segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A questão dos qu'estão (3)

Qual o nosso papel nesta peça?
... ou dito de outra forma, qual é o sentido da vida?

Numa perspectiva hedonista, que tem sido dominante no último século, o objectivo humano será alcançar uma certa "felicidade", mal definida. Como assim visa o auto-prazer, trata-se quase de uma motivação erótica, aplicada ao indivíduo, ou menos egocentricamente, à humanidade. 
A perspectiva hedonista, que se associa a um materialismo, é quase um desejo orgásmico, semelhante ao das criaturas que perecem imediatamente depois de se reproduzirem (p.ex. o polvo)... no entanto, sem estar ligado ao aspecto de uma reprodução sem limites, a perspectiva hedonista só encontra sentido na ausência de sentido da existência, um certo nihilismo.

Numa perspectiva mais religiosa, o papel humano está intrincadamente ligado à divindade, e no caso católico, à salvação no julgamento divino, conduzindo a um paraíso, em vez de purgatório, ou pior um irremediável inferno. Escondido, está o mesmo objectivo final, de chegar a uma felicidade eterna, como se fosse um regresso à infância, com um Pai protector a zelar pela brincadeira no recreio (aliás praticamente só é garantida entrada directa no paraíso a inocentes criancinhas).
 

Ora, acontece que é nulo o interesse universal em definir seres felizes, ou satisfeitos consigo mesmo.

Aqui, voltamos ao princípio antrópico. Há necessidade lógica de um universo formado conter a explicação da sua existência em si mesmo... porque não há mais parte nenhuma onde ela possa estar.

Para haver existência é preciso "olhos" que vejam o existente. 
Mas aqui é preciso perceber o que são estes "olhos"... não se trata de fazer uma reprodução do já existente. Aliás para esse efeito, desde logo a natureza teve sempre réplicas perfeitas, começando pelo processo de mitose, na divisão celular. 
Quando o que vê é igual ao que é visto, ambos vêem o mesmo, ou seja, nada... 
Os "olhos" de que aqui falamos trazem uma interpretação inteligente.
Só quando conseguimos classificar o que vemos a alguma forma abstracta, quanto mais não seja pelo número, só aí lhe estamos a dar existência. 
Porquê?, porque noções abstractas, como os números, são eternas, intemporais e universais, quando identificamos algo a essa noção abstracta será como dar-lhe uma "benção eterna", neste caso a benção da existência, que também é representada pelo número 1, na sua individualidade.

Há imensas coisas que não conseguimos individualizar... esse tem sido um progresso constante de conhecimento. Individualizar não é sempre dissecar no específico, é muito mais vezes agrupar numa categoria, tipo ou conjunto. Só quando conseguimos reconhecer uma unidade em coisas distintas é que lhe conseguimos dar existência, por vezes através de uma palavra simplificadora. Por exemplo, as ondas de rádio terão sido algo completamente imperceptível ao olhar humano, que estava apenas sintonizado para captar a luz visível. Quando se conseguiu juntar todas as ondas electromagnéticas numa única teoria da luz, de Maxwell, os olhos foram mais longe, e pouco depois entrámos nesta era de telecomunicações.

Assim, percebemos que há um interesse universal subjacente à nossa existência.
No entanto, para granjearmos existência a outrém, precisamos de assegurar a nossa existência, e só foi conseguido quando o primeiro hominídeo reflectiu sobre si mesmo. Quando? Não sei, mas aparentemente antes do "conhece-te a ti mesmo" ser afixado no Templo de Delfos.

Para vermos que não estamos sozinhos nesta matéria, basta reparar que procurar a verdade pode ser tortuoso, mas sabê-la, ou pelo menos encontrar um nexo nas coisas, é recompensador e satisfatório.
Haverá quem procure afastar-se da realidade, com ou sem alucinogénios, mas isso traz um preço pesado associado. As situações absurdas podem ser trágicas, mas é também inerente aos humanos rirem-se do absurdo... não tanto por ocorrer, mas por se darem conta da impossibilidade, ou da improbabilidade, associada.

Acresce que, ainda que a sociedade reprima o humor negro, ou de certa forma uma capacidade de transformar dor em prazer, coisas vistas como tendências sado-masoquistas, há um capacidade de entendimento que vai além do expectável na nossa natureza, que normalmente será vista como absurda... mas também é aquilo que nos permite contornar situações quase incontornáveis.

Assim, e respondendo à questão inicial, o nosso papel é o de espectadores, que inevitavelmente são chamados a ser actores, porque não há distinção entre o palco e a plateia. A dor é normalmente o que nos chama ao palco, mas em qualquer circunstância, é possível distanciarmo-nos o suficiente de nós mesmos, para vermos o nosso personagem apenas como mais um elemento da peça. Fazendo isso, despindo todo o pesado contexto envolvente, é mais fácil relativizar ou inverter as coisas.

No entanto, ainda que nos saibamos espectadores, temos um papel único... que é ser críticos da peça em cena. Convém não esquecer que o objectivo supremo, e inalcançável, será o entendimento dentro do próprio universo. Nesse aspecto somos elementos importantes para discernir esse nexo. Podemos dizer que a apreciação de cada um é igualmente importante, mas isso seria o mesmo do que considerar que a apreciação crítica de um trabalho complexo não depende do conhecimento que se tem sobre o assunto em causa. 

Podemos assim ver o papel da humanidade como testemunha da obra criadora do universo, visando uma melhor compreensão da sua perfeição. Ao fazê-lo, dominará cada vez melhor as suas peças, e poderá contornar limites antes impostos naturalmente, em direcção a um mundo mais moldado à sua medida, e menos à sua condição nata. Sempre que o fizer afastando-se da realidade envolvente, da visão de si mesmo e dos outros, estará trilhando um purgatório, cujo inferno é o absoluto isolamento. Digamos que temos direito ao recreio, se aprendermos a criá-lo e partilhá-lo em conjunto.
Por inevitabilidade, uma espécie inteligente está condenada a isso, só não é claro que seja a nossa.

domingo, 26 de janeiro de 2020

dos Comentários (59) - Tradição e Tradução.

O principal deste postal será recuperar uma questão antiga sobre "outra inteligência", ou de que forma nos seria inteligível uma inteligência estranha (por exemplo, alienígena, ou extraterrestre).

Desde já, dois comentários que se inserem na tradição e património nacional:
  • José Manuel de Oliveira comenta o tesouro da nau Bom Jesus, com link para programa da RTP (2016). Trata-se de um tesouro que está em museu na Namíbia, e pelo qual o estado português manifestou pouco ou nenhum interesse. Inclui-se aí um astrolábio notável:
  • Amélia Saavedra menciona o romance de Fernando Campos, "A sala das perguntas", onde a propósito de uma ficção sobre Damião de Góis, atribui autoria do poema Adeste Fideles. 
  • Aqui convirá dizer que, como as primeiras pautas surgem numa notação musical antiga, não é de excluir que a composição pudesse ter origem mesmo no Séc. XVI.  Com efeito há um livro de 1780 (15 anos antes do hino ter sido tocado na embaixada de Portugal em Londres), em que Coghlan solicita subscrição para imprimir a música:
  • É neste tipo de pautas musicais, com origem em Guido de Arezzo, que foram escritas as músicas medievais, e análise de maior detalhe, na simbologia, permitiria até estabelecer uma data mais concreta para este tipo de partitura, que já estava ausente dos compositores europeus do Séc. XVIII (vejam-se as partituras de Bach, ou de Handel)
  • Segue-se então o texto de 2018, e que surge a propósito de outro comentário de José Manuel que se relaciona com o assunto da existência de inteligência ou entendimento diferente do humano. Na altura o texto ia com este título mas com o nº 36 "dos comentários".

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....................... 26 de Março de 2018 (draft) .......................

Numa conversa/discussão que decorreu há mais de um ano, e que o João Ribeiro encontrou de novo, deixei uma questão pendente:
- Poderá haver um tipo de inteligência diferente da nossa? 
Ou seja, a encontrarmos outra inteligência, com outra linguagem, haveria sempre uma tradução possível? 

Tinha pensado em fazer um postal sobre o assunto, mas acabei por me esquecer.
É uma boa altura de escrever mais qualquer coisa sobre isso.

Começo por remeter a uma questão de diferença entre duas palavras, mas transfiro o que tinha escrito sobre a sílaba "tra" para outro post, porque este não era aqui o propósito.

Tradução e Tradição
Começando com "tradução", mesmo do latim temos "trans"+"ducere" que significa "através" da "condução". Mas este sufixo "dução" refere-se mais a um "ducto", a um canal, estrada, ou passagem, por onde se conduzia. Neste caso, o ducto é o canal de comunicação, e numa tradução somos conduzidos por um canal que liga uma língua a outra.
No caso de "tradição", é remetido a "trans"+"dare", mas parece-me etimologia latina enviesada considerar o "dar", havendo "dictionem" que significa "dicção", que remete ao simples "dizer". Assim, tradição é uma passagem do que é dito, e a uma boa dicção vê-se sílaba a sílaba...

Há uma substancial diferença.
No caso da tradição é procurada uma passagem literal, muitas vezes procurando manter letra a letra, através dos tempos, e numa tradução é procurada uma passagem de ideias semelhantes, em línguas diferentes.

Os sons que ouvimos produzidos por outros animais, e que servem de comunicação entre si, são pouco significantes para nós. Ou seja, se foi possível comunicar com qualquer tribo humana, e por mais remotamente perdida que esta estivesse, foi possível encontrar tradutores para ser feita a passagem de ideias, no caso de animais essa tarefa ficou bastante mais complicada.
Com efeito, na maioria dos casos, o esforço para a tradução foi quase sempre feito no sentido dos outros aprenderem a nossa língua. Os indígenas nascidos com outra língua, aprendiam uma das línguas ocidentais, e serviam depois como tradutores.
Mas isso implica vontade e capacidade de aprender uma língua, algo que foi conseguido com os nativos face às línguas das potências colonizadoras, e só em casos raríssimos vemos qualquer vontade dos ocidentais em aprender uma língua tribal. Talvez a situação idealizada para entender linguagem de animais terá sido no romance de Tarzan, onde o pequeno fora criado pelos Mangani, uma espécie ficcionada, entre chimpanzés e gorilas.

A linguagem visa o entendimento... (... e não o desentendimento! )
O propósito da linguagem é uma comunicação, onde o receptor entende a mensagem do emissor.
Se o emissor se arma ao pingarelho, e usa terminologia que sabe que o receptor não entende, não visa a comunicação, nem o entendimento com ele.

Caso não se definissem noções semelhantes, o entendimento seria impossível, cada um teria a sua linguagem própria, ou antes, nem sequer faria sentido haver linguagem, porque não haveria interessados na comunicação.

O desentendimento é o ponto de partida, porque cada um de nós vê um universo completamente diferente. Como se fosse preciso testar o caso, a natureza coloca-nos a situação de gémeos, em que o ponto de partida é o mesmo, mas que pequenas circunstâncias fazem desviar para uma evolução que pode ser completamente diferente.
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Não me recordo porque razão não continuei o texto, mas para além de eventual falta de tempo, ou de oportunidade, é também possível que o texto não tenha fluído com argumentos mais decisivos.

O ponto seguro, do qual parti, para afirmar que não haverá inteligência significativamente diferente da nossa, está na própria forma da linguagem, que está muito pouco, ou quase nada, relacionada com a nossa particularidade animal. É claro que "ouvir" se baseia nos ouvidos, "cheirar" no nariz, "ver" nos olhos, etc... mas até na forma como essas palavras são usadas figuradamente, nem sempre estão ligadas aos nossos sentidos.

Emerge o problema da origem da linguagem, ou melhor de palavras universais, que se aplicam a situações muito superiores, muito abstractas, e que só ligeiramente dizem respeito à nossa vida na Terra. Por isso, o mais natural, será considerar que havendo inteligências noutras paragens, essas linguagens teriam chegado pelo menos ao mesmo tipo de noções abstractas que temos, já que não há nenhuma razão para serem exclusividade nossa.
Por exemplo, a noção de quantidade é universal, mesmo em propriedades, de que não duvidamos. Sabemos que se vinte maçãs cabem numa caixa, então dezanove dessas maçãs também cabem lá.
Não é possível a nenhuma entidade violar este princípio.
Até podemos duvidar disso, quando as vinte maçãs estavam colocadas de forma optimal, e depois é difícil até colocar dezanove... No entanto, sabendo que a maior foi possível, não podemos duvidar que a mais pequena também seja. Ora, isto não está escrito na natureza em parte alguma. É uma propriedade matemática de que não duvidamos, que foi induzida pelas noções abstractas que adquirimos.

Por isso, podem existir noções que ainda não adquirimos, mas é certo que muitas das que adquirimos são universais, e partilhadas por todos os seres inteligentes. Quanto à linguagem de seres menos inteligentes, muito vai sendo feito no sentido de procurar o seu nexo, sendo exemplos interessantes os casos de biólogos que foram viver no meio de animais (por exemplo, gorilas), e começaram a perceber os comportamentos, e assim a linguagem dessa comunidade, não se esperando aí grandes noções abstractas, por insuficiência dos próprios.



segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A questão dos qu'estão (2)

Não ocorrendo nada de forma acidental, haverá alguma forma de controlo? Ou seja, coloca-se a interrogação sobre a existência de alguma entidade que presida a um eventual controlo.

A questão tem diversos níveis, começando pelo mais simples, à escala humana - ou seja, se existe ou existiu uma elite que foi controlando a deriva humana, de forma mais ou menos acidental ou propositada - até chegar ao ponto da escala sobre-humana, que ora coloca a evolução animal como planeamento extraterrestre conspirativo, ora leva a conceitos teológicos de criação divina.

Em reflexão relativa à imagem do postal anterior, deixo aqui o Homem no outro lado do espelho.
Porquê? Porque, seja sobre impotência ou máxima potência, toda a discussão é feita entre homens, ou ainda, no seu aspecto mais profundo, por cada homem na reflexão em si mesmo.

Limitações ilimitadas
Um argumento típico é o de que não podemos reflectir em aspectos sobre-humanos, porque está para além das nossas capacidades. Parecendo fazer todo o sentido, cai numa contradição prática, pois podemos, por exemplo, trabalhar com números que excedem largamente os átomos, ou partículas, do universo físico. Ou seja, trabalhamos facilmente com noções estão muito acima da escala material admitida pela Física.
Segundo contas recentes, o número de átomos no universo físico observável andará pelos 1082 átomos, estimativa por alto, sendo um número de 82 dígitos, o que não é nada...
Basta notar que o número de dígitos de Pi está com o recorde de cálculo em 31 biliões de dígitos, e há mais de trezentos anos, em 1706, Machin calculou à mão 100 dígitos de Pi. Convém notar que para calcular o perímetro do universo com um erro inferior ao tamanho de um electrão, bastaria usar Pi com "apenas" 40 dígitos (isto indo pelo dogma da velocidade máxima da luz e da suposta idade do universo em menos de 15 milhares de milhões de anos).
Isto apenas para exemplificar que podemos trabalhar com noções muito acima de qualquer correspondente material conhecido. Podemos manipulá-las com certeza matemática.

Por isso, é incorrecto argumentar sobre a incapacidade de reflectir sobre coisas que nos transcendem.
Não é por não tocarmos no Sol que não existe toda uma teoria astrofísica que assume compreender os seus processos físicos. Não podendo entrar na cabeça de outro, não deixamos de procurar antever o pensamento alheio. Qualquer pensamento humano é uma especulação baseada nos sucessos e insucessos da nossa experiência de vida. Se há coisa que o caracteriza é não lhe conhecermos limitações, podendo insistir na falsidade, como se tratasse de uma indiscutível verdade.

Portanto, antes de reflectir sobre a divindade, esclarece-se que nada o impede, excepto parar de ler.

Aspecto teológico.
Qualquer entidade, incluindo a divindade, está confinada ao seu próprio universo.
Claro que se assume que o universo divino transcenderá o universo material, mas não pode deixar de ser uma qualquer estrutura.
Pode uma entidade divina controlar tudo o que se passou ou vai passar no seu universo?
Sim, mas nesse caso terá que se identificar ao seu próprio universo.
Até aqui parece estar tudo na paz eclesiástica, dizendo que Deus se identifica ao universo.
Porém, estando tudo contido em Si, do princípio ao fim, não poderia exercer qualquer acção, porque nada há para ser alterado, impedido, ou efectuado.

Romantizando o assunto, a suprema concretização divina seria definir o que iria acontecer, de entre tudo o que poderia acontecer. Alcançado esse objectivo supremo, não restaria qualquer espaço de acção, e sem possibilidade de acção a divindade morreria. O legado deixado, seria este universo, o único viável, para habitarmos. Seria esse o fim divino? Não, se reencarnasse sem memória, em cada ser inteligente... e daí o legado habitual, em que todos os humanos se vêem como pequenos deuses.
Esta versão romantizada é história, mas corresponderia a um sacrifício muito diferente de perecer humanamente, mantendo a vida divina. Neste caso, corresponderia a perecer propositadamente com a finalidade única de tornar possível a existência universal.
É história, porque é dispensável, e o legado, o universo, formar-se com ou sem protagonista criador é folclore facultativo. Não teria outra viabilidade, porque nem a inexistência era viável.

Noutra tendência, é argumentado que cada homem tem livre-arbítrio para escolher o seu percurso. A divindade sabe o que acontece se a escolha for uma, ou outra, mas não sabe o que o homem escolhe.
Estando viva, não se distinguiria de nós - há coisas que sabemos e outras que não sabemos.
Além disso, sabendo que nós iremos escolher o que escolhemos, qual a necessidade de sequer considerar as outras hipóteses? Não ocorrendo, são apenas ficção ou arte.
Aliás, falar do livre arbítrio humano seria pensar que algo poderia ser acidental... ora, sobre isso já falámos (no postal anterior). 
A hipótese reconfortante é que, estando definido o desenvolvimento do princípio ao fim, ficaremos sempre sob os auspícios da herança de um universo eternamente viável.

Aspecto humano.
É indiferente saber se temos competidores humanóides na inteligência, já que na prática é admitido que essa inteligência seria semelhante, e manifesta-se também entre nós, entre aqueles que são mais capazes que outros.
É ainda indiferente saber se existiu uma civilização alienígena que nos criou em tubo de ensaio, porque as nossas dúvidas de criação passariam a ser as dúvidas sobre a criação dos criadores.

Interessa saber se no meio da noite pré-histórica emergiu alguma tribo capaz de exercer um controlo superior sobre os restantes.
Quando? - Para esse efeito ser notado, o controlo de que estou a falar deixou de ser o controlo das tribos vizinhas, ou melhor, alargou-se, com a sucessiva conquista das tribos vizinhas.
Por isso, estamos a falar de um tempo de escassez, em que a sobrevivência passava por uma luta de territórios. Os territórios mais populosos, mais sujeitos a variações de alimento, e de certa forma confinados por razões geográficas - ou seja, ilhas razoavelmente grandes - teriam sido palco do desenvolvimento hostil de humanos extremamente competitivos.

Nesse aspecto convém notar que a estrutura tribal sempre contou com um chefe, mas fez ainda aparecer sacerdotes ou xamãs, algo que não seria a priori natural de ocorrer em diferentes paragens remotas, e com pouco contacto entre si. Uma hipótese é que estes xamãs seriam um ponto de contacto que formaria uma primitiva sociedade secreta, reguladora da civilização humana.
Sem esse controlo superior, o que aconteceria por medo do exterior, seria uma radicalização das disputas, até ao ponto de apenas sobreviver um povo. Como isso não ocorreu, e foram-se mantendo diversos povos, em estados civilizacionais bastantes diferentes, isso é indicador que pode ter existido desde cedo uma estrutura reguladora do poder. Essencial é que teria que ser secreta, sob pena de se tornar visível para a população, e assim passar a ser um alvo a dizimar, nas lutas de poder, para além dos alvos visíveis, que seriam os chefes tribais.

Uma parte fulcral da sociedade medieval europeia era exercida não apenas pelo poder secular dos reis, mas também por um outro poder centralizador, colocado no papa, detentor do poder temporal. Este terá sido um dos aspectos mais visíveis da presença de uma fonte diferente de poder, que era exercido não pelas armas de ferro, mas sim pelos jogos políticos realizados através da Igreja.
Parece-me bastante crível que sempre tenha estado presente esse poder, sempre de forma algo submersa e secreta, e que mesmo na Idade Média tenha sido suficientemente secreto para poder estar acima do alvo visível que era a Igreja, ocultando-se nos seus meandros... tal como provavelmente hoje se ocultará no meio de meandros financeiros.



domingo, 12 de janeiro de 2020

A questão dos qu'estão (1)

Há duas perspectivas que se opõem relativamente à compreensão das coisas:
- Nada é acidental (holismo);
- Tudo é acidental (nihilismo).
Em que ficamos?
Essa é uma questão, e não vou seguir aqui a "via do meio", a minha resposta é a primeira.

Este pretende ser o primeiro texto de uma espécie de auto-entrevista.
Não irei tentar ficar pela objectividade, e darei a minha opinião actual, interesse ou não.

Para despoluir a informação com que fomos crescendo, e que nos foi fazendo acreditar em uma coisa ou noutra, procurarei justificar não apenas a minha opinião, mas também argumentar sobre outras que sei serem veiculadas.

Começo por este assunto, porque houve aqui uma grande inversão de mentalidades, que começou no Séc. XIX, e foi fazendo caldo cultural dominante no Séc. XX, e ainda hoje.

Imagem de imagens (daqui) - sobressaindo o Homem da criação (de Miguel Ângelo). 

A inversão ocorreu devido a uma eventual necessidade política de ir impondo um ateísmo militante, contra a filosofia religiosa que existia anteriormente.
O palco principal dos acontecimentos foi a Europa, com o desfalecimento completo do poder papal e com a ascensão meteórica da maçonaria e da sua máquina financeira, mas foi imposto praticamente sobre todas as religiões, mantendo um foco de resistência cultural no Islão.

A posição ateísta chegou assim ao ponto extremo do nihilismo, o que seria natural, pois sendo o Homem um acidente evolutivo, não se encontraria algo que tivesse um significado transcendente. Não havia razão superior para a sua existência ou para o significado dos seus pensamentos... 

A visão darwinista, do acaso evolutivo, beneficiaria um propósito sádico, que igualaria os homens aos demais animais (algo muito em voga actualmente). O propósito não é sádico quando se pretende que o tratamento animal seja semelhante ao humano, mas será quando isso implicar que o tratamento humano seja semelhante ao animal. O nihilismo encerra uma bomba moral letal, porque em última análise só advoga a moral enquanto esta vencer a imoralidade.

Pelo outro lado, quando se advoga que nada é acidental, a questão é sempre colocada no sentido teológico de uma entidade criadora. Ou seja, as pessoas acreditando em deuses remetem a razão das coisas a essas divindades.
Acresce que isso é visto modernamente como um pseudo-problema psicológico, em que o Homem seria uma criança órfã e sozinha, quando se via sem a protecção de uma divindade paternal. 
Nesse contexto, o ateísmo chega a considerar que essa procura de nexos transcendentes revela que ainda não se atingiu a maturidade adulta. De certa forma, foi pensado que "a morte de Deus" seria um luto que se teria que fazer como "um luto paterno" chegada a humanidade a um estádio adulto.

Não apenas isto... esta conversa da treta alarga-se, e é dito que as "teorias da conspiração" são uma necessidade holística, de horror ao acaso, ao que é acidental. Ou seja, seria uma versão moderna do "horror ao vazio" medieval. 
Mais uma conversa de psico-treta, que será sem dúvida útil de alimentar por todos os conspiradores.
Se o pessoal começar a acreditar que há algo estranho, e não acreditar nas patranhas como coincidências, então arrisca ser candidato ao diagnóstico de um problema psicológico, e o assunto fica resolvido de outra forma.

Não há nada "acidental"
Neste assunto não considero que seja opinião pessoal, tem mesmo que ser assim.
Porquê?
Escrevo aqui A, sem nenhuma razão aparente. Haveria imensas possibilidades para o texto, mas decidi escrever isto. Só muito parcialmente tenho um efectivo controlo sobre tudo o que faço. Há coisas que faço, que não sendo completamente acidentais, em grande parte são.
Em cima poderia ter escrito B em vez de A? Não!
É claro que é só chegar ali e mudar, mas a questão não é essa.

Se tivesse escrito B, teria ido parar a um universo diferente deste.
Alguns físicos dirão que isso seria perfeitamente possível, porque haverá "multiversos" e não apenas um "universo", e nós estamos neste... por acaso. Podem dizer isso ou estar calados, porque apenas poderemos ter informação de um único universo, de forma que tudo o resto é ficção.
Também podem dizer que será por razão das nossas escolhas... e isso já faz mais sentido, mas mesmo assim não faz nenhum, porque só temos noção do eu que ficou neste universo, por isso o restante será só um exercício inútil, bom para filmes da ficção.

Conclui-se assim que estamos num único universo e não há outros (ou é indiferente se existirem).
Agora, podemos pensar que quando os dados rolam numa mesa de um casino e sai 3+4, isso foi completamente acidental, e poderia ter saído 1+6, ou outra combinação.
Mas não é pelo facto de não conseguirmos perceber porque caiu 3+4 e não 1+6 que isso se torna num facto "acidental" ou "aleatório".
Seria aleatório se existissem ambos os universos - um em que os dados deram 3+4 e outro em que os dados deram 1+6. No entanto, como só há um universo e é nesse universo que estamos, o sair 3+4 foi um facto, e sair 1+6 ou outro, seria apenas uma das 36 possibilidades. Na prática, podemos ver a questão como aleatória, mas na realidade saiu aquele valor e não poderia ter saído outro.

Então, qual a razão de as coisas acontecerem de uma maneira e não de outra?
A primeira resposta é dada com outra pergunta:
- Quem quer estar num universo em que consegue prever tudo?
Já referi, e insisto, que a previsibilidade leva à ausência de imprevisibilidade, e a sede de imprevisibilidade é algo que garanto que ninguém vai querer passar.
O conhecimento de tudo, de tudo o que nos é exterior, seria quase equivalente a sermos fechados para sempre num quarto pintado de branco. Poderia ter o aspecto paradisíaco de uma ilha encantada cheia de pessoas que nos idolatravam, mas a partir do momento em que a atitude dos intervenientes passasse a ser previsível e repetida, o lindo colorido passaria a ter uma só cor - a cor de um eterno enfado, ou aborrecimento.

Isso responde parcialmente à questão.
Se ao lançar certos dados, antevíssemos que o planeta poderia colapsar, alguém os lançaria?
Por estranho que pareça, a resposta é sim... e diversas reacções em cadeia foram lançadas em experiências atómicas ou nucleares no Séc. XX.
O controlo da experiência, ou seja de que a reacção em cadeia e a explosão vai terminar, ocorre normalmente por falta de material para prosseguir. Mas os cuidados devidos, estiveram muito longe de ser acautelados. Ainda hoje em dia se fazem experiências com matéria, anti-matéria, e tentativas de criação de micro-buracos negros, como se estivéssemos a dar kalashnikovs às crianças no Natal.

Será sorte que as coisas não tenham saído fora de controlo?
Ou vendo a questão de outra forma... sabendo-se que certa experiência arrasaria o planeta, alguma vez ela poderia ocorrer?

Não é preciso ver a questão internamente... basta reparar no que aconteceu em 1994 com o cometa Shoemaker-Levy 9, que colidiu com estrondo contra Júpiter:
Parte do Shoemaker-Levy colide contra Júpiter em 1994 
À direita, igualmente brilhante, está Io, satélite de Júpiter.

Faltam-nos neste caso aquelas imagens espectaculares da NASA, que estaria distraída, e por isso temos apenas más imagens da colisão. O cometa tinha sido capturado pela órbita de Júpiter e por isso era alvo de bastante atenção, mesmo assim, estas são as melhores imagens da colisão (havendo outras, coloridas com mais ou menos arte)

Uma situação de colisão terrestre com um objecto da dimensão do Shoemaker-Levy, seria um evento catastrófico de aniquilação praticamente total.
Portanto, se isto fosse uma questão de jogar aos dados, a vida na Terra, e em particular o Homem, têm tido uma grande sorte ao jogo...

É isto "sorte"?
Se desaparecesse qualquer suporte para vida inteligente... ou seja, neste caso, se a humanidade desaparecesse e não fosse substituída por outra vida inteligente, quem poderia afirmar da existência do universo? - Ninguém.
O problema do universo é que é preciso existir vida inteligente para o universo existir.
Não são as pedras, os calhaus, as rochas, as árvores, ou o rato do campo que deambulam filosoficamente sobre a existência do universo, sobre o seu início ou o seu fim.
Por isso, o custo de existência, foi gerar vida inteligente.

Significa isso que antes de existir o Homem, não existia universo?
Se a vida inteligente não viesse a ser um produto do universo, então não existiria.
É preciso abandonar o conceito de causalidade, que é cego temporalmente, vendo apenas na direcção do passado para o futuro.
A causalidade não vem apenas do passado, vem do futuro.
O passado não pode determinar um mundo sem futuro, que cesse de existir!
Somos testemunhas de um universo que existe hoje, independentemente do que se passará amanhã.
Esse amanhã não pode anular o tempo passado. O término definitivo da vida inteligente significaria isso - que nunca no tempo futuro haveria possibilidade de testemunhar existência alguma, mas isso não apaga de nenhuma forma que este passado tenha existido.

O problema é todo esse - um universo desde que exista não pode desaparecer definitivamente, sob pena de contradição da sua existência.
É nesse sentido que acredito que, ao contrário do que nos é dado a pensar, todo o passado é arrastado para o futuro. Ou seja, que entre nós está todo o testemunho dos tempos passados. Obviamente que não seremos capazes de fazer essa arqueologia do passado, mas avançando cientificamente, poderemos fazê-lo cada vez melhor.
Simplesmente, não acredito que o tempo sirva de lixeira para destruir o passado.


domingo, 5 de janeiro de 2020

Alvo de Maia - volume 10

Está feita a acta de 2019.
Um PDF de 365 páginas para juntar aos anteriores, fazendo agora um total de 3668 páginas.


Alvo de Maia - Volume 10 (2019)

Agradecendo as contribuições de José Manuel de Oliveira, João Ribeiro, David Jorge e IRF.

Todos os volumes estão disponíveis em

sábado, 4 de janeiro de 2020

A imprensa em 2020 - aquém e além

A informação sempre foi uma componente principal de qualquer forma de poder.
A forma como é distribuída e manipulada pode ter um efeito crucial na acção alheia. As ideias são usadas como meio simples de aquisição e imposição de vontades, com propósito díspar do original.

Pertencemos às gerações que sobrevalorizaram o poder da imprensa centralizada, por jornais. rádio e televisão, enquanto forma quase única de informação fidedigna. O sistema foi de certa forma poderoso e teve o seu apogeu no final do Séc. XX. 
Porém, com a entrada do Séc. XXI e o aparecimento das "redes sociais", poderá questionar-se a evolução do sistema informativo... em que aplicações como Facebook, Twitter, Youtube, Whatsapp, Instagram, ou mais recentemente o Tik Tok, começaram a definir outros interesses e outras direcções.

Facebook, Instagram, Youtube, TikTok,
Twitter, Google+ (desaparecido), Blogger, Whatsapp,
Televisão, Rádio, Jornais

Há alguma diferença?
Claro que há alguma, mas... para o que interessa, não haverá nenhuma diferença.

Os mais jovens entretêm-se com a moda... o Tik Tok estará agora mais na moda do que o Instagram, e dizem que o Facebook é só para velhos. Enquanto isto, cria-se a ideia nos petizes de que a informação é mais dirigida aos seus interesses... sendo claro que os seus interesses são assim dirigidos.
Aparecem os típicos fantasmas - o Tik Tok tem propriedade chinesa, e haverá quem alerte para o perigo da China querer monitorizar as preferências da juventude ocidental (claro que se forem os EUA não parece haver problema).

Ora, convém notar que todo este mundo informativo tem um aspecto real e um aspecto imaginado.
Real, porque por estes canais passam efectivamente importantes factos ocorridos. 
Imaginado, porque a nossa capacidade de distinguir a realidade da ficção será cada vez mais ténue.

Mais importante que isso, tem o aspecto dirigido, de forma mais ou menos subtil com aquilo a que se chamam agora os influencers - ou seja, a malta gira que vai colocando a palhaçada de que o circo necessita para sobreviver.

É assustador ver que a geração mais nova está de tal forma dirigida que parece praticamente incapaz de procurar, por sua iniciativa, o que quer que seja... Tendo praticamente acesso a tudo com um simples clique, os cliques que fazem são os cliques da moda na partilha pelos amigos.

Controlo da informação
Se poderíamos considerar que os meios de comunicação tradicionais - televisão, rádio e jornais, estavam fortemente condicionados na sua liberdade pelo controlo estatal - que restringiu o número de canais ou jornais existentes... a ideia de permitir acesso global em diversas plataformas foi uma pseudo-abertura. Para captar a atenção das pessoas seriam necessários os processos clássicos de publicidade. Mas o principal instrumento de controlo foi o próprio convencimento da população de que poderia escolher apenas o que lhe "interessava".

Como sabem hoje os jovens das notícias? 
Por exemplo, o assassinato do general iraniano pelos drones americanos (ocorrido ontem), terá sido recebido em grande medida através de notícias que chegaram via Tik Tok, Instagram, ou Facebook.
Para os grandes agentes de informação ou desinformação internacional é razoavelmente indiferente se o jovem vê televisão na sala com os pais, ou no telemóvel enquanto conversa com os amigos. 
Interessa apenas dar destaque ao assunto.
Não são os grupos de amigos que definem os tópicos de conversa, exceptuando as conversas de café que ocorrem nas redes sociais, e que antes ocorriam mesmo nos cafés.

A actualidade, os focos de interesse, vão continuar a ser dirigidos como foram antes. Ou seja, através das grandes organizações noticiosas que definem o que é ou não é para ser noticiado. Já era assim com os jornais de grande tiragem, com as rádios ou televisões nacionais, e não vai ser diferente com a existência das novas plataformas de comunicação.
A maior crítica virá como já era hábito através da sátira. Se no tempo anterior ao 25 de Abril havia tímidas críticas por via dos espectáculos de revista do Parque Mayer, no tempo posterior são raros os casos de crítica satírica que se consigam manter de forma mais ou menos contínua.
O controlo da informação continuou de boa saúde.

Aquém
A novidade que a sociedade judaico-maçónica nos foi trazendo, e terá sido uma revolução de costumes e procedimentos, foi um controlo de informação que não passava por atacar e hostilizar quem procurava manifestar-se contra o sistema. A dissidência foi aceite e os fogos reais passaram a fogos verbais, sendo a receita consumida pela sociedade sem perdas consideráveis para a classe dominante, e com um incomensurável rendimento de maior produtividade.
Assim, a partir dos séculos XVIII e XIX os jornais foram-se tornando num instrumento crucial de controlo de opinião, permitindo ao mesmo tempo uma explosão de ideias. No Séc. XX o papel dos jornais, das rádios, do cinema e depois das televisões, acabou por ser tão importante que basicamente as acções militares já não poderiam ser desencadeadas sem se pensar na guerra da informação. 

No entanto, durante o Séc. XX vemos uma ideia absolutista, uma certa ideia de verdade universal, que conviria ser preservada e transmitida pelos órgãos de informação. A imprensa internacional foi sendo estabelecida e solidificada de forma a aquecer ou arrefecer ânimos da opinião pública, mas sempre com a preocupação do público na verdade.

Além
Aquilo que passámos a ver neste início do Séc. XXI foi a introdução da ideia relativista de verdade, em que a verdade pode interessar ou não... O jovem não sente necessidade de ler jornais ou assistir ao telejornal, porque tudo vai bem no país das maravilhas. Segue apenas os seus interesses mundanos, e eventualmente poderá interessar-se por algum tema da moda - "alterações climáticas", "migração dos refugiados", ou "terrorismo internacional". Há já grupos bem definidos para orientar a opinião nestes assuntos, e se no final de contas restarem 5% dos jovens que tem interesses mais complicados, pois com essa percentagem o sistema aguentaria bem, e aguenta ainda melhor porque nem esses números se verificam. 

Assim, ao contrário do que se poderia iludir, se a internet permite uma certa liberdade de agremiar conjuntos de pessoas com ideias comuns, as redes sociais acabam apenas por ser uma forma de alienação da realidade, sempre controladas a um nível superior, que as torna ineficazes ou incapazes de revelarem qualquer alternativa. Certamente que se poderá usar os exemplos da primavera árabe, ou dos protestos de Hong Kong, para mostrar como as redes sociais podem ser eficazes... mas nesse caso estamos a falar concretamente de movimentos dirigidos pelo exterior, provável ou certamente por via da CIA ou MI6.

Na prática e até que a temperatura se torne insuportável, a cozedura em lume brando não provoca a mesma reacção de repulsa do que a ebulição.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Silêncio intemporal


Necrópole de São Gens (Celorico da Beira) - Pedra do Sino

Uma característica da paisagem arqueológica portuguesa é a existência de sepulturas cavadas directamente sobre o granito. Umas têm o formato rectangular, outras seguem mesmo uma linha do corpo, percebendo-se a orientação cabeça-pés, e são chamados sepulcros antropomórficos.
Não conheço uma outra paisagem que tenha tantos exemplos deste tipo de sepulturas trabalhadas na rocha, e que não são propriamente grandes monumentos fúnebres, mas não deixam de envolver o árduo trabalho de moldar a rocha à função.

Este exemplo da Necrópole de São Gens é mais notável porque há sepulturas claramente orientadas para a chamada Pedra do Sino - uma rocha invulgar que se equilibra distintamente na paisagem. Creio que actualmente a EDP arranjou maneira de fazer passar uns cabos de alta tensão pelo local, perturbando a paisagem intemporal, com a lógica parola, crápula ou mesquinha, que é tão típica da desgovernança nacional.

É assim claro que os habitantes da região davam uma importância suplementar à paisagem rochosa envolvente, e se não foi ao ponto de terem equilibrado propositadamente rochas, umas nas outras, não foi porque não o pudessem fazer. A religiosidade transcendente do local relacionar-se-ia mais com o acaso singular das formações rochosas, e raramente passaria por esculpir a paisagem artificialmente. No entanto, não se deverá excluir terem existido efectivas alterações, que podem ter contribuído para um certo "esculpir" da paisagem.

A forma como Monsanto aproveitou a rocha e os enormes calhaus para se inserirem na própria construção das habitações da aldeia, é um exemplo notável de como esteve presente uma conexão entre a construção da presença humana e a paisagem já existente.
Não se tratou de deixar os blocos intocáveis e construir à volta. Ao contrário, foi desafiar o equilíbrio dos próprios blocos e construir paredes aproveitando o legado da natureza. Sendo claro que uma grande parte da aldeia foi perdendo características mais antigas, medievais ou manuelinas, poderá colocar-se mesmo a questão se este tipo de aldeias não tem uma origem ainda muito mais antiga, dos primeiros milénios anteriores à cristandade.

A necrópole de São Gens está datada entre Séc. I - IX, ou seja do primeiro milénio cristão, mas essa datação é sempre circunstancial, muito associada ao que se encontrou depois no local, não permitindo uma grande certeza sobre as datas que são avançadas, e podendo remontar a tempos bem anteriores, em que as antas iam também moldando a paisagem.

O facto de Portugal se ter tornado num país litoral, em que basicamente, ao contrário da maioria dos países europeus (e em particular, Espanha), o isolamento se começa a notar a 50 Km da costa, foi acabando por preservar algumas destas pérolas da nossa paisagem. E se não há mais, não é porque não existam, simplesmente são desconhecidas da maioria dos portugueses... e assim vão permanecendo, com as vantagens e desvantagens inerentes.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Silêncio musical (2) Adeste Fideles

O ponto anterior, referindo a composição de Carlos Seixas, penso deixar claro ao leitor que em Portugal também houve quem tivesse alguma graça das musas, Euterpe ou Polímnia. Assim quando se atribuiu origem portuguesa o hino Adeste Fideles, não deverá ser considerado algo estranho... ou um disparate, conforme pretendido por alguns inúteis, antigos ou actuais responsáveis nacionais.



Em 1828 Dwyer associa esse hino aos seus pensamentos sobre a costa portuguesa...
Coasting along the rocks of Portugal, the imagination listens to the hymn of “Adeste Fideles;” along those of Sicily, it rests upon the “ O Sentissima” of the Sicilian mariners; (...)
Porque depois da apresentação na embaixada portuguesa de Londres, em 1795, à composição ficou associado o nome "Portuguese Hymn". Depois, como a composição se tornou um sucesso incontornável, e sem autor atribuído, começou outro fandango de autores.

Num anúncio de 1799 vê-se anunciado um Concerto de "Música Antiga", e atendendo à lista de nomes - onde predomina Händel (1685-1759), mas também De Majo (1697-1771), Marenzio (1553-1599), Pergolesi (1710-1736), Corelli (1653-1713) ou Gluck (1714-1787), podemos ver que não seria música tão antiga quanto isso... 


Interessa aqui a referência ao Portugueze Hymn - Adeste fideles... repare-se que todas as composições estão identificadas ao autor, excepto essa composição supostamente portuguesa.
Não haveria nenhuma especial razão para isso, caso o autor fosse conhecido.

Cito aqui o que escrevi num comentário (há 4 anos)
Porque, basta ver o site da Marinha Portuguesa, que cita a História de Portugal" (Vol.5) do conhecido historiador Joaquim Veríssimo Serrão:

«E, para além do monarca e do restaurador, impõe-se considerar nele o artista e o letrado, o amador de música que, no seu tempo, compondo o hino Adeste Fideles, esteve à altura dos maiores de Portugal.»

Não sei sobre os documentos que teriam sido encontrados em Vila Viçosa, a notícia da Wikipedia remete para uma obra a que não disponho de acesso:
- Neves, José Maria (1998). Música Sacra em Minas Gerais no século XVIII, ISSN nº 1676-7748 – nº 25
Os ingleses investigaram sobre o assunto, e apesar da obra ter sido dada a vários autores, convém notar que há alguns problemas. Foi assumido ser um tal de John Francis Wade, que assinara as pautas, mas essa versão definida só em 1947, tem o problema de Wade (1711-86) ser um copista de pautas musicais, que vivia em França... onde foi encontrada uma cópia muito anterior (mas sem a letra):
Por outro lado, em 1879, havia quem a atribuísse a Marcos Portugal, um músico conhecido da corte de D. João VI:

The tune known by the name "Portuguese Hymn" is commonly ascribed to Redding, an English composer, who died a century and a half ago. The real author seems to be Marcos Portugal, who died at Rio de Janeiro, forty-five years ago. He was a chapel-master of the King of Portugal, and composed the tune for the Latin hymn “ Adeste Fideles,” to be to be sung during the offertory in the worship of the Roman Catholic Church.

Texto que aparece em duas revistas inglesas:
- New Outlook (1879) - Volume 19 - Page 205
- Frank Leslie's Sunday Magazine (1879) - Volume 5 - Page 636

A obra que supostamente diria que havia documentos que associavam D. João IV, não faz nada disso.
É uma informação errada da Wikipedia, coloquei agora o link, e se fala numa atribuição ao rei do Adeste Fideles, não fala de nenhuma documentação associada a isso.

Também me parece claro que tendo sido encontradas partituras com a obra antes do nascimento de Marcos Portugal, também não faz qualquer sentido associar-lhe o nome. 

Há ainda assim diversos candidatos que poderiam estar ligados a Portugal e à composição - que se tratava de um hino católico romano, e assim pouco ligado a autorias inglesas ou até francesas.

O que parece claro é que após o Terramoto de 1755 muito material de origem nacional foi perdido, e pior que isso - foi perdido com intenção de nunca ser achado. Por isso, se mesmo quando há clara autoria e documentação, o assunto é remetido ao silêncio, o que falar dos outros casos, em que se perdeu o rasto?
O que parece especulativo, mas também será muito afirmativo, é que depois de 1755, se houve perda do património nacional, houve um grande renascimento musical europeu com autores preferidos da maçonaria, nomeadamente o seu Mozart.

A partir desse momento, e mais ou menos em simultâneo com todas as actividades intelectuais, a Península Ibérica sucumbiu num colapso mental, que nem mesmo as mais prodigiosas figuras nacionais (é claro, ligadas à maçonaria) conseguiram diminuir. Foi um vírus que atacou Portugal, Espanha e até mesmo em larga medida todos os países ibero-americanos. Coisa tão rara, e tão entranhada, que deveria ser objecto de estudo. Durante séculos também atacou a Rússia, mas estes conseguiram reescrever a sua história a tempo de entrarem no Séc. XIX e mais fulgurantemente no Séc. XX.

Para terminar fica uma lista de antigos compositores portugueses do período renascentista e barroco, (não esquecendo o músico medieval que foi D. Dinis). De entre estes nomes, ou talvez perdido entre tantos outros, poderá estar um candidato a ter escrito composições que nos são familiares, como é o caso do Adeste Fideles, e que se terão perdido na destruição de 1755, ou na persistente ocultação que se vai mantendo desde essa altura.

Renascentistas
Barrocos


sábado, 21 de dezembro de 2019

Silêncio musical (1) Carlos Seixas

No panorama internacional, as produções intelectuais que tivessem origem ibérica foram quase sempre olimpicamente ignoradas.

Trazemos como exemplo o compositor Carlos Seixas (1704-1742), que tem este excelente concerto para cravo em lá maior, que normalmente será reconhecido pelo nosso ouvido, mas não como composição de origem nacional.

Carlos Seixas - concerto para cravo, cordas e baixo contínuo em Lá Maior

Compositor barroco, contemporâneo de Vivaldi e Bach, morreu cedo, aos 38 anos de idade, culminando uma sequência de prolífico período musical no Séc. XVII, que terá incluído a família real (D. João IV e o filho D. Teodósio). 

D. João V, para tutor musical da princesa Bárbara (futura rainha de Espanha) terá trazido de Nápoles o famoso compositor italiano Domenico Scarlatti. Estando Seixas em Lisboa desde os 16 anos, foi sugerido pelo irmão do rei que também ele tivesse aulas com Scarlatti. Consta que o mestre italiano surpreendido pela virtuosidade do jovem terá respondido que poderia receber lições dele.

Que os estrangeiros não lhe dêem espaço mais significativo é mais ou menos compreensível, já que o problema principal é que o nome de Carlos Seixas está praticamente ausente das referências da cultura nacional, exceptuando pelos poucos que tiveram formação musical.

Como toda a cultura gaiteira portuguesa é basicamente uma repetição do refrão internacional empacotado pela judiaria e pandilha maçónica, com foco inglês, francês, italiano ou alemão, e não estando o nome de Seixas inscrito nesse receituário, passa por ausente dos manuais escolares, e entra no profundo silêncio, mesmo que algumas das suas músicas nos sejam já conhecidas.

Acresce à novela a habitual desculpa do Terramoto de 1755, que terá comido muitas das partituras nacionais, inclusive as de Seixas. Se as melodias foram depois recuperadas ou não, isso será outra questão...
Como é dito do espanhol Vicente Martin y Soler, quando a ópera "Una Cosa Rara" estreou em Viena em 1786, eclipsou em popularidade a ópera "Figaro" de Mozart, estreada ao mesmo tempo.
Mozart terá logo depois usado uma melodia da ópera espanhola em "Don Giovanni", diz-se que para "prestar homenagem a Soler".
A fanfarra gaiteira maçónica, rapidamente promoveu o mano Mozart aos píncaros, e o nome do espanhol desapareceu rapidamente, como praticamente quase todos os outros...

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Tratado das Ilhas Novas (de Francisco de Sousa, 1570)

Pelo interesse que ainda parece claro, transcrevo aqui o Tratado das Ilhas Novas, uma obra que surgiu em 1570, e que depois de se julgar perdida após o Terramoto de 1755, foi encontrada cópia nos Açores, de que se fizeram 100 exemplares impressos em 1877.

Deixei esta publicação de lado, durante estes últimos dez anos, porque não é suficientemente fiável, dado os grandes erros de datação, ou de localização, que não são minimamente concordantes com o que se sabe hoje. Falar do reino visigodo como se tivesse finado há 300 ou 400 anos antes de 1570, é entrar por um dissonância total com o que é aceite. Falar de ilhas inexistentes no meio do Oceano Atlântico, também.
Assim, dadas essas incongruências irresolúveis, e havendo tanto outro material, optei por deixar cair este pequeno texto. No entanto, e como trata da presença portuguesa na América, mesmo antes de Colombo, não deixará de se considerar uma obra incontornável neste contexto.  



 TRATADO DAS ILHAS NOVAS

POR
FRANCISCO DE SOUZA
TRATADO DAS ILHAS NOVAS
E DESCOBRIMENTO DELLAS E OUTRAS COUZAS,

FEITO POR
FRANCISCO DE SOUZA,
FEITOR D'ELREI NOSSO SENHOR NA CAPITANIA DA CIDADE DO FUNCHAL 
DA ILHA DA MADEIRA E NATURAL DA DITA ILHA
É assym sobre a gente de nação Portugueza, que está em huma grande Ilha, que n'ella forão ter no tempo da perdição das Espanhas, que ha trezentos1 e tantos annos, em que reinava ElRei Dom Rodrigo.

DOS PORTUGUEZES QUE FORÃO DE
Viana e das Ilhas dos Açores
A POVOAR A TERRA NOVA DO BACALHÁO, VAY EM SESSENTA2 ANNOS, 
DO QUE SUCEDEO O QUE ADIANTE SE TRATA
ANNO DO SENHOR DE 1570


Ponta Delgada--S. Miguel
AÇORES
1877


N.o 11

Imprimiram-se unicamente cem exemplares, e todos levam n'esta pagina o competente numero, os quaes serão distribuidos gratuitamente pelas principaes Bibliothecas da Europa e America.
PONTA DELGADA Typ. Minerva Insulana, rua do Valverde (1.o andar)- 39 1877

DUAS PALAVRAS DE PREFAÇÃO

As legendas, bem cedo formadas, sobre a existencia de importantes ilhas no vasto mar fronteiro ás costas do seu paiz, foram o mais poderoso incentivo que determinou os portuguezes, durante todo o seculo decimo quinto e já desde o anterior, a fazerem explorações no Atlantico septentrional.
Foram essas explorações a mais ampla e proficua escola de navegação que tiveram.
Uma das suas mais proximas consequencias, foi o reconhecimento dos Açores, que ficaram servindo de estação para ulteriores investigações ao occidente do seu meridiano.
A lista dos emprehendedores n'esta direcção não é muito escassa.
Annos antes da primeira viagem de Colombo ás Antilhas, já em Portugal havia conhecimento da existencia de parte das costas da America do Norte.
Os Cortes Reaes, ultimos d'aquelles emprehendedores, tornaram apenas mais positivo e extensivo esse conhecimento.
Os factos, porem, de serem essas navegações filhas de iniciativa particular, de serem seus resultados reaes sempre inferiores á espectativa e aos que offerecia a costa occidental d'Africa e promettia a passagem por longo d'ella, para o Oriente, tornaram quasi ignorados e deturpados por uma historia official os esforços dos portuguezes n'aquella direcção.
Por outra parte, a grandeza epica da empreza de Colombo, o explorador das regions da America Central por elle descobertas, as riquezas immediatas d'ellas auferidas pelas conquistas de opulentos imperios, a solidariedade reconhecida do novo continente fiseram quasi obliterar a memoria das nossas explorações no sentido indicado, e referir ao grande navegador genovez a gloria exclusiva da descoberta do Novo Mundo.
Desviado o genio portuguez por uma direcção suprema e systematica para as navegações e conquistas do Oriente, quando o cyclo da sua actividade ali estava quasi fechada, elle volta de novo a sua attenção para o campo em que por tanto tempo o detiveram as suas crenças legendarias; embora já então perlustrado por outros povos e sem fundamento para taes crenças.
Foi n'estas circunstancias que foi escripto o presente opusculo, cujo pomposo titulo, dá idea d'um trabalho muito mais importante do que na realidade é.
Uma noticia contem elle importantissima, qual é a do estabelecimento de uma colonia portugueza na ilha do Cabo-Bretão, nos fins do primeiro quartel do seculo decimo sexto.
Conhecido apenas pelo que d'elle diz a «Bibliotheca Lusitana», era julgado perdido desde o terremoto de Lisboa.
Felizmente, porem, havia mais exemplares nas bibliothecas das Provincias.
No deposito de livros provenientes das livrarias de alguns dos extinctos conventos, e hoje encorporados na Bibliotheca da Universidade, appareceram dois. Nos papeis politicos e historicos, ms., n.o 620 da actual numeração, e 175 do antigo deposito; e tambem na Miscellanea, ms. n.o 135 do antigo deposito.
Tendo conhecimento deste facto, o nosso fallecido amigo e illustre açoriano, José de Torres, fez-nos d'elle communicação em maio de 1865.
Logo nos dirigimos ao nosso conterraneo, então estudante em Coimbra, o sr. doutor Manuel Ignacio da Silveira Borges, pedindo-lhe uma copia d'elle; em breve nol-a remetteu tirada pela sua propria mão.
Destinava-mos effectuar a sua publicação, como annotação, na Memoria sobre Gaspar Corte Real, que pertendemos dár á luz; porem tendo-se casualmente sabido da sua existencia na nossa mão, fasemol-o agora em separado para satisfaser-mos a certa espectação e instancias d'amigos.

ILHAS DE SANTA CRUZ DOS REIS MAGOS

SÃO THOMÉ, BOM JESUS, S. BRANDÃO, SANTA CLARA, DA GRAÇA, 
E A DE S. FRANCISCO OU DAS SETE CIDADES.

A oeste da Ilha da Madeira 65 ou 70 legoas, está uma grande Ilha que se chama Santa Cruz dos Reis-magos, que tem de comprido trinta legoas, e de largo no mais estreito quinze legoas, e pola banda do sul está em 32 graos, e corre athé 34 ao norte, e corre-se noroeste susueste, e tem por todas as faces grandes Bahias e enseadas, grandes arvoredos, e Ribeiras, e boas agoas, como d'isto mais largamente tenho informações dos antigos, e se arruma pola maneira aquy posta em uma carta Franceza, que tenho onde está aluminada, e presumesse que tem gado.
Allem della a oeste, obra de 45--50 legoas, em 32 graos pouco mais ou menos, está outra Ilha que se chama São Thomé, que tem de Leste Oeste, de comprido, passante de doze legoas, e largo cinco, uma formoza Bahia ao Sul com um Ilheo, e na face do Norte uma Roca de Baxio, como me constou das ditas informações, e aluminação da dita Carta Franceza.
Allem mais a oeste 75--80 legoas está outra Ilha que se chama o bom Jhus, em altura de 33 graos, pouco mais ou menos, e tem de Leste Oeste, de comprido, quinze legoas, e de largo melhor de 7, com formozas Bahias por todas as faces e pola banda do Sul sobre a bahia dous Ilheos, e da banda do Sudueste, afastado della, um grande Ilheo, como me constou das informações, e da dita carta aluminada.
No meridiano da Ilha do Porto Santo, pola banda do norte, em 35 está uma Ilha que se chama São Brandão, tão larga como comprida, redonda, que tem uma legoa e meia para duas, e arriba della em 35 graos e dous terços está outra ilha, que se chama Sancta Clara, que tem de comprido para o Norte quatro legoas, e de largo de Noroeste--Sueste tres legoas, e estão assim enfiadas uma na outra com o Porto Santo pelo Ilheo da Fonte da Arêa ou do ferro, e abaixo d'ellas em 33 2/3 de gráo está uma ilha debaixo d'agoa com baixio em redor, que algumas vezes se vê da Ilha do Porto Santo a arrebentação do mar n'ella, segundo as informações que tenho e aluminação da dita carta, e pola maneira aqui posta; a qual a lugares tem 6, 7 braças na cr'oa; e p'ra credito das informações que tenho fui sobre ella, e tem grande roda com muito baixio, a lugares grande musgo do mar, onde vi muitas diversidades de peixe, e a sondei por minha mão, e fui na Barca de Manoel Bayão, que Deus tem, e está a Noroeste--Sueste pela banda do Ilheo da fonte d'arêa, que está ao longo do dito Porto Santo, e está afastada d'ella duas legoas pouco menos.

A oeste das Ilhas dos Açores está uma Ilhêta que se chama a Ilha da Graça, e desta Ilhêta indo a oeste dusentas legoas e outras dusentas da ilha das onze mil virgens em altura de 39, 40 e 41 gráos, pouco mais ou menos está uma grande Ilha que se chama São Francisco, que tem melhor de quarenta legoas de comprido de Norte--Sul, e de largo vinte e tantas, com grandes Bahias, Ribeiras d'agoas e arvoredos, segundo as informações que tenho d'ella e por via de França tive as mais das informações por os francezes continuarem á Terra Nova á pescaria, e á Costa do Brazil e Guiné, e navegam por fóra das nossas derrotas por causa das nossas armadas; e estas ilhas estão em partes donde os Portuguezes não navegam se não fôr algum esgarrado, de que tambem ouvi informação, porque os navegantes se vigiam disso muito pelos rumos porque navegam de não darem guinadas; quanto mais irem por rumos fóra de seus caminhos donde estas ilhas estam, e principalmente Ilhas que estam cobertas de nevoas grossas por causa dos arvoredos e humidades do viço d'elles e vontade de Nosso Senhor.

No tempo que se perderam as Espanhas, que reinava El-Rei Dom Rodrigo, que vai para quatro centos annos1 que com as sêcas se despovoaram as gentes, e pereceram com a grande esterilidade e da entrada dos Mouros, como mais largamente se trata nas Escripturas antigas, por a qual causa do Porto de Portugal os mareantes e homens Fidalgos tendo noticia que para o Ponente havia terra que até então não fora descoberta, sómente pelas informações dos antigos e dos Espiritos tinham d'ella informação, determinarão de se embarcarem em sete náos com toda sua familia, e de hirem correndo ao Ponente confiados na misericordia de Nosso Senhor navegarão; e pela altura do Porto que está em 41 gráos correrão tanto que forão por barla-vento das Ilhas dos Açores, que inda não erão descobertas, e forão aportar na Ilha de S. Francisco que está pela dita altura, onde dizem as informações que tenho, que foram n'ella dar: e eu por rasão da nevegação acho ser sua derrota assim; queira Nosso Senhor permittir se descubra esta Ilha como atraz fica dito onde ella demora; e por irem em sete náos disem as informações que cada capitão com sua náo, tanto que aportarão, se repartirão cada um em sua parte da Ilha, e os antigos lhe chamão a esta Ilha as sete Cidades; mas outros por via de França lhe chamão a Ilha de S. Francisco, o qual, por quem é, queira rogar a nosso Senhor dêmos com ella para valermos á salvação da gente que n'ella está, pois procede de Christãos: e achei mais que é terra de boa habitação por ser grande e de muito proveito; e por rasão da virtude dos climas acho está situada no 5.o clima, que dado que seja mais frio que as Ilhas dos Açores não o é tanto como França, Inglaterra, porque é Ilha do mar a que o mar aquenta, e mais, que nas faces do sul é habitavel os dois terços d'ella debaixo de boas zonas.

Haverá 45 annos ou 503 que de Vianna4 se ajuntarão certos homens fidalgos, e pela informação que tiveram da terra Nova do Bacalháo se determinaram a ir povoar alguma parte d'ella, como de feito foram em uma náo e uma caravella, e, por acharem a terra muito fria, donde ião determinados, correram para a costa de Leste Oeste té darem na de Nordeste--Sudoeste, e ahi habitaram, e por se lhe perderem os Navios não houve mais noticia d'elles, sómente por via de Biscainhos, que continuam na dita Costa a buscar e a resgatar muitas coisas que na dita Costa há, dão destes homens informação e dizem que lhe pedem digam cá a nós outros como estão ali, e que lhe levem sacerdotes, porque o gentio é domestico e a terra muito farta e boa, como mais largamente tenho as informações, e é notorio aos homens que lá navegam; e isto é no cabo do Britão5 logo na entrada da costa que corre ao Norte em uma formoza de Bahia donde tem grande povoação; e ha na terra coisas de muito preço e muita nóz, castanha, uvas, e outros fructos, por onde parece ser a terra boa e assim nesta companhia foram alguns casais das Ilhas dos Açores,6 que de caminho tomaram como é notorio: Nosso Senhor queira por sua misericordia abrir caminho como lhe vá soccorro, e minha tenção é hir á dita costa de caminho quando fôr á Ilha de S. Francisco, que tudo se póde fazer d'uma viagem.
Porque ao tempo que os antigos dão informação d'estas ilhas a navegação ainda não era apurada como agora e, deve-se de buscar nas ditas partes, ou por mais um gráo ao Norte ou ao Sul, e para oeste e Leste, resolvendo-se, como os mariantes melhor o saberão fazer, se Nosso Senhor não for servido que eu o faça, porque alem de saber a navegação tenho outras regras das sciencias Mathematicas e bom engenho para todo o necessario ao dito descobrimento; e Nosso Senhor ordene o que for mais ao seu Santo serviço. E escrevi isto, e o mais que em meus papeis tenho escripto, porque não sei o que o Senhor Deus fará de mim; e por tanto se isto a alguem prestar, peço rogue a Deus por minh'alma como eu faço pelas dos que fizeram as informações que tenho; porque esta é a obrigação do bom proximo e dos meus; e tudo póde ser assim como foi e é o mais que está habitado.

ROTEIRO DO DESCOBRIMENTO DAS ILHAS NOVAS,

feito por João Affonso, francez7 o qual esteve n'ellas e em uma emmastreou uma náo sua, e tomou altura e fez roteiro

A oeste da Ilha que se chama da Madeira, 60 ou 70 legoas, está uma grande Ilha que se chama--Santa Cruz dos reis Magos, que tem de comprido 30 legoas, e de largo no mais estreito 15 legoas; e da banda do sul está em 32 gráos e 3/3;--sic--e corre-se 34 ao Norte, e corre-se Noroeste Soeste, e tem por todas as faces grandes Bahias e enseadas, e grandes Ribeiras de boas agoas, e arvoredos, e tudo isto affirmo como quem esteve n'ella, e tenho uma carta, aonde está por mim aluminada com outras que aqui direi; e esta primeira, de que faço menção segundo signaes que vi n'ella, tem muito gado.
A oeste, alem d'ella obra de 45 legoas, em 32 gráos pouco mais ou menos, está outra Ilha que se chama S. Thomé, que tem de Leste Oeste passante de 12 legoas de comprido e de largo 5, e tem uma formoza Bahia da banda do Sul com um Ilheo, e na face do Norte uma roca de Baixio, como está aluminada na dita carta por mim feita.
Alem mais a oeste 75 legoas d'esta Ilha São Thomé está outra Ilha que se chama o Bom Jhus, os quaes nomes foram postos por mim mesmo por serem os mesmos dias em que as descobria em altura de 33 gráos; e tem de Leste a oeste ou Sueste de comprido 15 legoas, e de largo mais de 7 conforme as alturas que para isso tomei, e com formozas Bahias por todas as faces, e pela banda do Sudoeste afastado d'ella um Ilheo grande como consta da aluminação da carta que tenho feito, em que se achará tudo isto que digo muito certo.
FIM

NOTAS


1 Oito centos e tantos, deveria o autor dizer.
2 Sessenta--Barbosa na Bibliotheca Lusitana diz--setenta.
3 A chronologia indicada no titulo do presente opusculo é clara e positiva, mas como concilial-a com esta do texto? Como explicar tal divergencia em obra de tão pequeno folego? Em todo o caso, esta é a preferivel por mais explicita e naturalmente mais pensada. Assim teremos para data da colonisação referida o anno de 1525, aproximadamente.
4  O padre Antonio de Carvalho na sua Corographia portugueza, tom. 1.o pag. 182, (2.a edic. Braga 1868) e tom. 1.o pag. 205 da 1.a edição tratando da Comarca de Viana, diz, a proposito da freguezia de S. Julião de Moreyra, concelho de Ponte de Lima, o seguinte:
«N'esta freguezia é a casa do Outeiro, solar dos Fagundes, cuja familia tem dado pessoas grandes de que descendem muitos fidalgos, e foram os primeiros que com gente de Viana descobriram a Terra Nova, e que n'ella tiveram fortificação de que eram senhores, e por sua conta corria a pesca do bacalhau em quanto Inglatterra a nao tomou.» 
Conforme o mesmo autor, os Fagundes alliaram-se com os Pereiras Pintos de Bretiandos. A pag. 14 do Theatro Geneologico de D. Tivisco Nazáo Zarco etc. igualmente se diz João Alvares Fagundes, Capitão da Terra Nova.
A representação d'estas familias está hoje no senhor conde de Bretiandos.
Existirão ainda no archivo d'esta casa memorias ou documentos relativos aos factos que aponta o autor supracitado?

5  Sem pertender-mos alterar a denominação actual d'esta ilha, nem a esta indicar nova origem, lembraremos comtudo a proposito da palavra britão a seguinte passagem da Azurara, na Chronica de Guiné, pag. 304:
«E porque em terra eram tantos d'aquelles Guineus, que por nenhum modo podiam sahir em terra de dia nem de noite, quiz Gomes Pires mostrar que queria sahir entre elles por bem; e poz na terra um bollo e um espelho e um folha de papel no qual debuxou uma cruz. E elles quando vieram, e acharam alli aquellas cousas britaram o bollo e lançaram-no a longe, o com as azagaias atiraram ao espelho até que o britaram em muitas peças e romperam o papel, mostrando que de nenhuma d'estas cousas não curavam.»

6 Ainda que o autor só genericamente diz que reforçaram a colonia alguns casaes tomados de passagem nas ilhas dos Açores, parece-nos que o seriam unicamente na ilha Terceira, pelas estreitas relações de familia e de commercio que então havia entre ella e Viana.
A provincia do Minho foi das que mais concorreram para a colonisação d'aquella ilha. Sam diversas as antigas familias terceirenses procedidas e ligadas com familias de Viana. D'ali veio Rodrigo Affonso Fagundes, da propria casa do Outeiro, e delle procedeu larga e mui distincta posteridade. Sua terceira neta Beatriz Fernandes de Carvalho, casou em 1546, com Pedro Pinto, de Viana; casa depois ali denominada da Carreira, e hoje representada pela exm.a senr.a D. Maria Izabel Freire d'Andrade, de Lisboa, que por via d'aquella alliança ainda hoje possue n'aquella ilha e na de S. Jorge uma grande casa.
O mesmo sr. conde de Bretiandos ainda hoje possue casa na Terceira, procedida de D. Maria de Souza mulher de Damião de Souza de Menezes, irmã de Gonçalo Vaz de Souza instituidor sem geração filhos ambos de Antonio de Souza Alcoforado e de Cecilia de Miranda da Ilha Terceira.

7.

João Affonso. É este nome bem conhecido na historia maritima de França, como marinheiro, hydrographo e geographo. Deixou uma Hydrographia ms., hoje existente na Bibliotheca Nacional de Paris. D'ella se publicou um extracto em 1559, tempo em que já era morto o autor, com o titulo de--Voyages aventureux du capitaine Jean Alphonse, Saintongeois.--Foi em Saintonge, perto de Cognac, que elle estabeleceu o seu domicilio; d'ahi o appellido de Saintongeois com que o vemos tratado depois de sua morte, qualificação que ficou servindo de titulo á pertenção franceza de o haverem por seu conterraneo.

Léon Guérin, tratando de João Affonso no seu livro intitulado--Les Navigateurs Français,--não occulta que Charlevoix «por falta de estudo a este respeito, e depois d'elle muitos autores francezes, dizem ser nascido em Portugal ou na Galliza, asserção esta, de que os estrangeiros e em particular os portuguezes, altivos por sua antiga gloria maritima, se assenhorearam para juntar este navegador aos que illustraram o seu paiz.»
Charlevoix viveu nos annos que decorreram de 1682 a 1761. As suas obras sobre as colonias e marinha de França demonstram bem que lhe não faltou estudo sobre a historia maritima do seu paiz. Não era elle homem que ignorasse a publicação das Viagens aventureiras de João Affonso, nem o tratamento de Saintongeois que no titulo d'ellas lhe deu o editor, e que de leve privasse a sua patria da maternidade de tão illustre filho.
Um escriptor mais recente, o sr. Pierre Margry, no seu trabalhado livro--Les navigations françaises--consagra a este navegador uma boa parte da sua obra. Nem um palavra, porém diz sobre a questão da sua nacionalidade. Para o autor, João Affonso é seu e todo seu.
Teve, porém, o sr. Pierre Margry o cuidado de informar de espaço os seus leitores da Hydrographia de João Affonso, exhibindo extratos e offerecendo juizos, que acceitamos, sobre os logares que João Affonso descreveu por observação propria. Por ali vemos que quanto diz respeito ao Mar Roxo, costas do Malabar e de Malaca, e mesmo além d'esta, foi felizmente percorrido, examinado, e descripto por João Affonso.
Ora, é de notar que João Affonso escreveu o seu livro nos annos de 1544 e 1545.
Até áquelles annos os nossos escriptores das cousas da India apenas mencionam a ida áquelles mares e regiões de tres navios francezes, no anno de 1527, procedidos de Dieppe; um aportou na ilha de S. Lourenço (Madagascar); outro commandado por Estevão Dias, o Brigas de alcunha, portuguez, que por travessuras que havia feito no Reino se havia lançado em França, chegou a Diu na entrada de junho d'aquelle anno, onde depois de obter seguro do mouro capitão da cidade, foi com todos os seus prezo e mandado ao Sultão Badur, acabando ali miseravelmente, como contam Barros, e Mendes Pinto na sua immortal «Peregrinação,» cap. 16 e 20.
A terceira, commandada por outro portuguez, o Rozado, natural de villa do Conde, foi perder-se na costa occidental de Çamatra em uma bahia perto de Panaajú, cidade do rei dos Batas, que d'elle houve alguma artilharia.
Nota a historia de França ainda, no anno de 1529, uma segunda expedição áquellas regiões, a qual sahida de Dieppe tambem, tinha por termo as Molucas, e por commandante João Parmentier que foi morrer na mesma costa do sul de Çamatra, pelo que ficou mallograda a expedição e o navio voltou d'ali a França.
Se a historia da nossa dominação no Oriente não fosse bastante, apontariamos o occorrido em Diu ao Brigas, para mostrar o perigo de qualquer navegação europea isolada e trato com os povos d'aquellas regiões, por aquelles tempos.
Por outra parte o zelo e vigilancia do Governo Portuguez em repellir d'ali o concurso de qualquer outra nação da Europa não podião então ser excedidos; as instrucções secretas e verbaes dadas a Nuno da Cunha ao ir governar a India assás provam o que levamos dito. Veja-se Sousa, nos Annaes de D. João III.
A passagem de Portuguezes conhecedores das nossas navegações e conquistas ao serviço de França era então mui frequente, uns por despeitados e mal premiados se passavam; outros captivos por corsarios francezes, que desde o reinado de D. João II, e por todo o de D. Manuel e D. João III infestaram as costas do reino e os mares dos Açores.
O governo Francez (em nome da liberdade dos mares!!) favorecia desfaçadamente taes actos.
O caso occorrido com D. Pedro Castello Branco e com Francisco I de França, narrado por Couto, mostra bem as ideas d'este monarca sobre taes actos. D. Pedro roubado por corsarios francezes ao voltar da India, foi a França reclamar a sua fazenda. Francisco I não teve pejo de uzar á vista d'elle d'umas estribeiras e d'uns anneis pertencentes á fazenda que fôra roubada. D. Pedro á vista das negativas e despejo d'el-rei, o teve tambem de lhe dizer que aquellas estribeiras de que elle usara no dia anterior, e aquelles anneis que elle tinha nos dedos, os mandara elle D. Pedro fazer e eram fazenda sua.
Por estes meios foram os francezes, desde o começo das nossas navegações longiquas, senhores dos nossos roteiros, cartas e diarios maritimos, marinheiros e pilotos.
Como dissemos, o sr. Pierre Margry reconhece que João Affonso descrevera por observação propria, o que o mesmo João Affonso confessa nos extractos offerecidos por aquelle sr., o Mar Roxo, as costas do Malabar e de Malaca.
Ora, perguntaremos em boa consciencia ao sr. Pierre Margry, fez João Affonso esses exames n'aquelles mares e regiões ao serviço de França? O que o levaria ao Mar Roxo, onde os nossos capitães só então iam com fins puramente militares? Acaso já teria então o seu Governo vistas sobre o córte do Suez e a navigabilidade d'aquelle mar?!!
Quem lhe daria a audacia de examinar no serviço de França, as costas do Malabar e as de Malaca, então os logares mais frequentados pelos portuguezes?
Nós não hesitamos, nem comnosco os que tiveram alguma idéa da nossa dominação na India por aquelles tempos, em affirmar que as navegações de João Affonso por aquellas regiões só poderiam ter logar ao serviço do Portugal, sua patria, e nunca jamais ao de França, onde depois se lançou. Tão longa, minuciosa, feliz e então ignorada e não sabida navegação ao serviço de França é inadmissivel e insustentavel.
João Affonso foi um portuguez lançado em França; assás o temos demonstrado.
A historia vem ainda em auxilio da nossa argumentação, mas a historia irrefragavel.
Não é nenhum escriptor vaidoso das nossas glorias maritimas que se aproveitasse da sinceridade de Charlevoix, quem nol-o affirma. É, nem mais, nem menos, o nosso querido frei Luiz de Sousa, escriptor muito anterior a Charlevoix, quem nol-o diz nas seguintes palavras, fallando, em suas memorias e documentos para os Annaes de D. João III, ao anno de 1533. «Por carta de Elrey, de 3 de fevereiro de 1533, consta de um João Affonso que andava levantado com francezes; e que no mesmo tempo andava Duarte Coelho com armada na costa da Malagueta, e que el-rei lhe mandava que viesse a esperar as naus da India».
Por aqui vemos mais que João Affonso se tinha ao serviço de França tornado respeitavel a Portugal. Na verdade as queixas do nosso Governo contra elle, chegaram a obrigar o Governo Francez a tel-o por algum tempo preso em Poitiers.
Fique, pois, João Affonso d'hoje em diante havido por portuguez, porém não na lealdade, e sirva a qualificação de Saintongeois, que elle jámais usou, mas que lhe foi dada depois de morto, apenas para indicar que elle tomára por patria adoptiva Saintonge; ou então sirva para mostrar o quanto os francezes de então, como os d'hoje, o ambicionavam seu, e o pouco escrupulo em forjar os meios de prova com que podessem sustentar suas aereas pertenções.
Terminando este artigo da presente carta, lembraremos a grande possibilidade de encontrar na propria Hydrographia manuscripta de João Affonso a confissão da sua qualidade de portuguez.
O silencio do sr. Pierre Margry, no extracto que d'ella offerece, á cerca dos portos e costas de Portugal, confessamos que nos parece bem suspeitoso.

Extracto da carta ao ex.mo redactor do--Jornal do Commercio--José Maria Latino Coelho, por João Teixeira Soares. Sobre a qualidade de portuguezes de tres grandes navegadores do seculo XVI; João Affonso ao serviço de França, João Fernandes e Pedro Fernandes de Queiroz, ao de Hespanha. Publicado nos folhetins do--Jorgense--n.os 90 e 91 de 1875.