sexta-feira, 22 de junho de 2018

O eco

A palavra "ecologia" é remetida ao grego com "oikos" (casa) e "logia" (estudo), enquanto "eco" é uma palavra grega ligada a som "ekhe".

Como o eco é uma reflexão do próprio som, o termo ecologia adequa-se bem, sem andanças gregas. 
As "logias" são justamente "lojas" de conhecimento, pelo que a ecologia enquadra uma loja de conhecimento dos ecos da acção humana. Um desses primeiros conhecimentos foi entender que ao gritar num vale, estaria sujeito a ouvir como resposta o seu eco. Da mesma forma terá rapidamente entendido que outras acções na natureza teriam um eco, um reflexo, na sua vivência futura, em particular na futura abundância ou ausência de caça.

A experiência ecológica na pré-história resultou no desaparecimento de mamutes, bisontes, leões, e muitas outras espécies existentes na Europa. A excessiva caça humana teve um reflexo, que levou ao fim dessas espécies, mais do que qualquer outra razão. Aliás, a agricultura e a domesticação, terão sido um principal factor para evitar o desaparecimento de muitas outras espécies animais.

Haveria um conhecimento ecológico primitivo?
Conforme já referi em comentário, nos aborígenes da Austrália conta-se esta história:
Tjilbruke viveu como mortal e foi um a quem a lei foi confiada. O seu sobrinho, Kulutuwi foi morto como punição de quebrar a lei, por ter morto uma fêmea emu. Tjilbruke levou então o corpo do sobrinho pela costa da Península Fleurieu até à terra Ngarrindjeri perto de Goolwa. 
Este pequeno apontamento parece mostrar uma lei draconiana na protecção das fêmeas emus, o que poderia visar evitar a extinção completa dos emus na Austrália.

Povo Kaurna - monumento a Tjilbruke e Kulultuwi, no Sul da Austrália.

Tjilbruke era um mortal a quem a lei tinha sido confiada. Mas, por quem?
De onde surgia essa lei antiga, que todos seguiam?

O que parece possível, plausível, é que o desaparecimento de espécies, por excessiva caça, tenha começado por ocorrer em ilhas próximas, na Melanésia. E que aí tenha nascido essa consciência ecológica, que teria sido depois passada às tribos australianas.

Mais do que isso. Tem sido hipótese de trabalho considerar que a origem da civilização ocidental tenha começado na Melanésia. Arriscaria falar nas ilhas de Java, Molucas ou Timor, se tal fizesse mais sentido do que outras quaisquer. Faltaria falar de todo um continente, que se estendia do sudeste asiático até à Austrália, e que hoje se encontra submerso... mas que não estava antes do degelo que terá ocorrido há 12 mil anos.

O mito de Afrodite
Na Teogonia dos deuses do panteão grego, o aparecimento de Afrodite é curioso, porque a deusa do Amor é suposta resultar da castração do Céu pelo Tempo, ou seja, de Úrano por Cronos, saindo da espuma das ondas, que a queda dos genitais provocara.

Porém a parte mais curiosa é o seu aparecimento de dentro de uma concha gigantesca.
Podemos ver isso num fresco de Pompeia, ou numa terracota do Séc. III a.C.:


Em ambos os casos se nota a dimensão exagerada da concha, que envolve Afrodite. No entanto, na segunda imagem, da terracota, podemos ver que a concha parece também sugerir asas.
Isso verifica-se em diversas outras terracotas do mesmo período (por exemplo, aqui ou aqui).

Acresce a isto a identificação de Afrodite à deusa suméria Inanna (ou Ana), que é por vezes representada com asas, conforme podemos ver na figura seguinte:
Inanna - deusa suméria encarada como equivalente a Afrodite.

Ora, podemos tomar como casual a ideia exagerada de ter uma pessoa dentro de uma concha, mas o problema é que sendo exagerado e impensável na Grécia ou Suméria, ocorria justamente nas ilhas do Pacífico:
Conchas gigantes - Palau - Ilhas Carolinas.

Dessa forma, a origem do mito grego pode perder-se na deusa suméria Inanna, mas parece ir bastante mais além, encontrando eco nas gigantescas conchas, de existência real, capazes de albergar uma criança.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Elias, e lias, Ilias

Quem visita Micenas, dito melhor, Mukenas, procura imediatamente a porta dos leões, onde tirei a fotografia seguinte, fazendo aparecer um alinhamento com o monte Sara (ou Zara).
Centrando-me mais com a porta, do que com o caminho, saliento na foto, com marcador amarelo, a semelhança alinhada entre o triângulo dos leões, com o ângulo do topo da montanha sul:
Porta dos Leões - Micenas, com o Monte Sara atrás (foto com anotações).

Micenas está enquadrada entre o monte Sara, a sul, e o monte Elias, a norte (Agios Ilias, ou Profitis Ilias), que dominam a paisagem em redor, conforme se pode ver na imagem seguinte:


Micenas - ladeada a norte pelo monte Elias, e a sul pelo monte Sara.

Este alinhamento é ainda visível no tholos, chamado Tesouro de Atreu (Agamémnon seria filho de Atreu), que está um pouco deslocado da antiga cidade. Os muros de entrada nesse suposto túmulo, alinham quase perfeitamente com o mesmo monte Sara. O alinhamento poderia dizer respeito a um eventual templo que se encontrasse sobre o monte Sara, e que entretanto possa ter desaparecido.
 
Tesouro de Atreu - um tholos, enterrado sob monte artificial, alinha, para quem se coloca 
na entrada com o monte Sara - cujo topo aparece ligeiramente deslocado à direita.

Os nomes Sara e Elias certamente se podem referir aos personagens bíblicos, não havendo grande dúvida sobre Elias que aparece com o prefixo Agios (santo/anjo) ou Profitis (profeta). Porém o nome Elias escreve-se em grego Ilias, sendo Ilios o nome grego de Tróia... e daí a obra de Homero se chamar Ilíada. Assim, não deixa de ser curioso aparecer o nome de Tróia, de Ilias, num monte adjacente a Micenas.

Um outro ponto importante é que actualmente Micenas está bastante afastada da linha de costa. No entanto, todo o relato da Guerra da Tróia é um relato de potências navais, capazes de juntar um milhar de navios para resgatar Helena. Seria bastante estranho que Micenas não dispusesse de um porto operacional, de onde Agamémnon armasse os seus barcos em direcção de Tróia.
Olhando para o relevo perto de Micenas, vemos que se trata agora de uma grande planície, mas que em tempos, com o nível do mar mais elevado, toda essa parte formaria uma grande baía, conforme podemos ver na figura seguinte:

Micenas (círculo vermelho) e o relevo circundante. Possivelmente à época da Guerra de Tróia, 
o contorno da costa, com o nível de mar mais alto, seguiria a linha azul. Ou seja, Micenas seria uma cidade costeira.

O que vemos nas construções de Micenas é ainda uma característica típica de muitos monumentos megalíticos, mais comuns na orla atlântica. Grandes pedras, megalitos, de tamanhos e formas diferentes, basicamente unidos pelo seu peso. A porta dos leões não difere muito de um dólmen ibérico. 

Ainda que a tradição tenha colocado Tróia a três dias de viagem de Micenas, mesmo com ventos fracos, a expedição que demorou 10 anos, e afastou os gregos das suas mulheres, dificilmente encontra justificação na Ásia Menor. Conforme já notámos, os gregos inicialmente foram levados para as paragens da Ásia Menor, quando ainda não sabiam onde era Tróia. Por isso, para a parte restante dessa história deixo o link da página anterior:


quinta-feira, 31 de maio de 2018

A gema de Pilos

Há quem se impressione por estruturas de grande dimensão, pessoalmente impressiona-me mais a capacidade de fazer esculturas de  reduzidíssima dimensão com grande detalhe.
Já falámos aqui dos camafeus à época romana, ou antes, ptolomaicos:


ou seja, estávamos a falar de pequenos artefactos que iam até ao Séc. III a.C.

Acontece que em 2015, houve uma escavação em Pilos, no Peloponeso grego, num sítio que lembra a baía de S. Martinho do Porto, e onde se pensa poder ter estado o Palácio de Nestor, um dos reis ao serviço de Agamémnon, na Guerra de Tróia.
Baía de Voidokilia, Pilos, Peloponeso, Grécia

No ano passado (2017), no resultado dessas escavações que puseram a descoberto a chamada "Tumba do Guerreiro do Grifo", foi apresentado um selo de 3,6 cm de comprimento, uma ágata que representava uma cena de combate, com uma qualidade surpreendente:

Selo em ágata com 3,6 cm de comprimento. A maioria dos detalhes tem menos de 1 milímetro.

Datação para esta obra de arte - anterior a 1450 a.C., e portanto estamos a falar de 1000 anos antes das primeiras obras semelhantes, já de si altamente notáveis para a época, conforme referimos a propósito dos camafeus. 
A maior parte dos detalhes nesta micro-escultura têm menos de 1 milímetro, o que implica uma precisão que dificilmente seria possível sem uma excelente lupa, e uma segurança no traço dificilmente conseguida sem a devida aparelhagem. Para fazermos uma melhor ideia, experimente-se apenas tatuar esta cena na superfície do polegar:
Um pormenor apontado, que surpreendeu os arqueólogos, foi a representação correcta e vincada dos músculos, algo que não se via noutras representações artísticas da época, nem minóicas, nem micénicas, nem egípcias, por exemplo.
A razão para apenas se ter dado atenção à ágata dois anos depois da sua descoberta, é compreensível - estava calcinada, e só uma limpeza permitiu evidenciar a sua beleza.
Além disso, haveriam muitos outros objectos, centenas de selos, muitos de ouro, representando cenas tipicamente minóicas, como o famoso salto sobre o touro:
Um selo de ouro com motivo minóico - o salto sobre o touro.

Vê-se assim uma forte influência da cultura minóica que, de Creta, passava para a Grécia continental.
Curiosamente como Pilos é transcrito Pylos, devendo ser Pulos... estes pulos taurinos deram o pulo até Pulos. A qualidade dos selos em ouro é igualmente notável, mas bastante inferior ao selo em ágata, no que diz respeito à qualidade do desenho e representação do detalhe.

Bom, e qual é a região que sempre mais celebrou este espectáculo taurino?
A pequena ilha de Creta?
Para quem visita Creta ou a Grécia, se há coisa difícil de ver... é uma presença taurina.
E se havia um rei Minos em Creta, o rio Minus era o rio Minho.

Argumenta-se que a cultura minóica de Creta influenciou decisivamente a cultura micénica, e para quem visita Micenas, não haverá grandes dúvidas de que alguns frescos aí encontrados são idênticos aos de Cnossos. Mas a questão é anterior a isso... de onde aparecia a cultura minóica? Uma cultura marítima que celebrava o touro, e que está na origem dos primeiros escritos alfabéticos...
Seria Cnossos o centro de tudo isso, ou apenas um posto avançado que dominava o Mediterrâneo oriental?

Quanto ao Estado da Arte, as pinturas rupestres de Font-de-Gaume, Lascaux, Chauvet e Altamira, tinham neste selo de ágata um digno sucessor, passados os milénios que levaram dos touros de Altamira aos touros de Cnossos.

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Aditamento: (02/06/2018)
No filme Tróia, de 2004, a primeira cena de batalha entre Aquiles e um guerreiro da Tessália, tem uma certa semelhança com a imagem da gema de Pilos. O golpe é desferido exactamente no mesmo ponto, e praticamente da mesma forma. Como o filme antecede a descoberta da gema em mais de 10 anos, seria uma notável coincidência, não fosse baseada em informações semelhantes.

O túmulo tem datação anterior à suposta Guerra de Tróia, em pelo menos um século, mas também é natural que a figura de Aquiles concatenasse mais do que um mito anterior.
Tal como a cena dos saltadores de touros, que se encontram em diversos objectos de Creta, também esta cena de batalha poderia estar representada noutros artefactos, a que os produtores do filme Tróia poderiam ter tido acesso por algum "espírito santo de orelha". De Aquiles, normalmente só se encontram nos vasos gregos, os confrontos com a amazona Pentesileia, ou com Heitor, no enquadramento da Guerra de Tróia. Mas em nada são semelhantes ao golpe desferido com a espada, indo do ombro esquerdo ao coração, conforme no filme, e conforme na Gema de Pilos.
Aquiles contra Pentesileia - vaso grego.

domingo, 6 de maio de 2018

Capitulação (1)

Um dos maiores problemas da história recente, reside nesta e noutras imagens semelhantes:

Tropas americanas mostram (1945), a civis alemães de Weimar, corpos de prisioneiros de Buchenwald.

Independentemente de outras considerações, era claro que havia um objectivo de propaganda, que iria levar a população alemã a um acto de contrição face aos crimes do regime nazi. A população alemã tinha de tal forma sido enredada na propaganda nazi, que a oposição passou de escassa a praticamente inexistente. No final da guerra, não fosse o denominado holocausto e os invasores - americanos na frente ocidental, e russos na frente oriental, não passariam disso mesmo - de invasores. Pior que isso, invasores de uma nação que, na parte visível, estava em sintonia com o seu líder, Hitler.

A mudança dramática de mentalidades deu-se justamente com a denúncia do holocausto, e a revelação de abomináveis imagens e filmes, reportando atrocidades nazis. A dose foi administrada de tal forma, que uma população que idolatrava o seu Führer, meses depois evitava a todo o custo ser ligada a ele. O apelido "Hitler" foi banido e nunca mais usado na Alemanha.

Como pela legislação europeia, adoptada em Portugal, estamos proibidos de questionar o holocausto  (como também o estaríamos, se os nazis tivessem vencido), não vou aqui discutir diferenças entre canalizações de água e canalizações de gás, a inexistência de qualquer informação a priori pelos serviços de espionagem, ou sobre o que acontece à alimentação de prisioneiros, quando os responsáveis dos campos fogem das forças invasoras, sem terem o cuidado de liquidar testemunhas.

Interessa aqui abordar as circunstâncias de uma capitulação.

Consta que num certo Monte Medulio, aparentemente contíguo ao Rio Minho, perante a inevitável derrota perante as forças invasoras romanas de Augusto, que o cercaram num fosso de 15 milhas, a população optou pelo suicídio colectivo. E, como nesse suicídio colectivo, levaram consigo mulheres e filhos, não nos ficaram descendentes dessa têmpera... Ora, esse é um problema com têmperas radicalizadas - ao longo do tempo vão sendo desbastadas pelo seu próprio radicalismo.

Qual seria a alternativa? Provavelmente o cativeiro e escravatura, pois nessa altura (22 a.C.) já os Lusitanos, e a quase totalidade de Hespanha, estavam rendidos à civilização romana, usufruindo dos seus munícipios com estatuto semelhante aos de Itália.

Bom, mas passemos para tempos mais cristãos.
Não passaria pela cabeça de ninguém colocar os alemães como escravos no Séc. XX... havia ainda a noção de colónias, e por isso inicialmente a Alemanha foi dividida em 4 zonas de administração, entregues aos vencedores... já que a França foi entendida como vencedora, apesar de Pétain.
Mesmo assim, até à constituição da República Federal Alemã (reunião das zonas francesa, inglesa e americana) e da República Democrática Alemã (zona russa), os alemães ficaram durante 4 anos numa situação periclitante, nomeadamente nos territórios alemães reclamados pela Polónia, onde foram colocados em campos de concentração até ao seu retorno a uma das Alemanhas. Assim, o número de vítimas alemãs nos campos de concentração polacos, devido a doenças, fome, espancamentos, etc... não foi pequeno, e foi comparado pelos alemães ao que se tinha passado nos seus campos de concentração.
Dos possíveis 15 milhões de alemães afectados, foi feito um balanço de 2 milhões de mortos nesse processo de fuga e expulsão dos alemães dos territórios polacos:
Há quem baixe a estimativa para meio milhão de mortes, mas seja de que forma se queira, o balanço é tenebroso para o período de 1944-50, essencialmente em tempo de paz.

Digamos ainda que, se Hitler deixou Paris, e cidades francesas, com os seus monumentos intactos, os aliados deixaram aos alemães o trabalho de reerguer pedra por pedra, grande parte das suas cidades,  e monumentos, destruídos pelos bombardeamentos constantes e arrasadores.
Bom, mas Hitler nunca capitulou... ou nunca se rendeu incondicionalmente, admitindo que a tentativa de Rudolf Hess, de tentar negociar a paz em 1941, não tinha o acordo de Hitler, e que a prisão de Spandau, não fez parte de um ballet que silenciou Hess.

A questão é justamente essa... que circunstâncias são aceitáveis para uma capitulação?
São praticamente as mesmas que são aceitáveis para uma entrada em guerra.
Simplesmente, o que antes era inaceitável, passa a ser aceitável. 
Em última análise, a realidade força a que o seja. 
As tribos do Monte Medulio rebelaram-se contra a realidade, negando-a pelo seu suicídio.
A Alemanha perdeu definitivamente a guerra, quando abraçou com sucesso o modelo de sociedade capitalista, que o regime nazi abominava.
Mas seria possível à Alemanha, decadente no Regime de Weimar, humilhada após a 1ª Guerra Mundial, passar com sucesso para o regime capitalista, sem a intervenção brutal de Hitler?
Seria possível convencer os alemães, que há séculos viviam em territórios, agora polacos, a abandoná-los e regressar à Alemanha, sem nada?
E no entanto, tudo isso foi e é aceitado hoje, depois da 2ª Guerra Mundial.
Seria agora pensável dizer aos polacos para abdicarem desse território, para o devolverem às famílias alemãs expatriadas?

Como não há uma deliberação justa, acordada por todos, entre o que é aceitável e o que é inaceitável, o recurso a termos de guerra foi o estabelecido como prática salutar desde a Guerra do Trinta Anos. Pelo menos... dado que antes ainda se reconhecia alguma deliberação aceitável, no papado em Roma, o que também não evitava várias guerras.
No entanto, a deliberação do papa Borja (ou Bórgia), em dividir o planeta entre Portugal e Espanha, foi praticamente o fim dessa credibilidade mínima.
Ao invés de enviarem os seus lóbistas para a cúria romana, a nova ordem internacional preconizou que tal entendimento passaria a funcionar dois a dois, criando uma necessidade extraordinária de embaixadores, para as despesas diplomáticas. 
É esse sistema que permanece, algo misturado com uma função papal das Nações Unidas, que pouco mais faz do que manter a ideia de uma necessidade de consenso alargado, que manifestamente não é pretendida por todos. 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Quinhentos

Contabilizam-se 500 textos que aqui fui publicando neste blog.

Ainda pensei em escrever algo, como um pequeno resumo, mas dada a época entre o 25 de Abril e o 1º de Maio, optei por deixar aqui um pequeno questionário acerca do 25 de Abril...
São 16 questões a lembrar o 16 de Março, quase sempre esquecido, nestas festanças.
As respostas... bom são praticamente quase todas válidas, e para mais informações basta consultar alguns textos que fui deixando, e cujo link deixo no final.

1. O 25 de Abril é:
a) O dia da revolução militar portuguesa.
b) O dia de São Marcos em Veneza.
c) O dia da Batalha de Gallipoli (1ª Guerra Mundial) - "ANZAC day".
d) O dia da Libertação em Itália (2ª Guerra Mundial).

2. Os cravos vermelhos são símbolo:
a) Da revolução portuguesa.
b) De São Marcos na cidade de Veneza.
c) Da Batalha de Gallipoli (1ª Guerra Mundial), pelo lado turco.
d) Da Libertação em Itália (2ª Guerra Mundial).
e) Da Libertação de Viena (2ª Guerra Mundial).
f) Da City de Londres (centro financeiro).

3. Giroflé, Giroflá, é:
a) Uma canção infantil portuguesa.
b) O cravo (especiaria) em francês diz-se giroflé.
c) Uma opera bufa francesa, estreada 100 anos antes (1874).
d) Uma canção revolucionária francesa contra Hitler.

4. Os milhares de cravos do 25 de Abril vieram:
a) Da Celeste, empregada no Franjinhas (Franjinhas - ver Carrossel Mágico)
b) Do jardim da Celeste, conforme as rosas no Giroflé, Giroflá.
c) De um contentor trazido pela Esquadra STANAVFORLANT da NATO.
d) Do Chile, porque em Abril não havia ainda cravos em Portugal.

5. A Esquadra STANAVFORLANT da NATO estava em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974, porque:
a) Fazia parte do plano traçado, e não teve qualquer relação com a revolução.
b) Os marinheiros queriam ir ao Texas Bar no cais do Sodré.
c) Fazia parte da comemoração dos 25 anos da NATO, celebrados a 4 de Abril.
d) Para assegurar que as fragatas portuguesas não disparavam sobre Salgueiro Maia.

6. O Cruise Book do USS J. A. Furer, da sua passagem em Lisboa em Abril de 1974, destaca:
a) A comemoração dos 25 anos da NATO.
b) O Texas Bar.
c) As touradas.
d) A revolução de 25 de Abril.

7. Algum navio obrigou à inacção do comandante Louçã (pai), da fragata Gago Coutinho?
a) Nenhum navio da NATO interveio no 25 de Abril.
b) O navio HMCS Assiniboine da marinha Canadiana.
c) Nada disso aconteceu, porque não está no filme da Maria de Medeiros.
d) Nada disso aconteceu, porque em 44 anos, não passou na TV, nem sequer na RTP 2.

8. O que foi a operação "Patrulha da Madrugada" - em 25 de Abril de 1974:
a) Um exercício aeronaval da NATO, usando o porto de Lisboa e a base do Montijo.
b) Uma operação militar da NATO que protegeu a insurreição militar de Salgueiro Maia.
c) Uma coincidência, que nada teve a ver com o 25 de Abril.
d) O recolher dos marinheiros da NATO que ainda estavam no Cais do Sodré.

9. Com a presença das forças da NATO, o que fizeram Otelo e Salgueiro Maia?
a) Continuaram com a operação conforme planeado.
b) Enviaram SMS com emojis sorridentes por telemóvel a cada comandante da NATO.
c) Escreveram "NATO é fixe" em cada chaimite no Terreiro do Paço.
d) A Dona Celeste foi enviada a cada navio, garantindo que não era um golpe comunista.

10. Por que razão não funcionou o Golpe da Caldas a 16 de Março?
a) Porque as forças do MFA não estavam ainda bem coordenadas.
b) Porque a esquadra da NATO estava ainda longe, e não protegia a malta revoltosa.
c) Porque faltaram tomates aos que não saíram das Caldas.
d) Porque a Dona Celeste disse que cravos em Março daria para se desconfiar.

11. O que aconteceu a quem comandou o Golpe das Caldas?
a) Foi preso.
b) Foi preso, e o cabeleireiro anunciou-lhe que a 27 de Abril estaria livre.
c) Nunca mais se lembraram dele nas comemorações do 25 de Abril.
d) Ficou sem perceber por que razão só a coluna das Caldas chegou a Lisboa.

12. Um principal motivo da revolta dos capitães foi:
a) A guerra de África e o estado a que tinha chegado o país.
b) Uma lei que equiparava oficiais milicianos a oficiais de carreira.
c) Ameaças ao seu percurso profissional, e aos privilégios que tinham na carreira.
d) Acabar com a fome em África, e com as guerras no mundo.

13. Quando foi a reunião Bilderberg, e quando chegaram os navios da NATO?
a) Terminou a 21 de Abril, e quase todos os navios chegaram a 23 de Abril.
b) À reunião Bilderberg enviou Spínola o director da Lisnave, que falou com o chefe da NATO.
c) Isso são coisas de teorias de conspiração, de malucos, e que não interessam para nada.
d) O chefe Bilderberg andava sempre com cravos na lapela, e devem ter sido trazidos pela NATO.

14. Os E.U.A pediram ao General Franco para intervir militarmente em Portugal?
a) Foi assim relatado no livro "Carlucci vs. Kissinger. Os EUA e a Revolução Portuguesa".
b) Quando a revolução ficou demasiado encarnada, foi pedida a intervenção militar espanhola.
c) Kissinger pretendia o remédio usado no Chile, Carlucci acreditou que o PCP não tomaria o poder.
d) Face a Kissinger, com o Nobel da Paz, o General Franco mostrou a sapiência de velho guerreiro.
e) Isso não foi no País Basco, ou na Catalunha?

15. Que canção despoletou o 25 de Abril?
a) "E depois do adeus", de Paulo de Carvalho, vencedora do Festival RTP da Canção.
b) Waterloo, dos Abba, que ganhou em 1974, enquanto o Paulo de Carvalho ficou em último.
c) "Grândola, vila morena" de Zeca Afonso, é que foi a senha de confirmação.
d) Waterloo, e os Abba escreveram depois "Fernando", bem adequada a Salgueiro Maia.

16. O que significa cravo encarnado?
a) Cravo encarnado é o símbolo do 25 de Abril.
b) Cravo é uma especiaria. Encarnado é a cor do sangue.
c) Cravo é um prego. Encarnado é aquele que encarna na carne.
d) Os cravos fizeram as chagas de Cristo, que foi encarnado em Jesus.


Referências:

sábado, 21 de abril de 2018

Sicano e Beltano

Aproxima-se o festival Beltano, no dia 1 de Maio, que tem longas tradições célticas, anunciando o estabelecimento da Primavera, ou melhor, do seu meio. Na Irlanda, em Gales, e noutras paragens com forte tradição celta recuperada, as comemorações são múltiplas, e incluem as fogueiras, que associamos mais à passagem ao Verão, na noite de S. João (ver o outro terço, tirso).
Fogueira em festival Beltane em Gales, 2015

A ligação é feita à divindade celta Belenos, associada ao Sol, e depois identificada a Apolo.
Há um festival seguinte, no Verão, dedicado a Lugh, outra divindade celta, que pode estar na origem do nome Lusitânia, e onde ainda falámos da sua ligação à peregrinação celta a Lugo, depois mais catolicamente transformada em peregrinação a Santiago.

Tal como falamos em Sicrano e Beltrano, remetemos então a Sicano.
Curiosamente, o Google inquiriu imediatamente se não procurava "cigano", o que me pareceu uma sugestão pertinente...

Sic Ano é nome de rei na mitologia da "Monarquia Lusitana", de Bernardo de Brito (e de muitos outros). Seguindo a sua lista de capítulos, lembramos:

Cap. 12: Do tempo em que Hércules reinou em Espanha, e dos favores que sempre fez aos Lusitanos.
Cap. 13: Do tempo em que na Espanha reinaram Hespero e Atlante Italo, das guerras que entre si tiveram, e da fundação de Roma, feita por gente Lusitana.
Cap. 14: Do tempo em que reinaram em Lusitania Sic Oro (Sicoro), filho de Atlante Italo, e seu neto Sic Ano (Sicano), com algumas coisas particulares, que em seu tempo sucederam.
Cap. 15: Do reino de Sic Celeo (Siceleu) e de Luso em Espanha, e de como esta parte Ocidental se começou a chamar Lusitania, como muitas outras particularidades acerca desta matéria.
Cap. 16: De como Sic Ulo (Siculo) começou a governar o reino de Lusitania, e das coisas que lhe sucederam, durando seu Império, dentro e fora de Espanha.

Os nomes Sicano, Siceleu, Siculo, remetem todos à Sicília.
Na realidade os Sicanos são entendidos como primeiros povoadores da Sicília, e a sua origem é ibérica. Também é considerado que esses Sicanos entraram na península itálica (ver p.ex. aqui), e instalaram-se na região da Lácio, podendo estar na origem de Roma. Claro que na Monarquia Lusitana, a coisa é ainda mais explícita, e a fundação de Roma é entendida mesmo como tendo origem Lusitana. Roma seria o nome da filha de Atlante Italo (nota: as páginas da Wikipedia sobre a Monarquia Lusitana foram escritas por mim, de forma que esta referência é circular).

O nome Fulano, sendo de origem árabe ("fulan" significa "alguém"), e sendo usado em Espanha mais frequentemente, passou a usar-se em Portugal, após o reinado dos Filipes (pelo menos não o encontrei em textos portugueses antes disso).
Assim, falar-se de Fulano, Sicrano e Beltrano, remete a três invasores da Península Ibérica - os mais recentes, os fulanos (de origem árabe), antes os sicanos (na origem romana), e ainda antes disso, os beltanos (na origem céltica francesa) - que repetiram depois a graça, com Napoleão.

Os territórios de influência céltica confundem-se com a distribuição genética do Haplogrupo R1b, talvez com excepção da zona basca... Apresenta-se um mapa interessante relacionando o R1b com a cultura "Bell Beaker" - vasos campaniformes:
Mapa em Eupedia (esquerda), e influência celta pré-romana (atingindo a Galatas Turca)

Há uma forte corrente sugerindo que a cultura Bell Beaker se difundiu a partir da Estremadura portuguesa... porque os registos mais antigos (c. 2800 a.C.) foram encontrados aí. Se tivesse sido na Extremadura espanhola, a teoria teria mais adeptos... assim, o mais habitual é ver esta teoria ser defendida por não-portugueses. É algo a que nos habituamos. Mas, como é hábito nos últimos séculos, mantêm-se ferozes críticas contra origens vindas da península ibérica, sendo claro que há tradições irlandeses e escocesas que remetem a sua origem a estas paragens.

O principal problema é que na península ibérica, restou pouco da tradição e língua celta... admitindo que a língua celta é o que é suposto ser, e não aquilo que foi. Na minha opinião, poderá ter havido uma movimentação celta, marítima, que partiu de Portugal para a Europa Ocidental, e que depois tomou formas diferentes, em cada local. Ao ponto de que os celtas franceses, que entraram na Ibéria há 2500 anos, com cultura Hallstatt, já tinham perdido a ligação original, e o mesmo teria acontecido com os sicanos da Lácio, de Roma. No entanto, em termos linguísticos, os romanos da Lácio poderiam ter algo em comum com os povos da Ibéria - a origem do latim e da língua romana.


terça-feira, 10 de abril de 2018

dos Comentários (36) a cana dá - Canada e Canadá

Junto aqui um texto de David Jorge que me chegou por email há uns tempos, e que só agora tive oportunidade de partilhar, com a autorização do autor.

Começa com uma comunicação do Almirante Gago Coutinho, que tinha lido há 8 anos atrás, mas a que nunca fiz aqui referência. É claro que a projecção mediática de Gago Coutinho era muito grande na altura, tendo sido altamente propagandeada a sua travessia aérea do Atlântico Sul, mas também não foi por isso que as suas dúvidas sobre a prioridade das explorações portuguesas na América ficaram na história. 
Já muito antes, Faustino da Fonseca, em Portugal, e Garcia Redondo, no Brasil, tinham compilado uma quantidade enorme de informação, conforme relatei aqui:

... e mais concretamente registam que os mapas de Andrea Bianco têm afirmada a existência das "Antilias" em 1436, e reafirma a existência do Brasil em 1448. No entanto, dão como primeira presença portuguesa nas Antilhas, a de Afonso Sanches (antes de 1483). Antes disso já teria existido a viagem de João Vaz Corte-Real, em 1472. 
Talvez ainda mais curiosa é a ligação de Martin Behaim a uma viagem de João Afonso do Estreito... cujo apelido "do Estreito" é suposto vir de uma aldeia madeirense. Viajou com Fernão Dulmo, na proposta de explorar a América a Ocidente, projecto financiado por D. João II... sim, o mesmo rei que recusou depois essa ideia original de Colombo!

Bom, interessa a passagem de Gago Coutinho que diz:
Como estes navegadores são em espírito açoreanos, deduz-se que era exactamente nos Açores onde a suspeita de terras de Oeste era mais forte, fundada naturalmente no facto de lá irem dar à costa frequentes vezes detritos vegetais, que a corrente do Gulf-Stream trazia do Golfo do México.
Esses detritos poderiam ser também canas do Canadá, ou por essa ponta segue o texto de David Jorge.

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______________________ David Jorge, email em 19 de Março de 2018 _____________________

Sobre Cortes Reais
Faço o meu comentário ao seu post recente "Teatro dos Descobrimentos (2)" pois tenho um anexo que ainda não coloquei na biblioteca, pois estou a criar uma apenas para monografias.

Numa tentativa de juntar um pouco mais de informação ao seu artigo, anexo um documento com o título:

em Julho de 1933, segundo seu autor o ALMIRANTE GAGO COUTINHO

Poderá ver aqui que Gago Coutinho estudou e apresentou uma tese com o ponto de vista de quem conhece o mar e os ventos para de que modo Gaspar ou Miguel terão chegado às costas norte americanas utilizando a volta do mar.

Todo o ensaio parece-me muitíssimo interessante, no entanto destacaria da página 16 adiante para entendermos melhor a sua conclusão.

Relativamente ao Canada
Antes de mais aviso, que este texto é de opinião e ainda não tem a justificação factual suficiente que o comprove na integra.
Quero explicar porque escrevo sempre Canada e nunca Canadá.
Não tem propriamente a ver com o inglesismo do termo mas sim com o que me parece a verdadeira origem da palavra.
(...) 
Posso afirmar, que conheço os nome de alguns dos grupos de povos das First Nations que habitariam o Nordeste da America do Norte por volta do século XVI, e que nunca em momento algum foi ou em qualquer das escolas que frequentei, ouvi falar ou estudei, que em tempos remotos existiu uma tribo de Canadaas ou de Kandaas. 

Dos grandes grupos de "First Peoples" do NordEste da América, por volta de 1500, fariam parte além dos Mi'kmacs (notar que o Nasi era Micas em Portugal) - que foram dizimados devido a uma mistura com os europeus de tal forma que hoje em dia pouco resta da sua cultura (e o que há é contado já depois da ocupação Inglesa), os Iroquois apoiantes ora de Ingleses ora dos Franceses, perduraram, os Algonquins que fugiram para o norte para sobreviver aos "invasores", e, no interior do Rio São Lourenço (notável ter o mesmo nome da ilha de Madagascar), onde hoje se encontra a província do Ontário, poder-se ia encontrar o grupo dos Hurons homenageados pelos Ingleses com o nome de um Lago.

O wikipedia lista as diversas tribos destes grandes grupos no seguinte link: 
onde podemos verificar a total ausência dum Canadaas ou Kandaas ou algo a que se assemelhe a Canada.

Há no outro lado o atlântico um grupo cultural, os Haida, famosos pelos seus totens e reconhecimento por serem grandes navegadores do pacifico.

De entre os grupos nativos mais virados para o mar, os Haida além de pescadores exímios eram também excelentes na construção de embarcações e tal como os povos da Polinésia, também tinham o objectivo de colonizar ilhas, ocupando o grande arquipélago de ilhas da Colômbia Britânica quase a 80%.

A razão por lembrar os Haida ("povo" do mar) é porque existe um termo "Canuck", usado na costa oeste para descrever o "Canadiano Francês" ou o "Holandês Canadiano" pelos ingleses (agora "americanos"), e por se tratar de uma palavra que poderá ter ascendência nativa da palavra kanata (com tradução para vila ou abrigo). [segundo a wikipedia]

Assim os Kanucks, das kanatas, teriam (segundo também a wikipedia) "roubado" a expressão aos Havaianos onde Kanaka (significa o mesmo que kanata). 
Temos Kanakas no Havai, temos Kanatas na Costa Oeste do Canada e temos Kanataa como a razão pelo qual se chama Canadá ao Canada.


 
Típica casa Havaiana

Chegamos então ao Canada sem assento.
Nos açores, todos conhecem as canadas e o priberam descreve-as como:

1. Azinhaga, atalho.
2. Fila de estacas, através de um rio, para indicar o vau.
3. Sulco formado pelas rodas dos veículos.
4. Faixa de terreno baixo, mais ou menos em forma de canal.


Como portugueses sabemos que as canadas servem para abrigar, além de delimitar, ou de encaminhar.

Seguem-se imagens das algumas reconstituições de aldeias e (paliçadas) dos povos das primeiras nações do Canada e dos EUA.


Forte Algonquin (Forte Inglês dos Algonguins)

Layout esquemático de como seria a aldeia Algonquin antes da colonização.

Layout de uma vila típica Huron ou Iroquois

Layout de uma Vila Huron ou Iroquois

Reconstituição de uma aldeia de Hurons, Iroquois ou Algonquin. 
(Repare-se nas “Paliçadas”)

Outra reconstituição arqueológica, semelhante à que visitei em Sault Saint-Marie no Canadá.

Aspeto idealizado de uma aldeia no Nordeste da América do Norte.

Em todas as imagens temos uma "paliçadas" a que podemos chamar "canadas" que protegem as vilas.

Por outro lado temos as vilas posicionadas sempre junto a um curso de água, normalmente um rio com vários tributários que em termos de segurança eram um meio de escapatória em caso de ataque por uma outra tribo, assim como as "as vias de comunicação e transporte".

Um Português que chegasse à desconhecida costa NordEste da América do Norte, descreveria o território pelas suas vias navegáveis se fosse do continente, pois estaria habituado a esse tipo de navegação e faria a ligação a "casa" e descreveria o território como um território com milhares de ilhas, na verdade um numero incontável.

Um Português dos Açores, associaria o vislumbre destes territórios não pelos rios navegáveis, descreveria sim as ilhas, e o que lhe pareceria mais comum além das ilhas, os povos, que morariam em aldeias, protegidas por "canadas" tal como o terrenos de cultivo dos Açores.


Canadas a Trilhos a “Trails”
É notável relembrar que canadas são também trilhos, e o Canada é um país repleto de trilhos (de notar que “Trail” EN, nada tem a ver com C A N A D A, assim como “Sentier” ou “Piste” em FR, no entanto tanto “canada” PT como “cañada” em ES têm tudo a ver.

Os povos nativos do Canada não teriam estradas, por essa razão faria sentido também reconhecer que, para qualquer lado que se fosse nestes territórios ter-se-ia de seguir, por exemplo a “canada” grande (the great trail) ver no wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Trail

Repare, que embora os povos da costa negociassem matéria prima diferente dos povos do interior, as peles e milho vindas do interior do território teriam de chegar à costa por terra pelas canadas.


Canas que Chegavam aos Açores
Para finalizar, relembro que Gago Coutinho menciona as "canas" que chegavam aos Açores.

Eram trazidas pelas correntes, desde os rios da América do Norte até à costa dos Açores (ainda hoje isso acontece).
O vislumbre dos exploradores ao reconhecerem algo que apenas chegava às suas “terras” em alturas de temporal, deve ter sido digno de um “eureka”.  

Assim, o mistério da origem dos detritos que flutuavam até à costa dos açores, tinha agora uma origem conhecida.
Este era o território de onde as canadas que os açorianos recebiam na costa vinham.

[Anexo artigo da wikipedia sobre uma canada nos açores - Canada do Graciosa ]

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Aditamento: (14/04/2018) 
Em comentário a este texto, João Ribeiro salienta a semelhança com as cabanas, choupanas, e choças, apontando para o programa de J. Hermano Saraiva no Museu de Etnologia:


e ainda para um outro link acerca da "Choça do Pastor".

Sendo evidente a semelhança no aspecto e material de construção, merecerá cuidado perceber até que ponto há ligações na forma da estrutura e técnica de construção. Certamente que tal reflexão não terá escapado aos estudos antropológicos, se notarmos ainda semelhanças com as chamadas "Palhotas" africanas, que existem sob diversos aspectos, mais ou menos comuns, entre diversos povos, desde os aborígenes australianos, aos indígenas da Papua e Nova Guiné, até aos índios da Amazónia.

Pode ser apenas uma semelhança de solução, encontrada independentemente, ou pode ser um legado comum, passado desde os tempos mais primitivos.

Aditamento (2): (24/04/2018)
Em comentário, aparece um texto do Dr. Manuel Luciano da Silva, extraído do livro - "Cristóvão Colon, [Colombo] era português":
Tenho uma ideia diferente do nome "canada" ou "canadá". Revendo os mapas da cartografia portuguesa e os documentos antigos que se referem às Terras dos Bacalhaus, verificamos repetidas vezes que estas terras eram chamadas: Terras dos Cortes Reais, Terra do Labrador, Terra de Estêvão Gomes e Canadá! João Vaz Corte Real era natural de Tavira, Algarve, Portugal, onde tinha propriedades chamadas Canada.Perto de Tavira existe uma placa na estrada indicando o primeiro local no Mundo chamado Canada.A origem do nome Canadá vem do nome CANADA, das terras que eram propriedade dos Cortes Reais na cidade de Tavira, no Algarve, Portugal. Canada é o nome dado a uma pequena ribeira com canas - daí o nome canada - mas que depois se expandiu para significar uma passagem estreita e ventosa. Na ilha da Terceira, Açores, existem muitas canadas nomeadas pelos Cortes Reais. Estes navegadores fizeram a mesma coisa no Canadá.Os educadores e historiadores do Canadá deviam verificar estes factos e ensinar a VERDADE à juventude canadiana e a todos os cidadãos canadenses, em vez de estarem a ensinar erradamente, favorecendo os colonos ingleses e franceses que chegaram muito tarde!É realmente uma pena que os lusos canadianos não brandem aos céus e façam valer os seus direitos em reclamar na imprensa, rádio e TV do Canadá, afirmando que a primazia das descobertas daquela Nação foram feitas por portugueses idos dos Açores! Todos os canadianos deviam ter orgulho na sua Pátria ter sido descoberta pelos portugueses, pois eles foram, sem dúvida, os campeões das descobertas marítimas mundiais!


domingo, 8 de abril de 2018

Fim da Evolução - Sentinela Sul

Não muito longe da ilha Sentinela Norte, está, a ilha Sentinela Sul:


... com uma pequena diferença - esta ilha é muito mais pequena, e está desabitada.
Enquanto a ilha a norte tem aprox. 50 Km2, a ilha a sul não chega a ter 2 Km2, e provavelmente nunca reuniu condições para a sustentabilidade de uma pequena população indígena.

A próxima afirmação seria lacónica:
- Num ponto de vista universal, as espécies na ilha norte e na ilha sul, poderiam contribuir o mesmo para o conhecimento universal.

A novidade para o conhecimento universal não se trata de possuir mais ou menos tecnologia, porque no final de contas, tudo isso se resume a pouco, no sentido em que haver animais capazes de autênticas obras de engenharia civil, como as térmitas, não significa que esses animais procurem mais ou menos o sentido do universo que os envolve. Não é a tecnologia ter parado na Idade da Pedra, que é o problema principal.
Para esse tipo de mistérios, as sociedades tribais começaram por desenvolver a religião, e só depois, com aparecimento das civilizações, desenvolveram a ciência.

Dos Sentineleses não se conhece nada sobre a religião, mas os Onge e Jarawa têm uma religão, e será de suspeitar que possa ser similar.
Os Onge consideram as suas ilhas como centro de um universo dividido em 6 camadas inferiores e superiores, onde habitam seres responsáveis pelos fenómenos visíveis - por exemplo as monções são assim justificadas. Consideram que estes seres produziram o Sol e a Lua, que são simples discos, ao contrário de considerarem que o Sol é casado com a Lua e que as Estrelas são os filhos, como acontece com os Jarawa. Não têm o conceito de uma divindade completamente boa ou má, nem noções de Céu ou Inferno, nem acham que os espíritos são imortais... provavelmente vão passando de camada em camada. Mais curiosamente, achavam que o homem branco era um espírito desse mundo na camada superior. Não seria muito diferente de uma religião onde os espíritos onkoboykwe funcionariam como americanos - popularmente responsabilizados por todas as novidades que apareciam.

Interessa que têm uma explicação para o seu universo, explicação que tem tanto de irracional, quanto as múltiplas outras religiões que se foram formando, e ganhando adeptos, em todo o mundo.
O problema de todas as religiões é sempre o mesmo - não há só uma, porque não há nenhuma razão racional para existir apenas uma, quando as razões de fé são tipicamente irracionais. Basicamente são um folclore artístico literário, que podemos achar mais ou menos interessante. Por exemplo, a religião grega envolvia histórias absurdas, insólitas ou macabras, mas com um substrato interpretativo que pode ser bastante interessante.

A religião serve o propósito de explicação universal, mas existindo milhares de religiões com explicações alternativas, e sem qualquer base de verificação se uma ou outra faz mais sentido racional, acabou por desenvolver-se a ciência como religião única, não dependente da criatividade do contador de histórias, ou da sua capacidade de convencimento.
Infelizmente, a ciência foi caindo num esquema pouco racional, e parece preciso usar uma palavra diferente, racionalidade, para a distinguir dos vendedores de banha da cobra, que abundam na ciência dos nossos dias, sobretudo a partir de Karl Popper (inclusive).

Uma ilha chamada Terra
O que vemos nas ilhas Sentinela, não será muito diferente de uma ilha no espaço - que é a Terra.

Admitindo que a população da ilha norte tinha encontrado um equilíbrio na sua relação com a natureza, não sentido necessidade de evoluir, estando "satisfeita" com a sua vida... não sentiria as necessidades que normalmente atribuímos à espécie humana - uma permanente inconformidade, ou insatisfação com a ausência de respostas.

Ou a população dispensou essa necessidade de justificação, ou tem-na desenvolvido e mais ninguém sabe! Como parece que não a tem, e não evoluiu na sua busca de explicação, então funciona para o universo como qualquer outra espécie animal, satisfeita com o seu lugar na natureza. Dali não se espera mais, e nem parece sair mais, do que uma repetição ancestral, de muitas centenas ou milhares de anos. E reafirmo, o problema não será na evolução tecnológica, embora creia que uma coisa não se faz sem a outra.

Entendendo a Terra da mesma forma, numa altura em que a pressão social, da hierarquia existente, tende a abafar tudo o que não seja politicamente correcto, caminhamos para uma situação que poderá visar uma estagnação, no sentido de manter a ordem social conforme está. Uma espécie de feudalismo moderno, que poderá remeter para tempos de trevas, onde a liberdade de pensamento será um inconveniente a evitar. Nessa situação, mesmo que nos iludamos com mais uns tantos brinquedos tecnológicos, a estagnação filosófica será garantida pelo politicamente correcto, e em muito pouco iremos diferir da estagnação na ilha Sentinela Norte, ou na ilha Sentinela Sul... ou seja, o ponto de vista universal, passaremos a ser totalmente dispensáveis, para a sua explicação.

domingo, 25 de março de 2018

Fim da Evolução - Sentinela Norte

Uma das simples questões que não tem uma resposta simples, é por que razão houve tribos que não evoluíram, e praticamente ficaram estagnadas no Paleolítico? - É daquelas questões em que o "politicamente correcto" aconselha a não responder, porque arriscamos a ser mal entendidos.

Um caso particular, diz respeito a uma tribo completamente isolada, no Oceano Índico, no Arquipélago Andamão, tribo que terá entre 50 a 400 pessoas, e que domina a pequena ilha Sentinela Norte, com uma área pouco superior à ilha do Porto Santo.

Desde 1880 foi registada a primeira tentativa de contacto, com o desembarque de um navio inglês, mas com infrutíferos resultados, um contacto nunca foi estabelecido -  ou porque a resposta era extremamente violenta (na maioria dos casos), ou porque os indígenas desapareciam na floresta, quando um desembarque era feito. Há alguns vídeos que ilustram respostas agressivas, e em 2006 dois pescadores acabaram por ser mortos. Aparentemente, o tsunami de 2004 não os afectou, e quando um helicóptero avaliava os danos, foi recebido a tiro de flechas. 


A Índia que administra a ilha, organizou um contacto mais amistoso em 1991, e acabou por decidir declarar a zona proibida, deixando os nativos à sua sorte... conforme terá acontecido nos últimos milhares de anos.  

Não é caso único... e há uma lista razoável de mais de uma centena de tribos que resistem ao contacto "civilizacional", muitas das quais no Brasil, na selva amazónica.

De um modo geral, estas tribos chegaram pelo menos ao estado fulcral que determinou o ascendente humano face ao meio-ambiente - o arco e a flecha. Mesmo sendo desconhecida, todas as tribos têm alguma espécie de língua, têm habitações rudimentares, mas no caso da Sentinela, não têm agricultura e julga-se que nem sequer dominam o fogo.

Fim da Evolução...
O problema que se coloca nestas tribos é a ausência de passo seguinte... foi como se tivessem atingido um estado de harmonia com a natureza, e entre si, que lhes prescindiu evoluir.
O problema que se coloca, em oposição, será perceber se a evolução civilizacional, que se desenvolveu na restante parte do mundo, teria ocorrido?
- É aqui que se coloca uma resposta simples, tão típica do Séc. XIX, que argumentaria que nem todas as raças estariam predispostas a uma evolução civilizacional.
Não me parece que essa abordagem simplista seja minimamente satisfatória.

Para chegar ao estado estável do "arco e flecha", que permitiu viver com considerável desembaraço, houve razoáveis passos evolutivos, e não haveria razão aparente para terminar ali a "evolução".
Mas a pergunta surge de outra forma - haveria então razão para continuar a "evoluir"?

No caso da ilha da Sentinela, sendo esta suficientemente rica para fornecer sustento a uma centena de habitantes, que assim entraram em equilíbrio no ecossistema, o problema maior seriam as relações dos habitantes entre si. Tendo desenvolvido um conjunto de tradições culturais, que resolvessem de forma satisfatória esses problemas entre si, a situação poderia ficar estável. Tanto mais que, por razões de espaço numa pequena ilha, não havia propriamente possibilidade de desenvolver dois clãs, que se opusessem. A economia ainda que hierárquica, seria comunitária, de completa partilha familiar - sendo certo que todos os elementos seriam pelo menos primos entre si.

Ou seja, é perfeitamente aceitável considerar que a evolução da tribo parasse quando não tinha razão objectiva para exigir novos desenvolvimentos tecnológicos. Como isso ocorreu em diferentes tribos, de diferentes raças, não parece que tivesse qualquer motivo genético profundo. Aliás, também nos anos 60, com certas comunidades hippies, se desenvolveu uma ideia anti-evolutiva, no sentido de comungar em sintonia com a natureza, em economia de partilha.

Tradição
O aspecto crucial que determinaria a necessidade de continuar, ou não, a evoluir, seria uma tradição enraizada na sociedade. Para um aglomerado pequeno, com uma história de sucesso na sua sobrevivência, como no caso da ilha Sentinela, a tradição impor-se-ia de forma determinante, e as inovações seriam vistas como novidades ameaçadoras ao equilíbrio alcançado. A educação dos jovens seria feita nesse pressuposto, e por exemplo, uma expansão para além da ilha seria possivelmente vista como indesejável.
Assim, apesar da criatividade ser possivelmente educada como inconveniente, isso não significaria que os elementos da ilha não tivessem possibilidade de exibir a sua criatividade, fora das circunstâncias tradicionais em que tinham sido educados. 
Aliás, não é difícil associar os períodos de maior estagnação criativa exactamente aos períodos em que a educação social era mais dirigida ou condicionada por uma tradição dominante. Aconteceu isso durante o período medieval, quer ocidental, quer oriental, na China.

O fim de uma evolução não é necessariamente marcado por uma imposição contra as pessoas, é sobretudo conseguido numa forma de acomodar as ambições da população ao que estas podem obter na sociedade.
Quando as ambições eram limitadas à ilha de Sentinela, uma pequena população familiar pode satisfazer e limitar os seus desejos áquele espaço abundante, mas quando as ambições ultrapassam o pequeno cenário familiar, então a Terra foi-se revelando um pequeno espaço para tanta ambição, e a evolução teve que prosseguir sem limites.