de vitórias, só parou com a conquista de Madrid, em Junho de 1706.

Conquista de Madrid - 1706 (de João Vieira Borges)

Foi uma pequena ocupação, mas suficiente para que Carlos III tivesse  tempo de sair de Barcelona e ir a Madrid reclamar o trono... No entanto, a população castelhana já preferia Filipe V, Carlos III foi aclamado, mas mal recebido, e em Outubro de 1706, perante contra-ofensivas e derrotas dos aliados, o exército português foi forçado a retirar estrategicamente de Madrid.

Estranhamente, esta conquista única da capital espanhola, por um exército que era praticamente português, e com comando português, não consta de ser conhecida, e muito menos ensinada aos nossos petizes. Tanto mais que terá sido a única vez que os portugueses entraram como força invasora numa capital europeia... e convém notar que, se do outro lado o exército espanhol se dividia, o exército francês do rei sol, Luís XIV, era comandado pelo experiente Duque de Berwick, que com reforços, acabou por vencer a contenda, que colocou os Bourbon no poder - até hoje, com ligeiras interrupções republicanas.
Filipe VI é assim o herdeiro directo da dinastia que ficou com o nome espanholado "Borbón", e sendo essa dinastia de tão má lembrança à Catalunha, na altura apoiante de dinastia oposta, pedir lealdade no sentido monárquico, parece uma deslembrança com pouco sentido histórico, e especialmente com pouco sentido político, quando os catalães, ainda que sem outra opção, votaram por uma república.

Barcelona 1929 - 1992
Os únicos jogos olímpicos realizados em Espanha não foram realizados em Madrid. Espanha uniu-se para receber os jogos em Barcelona, em 1992, onde foi construída uma vila olímpica... com duas torres gémeas a encabeçar. Já antes, na Exposição Internacional de 1929, foi construída a Praça de Espanha, também com duas torres, feitas ao modelo de Veneza.
1992 - Barcelona - torres gémeas

1929 - Barcelona - torres gémeas "venezianas"

O campanário de S. Marcos com mais do dobro da altura (98 metros) foi a inspiração para as duas torres venezianas, de 47 metros em Barcelona, na Praça de Espanha. Construídas em 29 foram talvez um dos primeiros exemplos de torres gémeas, depois repetido em 92, com duas torres mais modernas (agora uma como hotel, e outra de escritórios Mapfre)... numa altura em que já se repetiam torres gémeas em diversas cidades do mundo - nomeadamente em Nova Iorque.

Para uma cidade que comemora o 11 de Setembro como dia nacional, não deixa de ser curioso...

Aproximando-se o nosso 5 de Outubro, reparamos que aí comemoramos simultaneamente a instauração da independência e a proclamação da república - ou seja, a resposta ao referendo catalão nas suas duas vertentes - independência e república.


Nota (5/10/2017):
Relativamente à incursão portuguesa e inglesa em território espanhol, não deixa de ser significativo que foi no final da Guerra de Sucessão que Filipe V aceitou conceder Gibraltar à Inglaterra, a título definitivo, no Tratado de Utrecht de 1713. Isto tem a relevância actual da Espanha ter insistido na devolução do rochedo, no contexto das negociações em curso da UE com UK, dado o Brexit.
Ou seja, exigiram o rochedo, para completar o território espanhol na península, mas ficaram a braços com uma eventual independência da Catalunha. A coincidência dos acontecimentos não deixará de ser ponderada em Madrid.
Entretanto, o único território semi-independente com língua oficial catalã continua a ser Andorra.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Um paralelo de Barcelos a Barcelona

Que os nomes "Barcelos" e "Barcelona" são parecidos... pois isso não é novidade para ninguém, já que basta serem pronunciados para se constatar a semelhança. 
Que a sua origem é, em ambos os casos, remetida a "barcas" - ou à família cartaginesa Barca (de Aníbal), ou a simples embarcações, pois também não é difícil de encontrar. 
Que haja qualquer relação entre uma coisa e outra, pois sempre parece ter sido desconsiderado, ou até alvo de zombaria... mesmo que se admitam origens similares para os nomes.

No entanto, parece coisa singular que, para além da semelhança do nome, o registo de latitude das cidades seja também muito próximo:

Paralelos - Barcelos: 41.5º N, Barcelona: 41.4º N

A diferença entre os paralelos é pouco mais que 0.1º (1 décimo de grau ~ 11 Km).
Este facto é normalmente ignorado nas "etimologias", até porque quem faz linguística, normalmente não liga à geografia.

Há outras cidades de relevo nas proximidades desse paralelo que vai de Barcelos a Barcelona, nomeadamente - Braga, Zamora ou Tordesilhas. 
Sobre Braga, também teve o seu nome pretensamente associado aos cartagineses Barcas (na hipótese que Barca tivesse passado a Braca e depois a Braga). No entanto, não há registo de que os cartagineses tivessem estado em latitudes tão a norte, quanto o Rio Cávado, e portanto a essas hipóteses nunca foi dada grande credibilidade.

Numa situação normal, estas duas coincidências - nome e latitude semelhantes, são insuficientes para o assunto merecer tratamento num texto deste blog, e ainda que tivesse procurado, não encontrei uma terceira ligação clara entre Barcelos e Barcelona. Digamos que, com três ou mais coincidências, podemos suspeitar que não se trata de coincidência... mas neste caso, nem o galo de Barcelos ajudou.

O terceiro ponto surge apenas da actualidade, de Barcelona viver um momento conturbado, em que se tenta livrar do jugo de Madrid. Por aqui, podemos ver que as coisas têm mais pontos comuns... mesmo que sejam mais vagos.
O título de Duque de Bragança foi dado a Afonso, Conde de Barcelos, filho bastardo de D. João I, pelo matrimónio com a filha de Nuno Alváres Pereira, que era então o Conde de Barcelos, numa altura em que não havia ducados, e aquele condado era considerado o mais importante. O título de Conde ou Duque de Barcelos ficou desde essa data ligado à Casa de Bragança (Bragança está um pouco mais a norte, a 41.8ºN, tal como Valladolid, a 41.7ºN).

Acontece que em 1 de Dezembro de 1640, quando o Duque de Bragança, que era também Duque de Barcelos, decidiu proclamar a restauração da independência portuguesa, passavam quase 6 meses do início da Revolta Catalã, ocorrida em 7 de Junho de 1640. Por isso, quando encontramos um catalão é habitual que nos diga que os portugueses devem a sua independência à revolta catalã... já que durante o período de 1640-59, foram quase vinte anos - em que o principal foco de Madrid era recuperar o controlo de Barcelona. A Guerra de Restauração foi mais acentuada e dura após 1659, e até 1668, já sob reinado de D. Afonso VI, pois só aí a Espanha se concentrou na recuperação de Portugal, que tinha tido quase 20 anos, proporcionados pelos catalães, para recuperar um grande exército, e um grande líder - o Marquês de Marialva - capaz de derrotar o experimentado exército espanhol da Guerra dos Trinta Anos, em sucessivas batalhas, de Elvas a Montes Claros.

Portanto, não deixa de ser curioso que a regência dos Duques de Bragança e Barcelos, tenha resultado da revolta em Barcelona, em muito orquestrada pela casa Medina-Sidónia, da rainha Luísa Guzman, mulher de D. João IV. Quanto mais não fosse por outra razão, esta seria suficiente para calar desbocados nacionais, que clamam contra a independência catalã, invocando legalidade, como se a legalidade não fosse mais do que uma construção de legos, feita à medida da criançada.

Acrescem como curiosidades, o paralelo de Barcelos a Barcelona, não só passar por Zamora, cidade onde se celebrou o tratado de independência de Portugal em 1143; mas também passar por Tordesilhas, cidade onde se celebrou o tratado em 1494 com Isabel e Fernando - o último rei de Aragão, já que foi o seu casamento com Isabel que determinou a união de Castela com Aragão, em 1492-93, e a constituição da Espanha, em especial após Carlos V.
Tanto mais é curioso que a cidade de Toro também fica pelo mesmo paralelo 41.5ºN, e foi aí que Fernando de Aragão derrotou D. Afonso V, que pretendia reclamar Castela para Joana (sua sobrinha) contra Isabel de Castela. Digamos que o sucesso de Fernando de Aragão ao assegurar a pretensão da mulher ao trono de Castela, acabou por comprometer afinal o reino de Aragão, quando a capital se manteve em Toledo e depois Madrid.

Portanto, apesar de entre Barcelos e Barcelona existir apenas a coincidência do nome e da localização, surgem nesse paralelo cidades com tratados marcantes - Zamora, para a independência de Portugal, e Tordesilhas (ou Toro), que formalizam já a união espanhola, e o fim do reino independente de Aragão. E como se isto não fosse suficiente, a ascenção ao trono português dos Condes/Duques de Barcelos, deveu muito à revolta em Barcelona.

Como observação final, será conveniente lembrar que depois de 1640, a França se aliou a Espanha, em 1659 para derrotar a Catalunha, e obter uma parte - o condado do Rossilhão. Como tal, não é de esperar que a Catalunha consiga simpatia do lado francês, já que se seguiriam questões sobre esse território catalão em França (que também tem parte do território basco). 
Acresce que o Reino de Aragão se estendia pela região de Valencia, dominando as ilhas Baleares, e mesmo o Reino de Nápoles e Sicília... e pelo lado italiano, também não se espera nenhuma simpatia com o movimento catalão, já que a Itália é uma manta de retalhos, com os seus próprios problemas. A Inglaterra querendo manter Gibraltar, tentará trocar o seu apoio a Madrid por mais um prolongado silêncio sobre essa questão.
Ou seja, a Catalunha vê os mais diversos interesses reunirem-se contra si, e não tendo conseguido a simpatia de nenhuma potência externa, dificilmente conseguirá mais do que uma nova negociação sobre a sua autonomia. No entanto, ouvindo a língua com o sotaque catalão, perguntamo-nos se o único enxerto que não pertencia à nossa península, não é mesmo o enxerto com pronúncia castelhana... 

domingo, 17 de setembro de 2017

536 - um ano sem verão?

Tem sido considerado que no ano 536 (e seguintes) ocorreram uma série de problemas climáticos, que levaram à designação "eventos de clima extremo em 535-536" (segundo a wikipedia).
A principal referência será o historiador bizantino Procópio, que referia que os raios de luz do Sol não aqueciam, parecia a luz lunar, fraca como a luz num eclipse. Há ainda referências a anais irlandeses, ou chineses, onde se refere a ocorrência de neve no Verão.
Procurei informação sobre este assunto em Bernardo de Brito, um dos raros historiadores que comenta o período suevo na história da península, mas não encontrei nenhuma menção ao evento climático singular. Isto não é significativo, até porque sobre o período suevo as informações são tão escassas, que pode ser natural uma ausência a essa referência. 
Sobre as razões desta possível mudança climática, vão desde erupções vulcânicas, que incluem o Cracatoa, até possíveis quedas de meteoros, ou impactos de pequenos cometas... mostrando que quando faltam outras explicações, os historiadores convencionais se parecem muito com "teóricos da conspiração".

É comum considerar-se que durante o período romano, a temperatura era em geral mais amena do que seria hoje, tendo baixado consideravelmente no Séc. V e VI, voltando a subir no Séc. X até ao Séc. XV, caindo de novo até ao Séc. XX.
Isto está por exemplo confirmado num estudo feito em anéis de árvores, no Oeste americano, publicado na revista Nature em 2016:
Gráfico relacionado com as secas entre 800 e 2000 d.C., confirmando informação anterior.  
Estes períodos medievais de maior temperatura são associados a "secas" ou "mega-secas", que se teriam prolongado por dois períodos de 2 séculos. Na prática, isto corresponderá também a uma altura em que a maior temperatura teria aumentado o degelo e o nível do mar, o suficiente para ter permitido navegações em locais extremos - Passagem Noroeste e Passagem Nordeste, feitas muito provavelmente pelos portugueses, e que seriam de certa forma navegações irrepetíveis nos séculos seguintes, dada a descida de temperatura e consequente maior abundância de gelo. Este assunto já foi de certa forma abordado num texto anterior.

Bernardo de Brito refere que após Gorgoris e Abidis, no final do período dos reis míticos lusitanos, a Península Ibérica terá sofrido um período de grandes secas, que podem ter levado ao abandono das populações, que podem ter migrado para norte (nalguns casos podem ter emigrado mesmo para as Ilhas Britânicas, conforme consta nos registos escoceses), e isto também poderá ter dado origem à ideia de um período de invasão de cobras, ou serpentes, no nosso território.

Convém notar, no entanto, que o período mais decisivo em termos de "alterações climáticas", terá ocorrido no final da Idade do Gelo... quando de uma situação em que os gelos perenes se situavam no Sul de França, passaram subitamente para paragens escandinavas. As populações que estavam habituadas a subsistir num tipo de clima mais frio, podem ter acompanhado a migração para paragens situadas bem mais a norte, evitando temperaturas mais "escaldantes". 

Também será natural que as denominadas "invasões bárbaras", que ocorreram no final do Império Romano, pudessem ter como fenómeno adicional de motivação - para uma migração para sul, o decréscimo de temperatura que se veio a verificar nos Séc. V e VI. Há toda uma história de populações que se relaciona directamente com fenómenos climáticos, que ao provocarem destruições de colheitas, impeliam a deslocação de populações... anteriormente conformadas a viver noutros espaços, outrora agradáveis.

Da mesma forma, os holandeses, que durante os últimos 500 anos se entretiveram a conquistar terra ao mar, através de grandes diques, podem sentir agora, mais que outros, uma ameaça latente no clima, como ameaça nefasta ao seu território, se voltarmos a entrar num período de algum aumento da temperatura... como seria expectável.

sábado, 9 de setembro de 2017

Falo em Muralhas

As 6 fotografias seguintes são de muralhas de diversos edifícios históricos, espalhados pelo mundo.
Uma é de Cuzco no Perú, onde as muralhas impressionam pela perfeita junção, duas são da Grécia, e as outras são de Portugal, Itália e Japão.
O exercício será identificar qual é qual, dadas as seguintes imagens:

 

 

 
Muralhas no Perú, Grécia (2), Portugal, Itália e Japão.

O exemplo parece-me suficiente para esclarecer que a forma de construção de grandes muralhas, todas elas de grande dimensão, não diferiu muito em culturas e épocas razoavelmente distintas. Todas as zonas podem ter a característica de serem bastante sísmicas, e terem levado a opções de maçonaria em que o perfeito alinhamento rectangular não foi seguido, talvez por essa construção ser mais estável perante oscilações do solo. 
Três das construções terão menos de mil anos (Portugal, Perú e Japão), mas as restantes, de Itália e Grécia, podem ter até 3 mil anos, ou mais. 
Os exemplos da Grécia são os mais antigos, e vêm de um templo em (i) Delfos e de (ii) Paleo Castro, em Agios Adrianos, na Argólida, zona de influência de Micenas e Argos. Aliás poderíamos incluir também partes das muralhas de Micenas, o que leva os exemplos gregos para mais 3 de mil anos.
O exemplo de Itália vem de Alatri, uma cidade não muito longe de Roma, na região da Lázio, e onde se pensa que as muralhas podem ter origem ou influência dos Etruscos, e muito mais de 2 mil anos. 
O exemplo de Portugal é do Castelo de Sortelha, cuja datação não será muito diferente da construção do Perú, em Cuzco (ou Cusco), que pode ser anterior à chegada dos Incas (no Séc. XIII). Finalmente o exemplo do Japão é do Castelo Edo, em Tóquio, cujo construção foi iniciada no Séc. XV, mas tal como nos outros casos, pode ter origem numa estrutura muito anterior. Portanto a solução da legenda, começando em cima, à esquerda, será Agios Adrianos, Cusco, Alatri, Edo, Sortelha e Delfos.

Estes casos são uma breve ilustração, vários outros exemplos de "maçonaria poligonal" podem ser encontrados neste link: http://www.megaliths.org/browse/category/3

Para além de outros assuntos, que remetem a estruturas menos conhecidas, com as pirâmides gregas (caso de Heleniko, perto de Argos), ou até pirâmides australianas (caso de Gympie - ver também aqui), os diversos casos podem mostrar, ou pelo menos sugerir, que há demasiados pontos comuns em diversas estruturas espalhadas pelo mundo - e portanto podem servir para sustentar uma influência mundial global, por exemplo, por uma sociedade, ou contacto secreto, com esse alcance global.

E como os registos antigos tendem a ser alterados, voltamos ao caso da cidade italiana de Alatri, onde no Séc. XIX, Hullmandel desenhou as suas muralhas, e vemos a comparação com o que temos hoje.
 
Desenho de Hullmandel no Séc. XIX e a mesma entrada no Séc. XXI.

No topo da porta (porta minori) estão desenhos, supostamente de 3 falos, que hoje em dia praticamente deixaram de ser notados... ainda que lá estejam. Seja por razão de pudor ou outra, o legado pode ser considerado inconveniente, ainda que houvesse uma tradição de bom presságio (ver Acropoli di Alatri). Aliás, mesmo na Muralha de Adriano, que separava a Britânia da Escócia, encontram-se símbolos fálicos esculpidos. Por outro lado, naturalmente, na ilha de Delos, um grande santuário dedicado a Dionísio teve todos os símbolos fálicos destruídos (ver wikipedia) - ainda que estes não fossem casos tão discretos quanto um falo em muralhas...


domingo, 3 de setembro de 2017

Hoje são campos onde foi Troya (2)

Volto a pegar na frase de Lavanha "hoje são campos onde foi Troya", para acrescentar uns detalhes acerca do assunto troiano, lendo o relato de Pausanias sobre a Grécia (escrito no Séc. II), onde há uma referência a Télefo, filho de Hércules, que é suficientemente estranha, porque o episódio apesar de ser largamente referenciado, não consta na Ilíada de Homero. Diz Pausanias acerca dos habitantes de Pérgamo: 
... and they claim that they are themselves Arcadians, being of those who crossed into Asia with Telephus. Of the wars that they have waged no account has been published to the world, except that they have accomplished three most notable achievements; the subjection of the coast region of Asia, the expulsion of the Gauls therefrom, and the exploit of Telephus against the followers of Agamemnon, at a time when the Greeks, after missing Troy, were plundering the Meian plain thinking it Trojan territory.
Pausanias: Description of Greece (Tradução de W. H. S. Jones & H. A. Ormerod). Londres, 1918

Ou seja, quando os gregos procuraram Tróia, simplesmente não sabiam onde ficava!

Pior, assolaram a costa turca, de Pérgamo à Mísia, sem encontrarem Tróia... quando afinal a cidade era vizinha de Pérgamo e da Mísia. 
Seria como dizer que alguém andava pela costa à procura de Tróia entre Lisboa e o Algarve, e escapava-lhe a península em frente a Setúbal.

Toda a situação geográfica, que se pretende passar, não faz qualquer sentido, até porque os gregos reúnem uma frota em Aulis, com navios que vêm de ilhas bem mais longínquas do que Tróia - basta reparar nos casos de Creta, do Chipre ou até da Ítaca de Ulisses.
Essa suposta reunião em Aulis ocorre duas vezes, pois na primeira partida, os navios são dispersos levando a expedição à Mísia, onde reina Télefo, que evita a invasão... No entanto, sendo ferido por Aquiles, um oráculo diz a Télefo que a ferida só "será curada pelo que feriu", o que leva Ulisses a concluir que o remédio é a própria lança de Aquiles. Só após esta cura, é que Teléfo indica o caminho para Tróia, e armada grega de 1200 navios parte de novo de Aulis... passados 8 anos! É neste ponto que ocorre o sacrifício de Ifigénia, com a finalidade de obter ventos favoráveis à expedição.
Como se o absurdo de terem estado ao lado de Tróia, não bastasse, voltam à Grécia para partirem de novo, e a expedição consiste numa viagem piscatória de 500 Km, que demoraria no máximo dois ou três dias. Todo o contexto da guerra de Tróia demora 10 anos! Mas como se o absurdo não chegasse, vemos que Tróia liderava uma força que juntava a Mísia, a Frígia, a Lídia, a Caria, a Lícia, etc... ou seja, uma cidade que lhes passara despercebida, mas que reunia praticamente o conjunto das forças da Ásia Menor.

Mesmo que sejamos tentados a desculpar artifícios poéticos, todo o enquadramento seria no mínimo inconsistente para merecer qualquer credibilidade e durabilidade... No entanto, os relatos da Guerra de Tróia, especialmente o de Homero, foram os mais persistentes para as gerações seguintes.

"Troikos Polemos" = "Guerra de Tróia"
Falando em gerações seguintes... não escapa isto à geração actual!
Uma geração que se viu confrontada com a "Polémica da Troika", tendo em atenção que, em grego, "Troikos Polemos" significa mesmo "Guerra de Tróia". 
Portanto, quando se abusou da definição russa de "troika" para um grupo de três, invocando cavalos, não ficam muitas dúvidas que os Cavalos da Troika, eram afinal Cavalos de Tróia. 
Até porque quando o presente dado pela UE era um empréstimo financeiro, que os estados tinham que pagar, mas que em nada os cidadãos iriam usufruir... sujeitando-se a maior controlo e maiores restrições sobre a sua qualidade de vida, dificilmente se conseguiria explicitá-lo de forma mais clara, e mais cínica... e só não foi de forma mais sínica, porque a China afastou-se o suficiente das oscilações monetárias, desagravando a polémica financeira europeia, e evitando o colapso dos seus principais clientes.

Bom, mas então o que se teria passado?
- Não me interessa propriamente a pretensa piada actual de mau gosto. Se esta foi uma repetição histórica em forma de farsa, já deixou as suas marcas em tragédias pessoais.

Interessa olhar para as escassas e contraditórias informações que restaram dos tempos antigos.
No final da Guerra de Tróia, se Micenas foi vencedora desse embate a uma escala global, ninguém notou muito. Nem Agamémnon teve tempo de celebrar, fulminado que foi por Clitemnestra. 
Aliás, pelo contrário, a civilização de Micenas, dos Hititas, dos Egípcios, foi assolada logo de seguida pela chamada vaga dos "Povos do Mar", que basicamente levou a um colapso das civilizações mediterrânicas.
Seguiu-se o que se considera ser um colapso civilizacional, que do ponto de vista histórico assinalou o fim da Idade do Bronze, e o caso grego assinala uma Idade das Trevas (basicamente entre os Séc. XIII a.C. e VIII a.C.), em certa medida semelhante a uma Idade Medieval na Antiguidade.

É no fim dessa idade de trevas que Homero formará a Ilíada e Odisseia, juntando acontecimentos com 500 anos de tradições orais, deturpadas pela mitologia. Os novos gregos já não são os homéricos Aqueus, aliás a Aqueia passaria a ser uma província vizinha à Arcádia, tal como a Ilida (Elis), onde se passariam a realizar os Jogos Olímpicos. Não deixará de ser curioso ficarem vizinhas províncias com nomes semelhantes a Aqueus (gregos) e a Ilíados (troianos).
Os novos gregos tomaram o nome de Helena, e até hoje autodenominam-se Helenos
A cultura helénica resultará da mitologia sobrevivente dessa Idade das Trevas.

Como Platão aponta, quando trata do assunto da Atlântida, o sacerdote egípcio Sonchis de Sais diz a Sólon que os gregos apareciam como crianças, sem memória do seu passado, nomeadamente das guerras com a potência atlântica, que subjugava os povos mediterrânicos. Os Egípcios sofreram com a invasão dos Povos do Mar, mas Ramsés III teria vencido duas batalhas, e Ramsés II tinha vencido os Hititas em Kadesh. O Egipto entrou em declínio, mas não de forma abrupta, como Micenas ou como os Hititas, e nesse sentido alguma memória teria permanecido.

É neste ponto que convém dar atenção à feroz crítica a Homero, feita por Dião Crisóstomo no Séc. II:
... onde basicamente, seguindo uma linha crítica a Homero, que se evidenciou depois de Platão, Dião vai argumentar o contrário do estabelecido - ou seja, que na Guerra de Tróia, os vencedores não foram os Gregos Micénicos, mas sim os Troianos

O que se pode ter passado, é que os gregos de Micenas provocaram estragos numa Tróia próxima, mas quando procuraram a Tróia mais distante, mexeram num vespeiro dominado por um poder atlântico. Há aliás referências ao envolvimento de Mémnon, rei de uma Etiópia que se situava numa África além dos Pilares de Hércules, e das próprias Amazonas (por Pentesileia), alinhando pelo lado de Tróia. Acresce que o registo egípcio dá conta que Helena teria ficado refugiada no Egipto e não em Tróia. No regresso de Tróia, não é apenas Ulisses que deambula perdido, quase todos os gregos têm dificuldade em retornar, e são poucos os que conseguem voltar com sucesso.

Nesta hipótese de Dião Crisóstomo, o Cavalo de Tróia seria uma invenção de Homero, e dir-se-ia mais que isso - a própria epopeia tendo como desfecho a vitória grega seria o verdadeiro trote troiano!
Os gregos cresceram celebrando a ideia de uma vitória que foi afinal uma completa derrota... 
Afinal, onde tinham ficado essas cidades micénicas? Todas foram completamente arrasadas nos anos seguintes, pelos "Povos do Mar". A cidade de Micenas, reencontrada por Schliemann no Séc. XIX, tinha sofrido um destino muito próximo daquele que fora reportado a Tróia - as muralhas e edifícios foram arrasados, e a cidade foi consumida por incêndio devastador. Assim como Micenas, todas as maiores cidades mediterrânicas, inclusive as hititas, sofreram um cenário de grande devastação... escapando apenas algumas cidades egípcias.

Neste caso, a hipótese que procurei (e encontrei sustentada por Dião Crisóstomo), é a de que a nova civilização grega, que cresceu ouvindo as histórias de Homero, após o Séc. VIII a.C., é uma civilização inventada num poder atlântico, talvez situado em paragens gaulesas, célticas, ibéricas, que cresceu na sombra de um cavalo troiano, que serviu para inverter a memória. Dando Tróia como destruída, não teriam esses troianos a perspectiva de ver os novos gregos rumar de novo a Ocidente com a finalidade de vingar os seus antepassados. O assunto ficava arrumado por uma vitória celebrada, mas inexistente. A forma de condicionar os gregos iria surgir de outra forma - pelo grande poder que os seus Oráculos, nomeadamente o de Delfos, iriam exercer sobre toda a civilização grega.

De uma forma, ou de outra, os novos gregos expandiram-se no Mediterrâneo, fazendo a Magna Grécia, mas não ousaram passar os Pilares de Hércules. A civilização grega, tal como o restante da civilização egípcia, iriam servir como tampão do progresso de outras civilizações - nomeadamente, os Assírios, Medos, Persas, e Babilónios. A ponte com o Ocidente, seria feita primeiro pelos Fenícios, e depois pelos Cartagineses, numa altura em que Roma começava a crescer. 
O ponto comum dos novos Gregos, Cartagineses, e Romanos - um novo sistema político que se iria impor durante os séculos seguintes - até Júlio César - o sistema político republicano. 
O barrete frígio do troiano Páris, amante de Helena, era o mesmo barrete republicano que foi servido às gerações seguintes, até ao século passado.

domingo, 27 de agosto de 2017

Âncoras (5) - Ancara, Angorá

Por vezes os novelos são tão intrincados trazem à memória coisas tão simples, como lembranças de infância, em que via a minha avó a tricotar, rendas (que não eram de altice, ou doutra chulice), e que me renderam apenas uma colcha, e sobretudo agradáveis memórias. 

A empresa Âncora já não existe, mas basicamente era a que fornecia todos os fios de tricotar, saindo da revolução industrial na cidade paroquial escocesa de Paisley (por via de George Clark), onde as instalações Anchor Mills já servem apenas como museu.
Esta memória teria relevo num blog de nostalgias, mas aqui o relevo diz respeito ao símbolo da cidade de Ancara, capital turca, que era expresso em moedas romanas antigas:
 
A representação de Ancara com o símbolo da âncora, em moedas romanas (imagens daqui, daqui e daqui).

Há assim uma ligação entre Ancara e Âncora.
Claro que poderíamos dizer que "âncora" e "ancara" são palavras muito parecidas, mas isso não seria nada mais do que simples especulação... e há bastante mais que isso!

Pausanias
Primeiro, é razoavelmente estranho associar uma âncora a uma cidade muito longe da costa, a 1000 metros de altitude face ao actual nível do mar. No entanto, há um registo lendário sobre o nome que justifica a âncora. É o geógrafo Pausanias que o refere, quando menciona a invasão gaulesa:
Este povo ocupou a terra na parte mais distante do rio Sangarius, capturando Ancyra, uma cidade dos Frígios, que Midas, filho de Górdio, tinha fundado em tempos antigos. E a âncora que Midas encontrou, até ao meu tempo [Séc. II], estava ainda no santuário de Zeus, bem como uma fonte, chamada Fonte de Midas, cuja água, dizem, Midas misturou com vinho para capturar Sileno.
Pausanias: Description of Greece (Tradução de W. H. S. Jones & H. A. Ormerod). Londres, 1918. 

Na tradução inglesa usa-se "Ancyra", outra escrita de Ancara, pois é usada a transliteração do upsilon em ípsilon, senão ficaria Ancura - quase idêntico à pronúncia de Âncora. Os tradutores colocam até uma nota de rodapé, afirmando "A legend invented to explain the name Ancyra, which means anchor". Por outro lado, a palavra grega tem um gama e deveria ler-se "agcura", que foneticamente continua quase igual a "âncora", e daí pode surgido a variante Angorá, adjectivo gentílico usado para dessa região turca. Em particular, gatos e cabras felpudas, angorás, cuja lã era apreciada em tempos vitorianos - levando à sua exportação para a Austrália, por exemplo. Poderia haver assim uma sugestão de ligação da marca Âncora à lã angorá, através do símbolo da âncora da cidade turca.

Âncora em altitude
Se Midas (ou quem quer que fosse) encontrou uma âncora em Ancara, o problema seria de saber como teria ido ali parar... ou seja, se fazia parte de uma construção para uma embarcação - e nesse caso não seria nada de muito estranho, que merecesse referência especial... ou se essa âncora fazia parte de um navio ali encalhado - bom, e nesse caso, a hipótese seria um dilúvio mundial. Ora, isso seria já algo digno de registo, que mereceria menção para a posterioridade, e daria um sentido profundo ao nome de Ancara.
É nessa hipótese que coloco este texto na sequência de outros textos sobre âncoras suíças, porque também na questão das âncoras encontradas em Basileia, o problema era semelhante... mas com menos de metade da altitude.
Há ainda um outro ponto... é que Ancara não está muito longe do Monte Ararat, a referência bíblica para o evento diluviano. Portanto, seja por razão histórica ou lendária, os eventos conjugam-se.

Galácia
Já falámos da invasão celta que Breno levou até às portas de Roma em 390 a.C. Essa mesma expansão celta teve um outro episódio significativo, com movimentações armadas que ameaçaram os gregos em 278 a.C., sob direcção de um outro Breno, tendo os gauleses sido derrotados nas Termópilas, antes de poderem saquear os tesouros gregos de Delfos.
Diversas expansões celtas entre o Séc. VI a.C. e o Séc. III a.C.

A pesada derrota celta, com a morte/suicídio de Breno, forçou os restantes a tentarem uma incursão pela Ásia Menor, cercando Bizâncio, e acabando por se fixar na região de Ancara, depois de terem sido convidados pelo rei Nicomedes da Bitínia e derrotados pelas tropas de Antíoco, numa história conturbada.
Interessa que um grande número de celtas, ou galátas, como eram também conhecidos pelos gregos, acabou por se instalar na região de Âncara, levando à definição de uma região que em tempos romanos - e ainda hoje - se chama Galácia (e que dá origem ao nome Galatasaray, como principal clube de Âncara).
É assim interessante que no centro da região turca, em torno de Ancara, se encontrasse um grupo de gauleses, que definiram um estado e identidade próprias, durante vários séculos.
Terão aderido ao culto da deusa Cíbele e de Átis, culto que era próprio da região vizinha da Frígia, e que foi adoptado pelos gregos e também pelos romanos. Os sacerdotes eram eunucos, denominados Galos (ou Galli) nome suficientemente ambíguo, mas que remeteria para também para os gauleses emigrados, que nas partes da Lídia, eram abstinentes de carne de porco (constando essa ideia de que teriam sido javalis e porcos, enviados por Zeus, a alimentarem-se dos restos humanos de Átis).

Bom, mas tirando os diversos detalhes, mais ou menos soltos, não deixa de ser curiosa esta ligação antiga entre a Gália e a Galácia... ao ponto de que as invasões turcas nunca parecem ter incomodado os franceses. De facto, entre França e Turquia basicamente houve sempre um "clima de paz", até à Primeira Guerra Mundial, onde a Turquia se teve que redefinir, para evitar a completa partilha do território pelos vencedores... mas já não com a capital em Istambul, mas sim em Ancara.
Assim, quando enquadramos a acção e documentação turca quinhentista, nomeadamente na cartografia, convirá não esquecer que pelo lado da Turquia aparecia também a França.


sábado, 26 de agosto de 2017