domingo, 16 de setembro de 2018

As estatuetas de Acámbaro e São Jorge

Há uns anos falei aqui das Pedras de Ica
mas não falei das Estatuetas de Acámbaro. 
Talvez porque o assunto fosse semelhante, talvez porque não soubesse delas à época, acabei por me ir esquecendo de relatar mais este caso de "objectos estranhos".

Uma imagem típica dessas 33 mil estatuetas é a figura de um homem cavalgando um estiracossauro

A história que podemos ler em diversos sítios (inclusive na Wikipedia) dá o assunto como possível falsificação, e a história parece ficar encerrada.

Já abordei aqui o exemplo do Marquês de Sautuola, que primeiro descobriu os touros de Altamira, mas que foi desacreditado, urrando-se então que seriam falsificações, etc... 
Só quando as descobertas passaram a ser também francesas, e não apenas espanholas, o gado amansou, o erro foi reconhecido e desculpas póstumas foram entregues à filha do marquês.

Poderia pensar-se que a comunidade aprende com os erros. Ora, é claro que não!
São inúmeros os casos de descobertas que são classificadas como falsificações, e noutros casos arranjam-se outras desculpas mirabolantes, todas para descartar o inconveniente, e satisfazer o conveniente de regressar à tese oficial. 
Eliminadas todas as provas no sentido contrário, é depois muito fácil arrogar que todas as provas apontam na direcção pretendida, e assim se vai fazendo "ciência"... 

O que tem de estranho o argumento de convivência de humanos com dinossauros?
- O dogma científico de que os dinossauros foram extintos há muitos milhões de anos.
Há alguma prova inquestionável disso? 
- Zero.
O que acontece é que a maioria das ossadas encontradas foram datadas de há muitos milhões de anos, e é claro não foram descobertas pinturas nas cavernas com desenhos de dinossauros. Definido um dogma, caso haja alguma datação diferente, é porque está errada. E, caso fosse encontrada alguma pintura rupestre com um dinossauro, seria descoberta, ou seja, tornada pública?
Pois, é neste estado de (des)confiança que vivemos.

Pelo facto de não terem vindo a público datações de ossadas de dinossauros mais recentes, isso não significa que não possam existir. Não me pareceria nada escandaloso admitir que restassem alguns dinossauros até ao aparecimento humano, e já houve espécies que foram dadas como extintas, até que foram encontradas vivas - um caso bem conhecido é o do celacanto (peixe).

O mosaico romano sobre o Nilo, encontrado em Palestrina, Itália, apresenta um bicho identificado como "Crocodilopardalis", o nome é uma mistura entre Crocodilo e Leopardo (pardalis), e deve ser entendido na medida em que os romanos chamavam "Camelopardalis" à Girafa. Ou seja, a girafa era vista com particularidades similares ao camelo e ao leopardo (as marcas na pele). 
O animal tem sido visto como um possível dinossauro, e o nome sugere que tivesse uma cabeça com dentição do tipo crocodilo - tal como os dinossauros tinham, e um corpo com algumas manchas na pele. Depois, é ir a uma lista de dinossauros africanos, e escolher o mais parecido...
Homens caçando um "Crocodilopardalis" (escrito em letra grega)

Portanto, parece ser precipitado assumir que não haveria dinossauros há uns milhares de anos atrás.
No entanto, fico perfeitamente confortável com a hipótese de que os dinossauros se extinguiram há muito, e não seria um desenho a mudar a narrativa.

A questão é outra.
A questão é assumir que não estiveram disponíveis fósseis de dinossauros aos olhos dos nossos antepassados. Que sentido faz pensar que os fósseis só se tornaram visíveis desde o Séc. XVII ou XVIII, e antes eram inacessíveis ou desprezados? 
Não aparecem estes fósseis aos olhos de quem quer ver, quando há deslocamentos de terras?
Não houve tantas escavações e explorações mineiras ao longo da Antiguidade?

Portanto, mesmo sem estar em causa a presença de dinossauros num tempo mais recente, parece-me ridículo assumir que não houvesse uma idealização da sua forma com base nas ossadas.
Afinal não foi também isso que nós fizémos?

Sendo assim, antes de queimar a credibilidade de pessoas, seria bom assumir que também podemos estar perante efectivos achados.
Neste caso houve datações por termoluminescência que apontaram para 2500 a.C., mas foram datações refutadas dizendo que a técnica estava ainda pouco testada, ou argumentando que tinham aparência de "não estar desgastadas pelo tempo" (é claro que fracturas limpas, poderiam aparecer pelo simples facto de se terem partido durante a escavação).
Diz-se ainda que Waldemar Jusrud, que as foi recolhendo em 1944, pagava 1 peso por figura aos camponeses mexicanos, por cada figura encontrada (reuniu 32 mil, terá pago 32 mil pesos?). Teria sido isso a despoletar o fabrico massivo de figuras pelos camponeses (com imaginação e engenho, porque incluiam ainda figuras que lembravam sumérios, etc.)! A inspiração campesina em 1944 teria sido o cinema de Acámbaro. No entanto, Jusrud disse que fez isso, só depois de ele próprio ter encontrado uma razoável quantidade de figuras acidentalmente.

O ponto mais crítico para a tese de falsificação à la carte, é que os camponeses apresentaram figuras de saurópodes com serrilhados nas costas, como neste caso (há muitos outras similares):

Isto era considerado uma apresentação errada de um saurópode, que normalmente era representado sem nenhum serrilhado... Porém, em 1992, passados quase 50 anos sobre a descoberta das figuras, concluiu-se que de facto os saurópodes podiam ter serrilhados nas costas, conforme o artigo de Stephen Czerkas, "Discovery of dermal spines reveals a new look for sauropod dinosaurs", publicado na revista Geology. Aí era apresentada uma figura ilustrativa:

Stephen Czerkas (1992) ilustração do saurópode com serrilhado nas costas ("dermal spines")

Portanto, temos uma outra "coincidência".
Não só os camponeses mexicanos de Acámbaro tinham a imaginação cheia de dinossauros, sumérios, etc... como se lembraram de pôr erroneamente um serrilhado em dinossauros saurópodes. Tiveram tanta sorte neste seu erro que passados 50 anos se verificou que tinham mesmo!

É claro que nada disto afectou minimamente a opinião consensualmente estabelecida...

É facil perceber que não poderia modificar, porque as pessoas estão terrivelmente presas às suas ideias pré-estabelecidas, e não são pequenas coisas que as fazem mudar de opinião. Mesmo que encontrassem um dinossauro vivo, seria mais fácil julgarem que viria de um "Jurassic Park" do que pensarem que se tratava de algum resistente sobrevivente, de tal forma esta ideia do desaparecimento antigo ficou incutida.

Acresce a este apontamento uma outra imagem que já aqui tinha usado, referente a inscrições rupestres feitas pelos índios dos Grandes Lagos na América do Norte:

Também neste caso, aquilo que poderá parecer ser um saurópode com um serrilhado nas costas, perseguido por índios numa canoa, não passará de mais uma "coincidência". A representação seria errada antes de 1992, mas depois disso é coincidência estar certa.

São Jorge
A figura de São Jorge está intimamente ligada à morte do dragão, conforme foi inúmeras vezes representado, por exemplo neste caso, pelo pintor renascentista Paolo Ucello:
Paolo Ucello - São Jorge e o dragão (1458-60)

Este era um dos medos instaurados na população medieval - a eventual presença de um dragão - que ameaçasse a sua sobrevivência, e que seria eliminado por um cavaleiro destemido como S. Jorge.

Ora a existência de dragões pode ligar-se a transportar a palavra dinossauro para o mesmo contexto.
Mais concretamente, se pensarmos em asas, podemos facilmente acreditar que não seria fácil encontrar uma ossada de um pterodáctilo...
... sem pensar que tal bicharoco poderia causar graves problemas de sobrevivência, para o reino.

Portanto, é imediato fazer a ligação entre referências a dragões com referências a dinossauros.
Se eles estavam ou não vivos, isso é um assunto secundário. O medo existiria se não houvesse a convicção de que tais bichos estavam extintos há milhares de anos, e poderiam ainda aparecer.

A bandeira de S. Jorge, a cruz vermelha sobre fundo branco, foi muito usada pelos portugueses e  pelos ingleses. Confunde-se um pouco com a bandeira templária, mas o ponto principal, caso ainda houvesse vestígios significativos deste tipo de bicharocos... seria o seu extermínio.
Portanto, se quisermos supor que na América do Norte ainda havia vestígios de dragões/dinossauros no Séc. XV, um bom moto de extinção definitiva seria usar a bandeira de S. Jorge. Talvez não apenas para extinção, mas também para ocultação da sua presença recente, quando novos colonos viessem a ser convidados a instalarem-se naquelas paragens.
Isso é uma hipótese alternativa a uma eventual necessidade de ocultação de territórios que não tinham ainda sido "desinfectados". Em causa estariam algumas paisagens americanas e australianas.

O Atlas Miller tem diversos bichos, que identificamos como existentes, mas também tem outros que colocamos na imaginação como sendo "dragões", vendo-se aqui um caso:
Excerto do Atlas Miller (ver imagem aqui)

Se estes animais, tantas vezes representados e considerados como fruto da fantasia decorativa, existiam ou não, pois isso é mera hipótese de especulação ligeira. No entanto, pode não ser tão ligeiro considerar que os exploradores da época estavam de alguma forma pensando neles quando relatavam as suas observações, passadas para o desenho dos cartógrafos.

Não me parece que tenha sido esta uma causa de ocultação, sendo muito mais credível que os novos territórios só foram "descobertos" quando havia já garantias suficientes de que as novas colónias continuaram a obedecer aos reinos europeus, por indirecta via da maçonaria.

sábado, 15 de setembro de 2018

dos Comentários (41) - o que fazer?

Uma pergunta que um leitor colocou por email é muito simples e resume-se a isto:
- E agora, o que fazer?
A minha resposta é igualmente simples - não é preciso fazer nada!

O tiro deve ser sempre apontado à cabeça - mas isto deve ser entendido...
- À cabeça de quem detém o poder, no sentido de mudar o seu pensamento.
- À cabeça de todos os que se abstêm de pensar, e são executantes de ordens que não entendem, ou não querem entender.
A única coisa que interessa é mudar o pensamento, no sentido em que é uma auto-tortura prosseguir uma enfernizada guerra surda interna, cujo propósito é ridículo.
O maior perigo que surgiu contra o homem foram os grupos de homens - clubes, associações, sociedades, nações. O indivíduo sempre ficou fragilizado e amedrontado perante o poder de ser espezinhado por esse monstro da evolução, que são grupos de homens organizados. Como diriam os anarquistas, o maior objectivo de uma sociedade seria destruir de raiz qualquer agrupamento. A principal organização social seria no sentido de evitar qualquer organização que desse a um o poder de muitos, excepto para evitar isso.
As multidões são giríssimas em folia, mas são pavorosas em agressividade.
Mas isto não é só uma consciência que deve ter quem controla, é uma consciência que deve ter quem não quer ser controlado. 
Se quem estiver a controlar não quiser mudar, pois ou há uma mudança de mentalidade de quem está a ser controlado, ou continua tudo na mesma, pelo tempo que for preciso... com consequências más, para uns e para outros.

Giuseppe di Tomasi Lampedusa
"Il Gattopardo"
A ideia de que uma pessoa, ou um grupo de pessoas, pode protagonizar uma mudança social, tem sido conduzida de forma perversa, e colocada ao serviço do espectáculo.
As pseudo-revoluções, ou grandes mudanças, foram feitas seguindo a velha máxima de Lampedusa - "tudo deve mudar para que tudo fique como está".

Ora, o que é que não muda?
O que não parece ter mudado é a sensação de que existe um poder oculto que condiciona de forma determinante o poder visível.

É claro que os protagonistas visíveis de um "certo poder" mudam, vão sendo substituídos por eleições, ou mesmo mudanças de regime, afectando de forma abrupta pequenos poderes locais. Esses poderes locais são vistos localmente pelas populações como fontes independentes do poder, mas não o são.

A nobreza, ou elites sociais, são mais imunes às alterações de regime, porque numa lógica familiar mantêm a sua rede de contactos, que continua a funcionar, mesmo quando tudo colapsa. 
Normalmente jogam de ambos os lados de uma disputa, e têm as peças já colocadas no caso da insurgência surtir algum efeito. Depois, é apenas uma questão de esperar uns anos, que o fulgor revolucionário se dissipe, e podem voltar a constituir-se como poder, da mesma ou de outra forma.

A receita
Parte desta receita foi ditada por D. Francisco de Almeida, 1º vice-rei da Índia:
Que tenhamos fortalezas ao longo da costa mas apenas para proteger as feitorias porque a verdadeira segurança delas estará na amizade dos rajás indígenas por nós colocados nos seus tronos, por nossas armadas defendidos.
Esta era uma receita de colonialismo não presencial, que foi de forma eficaz estendida a todas as nações (fossem ou não colónias).
Como? - Através do poder militar, económico e financeiro.
Os marajás eram postos e depostos, tal como mudam os governos, mas a política dos novos seria a mesma dos antigos. Uma feitoria, como Goa ou Macau, era suficiente para manter o comércio sob os bons auspícios portugueses. Um banco nacional com instruções do FMI é igualmente suficiente para assegurar uma política financeira ditada por Wall Street ou pela City de Londres... os governos podem mudar, mas sujeitam-se às mesmas directrizes para ficarem no trono. 

As Companhias
A ideia de os navios partirem com companhia, começou cedo, até porque provavelmente sem uma companhia fiscalizadora, os navios arriscariam caminhos cobertos, que não deveriam ser descobertos. Assim avisava a VOC, a Companhia Holandesa das Índias Orientais. 
Os navios poderiam até ter partido como iniciativa privada (como fez D. Afonso V a Fernão Gomes), mas não foi essa filosofia que prevaleceu. Apareceram "companhias das índias" estatais monopolistas em todas as nações dedicadas ao comércio marítimo. Se na Holanda começaram por haver 12 companhias, todas foram rapidamente aglomeradas na VOC, que se fundou no moderno espírito de participação de capital... tal como a Holanda foi a primeira nação a ver a especulação bolsista judaica a funcionar, num esquema piramidal de bolbos de túlipa.

Ainda antes destas companhias estatais estarem definidas, já se definia que os navios não passavam sem uma companhia cristã, ou seja sem uma Companhia de Jesus. Os jesuítas nasceram dois anos antes da Inquisição entrar em Portugal, e rapidamente passaram a figurar como missionários, sendo o mais famoso "companheiro" S. Francisco Xavier. 

Só que não houve diferença na mudança, entre a ocultação australiana exigida pela companhia cristã, ou a permanência da mesma ocultação australiana durante o tempo da companhia holandesa. 
Mudando, nada mudava.  

A influência das Companhias das Índias cresceu com a maçonaria, par a par.
Um exemplo foi a criação pela Companhia das Índias Britânica, a EIC, de um estado independente do poder monárquico inglês, como foi o caso dos EUA, em que a bandeira original era semelhante à bandeira da EIC. Dois anos depois foi dado um toque na bandeira (com estrelas como as da UE), porque as ideias vão sendo as mesmas (nos EUA eram 13 e não 12 os estados iniciais):

Bandeira da EIC (Companhia das Índias Britânica)
e a Bandeira (Betsy Ross) dos EUA
(as 13 estrelas representavam os 13 estados iniciais)

A VOC funcionava em participação bolsista. Ora, quando as diferentes Companhias das Índias foram desaparecendo, no Séc. XIX, apareceram nas suas sedes as primeiras Bolsas de Valores.

A capacidade de uma Companhia das Índias fazer desaparecer um regime foi bem testada pela maçonaria na Revolução Francesa. Descontente com o resultado da Guerra dos Sete Anos e depois com o cozinhado de Cook e Sandwich (na glutonice de apanhar todo o Oceano Pacífico), o rei francês Louis XV decidiu extinguir a Companhia das Índias Francesa. A partir daí começaram problemas escassez comercial, e de fome, que se foram agravando durante 20 anos até culminar na Revolução Francesa.

A Revolução Francesa pouco terá tido de "francesa", o modelo de governo republicano já tinha sido ensaiado na Inglaterra de Cromwell no século anterior. No entanto, a maçonaria já tinha aprimorado o modelo, e estava disposta a nova tentativa. Mesmo com o insucesso da revolução, as ideias liberais acabaram por se impor nos estados durante o Séc. XIX.

Os Tratados 
Génova e Veneza costumavam traficar influências na nomeação papal, que normalmente caía num papa italiano. Quando o Tratado de Tordesilhas foi declarado pelo papa espanhol Borja (Bórgia), todas as restantes nações europeias foram desconsideradas na partilha do mundo entre Portugal e Espanha. Isso causou um impacto maior do que é reconhecido, e ainda hoje é sentido.

Quando se começou a tornar evidente que as navegações oceânicas iriam ser uma galinha de ovos de ouro, aparece também Lutero com as suas teses em 1517. Pouco depois Henrique VIII define a igreja anglicana, em 1534, e o poder papal começa a deixar de ser o aparente regulador da paz europeia. 

Mesmo em 1509, quando se dá a Batalha de Diu, os portugueses não defrontavam apenas os mamelucos do Cairo, e o sultanato indiano de Guzarate, havia o grande apoio dos venezianos, que forneceram os navios de guerra e armamento. Quando Carlos V coordenou a conquista de Túnis em 1535 recebeu balas de canhão que já falavam francês. 
Ou seja, as tradicionais alianças europeias "pela cristandade" sujeitavam-se à real politik.

As coisas iriam ser "diferentes", e a guerra que definiu essa mudança foi a Guerra dos Trinta Anos, e a "Paz de Vestfália". O novo equilíbrio de poder iria ser feito de tratados bilaterais, ou como a maçonaria se regozijaria depois - terminavam até as costas voltadas a entendimentos com as nações árabes. Numa longa aliança, a França praticamente absteve-se de qualquer intervenção contra o Império Otomano (exceptuando algum tempo, na regência de Napoleão).

Portanto os tratados bilaterais pareciam ser uma panaceia, mas devido aos insucessos diplomáticos que levaram às Guerras Mundiais do Séc. XX, voltou a criar-se uma espécie de papado, na Sociedade das Nações, depois ONU, perdendo apenas a conotação religiosa.

A ideia de criar um governo global controlador pode ser interessante no sentido em que seria a organização que impediria as organizações. No entanto, como é óbvio, o que se pretende sempre é estender a eficácia de uma máquina controladora a uma organização maior. 
Isso não levará a nada, porque quando as organizações não têm inimigos externos, arranjam-nos internamente. 


Em suma, na aparência não vai mudar rigorosamente nada. 
No entanto, como estas coisas não dependem de ninguém em particular, uma vez começada a desconfiança ela irá propagar-se como um incêndio. Não vale a pena isolar quem sabe, porque não é isso que impedirá outros de saber. Não há um foco de incêndio, é toda a terra que aquece, e nesse caso, não há contenção possível.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

O disco de Sabu

Como existia apenas em alemão e russo (na wikipedia), acabei de colocar uma página em português sobre um achado egípcio, encontrado em 1938 num túmulo da 1ª Dinastia, cerca de 3000-2800 a.C., que é designado "disco de Sabu":
Disco de Sabu - objecto com 5000 anos encontrado no Egipto.

Parece que o disco é de metal, mas é suposto ser de xisto (também chamado ardósia).
Estava partido e foi reconstruído, na forma que é apresentado, no Museu Egípcio do Cairo.

A mim parece-me muito difícil esculpir uma forma destas em xisto, e vi geólogos que duvidam que seja xisto, mas também vi outros dizerem que isto revelaria que o artífice possuía uma técnica superior, dificilmente igualável hoje em dia.
Sendo de xisto, eu associo muito xisto à paisagem europeia, portuguesa em particular, mas não me lembro de ver muitos objectos de xisto na arte egípcia, nem sei onde eles o iriam buscar... a esse propósito - acerca das pedras usadas pelos egípcios, há aqui uma boa página informativa.

Depois há o propósito deste objecto. Qual seria?
O problema começa logo com ser "uma roda", que é suposto ter aparecido apenas no Egipto durante a XVIII Dinastia, ou seja, por volta de 1500 a.C., ou seja, quase 1500 anos depois deste objecto. Assim, e sendo facilmente quebrável, é considerado que o objecto teria apenas funções decorativas

Mas, é considerado que este objecto se poderia ter inspirado num objecto de metal, como original. Isso parece ser uma suposição que faz bastante sentido.
Com efeito, admitindo que o original seria um disco de metal, fazendo 3 cortes junto à circunferência, e puxando essas 3 pontas para cima, obtinha-se um aspecto similar. Tal como fazendo um furo no metal em brasa, se conseguiria elevar a parte central.

No entanto, a função seria ainda assim enigmática.
Não sei se faria sentido experimentar usar o desenho como volta-fenos numa alfaia agrícola (as dimensões, com diâmetro de 60 cm, parecem poder ajustar-se para uma altura de cereal até meio metro). É claro que há outras possibilidades, mais especulativas, que já associaram o nome "turbina" ao objecto. 
Associar um aspecto decorativo, seria normalmente um despachar fácil e descomprometido, faltando outra melhor explicação. Aqui poderá ter algum relevo suplementar se virmos o artefacto como uma variante de disco Bi, objectos muito encontrados na China, e cujas origens podem remontar também a 5000 anos atrás.

De qualquer forma, a forma única deste artefacto parece ser caso até aqui singular, comparando com outros objectos encontrados na Antiguidade, e mesmo em tempos romanos não me lembro de ter visto nenhum objecto com este tipo de geometria.

domingo, 9 de setembro de 2018

dos Comentários (40) - chamada chama

Relativamente ao incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro, o José Manuel Oliveira deixou um comentário que ilustra a sua experiência pessoal, e que é bastante elucidativo:
Nasci na Travessa do Guarda Joias e estava lá aquando do "incêndio no Palácio de Ajuda, que fez desaparecer a galeria de pintura fundada por Dom Luís I, e que continha quinhentas telas pintadas por nomes famosos da pintura portuguesa e muitos móveis do século XIX". Alguns óleos foram encontrados mais tarde à venda no estrangeiro…
Eu, em 80/81, quando comandante da guarda à CHESMATI de Campolide, antiga Farmácia Militar (cal madeira e pedra…telhado podre!), com um anexo novo do Centro de Audiovisuais-Cinemateca, nas minhas 24 h de serviço calhou-me na rifa um incêndio que destruiu o edifício onde funcionava o departamento cinema do CAV. Fiquei sempre a duvidar se o fogo não visaria o arquivo proscrito da guerra do ultramar, mutilações, chacinas aos brancos pelos turras, ou pior? Pois ninguém tinha acesso a esse arquivo da Cinemateca do Exército onde trabalhei, nada ardeu do arquivo, anexo em betão com gavetas de ferro. Sá Carneiro e Amaral tinham morrido há poucos meses. Nesse dia do atentado de Camarate recolhi ao BC5 às 21h - com ordens para sairmos para as ruas, fazer face a uma guerra civil anunciada… que não aconteceu.
Passados dois anos do incêndio da CHESMATI, já desmobilizado, fui convocado à P.J. do Estado Maior, notei um desinteresse total da investigação em apurar causas. Foi arquivado. Nem sei bem o que diz o relatório, só conheço o que participei - estranho fogo propagava-se através do interior das paredes das águas furtadas com a instalação elétrica desligada. Suspeitei de um adido (retornado) alojado nas águas furtadas dessa Farmácia Militar, pois pedia indeminização por roupas de marca, queimadas, quando antes vestia miseravelmente. O que é comum a estes fogos é que não se apuram as causas, nem os responsáveis, e toda a gente beneficia do prejuízo, excepto o povinho que se está nas tintas... “deixa arder que o meu pai é bombeiro”.
Destacamos então alguns incêndios que foram deixando imagens da devastação de uma boa parte do património nacional (felizmente são coisas do passado, e não há imagens recentes):

De resto, cito o que escrevi em resposta a um comentário da Amélia Saavedra:
Li agora que arderam 7 museus no Brasil nos últimos 10 anos:
https://www.sabado.pt/mundo/america/detalhe/sete-museus-arderam-nos-ultimos-dez-anos-no-brasil

... um deles é exactamente a Cinemateca Brasileira, que já ardeu 4 vezes desde 1959, tendo-se perdido mais de 1000 rolos de filmes no último incêndio em 2016.
Neste último incêndio creio que havia cópias digitais de tudo... mas mesmo assim havia quem não tivesse certeza (parece que estamos há 30 anos atrás).
Curiosamente os incêndios em museus são demasiado frequentes.
O Canadá em 1998 reportava uma média de 30 incêndios por ano (só destruição parcial):
https://www.canada.ca/en/conservation-institute/services/conservation-preservation-publications/canadian-conservation-institute-notes/museum-fires-losses.html
... e dizia-se que nos EUA e UK eram o dobro!

A percentagem de fogo posto era de 2 em cada 3 incêndios, suspeitando-se que se tratavam de incêndios para encobrir roubos (vá lá que há quem perceba a ideia)!
Como não vejo mesmo o interesse de convidar os amigos para verem o novo quadro receptado após um roubo de museu (aliás quem serão os amigos que não se escandalizam por o quadro não estar num museu?), só entendo estes roubos por completa parolice, ou então por vontade de ocultação.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

dos Comentários (39) - coxos de coches

Num comentário recente João Ribeiro fez notar que D. Afonso Henriques, teria passado a andar de coche, dado que tinha ficado coxo. Acrescentou que a passagem se poderia ler na Monarquia Lusitana (3ª parte) de António Brandão. Transcrevemos por isso o trecho relevante:
(...) E que neste passo afirmam alguns autores modernos que El Rey de Portugal prometeu de ir às Cortes de Leão, tanto que se pudesse pôr a cavalo e melhorasse da perna quebrada. E que depois, estando já são, usara sempre o coche, por não estar obrigado a cumprir a promessa. É mera fábula contra o que deixaram escrito os autores antigos. O Arcebispo D. Rodrigo não afirma tal coisa, antes dá por razão de El Rey D. Afonso Henriques andar de coche, não poder subir a cavalo, pelo mau tratamento da perna. O mesmo diz com expressas palavras D. Lucas, Bispo de Tuy, autor também antigo e grave, e se afirma na Crónica geral d'el Rey Dom Afonso.(...)
Aqui o cronista António Brandão está claramente mais interessado em mostrar a autoridade moral de D. Afonso Henriques, que não ia disfarçar estar coxo para não cumprir uma promessa. Convém relembrar que, por esta altura, cortar cabeças a mouros não representava qualquer mácula na moral cristã.

Ora, como na Idade Média o uso de coches era coisa rara (... seria só justificável por o rei estar coxo!) esta citação também significa que haveria um coche de D. Afonso Henriques.
Poderia ser um coche insignificante, depois abandonado ou perdido... mas não é o caso.
Além disso, o uso de coches pela realeza só voltou a estar na moda a partir do Séc. XVI, e é a partir daí que começa a grande colecção existente no Museu dos Coches. 
Mas poderia começar bem antes...

Tendo consultado a tradução da obra do príncipe polaco Felix Lichnowsky, Portugal: Recordações do anno de 1842 (pág. 84) fiquei pois bastante surpreendido com esta leitura:
(...) No Calvario a pouca distancia do palacio real de Belem, em um edificio construido de proposito por D. João V, acha-se uma collecção de coches antigos, talvez a mais admiravel que existe no mundo. É muito notavel o coche de galla do rei D. Afonso Henriques, (governou de 1128 até 1185), que tem sete bellos vidros Venezianos, cada um de oito a nove palmos em quadrado, assentos de estofo tecido com fio de ouro, pinturas, dourados, e ornatos de bronze dourado; particularmente os objectos de bronze dourado igualam os mais bellos trabalhos de or-moulu dos Francezes, ou talvez os excedem. Junto acha-se um desengraçado coche feito no Brazil, e coberto de ouro por toda a parte. Outro coche igualmente rico do grande rei D. Manoel, é todavia coberto de aprimorados relevos. Encontra-se tambem alli o coche de galla do rei D. Diniz, (que reinou de 1279 até 1325); a caixa tem flores e escudos de armas, pintados com a maior perfeição sobre um fundo de ouro; interiormente é forrada com brocado de ouro. (...)
Portanto em 1842 o príncipe Lichnowsky teve o privilégio de visitar o (antigo) edifício do Museu dos Coches, mas ao contrário de todos os visitantes populares, ele teve a oportunidade de ver:
  • o Coche de Gala do rei D. Afonso Henriques, 
  • o Coche de Gala do rei D. Dinis, 
  • um Coche todo coberto de ouro (provavelmente de D. João V), 
  • um Coche igualmente rico do rei D. Manuel. 
Como o príncipe polaco dizia, era talvez "a mais admirável colecção de coches existente no mundo", e continua a ser, mesmo estando noutro espaço e tendo sido rapinados 4 coches de valor incalculável (repare-se que ele nem sequer menciona os restantes... que serão aqueles a que temos acesso hoje).

O coche "todo coberto de ouro" não será o Coche dos Oceanos, de D. João V, até porque este não é nada "desengraçado":


Se compararmos fotos antigas e mais recentes do museu, não notamos grande diferença, excepto talvez na disposição das peças:


... pelo que a subtracção (da vista pública) terá ocorrido entre 1842 e 1905 (altura da abertura do museu ao público).

Ora, entre 1842 e 1905, não consta ter havido nenhuma Invasão Francesa, nenhum Terramoto, nenhum Tsunami, nenhum Incêndio, ou mesmo nenhum Roubo que tivesse retirado aquelas peças da família real. 
Bom, eram peças da família real, e esta é uma hipótese, de fraco entendimento, que pode ter tido a família real, em ter ocultado as peças preciosas do património português, entendendo-as como propriedade privada. Fraco entendimento, porque mesmo que quisessem ter os coches para passear na quinta de Vila Viçosa, nada impedia que permitissem que fosse sabido do seu paradeiro. Caso tenham ficado com os exemplares, confundiram realeza com o Estado, mesmo quando o Estado passou a ser republicano. E essa confusão seria tanto mais lamentável, porque a principal função real era ser o factor de união, de identificação, e não um mero agente privado que se aproveitaria da nação, para consumo e exploração própria. Outro entendimento, ainda poderia ser moda no Séc. XIX, mas seria profundamente provinciano mantê-lo no Séc. XX. No entanto, não estranharíamos.

Estejam os coches num subterrâneo de Vila Viçosa, guardados em cascos de carvalho numa cave do Porto, ou vendidos a uma colecção privada, revelar o paradeiro seria honrar a participação real na memória antepassada... Caso contrário será dissociar a identificação da família real à história de Portugal, ou seja, será ver os calhambeques como propriedade de um qualquer conde, barão, ou sapateiro, e aí os bens não têm mesmo nenhum valor significativo. Ou seja, enquanto herança da família do Barbadão podem guardá-los à vontade, porque nesse caso também pouco valem. Pouco valem os coches roubados, e muito menos vale quem os roubou à memória do Estado.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Choro 2018 sucede a Rio 2016


Museu Nacional, Rio de Janeiro, quando o visitei.
Incêndio de 2 de Setembro de 2018 - Museu Nacional, Rio de Janeiro

Fui várias vezes ao Rio de Janeiro, e tive ocasião de visitar o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista. As imagens registadas ontem, de uma beleza dantesca, deixam a sensação de que podemos sempre esperar pela repetição dos erros do passado. Ficamos com aquela sensação de déjà vu, e se os responsáveis brasileiros tentarem garantir de que "não poderá voltar acontecer", faz-nos lembrar as promessas após 17 de Junho de 2017, aquando do incêndio de Pedrógão Grande, e depois assistir a um desfecho similar passados poucos meses, em 15 de Outubro .

Nem é preciso ir muito longe nesse passado. Este ano comemoraram-se 40 anos do grande incêndio que destruiu a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde se perdeu grande parte do espólio científico existente dos séculos anteriores.
Até do ponto de vista português, este incêndio do Rio de Janeiro, associado já à destruição de 20 milhões de itens, será mais lesivo documentalmente para a nossa história comum.

18 de Março de 1978 - Incêndio da Faculdade de Ciências - Rua da Escola Politécnica, Lisboa.

Nem interessa muito se os documentos eram ou não exemplares únicos, o que passa acontecer, tal como aconteceu após a destruição do Neues Museum de Berlim, na 2ª Guerra Mundial, ou ainda antes, no Terramoto de 1755, é que passa a haver uma desculpa para que a história seja engolida numa golfada de fogo. Ou seja, passa a ser voz corrente que a documentação X foi consumida no incêndio Y, e isso faz com que se deixe de procurar e apareça um conveniente beco sem saída.

No caso do incêndio da Faculdade de Ciências, a introdução de construções provisórias de madeira no pátio central foi um rastilho à espera da chama, e nem mesmo a pronta acção do presidente Ramalho Eanes, que terá assumido a direcção in loco de combate ao incêndio, valeu de muito.
Também não valeu de nada ao Comandante Zebra, líder do CODECO (Comandos Operacionais de Defesa da Civilização Ocidental), um pretenso grupo bombista de extrema-direita, ter reivindicado a autoria do incêndio - as causas continuam, e continuarão "por apurar" - no sentido de apurar o gosto. 
Nesse aspecto, também Farinha Simões andou a tentar reclamar a autoria do atendado de Camarate, que vitimou Sá Carneiro, mas sem qualquer sucesso.

Há mistérios que, mesmo não sendo, interessa que sejam.

Ora, para o visitante do Museu Nacional do Rio de Janeiro, não se viam propriamente nenhumas condições periclitantes que antevissem que um incêndio parcial tivesse grande possibilidade de se transformar num incêndio global, capaz de destruir praticamente todo o museu em poucas horas.
A construção era sólida, não era de madeira, os espaços eram largos e folgados, e não havia propriamente ali nenhum rastilho visível. Aliás, podemos ver, na imagem seguinte, que os tectos estavam cuidados, e exibiam os vestígios da coroa portuguesa de D. João VI.

Tal como aconteceu nos zoos, em muitos museus nacionais passaram a ver-se exemplares com proveniência diversa, do mundo inteiro, reflectindo um património comum. Ou seja, neste museu do Rio de Janeiro encontrávamos vasos gregos, romanos, ou painéis com hieróglifos egípcios.


Muito louvável do ponto de vista educativo, mas também oficialmente muito conveniente.
Tal como encontrámos uma coluna romana na cidade brasileira de Natal, que não foi mais que um presente de Mussolini, também as ânforas descobertas na Baía de Guanabara poderiam ter ido parar ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, oferecidas por um qualquer país mediterrânico.
Ter-se-iam perdido no incêndio, pois... mas também se perderam, muito antes disso!

Já mais difícil de contextualizar parecem-me ser diversos vestígios da zona amazónica, de Santarém e Marajó, como por exemplo esta "urna funerária" da ilha de Marajó (antes chamada "grande ilha de Joannes"):
Escapam-me aqui os detalhes sobre a sofisticação das civilizações pré-columbianas brasileiras, nomeadamente da Cultura Marajoara, interessa que estes terão sido alguns dos exemplares únicos que podem ser dados como destruídos pelo incêndio. 
É claro que seria demasiado "trote" se dessem também como desaparecido o Meteorito do Bendegó, meteoritos que sobrevivem a temperaturas escaldantes na entrada na atmosfera. Vejamos se irão também dar como consumida pelo incêndio uma das ânforas de bronze (dita de Pompéia), que a imperatriz Teresa Cristina levou de Itália, como prenda de enxoval.
Ânfora de bronze, que resistirá a um 
incêndio, mas não a distracções...

Tendo falado há umas semanas no Manuscrito do Rio de Janeiro, a propósito dos Painéis de S. Vicente, é claro que o substancialmente perdido será toda a documentação "guardada" na biblioteca, e que deveria conter exemplares e manuscritos únicos. Espera-se, é claro, que o espólio tenha sido pelo menos devidamente filmado e fotografado, e (surpresa...) que essas gravações não se tenham também perdido no incêndio (... é típico que quando as coisas são tão secretas, mas tão secretas, então nem saem do sítio onde estão).

Ficam-me umas dezenas de fotografias que tirei, do exposto ao público, e das quais aqui apenas tinha usado uma foto, de uma suposta cabeça reduzida, também chamada tsantsa. Não é que não houvesse mais a ser dito, mas aquilo que escrevi agora, e que poderia ter sido escrito há vários anos, não considerei que fosse mais significativo do que especulativo.

Resta dizer que me lembro do enquadramento quando fiz essa visita ao museu. Portugal estava mergulhado na "crise socrática", estando em acção a Troika. Pelo lado do Brasil, antevia-se a realização do Mundial 2014, e os Jogos Olímpicos, Rio 2016. Dois eventos de projecção mundial que mostravam o Brasil como um dos promissores BRIC, em grande crescimento económico, para além do sucesso nas políticas sociais. Com a especulação imobiliária a crescer de forma assustadora, lembro-me de lhes ter dado como sugestão de leitura "A Century of War", de W. Engdahl, que basicamente explica uma das "receitas de sucesso" dos "mercados financeiros".
Como habitual, quase todos anteviam a crise que iria suceder no Brasil, mas também eram impotentes para o poder parar... e creio que isso incluía os políticos do Planalto, em Brasília.
Fosse como fosse, todos fizeram o que era previsto que fizessem, e a menos de detalhes, correu em conformidade, ou seja, um choro depois do sorriso inicial.
A destruição do Museu Nacional é apenas mais uma lágrima no drama de insegurança que afecta a sociedade brasileira, em particular, a carioca, vitimando milhares de pessoas, e sem solução à vista.

04.09.2018

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Fons Vitae

A Sé Catedral do Porto tinha uma interessante pintura que está agora exposta no Museu da Misericórdia, no Porto, onde se poderiam ver retratados D. Manuel e os seus filhos. 

O blog "do Porto e não só" apresentou um informativo texto acerca de antigas controvérsias e teses acerca desta pintura, começadas no Séc. XIX. 
Ainda que seja curioso ver ali descrita uma bizarra tese (de J. Moreira Freire, em 1896) que apontava a autoria para um Van Eyck, querendo ou crendo estar ali representada a prole de D. João I (inclusive os bastardos Afonso e Beatriz); essa tese foi rapidamente rebatida (por Duarte Leite), em resposta ao jornal, no dia seguinte, em termos mais ou menos devastadores.

O quadro não aparenta trazer nada de invulgar.
Apresenta em cima, Jesus Cristo na cruz, tendo ao lado a mãe, Santa Maria, e S. João Evangelista. 
O sangue de Jesus cai para uma larga taça como fonte, descrita como 
"fonte de misericórdia, fonte de vida e  fonte de piedade".
Em baixo, tomando lugar de destaque (secundário), ao centro estão o rei e a rainha, D. Manuel e D. Maria de Aragão, e ao lado os seus 8 filhos (seis rapazes, quase cópias do pai e a seu lado, e duas raparigas, quase cópias uma da outra, ao lado da mãe) - ou seja:
  • pelo lado dos rapazes, o futuro D. João III, o infante D. Luiz, o infante D. Fernando, o futuro cardeal D. Afonso, o futuro cardeal e rei D. Henrique, e o infante D. Duarte, Duque de Guimarães;
  • pelo lado das raparigas, a futura imperatriz D. Isabel, e a infante D. Beatriz, depois Duquesa de Sabóia.
Todos eles são nascidos entre 1502 e 1515, o que torna a datação de 1518-19 como provável.
Como aspecto ainda secundário, são identificados o cardeal como sendo Martinho da Costa, e no lado oposto, em trajo monástico, a rainha velha, Dona Leonor.

Tudo isto, para além de provável, está documentado em registo de 1845, aquando de um restauro, confirmando/sugerindo os personagens mencionados acima. Além disso alega que o quadro teria sido oferta de D. Manuel à Confraria da Misericórdia na cidade do Porto.

Por esta altura, e segundo o blog "do Porto e não só", havia uma convicção generalizada de que o quadro seria da autoria de Grão Vasco, conforme era também dito por Atanazy Raczynski,

No entanto, mais recentemente, ficou opinião comum que a obra deverá ser da escola flamenga, e mais concretamente do círculo de Barent Van Orley.  Isso parece bastante provável, atendendo a outros quadros (posteriores) atribuídos a Orley ou à sua escola. Nomeadamente, o tema da cruz com Stª. Maria e S. João Evangelista está presente de forma muito semelhante numa obra sua:
Cristo na Cruz com Maria e João Evangelista, (Barent van Orley, c. 1525)
(que diz - distribuirei este precioso sangue aos necessitados), e de Isabel de Áustria (à direita)

Ou ainda neste tríptico atribuído a um aluno seu, Pieter Van Aelst

  
Triptico da Crucifixão (Pieter Van Aelst, 1525-30)
(com representação dos doadores, talvez Margarida de Áustria e o pai)

Assim parece razoável que o Fons Vitae seja enquadrado na linha destas pinturas, e assim remetido à escola de Barent van Orley, ou provavelmente ao próprio. Quanto à figuração do Sangue Sagrado, foi associado também à influência flamenga, pela cidade de Bruges. Há aí uma relíquia, supostamente com o sangue de Cristo, retirada por José de Arimateia, e depois trazida por cruzados no Séc. XII para a cidade de Bruges.

Relativamente a uma evocação semelhante, com fonte no sangue de Cristo, está num tríptico flamengo de Jean Bellegambe, algo surreal, invocando um banho místico, o que pode ser relacionado com a alegoria cristã entre o sangue e o vinho, neste caso para purificação das almas.

Jean Bellegambe: Tríptico do banho místico

Como a Flandres era parte do grande ducado de Borgonha que, com o casamento do imperador Maximiliano, passou a estar nos domínios Habsburgo, a próxima relação de D. Manuel e D. Leonor com o primo imperador, tornam ainda mais natural que a obra pudesse ter sido aí encomendada.
De facto, os problemas dos Habsburgos com os Países Baixos vão acentuar-se depois, especialmente no reinado de Filipe II de Espanha.

Qual a fonte de vida representada?
Há um primeiro detalhe que convém aqui sublinhar.
Como é natural, nos quadros com a crucifixão não se representa São José ao lado Stª Maria, porque o pai formal de Cristo já era falecido. Mesmo invocando figuras falecidas, não conheço representações que forcem presenças erradas na contemporaneadade. No momento da Cruz, a aparecer S. João, não seria nunca S. João Baptista. Esse santo é apenas representado aquando do Baptismo.

Como figura masculina não é invulgar ver junto à cruz S. João Evangelista, mas não com um destaque tão grande, como vemos no "Fons Vitae", sendo mais natural estar num plano inferior, junto ao solo, como nos outros dois quadros que apresentamos.

Podendo ter sido ou não D. Manuel o dono da obra, ao ter como destino a Confraria da Misericórdia, será de considerar que a rainha viúva, D. Leonor, estivesse envolvida no tema.

Ora, o ponto que aqui quero destacar é que o quadro ganha um significado mais amplo, considerando que a representação principal poderá ser de D. Leonor com D. João II, vendo o filho, o príncipe D. Afonso sacrificado, na figura de Cristo.
Poderia ser entendido como um sacrifício do filho a bem da vida do reino... e neste caso, o seu sangue, a fonte de vida dinástica, seria representada pelos 8 filhos de D. Manuel.

É claro que isto trata apenas de uma questão de interpretação, e não havendo quaisquer fontes documentais nesse sentido, não passará de uma mera hipótese. 
No entanto, essa hipótese deve ser considerada, porque a perda de um filho ganha um carácter mais dramático no caso de D. Leonor, por se tratar de filho único. Parece pois natural que D. Leonor fosse particularmente tocada pelas invocações ao sacrifício de um filho, em analogia com a Madre de Deus.
Neste quadro, as figuras de Stª Maria e S. João Evangelista têm eventuais semelhanças com outras representações de D. Leonor, ou mesmo de D. João II. 
Nada disso constitui um indício, o maior indício é que a composição ganha um sentido acrescido se for interpretada desta maneira, e é apenas isso que interessa referir. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O Auto e a Auta

O "Grande Diccionario Portuguez" de Domingos Vieira, começa com uma introdução (com mais de 200 páginas) de Adolfo Coelho, "sobre a língua portugueza", começando com uma certa grosseria de poleiro contra as opiniões do Cardeal Saraiva (ditas célticas), ou mesmo Alexandre Herculano (do romano vulgar), sobre a origem da língua nacional, já que estes não seguiam os cânones duma pseudo-ciência glótica alemã, em ascensão. Estamos no período em que a mediocridade nacional mais se manifestava por um parolismo deslumbrado, em vista de uma mão cheia de algo (ciências materiais), e uma mão cheia de nada (pseudo-ciências humanas), que aliás deu origem mais tarde a um problema mundial, por outro Adolfo, via interpretações fantasiosas da ligação germânica ao sânscrito.

Interessa-me aqui um minúsculo trecho (pág. xxxi):

  • Por exemplo na edade media dizia-se trauto, auto; no seculo XVI reforma-se essa pronuncia sobre o typo latino e começa-se a escrever tracto, acto, e a pronunciar trato, ato, em que o c latino não se acha representado, ao contrario do que se dá nas fórmas trauto, auto, em que o u o substitue. O numero de factos d'esta natureza é consideravel e constitue uma das ditferenças mais importantes entre o portuguez medieval e o portuguez classico (o portuguez a partir dos grammaticos Gil Vicente, Fernão d'Oliveira, Barros, isto é, do primeiro quartel do seculo XVI).

Isto para enfatizar que a palavra "auto" era sinónimo de "acto".
Se o dissesse sem citar outra fonte, seria ligeiro, deixo assim uma "douta" ou "docta" opinião.

Quando lemos "Autos" de Gil Vicente é por anacronismo. Não sendo ignorância, não faço ideia da razão pela qual não se passou a escrever "Actos", ou agora na novilíngua, "Atos"; ou seja os alunos deveriam estudar o "Ato da Barca do Inferno". 
Uma alternativa interessante para uma "Acta" seria escrever-se "Auta".
Assim, quando a polícia "autua", usa português arcaico para dizer que "actua". 

Surge isto a propósito do Retábulo de Santa Auta, cujo actor, aliás autor, é desconhecido!
Mas tem-se sugerido que o pintor seja Cristóvão de Figueiredo.

A obra foi encomendada pela Rainha Dona Leonor, que teria uma grande devoção por Santa Úrsula, e pediu algumas relíquias ao primo, o Sacro-Imperador Maximiliano I, filho da imperatriz Leonor de Portugal, sua tia (irmã do rei D. Afonso V e do infante D. Fernando, seu pai).

Quando falamos no domínio dos Habsburgo nas dinastias europeias, será designação pelo lado masculino. 
Pelo lado feminino, convém não esquecer o papel fulcral que tiveram as meninas de Avis, começando pela infanta D. Isabel, duquesa de Borgonha, que orquestrou este casamento da sobrinha Leonor com o imperador Frederico III. O filho, o imperador Maximiliano iria casar-se com a neta da duquesa, e herdar o ducado da Borgonha. O neto de Maximiliano, o imperador Carlos V herdaria o maior império até então e casaria com D. Isabel, filha de D. Manuel. 
Acerca da influência que a imperatriz Leonor de Portugal teve nos Habsburgos pode ler-se na Wikipedia: "As Frederick was rather distant to his family, Eleanor had a great influence on the raising and education of Frederick's children, and she therefore played an important role in the House of Habsburg's rise to prominence."

Bom, mas o assunto aqui é Leonor, sobrinha de Leonor, rainha viúva quando as relíquias enviadas pelo primo chegam a Portugal, em 1517. Seriam relíquias (ossos) de Santa Auta, uma das ("11 mil") virgens, companheira de Santa Úrsula, e que seriam colocadas no Convento da Madre de Deus, ilustradas por um retábulo com cinco painéis, de 1522.

Ao contrário de Santa Úrsula, o nome de Santa Auta (Aukta em alemão) só parece tornar-se conhecido por esta transladação, e que eu saiba não voltará a ter outra alusão significativa.

Qual a razão da tamanha importância que lhe deu Dona Leonor?
- Digamos de outra forma, interessaria a Dona Leonor, focar-se numa companheira quase desconhecida de Santa Úrsula?

O padrão deste vestido, típico da realeza da época, concord
com o da dalmática do santo, ou da veste do rei, nos Painéis de S. Vicente.
Como detalhe, confronte-se o cordão simples de pendente de 5 pérolas aqui usado, 
com o cordão simples de pendente de 5 pérolas usado pela rainha nos Painéis.

A lenda conta o seguinte: Santa Úrsula iria casar-se com Conan da Bretanha, mas o casamento nunca se realizou porque Úrsula ao ter sobrevivido a uma tempestade, decidiu fazer uma peregrinação europeia, dirigindo-se a Roma, ao Papa Círiaco (talvez Siricius). A peregrinação teria terminado num massacre às mãos dos Hunos em Colónia, em 383 d.C. O número usado "onze mil virgens", foi sempre considerado um exagero, por erro de transcrição ou interpretação. 

Parece um assunto distante, mas há alguns detalhes. 
O imperador Maximiliano casou-se 2ª vez, com a duquesa Ana da Bretanha, que clamava descender de Conan. A Bretanha era então independente. Porém, o rei francês Charles VIII, com medo de ver a Bretanha perdida para os Habsburgos, e depois de já ter a Borgonha anexada pela sua política casamenteira, decidiu raptar/forçar Ana a firmar a união da Bretanha à França, o que acabou por acontecer com benção papal. 
Se o filho (e o irmão) de D. Leonor casaram com a princesa Isabel de Castela, sem descendência viva, seria o filho de Maximiliano a casar-se com a irmã, Joana de Castela, e a assegurar que o neto, Carlos V, fosse o herdeiro espanhol. 
Outro detalhe é que Colombo nomeou as ilhas Virgens das Antilhas, por terem sido avistadas no dia de Santa Úrsula. Curiosamente, também João Fagundes terá nomeado como "onze mil virgens" as ilhas St. Pierre et Miquelon, em 1520 (estas ilhas mantêm hoje no brasão o típico arminho bretão).

Mas a questão é:
- Interessaria a Dona Leonor, no final da sua vida, ver isto representado?
- Não seria mais relevante ver aí representados momentos marcantes da sua vida? 

Como a história de Santa Úrsula é aqui razoavelmente deturpada na sua encomenda, colocando-a sempre com Conan, e até com imagem de um casamento - que segundo a lenda nunca teria acontecido - será de questionar que a representação daqueles 5 painéis corresponda efectivamente a Santa Úrsula e Santa Auta, pois até os navios representados exibem o pavilhão português.

Vejamos um dos painéis laterais, denominado:
"Casamento de Santa Úrsula com o Príncipe Conan"

A questão que surge, pelo menos a mim, é se este casamento não invocaria o casamento da própria Dona Leonor com o "Príncipe Perfeito", ou seja, com o então futuro D. João II. 
A imagem que apresentámos em cima, da Rainha D. Leonor, no livro de horas (ou "livro de oras", enquanto orações), parece ajustar-se bem a esta figuração de Santa Úrsula.

No outro painel lateral:
"O Papa Círíaco abençoa Santa Úrsula e as suas companheiras"

... será de colocar a hipótese de estar aqui invocado outro momento marcante da sua vida - as exéquias pelo falecimento do seu único filho, o príncipe D. Afonso. 
Como já referimos, na lenda nunca o príncipe Conan acompanha Santa Úrsula na sua viagem, e portanto não está presente na visita ao Papa.
Assim, estas imagens devem levantar no mínimo essas interrogações.

A necessidade de representar isto figurativamente, e não explicitamente, prende-se com toda a complexidade de intrigas e maldicência cortesã, que Leonor assim evitaria.

O que pode ser visto como manifestações de êxtase das devotas pela benção papal, pode também ser visto como êxtase fúnebre pela perda do filho (a jovem ao lado do rei, pode representar a princesa castelhana).

Quanto ao painel central:
"Martírio de Santa Úrsula e das Onze Mil Virgens"

está encabeçado pela provável representação, ou confrontação, entre o rei e a rainha (cabeças em relevo). Aqui o rei está virado a Oriente, e a rainha aparece virada a Ocidente. 
A escolha de D. João II, no Tratado de Tordesilhas, foi o hemisfério oriental. 
Seria ainda essa a escolha mais sangrenta, vitimando milhares de jovens, de "virgens", enviados para uma confrontação de proporções gigantescas, quando as esquadras portuguesas no Índico defrontavam exércitos "pagãos" de dimensões muito superiores. Em 1517 a Espanha ainda não tinha iniciado a conquista de aztecas e incas, um genocídio para os índigenas, mas muito menos letal para os invasores.
A aventura da peregrinação de Santa Úrsula e virgens poderia antever a missão de uma casta fé missionária que iria ser iniciada nas décadas seguintes, nomeadamente por S. Francisco Xavier.

O que vemos nesta cena a dois tempos não são as águas do Reno em Colónia. São as naus lusitanas ao fundo, espelhando um domínio marítimo. Mas esse domínio marítimo não impedia que fossem dizimadas virgens pela costa. Mais, as mortes entravam mesmo no batel real, que ali inclui papa, bispo, Conan e Úrsula (mais uma vez sem correspondente na lenda).
Conforme Dona Leonor tinha testemunhado, as decisões sobre as navegações iriam também trazer combates políticos letais no interior das famílias.

É claro que esta suposição interpretativa é meramente especulativa, e nem me interessa que seja mais que isso. Simplesmente dá ao observador a possibilidade de ver as coisas de uma forma diferente.
Certamente que haverá outras interpretações, pois quando as obras se abrem aos olhos do observador, cada qual poderá ver o que bem entender, nomeadamente não ver mais que a versão oficial.

O que será mais estranho em Portugal, é que estas tentativas de interpretação variada, ou simplesmente não existem (tudo é interpretado literalmente), ou no único caso mais conhecido de "obra misteriosa", os Painéis de S. Vicente, aí as opiniões acumulam-se.

Aliás é simples.
Chamado a decidir entre duas opiniões muito pensadas e discordantes, o que faz um português? 
- Produz imediatamente uma terceira opinião!
E eu, que padeço desse mal, sei bem que o individualismo é uma das características mais notáveis e mais desgraçadas da comunidade nacional.

Auta, a santa desconhecida, representaria pouco mais do que uma personagem que servia uma auto-visão, ou ainda servia a acta dos acontecimentos pelo lado de Dona Leonor, uma santa acta.
Seria um apêndice visual aos autos, ou actos, que o seu ourives, Gil Vicente, escreveu de forma teatral, e que bem reflectiam a sociedade da época.