quarta-feira, 3 de junho de 2020

As colunas arqueadas do triunfo no açougue

O templo de Diana em Évora, não nos chegou com este aspecto:

Com efeito, ao que consta funcionava como açougue, desde o tempo de D. Manuel, e há cerca de 150 anos atrás, antes de ser intervencionado, o aspecto seria este:


Esta fotografia do Séc. XIX não conhecia e encontrei-a no blog:
Deverá ter sido tirada antes de 1870, pois foi nessa altura que começaram a ser demolidas as paredes e restantes estruturas superiores. Este tema será conhecido de alguns, mas a esmagadora maioria dos portugueses desconhece que o templo teria funcionou como açougue. E, de facto, era já um embaraço em 1836, quando o açougue passou para outro lugar, pois o assunto era mencionado pela "imprensa internacional". Por exemplo, os ingleses criticavam o desprezo ibérico pelas antiguidades, e não restar uma placa romana, ou qualquer coisa anterior aos árabes em Lisboa. Não podemos dizer que restasse também alguma coisa de Londinium, mas enfim a crítica fazia sentido.

Quer a página do blog, quer a da wikipédia, dão extensas informações sobre o assunto, que me abstenho de repetir. 
Gostaria apenas de frisar o seguinte:
- Vendo a fotografia, e pensando na largura de paredes de castelos, igrejas, e outras, quantos monumentos mais antigos não poderiam ter ficado emparedados, desta forma?

A ligação do templo à deusa Diana tem sido questionada mais recentemente, porque a fachada com 6 colunas coríntias seria dos templos imperiais. Acresce que se teria encontrado nas redondezas um dedo enorme (aproximadamente de meio metro), que segundo recentes interpretações seria de um imperador.
Deixo ao lado a imagem do dedo, no Museu de Évora, para ficar ao critério de cada um perceber se é dedo de imperador ou de deusa.
Encontrou-se também uma pátera, e no caso de ser deusa, seria mais normalmente de Vesta do que de Diana. Se bem que esta nossa Diana estaria muito mais "de Ana", do rio Ana, agora Guadiana, uma deusa que se ligaria melhor ao culto Vestal.

Sertório e o Arco
Alguns eborenses, e outros escritores antigos (p.ex. Lavanha), teriam optado por indicar o Templo como construção de Sertório, já que Évora chegou a ser o principal aquartelamento do general romano, quando se juntou aos lusitanos para enfrentar os romanos. É dito que não, que nessa altura os romanos não conseguiriam fazer um templo daquela qualidade, etc... mas não vou perder tempo com argumentos aniquiladores de possibilidades, sem nexo. 

Introduzo Sertório, porque também existiria um "arco de triunfo" em Évora, ao que consta, na Praça do Geraldo, que teria sido feito na época de Sertório. 
No entanto, este teria sido demolido em 1570 por vontade do Cardeal D. Henrique, com o consentimento de D. Sebastião, seu sobrinho. Podemos ler no Archivo Pittoresco Vol.6, (1863), pág. 286, um pequeno artigo sobre o "Arco Triumphal Romano da Praça de Évora", onde se dá grande destaque a esse arco triunfal ou pórtico, em conjunto com um chafariz com leões, etc.

Mais recentemente, F. Bilou apresenta o texto:
em que dá a opinião de que o pórtico não seria nada de monumental, sendo uma principal (e já sabida) a ausência de referência pelo ilustre eborense André de Resende, dominicano e talvez o primeiro arqueólogo português, que dedica um livro a Évora (1553). Bilou cita a despropósito Gaspar Barreiros, acerca da sua desvalorização de um "arco do triunfo" em Mérida, e não dá crédito à opinião do padre Manuel Fialho:
«do portico so agora ouvimos falar, e supomos que era couza magnifica, como frontespicio de algum templo, ou couza semilhante, e era todo de marmores que tomava a largura da praça que tinha três serventias ou portoens por bacho(…)»
Ao que parece daquele pequeno nada, que atrapalhara o Cardeal D. Henrique, ficaram 8 colunas de mármore do refeitório de Colégio do Espírito Santo:
e três dos quatro leões que estavam no chafariz. É muito nada para não merecer menção, até pelo dominicano André de Resende.

Dois desses leões estão a definhar à beira estrada, num outro chafariz público (Chafariz dos Leões):
enquanto um terceiro está no museu de Évora (creio que o outro andará fugido...)

Poderá dizer-se que o leão do museu ficou melhor, mas do bicho só encontrei esta foto com quase 100 anos... se alguém o vir no Museu de Évora, pois envie-nos uma foto para saber se ele está bem. 
Quanto aos outros dois, estão aparentemente à mão de semear, mas o povo deixou-os ficar, ninguém chegou com um monta-cargas e uma pick-up para os levar... o tempo não tem sido meigo para eles, e parece que o chafariz estar classificado como monumento público não os protege da chuva. 
É apenas dito que estavam na Praça do Geraldo, mas pode-se suspeitar pela sua forma, que respeitem a tempos muito mais antigos, até talvez mais antigos que Sertório.

Sebastião e o Arco
Gostaria de terminar o texto, mas quando se abre o livro, o novelo desenrola-se...
Acontece que ao mesmo tempo que D. Sebastião autorizava o tio a destruir a memória do passado, queixava-se de não haver nenhum monumento a comemorar a Batalha de Ourique!

Em visita a Évora em 1573, D. Sebastião arrancou com um projecto de fazer um templo e monumental arco nos campos de Ourique. Diz-se que terá contado com a colaboração de André de Resende, no seu último ano de vida, na inscrição que deveria aparecer no arco:
Heic contra Ismarium, quatorque alios Saracenorum Reges, innumeramque barbarorum multitudinem, pugnaturus felix Alphonsus Henricus , ab exercitu primus Lusitaniae Rex adpellatus est: et a Christo, qui ei crucifixus adaparuit, ad fortiter agendum commonitus, copiis exiguis tantam hostium stragem edidit, ut Cobris ac Tergis fluovirum confluentes cruore inundarit. Ingentis ac stupendae rei, ne in loco ubi gesta est, per infrequentiam, obsolesceret, Sebastianus I Lusitaniae Rex, bellicae virtutis admirator, et majorum suorum gloriae propagator, erecto titulo memoriam renovavit
O templo é a Igreja Matriz de Castro Verde, e segundo António Castilho (Quadros Históricos de Portugal, 1847) deveria ainda constar o arco... o Arco de Ourique, que desapareceu. 
Castilho critica aqueles que procuram encontrar esse arco nos arcos da igreja, comentando que nesses faltava a inscrição pedida a Resende.


Interior da Igreja Matriz de Castro Verde

A igreja sofreu um restauro por D. João V, que terá adicionado os azulejos, e é especialmente curioso ver-se que ao centro está Nª Senhora e não a imagem de Cristo crucificado. Há de facto, arcos, mas não parece que se possam ajustar a um arco com uma inscrição... que não têm.

Bom, e que tem o assunto a ver com Évora?
Com a morte de D. Sebastião e do seu tio, Portugal perde a independência para Madrid, e conforme já tivemos oportunidade de escrever, a propósito da visita de Filipe III de Espanha, em Lisboa ergueram-se dezenas de arcos triunfais. Quando se trata de sabujice, em Portugal temos dos melhores exemplares, e esta visita do rei foi um bom exemplo disso. 

Ao que parece Évora quis seguir o exemplo, e construir apressadamente um arco triunfal, segundo o que reporta Lavanha, porque o rei só posteriormente considerou passar por Évora.
No entanto, F. Bilou comenta que a cidade estava preparada, tinha outros arcos preparados, apenas não estava à espera de uma chegada pela Porta da Lagoa.
Ao que se sabe, todos esses arcos triunfais erigidos, a quem poucos ou nenhuns triunfos teve, desapareceram rapidamente da vista, especialmente após a Restauração.

Interessa assim ao assunto ponderar a sequência de acontecimentos:
- Existiria um arco antigo, atribuído a Sertório, em Évora.
- Esse arco foi mandado abaixo por D. Sebastião a pedido do Cardeal D. Henrique em 1570
- D. Sebastião decide mandar construir em 1573 em Castro Verde um arco monumental
- Esse arco monumental desapareceu (... ou estará incluso na Igreja de Castro Verde?)
- Évora manda construir apressadamente um arco triunfal para a entrada de Filipe III em 1619
- Não restam sinais desses arcos...

Poderá em todos estes casos se ter tratado de desmontar e voltar a montar?
Tendo as pedras do arco original sido retiradas, a questão também seria o que fazer com elas, e por que não haveria D. Sebastião de aproveitá-las, e refazer o monumento no sítio que lhe parecia mais adequado? - Fica apenas como hipótese em aberto... 

Termino, referindo ainda que o tamanho das paredes da Igreja Matriz de Castro Verde são, segundo Castilho, de 16 palmos e meio! Ou seja, estamos a falar de mais de 3 metros de largura nas paredes.
Pode ver-se que as janelas têm de facto uma grande profundidade muito grande (mas não me parece chegarem aos 2 metros):

Voltando à pergunta inicial:
- Vendo esta fotografia, será ou não possível que, em vez de uma parede maciça tenhamos uma parede oca, com dimensões suficientes para conter quartos, ou múltiplas divisões, dentro de si?

segunda-feira, 25 de maio de 2020

dos Comentários (63) objectivos abjectos

Comentários ao postal anterior, e em particular um comentário de A. Saavedra suscitou a questão sobre quais seriam os objectivos que teriam motivado os diversos agendamentos, em particular, os mencionados - descolonização, colonização, descolonização, globalização...

Se formos pelo lado da maçonaria, veremos invocado o "humanismo", o que seria um propósito muito nobre, se não tivéssemos também sido habituados aos aspectos pouco "humanos" que as lengalengas de boas intenções nos trazem. A esse propósito, e para que fique claro, ainda pior registo nos deixaram todos aqueles que, em nome de boas intenções, fossem estas cristãs, muçulmanas, judiarias, ou outras, trouxeram à Terra um pouco do pior inferno que lhes atravessava o espírito.

Auto-de-fé, no Terreiro do Paço em Lisboa, Séc. XVII.
Deve entender-se em português "Auto" como "Acto", ou seja, Acto-de-fé.

Portanto, não podendo fiar nas próprias respostas, de gente pouco fiável, resta a arte de especular.
Especular significa observar de forma inteligente, algo que é conveniente confundir com disparatar.

Etimologia
Uma das primeiras coisas interessantes é tentar perceber se as palavras nos indicam algum caminho, já que o Português não é apenas uma língua, aparenta ter toda uma filosofia encapsulada... assim o queiramos perceber.

Objectivo, deriva de objecto, ob-jecto, e vou aqui citar algo que escrevi há uns anos:
Projectar resulta da composição do prefixo "pro" com "jactar" de onde vem "jacto".
Ora, jactar é lançar (como em "alea jacta est", os dados estão lançados).
Projectar é assim lançar para a frente, ou para o futuro.
Rejeitar, que é desvio português de rejectar (inglês: reject), será lançar para trás.
Outras variantes são "dejectar" ou "enjeitar" ambas ligadas a lançar para fora.
Outra ainda está no "sujeitar" (inglês: subject) ficar abaixo do lançado, ou em "injectar" como inserir no jacto.
O jeito português misturou essas raízes... o jeito de lançar substituiu o jacto.
Mas esse jeito de lançamento, provavelmente do dardo, ficou no gesto ou na gesta, e nalgumas povoações ainda se ouve o "ter jêto" em vez do "ter jeito".
O prefixo "ob" é de oposição, como em "obstar" (estar contra), e portanto "objecto" é algo que obsta ao jacto, ao arremesso, ou ao jeito. Esse algo pode ser o alvo, e assim funciona enquanto "objectivo", mas também o arremesso pode ser parado, quando alguém se põe à frente do alvo, e nesse caso diz-se "ele objectou"... O objector colocando-se como objecto, é alvo intermédio do jeito de arremesso.
De igual modo funcionam as palavras:
- "abjecto", arremetido para fora ("ab"), sem jeito; 
- "trajecto", que será o caminho através ("trans") do jacto, ou do jeito; 
- "ejectar", quando o jacto, ou o jeito, é de saída ("ex").

Neste caso, funcionando de forma similar nas línguas de raiz latina, haveria necessidade de invocar o português? Com efeito, "efeito" é suposta conjugação latina de "efectuar" enquanto "effectus", o que significa "é feito", só que em português não é preciso ir ao latim, para tirar "é feito" de "efeito".
Isso não acontece com o "effect" inglês, ou o "efet" francês, não tomam o sentido em "is done" ou mesmo em "est fait", que sonoramente é similar a "efet".
Só que o português vai mais longe, e numa arte milenar que hoje se chama "para inglês ver", não tem o verbo "efazer", tem o verbo "enfeitar".
A diferença entre "efeito" e "enfeito", é que no último caso não é preciso fazer, basta enfeitar...
Tal como passar por ter isso feito, ou ter feito isso, é "feitiço".
Na arte do feitiço, chamada feitiçaria, o povo era ludibriado pelos feiticeiros de serviço.

Filosofia dos abjectos
Este pequeno intróito serve para deixar claro que, na liturgia das palavras adquiridas, um objectivo pressupunha um trajecto e algo que se opusesse a esse trajecto. Ou seja, não supõe alcançar algo sem que nada objecte, sem que ninguém se queixe. Não se pretende algo que "que caia em saco roto".
Curiosamente, a minha perspectiva de "objectivo" foi sempre oposta, no sentido em que a comunidade é útil, mas dispensável, para avaliar da solidez dos objectivos. A solidez deve ser objectiva e não subjectiva, e não é por ter avalo de um ou de um milhão que isso se altera.

Uma necessidade de mérito por confrontação, que é essência do chamado "método científico", reflecte uma mentalidade tortuosa, que dá apenas valor ao que é alcançado por conflito - contra os outros, ou contra os elementos.
O valor sai de unanimismos e nisso não se afasta da mentalidade medieval.

Enquanto numa sociedade primitiva, nómada, um objectivo familiar seria afastar-se para procurar territórios de caça, sem conflitos com os vizinhos... quando a sociedade passou à filosofia agrícola, em que a dependência da terra obrigava à sedentarização, e à inserção numa hierarquia social de alimentação, a expulsão dessa sociedade passou a ser vista como um pior mal.
Abjecto, banido, ou ostracizado (na versão grega), o exílio era um castigo visto por muitos como mais severo do que a prisão ou a morte. Digamos, a prisão não existia, porque ninguém pensava em alimentar e alojar presos de graça. A prisão era o trabalho escravo. A escravatura foi simplesmente uma solução entendida como inteligente para resolver um problema prisional. Nenhuma família romana queria ter que alimentar prisioneiros gauleses, mas se estes servissem como escravos, pois aí dava jeito, mais jeito do que construir inúteis campos de concentração em Roma.

No Séc. XIX aquando da organizada política de emigração europeia, organizada pela maçonaria (e pela cúria romana), os pobres migrantes europeus sonhavam com propriedades americanas, e partiram em debandada como nunca antes. Partiam em magotes para países novos, independentes, muitos deles para uma língua completamente estranha. Curiosamente, na mesma altura que as potências europeias cimentavam o seu poder colonial em África e na Ásia, a maioria da emigração não se destinava a essas colónias. No caso português, a emigração ia essencialmente para o Brasil ou EUA, e em muito menor escala para Angola ou Moçambique. A maioria dos portugueses em África chegou só no Séc. XX, depois dos anos 50.

Vejamos isto em contraste com o que se passou no Séc. XV e XVI. Se a colonização da Madeira e Açores foi rápida e eficaz, não seria de esperar que os marinheiros contassem às suas gentes dos paraísos tropicais que viam?
No entanto, Portugal sempre quis reduzir a sua presença além-mar ao mínimo - a pequenas povoações fortificadas, destinadas ao comércio - as feitorias. Funcionavam como enfeitorias, disfarçando uma efectiva vontade de não-colonização.

As capitanias hereditárias do Brasil, pelo reduzido número, 14 dadas a 12 famílias da pequena nobreza, procuraram resolver o problema ao estilo feudal... ou seja delegar na nobreza o controlo de desses territórios, estendendo o braço da coroa real.

Assim, se a quase totalidade da população europeia não tinha qualquer posse de terra, também não iria ficar com ela, quando ao mesmo tempo haveria uma imensidão de posse a distribuir.
Da posição de servos na Europa, para os camponeses que emigrassem pouco se iria modificar o seu estatuto, já que iriam ficar apenas com diferentes senhores, diferentes paisagens, clima e doenças.
O entusiasmo com a ida para paisagens exóticas só entusiasma os cidadãos actuais. O nobre paraíso seria mais o jardim artificial do que a exuberância natural.
Na altura, ser remetido para paraísos tropicais, era um degredo, uma expulsão da pátria, e só com condenados ao exílio se conseguia uma povoação razoável no ultramar.

Tal como no caso das famílias romanas, as famílias das capitanias viram maior interesse na utilização de escravos, para aproveitar a extensão colonial, do que propriamente em incentivar um estabelecimento de marinheiros nacionais, que poderiam questionar a sua posse. Quando esse incentivo existiu, como para colonizar a Austrália, já no Séc. XIX, e à falta de melhor, uma solução era remeter para lá os condenados... e as despedidas eram encaradas como uma morte, já que dificilmente aos desterrados era pensado conseguir regressar à Inglaterra.

Em contra-corrente com esta filosofia de ver a tropicalidade como lugar de abjectos, mas ainda assim não se afastando dela, surgiu o movimento evangelizador dos jesuítas. Voluntariamente, ofereciam-se ao sacrifício missionário de cristianizar os indígenas. Não se afastava da visão medieval, porque era entendido como um sacrifício em favor da cristandade, e das "almas perdidas" dos indígenas.

No entanto, a vontade de libertação do senhorio alheio manifestou-se fortemente, e apareceram mesmo "reinos piratas", em Nassau, e noutras paragens caribenhas, que fracamente se aguentaram face ao poderio colonial europeu. Até ao fim do Séc. XVIII a ordem europeia visava manter as cabeças coroadas na Europa, e não criar novos reinos satélites... tal como Cartago punia os desertores que abandonassem os seus navios, escapando-se para paraísos tropicais.

Daquilo que sabemos, e podemos concluir, é que o processo de atribuir propriedade a qualquer cidadão foi um desiderato maçónico, iniciado com as repúblicas americanas, especialmente nos EUA.
Nesse aspecto, contribuíram para o efectivo fim do feudalismo no mundo medieval.

A maçonaria, enquanto organização de cariz secreto, mexeu todos os cordelinhos, e em conjunto com os judeus europeus, conduziu um controlo financeiro e editorial, começando a formar a mentalidade das populações na revolução industrial. Não bastava tirar as pessoas das aldeias, era preciso tirar a mentalidade aldeã dessas pessoas. Por isso, se empenhou tanto em formatar a escola, ao ponto de ser impingida uma outra história, que retirasse o catecismo do centro do indivíduo. Como tinha ficado claro, se ninguém interviesse, as pessoas continuariam a ver os paraísos tropicais como infernos, se tais paragens fossem entendidas como um desterro.

Para um observador exterior, é fácil concluir que, mais fácil do que levar alguém ao paraíso, seria  tentar convencê-lo de que tinha chegado... Percebeu-se que seria preciso dar um certificado carimbado de que era ali! O chavão "terra da liberdade" foi de tal forma assumido pelos EUA, e propalado pela Europa, pelas publicações editoriais, que a vaga migratória passou a ser vista como a única oportunidade de se verem livres do jugo senhorial.

Na Europa, as mentalidades começaram  a mudar pelo despoletar sincronizado de revoluções liberais, em 1848, que veio forçar um parlamentarismo em quase todos os reinos, abrindo os portões de poder.
Este plano maçónico foi trabalhado na Inglaterra, disso não parecem restar grandes dúvidas, mas a forma como conseguiu adesões estrangeiras, em todos os reinos europeus, continua a ser um notável caso de sucesso. Além disso, resultando de herança templária, as ligações à Ordem de Cristo, parecem-me inevitáveis, uma vez que o fim prático da autonomia da Ordem de Cristo em Portugal, em 1551, terá levado a uma consequente migração dos seus protagonistas e promotores internos.

Filosofia de eunucos
Os abjectos, excluídos da sociedade, desde tempos egípcios, foram inevitavelmente os escravos.
A prole de escravos gerava escravos, tal como depois a prole de servos gerava servos.
Como o postal vai longo e já falei bastante sobre este assunto:


realço apenas que se gerou nos bastidores do poder, através de serviçais dos impérios, em boa parte eunucos, uma filosofia de descendência que ia para além do benefício da própria prole.
No caso dos eunucos, escravos, isso era bastante claro, e essa tentativa de controlo da sociedade por uma elite de homens, abnegados da reprodução sexual, foi ainda promovida pelo próprio cristianismo - sem constasse em parte alguma dos seus requisitos fundadores que os padres devessem ser castos.

Assim, foi sendo criada a ideia de um objectivo humanitário além do grupo familiar, da tribo, do povo, do reino, cujo propósito maior foi sendo estabelecido pelos movimentos missionários católicos (nomeadamente os jesuítas), ao mesmo tempo que se invocava uma filosofia cristã desprendida do pressuposto religioso, o chamado humanismo. Todo este caldo esteve em ebulição na Europa do Séc. XVI. Já teria ingredientes mais antigos e muito semelhantes na disseminação do budismo, e similares religiões orientais, onde também era requisito uma abstinência dos seus monges.

O propósito de ser pela humanidade, e não tanto por uma classe, por um grupo, por um povo, ou por uma nação, passou a constar de novo da ementa mundial, como nunca antes teria acontecido, ainda que certas noções já existissem de forma localizada no império romano, e na civilização grega, mas que encravavam na noção do estranho, enquanto bárbaro.

Este propósito, não sendo alcançável na sua utopia, estilhaça as diferenças entre nações, ao querer vergar a diferença a uma unidade monocromática. Tornou-se anti-nacionalista em vez de celebrar as diferenças virtuosas dos diversos nacionalismos. Numa tentativa progressista desesperada, foi buscar mais igualdades, onde elas pouco sentido faziam... chegando-se ao cúmulo jurídico de pretender igualdade de direitos para animais, quando estes direitos estão ainda muito longe de ser adquiridos por muitos humanos.
Quando se continua a caminhar em frente, ignorando a paisagem à volta, é que se percebe que os supostos pastores só continuam a ostentar a vara, porque não querem assumir a sua cegueira.
Nada mais vêem em frente, mas ninguém os ensinou a largar o cajado do comando.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Descolonização, colonização, descolonização, globalização

Estava convencido que tinha publicado aqui um texto sobre os dois processos de descolonização, mas constato que não publiquei.
O assunto é interessante, e em ambos os casos envolve a maçonaria... com um pequeno detalhe, a maçonaria esteve fortemente envolvida no segundo processo de colonização, que começou assim que fez terminar o primeiro.
Apesar das evidências serem mais que muitas, ninguém menciona o assunto.

1) Descolonização das Américas
Na transição para 1800, quando Napoleão exibia o seu poder, as únicas colónias independentes eram os recém-formados EUA e o Haiti.
Em 1825, passados apenas 25 anos, em praticamente toda a América havia reinos independentes.
E é claro, já havia repúblicas feitas à medida dos EUA, ou seja, produtos da maçonaria.

Repare-se que na 1ª Grande Guerra "Mundial" (1803-1815) o adversário era Napoleão, o grande portador da Revolução Francesa, que foi completamente derrotado, não sem que os ideais dessa revolução, ou seja, uns tantos versos da maçonaria francesa, dita do "grande oriente", se tivessem imposto nas agendas liberais, e tivessem alterado a sociedade do Séc. XIX.
Aqui, a Inglaterra derrotou a França, sem ajuda dos Estados Unidos.

Será que a descolonização na América foi total?
É claro que o império espanhol foi totalmente estilhaçado, ficou com umas ilhas, entre as quais Cuba.
Os portugueses, antecipando destino similar no Brasil, com a liderança de D. Pedro IV, inventaram uma independência manhosa, mantendo o território ligado à coroa nacional.
Mas e os outros, a Inglaterra libertou o Canadá, a França e a Holanda saíram das Guianas?
Claro que não! Aí o ardente desejo de independência não ardeu.
Libertadores, segundo o credo da maçonaria: San Martin, D. Pedro IV, Simon Bolivar

2) Colonização da África e da Ásia
Ok, mas os ideais maçónicos eram bons, visavam a igualdade, a libertação do homem, etc, etc...
De facto, os ideais maçónicos parece que visaram sempre atacar as dimensões ibéricas, e pouco mais do que isso. Nesse aspecto, parecia cumprir-se o rancor judaico contra as potências ibéricas que os expulsaram, com requintes inquisitórios.
Ao mesmo tempo que a Espanha e Portugal eram libertados das suas colónias americanas, poderia pensar-se que os holandeses iriam ter movimentos independentistas na Indonésia, os ingleses iriam ser pressionados na África do Sul, na Índia, Austrália, etc... 
Nada disso!

Com efeito, se a colonização americana pelos europeus já tinha sido feita, a presença dos europeus em África, ou na Ásia, mesmo na Índia, era razoavelmente suave. 
Não tinha havido propriamente uma exterminação das culturas anteriores, como aconteceu no caso azteca ou inca. A África talvez por ser demasiado caótica, e a Ásia por ser demasiado populosa, tinham resistido, e mantinham-se sob grande influência europeia (exceptuando talvez a China e Japão), mas ainda como reinos razoavelmente autónomos.

Como poderia a maçonaria entrar subrepticiamente nesses poderes, desconfiados dos europeus?
Pois, por isso, antes de descolonizar, era preciso forçar a colonização.
Surgiu assim na segunda metade do Séc. XIX, uma vontade incontrolável de colonizar.
Foi o tempo dos grandes (!) "exploradores de África", como Stanley e Livingstone, que basicamente se arrastavam, e arrastavam consigo inúmeros carregadores, para se conseguirem deslocar em África.

É claro que, como os "descobrimentos terrestres portugueses" não podiam ser sabidos, agora era tudo coisa nova, novidade do mais novo e progressista, que só a maçonaria poderia alcançar.
Tudo o que era projecto de país na Europa ocidental teve direito à sua nesga de terreno para colonizar, inclusive a Bélgica, que garantiu o Congo. É claro que o pedaço de leão ia para a Inglaterra e a França, duas versões do mesmo avental. Portugal aguentou Angola e Moçambique, que antes pouco mais eram que Luanda e Benguela, Lourenço Marques, Nampula e Sofala.
À Espanha, para não ficar a chorar de pranto, depois de ter perdido todas as colónias americanas, ficou com a Guiné Equatorial. 

A França abocanhou quase toda a África Ocidental, para além da Indochina, na Ásia.
Onde andavam os direitos humanos, aquela linda carta que a revolução francesa trazia?
Estavam em stand-by... por mais umas décadas, que era preciso entrar em força, para depois sair.

Convém lembrar que o Sião, talvez por causa do nome que agradava à judiaria, escapou à colonização, mas os seus reis (da Tailândia) tudo fizeram para não apoquentar os europeus. 
A China depois das Guerras do Ópio, viu-se forçada a ceder na influência, e quando tal correu mal, foram as 8 nações dar um pulinho para invadir Pequim em 1900. O Japão, apesar dos prantos dos samurais e da Madame Butterfly, acabou por aceder à modernização, e tratou de invadir a Coreia, como forma de se juntar aos grandes, e evitar a pressão do vizinho gigante... a Rússia.

Com efeito, a Rússia foi o primeiro país a efectuar a grande colonização, tão grande que ninguém se lembra da Tartária que era suposto existir antes de Pedro I, o Grande. É que antes disso, a Rússia não passava do campo europeu... só depois ousou atravessar os Urais até Vladivostok.
A agenda maçónica nesse aspecto sempre trabalhou bastante bem na Rússia.

3) Descolonização da Ásia e da África 
Estando garantidos todos os desejos, certamente existentes (na Ásia), e quando inexistentes, inventados (na África), após a 2ª Guerra Mundial - e é de perguntar - por que não após a 1ª Grande Guerra? - reuniram-se as condições, para as conspirações da treta, que levaram os países à independência. 
É claro que houve um Ghandi, um Amílcar Cabral, e outros tantos heróis locais que lutaram pela independência dos respectivos países... mas o problema é que todos se podem reduzir às mesmas décadas 1950-1970, o que torna os seus actos heróicos num aspecto menor, do maior acto encenado, que era a descolonização.
Já antes teriam havido movimentos, em muitos casos, mais louváveis, porque sem apoios lutaram contra uma dimensão incomensurável para si, mas estiveram condenados ao insucesso.
No entanto, após 1950, a ordem era descolonizar, e foi cumprida quase sem atrasos, e nem mesmo o caso português se atrasou muito... pois, porque afinal de contas não surgiram os guerrilheiros da Guiana, e mesmo assim a Holanda lá libertou o Suriname, mas só em 1975.
Quanto à França... não nos digam que a França se esqueceu de libertar a Guiana Francesa?
Ah! É claro, é para lançar os foguetões da ESA...

Sim, porque isto havia alucinados portugueses que viam o país de Timor ao Corvo, mas já quando são franceses, ingleses ou americanos, não são alucinados.

4) Globalização ou Colonização (2)
A fase de descolonização tinha que estar pronta nos anos 70, porque vinham aí as décadas da globalização. Com efeito, logo no princípio dos anos 70, acabada a Guerra do Vietname, Nixon foi à China tratar desse papel principal na fase seguinte, que seria liderada por Deng Xiaoping.

A Rússia tinha sido importante na fase de experimentar o comunismo... e com que consequências(!), mas era tempo de finalizar o ensaio, arrumar tudo, e declarar o capitalismo como vencedor da Guerra Fria. Claro que foi bastante útil no apoio a todos os movimentos independentistas, contra o colonialismo europeu, mas havia chegado o fim dessa fase, e entrava-se na nova era.

Qual o propósito da Globalização?
A Globalização é a versão 2.0 do Colonialismo. Pode-se falar em Colonização (2).
Porquê?
Porque todos os estados quiseram ser independentes, para depois concluírem que é melhor estarem todos unidos, numa grande família. 
Qual seria o melhor exemplo? - A união europeia!
Não havia estados com maiores rivalidades, cuja acção tivesse dilacerado vidas atrás de vidas.
A Europa era o barril de pólvora, que seria apaziguado em união, na prodigiosa UE.
Isso serviria para um domínio global?

O que ficava claro é que os países (africanos, em especial), que tinham acabado de ficar independentes, estavam imediatamente dependentes de ajudas externas, endividavam-se até ao tutano, e eram corrompidos de alto a baixo, pelas elites locais.
No fundo, a sua independência passava a ser uma dependência completa dos mercados.

Só que isto não acontecia apenas para os recentes países, acabava por acontecer com todos!
Governos sobreviviam ou caíam, consoante a saúde financeira da sua economia, e portanto passava-se a um novo termo experimental de colonização, já praticada pelos portugueses na Índia - os marajás que se portavam bem, eram favorecidos, enquanto os outros tinham problemas (ver texto).

Por muito que isso custe aos franceses, ganhou-se uma língua universal de comunicação, que é o inglês, e esse aspecto, a que se uniu a circunstância "casual" de existir uma internet, uma organização mundial de comércio, um fundo monetário internacional, etc... são tudo pequenos detalhes que foram relevantes para o sucesso desta história.

Agora estamos na fase de perceber se isto serve para alguma coisa, para algo mais do que inventar mentiras (como o aquecimento global, ou a ameaça islâmica), e fazer com que todos acreditem nelas...

No fundo, o ponto primordial de todo o animal é ser auto-suficiente, e com isso livre. Isso só não acontece em animais sociais, por clara incapacidade de sucesso, de outra forma.
Se a sociedade quiser continuar a evoluir no sentido de formar monstros gigantescos, a que se chamam estados, organizações, companhias, sociedades, empresas, grupos, etc... só mais tarde perceberá que esse caminho não levará a lado nenhum, que não seja irracionalidade e desgraça.
Como já aqui mencionei, a única organização social que deve existir é aquela que, garantindo a máxima liberdade aos cidadãos, impeça qualquer protagonismo de outra organização social. Nenhum homem deve ficar exposto solitariamente contra a vontade de uma multidão.

Ficamos à espera... entretanto, se esta pandemia serve para alguma coisa, é para perceber do quanto dependemos uns dos outros, e que o isolamento não será certamente nenhum caminho a trilhar.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Carnaval revolucionário

Num artigo intitulado
publicado na revista científica Contemporary British History, em 2014, Oscar Martin Garcia, um investigador espanhol, comenta sobre a quase inexistência de artigos sobre o papel inglês na "Revolução dos Cravos". Porém o objecto do artigo serve ainda para ver esta revolução como a última de uma série de revoluções europeias, que entendeu como carnavalescas, citando:
«To help remedy this oversight, this article analyses the economic, political and diplomatic measures employed by the British Foreign Office to establish parliamentary democracy in Portugal, which brought an end to the final chapter in the ‘carnival’ of revolutions that had spread throughout Europe over the preceding two decades.»
O 1º de Maio de 1974 foi o último de paz e alegria revolucionária - a festa durou uma semana.
A diferença para o 1º de Maio de 2020, mostra que ao Estado Novo uma pandemia do tipo Covid teria sido uma panaceia sem contra-indicações conhecidas.
1º de Maio em 2020 (à esquerda) em 1974 (à direita).

A marcar o 1º de Maio de 1974 estava o protagonismo dado a Álvaro Cunhal e a Mário Soares. 
Os militares do 25 de Abril, nem passada estava uma semana, e já tinham ido para casa, plantar batatas. Um detalhe importante, normalmente varrido para baixo do tapete...
A Junta de Salvação Nacional, formada a 26 de Abril, dispensou os capitães, até porque se eram capitães de Abril, já não estavam a fazer nada no 1º de Maio.
  • Presidente: General António Spínola (Exército);
  • Exército (2): General Costa Gomes, Brigadeiro Silvério Marques;
  • Força Aérea (2): General Diogo Neto, Coronel Galvão de Melo;
  • Marinha (2): Capitão mar-e-guerra Pinheiro de Azevedo; Capitão de fragata Rosa Coutinho.

Maçonaria impõe Palma Carlos
O primeiro-ministro seria Palma Carlos, um nome ditado pela maçonaria, decidido numa reunião do Grande Oriente Lusitano na Av. Manuel da Maia. Ao que consta, em artigo do Expresso, Spínola quereria um governo militar, ou então Veiga Simão como primeiro-ministro. No entanto, o MFA, enquanto entidade abstracta detinha poder de veto, e manifestava-se algum controlo maçónico.

Este primeiro governo tinha como ministros Sá Carneiro, Mário Soares, Álvaro Cunhal, entre outros, como Maria de Lourdes Pintasilgo, Magalhães Mota, Salgado Zenha, Almeida Santos, etc. 
A misturada estava destinada a terminar menos de 2 meses depois de tomar posse.

Em Julho de 74, Spínola aceita nomear Vasco Gonçalves, e parece ficar claro quem coordenou o processo revolucionário dentro de portas, pois foi ele quem sucedeu a Spínola:

General Francisco da Costa Gomes
Conforme era assinalado pela revista Time, durante o Verão quente de 1975, havia a Lisbon Troika, que era constituída por Otelo, Vasco, e Costa Gomes.

Para esse efeito, convém entender que o próprio Costa Gomes, talvez um bocado farto do "mito dos capitães" veio depois notar que  (ver texto de Rui Ramos):
Sem os generais, a revolução nunca provavelmente teria acontecido, como aliás um desses generais, Costa Gomes, fez questão de notar anos depois: no dia 25 de Abril de 1974, as tropas mobilizadas para a revolução – 150 oficiais e 2000 soldados, a maior parte instruendos das “escolas práticas”, sem qualquer experiência de combate — nunca, em circunstâncias normais, teriam sido suficientes para derrubar um regime que, nesse ano, mantinha mais de 150 000 homens em armas
O golpe de bastidores, teve como cabeça em Portugal o general Costa Gomes, que tinha sido nomeado por Marcelo Caetano como Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, em 1972.
Quando Marcelo dizia que a PIDE não conseguia "entrar no exército", parece claro que o problema estava na chefia, ou seja no próprio Costa Gomes.

Costa Gomes conhecia bem a NATO porque esteve no comando SACLANT de Norfolk com Humberto Delgado. Além disso, foi secretário de estado quando o General Botelho Moniz era ministro, ou seja, trabalhou directamente com dois dos opositores a Salazar. Mas foi o seu sucesso em Angola, onde optou por cativar as populações, em vez de confrontar os guerrilheiros, que lhe granjeou o prestígio no Estado Novo, já que a situação em Angola ficou totalmente controlada.
Já antes havia sido referido pela embaixada americana que Costa Gomes, melhor que Botelho Moniz, poderia fazer a mudança de regime. Ou seja, é natural que os EUA encarassem positivamente a mudança sob liderança de Costa Gomes.

Mesmo num relatório sobre a situação em 1975, enviado ao General Walters, da CIA, é dito:
Options about Costa Gomes' role ranged from his being a very powerful figure to a balancer between the left and the moderates, to one with a very little influence.
Essa ambiguidade conseguiu-a  manter até ao fim. Enquanto figura tremiclitante, sem poder, até aquele que se foi mantendo como figura de topo no Estado, independentemente do sentido da revolução. 
  • Era Costa Gomes, e não Spínola, o chefe de todo o aparelho militar em Março de 1974.
  • Se Spínola foi indicado por Caetano, isso pode ter agradado a Costa Gomes, que precisava de uma primeira transição menos abrupta. Ele manteve-se como 2ª figura, o que levou à sua designação para a sucessão de Spínola, em Setembro.
  • Sustentou todos os governos caóticos de Vasco Gonçalves, com o país em pseudo-estado revolucionário de semi-anarquia, com assaltos a propriedades e "reforma agrária".
  • Apadrinhou todo o caótico processo de descolonização, tendo presidido aos Acordos do Alvor.
  • Figurou como figura de esquerda, até 25 de Novembro de 1975, sendo completamente passivo face à hostilidade da esquerda revolucionária, ligada a Otelo e aos Gonçalvistas.
  • Mais complicado foi certamente dar meia volta, no 25 de Novembro, aparecendo ligado aos "moderados" vencedores.

Spínola e Costa Gomes seriam os dois únicos a serem nomeados Marechais pelo novo regime.

Curiosamente, se o Marechal Gomes da Costa implantou o Estado Novo, o Marechal Costa Gomes, terminou com ele. Provavelmente, nem sequer este detalhe será tão casual, quanto possa parecer.

Turismo revolucionário
Um dos focos do artigo mencionado, é que a revolução portuguesa serviu de transição entre os movimentos revolucionários esquerdistas, de Che e Fidel, às Brigate Rossi, aos Baader-Meinhof, às revoluções no sentido ocidental, da Espanha e Grécia, até à queda do muro, e ocidentalização dos antigos regimes comunistas.

Com efeito, é sabido que o estatuto soft da revolução tuga, revolução das flores, paz e amor, etc, causava um fascínio na intelectualidade, que é sempre de esquerda, e que durante 1975 veio ver as novas "instalações democráticas", ao nível de curiosidade turística... Com efeito, dada a anarquia que se foi instalando, era um excelente campo de novidades sociológicas.

O artigo fala do papel do governo de Harold Wilson nessa evolução 1974-76, no sentido de promover contactos e apoios para que Portugal não descarrilasse para a extrema-esquerda, mas pouco menciona do papel inglês anterior a 1974. Esse seria o período a ser investigado, sem acesso limitado pela maçonaria, amigos ou análogos.

O papel da maçonaria não passou só por apontar o nome de Palma Carlos, se o fez era porque tinha estado completamente a par, e apoiado o MFA. Dito de outra forma, isso significava o conhecimento de Londres e Paris. Acontecia o mesmo que se garantira na República, com a vantagem de não ter havido nenhum Paiva Couceiro a oferecer resistência pelo anterior regime.

Harold Wilson, em 1973 (na oposição) recebera Mário Soares, e promovera o boicote à viagem de Marcelo Caetano. Conforme já referimos, em 1973 deu-se a constituição do PS, com um financiamento da Fundação Ebert e da CIA. Mário Soares, também ele mação, encontrou apoios pela Europa, para fundar um partido de poder em Portugal... o que veio a acontecer, da noite para o dia.

Quando Harold Wilson ganha as eleições em Fevereiro de 1974, estavam criadas as condições para uma benção inglesa à revolução portuguesa, ao mesmo tempo que nos EUA, Nixon estava no fim da linha devido ao escândalo Watergate. O livro de Spínola sai em Fevereiro, e a crise da demissão de Spínola e Costa Gomes dá-se a 13 de Março, uma semana depois de Wilson tomar posse. Logo de seguida há o golpe das Caldas a 16 de Março, que terá direito a um bis em 25 de Abril... agora já com o apoio estratégico da frota da NATO em Lisboa.

As acções do MFA só ganham sentido se colocarmos Costa Gomes à cabeça de uma conspiração feita por dentro e por fora, com a cumplicidade da maçonaria (que estava proibida).
Foi Costa Gomes que chamou Spínola para vice-chefe do Estado Maior, que o incentivou a publicar o livro, de certa forma permitindo que ele encabeçasse a face visível do 25 de Abril.
Otelo nunca referiu quem lhe dava ordens, nem qual era o plano do MFA... que aparentemente não era nenhum, até chegar Spínola para negociar com Caetano. 
Só aparentemente era nenhum, porque tudo se desenrolou com uma precisão notável, ao ponto de no 1º de Maio, o futuro político do país, com Mário Soares e Álvaro Cunhal juntos, dava garantias de ser passado o Estado Novo.

O carnaval revolucionário que decorreu entre 1974-76 não foi do agrado americano, sendo sabido que Kissinger pensou em intervir militarmente. No entanto, ainda mais nos bastidores, testava-se a vacina contra o romantismo de golpes anárquicos. Ao fim de um ano de regime Gonçalvista, sob patrocínio de Costa Gomes, o direito às experiências sociais tinha-se acabado, e era tempo de arrumar as coisas nos seus lugares. Tal como sempre acontecera, Costa Gomes limitou-se a gerir tendências, acordos, e pacificações, de forma a que Portugal não terminasse num cenário de guerra civil, o que seria péssimo para o turismo revolucionário, encantado com a revolução dos cravos.
Esse aspecto foi plenamente conseguido, o que não deixou de ser notável, dadas as circunstâncias.
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02.05.2020

sábado, 25 de abril de 2020

Marcelo e os 40 barões

Um relatório para ser entregue a Henry Kissinger, feito pelo oficial da CIA na Europa Ocidental, foi assim apresentado no dia 26 de Abril de 1974. Apenas algumas partes foram "desclassificadas", e têm acesso público.

O relatório pode surpreender, falando de 40 famílias de oligarcas que seriam as únicas beneficiárias efectivas dos rendimentos coloniais, e que de um modo geral, o preço que Portugal pagava, por manter as colónias, não compensava o retorno do investimento. Segundo o memorando, das colónias, apenas Angola conseguia devolver 60% da despesa do Estado lá investida.



Com o efeito, o relatório afirma que Marcelo Caetano tentava uma autonomia dos territórios africanos, ao que a oligarquia familiar (dos 40 barões) tentou fazer Américo Thomaz depô-lo em Dezembro de 1973, no que foram contrariados por pressão militar dos seus apoiantes.

Diz que "evidentemente Caetano aprovou o livro de Spínola", fazendo notar que o livro de Spínola continuou a ser vendido em Lisboa, mesmo depois do "golpe das Caldas". Assinala que os planos de Caetano para lidar com os focos de tensão seriam obscuros...

Só faltou dizer que o 25 de Abril de 1974 teria sido aprovado por Marcelo Caetano!
Não é certamente isso que o próprio disse no seu livro a "Verdade sobre o 25 de Abril", afirmando: "A única informação extensa e concreta que dos serviços recebi, já nas vésperas do 25 de Abril, sobre as intenções dos militares, veio de Moçambique", acrescentando que "só na madrugada do dia 25 de Abril o Director-Geral da PIDE telefonou a comunicar que a revolução estava na rua".

deixámos aqui a pergunta... quem decidiu ocultar a Salazar que este tinha sido substituído por Marcelo? Quem tinha o poder para tal?
Não seria Américo Thomaz sem os 40 barões que dominavam o país (segundo o relatório, dominavam-no não apenas economicamente, mas também nos jornais, rádio e televisão, na representação nos corpos legislativos, e tinham ligação aos altos cargos governamentais). Precisaram desse completo domínio para convencer Salazar de uma ficção, em que permanecia a governar.

Marcelo Caetano, poderia ter promovido/aceitado um golpe de estado contra si mesmo?
Não parece, mas parece claro que quem o apoiou não o deixou cair, e cuidou que fosse exilado em segurança no Brasil.
Parte dos 40 ladrões, desde a Lapa até Cascais, podem ter passado por algumas contrariedades nos anos seguintes, não sem que tivessem regressado e aparecido outros tantos, ou muitos mais.
Sempre cá estiveram, se dirá...
Sim, mas durante o tempo de D. João II podem ter falado mais fininho.
Os que ainda não perceberam por que caíram então, vão falando alto, para se ouvirem a si mesmos.
Os outros, porque não são surdos, não precisam.

Segue-se o memorando, que pode ser encontrado no site da CIA:



segunda-feira, 20 de abril de 2020

Buffalo Jump

Uma imagem impressionante do Faroeste americano, ficou registada num diorama do National History Museum, fotografando uma queda de bisontes, num precipício, sendo a eles levados por índios, numa técnica de caça que remonta há milénios:


Os bisontes, já se sabe, eram muitos, grandes manadas pastavam nas planícies americanas.
Os índios, bastavam serem poucos, uns pela esquerda, outros pela direita, afugentavam a manada, que assustada, corria em direcção ao precipício, sem se dar conta.

Os cowboys, essa figura icónica do Faroeste, passaram a usar o mesmo tipo de condução de manadas, para orientarem o gado para os estábulos, ou para as pastagens.
Talvez o gado pensasse que os cowboys que os afugentavam pela esquerda eram democratas, e os que os afugentavam pela direita eram republicanos, mas de uma forma ou doutra, seguiam ordeiramente as direcções e acabavam por seguir o caminho pretendido de ambos... ou seja, na foto, a queda num precipício. 

Este tipo de trabalho exigia coordenação, ou seja, nem a ameaça à esquerda poderia ser demasiado virulenta, nem a da direita, sob pena de se perder um lado da ameaça para o outro.

Há diversos pontos que serviam para este propósito, por exemplo:
Se os índios tivessem o mínimo instinto de não abusar da sorte, deixavam cair apenas os suficientes para o repasto comunitário, e voltariam depois... porque também se sabia que os búfalos não iriam aprender, e continuariam a proceder da mesma forma, como sempre haviam feito.

Nota: Uma imagem similar a esta (provavelmente a mesma cena vista de outro ângulo) foi usada por David Wojnarowicz sob o título Untitled para criticar a política (ou ausência dela) da presidência de Ronald Reagan relativamente à propagação da SIDA, doença que o vitimou.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Bicho de contas enrolado

Há sempre coisas engraçadas que podemos apreciar. Uma delas é o enrolar do bicho de contas:


O número de pessoas que não consegue lidar com a realidade, e está disposto a embarcar noutro conto, o chamado conto do vigário, é esmagador. Não é difícil entender isso, porque ter ideias próprias estruturadas dá muito trabalho, é mais fácil apostar numa narrativa alheia, e depois é só segui-la até ao fim. Pode implicar dizer que contas certas são erradas, que o preto não é preto, mas o que é que isso interessa? Interessa é que não se está sozinho no frio, e está-se aconchegado por um grupo de malta que padece da mesma doença. 
Acontece assim no futebol, na política, na religião, e até na ciência. Há uma enorme dificuldade em dar o braço a torcer, em reconhecer mérito alheio, enfim, todos conhecemos múltiplas histórias disso, mas também não é por sabermos disso, que isso é minimamente corrigido.

Há um mês atrás era decretado o "estado de emergência" em Portugal, e em muitos países da Europa, o que foi uma notícia algo surpreendente, já que até então só a Itália tinha colocado sérias restrições à circulação. De um momento para o outro, o mundo decidiu parar, isolar-se, e basicamente foram suspensas todas as viagens aéreas entre os diversos países.

O engraçado é que a ideia de restringir vôos, e proceder ao isolamento das comunidades, nada teve a ver com a Europa, que então tratava a Itália como um "apêndice infectado".

A ideia de proceder ao isolamento partiu de Donald Trump, que já tinha bloqueado os voos vindos da China, e alargou a medida à Europa, no mesmo dia em que a OMS finalmente declarou a epidemia como "pandemia". Isso provocou fortes reacções negativas:


Apesar da massiva campanha publicitária contra Trump, que não poupa adjectivos a quaisquer acções suas, convém que nós não tenhamos uma memória tão má, que não nos lembremos disto.
Nenhum estado europeu estaria propriamente à vontade para impedir voos dos EUA, foi a reacção isolada e unilateral de Trump que despoletou o fecho de todas as fronteiras, nas semanas seguintes.

Por isso, quando há críticas à actuação de Trump, são no mínimo enviesadas. É claro que depois Trump não deu nenhuma indicação de isolamento estadual - isso era competência dos estados, e o vírus espalhou-se como fogo em palha seca, perante a ausência de reacção musculada, que tardou no caso dos EUA e do Reino Unido. 
Entre a perspectiva de ver a economia bloqueada e a disseminação do vírus, Donald Trump e Boris Johnson foram mal aconselhados inicialmente, na ideia de que poderiam conviver com o caos de casos nos sistemas de saúde. Essa ideia era a ideia dominante na OMS, que sempre desvalorizou o impacto da propagação do vírus e a sua perigosidade.

Crime contra a humanidade
Anteontem Trump, não cortou apenas o financiamento à OMS, foi mais longe, e insinuou que a OMS poderia ter sido intencional ao dar recomendações erradas a todos os países. Não foi explícito, porque arriscaria a ser apoiante de uma teoria da conspiração, mas abriu a ferida, de que a OMS terá sido agente activo num crime contra a humanidade.
É claro que logo de seguida, foi acusado do mesmo, por secar o financiamento à OMS numa altura em que seria mais necessário... mas basta ligar a Fox News para ver que uma boa parte dos americanos vê a OMS como uma agência parasitária, até como agência de turismo, para imensas viagens - excepto para enviar a tempo uma delegação à China para estudar o novo corona-vírus.
O uso dos pandemic-bonds e o atraso na declaração da pandemia, em nada veio beneficiar uma imagem da OMS, que era antes razoavelmente positiva.

A crise do álcool-gel, das máscaras, e ventiladores, espalhada por quase todos os países (exceptuando talvez a Alemanha), veio ainda tornar mais claro, excepto para cegos, que o processo de contágio só pode ter sido propositado, por ter contado com muitas ajudas inesperadas. A OMS não impôs qualquer controlo nos aeroportos, e perante a passividade da UE, o vírus teve oportunidade de seguir calmamente o seu caminho a partir de Itália, e espalhar-se durante um mês em toda a Europa.

A persistência em não recomendar o uso de máscaras, sendo de uma incompetência tão grosseira, só pode ser considerada como um crime público, promovido pela OMS, e acatado pelas diferentes organizações satélites, como a DGS em Portugal. Por vontade dessa entidade, nem sequer as escolas teriam sido encerradas, quando já eram os próprios pais a reter os filhos em casa.

Números enrolados
Em Portugal, os números foram sendo arrolados a partir dos 2 primeiros casos a 2 de Março. 
Por mero exercício especulativo, coloquei aqui uma previsão simples do que seria uma possível evolução da curva, com base nos dados até 22 de Março (pontos a vermelho, na figura até dia 22, quando havia 1600 casos). É altura de confrontar os dados ocorridos depois (pontos a azul, a partir do dia 23) com a previsão que então assumi (curva mais alta, a preto).

Comparação da previsão (curva a preto) com a evolução dos números a partir de 22 de Março.

Os valores que se verificaram e aqueles que foram previstos coincidiram razoavelmente bem.
Convém notar que as previsões por "especialistas" eram bem diferentes:


Ninguém, nessa altura aceitaria uma previsão tão baixa, e mesmo uma semana depois, tive dificuldade em que acreditassem que na Páscoa iríamos a chegar a uma situação "estável".
Isso parece agora um dado adquirido agora, mas não era, e esteve longe de o ser.

Na altura valeu a pena fazer esta previsão e partilhá-la, arriscando a que estivesse completamente errada. O facto de ir acertando não me atrasou nem adiantou coisa nenhuma, mas foi interessante ver como as pessoas se recusavam a ver os números, e continuavam em cenários próprios ou alheios, de estimativas baseadas em coisíssima nenhuma... ou baseadas em cenários completamente distintos. 

De um modo geral, as pessoas detestam aceitar a razão alheia contra a sua, e preferem fechar os olhos para não aceitar. Pior, como no caso de Trump, procuram depois centrar o foco na destruição do alvo, por outros erros menores, que possa ter cometido.
Relativamente aos EUA, o mesmo tipo de previsão dava um valor inferior a 500 mil infectados agora, quando se verificam 700 mil, e mostrava que a Espanha iria ultrapassar a Itália em número de casos, como de facto veio a ocorrer.

Porém, a partir do pico dos novos casos não vale a pena fazer grandes previsões, porque os valores não representam nada de especial.
Até ao momento em que a doença se está a espalhar, os casos vêm ter com o sistema de saúde, e a tendência é medida nessa proporção. Depois, é o sistema de saúde que vai à procura dos casos restantes, e dependendo dessa efectiva capacidade, pode encontrar mais ou menos casos. Já não tem a ver com a efectiva incidência da doença, mas sim com a capacidade de testar.

Por exemplo, em Portugal deve existir um número reduzido de "recuperados", porque os testes foram aplicados em quem não tinha sido ainda testado, e não tanto para "libertar" quem tinha sido diagnosticado, que convinha manter em quarentena.
Os números podem ser enrolados de múltiplas formas, e aquilo que vemos será sempre apenas o que o sistema nos dá a ver. No entanto, mesmo que esses números sofram de múltiplos vícios, não deixam de dar razão a quem os previu.

Confinamento
Com um período de incubação não superior a 14 dias, um confinamento superior a 1 mês é um tempo mais do que suficiente para se detectarem os possíveis focos de infecção. Não é especificado o tempo que demora a doença a desaparecer nos casos que tiveram poucos sintomas, e por isso podemos dar o benefício da dúvida para alargar o período por mais 14 dias. Porém, creio que a situação em Portugal parece razoavelmente controlada, e em Maio não há razões para não recomeçar a actividade de forma faseada... e é claro, com a protecção de máscaras - um cuidado que se deveria ter exigido desde a primeira hora. Deveria ter sido exigido a todos os que tivessem vindo de regiões infectadas, ainda antes de ter aparecido o primeiro caso em Portugal. 
Mas a essas incompetências, o regime maçónico costuma dar medalhas, para esconder a nódoa, de grandes dimensões, que está por detrás.


domingo, 12 de abril de 2020

dos Comentários (62) - descobrimentos terrestres portugueses

Acerca das viagens portuguesas por terra foi-lhes dado muito menos âmbito e protagonismo do que as realizadas por mar. Exceptuam-se as feitas por Pêro da Covilhã e Afonso Paiva, para eventual preparação da viagem de Vasco da Gama, e depois as viagens de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, que simplesmente repetiram uma viagem promovida 75 anos antes por Saldanha da Gama, e realizada vezes sem conta por portugueses, antes da mania colonialista europeia do Séc. XIX, com os pseudo-exploradores de farnel inglês, Livingston ou Stanley.

João Ribeiro, num recente comentário, falou do padre jesuíta António de Andrade, que foi o primeiro europeu a viajar até ao Tibete:
Padre António de Andrade (esq.) e Frei Bento de Góis (dir.) - exploradores do Tibete e China

O assunto já tinha aparecido nos comentários, (p.ex. José Manuel Oliveira falou dele aqui), mas como o assunto dos "Descobrimentos terrestres portugueses" não existe, nem enquanto nome, decidi ir buscar a resposta a quem melhor a saberia dar - o Cardeal Saraiva, que fala de um problema que não era apenas do seu tempo e anteriores, é ainda do nosso tempo... e futuros?!

Citando o livro 
Francisco de São Luiz Saraiva (Cardeal Saraiva)

na página 170 (e seguintes), na "Memória sobre as viagens dos Portuguezes à Índia por terra e ao interior de África", diz de uma forma tocante:

Limitar-nos-emos pois, por agora, a dar uma breve ideia das principais viagens de que temos achado memória nos nossos escritores, e isto bastará para satisfazer ao intento que levamos em coligir estas noticias, que é mostrar que não somos nós os Portugueses tão incuriosos, ou tão ineptos, como nos querem fazer os estrangeiros.


SÉCULO XVI


1515 — Tendo o grande Albuquerque posto à obediência de Portugal a rica cidade de Ormuz, e recebido nela com grande solenidade a embaixada do Schach Ismael Rei da Pérsia, despachou com o mesmo carácter da Embaixador a corte de Hispahan a Fernão Gomes de Lemos, senhor da Trofa, o qual tendo concluído a sua missão, se achava já de volta em Cochim no mês de Janeiro do 1517 e daí escreveu a El-Rei D Manuel, mandando-lhe um Livro, em que dava conta da sua embaixada, e do caminho que fizera, coma consta da própria carta por ele dirigida a El-Rei com a data de 4 de Janeiro de 1517, que se conserva no Arquivo da Torre do Tombo, no Corpo Chronol. part. 1. maço 21. num. 4. (Vej. Goes, Chron. de El-Rei D. Manuel part. 4. cap. 9 e 11 ). Do livro porém, que continha a relação da embaixada e caminho não sabemos que exista.


1520 — Neste ano, entrando na Abissínia D. Rodrigo de Lima Embaixador de El-Rei D. Manuel àquele império, entrou com ele, entre outros Portugueses, o P. Francisco Álvares, natural de Coimbra, que de Portugal havia saído como capelão da embaixada de Duarte Galvão. Este eclesiástico residiu na Abissínia cousa de 6 anos até 1526, e escreveu «Verdadeira informação das terras do Preste-João» obra rara, que se imprimiu em Lisboa no ano de 1540 em fol., e que foi traduzida em várias línguas, e inserida por Ramuzio na sua Colecção, em Veneza 1550 com a titulo «Viagem á Ethyopia por Francisco Alvares, &c.»
Pelo mesmo tempo viajava por diversos países da Ásia o Capitão Gregório de Quadra, de que acima fizemos menção.


1522 — A este ano se deve referir o princípio das viagens de António Tenreiro, segundo o que ele mesmo escreve na sua bem conhecida Relação, ou Itinerário. Saiu ele de Ormuz em companhia de Baltazar Pessoa, que de mandado do Governador da Índia D. Duarte de Menezes ia por Embaixador à Persia. Esteve Tenreiro na Pérsia, d'onde passou a Arménia, veio à Síria, ao Cairo, a Alexandria , e daí à Ilha de Chipre. De Chipre voltou ao continente, e logo a Ormuz por terra, e ficando aí cinco ou seis anos (como ele mesmo refere no cap. 58) tornou a sair para vir por terra a Portugal, com recados a El-Rei sobre a armada do Turco, sendo Governador da Índia Lopo Vaz de Sampaio, e capitão de Ormuz Cristovão de Mendonça(1). Saiu de Ormuz pelos fins de Setembro de 1528, e chegou a Portugal em Maio do ano seguinte. É mui curioso o seu Itinerário, que se imprimiu em 1560, e depois por várias vezes, sendo a última em 1829, junto com a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. (Vej. Castanheda liv. 7. cap. 71., Andrade, Chron. de D. João III. part. 2. cap. 49., e os Annaes da Marinha Portugueza publicados no ano de 1839. pag. 394.)
_____ (1) De memórias contemporâneas consta que Tenreiro, chegando da Índia, esteve a ponto de ser assassinado por um F. Mello, de Castelo de Vide, por ter trazido cartas a El-Rei contra seu pai. — Tenreiro teve uma pensão de 30$000 réis mensais.
A morte do Conde Almirante Vice-Rei da Índia veio anunciada a El-Rei D. João III. por um expresso enviado da Índia por terra de mandado de D. Henrique de Menezes , como refere Quintella, Annaes da Marinha Portugueza ao ano de 1526.

1537 — São mui conhecidas de nacionais e estrangeiros as viagens, ou (como ele mesmo lhe chama) as peregrinações de Fernão Mendes Pinto, começadas em 1537 e continuadas por 21 anos até 1558, com tanta e tão miúda e variada relação de casos e sucessos; com tão curiosas descrições de lugares e regiões; de povos, e costumes; e com tantas e tão importantes noticias úteis à navegação e ao comércio, que mereceria uma particular e extensa menção, se a própria historia d'estas viagens não tivesse sido muitas vezes impressa, e recentemente em 1829 na língua portuguesa, em que foi escrita; e se não se achasse há muito tempo traduzida em algumas línguas estrangeiras, e publicada nas Colecções de Viagens. A multiplicidade e singularidade das aventuras, que este escritor refere, a estranheza dos povos e nações que viu e dos teus ritos, costumes, crenças, opiniões e linguagens, os incómodos e riscos que correu, e de que escapou, são e salvo, fizeram com que alguns leitores e escritores desconfiassem da veracidade, das suas relações. Hoje porém está mais desvanecida esta desconfiança, e as indagações dos mais ousados viajantes modernos têm verificado muitos dos factos, que ao princípio pareciam mais estranhos e duvidosos.


1540 — Veio da Índia por terra Antonio de Sousa, mandado por D. Estevão da Gama. [Couto, Dec. 5. liv. 7. cap. 1.)


1548 — Neste ano passou à Índia Fr. Gaspar da Cruz, religioso dominicano, natural de Évora. O zêlo da religião o levou à China, e foi o primeiro, ou um dos primeiros missionários portugueses, que entraram naquele império. Temos dele uma Relação da China, e de suas particularidades, que se imprimiu em Évora no ano de 1570, e segunda vez em Lisboa em 1829 com as Peregrinações de Fernão Mendes Pinto, de que acabamos de fazer memoria.

No Códice 840 da Biblioteca Pública Portuense conserva-se o «Itinerário da Ilha de Ormuz até Tripoli de Berberia, e d'ahi até a Rochella de França», de Martim Afonso.
Este viajante era médico: partiu de Ormuz a 25 de Junho de 1505 e veio a Portugal através da Persia e Ásia Menor com cartas importantes. Sua derrota foi de muito circuito por causa da guerra que havia entre os Turcos o Persas, a qual o obrigou a deixar o curso regular das caravanas, sem que nunca fosse conhecido, nem dele se desconfiasse. Descreve largamente os lugares por onde passou, com bom conhecimento da Geografia. Fala de Riscóo, Jarde, Benvit, Adistan, Mahabad, Chaltabad, Caixam, Com, Siiva, Caslui, Soltania, Meaná, Turquina, Condi, Tabris, Sufian, Van, Vastan , Sory , Taduan , Orfá , Halep, &c.
  • ...? Na Historia da Índia no governo do Vice-Rei D. Luiz de Atayde, escrita por António Pinto Pereira, pelos anos de 1570, e impressa em 1616, no liv. 2. cap. 13. faz o escritor menção de um Isaque do Cairo, Judeu, que da Índia tinha vindo duas vezes por terra a Portugal. Nada mais sabemos destas viagens, nem temos achado noticia da sua verdadeira data, que sem duvida pertence ao século 16° (1).
_____ (1) Estando EI.Rei D. João III. em Almeirim em Janeiro de 1541 , veio da Índia por terra um Judeu, trazendo recado a El Rei, como o Vice-Rei D. Garcia de Noronha falecera em véspera de Pascoela no ano anterior de 1540, sucedendo-lhe D. Estevão da Gama que ia na segunda sucessão, por ter já vindo para o reino Martim Afonso de Sousa, que era o nomeado na primeira, &c (Relações de Pero de Alcaçova Carneiro — manuscritas).

  • ...? O mesmo diremos de outra viagem, de que nos dá noticia o P. Fernão Guerreiro na sua Relação Annal &c. liv. 1. cap. 1. pag. 3., dizendo, que um André Pereira, indo de Portugal à Índia par terra, e passando por aquela parte da Caldeia, que corre de Babilónia para o estreito de Baçorá, onde o Eufrates e o Tigres entram no Mar da Pérsia, aí tratara com os cristãos daquelas partes, e ainda depois voltara a elas para acompanhar um bispo que eles queriam mandar ao Papa, e a El-Rei de Portugal.
1593. — Neste ano passou a Índia o dominicano Fr. Manuel dos Santos, o qual voltando a Portugal por terra, escreveu a sua viagem com o titulo de Curioso Itinerario &c., manuscripto, de que faz menção a Biblioteca Historica Portugueza, pag. 33. da 2ª edição.


SÉCULO XVII


O século 17° não é menos notável que o precedente na historia das nossas viagens. Logo no ano do 1602 ocorre a importante, e, para aquele tempo, difícil viagem do Jesuíta Português Bento de Goes.
Era este religioso varão natural de Vila Franca na Ilha de S. Miguel; e como tivesse conhecimento das línguas orientais, e especialmente da Persiana, pretendeu, e conseguiu de seus superiores, ser mandado ao descobrimento do Gran-Catayo, país que então desafiava a curiosidade dos Europeus. 
Partiu com efeito da corte do Mogol, em cujas províncias tinha pregado o evangelho, e viajou mais de três anos pelos sertões da Ásia, indo sempre pelo norte do império do Mogol, desde o país dos Usbeks para o oriente até à China, e vindo a conhecer em resultado da sua trabalhosa, e dilatada viagem, que o chamado Gran-Catayo era o próprio império da China, e não um país diverso, como mui geralmente se acreditava. 
Na China faleceu Goes em 1607. Vem a sua viagem inserta na Relação do P. Trigaut, e fazem dela menção frequente os escritores Portugueses.

No mesmo ano de 1602 fazia a sua viagem à Persia o douto augustiniano Fr. António de Gouveia, que depois de ter acompanhado às serras do Malabar o Arcebispo D. Fr. Aleixo, foi mandado àquele império como Embaixador do Governador da Índia Ayres de Saldanha. 
Ali adquiria a estimação do Sha-Abbas, que o enviou em companhia de um Embaixador seu, que mandava a Roma, e a Corte de Espanha. Voltou a Persia, e daí à Europa, atravessando os temerosos e arriscados desertos da Arabia. Chegado que foi a Alepo, embarcou para Marselha, e sendo tomado por corsários, ou piratas argelinos, esteve cativo em poder daqueles bárbaros. 
Destas viagens e trabalhos fala ele mesmo na Relação da Jornada do Arcebispo D. Fr. Aleixo de Menezes ás serras do Malabar, impressa em Coimbra em 1606 em fol., aonde também se lêem curiosas e importantes notícias sobre os povos que habitam aquelas serras, e sobre os seus costumes, e ritos religiosos, &c.

Em 1606 e 1607 temos noticia da viagem de Nicolau d'Orta, natural de Santo Antonio do Tojal, que saiu de Goa com destino de vir a Portugal, por terra. Nos princípios de Agosto de 1600 estava na fortaleza de Comorom d'onde passou a Lara, Xiras, Iiomus, Bagadet, Ana, Taibe e Alepo, aonde entrou a 16 de Janeiro de 1607. 
Daí vindo por Alexandreta, chegou por mar a Marselha, e logo a Madrid, donde El-Rei D. Felipe o tornou a mandar à Índia. Escreveu o seu Itinerário, do qual existe na Biblioteca Pública de Lisboa um exemplar incompleto. (Vej. Barbosa Machado, Bibliolh. Lusit.)

Por esses mesmos tempos viajava por terra para a Europa Fr. Gaspar de S. Bernardino missionário na Índia, o qual naufragando na Ilha de S. Lourenço, passou a Mombaça, cabo de Rosalgáte, e Ormuz; donde resolvendo continuar sua viagem por terra, visitou a Persia, Caldeia, e Síria até Chipre. Daí foi ver os Lugares Santos, e voltando a Chipre, Candia, Zante, Cephalonia, e Corfu, se recolheu por último a Espanha e logo a Portugal. Escreveu o seu Itinerário, cuja primeira parte se imprimiu em Lisboa — 1611 em 4.°

Temos notícia que neste mesmo ano de 1611 veio da Índia a Portugal por terra D. Álvaro da Costa, de cuja pessoa e viagem não alcançámos individual informação(1).
_____ (1) O Códice 482 da Biblioteca Pública Portuense é copia da viagem de D. Álvaro da Costa, com este título «Tratado da viagem que fez da Índia oriental à Europa nos anos de 1610 e 1611 por via da Persia e da Turquia... com relação... da Terra Santa... e geral descripção da Índia oriental, e navegação dos Portuguezes», Vol I. 26.
Os anos de 1621 e 1626 são notáveis na história da Geografia, e das Viagens portuguesas, pelas duas que fez o P. António de Andrade Jesuíta, ao descobrimento do Tibet, estabelecendo ali missão cristã, e católica. 
Na segunda destas viagens (ano de 1626) em que foi acompanhado do P. Gonçalo de Souza, e cuja Relação se imprimiu em Lisboa em 1628 fala ele expressamente da cidade de Caparangua, aonde residia o Rei de Tibet, e aonde estes padres tinham chegado em menos de dois meses e meio, partindo de Agra (no Dehli) o passando por Sirinagar. Fala igualmente do país de Ursangue ou Ussang, do qual diz que dista 40 jornadas de Caparangua, e 20 da China. &c. 
(Devem ver-se as próprias Relações, e a Nouvelle Relacion de la Chine do P. Magalhães, traduzida em francês, e impressa em 1690, de que mais adiante falaremos.)

Pertence ao mesmo ano de 1621- a viagem, e residência na Abissínia do P. Jeronymo Lobo Jesuíta Português. Foi ele mandado às missões da Índia, para onde partiu, e chegou a Goa em 1622: e vindo no dito ano de 1624 a Moçambique, daí entrou no país dos Galas, penetrando até à Abissínia aonde viveu muitos anos não sem grandes trabalhos e perseguições. 
A série das suas posteriores aventuras, os naufrágios que fez, os grandes incómodos que sofreu, em fim a sua vida até ao ano de 1658 em que ficou em Portugal, são coisas dignas de curiosa reflexão. Escreveu o seu Itinerário, que tem merecido a atenção dos sábios, e eruditos, principalmente na parte
que diz respeito às cousas da Abissínia, e que se acha traduzido em inglês, em francês duas vezes, e em italiano.

Em 1635 foi mandado à missão do Tibet o P. João Cabral, outro Jesuíta Português, natural de Celorico da Beira, o qual fez caminho por Bengala, evitando a difícil passagem da serra, por onde o P. Andrade tinha entrado na Tartária. Escreveu também a Relação copiosa dos trabalhos que padeceu na missão do Tibet. Obra, que segundo Barbosa Machado foi mandada a Roma no referido ano de 1635.

É digno de mui particular comemoração nesta nossa breve memória o P. Gabriel de Magalhães, também Jesuíta Português, que depois de estar por alguns anos nas missões do Japão, passou à China, e a correu quase toda desde o ano de 1640 até 1618 em que se estabeleceu em Pequim, residindo aí por quase 29 anos até o seu falecimento, e deixando-nos uma Relação da China das mais exactas que se haviam escrito até ao seu tempo. Esta Relação fui traduzida em francês, com notas, e explicações, e impressa em 1690 em 4º.

Alguns anos antes destes, em que vamos, missionou na Abissínia o P. Manuel de Almeida Jesuíta Português. Das cartas, que ele anualmente escrevia ao seu Geral, impressas em Roma, em italiano, no ano de 1629, e de outras memórias de muitos Jesuítas, é que o P. Telles compilou a Historia Geral da Ethiopia alta ou Preste-João, impressa em Coimbra em 1660 em folh. aonde se vê o largo conhecimento que os Portugueses tinham daquele império por eles tão frequentemente praticado.

Em 1663, o P. Manuel Godinho, natural da Vila de Montalvão, e religioso da Companhia, (depois secularizado Prior de S. Nicolau de Lisboa, e por último de Loures) tendo sido mandado às missões da Índia; veio por terra a Portugal de mandado do Vice-Rei António de Mello de Castro, e segundo parece com alguma secreta e importante comissão. Escreveu «Relação do novo caminho que fez por terra e mar vindo da Índia para Portugal no ano de 1663», impressa em Lisboa em 1665 4.º 
Obra curiosa, que merece ser lida dos eruditos.
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O Cardeal Saraiva termina aqui a sua memória instrutiva. Não irá assistir, para sorte sua, ao embaraço de ter que redescobrir a África interior, por Capelo e Ivens, mas todo o seu discurso é o de quem antevia que essa situação, de rejeição estrangeira, se proporcionaria numa Europa colonial, despudoradamente repetindo como novidade o que os portugueses tinham feito há vários séculos. Esse é um assunto que ele retomará noutros textos.
A nova história maçónica, iria escrever-se com pseudo-heróis de outras paragens, sepultando no esquecimento o protagonismo português. Pior não foi o esquecimento alheio, pior foi convencer os próprios nacionais a embarcar nessa missão de celebrar intrujices, premiando sabujices.