quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Lendas da Micronésia

Por acaso encontrei o livro "Micronesian Legends" que reúne alguns interessantes mitos do "micro" arquipélago que se estende por um largo território no Oceano Pacífico.
"Micronesian Legends" (2002) - B. Flood, B. E. Strong, W. Flood 
Micronésia

O livro começa com uma referência ao "Suicide Cliff" na ilha de Saipan, cujo nome se deve ao que aí aconteceu no final da 2ª Guerra Mundial, e que pela sua importância vale o comentário.

Já se sabe que "vale tudo em tempo de guerra", mas foi sendo criada a ideia de que os ocidentais estavam imunes a actos atrozes, por contraponto com a brutalidade alheia, neste caso japonesa.
Tudo isto faz parte de jogos mentais, nomeadamente para acirrar vontades contra um determinado alvo, declarado inimigo. Há pessoas mais moderadas que outras, mas em tempos de convocar histeria, as moderações foram sempre desaconselhadas e até mal vistas. 

Assim, após Pearl Harbor, nos EUA criou-se rapidamente a ideia do "monstro japonês", que seria combatido com tudo o que havia à disposição - chegando depois ao ponto do uso da bomba atómica, que arrumou a questão. No entretanto, mais de 100 mil americanos de ascendência japonesa foram detidos em campos de concentração, espalhados pelo país. A histeria tinha sido lançada.

Na revista Life, em 22 de Maio de 1944, a publicação chegava ao ponto de fotografar uma rapariga ao lado de um crânio japonês, que lhe tinha sido enviado pelo namorado: 

"Arizona war worker writes her Navy boyfriend 
a thank-you-note for the Jap skull he sent her"

Quem invoca monstruosidades tem depois que lidar com as suas consequências.
O Japão passou a argumentar racismo e que os americanos os viam sem qualquer respeito, exibindo os seus cadáveres como exibiam troféus de caça. A ideia que as cabeças japonesas iriam servir de pisa-papéis ou cinzeiros decorativos nos EUA fez o seu caminho no Japão, e será menos de estranhar que não faltassem voluntários para actos kamikaze

A publicidade de ser preferível morrer a render-se terá sido aproveitada pelos generais japoneses para acirrar as tropas e a população para um combate total de "vida ou morte", algo que não era estranho à própria cultura japonesa.
Um extremo aconteceu na ilha de Saipan, quando o exército americano ainda achava útil publicitar uma violência extrema sobre os japoneses, impondo uma visão de terror ao inimigo. Era assim ideia clara, não apenas para os militares, mas também para as suas famílias na ilha, que era melhor o suicídio do que renderem-se aos americanos. 
Na conquista de Saipan terão morrido 55 mil pessoas, mas só no "Suicide Cliff" contam-se milhares de mortes devidas a suicídio para evitar que "os demónios americanos violassem ou devorassem mulheres e crianças", conforme informava a propaganda japonesa.


Suicide Cliff em Saipan

Passado pouco mais de um ano e estavam os demónios americanos a tomar conta de todo o Japão, sem constar que tivessem devorado ninguém (já não se poderá dizer o mesmo de violações)... 
Com a graciosidade do Plano Marshall na Europa, e similar na Ásia, os EUA enviaram mais de 15 milhões de toneladas de comida para a Europa e Japão, entre 1945 e 46. O plano afinal não era comer os japoneses, era dar-lhes de comer. 

Questionamos, que impetuosos cavaleiros, finda a batalha, têm ainda necessidade de eliminar os cavalos dos seus inimigos? 

Continua a haver uma estranha crença que a informação recebida está desligada de intenções do emissor. Neste caso aqui descrito vemos como uma propositada deficiência informativa foi usada acriticamente. Poderiam as mulheres japonesas de Saipan, antes de se sacrificarem com os filhos, terem duvidado ou criticado a informação veiculada pelos oficiais do seu imperador? (... ou, de que forma tratamos hoje criticamente a informação veiculada?).

Mito da Criação (dos Chamorro - ilhas Marianas)
Este mito coloca dois irmãos primordiais, Puntan e a sua irmã Fua (ou Fu'una), nascidos sem pai nem mãe. Puntan seria omnipotente, mas sentiu que iria morrer, pelo que pediu à irmã que colocasse os seus olhos como Sol e Lua, o seu peito como Céu, as sobrancelhas como arco-íris, e as suas costas como Terra... e assim foi o Mundo criado.

Quando a irmã contemplou a beleza da terra criada pelas ordens do irmão, decidiu que seria povoada por pessoas, feitas à semelhança dos dois. Para melhor fazer isto, definiu-se como rocha no sul de Guam (Fouha Bay), e decidiu que parte dessa rocha seria a pedra de onde nasceriam todas as pessoas. Depois ordenou que essa pedra se dividisse em múltiplas pedras, a que deu vida, e que depois formaram todas as raças de homens que se disseminaram pelo mundo.
Fouha Point, perto de Umatac em Guam

Interessa aqui uma certa semelhança com o mito grego que envolve Úrano e Gaia.
Há um outro mito que invoca um problema ecológico de sustentabilidade e partilha de ajuda.

Mito chamorro das mulheres de Guam
Não restava nada para comer, e as crianças choravam famintas.
As barrigas vazias doíam e já chupavam o interior das espinhas de peixe que restavam.
As nuvens não traziam água, e os ventos traziam apenas pó.
Uma velha mulher, a maga-haga, dizia "os espíritos estão zangados...".
Não havia respeito, perdera-se o respeito pela terra, pelo mar, de onde tudo tiravam sem nada dar em retorno. A punição era consequência do egoísmo.
Mas veio nova punição, e o solo tremeu. Algo começava a comer a terra da ilha.
Pediam perdão aos antigos, mas sabiam que não iriam ser perdoados pelos ante (espíritos ancestrais) se não mudassem os seus hábitos egoístas.
O chefe soprou no Grande Búzio. Era sinal de perigo iminente e os homens reuniram-se com lanças, para matar quem estava a comer a terra. Enquanto os homens discutiam o que fazer, as mulheres ouviam e esperavam. 
Até que uma criança gritou "monstro" - era um enorme peixe-papagaio, maior que uma baleia, um atuhong, que abriu a sua enorme boca, com dentes maiores que uma cabeça humana, e começou a comer os recifes. Os homens fugiram com medo. 
Como podiam capturar um peixe tão grande? - Uma simples dentada e perderiam as suas cabeças! 
No pavilhão de tecelagem as mulheres reuniram-se, esperando, cantando e pensando, ao mesmo tempo que iam tecendo. Como poderiam apaziguar os espíritos?
O Grande Búzio ouviu-se de novo. Os homens compareceram na costa, meteram-se em canoas à vela, seguindo o caminho do monstro.
Enquanto isso, as mulheres esperavam, sempre tecendo, tecendo fitas com folhas, ao mesmo tempo que teceram pensamentos, durante toda a noite. Quando o Sol se levantou na linha do horizonte, procuraram sinais dos maridos. Não viram os pequenos triângulos das velas, crescer cada vez mais, trazendo os seus homens de volta. 
Mas não mais esqueceram o que viram! De um dos túneis subterrâneos entre as baías de Agana e Pago, o gigante atuhong nadou para a lagoa, começando a comer a ilha. Todo o dia a terra tremeu, enquanto ele a comia. O monstro estava a destruir o recife e a terra, pensando apenas na sua gula, tal como antes o povo da ilha tinha pensado apenas em si. Em breve não restaria terra entre Agana e Pago, e depois não haveria ilha, não ficaria nada!

"Para casa, para casa antes que o monstro devore a ilha!", gritaram as mulheres.
Em breve as velas dos maridos apareceram no horizonte, e quando eles saltaram das canoas, elas pediram para os ajudar a matá-lo, antes que voltasse para o túnel subterrâneo.
Os homens riram-se... "As mulheres não sabem caçar. Só sabem tecer e cantar! De que nos vale isso?"
Dirigiram-se ao monstro, com redes e armas. Bastou ao monstro sacudir a cauda, e os corpos dos homens partiram-se contra o recife e contra as rochas da ilha. Com os dentes rompeu as redes e foi de novo para o túnel. As mulheres quiseram ajudar a consertar as redes, mas os homens riram de novo, dizendo que nem a força do chefe, o maga'lahi, era suficiente contra o monstro.
A mais sábia das mulheres, a maga'haga, abanou a cabeça. Esperou que os homens saíssem e convocou as mulheres para uma fonte em Agana, onde iriam refrescar o coração e o pensamento, pedindo ajuda aos maranan uchan - os crânios dos seus antepassados.
Porém quando chegaram a Agana, viram cascas de limão a flutuar na água. Só as mulheres de Pago usavam aroma de limão no cabelo. Isso significava que havia já uma abertura, um túnel entre os pontos opostos da ilha, que o monstro tinha comido por baixo da terra. 
Então perceberam qual o sacrifício que teriam que fazer, iriam sacrificar a sua beleza.  
A maga'haga iria cortar-lhes o cabelo, e com ele iriam fazer uma nova rede. As suas cabeças estavam mais leves, e sentiram-se livres do peso que pendia sobre as suas cabeças e corações.
Quando a luz das estrelas começou a dar lugar à luz da manhã, a rede tecida estava pronta.
Iriam esperar que o monstro atuhong saísse do túnel e atirariam a rede de cabelo. Acreditavam que a coragem de todas tinha ficado unida na rede. Quando o monstro saíu rodeou as mulheres, com as mandíbulas abertas, quando as mulheres deitaram a rede, começando a puxar. O monstro tentou morder a rede, mas a rede não cedeu, e as mulheres tentavam puxar o monstro para terra, gritando, encorajando-se umas às outras. 
Os homens ouviram os gritos, e foram em auxílio com as lanças. Em breve o monstro estava morto.
Com a ajuda de todos foi morto e puxado para terra, onde foi cozinhado com cascas de coco, servindo de repasto e acabando finalmente com a fome que os atormentava.
A chuva voltou a cair. A seca e a fome tinham acabado. A ilha tinha sido salva, mas iriam passar aquela história aos filhos, e aos filhos dos filhos, lembrando-os de que era preciso manter o respeito, pela ilha e entre si.
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Este conto é muito interessante, e de certa forma ilustra uma cultura tribal que procurava incutir valores e ensinamentos nos mais novos, sensibilizando-os para uma convivência racional entre si - neste caso não desprezando o valor da ajuda das mulheres, e para os perigos a que estavam sujeitos se desperdiçassem ou abusassem do que a ilha lhes dava. 
Não deixa ainda de ser interessante a semelhança do nome "ante" para os antepassados, ou ainda do nome "maga'lahi" para o chefe! Por coincidência, ou por influência, tem uma pronúncia demasiado próxima de Magalhães para que não seja notado. 

Fernão de Magalhães desembarcou na ilha de Guam em 6 de Março de 1521, após meses navegando o Oceano Pacífico, havendo um monumento a comemorar esse desembarque
É claro que a tripulação entrou na ilha para reabastecimento e tirou o que quis. Os chamorros de Guam devolveram a gentileza, entrando nos barcos e roubando o que encontraram em cima do convés! 
Magalhães terá usado o nome "ilha das velas latinas" (pelas velas triangulares), mas Pigafetta baptizou-a "ilha dos ladrões", nome que manteve nos mapas antigos, entendendo-se certamente que a propriedade do que estava em Guam era património universal, enquanto o que estava nos barcos era património privado. 
Como a questão da posse é sempre muito engraçada, Guam ficou possessão espanhola até que foi perdida para os EUA em 1898, sendo ocupada pelos japoneses de 1941 a 44, regressando à posse dos EUA numa das sangrentas batalhas do Pacífico, que redundou em 20 mil mortos (90% dos quais eram japoneses).

Mito do ensino da navegação (ilhas Carolinas)
Há muito tempo atrás este conhecimento era desconhecido - mesmo para os ilhéus!
Apenas conseguiam navegar curtas distâncias, e os que tentavam navegar sem este conhecimento nunca regressavam...
Contudo, um pássaro, o maçarico, sabia de navegação!
Este pássaro voava de ilha em ilha, no meio do vazio oceânico, para comer.
Ora, a sua comida favorita eram humanos... não era muito grande, mas era muito faminto!
Depois de comer todos os homens, todas as mulheres e todas as crianças numa ilha, continuava com fome, com muita fome!
Viajava assim pelas ilhas da Micronésia, e toda a ilha que visitava era uma nova refeição... pelo que em breve as ilhas estavam quase despovoadas.
O maçarico procurou então Pulap, uma ilha que não conseguia encontrar.

Nessa ilha vivia uma pequena rapariga com o seu avô pescador. Viviam muito felizes, porque o avô tinha protegido a ilha com uma nuvem bwabwa que a tornava invisível aos olhos do maçarico!
Mas certo dia o maçarico acabou por aterrar perto, e decidiu investigar o que estava abaixo daquelas nuvens, encontrando finalmente a ilha Pulap.
"Comida fresca", pensou o pássaro, e foi logo encontrar a pequena rapariga, que lhe disse:
- Quer comer ou beber algo?
- Claro que sim... e despacha-te! - respondeu, imediatamente.
A rapariga foi a correr ao encontro do avô, avisando-o da chegada do visitante. O avô disse:
- Esse pássaro come pessoas. Não o podemos aborrecer!
O avô preparou então comida e bebida especiais para o maçarico, que a rapariga levou.
O pássaro olhou para os cocos, com peixe e inhame, e queixou-se que aquilo apenas serviria de aperitivo... mas cansado da viagem, adormeceu, pensando que de seguida comeria a rapariga.
Porém, quando acordou, encontrou de novo os cocos cheios de comida.
Comeu rapidamente e procurou a rapariga, mas quando se voltou encontrou de novo tudo cheio, como que por magia. Por mais que o maçarico comesse, tudo se enchia de novo magicamente.
O pássaro finalmente ficou satisfeito.

Chamou a rapariga e disse-lhe:
- Minha menina, tu alimentaste-me bem, e em troca quero dar-te um presente! Vou ensinar-te o segredo da navegação com vela entre as ilhas!
A rapariga era boa aluna, e explicou ao avô tudo o que o pássaro lhe ensinava.
Ao fim de algum tempo, aprendeu tudo o que o pássaro lhe podia ensinar.
Era tempo do maçarico deixar Pulap, pois estava com vontade de comer pessoas de novo!
Mas o avô deu então instruções à neta, no sentido de lhe dar toda a comida que pudesse.
O pássaro foi acumulou tanta comida num cesto, que levantou vôo com dificuldade, porque apesar de ser muito ganancioso e muito faminto, não era muito grande.
Ora, isso levou a que o pássaro acabasse por ceder ao peso da carga, embatendo no oceano.
Ali, o peixe acabou por perecer, tendo ficado, como marca no local, um recife e ilhas.
Foi assim que a rapariga e o avô passaram a saber navegar entre as ilhas, e a ilha de Pulap foi honrada como sendo o primeiro sítio onde a navegação foi aprendida.
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De certa forma, os ilhéus da Micronésia acabaram por conhecer todo o tipo de maçaricos, que os visitaram ou colonizaram, durante os últimos séculos... Não sei se estão ainda a alimentar o bicho ganancioso, à espera de aprenderem com ele, ou não. Parece claro é que no processo de colonização, o maior ponto comum com os maçaricos era mesmo a ganância... e uma fome insaciável de poder.

Há bastante mais histórias, mas estas são ilustrativas.
Apesar de serem apenas pequenas ilhas, a Micronésia não deixa de surpreender pela arqueologia.

Por exemplo, temos:
  • A misteriosa Nan Madol (recentemente na UNESCO WHL) foi uma cidade ou centro cerimonial e político de uma dinastia reinante na Micronésia (Séc. VIII a XII). As ruínas exibem ainda particularidades que a fizeram ser chamada "Veneza do Pacífico".

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A imperfeição no talento de fazer bem

Em Fevereiro de 1874, no número 2 das "Noites de Insomnia", Camilo Castelo Branco aborda o tema do Príncipe Perfeito, comentando uma observação que Pinheiro Chagas coloca no tomo III da História de Portugal, a propósito da sua opinião sobre D. João II.

Camilo Castelo Branco, tal como tem um ódio de estimação no Marquês de Pombal, é igualmente ácido para a figura de D. João II, apelidando-o de "real carrasco", na contabilidade de 80 mortes, a que acrescenta aqui uma acusação de cobardia na sua execução.
Não colocando em causa os factos enunciados, darei conta da minha opinião.

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O Príncipe Perfeito

O sr. Pinheiro Chagas, na sua estimadíssima Historia de Portugal, tomo III, pag. 155, relatando vigorosamente a ferocidade de D. João II, escreve:
«Estamos bem longe de aplaudir, com Ruy de Pina e Garcia de Rezende, estas ferocíssimas repressões, mas tambem não podemos concordar com o sr. Camillo Castello Branco, que escreve o seguinte a respeito d'el-rei D. João II:
  • «O real carrasco, a quem infamíssimos aduladores da coroa chamaram príncipe perfeito, surge hediondo diante da posteridade, alçando-se por sobre a nuvem dos incensos, com que turibulários abjectos cuidavam escondê-lo à execração dos vindouros. Raro há quem se canse em esgaravatar razões de Estado, que contrapesem a ferocidade do filho de Afonso V. A história, à volta dele, o que encontra é cadáveres, oitenta cadáveres de homens ilustres, uns estrangulados, outros decapitados, estes mortos a punhal, aqueles a peçonha. Oitenta, confessou ele o número, quando a morte lhe acenava de perto, e se lhe desabafava a consciência, suplicando ao papa contritamente o perdão dos seus peccados.
    «Os lances capitais de tão má alma contou-os a história à tragédia. O teatro português já se enlutou com os quadros de canibalismo, trazidos à rampa e ao grande brilho dos lustres, para que o povo visse justificada a razão que teve a vilanagem dos cronistas de ligarem ao assassino do duque de Viseu o antonomástico epíteto de príncipe perfeito
«O ilustre escritor é demasiadamente severo com o grande rei a quem Portugal deve tanto. Que a energia de D. João II degenerava em ferocidade, é incontestável, e não pretendemos absolvê-lo dos crimes que pesam sobre a sua memória. Mas qual dos grandes homens, que figuram na história, se apresenta imaculado no tribunal da posteridade? No assassínio do duque de Viseu achamos, devemos confessá-lo, em atenção aos costumes da época, D. João II, menos hediondo do que no caso do duque de Bragança. É uma luta a todo a transe entre D. João II e a nobreza, e el-rei, que teve por tantas vezes a morte diante dos olhos e que sempre a afrontou sem empallidecer, pôde, quando se lhe ofereceu ensejo, antecipar-se aos seus adversários, e voltar contra eles o punhal com que o ameaçavam. O duque de Viseu foi ferido pela catástrofe que trazia pendente sobre a cabeça do seu adversário; foi vencido na batalha. Se D. João II abusou da vitória, e não soube, como nunca soubera, perdoar, culpemos disso a imperfeição humana. Perdoar! Parece que no mundo só Cristo soube cumprir essa máxima sublime, que debalde prégou na sua santa doutrina. A civilização, abrandando os costumes e modificando as paixões, tem introduzido felizmente, no espirito do homem, o horror do sangue derramado, mas, nos fins do século XV, ainda a vida das criaturas da nossa espécie estava longe de ter o carácter inviolável que hoje possui. Por tanto D. João II, aceitando de rosto descoberto a batalha, e vibrando o punhal como vibraria a espada, tem uma certa grandeza selvagem, que não desculpa mas atenua o crime

Até aqui o destro escritor. Agora, a história que os reis e as camarilhas não deixavam estampar.
O punhal que D. João II vibrou ao peito do duque de Vizeu foi acto cobarde que não pode ser atenuado por grandeza selvagem. O rei apunhalava o adversário enquanto os braços possantes de um valente alcaide prendiam pelas costas a vítima desarmada.
Nas Memórias inéditas de Diogo de Paiva e Andrade, autor do Casamento perfeito, faz-se menção do conflito, e encarece-se a bravura do coadjuctor de D. João II com uma anedota bastante significativa da coragem do fidalgo e da cobardia do rei.

Diz assim:
«D. Pedro de Eça, alcaide-mór de Moura, foi um fidalgo a quem a natureza dotou de muito ânimo e grandes forças, e por isto el-rei D. João II o escolheu, quando quis matar a D. Diogo, duque de Viseu, a quem abraçou por detrás. Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus, foram-se dois irmãos do morto queixarem a el-rei e disseram-lhe que D. Pedro lho mandara; pelo que o mandou vir à côrte, e esteve nela mais de dous anos, posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro disse a el-rei que, pois sua alteza não queria crer que ele não tinha culpa na morte do homem, e os que o acusavam eram dois, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos para assim se purificar; do que, agastando-se el-rei, lhe disse que tomara ele ser um dos dois. E D. Pedro lhe respondeu: «não fôra vossa alteza meu rei, e fosse com eles o terceiro.»

Não temos o desvanecimento de sobre-excitar contra D. João II o ânimo do nosso talentoso amigo; todavia, insinuamos-lhe a suspeita de que o homem não era capaz de matar outro sem lho agarrarem pelas costas, tendo ainda por cautela mais dois bravos que se chamavam Diogo de Azambuja e Lopo Mendes do Rio.


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D. João II com a Rainha D. Leonor, e com o filho D. Jorge, nos Painéis de S. Vicente.

Qual é o contexto histórico de D. João II?
É talvez demasiado complicado para explicar em poucas linhas, mas arriscamos pelo que sabemos, ou julgamos saber.

Antes disso, dizemos que a pequena defesa de D. João II se faz facilmente, sem precisar de outros contextos justificativos. Não estamos no final do Séc. XIX, para medir coragem/estupidez em duelos, e o rei não parece ter pretendido dar mostras de qualquer coragem especial, simplesmente parece ter pretendido dar mostras que o seu poder era aplicável por si mesmo, sem precisar de tribunais fantoches, para executar friamente quem conspirava contra si, no caso o seu primo, e irmão da sua mulher. Camilo ao citar o exemplo de D. Pedro de Eça, não mostra que o rei executou nele qualquer ira, pelo contrário, terá aceitado a afrontosa resposta do fidalgo.

Agora, o contexto... um contexto que Camilo conheceria parcialmente bem, e por isso espanta um pouco a apreciação ligeira. 
D. João II nasce em 1455, pouco anos depois do seu pai, D. Afonso V, ter morto o seu avô, o Infante D. Pedro, na Batalha de Alfarrobeira, 1448. Crescendo numa corte dilacerada por essa batalha, onde os Duques de Bragança e de Viseu exerciam um poder crescente, o jovem princípe foi praticamente criado pela sua tia e pela sua irmã, a princesa Santa Joana, já que a sua mãe morreu no ano em que nasceu. A hostilidade contra o avô, passou para a mãe, com tentativas de anulação do casamento, mas D. Isabel de Coimbra conseguiu manter a influência sobre D. Afonso V, recuperando a memória do pai, Infante D. Pedro, conseguindo que o marido transladasse o corpo para o Mosteiro da Batalha. 
A mesma hostilidade da nobreza passaria a si, com medo de um ajuste de contas, que viria de facto a fazer. Entre os cadáveres dos "80 ilustres", conforme descritos por Camilo, encontravam-se principalmente aqueles que tentaram anular o seu poder desde o início, com múltiplas manhas e traições, nomeadamente os Bragança, mais confortáveis com o poder castelhano de uma sua descendente - Isabel, a Católica, do que com o poder de D. João II.

Ao cognome "príncipe perfeito" foi junto o de D. Leonor, como "princesa perfeitíssima", e a imperfeição no cognome do rei é aperfeiçoada na excelência do cognome da rainha. A sua regência, de 1481 a 1525, correspondem a 44 anos onde Portugal não teve rival à altura. Foi ela que determinou a sucessão do marido pelo seu irmão mais novo, D. Manuel, com a mesma temperança que aceitou o assassinato do seu irmão mais velho, D. Diogo. Por isso, a "rainha velha" exerceu uma influência na corte que, em certos casos, terá suplantado a do rei, seu irmão, e terá estado à altura do rei, seu marido. O seu drama pessoal foi acrescido pela morte do filho, do qual não poderia excluir o marido, pelo menos na vontade de designar como seu sucessor D. Jorge. Também por essa divergência, que os separou definitivamente, nunca se livrou de uma suspeita de cumplicidade na morte de D. João II, por "peçonha"... e não foi isso que lhe retirou a superlatividade do cognome, que Camilo ali esqueceu. 

Depois, há todo o contexto dos descobrimentos, que não irei aqui detalhar, mas que suspeitamos começar com D. Fuas. Tem documentação confirmada já no tempo de D. Afonso IV, aquando da doação das Canárias ao castelhano Luís de La Cerda em 1344, pelo papa de Avinhão, Clemente VI. Sabe-se pouco das navegações seguintes, mas há fortes razões para suspeitar que mesmo no tempo de D. Fernando os portugueses viajavam já para o Brasil e para a costa africana, chegando ao Trópico de Capricórnio em 1377. 

As explorações do Infante D. Henrique e D. João II foram uma ficção na localização.
Uma armada de Garcia de Loaisa, cavaleiro de Malta, ao serviço espanhol, encontrou em 1525,  na desabitada ilha de S. Mateus (talvez a ilha de Fernando de Noronha), dois/três graus a sul do equador, inscrições "Talant de bien faire" datadas de 1438. (ver também "Mesa para Sandwich")

Mais do que qualquer outra coisa, quando D. João II declarou a passagem do Cabo da Boa Esperança, mas retardou a chegada à Índia em pelo menos uma década, deveu-se ao cuidado extremo com que foi encarada a empresa dos descobrimentos. O envio de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva por terra, permitia garantir que não estaria a ser preparada uma surpresa à chegada dos navios portugueses. 
De facto, se a viagem de Gama ocorreu como um passeio no lago (e fôra despesa inútil na opinião de Duarte Pacheco Pereira), era porque o Oceano Índico tinha já sido suficientemente explorado, para não trazer novidades incomportáveis.
D. João II tinha a perfeita noção da tarefa incomensurável que esperava os portugueses... e os empecilhos das guerrilhas internas, tratou-os com o despacho necessário de quem concentra tudo na preparação da maior empresa histórica até então pensada, e que foi realizada com relativa facilidade pelo seu sucessor, D. Manuel, em pouco mais que 25 anos. Quando D. Manuel morre, a costa africana, e toda a costa asiática até Macau tem portos portugueses. O Oceano Índico é um enorme mar português. Convida os príncipes europeus para a tarefa, que normalmente desdenharam. Consegue a atenção dos espanhóis para a parte ocidental, por via de Colombo, e separa as águas do mundo em duas partes, no Tratado das Tordesilhas. D. Manuel não faz mais que em 2 anos enviar os Corte Real para demarcar o Labrador, Cabral para demarcar o Brasil, Gama para reclamar a Índia, e com Afonso de Albuquerque consegue a conquista de Malaca, o passo final para assegurar o completo controlo do Índico até às ilhas Malucas, a fonte das especiarias. Deixa ao cargo dos espanhóis assegurar o controlo da parte restante - americana. 
E é ainda com mapas do tempo de D. João II, que Fernão de Magalhães revela saber do Estreito no sul da Patagónia.

Seria uma enorme delícia reencontrar esses mapas... mas como diria Poliziano, isso seria colocar o nosso rei num patamar único, e por isso extremamente inconveniente na História Mundial.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Mustang

Este é um daqueles postais que se resume à ilustração:


Na ilustração vemos a musa Lusitania acompanhada pelas musas da  (Fidae) e da Força (Fortitude), em cima do globo terrestre, indo à frente quatro elementos típicos dos continentes:
  • América - um chefe índio americano, em cima de um cavalo;
  • Europa - um rei europeu, em cima de um boi, digamos de um touro;
  • Ásia - um marajá indiano, em cima de um elefante (indiano);
  • África - um chefe africano, em cima de um leão.
Para quem ainda não achou nada de estranho, é perfeitamente natural ver o leão como símbolo de África, o elefante como símbolo da Índia, da Ásia, o touro como símbolo da Europa - atendendo até ao mito do rapto de Europa por Zeus, disfarçado de touro branco... mas há um pequeno problema ao considerar o cavalo como símbolo da América.

Porquê? - Porque, segundo a nossa notável estória, historieta feita História, não existiam cavalos na América até à chegada dos Europeus.

A ilustração está no livro "Historia del Reyno de Portugal", de Manuel de Faria e Sousa (1590-1649) que escreveu a maior parte da sua obra em castelhano, tal como seria natural a um catalão não optar pelo catalão, para uma maior divulgação dos seus escritos.
Para além da "Epítome de las Historias Portuguesas" que é de 1628, a primeira edição desta "História" aparece postumamente em 1677, à qual não tive acesso, mas esta figura antecede pelo menos a segunda edição de 1730, à qual tive acesso:

Esquecendo, o exagero de se colocar um rei africano em cima de um leão, ou um rei europeu em cima de um touro, ou eventualmente os freios no cavalo índio, qual seria a ideia de colocar um chefe índio associado a um cavalo, se tal não fizesse sentido? Faltavam ao desenho lamas, alpacas ou alces?

Admitindo que o desenho estava apenas nesta edição de 1730, mesmo nessa altura não é reportado o uso extensivo do cavalo por parte das tribos índias norte-americanas. Aliás, nessa altura grande parte da colonização era ainda instável e muito circunscrita aos territórios leste, junto à costa.

Aquilo que se procura difundir é que os cavalos ibéricos perdidos pelos espanhóis tinham fugido, e ficaram selvagens. Ou seja, por exemplo, os mustangs, uma das raças americanas mais famosas, teriam saído do México, e tornando-se selvagens desenvolveram características próprias. Só depois, os índios passaram a usá-los com grande agilidade... digamos, isto já na altura de 1800, que foi quando começaram a haver confrontos na expansão norte-americana
Para esse efeito, fazem-se estudos de DNA, tão "minuciosos" que praticamente concluíriam que todos os homens que tivessem um sinal na cara tinham o mesmo pai. Na prática há um estudo geral sobre as relações entre as diversas raças da cavalos, que permite ver que está mais próximo o cavalo Lusitano de um pónei do Cáspio, do que está de um Tenessee Walker.

Quem fez esta tabela escusou-se a inserir os Mustangs... ("There are several mustang registries, but overall there is just too much complexity to consider them in breed ancestry analysis.")

Parece claro que no México Azteca, ou no Perú Inca, não existiriam cavalos, ou pelo menos disso não ficou registo. No entanto, isso não significa que não existissem em abundância nas pradarias da América do Norte, ou nas pampas sul americanas. No Séc. XIX, com o estabelecimento dos grandes fazendeiros, é natural que tenham sido desenvolvidas raças particulares, com diversos cruzamentos, mas essa é uma questão completamente diferente, que não se colocava em 1677 ou 1730.

É ainda natural que os espanhóis, começando a colonização pelo México e pelo Perú, onde não havia cavalos, quando chegaram a novos territórios americanos, consideraram que os cavalos selvagens aí existentes seriam ferais - ou seja, eram selvagens resultantes de animais domesticados.

Isso poderia ser assim, mas nesse caso nunca justificaria assumir-se o cavalo sob um índio como emblema americano.
O que esta gravura mostra é que havia uma clara consciência no Séc. XVII e XVIII de que os cavalos eram de origem americana. Talvez a questão surja mesmo na direcção oposta - ao ponto de os cavalos ibéricos poderem ser descendentes dos americanos (... excluindo o garrano que aparenta ser uma raça autóctone). Para isso falta apenas considerar que muito antes de haver exportação, poderia ter havido importação...

Ficou-nos o mito de que os cavalos lusitanos tinham uma origem bizarra... eram "filhos do vento", ou seja que as éguas eram inseminadas pelo vento Zéfiro, o vento de Oeste.
Não poderia servir esta alegoria para ilustrar que foi o vento de Oeste que permitiu insuflar velas para ir à América buscar uma raça de cavalos bem diferente dos cavalos originais, com compleixão de garranos, que aparecem pintados nas pinturas rupestres?

Finalmente, um pequeno detalhe.
Qual era o deus egípcio associado ao cavalo? Se os egípcios associaram muitos dos seus deuses a animais (inclusive o escaravelho), não encontramos entre os seus deuses o cão, o galo, ou o cavalo (entre outros). As primeiras representações de cavalos dão-se aquando da invasão dos Hicsos, c. 1600 a. C., um povo de origem indo-europeia... e esses animais ausentes da mitologia egípcia acabam por estar ligados a uma herança indo-europeia, céltica. A presença dos cavalos no Egipto pode ter tido o espanto conjecturado que os cavaleiros tiveram na Grécia, sendo vistos como centauros... um misto homem-cavalo.
É razoavelmente diferente ter um exército montado em cavalos, ou ter um exército montado em burros... tornando claro que não era indiferente a raça de cavalo que tornaria os cavaleiros um factor decisivo em múltiplas batalhas da Antiguidade. Especialmente se atendermos que até 2000 a.C. pouco ou nenhum registo há do uso de cavalos... começando apenas nas estepes euroasiáticas.
Assim, na altura da Guerra de Tróia, Séc. XIII a.C., apesar da rápida difusão após o Séc. XVI a.C., o cavalo seria ainda um factor relevante no equilíbrio ou desequílibrio de um cenário de guerra. Fosse ele prenda dos visitantes, ou prenda aos visitantes, por ser criado na região. Digamos que, se Tróia venerava os cavalos, a sua apropriação pelos visitantes gregos equilibraria as coisas...
E a própria palavra equilibrio, ainda que se decomponha em "equi" (igual) e "libra" (peso), também tem o prefixo equídeo e sufixo liberal.

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Nota adicional (13.08.2018):
Encontrei agora diversos textos de Gunnar Thompson (falecido em 2017):
http://marcopoloinseattle.com/wp/articles-by-gunnar-thompson/
um dos quais com o título
que começa assim:
According to most leading scholars in history, anthropology and geography, none of the Native Tribes had horses until after Columbus. “On the contrary,” say elders of the Plains Indian Tribes, “our ancestors always had horses.”
Este texto lançara apenas a suspeita motivada especialmente pela figura encontrada. 
Gunnar Thompson adiciona muito mais elementos, mas seria bom começar por dar a palavra aos próprios índios das grandes planícies americanas... 
Também não é difícil perceber que nesta sociedade de pedestal a conta está feita, e pouco interessa o que dizem as parcelas que não se têm em conta.

Não se pense que isto é culpa dos que figuram no pedestal, isto é culpa de todos os que os colocam num pedestal, ou seja 99.99% das pessoas, simplesmente para não terem que se aborrecer com assuntos que acham que não lhe dizem respeito. 
Habituados a aceitar sem questionar, só quando questionam percebem que ficaram sozinhos.

domingo, 8 de julho de 2018

dos Comentários (38) - Amtonio ...

Segue-se uma troca de comentários via email, com David Jorge, a propósito de um mapa de 1545, atribuído ao cartógrafo português António Pereira. O mapa tem a particularidade de lhe restar apenas a parte ocidental, onde se lê "Amtonio"... do lado oriental ler-se-ia "Pereira". A parte oriental pode-se ter perdido por diversas razões, sendo a mais natural de todas ter aí desenhado uma ilha como a Austrália.

----  (extracto do email de D. Jorge em 04.07.2018) ----

Eis que da John Carter Brown Library, surge um mapa datado de 1545, que não só corrobora que Portugal tinha domínio da costa Este no continente Norte Americano, como também diferencia (e a meu entender, delimita) bem a ocupação Portuguesa, Castelhana e Francesa à data.

Link para o mapa (ainda não está na biblioteca, mas vai estar):  
https://jcb.lunaimaging.com/luna/servlet/detail/JCBMAPS~1~1~1673~102490002:Amtonio--North-and-South-America-



Do autor, António Pereira, ainda não encontrei grande informação pois ainda não tive tempo suficiente para aprofundar mais os arquivos, o próprio modo de arquivar das bibliotecas americanas dificulta as pesquisas, pois arquivam sobre o "inglesismos" ou com informação insuficiente [neste caso Amtonio (apenas o primeiro nome)] o que por vezes torna o nome quase impossivel de encontrar em cruzamento de dados de oturas bibliotecas (outro exemplo. Henricus Martellus está arquivado na Yale Library como Heinrich Hammer) mas repare que a própria biblioteca não se ocupa muito com a analise do mapa, apenas se dedica a dar relevo à expedição de Orellana colocando de parte a importãncia das várias bandeiras pela costa Americana tudo isto dificulta a pesquisa.


Neste mapa temos bandeiras das quinas, desde o Norte do Lavrador até quase à Florida, e as Francesas não descem abaixo do Rio São Lourenço (coerente com a história de Cartier).
Temos bandeiras justamente onde há registos de ocupação Portuguesa como a pedra de Dighton (coerente com as viagens dos Corte-Real e contrario ao que em mapas Castelhanos colocam as terras dos Corte-Real a Norte do Rio São Lourenço).

Como se isto não fosse por si importante, pelo facto de corroborar mapas que, erradamente, estão datados de 1590, onde estou de acordo com a sua datação para 1560 (ie. Mapa de P.Lemos e S. Lopes), este mapa também corrobora a teoria dos mapas de Dieppe terem sido copiados dos Portugueses, e neste caso eu diria mais, não foi apenas o conteúdo dos mapas que foi copiado, mas o próprio estilo de representação é igual. A diferença entre o atlas Vallard, por exemplo, é de 2 anos para este mapa no entanto parece que foi pintado ao estilo do mapa de António Pereira.


----  (extracto da resposta de 'da Maia') ----

.... é uma óptima descoberta, pois também nunca tinha visto uma demarcação tão clara das posses portuguesas na América do Norte. Normalmente ficam-se por uma ou outra bandeira na zona canadiana. Aqui claramente vai mais abaixo, deixando uma zona francesa pelo meio.

O mapa está um pouco distorcido/comprimido, mas eu diria que a bandeira mais a sul (quinas em verde) estará pela zona da Virginia/Delaware, e a norte (vermelha quinas azuis) estará pela zona de Massachussets/Maine. Infelizmente o cabo Cod não está bem identificado, e mesmo a baía Chesapeake não é clara qual seja. Também estou com dificuldade em ler as legendas, consegui perceber poucos nomes.

As outras duas bandeiras portuguesas - já na parte canadiana - Labrador, são diferentes, mas mantêm verde ou vermelho no contorno.
É bastante interessante e estranho.... 
A datação de 1545 corresponde ao tempo em que foi declarado o Japão. Apesar de não ser já o fulgor dos descobrimentos, é uma data em que os portugueses tinham ainda um controlo quase total sobre o mar (é a época do galeão Botafogo...)

Na minha opinião, o que se passava é que havia uma série de portos de contacto ao longo da costa dos Estados Unidos. Pelo tratado de Tordesilhas, deveriam ficar para Espanha, mas creio que depois da polémica no anti-meridiano - Tratado de Saragoça, os portugueses já não estavam com tanta vontade de entregar tudo aos espanhóis. Concretamente, a parte da Terra Nova (que tem bandeiras mais formais) creio que estaria nos planos ficar portuguesa.

Com a evolução das coisas, os portugueses acabaram por perder a independência, e a Rainha Isabel I só dá ordem de colonização da Virgínia em 1584, provavelmente com o acordo do Prior do Crato, para o apoio inglês. A partir dessa altura, os ingleses tomaram a parte dos Estados Unidos como sua, como "presente" português...  especialmente depois da Restauração, com o casamento de Catarina de Bragança.


A existência desse mapa seria muito interessante para a história dos EUA, caso eles tivessem mesmo vontade em mexer no assunto - coisa que por agora não têm.


----  (extracto da resposta de D. Jorge) ----


Entretanto, encontrei em Jstor.com umas páginas de um artigo escrito por Armando Cortesão em 1939 para a American Geographic Journal descrevendo exatamente a mesma dificuldade que encontrei em encontrar informação que ligasse, o nome de Antonio Pereira à cartografia:


Cortesão descarta, tal como o arquivista da John Carter Library, a importancia das bandeiras Portuguesas na costa Este americana e também se defronta com um dilema pois encontra um António Pereira, que não está ligado à cartografia, a viver em Portugal exatamente no periodo que Orellana regressa do Amazonas e é retido em Portugal pelo Rei durante 15 a 20 dias.

Esse facto, e o detalhe na toponímia do mapa coerente com o relato de Orellana, datariam o mapa em 1543 (anterior ao mapa de Cabott de 1544), no entanto Cortesão refere, (e mal, a meu entender), que atribui uma data de 1545 ao mapa pelo facto da Terra Nova estar representada como um conjunto de ilhas, faltando o relato de Alfonse transmitido por volta de 1546 a Freire. Para mim, esse pormenor do mapa, só comprova que o ele seria muito anterior, e não posterior ou próximo de 1546.

Tenho dúvidas, se o "Amtonio" não terá sido de o de Hollanda, pois a datação do mapa por Cortesão de 1545 ou anterior 1543, assim como o estilo artístico do mapa, enquadram-se na tanto na personna como no periodo em que esteve activo para a corte portuguesa. 
Outro ponto a favor desta suspeita, é que este mapa não é exatamente uma carta de pilotagem, nem o seu estado comprova utilização na navegação, encontrando-se bem conservado sem indícios de marcas de rumos com pontas de compasso ou manchas, indicando que provavelmente teve um destino mais decorativo que propriamente para uso no mar.

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quarta-feira, 4 de julho de 2018

O "ovo cósmico" do Algarve

Talvez com algum benefício para a região turística do Algarve, o History Chanell, canal das estórias que se dedica quase em exclusivo à ficção científica OVNI, decidiu dar eco a uma interpretação fantasiosa sobre um menir que está no museu de Lagos:


Trata-se de um menir encontrado na região de Silves, com a datação de 5000 a.C., que tem uma forma arredondada (que é vista como um "ovo"), acrescentada uma interessante inscrição de alto relevo - que é interpretada especulativamente como figurando uma cadeia de DNA.

A receita é quase sempre a mesma. Os olhos são sintonizados para uma interpretação, e depois tudo cabe nela, com mais ou menos especulação.

Já aqui falámos no símbolo do "ovo cósmico", que é uma noção mais geral, e que está enquadrada numa mitologia da Antiguidade:

Que o símbolo em alto relevo no menir se pudesse referir a alguma coisa desse género, relacionada com algum culto da cobra, ainda seria uma coisa razoável.... mas depois vem a necessidade de especular com um conhecimento da estrutura helicoidal do DNA, que serve apenas para colorir com cores berrantes, próprias do negócio. Sim, porque as estórias alienígenas transformaram-se em pouco mais do que uma grande negociata esotérica, em que curiosos ou investigadores medíocres ganham algum estrelato popular. No meio disto tudo, como em tudo, encontra-se alguma gente séria...

A estrutura helicoidal do DNA não está minimamente representada porque há nenhuma linha vertical, que não tem significado molecular, como acontece com o caduceu de Hermes:

... e ainda que, no caso do caduceu, essa linha possa ser vista como figurativa, não o seria no caso das inscrições. 

Ora, o interesse deste tipo de especulações, é que acabam por chamar a atenção para objectos que de outra forma ficariam esquecidos nas arrecadações dos museus... 

Ao invés de se especular que está ali uma hélice de DNA, seria muito mais aceitável especular simplesmente que poderia ali estar a origem do símbolo do caduceu de Hermes/Mercúrio.
Porque, para além de alguma semelhança geral, o número de entrelaçamentos parece ser o mesmo.

A hélice do DNA nunca foi "vista"
Apesar de ser conhecimento comum que o DNA tem uma estrutura helicoidal, há muita bonecada que o ilustra, mas não há nenhuma foto dessa estrutura. Em 2012 foi feita uma fotografia com cristalografia de Raio X, que deu o melhor que se conseguiu até ao momento - a fotografia de um molho de cadeias de DNA enrolada (e não de uma única):

Ou seja, fala-se na dupla hélice do DNA por razões teóricas que resultaram de cálculos levando à justificação de uma difracção de ondas, nomeadamente a chamada "Foto 51":
Foi a partir desta "Foto 51", (do laboratório de Rosalind Franklin) que foi idealizado o modelo da dupla hélice em 1953 por Watson e Crick.

A partir daqui entram os ET's que transmitem essa informação aos trogloditas, mas sempre ao ponto de não trazerem nada mais do que rabiscos ondulados, que qualquer um poderia ter feito em qualquer altura, sem nenhum significado. Com o mesmo grau de certeza, esta seita poderá dizer que qualquer criança que faça dois rabiscos ondulados, está a antever a estrutura do DNA.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O eco

A palavra "ecologia" é remetida ao grego com "oikos" (casa) e "logia" (estudo), enquanto "eco" é uma palavra grega ligada a som "ekhe".

Como o eco é uma reflexão do próprio som, o termo ecologia adequa-se bem, sem andanças gregas. 
As "logias" são justamente "lojas" de conhecimento, pelo que a ecologia enquadra uma loja de conhecimento dos ecos da acção humana. Um desses primeiros conhecimentos foi entender que ao gritar num vale, estaria sujeito a ouvir como resposta o seu eco. Da mesma forma terá rapidamente entendido que outras acções na natureza teriam um eco, um reflexo, na sua vivência futura, em particular na futura abundância ou ausência de caça.

A experiência ecológica na pré-história resultou no desaparecimento de mamutes, bisontes, leões, e muitas outras espécies existentes na Europa. A excessiva caça humana teve um reflexo, que levou ao fim dessas espécies, mais do que qualquer outra razão. Aliás, a agricultura e a domesticação, terão sido um principal factor para evitar o desaparecimento de muitas outras espécies animais.

Haveria um conhecimento ecológico primitivo?
Conforme já referi em comentário, nos aborígenes da Austrália conta-se esta história:
Tjilbruke viveu como mortal e foi um a quem a lei foi confiada. O seu sobrinho, Kulutuwi foi morto como punição de quebrar a lei, por ter morto uma fêmea emu. Tjilbruke levou então o corpo do sobrinho pela costa da Península Fleurieu até à terra Ngarrindjeri perto de Goolwa. 
Este pequeno apontamento parece mostrar uma lei draconiana na protecção das fêmeas emus, o que poderia visar evitar a extinção completa dos emus na Austrália.

Povo Kaurna - monumento a Tjilbruke e Kulultuwi, no Sul da Austrália.

Tjilbruke era um mortal a quem a lei tinha sido confiada. Mas, por quem?
De onde surgia essa lei antiga, que todos seguiam?

O que parece possível, plausível, é que o desaparecimento de espécies, por excessiva caça, tenha começado por ocorrer em ilhas próximas, na Melanésia. E que aí tenha nascido essa consciência ecológica, que teria sido depois passada às tribos australianas.

Mais do que isso. Tem sido hipótese de trabalho considerar que a origem da civilização ocidental tenha começado na Melanésia. Arriscaria falar nas ilhas de Java, Molucas ou Timor, se tal fizesse mais sentido do que outras quaisquer. Faltaria falar de todo um continente, que se estendia do sudeste asiático até à Austrália, e que hoje se encontra submerso... mas que não estava antes do degelo que terá ocorrido há 12 mil anos.

O mito de Afrodite
Na Teogonia dos deuses do panteão grego, o aparecimento de Afrodite é curioso, porque a deusa do Amor é suposta resultar da castração do Céu pelo Tempo, ou seja, de Úrano por Cronos, saindo da espuma das ondas, que a queda dos genitais provocara.

Porém a parte mais curiosa é o seu aparecimento de dentro de uma concha gigantesca.
Podemos ver isso num fresco de Pompeia, ou numa terracota do Séc. III a.C.:


Em ambos os casos se nota a dimensão exagerada da concha, que envolve Afrodite. No entanto, na segunda imagem, da terracota, podemos ver que a concha parece também sugerir asas.
Isso verifica-se em diversas outras terracotas do mesmo período (por exemplo, aqui ou aqui).

Acresce a isto a identificação de Afrodite à deusa suméria Inanna (ou Ana), que é por vezes representada com asas, conforme podemos ver na figura seguinte:
Inanna - deusa suméria encarada como equivalente a Afrodite.

Ora, podemos tomar como casual a ideia exagerada de ter uma pessoa dentro de uma concha, mas o problema é que sendo exagerado e impensável na Grécia ou Suméria, ocorria justamente nas ilhas do Pacífico:
Conchas gigantes - Palau - Ilhas Carolinas.

Dessa forma, a origem do mito grego pode perder-se na deusa suméria Inanna, mas parece ir bastante mais além, encontrando eco nas gigantescas conchas, de existência real, capazes de albergar uma criança.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Elias, e lias, Ilias

Quem visita Micenas, dito melhor, Mukenas, procura imediatamente a porta dos leões, onde tirei a fotografia seguinte, fazendo aparecer um alinhamento com o monte Sara (ou Zara).
Centrando-me mais com a porta, do que com o caminho, saliento na foto, com marcador amarelo, a semelhança alinhada entre o triângulo dos leões, com o ângulo do topo da montanha sul:
Porta dos Leões - Micenas, com o Monte Sara atrás (foto com anotações).

Micenas está enquadrada entre o monte Sara, a sul, e o monte Elias, a norte (Agios Ilias, ou Profitis Ilias), que dominam a paisagem em redor, conforme se pode ver na imagem seguinte:


Micenas - ladeada a norte pelo monte Elias, e a sul pelo monte Sara.

Este alinhamento é ainda visível no tholos, chamado Tesouro de Atreu (Agamémnon seria filho de Atreu), que está um pouco deslocado da antiga cidade. Os muros de entrada nesse suposto túmulo, alinham quase perfeitamente com o mesmo monte Sara. O alinhamento poderia dizer respeito a um eventual templo que se encontrasse sobre o monte Sara, e que entretanto possa ter desaparecido.
 
Tesouro de Atreu - um tholos, enterrado sob monte artificial, alinha, para quem se coloca 
na entrada com o monte Sara - cujo topo aparece ligeiramente deslocado à direita.

Os nomes Sara e Elias certamente se podem referir aos personagens bíblicos, não havendo grande dúvida sobre Elias que aparece com o prefixo Agios (santo/anjo) ou Profitis (profeta). Porém o nome Elias escreve-se em grego Ilias, sendo Ilios o nome grego de Tróia... e daí a obra de Homero se chamar Ilíada. Assim, não deixa de ser curioso aparecer o nome de Tróia, de Ilias, num monte adjacente a Micenas.

Um outro ponto importante é que actualmente Micenas está bastante afastada da linha de costa. No entanto, todo o relato da Guerra da Tróia é um relato de potências navais, capazes de juntar um milhar de navios para resgatar Helena. Seria bastante estranho que Micenas não dispusesse de um porto operacional, de onde Agamémnon armasse os seus barcos em direcção de Tróia.
Olhando para o relevo perto de Micenas, vemos que se trata agora de uma grande planície, mas que em tempos, com o nível do mar mais elevado, toda essa parte formaria uma grande baía, conforme podemos ver na figura seguinte:

Micenas (círculo vermelho) e o relevo circundante. Possivelmente à época da Guerra de Tróia, 
o contorno da costa, com o nível de mar mais alto, seguiria a linha azul. Ou seja, Micenas seria uma cidade costeira.

O que vemos nas construções de Micenas é ainda uma característica típica de muitos monumentos megalíticos, mais comuns na orla atlântica. Grandes pedras, megalitos, de tamanhos e formas diferentes, basicamente unidos pelo seu peso. A porta dos leões não difere muito de um dólmen ibérico. 

Ainda que a tradição tenha colocado Tróia a três dias de viagem de Micenas, mesmo com ventos fracos, a expedição que demorou 10 anos, e afastou os gregos das suas mulheres, dificilmente encontra justificação na Ásia Menor. Conforme já notámos, os gregos inicialmente foram levados para as paragens da Ásia Menor, quando ainda não sabiam onde era Tróia. Por isso, para a parte restante dessa história deixo o link da página anterior:


quinta-feira, 31 de maio de 2018

A gema de Pilos

Há quem se impressione por estruturas de grande dimensão, pessoalmente impressiona-me mais a capacidade de fazer esculturas de  reduzidíssima dimensão com grande detalhe.
Já falámos aqui dos camafeus à época romana, ou antes, ptolomaicos:


ou seja, estávamos a falar de pequenos artefactos que iam até ao Séc. III a.C.

Acontece que em 2015, houve uma escavação em Pilos, no Peloponeso grego, num sítio que lembra a baía de S. Martinho do Porto, e onde se pensa poder ter estado o Palácio de Nestor, um dos reis ao serviço de Agamémnon, na Guerra de Tróia.
Baía de Voidokilia, Pilos, Peloponeso, Grécia

No ano passado (2017), no resultado dessas escavações que puseram a descoberto a chamada "Tumba do Guerreiro do Grifo", foi apresentado um selo de 3,6 cm de comprimento, uma ágata que representava uma cena de combate, com uma qualidade surpreendente:

Selo em ágata com 3,6 cm de comprimento. A maioria dos detalhes tem menos de 1 milímetro.

Datação para esta obra de arte - anterior a 1450 a.C., e portanto estamos a falar de 1000 anos antes das primeiras obras semelhantes, já de si altamente notáveis para a época, conforme referimos a propósito dos camafeus. 
A maior parte dos detalhes nesta micro-escultura têm menos de 1 milímetro, o que implica uma precisão que dificilmente seria possível sem uma excelente lupa, e uma segurança no traço dificilmente conseguida sem a devida aparelhagem. Para fazermos uma melhor ideia, experimente-se apenas tatuar esta cena na superfície do polegar:
Um pormenor apontado, que surpreendeu os arqueólogos, foi a representação correcta e vincada dos músculos, algo que não se via noutras representações artísticas da época, nem minóicas, nem micénicas, nem egípcias, por exemplo.
A razão para apenas se ter dado atenção à ágata dois anos depois da sua descoberta, é compreensível - estava calcinada, e só uma limpeza permitiu evidenciar a sua beleza.
Além disso, haveriam muitos outros objectos, centenas de selos, muitos de ouro, representando cenas tipicamente minóicas, como o famoso salto sobre o touro:
Um selo de ouro com motivo minóico - o salto sobre o touro.

Vê-se assim uma forte influência da cultura minóica que, de Creta, passava para a Grécia continental.
Curiosamente como Pilos é transcrito Pylos, devendo ser Pulos... estes pulos taurinos deram o pulo até Pulos. A qualidade dos selos em ouro é igualmente notável, mas bastante inferior ao selo em ágata, no que diz respeito à qualidade do desenho e representação do detalhe.

Bom, e qual é a região que sempre mais celebrou este espectáculo taurino?
A pequena ilha de Creta?
Para quem visita Creta ou a Grécia, se há coisa difícil de ver... é uma presença taurina.
E se havia um rei Minos em Creta, o rio Minus era o rio Minho.

Argumenta-se que a cultura minóica de Creta influenciou decisivamente a cultura micénica, e para quem visita Micenas, não haverá grandes dúvidas de que alguns frescos aí encontrados são idênticos aos de Cnossos. Mas a questão é anterior a isso... de onde aparecia a cultura minóica? Uma cultura marítima que celebrava o touro, e que está na origem dos primeiros escritos alfabéticos...
Seria Cnossos o centro de tudo isso, ou apenas um posto avançado que dominava o Mediterrâneo oriental?

Quanto ao Estado da Arte, as pinturas rupestres de Font-de-Gaume, Lascaux, Chauvet e Altamira, tinham neste selo de ágata um digno sucessor, passados os milénios que levaram dos touros de Altamira aos touros de Cnossos.

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Aditamento: (02/06/2018)
No filme Tróia, de 2004, a primeira cena de batalha entre Aquiles e um guerreiro da Tessália, tem uma certa semelhança com a imagem da gema de Pilos. O golpe é desferido exactamente no mesmo ponto, e praticamente da mesma forma. Como o filme antecede a descoberta da gema em mais de 10 anos, seria uma notável coincidência, não fosse baseada em informações semelhantes.

O túmulo tem datação anterior à suposta Guerra de Tróia, em pelo menos um século, mas também é natural que a figura de Aquiles concatenasse mais do que um mito anterior.
Tal como a cena dos saltadores de touros, que se encontram em diversos objectos de Creta, também esta cena de batalha poderia estar representada noutros artefactos, a que os produtores do filme Tróia poderiam ter tido acesso por algum "espírito santo de orelha". De Aquiles, normalmente só se encontram nos vasos gregos, os confrontos com a amazona Pentesileia, ou com Heitor, no enquadramento da Guerra de Tróia. Mas em nada são semelhantes ao golpe desferido com a espada, indo do ombro esquerdo ao coração, conforme no filme, e conforme na Gema de Pilos.
Aquiles contra Pentesileia - vaso grego.