domingo, 9 de dezembro de 2018

Colete Amarelo, festa brava, Colete Vermelho (2)


Tanto podem bovinos ir com campinos a seguir, como campinos a manobrar e os bois a acompanhar. 

Matança na Galícia
Entre Fevereiro e Março de 1864, na Galícia (Polónia), ocorreram uma quantidade impressionante de assassínios de nobres polacos, estimada em mais de 1000 vítimas, feita por camponeses descontentes com a sua condição de servidão feudal. - Este é o lado em que se vê a manada a correr descontrolada, matando as famílias nobres que os oprimiam e deixando uma quantidade impressionante de órfãos.

No outro lado - a história registou que essa manada campesina que parecia correr descontrolada, era conduzida por "campinos" do império austríaco, que pagavam aos camponeses em troco das cabeças dos nobres, conforme cena ilustrada pela figura seguinte:
Austríacos pagam aos camponeses pelas cabeças, e ficam com os órfãos dos nobres polacos. (Quadro de Jan Lewicki)

O problema é que a Polónia estava repartida (p.ex. entre Áustria e Rússia), e a parte "galega" que correspondia a esta Galícia, tinha acabado de provocar uma revolta na capital Cracóvia (ver "Krakow uprising"), onde os nobres tentavam reclamar uma independência polaca. Tiveram pouco sucesso, com a intervenção russa e austríaca, mas o lado sinistro foi outro.

No campo da "grande coincidência", o movimento libertador dos povos ganhou um grande impulso com a chacina de mil polacos, senhores feudais que oprimiam os camponeses. Também favoreceu os austríacos, é claro... e esse foi o ponto ilustrado pelo pintor polaco, mas só mentes carregadas de teoria da conspiração poderiam pensar que os austríacos, no pico da civilização de Viena, no meio das valsas do Danúbio, iriam patrocinar uma Matança na Galícia

Revolta da Maria da Fonte
Ainda estavam mal secas as lâminas do sangue polaco e eclode, na Póvoa de Lanhoso, a revolta minhota. As comparações estão bem patentes no cartaz seguinte, onde é feita a invocação polaca:
Liberdade, Guarda, Nacional, 
15 de Março de 1846
Póvoa de Lenhoso, Princípio da Revolução

Guerra aos Tiranos, Paz ao bom Governo
Província do Minho Nossa Polónia
De Grécia e Roma os feitos espantosos
O mundo conhecido acobardarão
Porém agora os feitos protentosos
São do Minho, que a Pátria, Libertarão.
Cabraes - víboras
Dedicado aos Heróis da Província do Minho
_________________________________________________

A descrição da revolta iniciada simbolicamente por uma Maria da Fonte Arcada, é dada pelo próprio ministro Costa Cabral, alvo da cólera popular, nas palavras que dirigiu um mês depois aos deputados:
 .... há uma conspiração permanente contra as instituições actuais, contra a ordem estabelecida, e mãos ocultas que manejam estas conspirações, [mas reconhece que a sublevação em curso no Minho] é uma revolução diferente de todas as outras, que até hoje têm aparecido, porque todas as outras revoluções têm tido por bandeira um princípio político, mais ou menos, mas esta revolução é feita por homens de saco ao ombro e de foice roçadora na mão, para destruir fazendas, assassinar, incendiar a propriedade, roubar os habitantes das terras que percorrem e lançar fogo aos cartórios, reduzindo a cinzas os arquivos! [e Costa Cabral continua, reconhecendo que é uma revolta sem chefe, na qual pontifica] a mais ínfima classe da sociedade, executada por um bando de duas mil e quatrocentas a três mil pessoas, armadas com foices roçadoras, alavancas, chuços, espingardas, com tudo quanto eles podem apanhar.
Costa Cabral (20 de Abril de 1846) - wikipedia

Assim, a moda da Polónia passou ao Minho como se a Galécia fosse a Galiza, e em Março de 1846,  se os camponeses da Galécia andavam a matar, os camponeses do Minho andavam a saquear.

A revolta em Portugal levou a uma pequena guerra civil entre cartistas (direita, no governo) e setembristas (esquerda) coligados a miguelistas (extrema-direita), guerra chamada Patuleia... que acabou em 1847 com uma intervenção externa no quadro da Quádrupla Aliança (Portugal, Inglaterra, Espanha, França) que condicionou a Península Ibérica depois de Napoleão. 

Primavera dos Povos
Com estes antecedentes, é convenientemente esquecida a Revolta da Maria da Fonte, no quadro das revoluções que despontaram em 1848, não porque as antecede, porque a Matança da Galécia também antecede, mas simplesmente porque sim... 

Afinal, o Manifesto do Partido Comunista surgiria logo em Fevereiro de 1848, publicado por Karl Marx e Friedrich Engels, que em 1847 tinham fundado na Alemanha a Liga Comunista. 
Já havia uma estrutura político-filosófica para enquadrar os movimentos de revolta popular, e para a narrativa da insatisfação popular, não interessavam nem os pagamentos austríacos aos camponeses, nem revoltas de minhotas religiosas desenquadradas do propósito. O manifesto comunista surgiu como legenda, para que depois se lessem as irrupções populares com o conveniente libreto.

É claro que desde o fio ao pavio, a chama que animou este protesto popular foi acesa pela maçonaria. Apagou e acendeu protestos, de forma mais ou menos atabalhoada, e tão coordenadamente quanto só conseguiria uma estrutura de poder internacional, já muito fortemente implantada.

Bom clima em Katowice
Katowice fica a pouco menos de 80 Km de Cracóvia, e a 172 anos da matança. 
Enquanto o clima em Paris aqueceu em pancadaria pelo aumento do combustível, realizava-se neste fim de semana, em Katowice, o Congresso das Mudanças Climáticas...

O frio não foi anti-climático nos protestos fantoches em Katowice. 

Festa brava, onde o frio animou a palhaçada natalícia, e ao mesmo tempo que se tiritava de frio, os coerentes manifestantes reclamavam contra o suposto/previsto/anunciado aumento de temperatura. Que se aumentem pois os combustíveis fósseis, que os manos do colete amarelo tratam do outro tratamento... Como sempre, um reino de caos para manipular mesquinhos interesses de sobrevivência no poder.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Colete Amarelo, festa brava, Colete Vermelho

Há 170 anos, em 1848, a Europa foi contagiada pela "Primavera dos Povos"... uma série de revoluções em diferentes capitais que, fomentando algumas mudanças de governo, basicamente deixaram tudo na mesma, se exceptuarmos os milhares de mortos, e uma mensagem de bastidores.

Este tem sido um cenário histórico colocado a par dos bravos desacatos do Colete Amarelo, ocorridos em Paris, no passado fim-de-semana e repetidos moderadamente neste.

Não é de estranhar que a moderação tivesse ocorrido uma semana depois, dado o número de efectivos policiais e militares, chamados para patrulhar a capital... que incluíam tanques estilo chaimite:
Neste fim de semana as ruas de Paris ficaram plenas de forças policiais e militares.

Coletes amarelos em pose de rendição... lembrando a posição de rendição no liceu de Mantes-La-Jolie:

 
151 jovens estudantes de Mantes-La-Jolie foram presos nesta quinta-feira, 6 de Dezembro.

Ao ver estas imagens, só me lembrei de um vídeo premonitório dos Arcade Fire, resumo de um filme  distópico dirigido por Spike Jonze, apresentado depois no Festival de Berlim de 2011:

Arcade Fire - The Suburbs (2010)

Para contar esta história apropriadamente, convém notar que na lista de revoluções de 1848 não aparece a Revolução da Maria da Fonte, mas aparece a Matança da Galícia, ambas em 1846.

Bom, com efeito, recuamos ainda mais... e vamos começar com o culto de Mitra:

Consta que o culto de Mitra teria sido tão influente no império romano que se media em popularidade com o cristianismo, antes da adopção da religião cristã por Constantino. Na figura vemos a cena típica desse culto - Mitra executa o sacrifício taurino, na presença do deus Sol, para quem se vira; enquanto o touro está virado para a deusa Lua, representada com os cornos do crescente lunar. Um corvo está junto ao Sol, um caranguejo ataca o touro nos testículos, um cão e uma cobra bebem o sangue taurino. Mitra usa o barrete frígio, que o liga a Àtis, a Páris de Tróia, ou aos reis magos.
Como já mencionei algumas vezes, esta figuração indicia reflectir o fim do calendário e culto lunar, e a sua substituição pelo calendário e culto solar.

Os mais típicos homens de barrete ligados ao touro são, em Portugal, os campinos ribatejanos.
Além disso, ainda que o seu barrete não seja frígio, o seu típico colete levou à instituição das "festas do colete encarnado".
Acontece que, também os artistas ligados à maçonaria passaram a pintar a liberdade munida de um barrete frígio, como no caso típico do quadro de Delacroix, em que lidera os movimentos revolucionários populares. Não é o caso destes proletários que, mais seduzidos pela melodia do que pela letra, de uma canção de não conhecem, arranjaram-se com os coletes de segurança, de quem é vítima de um acidente social, e passaram a ser conhecidos por isso mesmo.
Não tanto por aqueles que vão pela festa, os 150 jovens do liceu de Mantes-La-Jolie experimentaram a dureza de um estado policial  afamado pela sua brutidade e falta de jeito, sendo as primeiras vítimas colaterais do processo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Escritores portugueses até ao Séc. XVII

Seguimos ainda aqui o livro "The ancient and present State of Portugal" (1706), de John Stevens, que é praticamente uma tradução do livro "Epítome de las Historias Portuguesas" de Manuel de Faria e Sousa (1590-1649), mais precisamente na Quinta Parte cap XV, pág. xlv.

É apresentada aí uma lista dos escritores portugueses mais relevantes, com uma breve referência ao período em que viveram ou à actividade. A lista de John Stevens é uma parte reduzida da lista de Manuel Faria e Sousa, que tem uma lista de nomes maior. 
Diogo Barbosa Machado vai depois levar esta tarefa mais longe, com a Bibliotheca Lusitana (1741-58), procurando dar conta de tudo o que tinha sido publicado até à sua época.

Fica aqui a lista reduzida, conforme John Stevens:
Manuel Faria e Sousa tinha ainda a seguinte lista de nomes:
Afonso Álvares; Afonso Nunes. Álvaro Valasco; Angelo Pacense; António de Gama; Frei Antonio de Lisboa; Frei Antonio Dominico; Frei Antonio de Sena, dominicano; Frei Antonio de Sousa; Antonio Velez; Antonio Ferreira;  Frei Bartolomeu Ferreira; Frei Baltasar de Santo Domingo; Cristovão da Costa; Frei Damião Dias de Santo Domingo; Frei Damião da Fonseca de Santo Domingo; Damaso I, Pontífice santo: Teologia, poesia; Diogo Pereira, sob D. Manuel: Poemas latinos; Diogo de Gouveia e Diogo de Teive, sob D. João III: Humanistas; Diogo de Paiva, sob D. Sebastião: Teologia; Frei Diogo de Stela; Diogo do Couto, sob Filipe II: História; Diogo de Sá; Diogo de Castro: Poesia; Frei Domingo de Paz, de Santo Domingo; Duarte Barbosa; Frei Estevão Leitão, de Santo Domingo; etc....

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Nota (30.12.2018):
Nomes que não constavam em nenhuma lista, porque provavelmente teriam sido demasiado polémicos:
... entre diversos outros. Mas, por exemplo, o padre António Carvalho da Costa - "Tratado de Astronomia" (1680), como já seria contemporâneo da compilação de escritos seria mais natural não aparecer.

sábado, 24 de novembro de 2018

Cortes de Portugal em cortes

No livro "The ancient and present State of Portugal" (1706), de John Stevens, encontramos uma disposição dos lugares nas cortes portuguesas.
É uma "fotografia" das cortes que antecede o tempo em que se iria instalar o absolutismo de D. João V, e que nos permite ver o peso que a representação das diversas vilas e cidades tomava no conselho. Veremos ainda quase a mesma disposição num livro de João Batista de Castro, publicado uns anos mais tarde. Acaba por ser extremamente curioso ver a importância tida por certas vilas, que acabaram por definhar na sua evolução, sendo hoje praticamente esquecidas.

A questão toma ainda outro significado se entendermos que no Séc. XVIII também não faria muito sentido incluir aqueles lugares pela sua importância à época. Mais, mesmo durante os tempos mais remotos da nossa monarquia, na 1ª Dinastia, ainda dificilmente faria sentido incluir aqueles lugares e não outros. Além disso, não se nota propriamente nenhuma distinção entre a vilas algarvias, sendo Tavira e Silves colocadas no segundo banco, Lagos e Faro no terceiro, Loulé no 9º e Castro Marim no 13º. No entanto, essas vilas só entraram no reino após a conquista algarvia de D. Afonso III. A própria inclusão de Vila Real, sugere que poderá ter havido uma reorganização levada a cabo por D. Dinis.

Estes cortes ou recortes do território nacional, representados nas vilas pelos representantes, formaram um tipo de parlamento singular, chamado cortes. Este parlamento estava desligado do conceito de corte, que resumia uma parte de nobreza residente em Lisboa, frequentadora do paço real.
Era aqui dada uma elevada importância aos conselhos locais, que depois foram deturpados em escrita diferente como concelhos. Mesmo no assento dos diversos elementos, tirando algum destaque dado aos duques, os marqueses e condes ficavam na mesma parte da sala que os representantes das vilas, apenas um degrau acima. Não havia propriamente uma grande diferença representativa face à dimensão da cidade ou vila, permitindo um espelhar do território que seria especialmente conveniente ao rei, pelo corte efectuado na proporcionalidade.

Parece ficar assente nestes assentos que poderá ter havido um legado, vindo de uma tradição nacional ainda mais antiga, remontando ao tempo da presença sueva, ou ainda mesmo antes da presença romana, se quisermos pensar numa monarquia lusitana não fabulosa. A reunião dos diversos líderes locais poderia dar-se em assembleias deste tipo, a que foi depois inserido todo o aparato da presença real até 7 degraus acima da plebe. Para além dos cortes territoriais, passaram a estar presentes os cortes sociais, que definiram o formato dessas novas cortes.

Mapa dos lugares nas cortes, segundo o livro de John Stevens (1706)


Trono
1. Rei - cátedra estatal, onde o rei se sentava com o ceptro na mão.

Degrau 6
2. Camareiro mor, atrás do rei (lord chamberlain).
3. O grande selo real, em cima de uma almofada.

Degrau 5
4. Escrivão da Puridade, secretário do rei, que guarda o grande selo.

Degrau 4
5. Guarda mor, responsável pela segurança do rei, em pé.
6. Mordomo mor (lord high steward), em pé.
7. Condestável (antes Alferes mor), com a espada erguida.
8. Meirinho mor (ou Alguazil).
9. Prelado, responsável pelo discurso inicial, senta-se depois junto dos outros prelados.

Degrau 3
10. Duques, sentados em bancos sem costas, com almofadas de veludo.
11. Regedor da Casa da Suplicação, presidente do conselho real.
12. Chanceler mor, chefe de governo.
13. Veedores, superintendentes da fazenda.
14. Desembargadores do Paço.
15. Chanceler mor da Suplicação.

Degrau 2
16. Desembargadores dos agravos.
17. Corregedores da corte.
18. Oidores, juízes do conselho real.

Degrau 1
19. Outros advogados do conselho real.

20. Marqueses, sentados em bancos sem costas, com almofadas de veludo pretas.
21. Condes.
22. Pessoas do conselho, em ambos os lados.
23. Donatários, nobres fidalgos, senhores, com domínio absoluto sobre as suas terras.
24. Alcaides, governadores de cidades ou vilas.
25. Bispos e prelados.

Degrau 0
26. Arautos reais, ou reis de armas.
27. Porteiros, ou sargentos de armas, com as suas maças, de pé.

- Representação das cidades e vilas (um ou dois lugares):

28: Lisboa. 29: Évora. 30: Porto. 31. Coimbra. 32. Santarém.
33. Braga. 34. Viseu. 35: Guarda. 36: Tavira. 37: Lamego. 38: Silves. 39: Elvas.
40: Beja. 41: Leiria. 42: Faro. 43: Lagos. 44: Guimarães. 45: Estremoz. 46: Olivença.
47: Montemor o Novo. 48: Tomar. 49: Bragança.
50: Portalegre. 51: Covilhã. 52: Setúbal. 53: Miranda.
54: Vila Real. 55: Viana de Lima (Viana do Castelo). 56. Ponte de Lima. 57. Moura.
58. Montemor o Velho. 59: Alenquer. 60: Torres Novas. 61: Sintra.
62: Óbidos. 63: Alcácer do Sal. 64: Almada.
65: Torres Vedras. 66: Nisa. 67: Castelo Branco. 68: Aveiro.
69: Serpa. 70: Mourão. 71: Vila do Conde. 72: Trancoso.
73: Pinhel. 74: Arronches. 75: Avis. 76: Abrantes. 77:  Loulé.
78: Valença. 79: Freixo de Espada à Cinta. 80: Alter do Chão. 81: Monção. 82: Alegrete.
83: Penamacor. 84: Castelo de Vide. 85: Castelo Rodrigo. 86: Marvão. 87: Sertão.
88: Monforte. 89: Fronteira. 90: Crato. 91: Veiros. 92: Campo Maior.
93: Castro Marim. 94: Torre de Moncorvo. 95: Caminha. 96: Palmela. 97: Cabeço de Vide.
98: Monsanto. 99: Coruche. 100: Barcelos.
101: Garvão. 102: Panóias. 103: Ourém.
104: Albufeira. 105: Ourique. 106: Arraiolos. 107. Borba. 108: Portel.
109: Vila Viçosa. 110: Monsaraz. 111: Atouguia. 112: Penela. 113: Santiago do Cacém.
114: Vila Nova de Cerveira. 115: Viana de Évora.
116: Porto de Mós. 117: Pombal. 118: Alvito. 119: Mértola.


No "Mapa de Portugal Antigo e Moderno", João Bautista de Castro faz assim a descrição:
As cortes de Portugal correspondem às assembleias de França, dietas de Alemanha, e parlamentos de Inglaterra. Compõem-se dos três estados do reino, eclesiástico, nobreza, e povo, aos quaes costuma el rei convocar para as determinações públicas, e de grandes interesses. Juntam-se as pessoas dos três estados em uma sala ricamente adornada: na cabeceira d’ella se levanta um estrado de seis degraus com a elevação de sete palmos, que é para o trono d'el rei: na parte inferior arrimados à parede se põem bancos, e pelo corpo da sala, para se sentarem os chamados, que são os títulos, prelados, senhores de terras, e procuradores das cidades e vilas.
Principia este acto com a assistência d'el rei, o qual costuma vir com opa rossagante de brocado, e ceptro de ouro na mão. Vem diante dele o condestável do reino com o estoque levantado, e mais adiante o alferes mór com a bandeira real enrolada, precedendo os reis de armas, arautos, e passavantes vestidos em cotas, onde se vê bordado o escudo do reino. A estes antecedem os porteiros com maças de prata; e, se o acto é de juramento de algum príncipe, precedem a tudo os atabales, e clarins. Chegando el rei à cadeira, se acomodam todos nos seus assentos determinados. 
Bancos   (Preferência dos procuradores das cidades , e vilas do reino, que têm assento em acto de cortes)
1: Porto, Évora, Lisboa, Coimbra, Santarém, Elvas.
2: Tavira, Guarda, Viseu, Braga, Lamego, Silves.
3: Lagos, Faro, Leiria, Beja, Guimarães, Estremoz, Olivença.
4: Portalegre, Bragança, Tomar, Montemor o Novo, Covilhã, Setúbal, Miranda.
5: Ponte de Lima, Viana Foz de Lima, Vila Real, Moura, Montemor o Velho.
6: Sintra, Torres Novas, Alenquer, Óbidos, Alcácer do Sal, Almada.
7: Nisa, Torres Vedras, Castelo Branco, Aveiro.
8: Mourão, Serpa, Vila do Conde, Trancoso.
9: Avis, Arronches, Pinhel, Abrantes, Loulé.
10: Alter do Chão, Freixo de Espada à Cinta, Valença, Monção, Alegrete,
11: Castelo Rodrigo, Castelo de Vide, Penamacor, Marvão, Sertã.
12: Crato, Fronteira, Monforte, Veiros, Campo Maior.
13: Caminha, Torre de Moncorvo, Castro Marinho, Palmela, Cabeço de Vide.
14: Barcelos, Coruche, Monsanto, Garvão, Panoias, Ourém.
15: Arraiolos, Ourique, Albufeira, Borba, Portel.
16: Atouguia, Monsaraz, Vila Viçosa, Penela, Santiago de Cacém.
17: Viana junto de Évora, Vila Nova de Cerveira, Porto de Mós, Pombal.
18: Alvito, Mértola. 
Nota adicional (25.11.2018):
A descrição de John Stevens é completamente importada da "Epítome de las Historias Portuguesas" de Manuel de Faria e Sousa (1590-1649), na Quinta Parte, Capítulo II, pág. ix.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

T´ouro

Em 1876 a Sociedade Protectora dos Animais, dirigida pelo Conde de Penamacor (António Maria de Saldanha e Castro Ribafria), apresentou um requerimento ao rei D. Luís para a abolição das touradas. O documento exemplar está disponível aqui:



Transcrevo o primeiro ponto, mas o documento de 34 páginas merece ser lido.
Tudo quanto tender, directa ou indirectamente, para extirpar dos usos nacionais os restos da barbárie de antigas eras, amaciar os animos, e espalhar ideias sensatas, suaves, e compassivas, é da estricta obrigação d'esta Sociedade lembral-o, pregoal-o, e persuadil-o quanto poder. Às auctoridades constituídas (sabe-o Vossa Magestade para ventura d'esta nação) compete propagar aquellas ideas sãs, empregar todos os meios para desenvolver no povo as tendencias humanitarias, e arrancal-o aos perigosos entretenimentos, que lhe acordam no peito o desamor, a ferocidade para com os animaes, e a final lhe endurecem o coração para com os seus próprios semelhantes.
Entre os usos mais barbaros figuram em primeiro logar as repugnantes, as inqualificaveis corridas de touros, vestígio das civilisações cahoticas e sanguinarias de outros tempos, descendencia espuria dos circos romanos, escarneo ás ideas modernas, conservado para opprobrio da Peninsula em face da Europa culta, christã, e utilitaria, e em pleno seculo XIX!
Não ha principio que as defenda; não ha lei que as auctorise; não ha consideração, que não as condemne bem alto.
Vamos demonstral-o.
I
Não ha principio moral que defenda as corridas de touros. Martyrisar durante horas, e sem motivo, uns desgraçados animaes, arrancados ao seu meio, á sua vida pacífica, arrastados a grande custo, e com grande risco, a enormes distancias, é (pelo menos) prova de uma ociosidade de animo e de uma crueza notaveis; muito mais, se considerarmos que as victimas são, antes de entrarem na praça, barbaramente espicaçadas a pampilho no recinto de poucos palmos que lhes serve de jaula, a fim de se acordar nellas maior furia, isto é mais pretextos a maior supplicio.
Acabada a tourada, chega, em vez do descanço, o chamado curativo. O curativo das feridas feitas a sangue frio por homens adestrados n'aquelle triste mister, e talvez mais atormentador do que os dois supplicios que se acabam de infligir.
E quem auctorisa o homem, o rei magnanimo da creação, a fazer das dores de algum ente vivo o joguete para horas frivolas, a suppliciar esses bons animaes, dos mais uteis sem duvida, dos nossos mais prestadios servidores, os bois, companheiros e instrumentos das lidas agrarias, servos constantes, e não salariados, do lavrador!?
Quem permitte á praça de touros, ignobil e ridiculo Colliseu de taboas pintadas, recinto immoral, onde a crueldade se arvora praticamente em principio, a vir desmentir com ironias as doutrinas puras da escola primaria, onde se inoculam theoricamente nas creanças as ideas de compaixão e protecção para com os irracionaes?
Vir-se-ha ainda invocar, pela millesima vez, a usança, a posse consuetudinaria, para justificar as corridas? fraco argumento na verdade, ante o qual cairiam sem duvida por terra todas as reformas, por mais uteis, por mais instadasl
Não confundâmos a tradição, esse archivo sui generis das nações, com as praticas e costumagens da plebe inculta. Nada mais alto, Senhor, nada mais nobre, que as commemorações do passado; nada mais augusto, que a tradição dos povos. Nada mais odíoso que o preconceito, enferrujado grilhão da nossa escravidão moral.
Adduzir-se-ha ainda o exemplo da nossa briosa visinha, a Hespanha, onde (pela força do vezo) as corridas são bem mais barbaras do que em Portugal? Mas essa sombra de rasão não poderia colher, visto que o pessimo alheio não justifica nunca o nosso mau.
Julgar-se-ha defender as touradas affirmando serem ellas clara prova da dextreza dos cavalleiros e capinhas, signal do seu sangue frio e da sua hombridade, e mostra brilhante da victoria do engenho sobre a força? Mas, por Deus! quando tantas outras demonstrações podem blazonar aquelles luctadores da sua pericia e do seu valor, porque hão-de assim escolher para taes alardos o mais condemnavel dos passatempos, praticando sevicias inuteis, e (o que é mais grave) expondo a vida n'uma lucta ingloria, sem alvo nobre, sem motivo que saiba ao menos justificar os meios? 
Os argumentos continuam, invocando o papel primeiro que Portugal teve em abolir a pena de morte, algo já então entendido como motivo de orgulho nacional. Faz uma resenha história que lembra uma proibição das touradas por bula papal de 1567 de Pio V, proibição que durou 8 anos, até que em 1575, por pressão do rei de Espanha, Filipe II, foi levantada a excomunhão aos toureiros pelo papa seguinte, Gregório XIII.
Não deixa ainda de se lembrar que D. Afonso VI ou o irmão D. Pedro II impuseram algumas proibições, determinando o fim do toureio com os cornos afiados. 
Lembra-se ainda o decreto de Passos Manuel de 1836, em nome da rainha D. Maria II, que proibia as touradas, mas que viria no ano seguinte a revogar a proibição... este foi um ponto falado nas últimas semanas.

Numa sociedade que praticamente desprezou tudo o que eram tradições populares, vindas de tempos imemoriais, perdendo-se grande parte do seu significado, é especialmente caricato ver uma protecção desta prática com o argumento da "tradição". 

O argumento da "tradição" é uma "contradição", porque nenhum dos promotores tem a mais pálida ideia de qual seria o significado remoto dela. A herança mais recente poderá ter-se ligado a uma continuação dos circos romanos, conforme sugere o documento, no seu lado de espectáculo violento, promotor da libertação de um lado negro na índole humana.
Mas, do que pude entender, a tradição mais antiga prende-se provavelmente com a celebração do "touro embolado", com os cornos em chamas, conforme referimos em postal anterior:
... e que pode estar ligado a uma manifestação ainda mais antiga, encontrada em pinturas rupestres na Crimeia.
Há alguma ligação histórica pretendida entre uma coisa e outra? Algum nexo, alguma moral digna, algum ensinamento primevo que se transmita? Claro que não!
Curiosamente, se alguém promovesse o espectáculo do "touro embolado", seria provavelmente acusado de mau trato aos animais... apesar de nada disso se passar, e haver muito mais razões e mais antigas, para manter essa tradição. Lembramos ainda os frescos de Creta, onde o convívio com o touro se limitava à acrobacia de fazer um "pinote" nas suas costas.
Se o "touro embolado" é uma tradição que remonta à pré-história, é muito natural que as touradas tenham aparecido "recentemente", na altura em que a civilização da Lua deu lugar à civilização do Sol. Ou seja, quando o tempo da caça, regido pelos meses lunares, deu lugar ao tempo da agricultura, regido pelos anos solares.

O crescente dos cornos do touro sempre esteve associado à Lua, e às sua fases, que mostrava esse mesmo aspecto, em quarto crescente ou quarto minguante. O touro esteve assim ligado a uma civilização primordial, matriarcal, de pequenas comunidades, uma sociedade mais feminina do que masculina. A sua importância não parece perdida na palavra onde touro ou tauro se liga a ouro ou a auro, a um esplendor antigo, entretanto perdido.
A substituição da caça pela agricultura trouxe comunidades sucessivamente maiores, de dimensão descomunal, onde "descomunal" significa mesmo fora da comunidade, pela sua dimensão exagerada. O símbolo dessa civilização agrícola passou a ser o Sol em substituição da Lua, e parece-me natural que tourear o touro, fosse uma espécie de comemoração insana da vitória do dia sobre a noite, na perspectiva dos novos mandantes.

Interessa que é absolutamente perverso, e cínico, invocar tradição sem querer ligar ao seu significado, não ao significado de duas patacoadas e meia, mas sim ao significado mais profundo.
O que resta assim da tradição é apenas o espectáculo... e sobre esse mesmo espectáculo não há grandes dúvidas - ou a empatia com o touro é maior, ou é menor.
Havendo empatia com o touro, quem observa o espectáculo, ou simplesmente quem sabe que ele existe, não pode ficar indiferente a que haja pessoas que não tenham qualquer empatia pelo bicho, e o tratem de forma desalmada. Não se trata de uma questão de liberdade, tal como não faz parte da liberdade individual afectar a liberdade alheia.
Trata-se de uma questao de civilização.

Enquanto a nossa civilização não evoluir ao ponto de nutrir empatia com o que nos rodeia, pois permanecerá numa evolução que leva inevitavelmente à separação, e ao afunilamento em grupinhos e grupelhos.
Não me preocupa muito o sofrimento do touro, preocupa-me saber que há quem saiba que o touro sofre e faça disso um espectáculo. Não tem paralelo com outro tipo de sofrimento infligido a animais, que pelo menos serve um pretexto de necessidade humana.


Nota adicional (24.11.2018):
Surge este postal também um pouco na sequência dos comentários ao anterior.

Convém salientar o argumento de atraso civilizacional no Século XIX... pois estamos no XXI.
Há assim uma tradição crítica que remonta não apenas aos quase 150 anos deste requerimento, mas até aos mais de 450 anos da bula papal. 
Ao mesmo tempo que há já proibição do uso de animais em espectáculos de circo, a tauromaquia tem se feito valer da sua última ligação às ganadarias e perdida aristocracia, para mover influências e manter ao longo dos séculos este status quo. Não é apenas o touro bravo que arrisca extinção, é uma última ligação de alguma aristocracia ao combate de sangue, que dos sarracenos passou para os bovinos. 
Citando o documento: 
- "Tristissimo preconceito (ainda hoje não extincto) o que assim erguia aqueles lidadores do corro á cathegoria de heroes, e como que realçava, perante a opinião de uns certos, o quilate heraldico dos seus brazões."

O argumento de que sem as touradas não existiriam os touros... tem alguma razão histórica, mas não tem a razão emocional. Não podem os ganadeiros invocar-se como protectores da espécie, se apenas o fizeram para gáudio da exploração sem consideração pelo animal, socorrem-se da tradição para uma contradição de propósitos.

Finalmente, do outro lado da barricada, começam a crescer vozes de uma completa imbecilidade argumentativa, colocando o homem como apenas mais uma espécie, que não tem o direito de se querer distinguir dos restantes animais. Essa insanidade que aparenta ser científica, é uma irracionalidade básica, promovida por muitos pretensos cientistas. 
Quando o homem é colocado par a par com os restantes animais, tem liberdade para agir irracionalmente. É por isso de uma perfeita contradição de termos pedir racionalidade, invocando uma paridade com a irracionalidade.
Uma tristeza dos nossos dias...

domingo, 18 de novembro de 2018

Questão de... civilização

A propósito do IVA nas touradas, disse a ministra da cultura
- "Não é uma questão de gosto, é uma questão de civilização..."

Na civilização Azteca a questão sacrificial estava tão embebida na cultura que podemos ficar surpreendidos com relatos em que as vítimas, por questão de honra, pediam para ser sacrificadas, ao invés de ficarem satisfeitas com a libertação:
The conquistadors Cortés and Alvarado found that some of the sacrificial victims they freed "indignantly rejected [the] offer of release and demanded to be sacrificed". [wikipedia - R. Townsend (1979) "State and Cosmos in the Art of Tenochtitlan"]
O que ocorreria hoje, se os espanhóis não tivessem levado a cabo um dos maiores genocídios humanos e culturais, como aquele que foi feito com as civilizações Azteca, Maia ou Inca?

- O que restou na América Latina foi essencialmente uma civilização espanholada, fortemente educada pelos padres espanhóis que se dedicaram a instruir a população pelo fogo e pela Bíblia, e assim os registos mais cruéis que subsistem ainda hoje estão associados a gangues ligados ao narcotráfico, num registo de necessidade de violência ou terror, como forma de poder.

- No entanto, noutras partes do globo não houve propriamente uma quebra cultural com um passado de tradições violentas, e o caso mais paradigmático é o da Arábia Saudita. 

Há assim estados, onde práticas ancestrais se mantêm, como se nada se passasse... e tal como a Arábia Saudita pôde ser indicada para chefiar a comissão de direitos humanos da ONU em 2015, passados poucos meses pôde ordenar a decapitação de 43 condenados à morte, incluindo o carismático xeique Nimr.

A Arábia Saudita parece assim protegida por um estado de graça a que se chama politicamente correcto, ou simplesmente, petrodólares... ao ponto de ter mesmo decidido arriscar o assassinato fora de portas, na Turquia, de Jamal Khashoggi, crítico do regime exilado nos EUA em 2017, e que era jornalista associado ao Washington Post. Segundo o mesmo Washington Post, a CIA terá confirmado ontem que a ordem partiu do príncipe herdeiro da Arábia Saudita. Na lógica de Trump, que elogiava os negócios bilionários que a Arábia Saudita fizera com os EUA, a relação entre civilização e cacau, começa a ficar complicada, e esta pequena "falta de respeito" deverá ter que ser reencenada, na lógica do politicamente correcto.

Dir-se-à que há 40 anos a França ainda guilhotinava pessoas, que os EUA mantêm a pena de morte na maioria dos seus estados, ou que a China chega a executar mais condenados do que o resto do mundo... mas há uma grande diferença, que é a ligação a uma tradição corânica, milenar. 
Seria o mesmo que o México executar pessoas retirando o seu coração numa pirâmide, porque considerava correcta essa tradição religiosa azteca. 

Se as pessoas estiverem suficientemente anestesiadas, para considerar que é uma honra ser protagonista num espectáculo de sacrifício humano, como estavam algumas das vítimas aztecas, então poderá dizer-se que é um problema seu... e que não nos diz respeito. Só que esse espectáculo não é privado, é público, e como tal, todos participamos no sentimento da lâmina a deslizar pelo pescoço... sendo ainda claro, como na Arábia Saudita, que em muitos casos os motivos são políticos e não criminais, não havendo propriamente qualquer compreensão dos condenados.

Questão de... natureza
Sabendo que executamos milhares de milhões de animais diariamente, parece algo caricato colocar um problema num espectáculo como a tourada, que em Portugal só em casos excepcionais tem associada alguma morte em palco. 

Só que mais uma vez o que está em causa é a empatia.
Neste caso, a empatia com o animal, com o touro.
A sociedade actual tem ainda o lado ridículo de ter pessoas com mais empatia com animais, do que com outras pessoas... mas esqueçamos essa abnormalidade previsível.

A natureza teve uma evolução violenta a partir do momento em que definiu os animais, e implicou que a sobrevivência de uns só se pudesse dar pela morte de outros. No entanto, essa sobrevivência animal não era normalmente levada ao ponto da morte dentro da própria espécie, como passou a verificar-se com os hominídeos. 
Já referimos que essa evolução foi determinante para o desenvolvimento cognitivo, no sentido em que tanto os predadores evoluíam na capacidade de capturar as presas, como as presas evoluíam no sentido de escapar aos predadores. Quem melhor conhecia o predador era a presa, e quem melhor conhecia a presa era o predador. Quando estas espécies eram diferentes, o conhecimento era separado, e só quando passámos a hominídeos, os predadores e presas passaram a ser o mesmo sujeito - os homens... mesmo que pela têmpera uns tivessem mais postura de presas e outros tivessem mais postura de predadores.

É lixado, mas se prezamos a nossa capacidade cognitiva, não podemos dissociar que ela foi só possível em termos evolutivos, pela competição violenta entre animais, e depois entre homens.
É perfeitamente natural que haja ainda quem pense que uma evolução cognitiva só será possível estimulando a competição humana, colocando uns como predadores e outros como presas. Há assim uma elite social que gosta de se ver como predadora, vendo toda a restante população como presa, como gado, do qual se "alimenta", ou o qual conduz como "rebanho", estando a esses guardado o papel de "pastores". Tem ainda como ideia condicionada que as maiores evoluções técnicas resultam de grandes guerras... ignorando que essas guerras apenas libertam um potencial técnico já existente, e escondido dos olhos da maioria.

Questão de... nova civilização
Ora, o que é claro é que a partir do momento em que o confronto foi colocado na própria espécie, só falta encontrar o último adversário. Só percebe quem chega ao topo da pirâmide que, tendo eliminado todos os restantes adversários, o último adversário que se opõe a si, é o próprio.
Se chegou a essa conclusão só depois de eliminar todos os adversários, pois é tarde demais... acabou por se encontrar num universo sózinho, do qual não tem saída.

Se chegar a essa conclusão antes disso... pergunta-se o que fazer daqueles que continuam a comportar-se como predadores, e daqueles que gostam de se armar em presas?... mas essa é a mesma questão que os humanos tiveram quando se depararam com predadores e presas de outras espécies. 
O que fizeram? 
Foram falar com o leão e tentaram convencê-lo a não os comer?
Claro que não, simplesmente evitaram-no enquanto puderam, e depois, quando pela arte e engenho suplantaram a ferocidade do bicho, circunscreveram-no à sua insignificância animal.

Portanto, quem entender o suficiente, sabe exactamente o que há a fazer.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

D. Duarte, bestas, taxas e rei

As bestas
Dizia D. Duarte, no seu livro da "Ensinança de bem cavalgar toda a sela", que:
Saiba corrigir si e sua besta para bem parecer, e se mostrar bem, encobrindo o contrário de si e dela.
Numa sociedade onde as palavras só em rara ocasião significam literalmente o que dizem, uma frase deste género pode ser interpretada para além do simples propósito de corrigir a figura do cavaleiro ou da sua cavalgadura, na arte da equitação. 

Porém, lendo capítulos com títulos como:
  • IX - de como se hão de ter nas coisas que as bestas fazem per que derrubam para diante;
  • X - do que se deve fazer quando a besta faz para derrubar atrás;
não seria completamente claro que o espírito de D. Duarte estivesse a falar de outro tipo de bestas, senão daquelas que montava.

Mas no Capítulo XI, ousa referir que há um comparativo no seu propósito com as bestas:
Tal jeito, como este de andar direito na besta, me parece que devíamos ter nos mais de nossos feitos, para sermos no mundo bons cavalgadores, e nos termos forte de não cair para as malícias com que muitos derrubam por esta guisa se ver em coisas contrárias, de feito, dito, cuidado, ou lembrança em tal  guisa, que sentimos seu derrubamento em sanha, mal querença, tristeza, fraqueza do coração (...)
D. Duarte, seguiu no impulso da besta, no primeiro salto em África, colocado em Ceuta pelo seu pai, D. João I, e pelo derrube para diante colocado pelo seu irmão Infante D. Henrique, na trágica expedição a Tanger, em 1437, onde o irmão mais novo, o Infante Santo, D. Fernando, foi sacrificado. 
De facto, foi o permanecer direito na montada, que determinou o fim do irmão mais novo. Se houve geração em que o projecto do reino falou mais alto do que a família, este exemplo de abandonar o irmão, para não abandonar Ceuta, marcou definitivamente a importância dada à missão. 
Todo o reino percebeu isso, e especialmente a partir do neto, D. João II, as cavalgaduras do reino estiveram prontas aos maiores sacrifícios, além mar, contanto que a realeza permanecesse direita nesse cavalgar, que ultrapassava o bem estar da própria família real e a corte. Claro que, nesta história, a casa de Bragança foi fazendo o papel das bestas que derrubam para trás. Conforme moto da própria casa de Bragança, um "depois de vós, nós"... deixava claro o ideal rasteiro de ocupar o poleiro, visando o final da dinastia de Avis. Enfim, a pequena grande diferença entre ter uma família ao serviço da nação, e querer uma nação ao serviço da família.
Assim, à excepção das bestas mais preocupadas com a crina do que com o porte, que foram formando a corte bragantina, as restantes montadas do reino tomaram a direcção marítima como ADN, e desde que essa direcção se perdeu no nevoeiro sebastianista, não mais deixaram de a desejar.  

D. Duarte não terminou este livro, tendo morrido vítima da peste, em 1438, com 46 anos. 
É interessante vermos como a linguagem de D. Duarte nos é mais estranha, o que significa que vai mudar consideravelmente no espaço de décadas, para não sofrer depois uma tão grande alteração até aos nossos dias.

Taxas e Rex
D. Duarte investiu bastante no melhoramento do Mosteiro da Batalha, com as capelas imperfeitas, e a sua divisa encontra-se marcada em diversas pedras desse mosteiro, como por exemplo aqui:
 
D. Duarte - "tãxas e rex" - "tãyas e rey" - Mosteiro da Batalha

Na primeira figura parece-me clara a transliteração "taxas e rex", o que seria um moto bem drástico e pouco politicamente correcto para um rei, advogando "taxas e rei". Dada a segunda figura será de admitir que pudesse ser "tãyas erey" ou algo similar... se isso fizesse sentido, o que dificilmente faz, e as explicações são pouco convincentes.
Há assim um problema de interpretação no moto usado por D. Duarte, já que normalmente é considerado poder dizer "tã ya serey" ou "tayas serey", o que é curioso já que o "s" se encontra claramente separado do "erey". Encontramos um artigo que aborda este assunto:


... deixando clara a confusão instalada, e a pouca certeza nas especulações avançadas. Existe ainda outro moto, aí entendido como "leaute feray" ou "leau te staray", que é considerado como primeira parte do lema.

 ... neste caso a identificação visual é ainda mais difícil, e por esta imagem, eu não arriscaria nenhuma tentativa de transliteração.

Admitindo que é um "y" e não um "x", então um lema como "tã yas erey", poderia significar uma expressão como "tanto ias, irei", ainda que o "erey" mais facilmente se lê-se "errei" do que "irei".

Não estando identificado este "mistério" como coisa sonante ou importante, talvez porque D. Duarte acabou por ficar na sombra dos irmãos (o Infante D. Henrique e o Infante D. Pedro), não creio que tenha havido suficiente interesse dos ratos de biblioteca, digo, dos investigadores, em dar uma volta aos manuscritos antigos, para procurar o significado do lema.

Atendendo à Lei Mental que D. Duarte publicou, no sentido de reverter ao rei anteriores doações feitas à nobreza (reversão na ausência de filhos varões), podemos entender isso como uma "taxa", e o moto "taxas e rei" faria algum sentido prático, mas teria pouca "alma" para o espírito da época... digamos que seria um moto melhor para qualquer actual "empresário" de pacotilha. 
Por isso, não creio ser essa a empresa que D. Duarte ali quisesse proclamar, e sem mais informação não vejo interesse em arriscar outra.

___________
Nota (17.11.2018):
Comentou o João Ribeiro acerca do moto completo, conforme avançado por Brito Rebello em 1905, que o interpretou como expressão francesa de "lealdade farei, enquanto serei", na forma:
Leauté faray 
tã ya serey
mais especificamente, citando Brito Rebello:
«Neste caso as tais inscrições diriam – leauté ferai ou j’aurai – a que respondia o resto da divisa – tant que serai, isto é: serei leal ou guardarei lealdade enquanto existir.»
e esta interpretação tornou-se de tal forma aceite, que a podemos ouvir num dos programas de José Hermano Saraiva (ao minuto 14:00), sem qualquer menção às anteriores dúvidas. No entanto, olhando o escrito no mosteiro, não me parece assim tão convincente.

Convirá acrescentar que a disposição do símbolo é muito semelhante à que vemos no "talant de bien faire" do irmão, Infante D. Henrique, com uma diferença:
 a separação ocidente-oriente é conduzida pelo moto "leauté-faray", 
 enquanto uma separação norte/sul é visada com o moto "tãyas/erey".

Assim, será de questionar se um mesmo jogo de letras, conforme avançado com o moto do irmão, poderia estar também aqui em jogo. Recordamos que nesse caso, relacionámos talant com atlant e faire com afric.
Poderá ler-se algo semelhante neste moto de D. Duarte?
Bom, com efeito não é inverosímil ver ainda as letras em leauté como atl..., ou em faray como afr... ou seja, não é de excluir uma interpretação semelhante à dualidade américa-áfrica no painel horizontal.
Já é muito mais difícil entender algo na separação "tãyas" ou "tãxas" de "erey" ou "erex" (por vezes aparece "tãya" e "serey"). Não me lembro de nenhuma designação para norte e sul que se possa inferir dessas letras. Podemos talvez inferir um "ãtyas" como "antilhas", ou ainda "y satã" como para "ilhas satanazes", mas tudo isso é muito solto e não digno de ser sequer especulado.

Convirá finalmente notar que o nome de D. Duarte era Eduarte, e a sua assinatura era "E Rey", (ou "El Rey") conforme podemos ver no documento contemporâneo que assinou, isentando os pescadores de 1/5 do pescado:
Documento com o nome "Eduarte" e com a assinatura do rei.

Com efeito o nome seria influência materna, já que o avô de Filipa de Lencastre seria Edward III, mais conhecido por ter iniciado a Guerra dos Cem Anos, e ter iniciado a Ordem da Jarreteira. O "Edward" foi inicialmente transcrito como "Eduarte", mas depois acabou por perder o "E" inicial, ficando "Duarte"... alternativamente começou a ser vulgar o nome "Eduardo" como tradução mais comum.

domingo, 4 de novembro de 2018

A sente na centena

Ocorreu hoje um desfile militar, a propósito do centenário do armistício da 1ª Guerra Mundial.
Uma semana de antecedência, ao que consta, por causa das comemorações oficiais que irão decorrer em França. Macron irá receber 60 chefes de estado, no dia 11 de Novembro, em França. Aliás, Macron serve um pouco como símbolo do armistício, já que o seu bisavó inglês, combatente no Somme, aí ficou, casou e constituiu família.
A excepção a essa convergência mundial para França é um pequeno cerimonial que a rainha de Inglaterra fará, no mesmo dia, com o presidente alemão, em Westminster.

O dia 11 de Novembro de 1918, fica célebre pela enorme falta de bom senso francesa. O acordo de paz, ou digamos, o acordo de rendição, foi assinado numa carruagem do marechal Foch, no bosque de Compiègne, forçando os alemães a uma humilhante negociação, que foi depois ainda agravada no Tratado de Versalhes, assinado no ano seguinte.
O Marechal Foch e a rendição alemã em Compiègne, 1918.

É claro que os franceses tentavam uma vingança da humilhação na derrota da Guerra Franco-Prussiana, em 1871, quando depois de conquistar Paris, Wihelm I  decidiu coroar-se imperador no Palácio de Versalhes. Quarenta e oito anos mais tarde, o Palácio de Versalhes seria usado para assinar o acordo do armistício da 1ª Guerra Mundial.

Também vinte e um anos mais tarde, em 22 de Junho de 1940, um soldado que havia combatido na 1ª Guerra Mundial, decidiu trazer a velha carruagem de Foch, e obrigou os franceses a assinarem uma humilhante rendição, exactamente no mesmo local - na floresta de Compiègne.
Adolf Hitler e a rendição francesa em Compiègne, 1940.

Serve este episódio para lembrar que a castanhada que os franceses quiseram dar, no São Martinho de 1918, teve como consequência alhos porros no São João de 1940. Pelo menos, isso foi aprendido, e se as negociações de paz em 1945 deixaram a Alemanha dividida durante 45 anos, o Plano Marshall foi pelo menos uma medida sensata e pacificadora.

Quanto à participação portuguesa na 1ª Guerra Mundial, foi feita à medida do país que era.
Se o hino republicano dizia "Contra os canhões, marchar, marchar..." pois foi nessa base de "carne para canhão" que funcionou toda a 1ª Guerra Mundial. As tropas saíam das trincheiras para perecerem alguns metros à frente, em vagas sucessivas de carnificina gratuita.
Na batalha de La Lys teve um herói ocasional - o soldado Aníbal Milhais, e pouco mais.
Este pequeno apontamento faz um bom resumo:
O Aliado esquecido - Portugal na primeira Grande Guerra

É claro que estas comemorações de hoje em Lisboa, são muito mais um tónico para esquecer os problemas que sofre o exército, em especial desde o roubo de armas em Tancos. Esta é daquelas vitórias que podemos comemorar, ao contrário da conquista de Ceuta. Mesmo que o politicamente correcto aconselhe Macron a não humilhar Angela Merkel com uma parada militar, parece que o mesmo decoro foi esquecido aqui. Diz-se, enfim, que Macron quererá também evitar falar de Pétain, que de herói da 1ª Guerra Mundial, passou a traidor na 2ª Guerra Mundial, por ter negociado a paz com os alemães. Ficamos à espera da comemoração dos 150 anos do fim da Guerra Franco-Prussiana, para saber se as comemorações se reduzem à única guerra com vitória francesa.

Ainda que o Corpo Expedicionário Português tenha envolvido mais de 50 mil homens, na 1ª Guerra Mundial não havia propriamente uma guerra de ideologias em curso, como aconteceu na 2ª Guerra Mundial. Apesar da maçonaria ter conseguido envolver o mundo inteiro no conflito, não passa de muito mais do que da afirmação de uma seita, que não pode ser assumida como tal, para entendimento público.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Rodízio afonsino (2) - Rodízio de vaca

Na sequência do anterior postal Rodízio afonsino em Arzila, José Manuel Oliveira e David Jorge apresentaram nos comentários outras versões possíveis para explicar o rodízio afonsino que, recordo, trata-se deste símbolo de roda motriz:
 

Rodízio de vacas
Pela restauração (alimentar) sabemos de um rodízio associado à carne de vaca... porém, do que não estava mesmo à espera era de encontrar esta imagem, indicada pelo David Jorge, em que o rodízio está acoplado a um barco movido pela acção rotativa... de vacas:


"XVth century miniature of an ox-powered paddle wheel boat from the 
4th century Roman military treatise De Rebus Bellicis by Anonymous."
Cópia da Bodleian Library - Cosmographia Scoti

A imagem é de um livro de 1436, e recordamos que D. Afonso V é declarado rei herdeiro em 1438.
Esse livro será uma transcrição de um original romano De Rebus Bellicis, publicado mais de mil anos antes.

Ora, a questão principal aqui é que a Idade Média não acabou porque acabasse, foi decidido que iria acabar, que o génio seria libertado, e enfim... o Mundo voltaria a ter acesso, pelo menos parcial, ao conhecimento antigo.
Quando o Séc. XV avança, são cada vez mais as cópias que vemos publicadas dos trabalhos romanos e gregos, muitos deles pensados perdidos no incêndio da Biblioteca de Alexandria.

No final do Séc. XV é Leonardo da Vinci que está a replicar trabalhos de Vitrúvio. Muito ficará ligado mais a si do que ao autor original, como acontecerá depois em tantos outros casos (por exemplo, a La Fontaine que copia literalmente as fábulas de Esopo).

Curiosamente, está nos trabalhos de Vitrúvio o uso do rodízio também como odómetro, ou seja, como um "conta-quilómetros", activado pela passagem de água no curso de um navio - ora, isso foi o que também sugeri como possibilidade.

No entanto, terá havido efectivamente contribuições originais.
A principal proibição que foi levantada não foi o acesso ao material antigo, a principal proibição que foi levantada foi deixar o génio humano à solta, ou pelo menos com rédea mais larga.

Blasco de Garay
Deixei este espaço final para recordar o postal sobre de Blasco de Garay:
(ou ainda o seguinte) onde se relata invenção em 1543 de um barco a vapor, o Trindade, que terá feito uma navegação experimental em Barcelona nesse ano.
Ilustração feita em 1913 na revista Nuevo Mundo (nº 1015).

Como os documentos invocados em 1823, do Arquivo de Simancas, parece que se "perderam"... há quem argumente no sentido oposto, no sentido que seriam apenas homens a mover as pás propulsoras... é claro que no rodízio romano do De Rebus Bellicis também poderiam ser homens e não vacas a efectuar a rotação propulsora. Para o caso do rodízio é indiferente, a engrenagem funcionaria num ou noutro caso, se tivesse em vista substituir as velas pelas pás. É claro que para efeitos de eficiência, o vapor aportaria muito mais potência, conforme se veria nos barcos a vapor desde os primeiros (onde as pás eram visíveis), aos mais sofisticados (como o Titanic, que tinha todo o mecan).
Aliás no caso de Blasco de Garay, como se justificaria o medo de Ravago que a caldeira explodisse, se afinal era apenas a força dos homens a rodar as pás?

Interessava aqui referenciar que a ideia de um rodízio para a locomoção de navios era uma ideia presente nos séculos XV e XVI, e não deve ser dissociada de uma nação que apostava justamente na eficácia da sua marinha para se impor na sua expansão mundial.

Santa Catarina
Convém aqui notar ainda que o brasão de Goa, no tempo da Índia portuguesa, tinha uma roda ou rodízio, com alguma semelhança com o de D. Afonso V:
Brazão da Cidade Portuguesa de Goa.

Invoca-se habitualmente a roda de Santa Catarina para justificar este brasão, tal como é também feito com o rodízio de D. Afonso V, conforme o José Manuel mencionou.
Ainda que haja essa menção na heráldica, e um desenho explícito no Livro de Horas de D. Duarte possa sugerir que o seu culto estava bastante difundido em Portugal, faltaria justificar a associação das gotas, que sugerem um fluxo de água.
Livro de Horas de D. Duarte  (...0037.tif) - ilustração da Roda de Santa Catarina
(com a menção "Sponsa Christi Vere")

É mais natural pensar que a roda de Goa estivesse associada ao símbolo do Dharma budista, disfarçada como roda de Santa Catarina. Além disso, por que não considerar a roda de Goa associada mesmo ao símbolo de D. Afonso V?
A outra hipótese, do símbolo de D. Afonso V se associar já na ligação de Santa Catarina ao Dharma indiano, remeteria já a sua empresa com vista à Índia, e não vou considerá-la sem outros argumentos.

Em suma, o rodízio de D. Afonso V parece-me muito mais ligado a um símbolo de técnica relacionado com a água, e uma sua associação a meras azenhas parece insuficiente explicação, já que a empresa marítima portuguesa, de que D. Afonso V era portador, não era uma empresa de padaria... conforme salientou o José Manuel Oliveira.
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27.10.2018