sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A imperfeição no talento de fazer bem

Em Fevereiro de 1874, no número 2 das "Noites de Insomnia", Camilo Castelo Branco aborda o tema do Príncipe Perfeito, comentando uma observação que Pinheiro Chagas coloca no tomo III da História de Portugal, a propósito da sua opinião sobre D. João II.

Camilo Castelo Branco, tal como tem um ódio de estimação no Marquês de Pombal, é igualmente ácido para a figura de D. João II, apelidando-o de "real carrasco", na contabilidade de 80 mortes, a que acrescenta aqui uma acusação de cobardia na sua execução.
Não colocando em causa os factos enunciados, darei conta da minha opinião.

___________________________________________________
O Príncipe Perfeito

O sr. Pinheiro Chagas, na sua estimadíssima Historia de Portugal, tomo III, pag. 155, relatando vigorosamente a ferocidade de D. João II, escreve:
«Estamos bem longe de aplaudir, com Ruy de Pina e Garcia de Rezende, estas ferocíssimas repressões, mas tambem não podemos concordar com o sr. Camillo Castello Branco, que escreve o seguinte a respeito d'el-rei D. João II:
  • «O real carrasco, a quem infamíssimos aduladores da coroa chamaram príncipe perfeito, surge hediondo diante da posteridade, alçando-se por sobre a nuvem dos incensos, com que turibulários abjectos cuidavam escondê-lo à execração dos vindouros. Raro há quem se canse em esgaravatar razões de Estado, que contrapesem a ferocidade do filho de Afonso V. A história, à volta dele, o que encontra é cadáveres, oitenta cadáveres de homens ilustres, uns estrangulados, outros decapitados, estes mortos a punhal, aqueles a peçonha. Oitenta, confessou ele o número, quando a morte lhe acenava de perto, e se lhe desabafava a consciência, suplicando ao papa contritamente o perdão dos seus peccados.
    «Os lances capitais de tão má alma contou-os a história à tragédia. O teatro português já se enlutou com os quadros de canibalismo, trazidos à rampa e ao grande brilho dos lustres, para que o povo visse justificada a razão que teve a vilanagem dos cronistas de ligarem ao assassino do duque de Viseu o antonomástico epíteto de príncipe perfeito
«O ilustre escritor é demasiadamente severo com o grande rei a quem Portugal deve tanto. Que a energia de D. João II degenerava em ferocidade, é incontestável, e não pretendemos absolvê-lo dos crimes que pesam sobre a sua memória. Mas qual dos grandes homens, que figuram na história, se apresenta imaculado no tribunal da posteridade? No assassínio do duque de Viseu achamos, devemos confessá-lo, em atenção aos costumes da época, D. João II, menos hediondo do que no caso do duque de Bragança. É uma luta a todo a transe entre D. João II e a nobreza, e el-rei, que teve por tantas vezes a morte diante dos olhos e que sempre a afrontou sem empallidecer, pôde, quando se lhe ofereceu ensejo, antecipar-se aos seus adversários, e voltar contra eles o punhal com que o ameaçavam. O duque de Viseu foi ferido pela catástrofe que trazia pendente sobre a cabeça do seu adversário; foi vencido na batalha. Se D. João II abusou da vitória, e não soube, como nunca soubera, perdoar, culpemos disso a imperfeição humana. Perdoar! Parece que no mundo só Cristo soube cumprir essa máxima sublime, que debalde prégou na sua santa doutrina. A civilização, abrandando os costumes e modificando as paixões, tem introduzido felizmente, no espirito do homem, o horror do sangue derramado, mas, nos fins do século XV, ainda a vida das criaturas da nossa espécie estava longe de ter o carácter inviolável que hoje possui. Por tanto D. João II, aceitando de rosto descoberto a batalha, e vibrando o punhal como vibraria a espada, tem uma certa grandeza selvagem, que não desculpa mas atenua o crime

Até aqui o destro escritor. Agora, a história que os reis e as camarilhas não deixavam estampar.
O punhal que D. João II vibrou ao peito do duque de Vizeu foi acto cobarde que não pode ser atenuado por grandeza selvagem. O rei apunhalava o adversário enquanto os braços possantes de um valente alcaide prendiam pelas costas a vítima desarmada.
Nas Memórias inéditas de Diogo de Paiva e Andrade, autor do Casamento perfeito, faz-se menção do conflito, e encarece-se a bravura do coadjuctor de D. João II com uma anedota bastante significativa da coragem do fidalgo e da cobardia do rei.

Diz assim:
«D. Pedro de Eça, alcaide-mór de Moura, foi um fidalgo a quem a natureza dotou de muito ânimo e grandes forças, e por isto el-rei D. João II o escolheu, quando quis matar a D. Diogo, duque de Viseu, a quem abraçou por detrás. Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus, foram-se dois irmãos do morto queixarem a el-rei e disseram-lhe que D. Pedro lho mandara; pelo que o mandou vir à côrte, e esteve nela mais de dous anos, posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro disse a el-rei que, pois sua alteza não queria crer que ele não tinha culpa na morte do homem, e os que o acusavam eram dois, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos para assim se purificar; do que, agastando-se el-rei, lhe disse que tomara ele ser um dos dois. E D. Pedro lhe respondeu: «não fôra vossa alteza meu rei, e fosse com eles o terceiro.»

Não temos o desvanecimento de sobre-excitar contra D. João II o ânimo do nosso talentoso amigo; todavia, insinuamos-lhe a suspeita de que o homem não era capaz de matar outro sem lho agarrarem pelas costas, tendo ainda por cautela mais dois bravos que se chamavam Diogo de Azambuja e Lopo Mendes do Rio.


___________________________________________________

D. João II com a Rainha D. Leonor, e com o filho D. Jorge, nos Painéis de S. Vicente.

Qual é o contexto histórico de D. João II?
É talvez demasiado complicado para explicar em poucas linhas, mas arriscamos pelo que sabemos, ou julgamos saber.

Antes disso, dizemos que a pequena defesa de D. João II se faz facilmente, sem precisar de outros contextos justificativos. Não estamos no final do Séc. XIX, para medir coragem/estupidez em duelos, e o rei não parece ter pretendido dar mostras de qualquer coragem especial, simplesmente parece ter pretendido dar mostras que o seu poder era aplicável por si mesmo, sem precisar de tribunais fantoches, para executar friamente quem conspirava contra si, no caso o seu primo, e irmão da sua mulher. Camilo ao citar o exemplo de D. Pedro de Eça, não mostra que o rei executou nele qualquer ira, pelo contrário, terá aceitado a afrontosa resposta do fidalgo.

Agora, o contexto... um contexto que Camilo conheceria parcialmente bem, e por isso espanta um pouco a apreciação ligeira. 
D. João II nasce em 1455, pouco anos depois do seu pai, D. Afonso V, ter morto o seu avô, o Infante D. Pedro, na Batalha de Alfarrobeira, 1448. Crescendo numa corte dilacerada por essa batalha, onde os Duques de Bragança e de Viseu exerciam um poder crescente, o jovem princípe foi praticamente criado pela sua tia e pela sua irmã, a princesa Santa Joana, já que a sua mãe morreu no ano em que nasceu. A hostilidade contra o avô, passou para a mãe, com tentativas de anulação do casamento, mas D. Isabel de Coimbra conseguiu manter a influência sobre D. Afonso V, recuperando a memória do pai, Infante D. Pedro, conseguindo que o marido transladasse o corpo para o Mosteiro da Batalha. 
A mesma hostilidade da nobreza passaria a si, com medo de um ajuste de contas, que viria de facto a fazer. Entre os cadáveres dos "80 ilustres", conforme descritos por Camilo, encontravam-se principalmente aqueles que tentaram anular o seu poder desde o início, com múltiplas manhas e traições, nomeadamente os Bragança, mais confortáveis com o poder castelhano de uma sua descendente - Isabel, a Católica, do que com o poder de D. João II.

Ao cognome "príncipe perfeito" foi junto o de D. Leonor, como "princesa perfeitíssima", e a imperfeição no cognome do rei é aperfeiçoada na excelência do cognome da rainha. A sua regência, de 1481 a 1525, correspondem a 44 anos onde Portugal não teve rival à altura. Foi ela que determinou a sucessão do marido pelo seu irmão mais novo, D. Manuel, com a mesma temperança que aceitou o assassinato do seu irmão mais velho, D. Diogo. Por isso, a "rainha velha" exerceu uma influência na corte que, em certos casos, terá suplantado a do rei, seu irmão, e terá estado à altura do rei, seu marido. O seu drama pessoal foi acrescido pela morte do filho, do qual não poderia excluir o marido, pelo menos na vontade de designar como seu sucessor D. Jorge. Também por essa divergência, que os separou definitivamente, nunca se livrou de uma suspeita de cumplicidade na morte de D. João II, por "peçonha"... e não foi isso que lhe retirou a superlatividade do cognome, que Camilo ali esqueceu. 

Depois, há todo o contexto dos descobrimentos, que não irei aqui detalhar, mas que suspeitamos começar com D. Fuas. Tem documentação confirmada já no tempo de D. Afonso IV, aquando da doação das Canárias ao castelhano Luís de La Cerda em 1344, pelo papa de Avinhão, Clemente VI. Sabe-se pouco das navegações seguintes, mas há fortes razões para suspeitar que mesmo no tempo de D. Fernando os portugueses viajavam já para o Brasil e para a costa africana, chegando ao Trópico de Capricórnio em 1377. 

As explorações do Infante D. Henrique e D. João II foram uma ficção na localização.
Uma armada de Garcia de Loaisa, cavaleiro de Malta, ao serviço espanhol, encontrou em 1525,  na desabitada ilha de S. Mateus (talvez a ilha de Fernando de Noronha), dois/três graus a sul do equador, inscrições "Talant de bien faire" datadas de 1438. (ver também "Mesa para Sandwich")

Mais do que qualquer outra coisa, quando D. João II declarou a passagem do Cabo da Boa Esperança, mas retardou a chegada à Índia em pelo menos uma década, deveu-se ao cuidado extremo com que foi encarada a empresa dos descobrimentos. O envio de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva por terra, permitia garantir que não estaria a ser preparada uma surpresa à chegada dos navios portugueses. 
De facto, se a viagem de Gama ocorreu como um passeio no lago (e fôra despesa inútil na opinião de Duarte Pacheco Pereira), era porque o Oceano Índico tinha já sido suficientemente explorado, para não trazer novidades incomportáveis.
D. João II tinha a perfeita noção da tarefa incomensurável que esperava os portugueses... e os empecilhos das guerrilhas internas, tratou-os com o despacho necessário de quem concentra tudo na preparação da maior empresa histórica até então pensada, e que foi realizada com relativa facilidade pelo seu sucessor, D. Manuel, em pouco mais que 25 anos. Quando D. Manuel morre, a costa africana, e toda a costa asiática até Macau tem portos portugueses. O Oceano Índico é um enorme mar português. Convida os príncipes europeus para a tarefa, que normalmente desdenharam. Consegue a atenção dos espanhóis para a parte ocidental, por via de Colombo, e separa as águas do mundo em duas partes, no Tratado das Tordesilhas. D. Manuel não faz mais que em 2 anos enviar os Corte Real para demarcar o Labrador, Cabral para demarcar o Brasil, Gama para reclamar a Índia, e com Afonso de Albuquerque consegue a conquista de Malaca, o passo final para assegurar o completo controlo do Índico até às ilhas Malucas, a fonte das especiarias. Deixa ao cargo dos espanhóis assegurar o controlo da parte restante - americana. 
E é ainda com mapas do tempo de D. João II, que Fernão de Magalhães revela saber do Estreito no sul da Patagónia.

Seria uma enorme delícia reencontrar esses mapas... mas como diria Poliziano, isso seria colocar o nosso rei num patamar único, e por isso extremamente inconveniente na História Mundial.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Mustang

Este é um daqueles postais que se resume à ilustração:


Na ilustração vemos a musa Lusitania acompanhada pelas musas da  (Fidae) e da Força (Fortitude), em cima do globo terrestre, indo à frente quatro elementos típicos dos continentes:
  • América - um chefe índio americano, em cima de um cavalo;
  • Europa - um rei europeu, em cima de um boi, digamos de um touro;
  • Ásia - um marajá indiano, em cima de um elefante (indiano);
  • África - um chefe africano, em cima de um leão.
Para quem ainda não achou nada de estranho, é perfeitamente natural ver o leão como símbolo de África, o elefante como símbolo da Índia, da Ásia, o touro como símbolo da Europa - atendendo até ao mito do rapto de Europa por Zeus, disfarçado de touro branco... mas há um pequeno problema ao considerar o cavalo como símbolo da América.

Porquê? - Porque, segundo a nossa notável estória, historieta feita História, não existiam cavalos na América até à chegada dos Europeus.

A ilustração está no livro "Historia del Reyno de Portugal", de Manuel de Faria e Sousa (1590-1649) que escreveu a maior parte da sua obra em castelhano, tal como seria natural a um catalão não optar pelo catalão, para uma maior divulgação dos seus escritos.
Para além da "Epítome de las Historias Portuguesas" que é de 1628, a primeira edição desta "História" aparece postumamente em 1677, à qual não tive acesso, mas esta figura antecede pelo menos a segunda edição de 1730, à qual tive acesso:

Esquecendo, o exagero de se colocar um rei africano em cima de um leão, ou um rei europeu em cima de um touro, ou eventualmente os freios no cavalo índio, qual seria a ideia de colocar um chefe índio associado a um cavalo, se tal não fizesse sentido? Faltavam ao desenho lamas, alpacas ou alces?

Admitindo que o desenho estava apenas nesta edição de 1730, mesmo nessa altura não é reportado o uso extensivo do cavalo por parte das tribos índias norte-americanas. Aliás, nessa altura grande parte da colonização era ainda instável e muito circunscrita aos territórios leste, junto à costa.

Aquilo que se procura difundir é que os cavalos ibéricos perdidos pelos espanhóis tinham fugido, e ficaram selvagens. Ou seja, por exemplo, os mustangs, uma das raças americanas mais famosas, teriam saído do México, e tornando-se selvagens desenvolveram características próprias. Só depois, os índios passaram a usá-los com grande agilidade... digamos, isto já na altura de 1800, que foi quando começaram a haver confrontos na expansão norte-americana
Para esse efeito, fazem-se estudos de DNA, tão "minuciosos" que praticamente concluíriam que todos os homens que tivessem um sinal na cara tinham o mesmo pai. Na prática há um estudo geral sobre as relações entre as diversas raças da cavalos, que permite ver que está mais próximo o cavalo Lusitano de um pónei do Cáspio, do que está de um Tenessee Walker.

Quem fez esta tabela escusou-se a inserir os Mustangs... ("There are several mustang registries, but overall there is just too much complexity to consider them in breed ancestry analysis.")

Parece claro que no México Azteca, ou no Perú Inca, não existiriam cavalos, ou pelo menos disso não ficou registo. No entanto, isso não significa que não existissem em abundância nas pradarias da América do Norte, ou nas pampas sul americanas. No Séc. XIX, com o estabelecimento dos grandes fazendeiros, é natural que tenham sido desenvolvidas raças particulares, com diversos cruzamentos, mas essa é uma questão completamente diferente, que não se colocava em 1677 ou 1730.

É ainda natural que os espanhóis, começando a colonização pelo México e pelo Perú, onde não havia cavalos, quando chegaram a novos territórios americanos, consideraram que os cavalos selvagens aí existentes seriam ferais - ou seja, eram selvagens resultantes de animais domesticados.

Isso poderia ser assim, mas nesse caso nunca justificaria assumir-se o cavalo sob um índio como emblema americano.
O que esta gravura mostra é que havia uma clara consciência no Séc. XVII e XVIII de que os cavalos eram de origem americana. Talvez a questão surja mesmo na direcção oposta - ao ponto de os cavalos ibéricos poderem ser descendentes dos americanos (... excluindo o garrano que aparenta ser uma raça autóctone). Para isso falta apenas considerar que muito antes de haver exportação, poderia ter havido importação...

Ficou-nos o mito de que os cavalos lusitanos tinham uma origem bizarra... eram "filhos do vento", ou seja que as éguas eram inseminadas pelo vento Zéfiro, o vento de Oeste.
Não poderia servir esta alegoria para ilustrar que foi o vento de Oeste que permitiu insuflar velas para ir à América buscar uma raça de cavalos bem diferente dos cavalos originais, com compleixão de garranos, que aparecem pintados nas pinturas rupestres?

Finalmente, um pequeno detalhe.
Qual era o deus egípcio associado ao cavalo? Se os egípcios associaram muitos dos seus deuses a animais (inclusive o escaravelho), não encontramos entre os seus deuses o cão, o galo, ou o cavalo (entre outros). As primeiras representações de cavalos dão-se aquando da invasão dos Hicsos, c. 1600 a. C., um povo de origem indo-europeia... e esses animais ausentes da mitologia egípcia acabam por estar ligados a uma herança indo-europeia, céltica. A presença dos cavalos no Egipto pode ter tido o espanto conjecturado que os cavaleiros tiveram na Grécia, sendo vistos como centauros... um misto homem-cavalo.
É razoavelmente diferente ter um exército montado em cavalos, ou ter um exército montado em burros... tornando claro que não era indiferente a raça de cavalo que tornaria os cavaleiros um factor decisivo em múltiplas batalhas da Antiguidade. Especialmente se atendermos que até 2000 a.C. pouco ou nenhum registo há do uso de cavalos... começando apenas nas estepes euroasiáticas.
Assim, na altura da Guerra de Tróia, Séc. XIII a.C., apesar da rápida difusão após o Séc. XVI a.C., o cavalo seria ainda um factor relevante no equilíbrio ou desequílibrio de um cenário de guerra. Fosse ele prenda dos visitantes, ou prenda aos visitantes, por ser criado na região. Digamos que, se Tróia venerava os cavalos, a sua apropriação pelos visitantes gregos equilibraria as coisas...
E a própria palavra equilibrio, ainda que se decomponha em "equi" (igual) e "libra" (peso), também tem o prefixo equídeo e sufixo liberal.

_________________________
Nota adicional (13.08.2018):
Encontrei agora diversos textos de Gunnar Thompson (falecido em 2017):
http://marcopoloinseattle.com/wp/articles-by-gunnar-thompson/
um dos quais com o título
que começa assim:
According to most leading scholars in history, anthropology and geography, none of the Native Tribes had horses until after Columbus. “On the contrary,” say elders of the Plains Indian Tribes, “our ancestors always had horses.”
Este texto lançara apenas a suspeita motivada especialmente pela figura encontrada. 
Gunnar Thompson adiciona muito mais elementos, mas seria bom começar por dar a palavra aos próprios índios das grandes planícies americanas... 
Também não é difícil perceber que nesta sociedade de pedestal a conta está feita, e pouco interessa o que dizem as parcelas que não se têm em conta.

Não se pense que isto é culpa dos que figuram no pedestal, isto é culpa de todos os que os colocam num pedestal, ou seja 99.99% das pessoas, simplesmente para não terem que se aborrecer com assuntos que acham que não lhe dizem respeito. 
Habituados a aceitar sem questionar, só quando questionam percebem que ficaram sozinhos.

domingo, 8 de julho de 2018

dos Comentários (38) - Amtonio ...

Segue-se uma troca de comentários via email, com David Jorge, a propósito de um mapa de 1545, atribuído ao cartógrafo português António Pereira. O mapa tem a particularidade de lhe restar apenas a parte ocidental, onde se lê "Amtonio"... do lado oriental ler-se-ia "Pereira". A parte oriental pode-se ter perdido por diversas razões, sendo a mais natural de todas ter aí desenhado uma ilha como a Austrália.

----  (extracto do email de D. Jorge em 04.07.2018) ----

Eis que da John Carter Brown Library, surge um mapa datado de 1545, que não só corrobora que Portugal tinha domínio da costa Este no continente Norte Americano, como também diferencia (e a meu entender, delimita) bem a ocupação Portuguesa, Castelhana e Francesa à data.

Link para o mapa (ainda não está na biblioteca, mas vai estar):  
https://jcb.lunaimaging.com/luna/servlet/detail/JCBMAPS~1~1~1673~102490002:Amtonio--North-and-South-America-



Do autor, António Pereira, ainda não encontrei grande informação pois ainda não tive tempo suficiente para aprofundar mais os arquivos, o próprio modo de arquivar das bibliotecas americanas dificulta as pesquisas, pois arquivam sobre o "inglesismos" ou com informação insuficiente [neste caso Amtonio (apenas o primeiro nome)] o que por vezes torna o nome quase impossivel de encontrar em cruzamento de dados de oturas bibliotecas (outro exemplo. Henricus Martellus está arquivado na Yale Library como Heinrich Hammer) mas repare que a própria biblioteca não se ocupa muito com a analise do mapa, apenas se dedica a dar relevo à expedição de Orellana colocando de parte a importãncia das várias bandeiras pela costa Americana tudo isto dificulta a pesquisa.


Neste mapa temos bandeiras das quinas, desde o Norte do Lavrador até quase à Florida, e as Francesas não descem abaixo do Rio São Lourenço (coerente com a história de Cartier).
Temos bandeiras justamente onde há registos de ocupação Portuguesa como a pedra de Dighton (coerente com as viagens dos Corte-Real e contrario ao que em mapas Castelhanos colocam as terras dos Corte-Real a Norte do Rio São Lourenço).

Como se isto não fosse por si importante, pelo facto de corroborar mapas que, erradamente, estão datados de 1590, onde estou de acordo com a sua datação para 1560 (ie. Mapa de P.Lemos e S. Lopes), este mapa também corrobora a teoria dos mapas de Dieppe terem sido copiados dos Portugueses, e neste caso eu diria mais, não foi apenas o conteúdo dos mapas que foi copiado, mas o próprio estilo de representação é igual. A diferença entre o atlas Vallard, por exemplo, é de 2 anos para este mapa no entanto parece que foi pintado ao estilo do mapa de António Pereira.


----  (extracto da resposta de 'da Maia') ----

.... é uma óptima descoberta, pois também nunca tinha visto uma demarcação tão clara das posses portuguesas na América do Norte. Normalmente ficam-se por uma ou outra bandeira na zona canadiana. Aqui claramente vai mais abaixo, deixando uma zona francesa pelo meio.

O mapa está um pouco distorcido/comprimido, mas eu diria que a bandeira mais a sul (quinas em verde) estará pela zona da Virginia/Delaware, e a norte (vermelha quinas azuis) estará pela zona de Massachussets/Maine. Infelizmente o cabo Cod não está bem identificado, e mesmo a baía Chesapeake não é clara qual seja. Também estou com dificuldade em ler as legendas, consegui perceber poucos nomes.

As outras duas bandeiras portuguesas - já na parte canadiana - Labrador, são diferentes, mas mantêm verde ou vermelho no contorno.
É bastante interessante e estranho.... 
A datação de 1545 corresponde ao tempo em que foi declarado o Japão. Apesar de não ser já o fulgor dos descobrimentos, é uma data em que os portugueses tinham ainda um controlo quase total sobre o mar (é a época do galeão Botafogo...)

Na minha opinião, o que se passava é que havia uma série de portos de contacto ao longo da costa dos Estados Unidos. Pelo tratado de Tordesilhas, deveriam ficar para Espanha, mas creio que depois da polémica no anti-meridiano - Tratado de Saragoça, os portugueses já não estavam com tanta vontade de entregar tudo aos espanhóis. Concretamente, a parte da Terra Nova (que tem bandeiras mais formais) creio que estaria nos planos ficar portuguesa.

Com a evolução das coisas, os portugueses acabaram por perder a independência, e a Rainha Isabel I só dá ordem de colonização da Virgínia em 1584, provavelmente com o acordo do Prior do Crato, para o apoio inglês. A partir dessa altura, os ingleses tomaram a parte dos Estados Unidos como sua, como "presente" português...  especialmente depois da Restauração, com o casamento de Catarina de Bragança.


A existência desse mapa seria muito interessante para a história dos EUA, caso eles tivessem mesmo vontade em mexer no assunto - coisa que por agora não têm.


----  (extracto da resposta de D. Jorge) ----


Entretanto, encontrei em Jstor.com umas páginas de um artigo escrito por Armando Cortesão em 1939 para a American Geographic Journal descrevendo exatamente a mesma dificuldade que encontrei em encontrar informação que ligasse, o nome de Antonio Pereira à cartografia:


Cortesão descarta, tal como o arquivista da John Carter Library, a importancia das bandeiras Portuguesas na costa Este americana e também se defronta com um dilema pois encontra um António Pereira, que não está ligado à cartografia, a viver em Portugal exatamente no periodo que Orellana regressa do Amazonas e é retido em Portugal pelo Rei durante 15 a 20 dias.

Esse facto, e o detalhe na toponímia do mapa coerente com o relato de Orellana, datariam o mapa em 1543 (anterior ao mapa de Cabott de 1544), no entanto Cortesão refere, (e mal, a meu entender), que atribui uma data de 1545 ao mapa pelo facto da Terra Nova estar representada como um conjunto de ilhas, faltando o relato de Alfonse transmitido por volta de 1546 a Freire. Para mim, esse pormenor do mapa, só comprova que o ele seria muito anterior, e não posterior ou próximo de 1546.

Tenho dúvidas, se o "Amtonio" não terá sido de o de Hollanda, pois a datação do mapa por Cortesão de 1545 ou anterior 1543, assim como o estilo artístico do mapa, enquadram-se na tanto na personna como no periodo em que esteve activo para a corte portuguesa. 
Outro ponto a favor desta suspeita, é que este mapa não é exatamente uma carta de pilotagem, nem o seu estado comprova utilização na navegação, encontrando-se bem conservado sem indícios de marcas de rumos com pontas de compasso ou manchas, indicando que provavelmente teve um destino mais decorativo que propriamente para uso no mar.

----

quarta-feira, 4 de julho de 2018

O "ovo cósmico" do Algarve

Talvez com algum benefício para a região turística do Algarve, o History Chanell, canal das estórias que se dedica quase em exclusivo à ficção científica OVNI, decidiu dar eco a uma interpretação fantasiosa sobre um menir que está no museu de Lagos:


Trata-se de um menir encontrado na região de Silves, com a datação de 5000 a.C., que tem uma forma arredondada (que é vista como um "ovo"), acrescentada uma interessante inscrição de alto relevo - que é interpretada especulativamente como figurando uma cadeia de DNA.

A receita é quase sempre a mesma. Os olhos são sintonizados para uma interpretação, e depois tudo cabe nela, com mais ou menos especulação.

Já aqui falámos no símbolo do "ovo cósmico", que é uma noção mais geral, e que está enquadrada numa mitologia da Antiguidade:

Que o símbolo em alto relevo no menir se pudesse referir a alguma coisa desse género, relacionada com algum culto da cobra, ainda seria uma coisa razoável.... mas depois vem a necessidade de especular com um conhecimento da estrutura helicoidal do DNA, que serve apenas para colorir com cores berrantes, próprias do negócio. Sim, porque as estórias alienígenas transformaram-se em pouco mais do que uma grande negociata esotérica, em que curiosos ou investigadores medíocres ganham algum estrelato popular. No meio disto tudo, como em tudo, encontra-se alguma gente séria...

A estrutura helicoidal do DNA não está minimamente representada porque há nenhuma linha vertical, que não tem significado molecular, como acontece com o caduceu de Hermes:

... e ainda que, no caso do caduceu, essa linha possa ser vista como figurativa, não o seria no caso das inscrições. 

Ora, o interesse deste tipo de especulações, é que acabam por chamar a atenção para objectos que de outra forma ficariam esquecidos nas arrecadações dos museus... 

Ao invés de se especular que está ali uma hélice de DNA, seria muito mais aceitável especular simplesmente que poderia ali estar a origem do símbolo do caduceu de Hermes/Mercúrio.
Porque, para além de alguma semelhança geral, o número de entrelaçamentos parece ser o mesmo.

A hélice do DNA nunca foi "vista"
Apesar de ser conhecimento comum que o DNA tem uma estrutura helicoidal, há muita bonecada que o ilustra, mas não há nenhuma foto dessa estrutura. Em 2012 foi feita uma fotografia com cristalografia de Raio X, que deu o melhor que se conseguiu até ao momento - a fotografia de um molho de cadeias de DNA enrolada (e não de uma única):

Ou seja, fala-se na dupla hélice do DNA por razões teóricas que resultaram de cálculos levando à justificação de uma difracção de ondas, nomeadamente a chamada "Foto 51":
Foi a partir desta "Foto 51", (do laboratório de Rosalind Franklin) que foi idealizado o modelo da dupla hélice em 1953 por Watson e Crick.

A partir daqui entram os ET's que transmitem essa informação aos trogloditas, mas sempre ao ponto de não trazerem nada mais do que rabiscos ondulados, que qualquer um poderia ter feito em qualquer altura, sem nenhum significado. Com o mesmo grau de certeza, esta seita poderá dizer que qualquer criança que faça dois rabiscos ondulados, está a antever a estrutura do DNA.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O eco

A palavra "ecologia" é remetida ao grego com "oikos" (casa) e "logia" (estudo), enquanto "eco" é uma palavra grega ligada a som "ekhe".

Como o eco é uma reflexão do próprio som, o termo ecologia adequa-se bem, sem andanças gregas. 
As "logias" são justamente "lojas" de conhecimento, pelo que a ecologia enquadra uma loja de conhecimento dos ecos da acção humana. Um desses primeiros conhecimentos foi entender que ao gritar num vale, estaria sujeito a ouvir como resposta o seu eco. Da mesma forma terá rapidamente entendido que outras acções na natureza teriam um eco, um reflexo, na sua vivência futura, em particular na futura abundância ou ausência de caça.

A experiência ecológica na pré-história resultou no desaparecimento de mamutes, bisontes, leões, e muitas outras espécies existentes na Europa. A excessiva caça humana teve um reflexo, que levou ao fim dessas espécies, mais do que qualquer outra razão. Aliás, a agricultura e a domesticação, terão sido um principal factor para evitar o desaparecimento de muitas outras espécies animais.

Haveria um conhecimento ecológico primitivo?
Conforme já referi em comentário, nos aborígenes da Austrália conta-se esta história:
Tjilbruke viveu como mortal e foi um a quem a lei foi confiada. O seu sobrinho, Kulutuwi foi morto como punição de quebrar a lei, por ter morto uma fêmea emu. Tjilbruke levou então o corpo do sobrinho pela costa da Península Fleurieu até à terra Ngarrindjeri perto de Goolwa. 
Este pequeno apontamento parece mostrar uma lei draconiana na protecção das fêmeas emus, o que poderia visar evitar a extinção completa dos emus na Austrália.

Povo Kaurna - monumento a Tjilbruke e Kulultuwi, no Sul da Austrália.

Tjilbruke era um mortal a quem a lei tinha sido confiada. Mas, por quem?
De onde surgia essa lei antiga, que todos seguiam?

O que parece possível, plausível, é que o desaparecimento de espécies, por excessiva caça, tenha começado por ocorrer em ilhas próximas, na Melanésia. E que aí tenha nascido essa consciência ecológica, que teria sido depois passada às tribos australianas.

Mais do que isso. Tem sido hipótese de trabalho considerar que a origem da civilização ocidental tenha começado na Melanésia. Arriscaria falar nas ilhas de Java, Molucas ou Timor, se tal fizesse mais sentido do que outras quaisquer. Faltaria falar de todo um continente, que se estendia do sudeste asiático até à Austrália, e que hoje se encontra submerso... mas que não estava antes do degelo que terá ocorrido há 12 mil anos.

O mito de Afrodite
Na Teogonia dos deuses do panteão grego, o aparecimento de Afrodite é curioso, porque a deusa do Amor é suposta resultar da castração do Céu pelo Tempo, ou seja, de Úrano por Cronos, saindo da espuma das ondas, que a queda dos genitais provocara.

Porém a parte mais curiosa é o seu aparecimento de dentro de uma concha gigantesca.
Podemos ver isso num fresco de Pompeia, ou numa terracota do Séc. III a.C.:


Em ambos os casos se nota a dimensão exagerada da concha, que envolve Afrodite. No entanto, na segunda imagem, da terracota, podemos ver que a concha parece também sugerir asas.
Isso verifica-se em diversas outras terracotas do mesmo período (por exemplo, aqui ou aqui).

Acresce a isto a identificação de Afrodite à deusa suméria Inanna (ou Ana), que é por vezes representada com asas, conforme podemos ver na figura seguinte:
Inanna - deusa suméria encarada como equivalente a Afrodite.

Ora, podemos tomar como casual a ideia exagerada de ter uma pessoa dentro de uma concha, mas o problema é que sendo exagerado e impensável na Grécia ou Suméria, ocorria justamente nas ilhas do Pacífico:
Conchas gigantes - Palau - Ilhas Carolinas.

Dessa forma, a origem do mito grego pode perder-se na deusa suméria Inanna, mas parece ir bastante mais além, encontrando eco nas gigantescas conchas, de existência real, capazes de albergar uma criança.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Elias, e lias, Ilias

Quem visita Micenas, dito melhor, Mukenas, procura imediatamente a porta dos leões, onde tirei a fotografia seguinte, fazendo aparecer um alinhamento com o monte Sara (ou Zara).
Centrando-me mais com a porta, do que com o caminho, saliento na foto, com marcador amarelo, a semelhança alinhada entre o triângulo dos leões, com o ângulo do topo da montanha sul:
Porta dos Leões - Micenas, com o Monte Sara atrás (foto com anotações).

Micenas está enquadrada entre o monte Sara, a sul, e o monte Elias, a norte (Agios Ilias, ou Profitis Ilias), que dominam a paisagem em redor, conforme se pode ver na imagem seguinte:


Micenas - ladeada a norte pelo monte Elias, e a sul pelo monte Sara.

Este alinhamento é ainda visível no tholos, chamado Tesouro de Atreu (Agamémnon seria filho de Atreu), que está um pouco deslocado da antiga cidade. Os muros de entrada nesse suposto túmulo, alinham quase perfeitamente com o mesmo monte Sara. O alinhamento poderia dizer respeito a um eventual templo que se encontrasse sobre o monte Sara, e que entretanto possa ter desaparecido.
 
Tesouro de Atreu - um tholos, enterrado sob monte artificial, alinha, para quem se coloca 
na entrada com o monte Sara - cujo topo aparece ligeiramente deslocado à direita.

Os nomes Sara e Elias certamente se podem referir aos personagens bíblicos, não havendo grande dúvida sobre Elias que aparece com o prefixo Agios (santo/anjo) ou Profitis (profeta). Porém o nome Elias escreve-se em grego Ilias, sendo Ilios o nome grego de Tróia... e daí a obra de Homero se chamar Ilíada. Assim, não deixa de ser curioso aparecer o nome de Tróia, de Ilias, num monte adjacente a Micenas.

Um outro ponto importante é que actualmente Micenas está bastante afastada da linha de costa. No entanto, todo o relato da Guerra da Tróia é um relato de potências navais, capazes de juntar um milhar de navios para resgatar Helena. Seria bastante estranho que Micenas não dispusesse de um porto operacional, de onde Agamémnon armasse os seus barcos em direcção de Tróia.
Olhando para o relevo perto de Micenas, vemos que se trata agora de uma grande planície, mas que em tempos, com o nível do mar mais elevado, toda essa parte formaria uma grande baía, conforme podemos ver na figura seguinte:

Micenas (círculo vermelho) e o relevo circundante. Possivelmente à época da Guerra de Tróia, 
o contorno da costa, com o nível de mar mais alto, seguiria a linha azul. Ou seja, Micenas seria uma cidade costeira.

O que vemos nas construções de Micenas é ainda uma característica típica de muitos monumentos megalíticos, mais comuns na orla atlântica. Grandes pedras, megalitos, de tamanhos e formas diferentes, basicamente unidos pelo seu peso. A porta dos leões não difere muito de um dólmen ibérico. 

Ainda que a tradição tenha colocado Tróia a três dias de viagem de Micenas, mesmo com ventos fracos, a expedição que demorou 10 anos, e afastou os gregos das suas mulheres, dificilmente encontra justificação na Ásia Menor. Conforme já notámos, os gregos inicialmente foram levados para as paragens da Ásia Menor, quando ainda não sabiam onde era Tróia. Por isso, para a parte restante dessa história deixo o link da página anterior:


quinta-feira, 31 de maio de 2018

A gema de Pilos

Há quem se impressione por estruturas de grande dimensão, pessoalmente impressiona-me mais a capacidade de fazer esculturas de  reduzidíssima dimensão com grande detalhe.
Já falámos aqui dos camafeus à época romana, ou antes, ptolomaicos:


ou seja, estávamos a falar de pequenos artefactos que iam até ao Séc. III a.C.

Acontece que em 2015, houve uma escavação em Pilos, no Peloponeso grego, num sítio que lembra a baía de S. Martinho do Porto, e onde se pensa poder ter estado o Palácio de Nestor, um dos reis ao serviço de Agamémnon, na Guerra de Tróia.
Baía de Voidokilia, Pilos, Peloponeso, Grécia

No ano passado (2017), no resultado dessas escavações que puseram a descoberto a chamada "Tumba do Guerreiro do Grifo", foi apresentado um selo de 3,6 cm de comprimento, uma ágata que representava uma cena de combate, com uma qualidade surpreendente:

Selo em ágata com 3,6 cm de comprimento. A maioria dos detalhes tem menos de 1 milímetro.

Datação para esta obra de arte - anterior a 1450 a.C., e portanto estamos a falar de 1000 anos antes das primeiras obras semelhantes, já de si altamente notáveis para a época, conforme referimos a propósito dos camafeus. 
A maior parte dos detalhes nesta micro-escultura têm menos de 1 milímetro, o que implica uma precisão que dificilmente seria possível sem uma excelente lupa, e uma segurança no traço dificilmente conseguida sem a devida aparelhagem. Para fazermos uma melhor ideia, experimente-se apenas tatuar esta cena na superfície do polegar:
Um pormenor apontado, que surpreendeu os arqueólogos, foi a representação correcta e vincada dos músculos, algo que não se via noutras representações artísticas da época, nem minóicas, nem micénicas, nem egípcias, por exemplo.
A razão para apenas se ter dado atenção à ágata dois anos depois da sua descoberta, é compreensível - estava calcinada, e só uma limpeza permitiu evidenciar a sua beleza.
Além disso, haveriam muitos outros objectos, centenas de selos, muitos de ouro, representando cenas tipicamente minóicas, como o famoso salto sobre o touro:
Um selo de ouro com motivo minóico - o salto sobre o touro.

Vê-se assim uma forte influência da cultura minóica que, de Creta, passava para a Grécia continental.
Curiosamente como Pilos é transcrito Pylos, devendo ser Pulos... estes pulos taurinos deram o pulo até Pulos. A qualidade dos selos em ouro é igualmente notável, mas bastante inferior ao selo em ágata, no que diz respeito à qualidade do desenho e representação do detalhe.

Bom, e qual é a região que sempre mais celebrou este espectáculo taurino?
A pequena ilha de Creta?
Para quem visita Creta ou a Grécia, se há coisa difícil de ver... é uma presença taurina.
E se havia um rei Minos em Creta, o rio Minus era o rio Minho.

Argumenta-se que a cultura minóica de Creta influenciou decisivamente a cultura micénica, e para quem visita Micenas, não haverá grandes dúvidas de que alguns frescos aí encontrados são idênticos aos de Cnossos. Mas a questão é anterior a isso... de onde aparecia a cultura minóica? Uma cultura marítima que celebrava o touro, e que está na origem dos primeiros escritos alfabéticos...
Seria Cnossos o centro de tudo isso, ou apenas um posto avançado que dominava o Mediterrâneo oriental?

Quanto ao Estado da Arte, as pinturas rupestres de Font-de-Gaume, Lascaux, Chauvet e Altamira, tinham neste selo de ágata um digno sucessor, passados os milénios que levaram dos touros de Altamira aos touros de Cnossos.

__________________
Aditamento: (02/06/2018)
No filme Tróia, de 2004, a primeira cena de batalha entre Aquiles e um guerreiro da Tessália, tem uma certa semelhança com a imagem da gema de Pilos. O golpe é desferido exactamente no mesmo ponto, e praticamente da mesma forma. Como o filme antecede a descoberta da gema em mais de 10 anos, seria uma notável coincidência, não fosse baseada em informações semelhantes.

O túmulo tem datação anterior à suposta Guerra de Tróia, em pelo menos um século, mas também é natural que a figura de Aquiles concatenasse mais do que um mito anterior.
Tal como a cena dos saltadores de touros, que se encontram em diversos objectos de Creta, também esta cena de batalha poderia estar representada noutros artefactos, a que os produtores do filme Tróia poderiam ter tido acesso por algum "espírito santo de orelha". De Aquiles, normalmente só se encontram nos vasos gregos, os confrontos com a amazona Pentesileia, ou com Heitor, no enquadramento da Guerra de Tróia. Mas em nada são semelhantes ao golpe desferido com a espada, indo do ombro esquerdo ao coração, conforme no filme, e conforme na Gema de Pilos.
Aquiles contra Pentesileia - vaso grego.

domingo, 6 de maio de 2018

Capitulação (1)

Um dos maiores problemas da história recente, reside nesta e noutras imagens semelhantes:

Tropas americanas mostram (1945), a civis alemães de Weimar, corpos de prisioneiros de Buchenwald.

Independentemente de outras considerações, era claro que havia um objectivo de propaganda, que iria levar a população alemã a um acto de contrição face aos crimes do regime nazi. A população alemã tinha de tal forma sido enredada na propaganda nazi, que a oposição passou de escassa a praticamente inexistente. No final da guerra, não fosse o denominado holocausto e os invasores - americanos na frente ocidental, e russos na frente oriental, não passariam disso mesmo - de invasores. Pior que isso, invasores de uma nação que, na parte visível, estava em sintonia com o seu líder, Hitler.

A mudança dramática de mentalidades deu-se justamente com a denúncia do holocausto, e a revelação de abomináveis imagens e filmes, reportando atrocidades nazis. A dose foi administrada de tal forma, que uma população que idolatrava o seu Führer, meses depois evitava a todo o custo ser ligada a ele. O apelido "Hitler" foi banido e nunca mais usado na Alemanha.

Como pela legislação europeia, adoptada em Portugal, estamos proibidos de questionar o holocausto  (como também o estaríamos, se os nazis tivessem vencido), não vou aqui discutir diferenças entre canalizações de água e canalizações de gás, a inexistência de qualquer informação a priori pelos serviços de espionagem, ou sobre o que acontece à alimentação de prisioneiros, quando os responsáveis dos campos fogem das forças invasoras, sem terem o cuidado de liquidar testemunhas.

Interessa aqui abordar as circunstâncias de uma capitulação.

Consta que num certo Monte Medulio, aparentemente contíguo ao Rio Minho, perante a inevitável derrota perante as forças invasoras romanas de Augusto, que o cercaram num fosso de 15 milhas, a população optou pelo suicídio colectivo. E, como nesse suicídio colectivo, levaram consigo mulheres e filhos, não nos ficaram descendentes dessa têmpera... Ora, esse é um problema com têmperas radicalizadas - ao longo do tempo vão sendo desbastadas pelo seu próprio radicalismo.

Qual seria a alternativa? Provavelmente o cativeiro e escravatura, pois nessa altura (22 a.C.) já os Lusitanos, e a quase totalidade de Hespanha, estavam rendidos à civilização romana, usufruindo dos seus munícipios com estatuto semelhante aos de Itália.

Bom, mas passemos para tempos mais cristãos.
Não passaria pela cabeça de ninguém colocar os alemães como escravos no Séc. XX... havia ainda a noção de colónias, e por isso inicialmente a Alemanha foi dividida em 4 zonas de administração, entregues aos vencedores... já que a França foi entendida como vencedora, apesar de Pétain.
Mesmo assim, até à constituição da República Federal Alemã (reunião das zonas francesa, inglesa e americana) e da República Democrática Alemã (zona russa), os alemães ficaram durante 4 anos numa situação periclitante, nomeadamente nos territórios alemães reclamados pela Polónia, onde foram colocados em campos de concentração até ao seu retorno a uma das Alemanhas. Assim, o número de vítimas alemãs nos campos de concentração polacos, devido a doenças, fome, espancamentos, etc... não foi pequeno, e foi comparado pelos alemães ao que se tinha passado nos seus campos de concentração.
Dos possíveis 15 milhões de alemães afectados, foi feito um balanço de 2 milhões de mortos nesse processo de fuga e expulsão dos alemães dos territórios polacos:
Há quem baixe a estimativa para meio milhão de mortes, mas seja de que forma se queira, o balanço é tenebroso para o período de 1944-50, essencialmente em tempo de paz.

Digamos ainda que, se Hitler deixou Paris, e cidades francesas, com os seus monumentos intactos, os aliados deixaram aos alemães o trabalho de reerguer pedra por pedra, grande parte das suas cidades,  e monumentos, destruídos pelos bombardeamentos constantes e arrasadores.
Bom, mas Hitler nunca capitulou... ou nunca se rendeu incondicionalmente, admitindo que a tentativa de Rudolf Hess, de tentar negociar a paz em 1941, não tinha o acordo de Hitler, e que a prisão de Spandau, não fez parte de um ballet que silenciou Hess.

A questão é justamente essa... que circunstâncias são aceitáveis para uma capitulação?
São praticamente as mesmas que são aceitáveis para uma entrada em guerra.
Simplesmente, o que antes era inaceitável, passa a ser aceitável. 
Em última análise, a realidade força a que o seja. 
As tribos do Monte Medulio rebelaram-se contra a realidade, negando-a pelo seu suicídio.
A Alemanha perdeu definitivamente a guerra, quando abraçou com sucesso o modelo de sociedade capitalista, que o regime nazi abominava.
Mas seria possível à Alemanha, decadente no Regime de Weimar, humilhada após a 1ª Guerra Mundial, passar com sucesso para o regime capitalista, sem a intervenção brutal de Hitler?
Seria possível convencer os alemães, que há séculos viviam em territórios, agora polacos, a abandoná-los e regressar à Alemanha, sem nada?
E no entanto, tudo isso foi e é aceitado hoje, depois da 2ª Guerra Mundial.
Seria agora pensável dizer aos polacos para abdicarem desse território, para o devolverem às famílias alemãs expatriadas?

Como não há uma deliberação justa, acordada por todos, entre o que é aceitável e o que é inaceitável, o recurso a termos de guerra foi o estabelecido como prática salutar desde a Guerra do Trinta Anos. Pelo menos... dado que antes ainda se reconhecia alguma deliberação aceitável, no papado em Roma, o que também não evitava várias guerras.
No entanto, a deliberação do papa Borja (ou Bórgia), em dividir o planeta entre Portugal e Espanha, foi praticamente o fim dessa credibilidade mínima.
Ao invés de enviarem os seus lóbistas para a cúria romana, a nova ordem internacional preconizou que tal entendimento passaria a funcionar dois a dois, criando uma necessidade extraordinária de embaixadores, para as despesas diplomáticas. 
É esse sistema que permanece, algo misturado com uma função papal das Nações Unidas, que pouco mais faz do que manter a ideia de uma necessidade de consenso alargado, que manifestamente não é pretendida por todos. 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Quinhentos

Contabilizam-se 500 textos que aqui fui publicando neste blog.

Ainda pensei em escrever algo, como um pequeno resumo, mas dada a época entre o 25 de Abril e o 1º de Maio, optei por deixar aqui um pequeno questionário acerca do 25 de Abril...
São 16 questões a lembrar o 16 de Março, quase sempre esquecido, nestas festanças.
As respostas... bom são praticamente quase todas válidas, e para mais informações basta consultar alguns textos que fui deixando, e cujo link deixo no final.

1. O 25 de Abril é:
a) O dia da revolução militar portuguesa.
b) O dia de São Marcos em Veneza.
c) O dia da Batalha de Gallipoli (1ª Guerra Mundial) - "ANZAC day".
d) O dia da Libertação em Itália (2ª Guerra Mundial).

2. Os cravos vermelhos são símbolo:
a) Da revolução portuguesa.
b) De São Marcos na cidade de Veneza.
c) Da Batalha de Gallipoli (1ª Guerra Mundial), pelo lado turco.
d) Da Libertação em Itália (2ª Guerra Mundial).
e) Da Libertação de Viena (2ª Guerra Mundial).
f) Da City de Londres (centro financeiro).

3. Giroflé, Giroflá, é:
a) Uma canção infantil portuguesa.
b) O cravo (especiaria) em francês diz-se giroflé.
c) Uma opera bufa francesa, estreada 100 anos antes (1874).
d) Uma canção revolucionária francesa contra Hitler.

4. Os milhares de cravos do 25 de Abril vieram:
a) Da Celeste, empregada no Franjinhas (Franjinhas - ver Carrossel Mágico)
b) Do jardim da Celeste, conforme as rosas no Giroflé, Giroflá.
c) De um contentor trazido pela Esquadra STANAVFORLANT da NATO.
d) Do Chile, porque em Abril não havia ainda cravos em Portugal.

5. A Esquadra STANAVFORLANT da NATO estava em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974, porque:
a) Fazia parte do plano traçado, e não teve qualquer relação com a revolução.
b) Os marinheiros queriam ir ao Texas Bar no cais do Sodré.
c) Fazia parte da comemoração dos 25 anos da NATO, celebrados a 4 de Abril.
d) Para assegurar que as fragatas portuguesas não disparavam sobre Salgueiro Maia.

6. O Cruise Book do USS J. A. Furer, da sua passagem em Lisboa em Abril de 1974, destaca:
a) A comemoração dos 25 anos da NATO.
b) O Texas Bar.
c) As touradas.
d) A revolução de 25 de Abril.

7. Algum navio obrigou à inacção do comandante Louçã (pai), da fragata Gago Coutinho?
a) Nenhum navio da NATO interveio no 25 de Abril.
b) O navio HMCS Assiniboine da marinha Canadiana.
c) Nada disso aconteceu, porque não está no filme da Maria de Medeiros.
d) Nada disso aconteceu, porque em 44 anos, não passou na TV, nem sequer na RTP 2.

8. O que foi a operação "Patrulha da Madrugada" - em 25 de Abril de 1974:
a) Um exercício aeronaval da NATO, usando o porto de Lisboa e a base do Montijo.
b) Uma operação militar da NATO que protegeu a insurreição militar de Salgueiro Maia.
c) Uma coincidência, que nada teve a ver com o 25 de Abril.
d) O recolher dos marinheiros da NATO que ainda estavam no Cais do Sodré.

9. Com a presença das forças da NATO, o que fizeram Otelo e Salgueiro Maia?
a) Continuaram com a operação conforme planeado.
b) Enviaram SMS com emojis sorridentes por telemóvel a cada comandante da NATO.
c) Escreveram "NATO é fixe" em cada chaimite no Terreiro do Paço.
d) A Dona Celeste foi enviada a cada navio, garantindo que não era um golpe comunista.

10. Por que razão não funcionou o Golpe da Caldas a 16 de Março?
a) Porque as forças do MFA não estavam ainda bem coordenadas.
b) Porque a esquadra da NATO estava ainda longe, e não protegia a malta revoltosa.
c) Porque faltaram tomates aos que não saíram das Caldas.
d) Porque a Dona Celeste disse que cravos em Março daria para se desconfiar.

11. O que aconteceu a quem comandou o Golpe das Caldas?
a) Foi preso.
b) Foi preso, e o cabeleireiro anunciou-lhe que a 27 de Abril estaria livre.
c) Nunca mais se lembraram dele nas comemorações do 25 de Abril.
d) Ficou sem perceber por que razão só a coluna das Caldas chegou a Lisboa.

12. Um principal motivo da revolta dos capitães foi:
a) A guerra de África e o estado a que tinha chegado o país.
b) Uma lei que equiparava oficiais milicianos a oficiais de carreira.
c) Ameaças ao seu percurso profissional, e aos privilégios que tinham na carreira.
d) Acabar com a fome em África, e com as guerras no mundo.

13. Quando foi a reunião Bilderberg, e quando chegaram os navios da NATO?
a) Terminou a 21 de Abril, e quase todos os navios chegaram a 23 de Abril.
b) À reunião Bilderberg enviou Spínola o director da Lisnave, que falou com o chefe da NATO.
c) Isso são coisas de teorias de conspiração, de malucos, e que não interessam para nada.
d) O chefe Bilderberg andava sempre com cravos na lapela, e devem ter sido trazidos pela NATO.

14. Os E.U.A pediram ao General Franco para intervir militarmente em Portugal?
a) Foi assim relatado no livro "Carlucci vs. Kissinger. Os EUA e a Revolução Portuguesa".
b) Quando a revolução ficou demasiado encarnada, foi pedida a intervenção militar espanhola.
c) Kissinger pretendia o remédio usado no Chile, Carlucci acreditou que o PCP não tomaria o poder.
d) Face a Kissinger, com o Nobel da Paz, o General Franco mostrou a sapiência de velho guerreiro.
e) Isso não foi no País Basco, ou na Catalunha?

15. Que canção despoletou o 25 de Abril?
a) "E depois do adeus", de Paulo de Carvalho, vencedora do Festival RTP da Canção.
b) Waterloo, dos Abba, que ganhou em 1974, enquanto o Paulo de Carvalho ficou em último.
c) "Grândola, vila morena" de Zeca Afonso, é que foi a senha de confirmação.
d) Waterloo, e os Abba escreveram depois "Fernando", bem adequada a Salgueiro Maia.

16. O que significa cravo encarnado?
a) Cravo encarnado é o símbolo do 25 de Abril.
b) Cravo é uma especiaria. Encarnado é a cor do sangue.
c) Cravo é um prego. Encarnado é aquele que encarna na carne.
d) Os cravos fizeram as chagas de Cristo, que foi encarnado em Jesus.


Referências:

sábado, 21 de abril de 2018

Sicano e Beltano

Aproxima-se o festival Beltano, no dia 1 de Maio, que tem longas tradições célticas, anunciando o estabelecimento da Primavera, ou melhor, do seu meio. Na Irlanda, em Gales, e noutras paragens com forte tradição celta recuperada, as comemorações são múltiplas, e incluem as fogueiras, que associamos mais à passagem ao Verão, na noite de S. João (ver o outro terço, tirso).
Fogueira em festival Beltane em Gales, 2015

A ligação é feita à divindade celta Belenos, associada ao Sol, e depois identificada a Apolo.
Há um festival seguinte, no Verão, dedicado a Lugh, outra divindade celta, que pode estar na origem do nome Lusitânia, e onde ainda falámos da sua ligação à peregrinação celta a Lugo, depois mais catolicamente transformada em peregrinação a Santiago.

Tal como falamos em Sicrano e Beltrano, remetemos então a Sicano.
Curiosamente, o Google inquiriu imediatamente se não procurava "cigano", o que me pareceu uma sugestão pertinente...

Sic Ano é nome de rei na mitologia da "Monarquia Lusitana", de Bernardo de Brito (e de muitos outros). Seguindo a sua lista de capítulos, lembramos:

Cap. 12: Do tempo em que Hércules reinou em Espanha, e dos favores que sempre fez aos Lusitanos.
Cap. 13: Do tempo em que na Espanha reinaram Hespero e Atlante Italo, das guerras que entre si tiveram, e da fundação de Roma, feita por gente Lusitana.
Cap. 14: Do tempo em que reinaram em Lusitania Sic Oro (Sicoro), filho de Atlante Italo, e seu neto Sic Ano (Sicano), com algumas coisas particulares, que em seu tempo sucederam.
Cap. 15: Do reino de Sic Celeo (Siceleu) e de Luso em Espanha, e de como esta parte Ocidental se começou a chamar Lusitania, como muitas outras particularidades acerca desta matéria.
Cap. 16: De como Sic Ulo (Siculo) começou a governar o reino de Lusitania, e das coisas que lhe sucederam, durando seu Império, dentro e fora de Espanha.

Os nomes Sicano, Siceleu, Siculo, remetem todos à Sicília.
Na realidade os Sicanos são entendidos como primeiros povoadores da Sicília, e a sua origem é ibérica. Também é considerado que esses Sicanos entraram na península itálica (ver p.ex. aqui), e instalaram-se na região da Lácio, podendo estar na origem de Roma. Claro que na Monarquia Lusitana, a coisa é ainda mais explícita, e a fundação de Roma é entendida mesmo como tendo origem Lusitana. Roma seria o nome da filha de Atlante Italo (nota: as páginas da Wikipedia sobre a Monarquia Lusitana foram escritas por mim, de forma que esta referência é circular).

O nome Fulano, sendo de origem árabe ("fulan" significa "alguém"), e sendo usado em Espanha mais frequentemente, passou a usar-se em Portugal, após o reinado dos Filipes (pelo menos não o encontrei em textos portugueses antes disso).
Assim, falar-se de Fulano, Sicrano e Beltrano, remete a três invasores da Península Ibérica - os mais recentes, os fulanos (de origem árabe), antes os sicanos (na origem romana), e ainda antes disso, os beltanos (na origem céltica francesa) - que repetiram depois a graça, com Napoleão.

Os territórios de influência céltica confundem-se com a distribuição genética do Haplogrupo R1b, talvez com excepção da zona basca... Apresenta-se um mapa interessante relacionando o R1b com a cultura "Bell Beaker" - vasos campaniformes:
Mapa em Eupedia (esquerda), e influência celta pré-romana (atingindo a Galatas Turca)

Há uma forte corrente sugerindo que a cultura Bell Beaker se difundiu a partir da Estremadura portuguesa... porque os registos mais antigos (c. 2800 a.C.) foram encontrados aí. Se tivesse sido na Extremadura espanhola, a teoria teria mais adeptos... assim, o mais habitual é ver esta teoria ser defendida por não-portugueses. É algo a que nos habituamos. Mas, como é hábito nos últimos séculos, mantêm-se ferozes críticas contra origens vindas da península ibérica, sendo claro que há tradições irlandeses e escocesas que remetem a sua origem a estas paragens.

O principal problema é que na península ibérica, restou pouco da tradição e língua celta... admitindo que a língua celta é o que é suposto ser, e não aquilo que foi. Na minha opinião, poderá ter havido uma movimentação celta, marítima, que partiu de Portugal para a Europa Ocidental, e que depois tomou formas diferentes, em cada local. Ao ponto de que os celtas franceses, que entraram na Ibéria há 2500 anos, com cultura Hallstatt, já tinham perdido a ligação original, e o mesmo teria acontecido com os sicanos da Lácio, de Roma. No entanto, em termos linguísticos, os romanos da Lácio poderiam ter algo em comum com os povos da Ibéria - a origem do latim e da língua romana.