sexta-feira, 12 de outubro de 2018

dos Comentários (43) - escaravelhos egípcios no Alentejo

Este tema foi aqui colocado num comentário há 8 anos, pela Maria da Fonte, e depois mencionei-o no postal sobre Egitânia, também em Outubro de 2010. 

Retomo este tema porque encontrei material bibliográfico que não estava acessível na altura (ou pelo menos, eu não encontrei). Em particular, os seguintes textos:
É especialmente interessante o último título que remete o assunto para escaravelhos "fenícios", em vez de egípcios, mesmo que identifique a maioria como tendo sido fabricada no Egipto, e coloque apenas 3 em 18 com uma duvidosa proveniência de Cartago. 

Do artigo [A3] retirei algumas imagens, relativas à distribuição geográfica (que estranhamente aparece restrita ao território português), e algumas imagens dos escaravelhos. 
O escaravelho do faraó Psamético I (663 a.C - 609 a.C.), referido no comentário de Maria da Fonte, é o último e dele aparece apenas um desenho!

 
Localização dos 18 achados e um dos escaravelhos como rotativo em bracelete - imagens no artigo [A3].

Dois exemplos de escaravelhos encontrados, imagens no artigo [A3].
O da Fig. 5, segundo [A2], é relativo ao faraó Psamético I, representando um sol com asas, 
a deusa Sokmit (leoa) ou Bastet (gata), aludindo ao faraó como: Hórus O-ib "grande de coração".



Os escaravelhos
Escaravelhos sagrados empurrando uma esfera.
A associação egípcia do ciclo solar aos escaravelhos, em particular ao escaravelho sagrado negro, também dito "rolabosta", tem sido frequente por uma associação do transporte de excrementos em forma esférica. 

O deus Khepri teria assim função semelhante, no rodar do Sol ao longo do dia, de Oriente para Ocidente. Ora, como o sítio mais Ocidental do mundo antigo era justamente a faixa costeira lusitana, não parecerá desapropriado encontrarem-se aqui alguns artefactos relacionados com o assunto... porque, no final de contas, era na paragem mais ocidental que o Sol se escondia para reaparecer no próximo dia.

O deus egípcio Khepricom cara definida 
pela carapaça do escaravelho.
Tanto mais que o processo de reprodução do escaravelho coloca os ovos dentro da esfera de excremento, afinal nutrientes para as larvas, que eclodem depois, renovando a espécie, tal como Sol se renovava no ciclo diário.

Acontece que os Coleopteros, insectos onde se incluem os escaravelhos e besouros, ou ainda os percevejos (Heteropteros), têm uma particularidade notável de poderem reproduzir padrões variados, inclusive caras, na sua carapaça... palavra que pode significar "cara-passa", no sentido que "por cara passa".
Scutelleridae - percevejo com uma carapaça que por cara passa (imagem)
A etimologia da palavra escaravelho remete normalmente para o latim scarabaeus, ou ainda ao grego karabeos, mas não deixa de ser interessante decompor "escaravelho" como "es-cara-velho", o que nos remete de novo para cara, neste caso és cara velho, ou no latim parecendo mais és cara feio. Mesmo a designação "carocha" como uma variante de cara (como o é careta), se aplica aos Coleopteros. Ou ainda, em "percevejo" entendendo como "per se vejo" obteremos o mesmo tipo de variante. 
Alguns dos Coleopteros parecem mesmo pequenas jóias, dado o tom metálico das suas cores espampanantes, onde se incluem os besouros, e ainda aqui podemos ver uma variante de "bês ouros", num sentido em que brilhavam como ouro.
Alguns insectos da família Coleoptera, que inclui os escaravelhos. (imagem)
Incluem formas brilhantes quase como pequenas jóias, e nalguns casos sugerem caras humanas. 

Nalgumas religiões era frequente procurar ou ver significados transcendentes em pequenas coisas... por exemplo, lembramos os augúrios gregos com os voos dos pássaros, ou com as entranhas. Não passaria despercebido encontrar alguns insectos deste tipo com inscrições a que dessem significado.
Mesmo o escaravelho sagrado, que era negro, tinha algumas inscrições ou alterações na carapaça, a que os egípcios davam importância e significado.

Escaravelhos gregos, persas e etruscos
Esta moda dos escaravelhos passou por várias culturas, e tal como os animais traziam associados padrões na sua carapaça, surgiu a moda dos "selos". 
A ideia é praticamente a mesma - o que por cara passa, é o sê-lo
Se a pessoa ali não era, com o selo passava a sê-lo. A cara passava pelo selo.

No reverso de uma pequena escultura de escaravelho, apareciam inscrições que já não seriam egípcias, eram adequadas a cada cultura. 
Temos assim escaravelhos numa vertente grega, noutra vertente persa, ou ainda etrusca.
Surgem assim exemplares notáveis, que certamente fazem a delícia dos leilões:

Escaravelhos fenícios (ou cartagineses)
A situação é razoavelmente diferente no caso fenício, já que aparentemente os fenícios copiavam as inscrições egípcias, inclusive os hieróglifos (mesmo sem os entenderem), com o único propósito de servirem o comércio. Faziam assim concorrência a Naucratis, a cidade egípcia que mais se dedicava a este tipo de manufactura.

A menção a estes escaravelhos alentejanos é quase sempre feita no contexto fenício/cartaginês, já que não é aceite, ou pelo menos não é "bem visto" que houvesse qualquer contacto ibérico directo com a civilização egípcia. Assim, parece que para evitar "problemas de convivência" com os dogmas que se vão estabelecendo na comunidade científica, os arqueólogos remetem o assunto com uma simples explicação de que cartagineses/fenícios traziam os objectos do Egipto e trocavam-nos com os indígenas ibéricos... neste caso, alentejanos. Os espanhóis tentam ainda remeter à cultura Tartéssica, como intermediária, já que essa teria maior ligação aos fenícios, por via de Cadiz, a antiga Gades, ou Tartasso.

De facto, pelo aspecto que a comercialização de escaravelhos foi assumida pelos fenícios, parece claro que usavam as peças com um simples intuito comercial, o que lhes era típico. Mesmo que a manufactura tenha sido a cidade egípcia de Naucratis, como parece ser atestado nalguns casos, parece aceitavelmente provável que os objectos possam ter chegado ao Alentejo por intermédio dos fenícios.

Parece afastada a hipótese de que os escaravelhos tivessem qualquer origem interna, até porque não fariam qualquer sentido as inscrições egípcias. Não estamos numa situação semelhante a gregos e etruscos, que foram influenciados pela moda, mas que optaram por decorá-los com temas seus.

No entanto, permanecem "pequenas" grandes dúvidas...

- O faraó Tuntankhamon tinha haplogrupo R1-M269 (ou seja R1b1a1a2), o que dá as maiores probabilidades daquela linhagem de faraós ter ancestrais tipicamente ibéricos.

- O primeiro fenício a quem foi identificado o DNA, por azar, calhou logo a ter um mt-DNA também tipicamente ibérico. O seu mt-haplogrupo era o U5b2c1, exactamente o mesmo que foi encontrado numa escavação arqueológica em La Breña, nas Astúrias.
[Informação dada por MBP num comentário passado]

Ou seja, e esta é a pequena grande dúvida "Egitana" que mantenho:
- Será que os descendentes dos habitantes pré-históricos ibéricos, responsáveis por pinturas rupestres sem precedentes, não continuaram eles a influenciar o curso histórico na Antiguidade?
- Não poderiam ser eles a determinar a linhagem de faraós que veio a governar o Egipto?

... é que estes dados do DNA podem apontar nesse sentido, mas o registo material que nos chegou é tão escasso, ou pobre, que aponta num sentido completamente oposto.

_________
13.10.2018

domingo, 7 de outubro de 2018

Detroit Electric (1907) - autonomia até 340 Km

Quando nos dias de hoje se procuram carros eléctricos com uma autonomia considerável, esquece-se, como não poderia deixar de ser, os exemplos com mais de 100 anos.

Um exemplo notável era o Detroit Electric, que em 1911 circulava com uma autonomia garantida de 130 Km, podendo atingir uma distância de 340 Km, sem recarregar a bateria eléctrica.


(Wikipedia)

Dado o estado a que chegámos, será altura de ir buscar os anúncios com 100 anos, para percebermos a grande diferença face à actualidade.

Por isso, talvez comecemos a ter alguma sorte, e algumas das invenções com mais 100 anos comecem de novo a ser conhecidas e comercializadas. Claro que não serão comercializadas aos preços de há cem anos... aí não teremos muita sorte.

Ah, sim... isto porque, estamos praticamente há 100 anos com uma completa e total restrição sobre tudo o que pode ser inventado ou comercializado. Que se conheça, os únicos que tentaram fugir a essa total restrição, não querendo ter o seu génio metido na garrafa, foram os alemães... mas depois deram-se mal, muito mal, de 1939 a 1945. Ficou-nos a televisão a cores.

Entretando, se alguém souber de alguma tecnologia inventada neste milénio... é favor dizer.
Já lá vão 20 anos, a fazer de conta que a internet e os telemóveis são sempre novidade.
Qualquer dia, reinventam os walkie-talkies....

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Baixos e altos de Lixboa

Regressei ao Livro de Marinharia, a propósito da Nau São Paulo, já que me pareceu estranho a ilha não constar de um dos mapas de João de Lisboa (seja lá ele quem fosse... eu entendo-o como quem escreveu o Livro de Marinharia, com os seus mapas, antes de outros acrescentos). 

O mapa que interessa está na Torre do Tombo é este (e faz sentido que não esteja aqui, porque a latitude mais baixa deste mapa é 32ºS, bem longe dos 38ºS da ilha São Paulo):
(referência PT-TT-CRT-166_m0091.TIF)

Henrique Dias na descrição que dá da descoberta da ilha de São Paulo, constante na História Tragico-Marítima, acrescenta como pontos de referência dois outros nomes de ilhas - "Romeiros" e "Sete Irmãs", que actualmente não constam dos mapas, nem se sabe se existiram ou não - mas estas ilhas já estão aqui nomeadas.

Mais que isso, Henrique Dias descreve o embróglio na nomeação da ilha, a que o piloto, António Dias, quis dar o seu nome. Ora, isto mostra que ilhas "sem nome" não seriam uma coisa normal...

O mapa começa pela Ilha de João de Lisboa (será estranho aparecer a ilha com o nome do próprio), que foi muito procurada, sem nunca ser encontrada... tal como a nova Ilha de São Brandão, que tem uma identificação actual, mas que não corresponderá ao sítio nomeado.

Com efeito o nome "São Brandão" fez parte das "ilhas imaginárias" nos mapas do Atlântico, e já é suficientemente estranho voltar a vê-la aqui. Ou seja, é directa a suspeita de que se tratava de uma marcação no mapa, e não de uma ilha. 

O que se estava a esconder no Índico?
Se no Atlântico se escondia a América, no Índico escondia-se a Austrália...
Por isso, o aparecimento deste nome "São Brandão" deve ser encarado com a mesma suspeita que havia no caso atlântico... 
Concretamente, neste mapa é natural que surjam pistas para a costa oeste australiana, disfarçada na costa leste africana, mais concretamente na Ilha de Madagáscar (que logo no mapa de Cantino é chamada assim, mas depois foi também chamada Ilha de S. Lourenço).

Temos como auxiliar o livro "Arte de Navegar" de Manoel Pimentel, que dá latitudes e longitudes muito concretas para algumas destas ilhas. Como ele estabelece uma diferença de longitude de 19.5º para as ilhas de Amsterdão e de São Paulo, suponho que usaria a ilha do Ferro, nas Canárias, como referência (que tem 18º de diferença face ao actual). Esta era uma referência habitual, e erros de 1 ou 2 graus na longitude eram perfeitamente admissíveis a larga distância.

Irei colocar o nome da ilha como o entendo, com a sua cor, e depois entre parêntesis o nome que é possível ler no mapa, com a cor em que está escrito. 

___________________
Paralelo 28º-26ºS

- Ilha de João de Lisboa (I.de joão delixboa) - ilha fantasma ou notação cartográfica?
... Manoel Pimentel dá 26º45'S e 76º10' (ou seja, ~55º40'E), mas não consta aí nenhuma ilha! Seria uma ilha a sul da ilha da Reunião (a que dá a mesma longitude), mas o mais próximo seriam as ilhas Crozet (já bem mais a sul, a 46ºS, 51ºE) 

- Ilha dos Romeiros dos Castelhanos (I.dosromeiros doscastelhanos), ilha a vermelho - outra ilha fantasma, mas a que é feita referência por Henrique Dias (Pimentel não a refere).

___________________
Paralelo 22º-18ºS

- Santa Apolónia (samtapolónia) - antigo nome da Ilha da Reunião (sob França).
... Pimentel chama-lhe Mascarenhas, ou Borbon, dando 21ºS, 76º (o que bate certo com 55º30'E).

- do Mascarenhas (domascarenhas) - antigo nome da Ilha Maurícia (Maurícias).
... Pimentel também lhe chama Cirne (nome de nau) dando 20º22´S, 78º10' (também bate certo).
Refere-se habitualmente a Pedro Mascarenhas.

do Cirne (docirni) - baixos.

- Ilha de Diogo Rodrigues (I.dedioguoro~is) - Ilha Rodrigues (Maurícias).
... Pimentel dá o mesmo nome, e coordenadas 19º45'S, 83º (o que bate certo). Convém notar que João de Lisboa escreve Ro~is, abreviatura de Rodrigues, mas que pode ter levado depois outros a entender como Róis, ou Ruiz, noutras paragens.
Refere-se o navegador Diogo Rodrigues.

___________________
Paralelo 17º-16ºS


- a Nazaré (anazare) - Nazareth Bank - é um nome actual dos baixos.
... Pimentel diz que a ponta sul estaria a 16º45'S, 81º20' (ou seja, ~61ºE). Estes baixos têm um atol a 16º30'S, 59º40'E, a que é dado o nome São Brandão ou Cargados Carajos.

- do Gratiao (dogratiao) ? - talvez os baixos Garajaus, referidos por Pimentel.


- São Brandão (sam bramdão) - ilha fantasma a que Pimentel dá o nome de Ilha Brandoa, colocando-a a 17ºS, 87º20, posição em que se vê apenas mar...

___________________
Paralelo 15º-11ºS
  

Estas ilhas correspondem ao arquipélago das Comores, mas dificilmente têm correspondência com as Comores individuais. Pela posição relativamente à costa, as 3 primeiras serão fictícias, mas pelas dimensões talvez faça mais sentido considerar como fictícias as 3 últimas. Pimentel usa os nomes Mayoto ou Maoto (Mayotte sob França), Anjoane (Anjouan), Molale (Mohéli), Comoro ou Angazija (Grande Comore).

- Jamais Louvam (Jamaislouão) - ilha inexistente ou Ilha Maoto.
- Santo Espírito (samtesprito) - ilha inexistente ou Ilha Anjoane.
- do Comaio (docomaio) - ilha inexistente ou Ilha Molale.
- a Leoa (alioa) - Grande Comore ou Ilha Maoto.
- do Comoro (docomoro) - ilha inexistente ou Ilha Anjoane
- do Comaro (docomaro) - ilha inexistente ou Ilha Molale
- do Comaio (docomayo) - ilha inexistente ou Grande Comore
- Baixos de Dom João de Castro (domjoãodecrasto) - existem com o nome inalterado.

A menção aos Baixos de Dom João de Castro pode ser visto com um dos problemas de datação do Livro de Marinharia, só podendo ser inclusão posterior, pois João de Lisboa morre vinte anos antes de João de Castro ser governador ou mesmo ir à Índia. Nesse caso há quem tenha datado os mapas como 1550-60. É mais ou menos como encontrar uma pastilha elástica colada nos Jerónimos e passar a dar cinquenta e não quinhentos anos à construção...

___________________
Paralelo 10º-8ºS 

Inclui aqui uma parte do arquipélago das Seicheles, nomeadamente o grupo Aldabra (... ou aldraba?), o atol de Cosmoledo e depois o grupo Farquhar

- Ilha do Arco (I. doarco)  - desconhecida... talvez a ilha Aldabra.
... Pimentel nomeia Ilha do Aro com as coordenadas (9º40'S, 68º30' ~ 48ºE) do atol de Cosmoledo!

- (ilha a azul, sem nome) - desconhecida (Glorioso ou Assunção?)

- Ilha do Natal (I.donatall) - desconhecida.
... Pimentel dá as coordenadas (8º00'S, ~ 49ºE) que corresponde a "água".
... Do lado australiano 2º abaixo - há a Christmas Island a 10º20'S, mas a 105º30'E.

- de Cós Moledo (decos moledo) - existe um atol de Cosmoledo nas coordenadas que Pimentel dá para a ilha do Aro.

- (ilhas não nomeadas)

- As Doze Ilhas (asdozeilhas) - talvez correspondam às ilhas do grupo Farquhar.

- Água Légua (agualegua) - Ilha a Galega ou Agalega
... Pimentel chama-a Ilha Galega, em 9º30'S,79º25 ~ 59ºE, 
... enquanto que Agalega actual está a 10º20'S, 56º30'E

- Baixos de São Miguel (desão miguell) - são indicados por Pimentel em 8º10'S, ~66ºE.

- Ilha que achou Roque Pires (I. queachou roquepi~z) - ilha fantasma ou inexistente
... Pimentel dá 10º00'S ~69ºE, o que dá água...
... Do lado australiano 2º abaixo - temos as Cocos Islands a 12º07'S, 97ºE.

- Ilha de Diogo Garcia (I.dedioguo graçia) - Ilha Diego Garcia.
... Pimentel dá 7º15'S ~73ºE, batendo certo com o actual 7º20', 72º30'E
___________________
Paralelo 7º-2ºS 

- Baixos do Patrão (baixosdo patrão) - Pimentel dá 4º50'S, ~52ºE.
- Pracel de João Moniz (pracelldejoãom~iz) - Pimentel não refere isto.

- Ilhas do Almirante (Ilhasdoallmirãte) - existem com o nome Ilhas Amirantes, em 4º50', 53º40'E.

- (ilhas sem nome) - provavelmente ilhas das Seicheles.

- Ilha do Mascarenhas (I.domascarenhas) - talvez Mahé das Seicheles a 4º30'S, 55º30'E.

- São Francisco (samfi,co) - as ilhas Alphonse, que têm o atol de S. Francisco.

- do Corpo Santo (docorposamto) - talvez o atol Coetivy das Seicheles.

- (ilha a vermelho) - provavelmente outra ilha das Seicheles.

- Abreolho (abreolho) - poderia ser uma das Seicheles, mas...
... Do lado australiano 2º abaixo da latitude da ilha de João de Lisboa, também existem os Abrolhos Hautman.

- os Sete Irmãos (osSeteIrmaõs) que aparece repetida... é também chamada "Sete Irmãs".
os Sete Irmãos (osSeteIrmãos)
... Pimentel dá às Sete Irmãs as coordenadas 4ºS, ~67ºE que correspondem a água...

- Ilha que achou Roque Pires (I.queachouroquep~iz) outra ilha reportada a Roque Pires - nome de navegador muito pouco conhecido.

- Baixos de Pêro dos Banhos (baixos de pº dos banhos) é o nome do atol Peros Banhos.
... Pimentel dá as coordenadas 7ºS, ~72ºE no Território Britânico do Índico.
... Pimentel fala ainda do Baixo das Chagas, e existe o Arquipélago Chagos.

- do Mascarenhas (domascarenhas) outras ilhas reportada a Mascarenhas, já no Território Britânico do Índico, e que correspondem aos diversos grupos do arquipélago Chagos.


Madagáscar surge em oposição à costa oeste da Austrália, um pouco mais acima em latitude.

Interessa aqui tentar perceber quais as localizações exactas ou fictícias, algumas das quais, mesmo incertas, foram acompanhando os roteiros até ao Séc. XIX.
Não sendo possível retirar nenhuma grande conclusão, deixamos aqui mais uma compilação de dados, do que alguma conjectura.
A circunstância de os nomes Natal (Christmas) e Abrolhos (Hautman) corresponderem a nomes de ilhas australianas é muito pouco, para se poder conjecturar uma relação significativa, ou se quisermos um paralelismo África - Austrália.... mas estão lá as ilhas fantasma, e pistas como "São Brandão" que indiciam que o mesmo tipo de fenómeno de ocultação estaria em curso.
_________
04.10.2018

domingo, 30 de setembro de 2018

dos Comentários (42) - Regno Patalis

Num email enviado no início deste mês de Setembro, David Jorge, fazia menção de um notável mapa existente na Biblioteca do Vaticano.
O manuscrito tem a referência Urb.lat.274, e está disponível para consulta em:





David Jorge salientou alguns tópicos:

(1) A menção a Antília já como parte do continente e não como ilhas.

(2) A presença de Sete Cidades, ou 7 castelos, na parte da América do Norte.


(3) A menção do Regno Patalis (Regio Patalis) numa região que seria australiana, poderia indicar que o nome "Patalis" se poderia referir a animais de grandes patas - ou seja, cangurus. 


Acrescentava que uma representação dos patagões - referindo as suas grandes patas - poderia ter sido erroneamente remetida à localização sul americana, evitando a nomeação australiana. Além disso, David Jorge apresentava uma imagem cartográfica dos patagões, que teria pouco de humana:

Tratando-se de uma região associada aos antípodas, surgiu em conversa uma figura típica sobre isso.
 Monsters of the Antipodes. (From Margarita philosophica, 1517.)

disponível em Sacred Texts, Book of Earth, de Edna Keaton (1928), que diz:
The Osma Beatus map (Plate XXXIV), although one of the latest (1203), is regarded as one which is in many of its important features most like its prototype. It gives, for instance, alone of all the copies, the pictures of the Twelve Apostles in the regions over which they ruled. It also gives a realistic picture of the inhabitants of the Southern continent or Antichthones, still unknown--those monstrous beings known as Skiapodes or Shadow-footed men, who must always lie or sit in such fashion that their great feet were as umbrellas shading them from the otherwise deadly Sun. There were other fabulous races of this austral land; one whose huge lips, instead of feet, protected them from the scorching fire of the Sun; another whose heads had sunk to a plane almost level with their shoulders; and still another whose heads had sunk quite below the shoulders and had become absorbed in the trunk of the body.
Ao argumento adicionava-se a figura direita, em que a representação de um "homem com cabeça canina", poderia ser uma fantasiosa ideia antiga que via esse habitantes australianos com cabeça de canguru (e com grandes patas). Associar homens a essa descrição seria já uma efabulação própria do contexto medieval.

Não fiquei muito convencido, e disse que, para prosseguir na associação deveria haver uma explicação para as outras figuras, e não apenas para aquelas que se ajustavam à suposição.

David Jorge enviou então, logo de seguida, as três figuras africanas seguintes:

 

O desenho que mostrava uma cabeça no tronco estava quase perfeita face à mascara africana tribal. Não estava à espera de uma resposta que se ajustasse tão bem às três imagens desenhadas no efabulamento medieval, e declarei-me convencido com a sua contra-exposição.

Poderá dizer-se que neste caso já não estamos a falar de tribos australianas, são tribos africanas, mas como o texto inglês indica, são habitantes do "Southern continent or Antichthones", e poderemos encarar a representação medieval englobando uma descrição da parte africana.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Visto isto

Desde o início não me preocupei muito com o aspecto do blogue, interessava-me bastante mais o que iria conseguir descobrir... por isso, basicamente o aspecto do blogue não mudou.

Decidi agora mudar um pouco o logotipo inicial, para ir ficar


o que não corresponde a nenhuma mudança significativa, nem nenhuma vontade especial de tornar o blogue mais esteticamente apelativo, até porque na minha opinião nem ficou melhor.

Continua a assentar no paralelismo África-América que, propositadamente, ou então por grande coincidência, faz com que o portulano de 1485 de Pedro Reinel representando a África vá bater de forma muito coincidente com a costa americana junto ao Golfo do México. Não apenas na forma, mas igualmente na latitude. Aqui uso a versão que fiz para a Wikipedia, porque aí não era permitido usar imagens do Google Maps... teve a vantagem de ficar melhor.

Esse paralelismo África-América senti-o também no logotipo do Infante D. Henrique, que Frei Luís de Sousa dizia ter "duas pirâmides dos reis do Egipto". 
Porque se o logotipo era entendido como tendo pirâmides, pois poderiam ser justamente as pirâmides egípcias e as pirâmides aztecas/maias. 
Acrescia então ter reparado que "Talant de bien Faire", seria "Atlant de bien Afrie", com um pequeno anagrama que trocava as letras de "talAnt" para "Atlant", e outro que trocava "fAi're" para "Afri'e" (note-se que há 2 "A" maiúsculos e apenas um "a" minúsculo).
O que significava isto?
O antigo nome para o continente perdido no Atlântico era "Atlant", e daí também o nome do Oceano, remetendo para o titã Atlas. No Séc. XV ninguém lhe chamava América, e o nome mais natural era a Atlântida de Platão. É isso que diz Poliziano, é isso que diz Sanson.
Acresce que os dois círculos fazem bem dois hemisférios. 
"América por bem África" dá a pista do engano propositado na descrição de Zurara.
Mas "vontade de fazer bem" ou mesmo "talento de fazer bem" é ainda um moto notável.

Finalmente as letras ALVOR SILVES foram retiradas de "OS LVSIADAS" de Camões, à excepção do "R"e do "E" que ficam propositadamente a destoar, retiradas de "REAL" em letra mais pequena. Isto porque tenho perfeita consciência de que ainda que tenhamos vontade de fazer bem, haverá sempre erros que irão contra a realidade. Neste caso, faltaram 2 às 10 letras de "OS LVSIADAS" para se ajustarem ao nome do blogue que tem 11 letras... paciência.

Ainda pensei em juntar uma imagem de D. João II, que está presente no nome do blogue, pelos locais de falecimento e enterro. Gosto especialmente da imagem que está nas tapeçarias de Pastrana, junto ao pai, D. Afonso V. Está ali ainda com cara de criança, com 16 anos, aquando da tomada de Arzila.
No entanto, o propósito do blog acabou por divergir muito do tema inicial, que se centrava na história dos descobrimentos portugueses. As imagens que ficam dizem respeito às imagens iniciais que levaram à constituição deste mesmo blogue.

De resto, verificando que a Descrição, Metodologia, Links e Referências, estão inalterados desde 2010, está na altura de dar uma volta ao blogue, e corrigir alguns aspectos que estão a precisar de reforma desde há muito tempo.

domingo, 23 de setembro de 2018

A nau São Paulo

A nau São Paulo teve um fim que está descrito no 1º volume da História Trágico-Marítima - encalhou junto a Sumatra. Neste caso temos um retrato bastante bom do que se terá passado em 1560-61.

Esta nau fazia parte da armada do capitão Jorge de Sousa, reunida a 25 de Abril de 1560, para a carreira da Índia, e que tinha a seguinte composição:

  • nau Castelo, comandada pelo capitão, dom Jorge de Sousa;
  • nau Rainha, comandada por Jorge de Macedo;
  • nau S. Vicente, comandada por Vasco Lourenço de Barbuda;
  • nau S. Paulo, comandada por Rui de Melo da Câmara;
  • galeão Drago, comandado por Lourenço de Carvalho;
  • galeão Cedro, comandado por Francisco Figueira de Azevedo.

Esta enumeração é feita na sequência de uma troca de comentários com David Jorge e João Ribeiro, tendo ficado algo surpreendido de não encontrar online um simples registo burocrático dos navios e capitães que fizeram a Carreira da Índia. O historiador Luís de Albuquerque fez ainda em 1985 uma edição com os dados constantes na "Relação das Naus e Armadas da Índia", um manuscrito que está na British Library (Códice Add. 20902). Curiosamente numa relação deste livro, as naus que fizeram a viagem da Índia foram São Rafael (Vasco da Gama), São Gabriel (Paulo da Gama), São Miguel (Nicolau Coelho) e outra, de Gonçalo Nunes não estava nomeada, sendo o nome restante a "Bérrio". A troca do nome das naus pelos comandantes, pelo infortúnio da S. Rafael, ou o uso dos 3 arcanjos principais pode ser uma razão desta alteração na relação.
As ilustrações seguintes são retiradas do livro de Lisuarte de Abreu (com agradecimento a David Jorge).
A nau S. Paulo comandada por Rui de Melo da Câmara

Rui de Melo da Câmara tinha regressado da Índia na mesma nau S. Paulo em 1559, e partia de novo para a Índia. O relato constante na  História Trágico-Marítima (páginas 351-479) será de um passageiro, Henrique Dias, criado do Prior do Crato, e é bastante pormenorizado. Não sei se seria "companheiro", no sentido de pertencer a alguma companhia (havia dois padres da Companhia de Jesus), mas todo o seu queixume, ao longo do texto, parece sinal de se revelar um "grande chato".

Ao fim de menos de uma semana avistavam as Canárias. O piloto António Dias seria novo na Carreira da Índia, e acabaram por se perder dos outros navios.
No entanto, o avanço inicial que levaram acabaram por o perder numa procura de ventos e tentativas de evitar os baixos de Santa Ana.
Acabaram por chegar ao Brasil a 27 de Agosto, onde ficaram 44 dias a "invernar", para regressarem ao caminho da Índia, procurando manter a orientação do paralelo 37ºS, onde estavam as ilhas Tristão da Cunha (no texto é dito estarem a 36ºS), e assim evitarem o paralelo 35ºS do Cabo da Boa Esperança. A ideia do piloto seria acertar com a longitude do Ceilão, ou do Cabo Camorim, vogando a Leste nos 37ºS e depois subir na direcção Sul-Norte. Falharam o plano, a derrota foi diferente da rota, e acabaram em Sumatra.
Rota pretendida por António Dias, piloto da nau São Paulo (a negro), 
e a sua derrota (a vermelho), ou seja a rota alterada, que os lançou em Sumatra.

É essa desventura que nos interessa, porque essa ideia de cruzar o Índico, evitando a costa, seria usada depois pelos holandeses, como novidade sua, chamada Rota de Brouwer, onde navegavam directamente para Sumatra, ou acabavam por naufragar imprudentemente na Austrália, como aconteceu com o navio Batavia, encalhado nos Abrolhos australianos.

Manoel Pimentel, cosmógrafo-mor de D. João V, na sua "Arte de navegar" explica como fazer a viagem de África para Timor dessa forma, avisando que as correntes eram complicadas, e se não houvesse cuidado poderiam sucumbir aos baixos Trial (que vitimaram o navio Trial).
Outro ponto de referência nessa navegação eram justamente as ilhas Amsterdam e São Paulo.
Ora, procurando a ilha São Paulo, na página inglesa da wikipedia, refere-se a sua descoberta pela nau São Paulo (e com alguma pesquisa no histórico, entendi que a referência seria um livro de Fina d'Armada, historiadora entretanto falecida em 2014).

 
A ilha de São Paulo (actualmente sob domínio francês) foi descoberta pela nau São Paulo em 15 de Dezembro de 1560.

Com efeito, temos o relato de Henrique Dias que é bastante exaustivo e elucidativo:
Um Domingo, quinze de Dezembro, havendo um mês, que virámos a terra do Cabo de Boa Esperança, no quarto da Alva, em querendo romper a manhã, que saiu aliás formosa e clara, vimos huma ilha três ou quatro léguas de nós por nossa proa; e saindo o Sol com seus dourados e resplandecentes raios, muito para alegrar todo o coração humano, e coisa mortal, a fomos descobrindo; seria ao parecer e juizo de todos de cinco ou seis léguas; foi por certo coisa muito para ver, e dar contentamento aos olhos, ver a Nau em popa com todas as velas, vento fresco, quanto ella podia sofrer, sobre a Ilha, coisa muito para pintar, como alguns fizeram; o dia claro, sereno, e mui quieto, toda a gente a bordo, dando todos muitas graças a Deus com muitas lágrimas; a Missa, e Pregação, que o Padre fez sobre isso, por descobrirmos terra nova, e Ilha nunca vista de outros olhos mortais, senão dos nossos, em mares tão remotos, e nunca navegados de nenhuma gente do mundo, metida tanto na grandeza do mar, e centro dele, que a mais vizinha terra firme, que tinhamos, era o Cabo do Comorim, de que estavamos Nordeste-Sudoeste mil e tantas léguas dele ao mar, tendo já diminuído boa parte do caminho, por que antes vinhamos. 
Foi esta a mais formosa terra, e uma das bem postas Ilhas, que no mar se podem ver, mui alta, e bem assentada da banda do Sueste; vindo fazendo um valle abaixo e sombrio da banda do Nordeste, que parecia cheio de arvoredo, e ter nela parte bom surgidouro; no mais alto dela redonda e chã: por cima da banda do Sueste tinha um pico ou muro redondo muito formoso, e bem posto e talhado, que parecia um castelo feito à mão: está Norte e Sul com a Ilha dos Romeiros, e com a das Sete Irmãs, e Nornordeste e Susudoeste com toda a outra terra firme. Ficámos a barlavento da Ilha, e assim fomos correndo em redor; é toda limpa, sem nenhuma restinga, nem baixo; somente um ilhéu, que tem pegado com terra da banda do Sudeste; ao redor dela achámos muitos Lobos marinhos; e depois que a passámos, muitas camadas de umas ervas muito grandes, como as de Cama de Bretão, e de uma folha muito mais larga, que de uma mão travessa, e assim outras ervas, que traziam em si pegadas umas frutas redondas brancas, do tamanho de ameixas. 
Estava esta Ilha em trinta e sete graus, e três quartos da banda do Sul; em esta altura foi posta, e arrumada em todas as cartas, e quarteirões, que na Nau iam. Sobre o pôr do nome houve muitos debates e diferenças, por quererem os Soldados, que se denominasse deles a Ilha dos Soldados, por um a ver primeiro que todos no quarto da Alva; e o Capitão querer que tivesse seu nome, dizendo ser assim costume às Ilhas novamente debaixo de suas Capitanias descobertas tomarem seus apelidos dos Capitães; o que o Piloto desejoso de glória e louvor não consentiu, nem teve conta com nada, senão depois de arrumada nas cartas em sua altura, lhe pôs seu nome, chamando-lhe a Ilha de António Dias; dizendo-lhe alguns, que bem entendiam, que aos baixos somente se davam, e tinham os nomes dos Pilotos; mas ele determinou brevemente esta questão de maneira, que com o mesmo vento, e governando ao rumo costumado deixámos à ré a Ilha, e a perdemos de vista antes do meio dia. 
A descrição e a localização coincidem o suficiente - Henrique Dias dá 37º45'S, mas a ilha está a 38º43'S, simplesmente também já havia um grau de erro na latitude de Tristão da Cunha, e devemos ter em atenção que estas medições de latitude no mar estavam longe de ser muito exactas.

Haveriam mais algumas coisas a dizer sobre este texto, mas talvez o mais notável é a posição de ascenção do piloto face ao capitão, insistindo em nomear a ilha com o seu próprio nome, António Dias. Ou talvez não fosse este o António Dias que deveria figurar como descobridor da ilha, mas interessaria manter o nome. O nome que acabou por permanecer foi o da Nau, provavelmente porque alguns mapas passaram a referir esta ilha, sem saber dos detalhes contados pelo passageiro.

Nota-se ainda que o piloto insistiu no rumo que levaria à descoberta da ilha, provavelmente porque teria outro conhecimento dela. No entanto, estavam errados face à posição da ilha, que está no mesmo meridiano do Cabo Comorim, e por isso deveriam tomar então o rumo Sul-Norte e não o rumo Sudoeste-Nordeste, que veio a levá-los até Sumatra.

Poupando a leitura da má sorte, do naufrágio e dos sobreviventes, está também ilustrado o desfecho da Nau São Paulo no livro de Lisuarte de Abreu - "a nau São Paulo perdeu-se na ilha de Sumatra (Çamatra)", já em 1561.
A nau S. Paulo naufraga junto a Sumatra, "ficando muitos sobreviventes com fados diferentes".

_________
25/09/2018

sábado, 22 de setembro de 2018

Âncoras (6) - o símbolo Ankh

Ankh
É um dos símbolos mais persistentes nas inscrições egípcias, que é assim representado,
 
O símbolo Ankh numa inscrição egípcia. Templo de Amón-Rá em Karnak.

O mesmo Ankh é conhecido como "cruz ansata", tendo sido considerada cruz cristã para os coptas.

O significado egípcio estava ligado a um ideal de vida eterna, ou ainda à perpetuação das espécies, no ciclo reprodutor a que se pode associar na imagem o papel polinizador das abelhas (ou ainda, eventuais esporos). Thomas Inmann em 1869 já associava o Ankh aos órgãos reprodutores ("the male triad and the female unit"), e a manutenção de uma linhagem pela reprodução, visaria esse ideal de perpetuação da espécie.

Anca
Ver o símbolo Ankh como uma união entre o T terço reprodutor masculino e o Ó do útero feminino, não traz nada de muito estranho, tendo em atenção rituais religiosos mais antigos.
Acontece que a reprodução está ainda ligada à Anca, e normalmente ao alargar das Ancas durante a gravidez. Que a palavra Anca seja próxima de Ankh, e ambas se relacionem assim ao ciclo reprodutor, pode ser uma mera coincidência... ou talvez não.

Âncora
Uma outra coincidência fonética de Ankh é com o prefixo em Âncora. Isso não mereceria nenhuma referência especial, excepto que a forma das âncoras é demasiado parecida com o símbolo Ankh, para poder ser descartada. Digamos que é muitas vezes apresentada como um símbolo Ankh, a que se adiciona um crescente na parte inferior (mais recentemente, na perpendicular).


Este símbolo da âncora tendo implícita uma cruz cristã, foi usado pelos primeiros cristãos, e pode encontrar-se nas catacumbas romanas (figura em cima, à direita), ou em certos sarcófagos (em baixo, num museu de Konya, Turquia).


Curiosamente, e nesta última imagem isto ainda fica mais claro, podemos mesmo identificar semelhanças com o símbolo pré-histórico do Indalo (em Almeria, Espanha). Note-se ainda que há duas cruzes suásticas neste sarcófago (uma do lado esquerdo, e outra do lado direito) - ver notas (ii) e (iii) em baixo.

Há ainda uma cruz de São Clemente, associada justamente ao símbolo da âncora. Clemente foi um dos primeiros papas, do Séc. I, e terá sido morto afogado, preso a uma âncora. Por isso, é habitual considerar o símbolo da âncora como uma variante de cruz cristã, neste caso associada a São Clemente.

Na igreja de St. Clement Danes, na City de Londres, encontramos justamente uma associação à âncora, tratando-se de uma igreja da RAF (Royal Air Force), que também alberga uma loja maçónica desde o Séc. XIX.
Curiosamente, o símbolo da igreja tendo a âncora de São Clemente na parte inferior, tem na parte superior uma águia relativa ao símbolo da RAF. O conjunto é particularmente curioso porque a águia estende as suas asas sobre o conjunto tal como vemos em certas representações das deusas egípcias Nut ou Ísis, onde o símbolo Ankh está presente.


Terço
A forma como o símbolo Ankh é usado nas pinturas ou relevos egípcios traz, nalguns casos uma outra sugestão. Com efeito, se em diversos casos é usado parecendo uma chave, noutros casos é transportado na mão, e ficamos com uma certa ilusão de que a divindade transporta um terço do rosário.
 

O rosário é normalmente apresentado com a cruz, mas como o principal propósito era a contagem do número de orações, há versões sem cruz. A concatenação de rosa com cruz, está associada ao movimento rosacruciano, com ou sem maçonaria, e a todo o simbolismo associado que em muitos casos remetia justamente ao velho Egipto.

Ankh mexicano?
Nalguns sites é possível ver a suposição de que em Toluca (México), num complexo arqueológico azteca de Calixtlahuaca, está um símbolo Ankh.

 ☥ 

Percebe-se um pouco melhor, indo encontrar o objecto no Google Maps e vendo nalgumas fotografias a imagem da cruz ansata. Não me parece ser daquelas situações em que seja totalmente claro que o objectivo daquela construção era desenhar um símbolo Ankh, mas quer queiramos, que não é o que aparece. Com a direcção Nascente-Poente, apontando directamente para uma pirâmide em ruínas, junta-se o velho problema - as pirâmides como construções comuns ao México e ao Egipto.

Convém ainda notar que o símbolo Ankh é demasiado próximo do símbolo de Vénus  para que uma associação à divindade maternal, ou deusa do amor, não seja referida. Como o planeta Vénus foi ainda associado como "estrela da manhã" ou "estrela da tarde", a orientação Nascente-Poente, poderá ter alguma relevância.

Notas:
(i) Caí neste assunto, por via da restituição de uma estatueta egípcia Ushabti, que foi encontrada no México. O artefacto foi encontrado numa propriedade mexicana, e o dono terá entregue a estatueta à embaixada egípcia, que depois confirmou ser uma estatueta autêntica. O responsável egípcio terá dito que deve ter surgido de uma escavação ilegal, pois não estava declarada.
Estatueta Ushabti encontrada no México

Este assunto fez-me lembrar o tema Cabeça Perdida, de que falei em 2012, com a diferença que aqui não houve nenhum problema. Não houve problema, porque sempre que forem encontrados objectos egípcios no México, basta devolver ao Egipto, lugar onde eles deveriam estar, e ninguém fica chateado. Acabam-se logo os Ooparts.

(ii) A segunda nota diz respeito às cruzes suásticas.
Também são encontradas suásticas em Portugal, conforme se pode ver num trabalho publicado recentemente:
 


Num dos casos (Alto do Castro) a inscrição tem a suástica e depois as inscrições "ANICETO CAMPOS 1941", o que poderia levar qualquer observador descuidado a entender que se tratava de uma inscrição recente. No entanto, conforme os autores salientam, e bem, também se poderia tratar de algum simpatizante do "estado novo", que vendo a antiga suástica posta na rocha, decidiu associar o seu nome em 1941, altura em que o regime nazi estava ainda em ascenção mundial. No outro caso (Monte de Novais), as marcas têm claramente um registo antigo, que os autores atribuem à Idade do Ferro. Há mais ocorrências em gravuras rupestres (Portela da Laxe, Serra de Sicó, Castro de Pirreitas).

(iii) A outra situação diz respeito a um símbolo próximo da suástica que aparece frequentemente no País Basco. Trata-se do "lauburu", que é apresentado de forma mais arredondada. É encarado como um talismã de boa sorte, mas por outro lado é suposto representar ainda a unidade do País Basco.
Isto apenas para relembrar que este tipo de símbolos, como a suástica, estiveram espalhados por todo o globo, e são ainda usados em templos budistas (p.ex. na Índia ou China), sem qualquer conotação com o significado mais recente que lhes foi impresso pelo regime nazi. Na prática, como o símbolo era milenar, foi desconsiderada a sua ligação nazi, e como se o símbolo não fosse conspurcado por essa imagem negativa, continua a ser usado sem problemas, nos dias de hoje.

23.09.2018