terça-feira, 6 de agosto de 2019

Livro de Lisuarte de Abreu (2) As Armadas da Índia

Talvez já percebendo o problema nacional de falta de memória, o governador Jorge Cabral (1549) pediu uma ilustração com as Armadas da Índia, ou seja o conjunto de navios que rumava praticamente todos os anos, de Lisboa à Índia.

Segue-se assim no livro de Lisuarte Abreu as belas ilustrações dos navios que seguiram aquele rumo. 
Discute-se a fiabilidade destas informações, pois só nalguns casos batem certo com outros relatos, também muitos deles incertos. Diz-se que esta informação de Lisuarte é desconcertante, como se a restante trouxesse alguma espécie de conserto. Se as Décadas de João de Barros trouxeram um certo concerto, foi também à custa da imagem que usou para o retrato de Filipe da Macedónio, pai de Alexandre Magno (ver aqui)
... tanto louvor se dá àquele Pintor, que tirando a El Rey Filipe pai de Alexandre per natural, tomou-lhe a postura do rostro de maneira, que lhe encobrisse o defeito que tinha, que era um olho a menos. 
Mesmo que os traços de Lisuarte sejam algo desconcertantes, estão longe de mostrar a cegueira da epopeia portuguesa, que ainda assim foi pouco aflorada por Camões, uns anos depois.
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Armadas da Índia

Uma relação das Armadas da Índia, com algum concerto, pode ser encontrada na página


O GOVERNADOR IORGE CAbRALL MAMDOV FAZER MEMORIA DAS ARMADAS QUE PORTVGALL PASARAM A ESTAS PARTES.
(1) ESTA PRIMEIRA COM QVE VASCO DA GAMA COM QVE PARTIO REINO ANO DE 497.
- Paullo da gama (Paulo da Gama) [bandeira da cruz de Cristo]
- Vasquo da gama (Vasco da Gama) [bandeira com escudo real]
- Ho nauio de Neculao Coelho q dsfizerão. (Nicolau Coelho) [perdido]

(2) A SEGUNDA ARMADA DE PDR ALVARES CAbRAL ANO DE 500
- Amdre guonçalvez (André Gonçalves)
- Dioguo Diaz (Diogo Dias)
- Vasquo De Taíde (Vasco de Ataíde) [perdido]
- Nuno Leytão (Nuno Leitão)
- Rui de mjrãoDa (Rui de Miranda) [perdido]
- Luis Piris (Luís Pires) [perdido]
- Sanchou De Touar varou e puserão lho fogo (Sancho de Tovar) [incendiado]

- Niculao Coelho (Nicolau Coelho)
- João F~iz (João Fernandes)
- Pedralvez Cabral (Pedro Álvares Cabral) [bandeira da cruz de Cristo]
- Symão De mjrãoDa (Simão de Miranda)
- Dioguo de Figuejro (Diogo de Figueiredo) [perdido]
- Bertolameu Diaz (Bartolomeu Dias) [perdido]


(3) JOHAM DA NOVA ALCAIDE DE LISBOA - ANO DE 501.
- Joam da nova (João da Nova) [bandeira da cruz de Cristo]
- Duarte pacheguo (Duarte Pacheco)
- Ruj d abreu (Rui de Abreu)
- Miçe Viçente (Mice Vicente)

(4) DOM VASQUO DA GAMA DESCOBRIDOR DA INDIA - ANO DE 502
- Dom vasquo da gama diguo fernão da gama [bandeira da cruz de Cristo]
- françisquo marequos (Francisco Marrecos)
- Vasquo tinoquo (Vasco Tinoco)
- Dioguo f~iz de mello (Diogo Fernandes de Melo)
- Antão Vaz (Antão Vaz)
- fi~co da cunha da ilha (Francisco da Cunha, da ilha)
- Pero de mendonça no parçel de çofalla (Pêro de Mendonça em Sofala) [perdido]
- Joam Serão (João Serrão)
- fernão d atouguia (Fernão de Atouguia)
- pedr afonço d agiar (Pedro Afonso de Aguiar)

- Dyoguo f~iz corea (Diogo Fernandes Correia)
- Diniz Roiz (Dinis Rodrigues)
- alvaro de taide (Álvaro de Ataíde)
- Do Luis coutynho (Dom Luis Coutinho)
- Don vasquo da gama (Dom Vasco da Gama) [bandeira da cruz de Cristo]
- fernão roiz adarças (Fernão Rodrigues Bardaças)
- Gjil matoso (Gil Matoso)



(5) OS ALBOQVERQVE - ANO DE 503
- Viçente d alboquerque
- Afonso d alboquerque [bandeira da cruz de Cristo]
- francisquo d alboquerque [bandeira da cruz de Cristo]
- bertolameu diaz (Bartolomeu Dias)
- Duarte pachequo (Duarte Pacheco)
- Juçarte pachequo (Zuzarte Pacheco)

(6) LOPO SOARES - ANO DE 504
- Antão de lemoos (Antão de Lemos)
- Dioguo tinoquo (Diogo Tinoco)
- fernão Juzarte (Fernão Zuzarte)
- Symão dal caçova (Simão de Alcáçova)
- Lopo Soajres [Lopo Soares, bandeira da cruz de Cristo]
- Antónjo de bryto (António de Brito)
- tristam da sylva (Tristão da Silva)

- Dioguo ferejra (Diogo Ferreira)
- Dioguo Corea (Diogo Correia)
- Simão gedes (Simão Guedes)
- Diguo d abreu da ilha (Diogo de Abreu, da ilha)
- João de mendanha (João de Mendanha)
- Cristovão de tavora (Cristovão de Távora)
- Amdre guato (André Gato)



(7) DOM fRANCIVO DA EM IDA - O PRIMEIRO VISORTY DA INDIA - ANO DE 505
[Dom Francisco de Almeida - o primeiro vice-rei da Índia - ano de 1505]
- Dom alvaro de loronha (Álvaro de Noronha)
- Dom françisquo d almejda [bandeira da cruz de Cristo, Francisco de Almeida]
- Jeronjmo teijJeira (Jerónimo Teixeira)
- Ruj frejre (Rui Freire)
- Guonçalho Sarajva (Gonçalo Saraiva)
- fernão Soajrés (Fernão Soares)
- João da nova (João da Nova)
- Filipe Rodrigues
- Rodriguo da canha (Rodrigo da Cunha)

- Lucas da fonçequa (Lucas da Fonseca)
- João Homem
- pero fereira (Pêro Ferreira)
- Vasquo gomez d abreu (Vasco Gomes de Abreu)
- Loure~so de brito (Lourenço de Brito)
- Bastião de Sousa
- João Serão (João Serrão)
- Lopo Sanchez
- Lopo chanoqua (Lopo Chanoca)
- guõncallo de paiva (Gonçalo de Paiva)
- Antão Vaz

(8) PERO D NAHAIA PRA COFALLA - 505 
[PERO DE ANAIA PARA SOFALA - 1505]
- pero d alnhaya [bandeira da cruz de Cristo, Pêro de Anaia]
- pero bareto (Pêro Barreto)
- João Leite
- francisquo d anhaya (Francisco de Anaia)
- João de quejros (João de Queirós)
- Manoel f~iz (Manuel Fernandes)


(9) ARMADA DE TRISTAM DA CVNHA QVE VINDO PRA A INDIA 
DESCOBRIO ESTAS ILHAS - ANO DE 506
- afomço lopez da costa (Afonso Lopes da Costa)
- antonyo do campo (António do Campo) 
- manoel teles (Manuel Teles)
- Joam gomez d abreu (João Gomes de Abreu)
- afomço d albuquerque (Afonso de Albuquerque)
- amdre dias alcaide (André Dias, alcaide)
- ... sam lazaro [perdida]

- tristao da cun [bandeira da cruz de Cristo, Tristão da Cunha]
- fr de tavora (Francisco de Távora)
- Jo queimab (Job Queimado)
- alvaro teles (Álvaro Teles)
- lyonxl coutinho (Leonel Coutinho)
- Roy pyaxo (Rui Pereira ?)
- Jº Roy~z pasanha (João Rodrigues Pessanha)

(10) ARMADA DE VASCO MEMZ D ABREU PERA SOFALA ANO DE 507
- Vasco Memds d abreu [bandeira da cruz de Cristo, Vasco Mendes de Abreu]
- dyoguo de mxlo (Diogo de Melo)
- martym coelho (Martim Coelho)
- Vº lourenço (Vº Lourenço)
- Lº chanoca (Lº Chanoca)
- ruy gomsalves de valadares (Rui Gonçalves de Valadares)

domingo, 4 de agosto de 2019

Livro de Lisuarte de Abreu (1) Retratos dos governadores

O livro de Lisuarte de Abreu (que foi aqui trazido por David Jorge), tem algumas ilustrações únicas do que nos resta do período dos descobrimentos. Apesar da qualidade dos desenhos, por comparação a outros, a escrita é de tal forma caótica e disléxica, que se diria péssima cópia de analfabeto. Prova disso é ver-se escrito RBI em vez de REI ou LORO em vez de LOPO, entre muitos outros erros...
Teria sido encomenda a algum artista indiano? 
Um dos interesses deste livro é que permite identificar retratos dos primeiros governadores da Índia portuguesa, associando os seus brazões.

O tema ficaria por aqui, mas há um pequeno problema... que é apresentado numa tese de mestrado da Univ. Católica do Porto, de Ana Teresa Teves Reis:

A Galeria dos Vice-Reis e Governadores da India Portuguesa:
percurso para a definição de uma metodologia de intervenção

Ao que parece no decurso de obras de restauro dos quadros existentes na Galeria dos Vice-Reis e Governadores, surgiu um pequeno problema... Atrás das longas barbas brancas de Afonso de Albuquerque, estava um retrato com barbas castanhas e mais curtas! - De quem?
Imagem e legenda retirada da tese de mestrado de Teresa Teves Reis.

A autora da tese cita uma carta trocada a este propósito (no final dos anos 50, entre o Dr. João Couto e o General Luís de Pina):
"Levantou-se agora uma dificuldade. Vicissitudes do restauro modificaram o primitivo aspecto do retratado e o Afonso de Albuquerque vindo de Goa ficou sem as imponentes barbas brancas com que estava representado na pintura inicial. Várias pessoas, entre elas o nosso Ministro da Educação Nacional [na altura Francisco de Paula Leite Pinto], não pode suportar um Afonso de Albuquerque sem as clássicas barbas brancas. Ora sucede que se supõe ter havido um troca nos retratos restaurados na India e por isso a Agência Geral das Colónias mandou vir a pintura que representa o Governador Soares de Albergaria, decisão que talvez solucione o assunto. O que pensa o meu amigo desta trapalhada? É difícil para si responder sem as muitas radiografias e fotografias que se fizeram dos vários estratos da pintura que na oficina se tratou."
Continuamos com as palavras da autora da tese:
Como durante a intervenção no painel de Afonso de Albuquerque foi descoberto o brasão dos Albergaria numa das camadas subjacentes, o próprio Ministro da Educação Nacional e o Ministro do Ultramar ordenam a vinda do retrato de Lopo Soares de Albergaria numa tentativa de confirmar se efetivamente houvera troca de quadros. O levantamento da repintura nesse painel revela uma outra personagem que se encontrava sob a figura de Lopo Soares de Albergaria, que afinal não era outro Afonso de Albuquerque, mas sim D. Francisco de Mascarenhas, agravando-se a complexidade da situação.
Portanto, já sabíamos da facilidade com que os restauradores e os seus restauros, podem transformar um personagem num outro completamente diferente. Neste caso, trocar Lopo Soares com Afonso de Albuquerque, é uma brincadeira como trocar as caras em rivalidades com 500 anos de historietas, entre Câmaras e Albuquerques.
Os retratos mencionados estavam no Palácio dos Governadores em Pangim.

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Governadores da Índia portuguesa


Passemos assim à lista dos retratos constantes no livro de Lisuarte de Abreu, sem saber se estes mesmos retratos foram também retocados ou não... pelo menos o aspecto de Afonso de Albuquerque lá se mantém com as longas barbas brancas, e o de Lopo Soares não estará muito diferente.

1505: Francisco de Almeida (DÕ FRACISCO DALMEIDA VISO REI)
1509: Afonso de Albuquerque (AFOMÇO DALBVQVERQVE GOVERNADOR)
1515: Lopo Soares de Albergaria (LORO SOARES GOVERNADOR)
1518: Diogo Lopes de Sequeira (DIOGO LOPES DE SIQEIRA GOVERNADOR)

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1522: Duarte de Meneses (DÕ DVARTE DE MENESE GOVERNADOR)
1524: Vasco da Gama (DÕ VASCO DA GAMA VISO REI E COMDE)
1524: Henrique de Meneses (DÕ AMRIQVE DE MENESES GOVERNADOR) 
1526: Lopo Vaz de Sampaio (LOPO VAS DE SAPAIIO GOVERNADOR)

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1529: Nuno da Cunha (NVNO DA CVNHA GOVERNADOR)
1538: Garcia de Noronha (DÕ GARÇIA DE NORONH VISO REI)
1540: Estevão da Gama (DÕ ESTEVAM DA GAMA GOVERNADOR) 
1542: Martim Afonso de Sousa (MARTI AFO DE SOUSA GOVERNADOR)
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1545: João de Castro (DÕ IOAM DE CRASTO GOVERNADOR E VSOREI)
1548: Garcia de Sá (GARÇIA DE SA GOVERNADOR)
1549: Jorge Cabral (JORGE CABAR GOVERNADOR) 
1550: Afonso de Noronha (DÕ AO [VISOREI] FO DO MARQES DE VILA REALL)
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1554: Pedro Mascarenhas (DÕ PEDRO VISO RBI)
1555: Francisco Barreto (FRCO BARETO GOVERNADOR)
1558: Constantino de Bragança (DÕ COSTAMTINO VISO REI) 

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Do Cavalo ao Cavaleiro e ao Cavalheiro

Não consta terem os homens tentado deslocar-se em cima de mamutes, nem em cima de leões, tigres, ou rinocerontes. Consta ainda que os primeiros cavalos eram pilecas pouco eficazes, parecidos com zebras, ou mesmo com burros.

 
Um cavalo primitivo desenhado numa parede da gruta de Niaux
Garrano no Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Os desenhos nas grutas francesas, de Lascaux ou Niaux, estão longe de exibir a elegância que vemos hoje aos cavalos modernos, porque os mais altos e robustos parecem ter resultado da primeira engenharia genética. Curiosamente é raro vermos cavalos primitivos nas grutas espanholas, onde o mais habitual serão os bois/touros. Quanto às grutas portuguesas, por enquanto estamos limitados a saber dos desenhos equestres do Vale do Côa.

Domesticação
A domesticação animal terá seguido as seguintes vertentes principais:
- Bovina. Que levou de selvagens auroques, ou similares zebus, a pacíficas vacas.
- Outra vertente bovina, que é caprina e ovina. Poderá resultar da cabra selvagem ou muflão.
- Suína. Que terá resultado dos javalis.
- Equina. Que sairá de zebras e garranos afins. 

Quanta paciência e quanto tempo terá demorado este processo de domesticação?
Será uma tarefa ocasional de poucas gerações, ou um processo prolongado de muitas gerações?
Colocados no meio de uma África selvagem, quantas espécies conseguiríamos domesticar de raiz, por exemplo, ao ponto de usar como cavalos os descendentes de um grupo de zebras?

Alguns estudos apontam que a domesticação bovina poderá ter começado com um grupo de auroques criados na Mesopotâmia, há 10 mil anos, dos quais foi traçada alguma ascendência genética, para todos os bovinos (bos taurus) actuais. Parece-me uma grande simplificação do problema, que tende a esquecer a inundação provocada pelo degelo seguinte à Idade do Gelo, ou seja, de forma simplificada, tende a esquecer o dilúvio e a arca de Noé.

Há ainda a questão da domesticação de canídeos e felinos, que terá sido diferente. Os lobos eram já gregários com hierarquia social, e a colocação do homem como lobo-alfa poderá ter facilitado o processo. Será o caso mais antigo de domesticação, remontando a 15 mil anos, na Europa (ver cão de Oberkassel). 
A domesticação de gatos terá sido inversa e não terá sido procurada pelo homem... o mais natural é que os próprios felinos tenham procurado no homem um parasitismo de subsistência, após a agricultura, devido à grande presença de roedores no armazenamento de cereais. Alguns leopardos são igualmente simpáticos para os homens (por exemplo, as chitas). 
Numa família, enquanto os cães identificam o dono, os gatos identificam o escravo - aquele a que permitem que lhe faça festas, etc. Os cães exibem um raciocínio directo masculino, de utilidade, enquanto que os gatos têm uma inteligência indirecta, tipicamente feminina, que visa mais o aproveitamento.

Houve outras domesticações, uma delas a aviária, nomeadamente de galos, de que já aqui falei, e creio que a sua origem é claramente da região indonésia, tendo sido trazida para Europa pelos celtas, gaulos da Gália, da Galícia, de Gales, da Galécia ou da Galácia. 

Do cavalo ao cavaleiro... e do porco ao porqueiro
Qual a diferença?
A diferença seria entre ter um cavalo ou ter um porco, não considerando a sua criação.
Tivesse sido o cavalo um animal destinado ao consumo da sua carne e não haveria provavelmente grande diferença entre uma coisa e a outra. 
No entanto, o cavalo passou a ser crucial no combate.
Cavaleiro passou a ser uma faceta da nobreza, enquanto o porqueiro uma faceta popular. Isto pelo menos até ao momento (fim do Séc. XX) em que alguns porqueiros ficaram mais capitalistas, na venda de carne de porco, do que os cavaleiros na preservação da tradição equestre. 
Com pequeno desvio, lembrança da tradição medieval da cavalaria, ficou-nos ainda o Cavalheiro.

A grande diferença é que quando o homem conseguiu domesticar o Cavalo ao ponto de meio de transporte, capaz de tornar a sua deslocação quase 10 vezes mais rápida, todo o enquadramento social teria que mudar.

Para mostrar que tal coisa nem sempre é fácil, bastam 8 segundos nos rodeos americanos, para ser colocado fora do dorso de um touro, ou de um cavalo (bronco). Portanto, será de prever que a criação de cavalos e equitação tenha sido fruto de imensa paciência e estabilidade. Houve a capacidade de conduzir cavalos, elefantes e camelos. Isto permitiu uma vantagem considerável ao proprietário de tal espécime.
Para colocar as coisas em perspectiva, suponhamos que queremos domesticar uma variante de urso, de tal forma que seja possível chegar ao ponto de o montar e conduzir nas suas capacidades guerreiras. Quanto tempo demoraria esse projecto, supondo ser realizável? Que se saiba não houve grande sucesso na domesticação de ursos, mas sendo tão comuns nas florestas europeias, certamente que foi tentado.

De forma notável, e mostrando algum contacto e comércio global primitivo, o mesmo tipo de animais que foi domesticado numa parte do mundo foi semelhante ao que foi domesticado na restante, com possível excepção na domesticação de cobras (um assunto algo submerso). 
Note-se que há um foco que aponta origem de domesticação de bovinos, suínos, caprinos e ovinos, para uma zona central Euro-asiática, entre 10 e 8 mil a.C. o que coincidirá com uma provável inundação de toda a orla marítima pelo menos até 300 metros de profundidade, e que terá atingido áreas hoje com 200 metros acima do nível do mar. Os sobreviventes desta inundação seriam residuais de uma fictícia arca de Noé.

O cavaleiro
A presença de cavaleiros em figuras rupestres é rara, mas foi encontrada em Bhimbetka, na Índia, com uma datação até 2000 a. C. A presença de cavalos em batalha é atestada desde o confronto com os Povos do Mar, e em particular o uso de carros puxados por cavalos, em combate, está presente nas inscrições relativas à Batalha de Kadesh, entre egípcios e hititas.
A figuração de cavaleiros montados, que requer uma técnica equestre mais cuidada, aparece posteriormente, como por exemplo neste friso assírio (onde quem dispara o arco, não é quem conduz o cavalo - sugerindo o uso de parelhas de cavalos).
 Friso assírio (séc. VIII a.C.) mostrando o uso de cavalaria.

O registo mais comum era quase sempre o de tropas apeadas, e mesmo na Grécia, até que as tropas macedónias ganharam protagonismo, com Filipe e Alexandre Magno, era raro saber-se de tropas montadas.
Aliás, a esse propósito recordamos o texto de Calisto Barbuda,

onde se elabora sobre a hipótese de na Ibéria ter aparecido a técnica equestre:
"Em nenhum outro local existem evidências da existência de cavalos montados há tanto tempo. Embora noutras paragens, como na Grécia ou no Egipto, também já se utilizasse o cavalo na guerra, essa utilização era sempre feita como animal de tiro, puxando os carros de combate. Isto permite-nos colocar a hipótese da origem ibérica da própria equitação. A confirmar-se, o cavalo Peninsular seria, então, o primeiro cavalo de sela conhecido."
De facto é remetida uma certa fama existente entre gregos e romanos de que os cavaleiros e a cavalaria ibérica seria particularmente apta no combate, tal como aconteceu com a cavalaria numida (de origem maura-africana que é posterior).

Equites
O nome equites refere à classe patrícia romana, cuja principal característica era a posse de cavalo, e que em termos hierárquicos apenas estaria abaixo da classe senatorial de Roma, que era eleita de entre os seus membros. 
A equidade entre os seus membros era a "egualdade", no sentido em todos seriam "eguais", possuindo "éguas", ou cavalos. Portanto, falamos de uma igualdade elitista, tal como depois foi entendida no quadro da cavalaria, quando se referia ao carácter supostamente equalitário dos cavaleiros da Távola Redonda. Seria o carácter de igualdade entre pares, entre cavalheiros, entre cavaleiros.

O código de conduta exigido aos cavaleiros, especialmente durante a Idade Média, tornou que uma característica lendária associada ao cavaleiro, seria ser também um cavalheiro... algo que foi mais desenvolvido no imaginário quando os cavalos perderam a sua importância, já no Séc. XIX.

Cavalos em Tróia
Há alguns heróis trazidos por Homero no enquadramento da Guerra de Tróia, mas não seria propriamente uma característica fulcral dos aqueus, primevos gregos. Se Aquiles teria arrastado o corpo de Heitor, este é puxado por uma quadriga nas representações muito posteriores, que ilustram esse episódio:
Ilustração de vaso posterior (Séc. VI a. C.), mostrando Aquiles numa quadriga a arrastar o corpo de Heitor.

Até essa altura os heróis gregos não são propriamente conhecidos enquanto cavaleiros. 
O episódio do cavalo de Tróia é muito provavelmente ilustrativo de que os gregos podem ter aprendido em Tróia a arte do combate montado, que seria muito mais uma arte troiana do que grega. Essa poderia ter sido uma vantagem que Tróia manteve até ao momento em que a força grega aproveitou a presença de cavalos, domesticados na redondeza, em seu proveito... ou seja, através de Ulisses, teria sido mesmo desenvolvida uma cavalaria grega capaz de ali competir com a troiana. Isto poderia então ter dado origem ao mito do Cavalo de Tróia.

O uso de cavalos cada vez mais seleccionados e apurados para o confronto militar poderá ter tido origem nessa transição entre a Idade do Bronze e a Idade do Ferro. Convém lembrar que os mitos gregos sobre os centauros podem ter justamente origem numa estilização de tribos de cavaleiros violentos que amedrontavam as primitivas tribos gregas.

Se o nome "centauro" sugere mais uma relação com o touro, com efeito para além do Minotauro (cabeça de touro, corpo humano), o mito associado a Aqueloo, deus dos rios, apresenta-o com cabeça humana e corpo taurino (em oposição ao Minotauro). É particularmente representado em Gela (ou Celas), em muitas moedas sicilianas
Moeda siciliana de Gela (Celas), ilustrando um cavaleiro, e na outra face, Aqueloo, deus dos rios.

Rapariga conduz uma vaca.



Também nestes casos se poderá colocar a possibilidade da figura de Aqueloo corresponder a uma eventual figuração de outras tentativas de conduzir animais... neste caso de gado bovino, o que é possível de ser conseguido, com paciência, conforme é mostrado na imagem ao lado (com ligação ao vídeo incluída).
Ou seja, tal como no caso dos cavalos, também no caso do gado bovino, nem todos os animais reagem violentamente à presença de um peso incómodo no dorso. A condução bovina parece ter ainda um lado perfeitamente acessível.


Interessa especialmente notar que, mesmo no caso de tropa de combate, o uso de cavalos estava praticamente reservado à nobreza e fidalguia, deixando situações de desvantagem por mero preconceito social. Só já depois do Séc. XVII é que começou a ser popular a instrução de tropas com uma parte de cavalaria plebeia - por exemplo, o caso dos regimentos de dragões.
Com efeito só com a popularização do coche, inicialmente muito reservado à nobreza, especialmente a partir do Séc. XVIII, é que os cavalos começam a ser usados como um transporte mais normal e não apenas propriedade distintiva de uma classe abastada. Quando chegamos ao Séc. XIX já teremos colonos ou comerciantes vulgares como felizes proprietários de cavalos, e não de meras pilecas para trabalho pesado.

A imagem do cowboy viajante pelas paisagens do Oeste americano é o último símbolo de liberdade (e perigo) que seria encontrado pelos colonos exploradores daquelas paisagens. O cavalo em breve seria substituído pelo automóvel, quando a sociedade conseguiu enquadrar a mobilidade humana com naturalidade. Nunca antes o homem teria sido movido pelo desejo de passear, sem um qualquer propósito de utilidade subjacente.
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29.06.2019

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Moedas (3) moedas portuguesas

Continuando o assunto de "moedas ibéricas"  interrompido há dois meses atrás... e ao invés de regressar às moedas anteriores à administração romana, vou aqui colocar algumas moedas da monarquia portuguesa, de D. Afonso Henriques a D. Sebastião. 

Serve especialmente para notar que só houve uma grande diferença qualitativa com D. João III.
Antes disso, a cunhagem das moedas era tosca, e mesmo no período dos descobrimentos não se pode considerar que fosse de grande qualidade.

Isso é razoavelmente importante, porque significa que a técnica que esteve presente em Portugal, mesmo durante o período áureo, não foi uma técnica que seria de esperar tendo em conta a exigência de outras experiências - como a exigência da navegação.

As moedas aqui colocadas estão acessíveis pela página do Museu da Casa da Moeda, que fornece uma extensa lista de moedas, reinado a reinado.

1ª Dinastia. Começamos pelas moedas da primeira dinastia, onde não há propriamente grandes surpresas, e onde parecem ser escassas as moedas restantes, com desenhos quase infantis, mal definidos, próprios de uma cunhagem deficiente e pouco cuidada. As moedas típicas mais simples são os dinheiros (bolhão), havendo também tornês de prata com D. Dinis, e dobras ou morabitinos de ouro.
  • D. Afonso Henriques
     
    Morabitino de ouro (esq.) e dinheiro [bolhão] (dir.) com pentagrama!
  • D. Sancho I até D. Afonso III
    Morabitino de ouro de Sancho I (esq.) e dinheiro [bolhão] (dir.) de D. Afonso III.
  • D. Dinis até D. Pedro I
    Tornês de prata de D. Dinis (esq.) e conto (dir.) de D. Afonso IV.

D. Fernando a D. João I. Uma significativa diferença parece ocorrer no reinado de D. Fernando com a presença de um maior número de moedas - forte, real, grave, barbuda, pilarte, isto para além do dinheiro, do tornês, e ainda das dobras de ouro.

Diferentes moedas do reinado de D. Fernando.

Dobra de ouro de D. Fernando (esq.) e real de 10 soldos (dir.) de D. João I.

Curiosamente, no decurso do reinado de D. João I não parece haver uma produção numismática comparável.
A produção parece ser assinalável no curso do reinado de D. Fernando, onde convém lembrar que se fez uma das mais importantes obras medievais em Lisboa - o cerco da Muralha Fernandina. 
No entanto, aqui será de ponderar que o comércio implementado por D. Fernando poderia já estar ligado às primeiras explorações portuguesas do continente americano e africano, feitas ainda sem qualquer autorização papal... É importante aqui notar que o papado estava deslocado para Avinhão, o que correspondia quase a uma delegação no reino de França.

D. Duarte a D. Afonso V. Tal como no reinado de D. João I, também no reinado de D. Duarte, a produção numismática parece ser bastante escassa, merecendo apenas destaque a introdução do "leal" - uma designação cara a D. Duarte. 
Significativa diferença ocorrerá de seguida com D. Afonso V, só semelhante à ocorrida antes com D. Fernando. Nota-se aqui uma nova produção de moedas, com diferentes designações. 

Leal de D. Duarte (esq.) e  meio escudo de ouro (dir.) de D. Afonso V.

Diferentes moedas do reinado de D. Afonso V.

De entre os novos nomes de moedas que estão presentes no reinado de D. Afonso V, destacam-se o ceitil, o cruzado, o espadim, o cotrim, o chinfrão, ou o real grosso, para além do escudo de ouro. O ceitil, tal como o vintém ou o tostão, serão moedas populares no curso dos descobrimentos.

D. João II a D. Manuel
A produção numismática não parece sofrer grande diferença no reinado de D. João II, talvez apenas com a introdução do justo de ouro, ou do vintém. As moedas anteriores, do reinado do pai, são praticamente mantidas, com pequenas alterações.
Justo de ouro de D. João II.

Moedas no reinado de D. João II: espadim, cinquinho, cruzado, vintém, ceitil.

Já no reinado de D. Manuel parece haver de novo uma grande abundância de novas moedas, e novas designações... começando por uma moeda com o seu próprio nome - manuel.
Manuel de ouro de D. Manuel, com a esfera armilar.
Moedas no reinado de D. Manuel: bazaruco, tostão, português, vintém, ceitil, cruzado, bastardo, soldo.


D. João III a D. Sebastião
É apenas no reinado de D. João III que vemos moedas já com uma qualidade bastante razoável, que depois só será melhorada no reinado de D. João V. Deixamos aqui como ilustrativo o caso do "S. Vicente" de ouro, vendo-se o santo segurando um navio, e ladeado por duas estrelas.
S. Vicente de ouro de D. João III, onde notamos uma maior qualidade na escrita e desenho.

Com D. Sebastião não há propriamente uma grande diferença face ao anterior. Um tema que se tornava recorrente era a designação "In Hoc Signo Vinces", ou seja, "com este sinal vencerás", que está presente na moeda que trazemos aqui enquanto ilustrativa:

Engenhoso de ouro de D. Sebastião com a inscrição "in hoc signo vinces" e a data 1562..


Nota adicional: Ver ainda

domingo, 9 de junho de 2019

Outros Quinhentos (4) 500 anos - A méxica

Em Fevereiro de 1519, Hernán de Cortés parte de Cuba para a invasão do território Azteca.
Doze anos mais tarde, Francisco Pizarro irá iniciar a invasão do Peru, saindo do Panamá.
Farão isso de forma cruel, pragmática, ou brilhante. Ajustam-se diversos adjectivos.
Passam 500 anos, e para os mexicanos não é muito claro o tom da comemoração.

Convém notar que os Aztecas e Incas não eram civilizações antigas.
Os Incas iniciaram o seu império em 1438. 
O Império Azteca começa em 1428, com a aliança das cidades Tenochtitlan, Texcoco e Tlacopan.
Passado um século, ambos estes impérios foram destruídos num ápice pelos espanhóis.

Quadro da conquista do México e Tenochtitlan por Cortés.
Portanto, quando Ceuta é conquistada (1415), e o Infante D. Henrique começa a tomar conta das explorações atlânticas, os impérios Azteca e Inca ainda não existiam. Estes impérios desenvolvem-se ao mesmo tempo que se desenrolam as explorações portuguesas no Atlântico, e vão cair quando Carlos V é sagrado imperador do Sacro-Império Germânico, em Janeiro de 1519, e inicia a sua expansão territorial além das Caraíbas.

Surge assim uma pergunta:
- Há alguma evidência de contacto anterior entre Incas ou Aztecas com europeus?
- Aparentemente, não.
Um argumento comum é que se tivesse havido um contacto anterior, as doenças que vitimaram muitos indígenas, teriam aparecido mais cedo.

Esse dado, normalmente aparece sem grande suporte objectivo.
Os indígenas teriam sucumbido às doenças trazidas pelos europeus, dando-se como exemplo mais comum a varíola. Aponta-se para este número uma redução de 90% da população indígena. 
Normalmente parece esquecer-se que também os europeus eram vítimas naturais desta doença, e que na Europa do Séc. XVIII foi contabilizada a morte de 400 mil pessoas por ano, até à invenção da vacina. Ou seja, a varíola não atingia só os indígenas, a novidade terá sido que passou a afectar também os indígenas. Também os europeus passaram a ser vítimas de novas doenças tropicais, de que antes tinham pouca notícia - por exemplo, a febre amarela.

Outra causa do decréscimo da população indígena pode explicar-se praticamente por um factor:
- Mestiçagem.
Este factor teve logo como exemplo a entrada de Cortés no México.
La Malinche foi oferecida como companheira de Cortés, e dela ele teve vários filhos. 

Este processo era o mais frequente porque as tripulações embarcadas de Espanha não levavam mulheres. As mulheres a que os espanhóis tinham acesso eram as indígenas, e aí não houve prurido de múltiplos acasalamentos. Rapidamente surgiu uma segunda geração mestiça, já afiliada a uma origem espanhola, ocidentalizada, que foi perdendo a ligação aos aztecas. Repetidamente, o processo levou a que se perdesse a língua e cultura dos antepassados, com a pressão do clero católico, extremamente cioso da pureza cristã e condenação da bárbara cultura pagã azteca.
A população nas cidades mexicanas poderia ser medida no seu nível social pela maior ou menor quantidade de sangue espanhol. Ao contrário do que veio a ocorrer depois com as colonizações britânicas ou holandesas, no caso espanhol ou português a mestiçagem foi crucial para o desaparecimento da cultura indígena. Por exemplo, o emblemático Mayflower partiu para a América com colonos - homens e mulheres - mas só nos séculos XVIII e XIX é que as colonizações portuguesa ou espanhola seriam mais feitas por famílias partidas do continente europeu. Apesar de haver alguma presença de mulheres e famílias nos navios que cruzavam os oceanos, esse número foi sempre contido ou reduzido ao estritamente necessário.
A facilidade de ligação com os indígenas nem sempre foi tão facilitada quanto no caso americano, sendo claro que no caso do contacto com populações chinesas ou japonesas, a miscenização foi uma prática muito residual, quase inexistente.

A rota de Cortés
O sucesso estrondoso de Cortés é pouco digno de ser reconhecido, porque ao mesmo tempo acaba por se ligar a um pragmatismo possível. 
Cinco centenas de espanhóis consegue, por meio de grande engenho e artimanha, fazer sucumbir em dois anos, um império ingénuo e cruel, que contava com milhões de habitantes.

Uma das razões do sucesso de Cortés foi o seu percurso até Tenochtitlan, de Abril a Novembro de 1519, onde com sucessivas alianças a tribos inimigas dos aztecas foi reunindo uma força invasora já muito considerável, com milhares de homens.
Para esse efeito contribuiu La Malinche, a concubina nahua oferecida a Cortés, que depois o ajudou não apenas na tradução, mas até a definir a estratégia de alianças. O termo "malinche" passou a designar a traição ao próprio povo... por incompreensão posterior.
Mais crucial terá sido a aliança com Tlaxcala, que após feroz guerra no início de Setembro, aceitaram negociações e aliança com os espanhóis contra os aztecas, seus inimigos. Os seus quatro chefes foram baptizados e ofereceram as filhas em casamento aos companheiros de Cortés. 
 

Parte da grande pirâmide de Cholula.
De forma mais importante, Tlaxcala deu um exército suplementar a Cortés, que o usou contra Cholula, a segunda cidade mais importante, e um grande centro religioso. 
Cholula tinha sido instruída pelo imperador Moctezuma para parar Cortés, mas a cidade era um ponto religioso, com fraco dispositivo militar. Acabou por acolher Cortés, e como a sua concubina acabou por revelar/descobrir um plano de assassinar aí os espanhóis, estes terão executado 3 mil (ou 30 mil) habitantes, e deitado fogo à cidade para servir de exemplo.
A partir daí, Cortés não teve maiores dificuldades em seguir até ao centro do império Azteca, a cidade de Tenochtitlan, e lago Texcoco, no que é hoje a Cidade do México.

Tenochtitlan no lago Texcoco, é hoje a Cidade do México.
Tenochtitlan teria, à chegada de Cortés, uma população estimada em 200 mil habitantes, e seria assim uma das maiores cidades do mundo à época, maior que as cidades europeias.
Além disso, a complicada construção de Tenochtitlan, no meio do lago Texcoco, faziam dela uma cidade comparável a Veneza, em diversos aspectos. Este enorme lago Texcoco foi completamente assoreado pelos espanhóis, o que permitiu depois a construção de uma Cidade do México cada vez maior, assente num lamaçal que resultou da construção feita sobre o lago (isto causa ainda problemas graves na propagação das ondas sísmicas, conforme se verificou no sismo de 1985).

Aztlan, Quetzalcoatl, Kukulkan e Viracocha
Moctezuma II recebeu com todas as honras Cortés e os seus homens, instalando-os no palácio que fôra de seu pai. Desde que desembarcara, emissários de Moctezuma enviavam saudações e presentes, procurando que ele não fosse a Tenochtitlan, mas os ricos presentes apenas serviram para mostrar que estava no caminho certo. 
Moctezuma prendeu-se à lenda Mexica-Azteca que colocava a origem do povo em Aztlan (note-se a semelhança com o termo Atlan, ou Atlas-Atlântico), um local indefinido a norte. Ligando Cortés à divindade Quetzcoatl, enquanto homem branco de barba, o imperador dava aos espanhóis um estatuto divino que facilitou a perdição azteca. A mesma lenda, que existia nos Maias e nos Incas, variando no nome - Quetzalcoatl era Kukulkan para os Maias e Viracocha para os Incas - serviu de grande facilitador para a conquista de Aztecas e Incas (os Maias, menos centralizados, resistiram mais tempo). 
Ao fim do segundo dia, e com o pretexto de erguer uma cruz e um altar à Virgem Maria, os espanhóis arranjaram pretexto para sequestrar Moctezuma, e mantê-lo como imperador fantoche. Fraco, esteve mais preocupado em não ser destronado, caso os espanhóis escolhessem o irmão Cuitlahuac, apesar dos protestos da sua corte. Moctezuma foi colaborando ao ponto de o avisar da chegada de um exército de Cuba, liderado por Narvaez, para o prender. 

Cortés, mais uma vez resolveu a situação pragmaticamente. Foi até Veracruz, onde derrotou Narvaez, e convenceu o exército que vinha no seu encalço a juntar-se a si, na conquista de Tenochtitlan. Quando regressou, a situação era ainda mais caótica, os Aztecas tinham-se juntado em torno do irmão de Moctezuma, após um massacre no grande templo ordenado por Alvarado (segundo no comando de Cortés). Cortés pede a Moctezuma que fale à população para a apaziguar, mas este acaba morto pela saraivada de pedras que recebe.
Com a morte de Moctezuma, os espanhóis são forçados a fugir de Tenochtitlan, mas reagrupam forças com os aliados de Tlaxcala. No final tudo se resume a convencer as cidades vizinhas a alinharem com o novo poder espanhol, e um cerco de dois meses à capital, que acabará por cair a 13 de Agosto de 1521.

Uma conquista que doutra forma poderia ter demorado séculos (o que aconteceu noutras paragens próximas, incluindo os Maias), acabou por se resumir, numa série de acasos favoráveis, e numa crença no cumprimento do mito de Quetzalcoatl. O engenho de Cortés, para coordenar os diversos balanços de poder, e tirar daí o melhor proveito, foi ainda mais notável.

Os Aztecas, e a sua Méxica, caíram sem grande dificuldade aos pés de Cortés.
Como já referimos, o nome "América" poderá ser um desvio de "A méxica", mas aqui também surge como interessante este mito ligado a "Aztlan", um nome demasiado próximo de "Atlan" para não ser ignorado. Aliás, a frequência dos nomes aztecas com o som "tl" não deixa de ser intrigante como relação do próprio nome de Atlas, com este continente perdido.

Curiosamente, até a descrição de Platão de uma cidade aquática atlante deixa algumas questões, pois isso teria ocorrido milhares de anos antes de ser construída. Ou seja, a lenda que levou os Mexica-Aztecas até ao lago Texcoco, procurando o símbolo da águia que bica a serpente junto ao cacto (símbolo da bandeira mexicana), serviu ainda para ajustar a pretensão de que a lenda parecia inspirada no cumprimento do relato de Platão no Timeu.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Outros Quinhentos (3) 500 de Terra e 50 de Lua


Paisagem no Estreito de Magalhães (Google Maps)

A hipótese que faz mais sentido, daquilo que conheço, relativamente à circumnavegação do globo, é a seguinte...

Entre 1482-88, o rei D. João II enviou diversas armadas para contornar o continente americano, que como é óbvio, era conhecido de quem fizesse navegações sistemáticas no Atlântico. 
O Infante D. Henrique sabia do assunto, mas ignorou-o, porque era tudo menos "navegador". A sua política era militar, tal como a da Ordem de Cristo, ou seja, a da herança templária, visando contornar a África e invadir a península arábica, chegando a Jerusalém. Essa política veio a ser concretizada por Afonso de Albuquerque que chegou a conquistar o Mar Vermelho até ao Suez. 
Ao contrário, o Infante D. Pedro, esse sim um viajante e explorador, seria a de navegar a América, ao ponto de tentar encontrar uma passagem no continente americano para chegar à Ásia.
Essas explorações continuaram no reinado de D. Afonso V, patrocinando a empresa privada de Fernão Gomes, mas deverá ter sido apenas no reinado do seu filho, D. João II, que foi descoberta a passagem. 

Como marco importante na tentativa de cruzar o continente americano, o ponto mais importante pelo Infante D. Henrique terá sido a descoberta do Rio Sagres - agora chamado Rio Chagres, no Panamá.
Aliás, à mesma latitude do rio Chagres 9º30' N encontramos o Cabo Sagres... em Conacri, Guiné.
Foi aí que terminou declarada a exploração do Infante D. Henrique. Foi também o Rio Chagres que acabou por servir para fazer o Canal do Panamá, porque com efeito esse era o ponto mais prático de passagem. Assim, a descoberta do Oceano Pacífico terá ocorrido uns 50 anos antes de Balboa.

Para efeitos de encontrar uma passagem a norte ou a sul, D. João II enviou sucessivamente armadas para latitudes árticas e antárticas, e nesse processo terá descoberto praticamente todo o globo. Não deu conhecimento disso, porque lhe interessava uma passagem mais rápida do que aquela que obteria circum-navegando a África. Ora, isso veio a revelar-se impraticável.

Nas expedições em que Diogo Cão andou supostamente "no rio Congo", o objectivo seria o de encontrar o Estreito de Magalhães. É provável que na primeira viagem de 1482 tenha apenas conseguido contornar o continente americano pelo Cabo Horn, e que só na segunda viagem de 1484-86 tenha encontrado a passagem pelo estreito. O Estreito de Magalhães terá sido descoberto pelo piloto João Afonso do Estreito, ou pelo menos assim o sugere o seu apelido... 
No entanto, a expedição seria comandada por Diogo Cão, e teve Martin Behaim como "companhia", que nessa altura terá feito o mapa da região. 
Depois, com base nos mapas de Behaim, João Afonso do Estreito terá proposto em 1487 navegar a Ocidente, em conjunto com o flamengo Fernando Dulmo, mas a expedição não terá tido retorno. Seria só em 1488 que Bartolomeu Dias, passando pelo cabo Horn, dito das "tormentas", teria feito a circumnavegação, regressando pelo cabo da Boa Esperança vindo por paragens australianas.

Essa teria sido a boa esperança que o rei viu - um caminho ocidental, contornando a América do Sul, ao invés de contornar a África, evitando entrar em conflito com os muçulmanos no Oceano Índico.
Entre 1488 e 1492, creio que D. João II se convenceu que haveria a passagem noroeste, que pouparia imenso tempo, evitando ir ao hemisfério sul. Para esse efeito contava com a experiência dos Corte Real na exploração da América do Norte, e também dos Gama. 
No entanto, a dificuldade dos gelos árticos em latitudes além do círculo polar não permitiriam uma passagem exequível para a carga. Os riscos seriam demasiados, mesmo que tal passagem fosse encontrada - e se tal foi conseguido, foi provavelmente depois, já no reinado de D. Manuel ou mesmo de D. João III.

A razão para isto ser mais certo do que mera especulação é a descrição que Pigafetta faz, quando Magalhães redescobre esse estreito:
E se non era el capitano generale non trovavamo questo stretto, perchè tutti pensavamo e dicevamo come era serrato tutto intorno: ma il capitano generale, che sapeva de dover fare la sua navigazione per uno stretto molto ascoso, come vide ne la tesoreria del re di Portugal in una carta fatta per quello eccellentissimo uomo Martin di Boemia, mandò due navi, Santo Antonio e la Concezione, che così le chiamavano, a vedere che era nel capo della baia. Relazione del primo viaggio intorno al mondo por Antonio Pigafetta.
[E se não fosse o capitão não teríamos encontrado este estreito, porque todos pensávamos e dizíamos o quanto era apertado: mas o capitão, sabia que tinha que navegar por uma passagem muito estreita, como vira no tesouraria do rei de Portugal num mapa feito pelo excelente homem Martim da Boémia, e enviou dois navios, Santo Antonio e Conceição, assim se chamavam, para ver o que estava ao cabo da baía.]
Pigafetta junta um mapa, que podemos comparar com o mapa que João de Lisboa tem:



A diferença entre o mapa de Pigafetta e o mapa de João de Lisboa, é a diferença entre um amador e um profissional. A diferença de tempo entre os dois mapas é pequena, sendo mais provável que o mapa de João de Lisboa seja mesmo anterior à viagem de Fernão de Magalhães. 
A referência ao nome "magalhães", como foi sugerido pelo David Jorge, pode referir-se à presença de pinguins que hoje são conhecidos por esse nome. Numa inclusão posterior, a tinta vermelha pode ler-se "estreito de fernão de magalhãis", mas a tinta preta e em destaque vemos apenas "estreito dos magalhãis", no plural.
De resto, para além das designações concordantes entre os dois mapas, o mapa de João de Lisboa tem muito mais informação e nomes em português que indiciam a sua nomeação anterior.
Em particular, note-se na ilha fictícia chamada "dos castelhanos", designação similar à existente ao largo de Madagáscar (ver postal anterior).

Coincidentemente, também em 1519 é dada autorização a Cortéz para desembarcar no México, e assim arrasar o império Azteca.
Passam 25 anos do Tratado de Tordesilhas, e a época de transição das descobertas de Portugal para a posse definitiva de Espanha, seria trabalhada entre D. Manuel e Carlos V.

Não foi à toa que uma grande parte da tripulação que Magalhães levou consigo era portuguesa.
Os portugueses simplesmente não queriam que acontecesse de novo o episódio de Colombo. Não queriam que a descoberta da passagem sul ficasse associada aos espanhóis, quando tanto sacrifício teria sido feito para conseguir aquela proeza. É nesse contexto que múltiplos portugueses se associam à expedição de Magalhães, incluindo João de Lisboa, que poderá ser João de Carvalho. 

A viagem teria assim uma particularidade de rebelião quase permanente, já que os castelhanos não entendiam e aceitavam mal o comando português. Uma parte da expedição regressa a Espanha sem sequer passar o Estreito. A restante prossegue, e após a morte de Magalhães será mesmo João de Carvalho a tentar tomar o controlo da expedição, mas os espanhóis já não o autorizam, e ficará Elcano a terminar a volta, já na parte conhecida da Ásia, onde a presença portuguesa estava estabelecida.