terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Sam Vecente

No número 24 da Rua das Farinhas em Lisboa, mais precisamente no bairro da Mouraria, está uma antiga casa com uma laje, onde está um corvo representando São Vicente, estando escrito: 

"ƧAM VECẼTE"

 
Sam Vecente - Rua das Farinhas, nº 24 na Mouraria (ver aqui ou aqui)

De quando será este apontamento singular?
Bom há registos fotográficos de 1900 que mostram o local e podemos ver que em comparação com os dias de hoje, as modificações foram praticamente só de pintura e restauro.
 

Repare-se que as pedras, varandas e janelas são exactamente as mesmas. O ferro das varandas deve estar ali há séculos e não apenas há um... há muitos! Na imagem de 1900 o corvo mal se vê, só se nota o relevo, pois foi pintado por cima. As pessoas, mesmo algumas sendo crianças, parecem demasiado pequenas.

Transcrevo a citação do blog Lisboa de Antigamente, que remete para o livro "Legendas de Lisboa" (pág. 80-81) de Norberto de Araújo:
Conserva o sítio de S. Cristóvão, no meio do seu encanto de pitoresco alfacinha, uma pedra esculpida que representa um corvo da nau da heráldica olisiponense. Tem este corvo movimento, pisar lesto e olho alerta; sobre a sua silhueta fina lê-se ƧAM VECẼTE.
Neste muito alfacinha bairro de S. Cristóvão, vizinho da Madalena e da Mouraria, no sopé dos muros do Castelo, com os seus becos das Flores, os seus largos da Achada, de cazitas de andar de ressalto e janelas ogivais, e dos Trigueiros, fantasia do acaso urbanista, com a Rua das Fontaínhas e o Largo da Rosa — a pedra do corvo de S. Vicente do prédio de empena de bico, n.° 22 [n.º 24] da Rua das das Farinhas, é uma preciosidade de pitoresco.
Nada em Lisboa assim. Deve ter sido o prédio foreiro aos cónegos regrantes de Santo Agostinho. O foro passou; o corvo não.
imagens que mostram o corvo pintado de preto, e o prédio pode ter pago foro aos cónegos pretos ou crúzios, mas isso leva-nos justamente a um tempo remoto, seguinte à conquista de Lisboa.
Também a forma da escrita aponta para séculos XIII-XIV, mas a pedra pode ter sido feita bem antes e depois colocada ali, decorativamente, tirada de um outro lugar.

A questão principal que aqui gostaria de levantar é que me parece que estes prédios, tal como uma boa parte dos prédios antigos de Lisboa, podem ter mais de 500 anos, e ao contrário do que é costume invocar, não caiu tudo com o abalo do Marquês... nem a casa onde este nasceu.
Por exemplo, as casas do Bairro Alto têm quase todas uma mesma tipologia, e citamos Joaquim Moreira de Mendonça que na sua obra após o Terramoto de 1755, refere-se ao maremoto que ocorreu em 1531, levando à construção do Bairro Alto:
Tenho certeza por documentos autênticos que ainda depois daquele ano se erigiram todas as ruas do Bairro Alto, que ficam para fora das Portas de Santa Catarina e Postigo de S. Roque (...)  "História Universal dos Terramotos" - J. J. Moreira de Mendonça (1758). .
Um aspecto típico dessas casas antigas é que as portas e janelas estão rodeadas por lajes de pedra simples, num formato rectangular, como vemos no nº 24 da Rua das Farinhas.

As razões para esta suspeita são simples...
Após o início da expansão marítima no Séc.XV, Lisboa teve um crescimento enorme, havendo um acréscimo significativo de zonas residenciais, que se processou desordenadamente como era habitual. O primeiro bairro com planificação moderna, quadriculada, foi justamente o Bairro Alto, após o devastador sismo de 1531. Acontece que uma boa parte dos imóveis não eram da nobreza, eram simplesmente de habitação vulgar, por exemplo de marinheiros, mercadores ou mestres de artes. Eram propriedade privada, e não era fácil ao Estado arrasar com toda a propriedade privada alheia... para esse efeito convinha a uma reestruturação e planeamento a existência de sismos, incêndios, etc. Por isso, foi sendo natural que as casas, não caindo, fossem simplesmente restauradas, no mesmo processo que vemos a imagem da Rua das Farinhas ser hoje praticamente igual à Rua das Farinhas há 120 anos. Até que chegassem grandes empresas, capazes de comprar lotes e fazer novos empreendimentos, como só aconteceu no final do Séc.XX, as habitações iam durando até desmoronar pelo envelhecimento da estrutura. E é claro, as zonas mais atractivas para a especulação imobiliária não eram as pequenas ruelas dos bairros típicos, que se foram mantendo, desde há séculos.

Olhando para as ruas e casas de Óbidos, assumidamente uma vila que foi mantendo o seu aspecto medieval, vemos o mesmo tipo de construção com janelas e portas rodeadas por lajes de pedra, com varandas de ferro, o mesmo aspecto medieval que foi herdado também em Lisboa. É claro que, do ponto de vista do agente imobiliário, poderá haver alguma hesitação em dizer que uma casa tem 500 ou 600 anos, mas do ponto de vista histórico e de legado patrimonial será algo bem diferente.



terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Heresia toponímica

Uma das improbabilidades mais descaradas é ver na toponímia holandesa dos descobrimentos nomes associados a santos. Não é que tal fosse impossível, simplesmente era altamente improvável, ou as probabilidades andariam ao nível de árabes baptizarem uma ilha com o nome de "Santa Maria". Com os ingleses passar-se-ia algo semelhante, mas em menor escala.

Vejamos aqui um mapa holandês, que foi depois copiado pelos franceses, de forma que se trata de um mapa publicado em França em 1663-66, mas que se assume ter sido copiado de um mapa de 1644 do cartógrafo holandês Joan Blaeu.

A questão é agora saber de quem os holandeses copiaram... mas não parece difícil perceber.

Em cima, ao centro, lê-se facilmente "TERRA DOS PAPOS".
Não é holandês, flamengo, ou francês. 
Ainda que "TERRA" seja também latim, a contracção da preposição "DOS" só ocorre mesmo em português. Quanto aos "papos" podemos entendê-lo no significado de "papou-os" dado o historial antropofágico das tribos dessa ilha. Trata-se da ilha Papua - Nova Guiné.

Curiosamente o meridiano vertical, que separa "Terra dos Papos" de "Nova Guinea" é praticamente o mesmo que separa hoje a parte da Papua indonésia, da parte independente da Nova Guiné.
Para quem ainda não percebeu... esse meridiano era o do Tratado de Saragoça, o correspondente ao meridiano de Tordesilhas, mas como anti-meridiano - uma dor de cabeça que só foi resolvida no tempo de D. João III. A razão pela qual os holandeses o colocam ali, pode ser apenas coincidência, é claro.

Mas não há apenas essa designação. Acima da "Terra dos Papos" vemos C. de Goede Hoope, o que em holandês quer dizer "Cabo da Boa Esperança". O que faz ali outro "cabo da boa esperança"?
Logo ao lado lemos "Vilems Schoutens Eyl - Olim I. de aguada". Esta "ilha de aguada" parece também vir do mapa português, tal como logo de seguida "I. Arimoa" e "I. Moa".
É ainda curioso aparecer a palavra francesa "Rivier" e depois como abreviatura aparece "Riv" mas escrito como "Riu", ou seja quase como "Rio". Pode ler-se isso na parte da Carpentaria, que eu diria que se fosse coisa portuguesa e não remetida a um Carpentier, pareceria "carpintaria".

Mais abaixo, nesse mesmo mapa podemos ainda ver:

... e, em baixo, do lado direito, vemos então as ilhas "I. St. François" e "I. St. Pierre". Os nomes estão já em francês, mas estas ilhas de São Francisco e São Pedro, seriam designações dos santos padroeiros do capitão e do seu comandante! Ora, normalmente estas histórias arrumam-se de outra forma, por vezes com o nome do navio, mas é mais difícil quando não é o caso, e esta malta eram holandeses protestantes, sem qualquer vontade social de exibir santos padroeiros. Ou seja, no contexto da sociedade holandesa, muito influenciada pelo judaísmo comercial, e protestantismo rígido, estes nomes de santos seriam uma "heresia toponímica"... a menos que já tivessem sido assim designadas, e nesse caso foi apenas honestidade puritana, ou vontade de afirmação de presença num sítio pelo uso da sua designação antiga.

Pode ainda ver-se a designação de Houtman Abrolhos de que falámos antes, que tal como "Pedra Blanca" no sul da Tasmânia. Estas são duas designações que reconhecidamente derivam do português, no caso dos Abrolhos enquanto "abre olhos" similar às ilhas Abrolhos no Brasil, e no caso da Pedra Branca por eventual semelhança com a ilha de Pedra Branca em Singapura. Ver no mapa seguinte, em baixo:

Ainda que se quisesse estabelecer uma qualquer semelhança com Singapura, faz pouco sentido não usar a tradução para holandês do termo, quando tantos outros eram traduzidos. 
Quereria isto significar que os holandeses teriam descoberto que havia uma semelhança entre os mapas portugueses de Singapura, que pretendiam representar ali a Tasmânia? Não parece provável, e vai ficando a curiosidade bem expressa neste mapa, de que os holandeses nunca procuraram completar a informação da viagem de 1643 de Abel Tasman e foram deixando o tempo rolar 125 anos até que Cook, com o simples intuito de observar o "trânsito de Vénus", achou acidentalmente o restante território australiano que falta a este mapa holandês. 
Uma preciosidade do género "novela histórica".

_____________
NOTA (10.01.2019):
Em comentário (de David Jorge) está a observação do uso do termo malaio Nusantara que se ligaria à designação Nuca Antara para Austrália por Godinho de Erédia (ver post anterior). O termo resultaria das palavras malaias ou javanesas: nusa (ilha) e antara (entre), e aplicava-se a territórios tributários do império Majapahit, centrado na ilha de Java. 
Aproveito para adicionar as referências no mapa (1ª imagem) à Batochina e às designações Terra Alta, Cera ou Mola, que teriam sido tiradas também de mapas portugueses.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Nuca Antara - Erédia

É instrutiva a consulta do atlas de João Teixeira Albernaz, de 1630:


... porque, para além de outros detalhes é bastante explícita na descoberta da Austrália por Manuel Godinho de Erédia em 1601:
(clicar no mapa para aumentar)

Há duas coisas escritas, na parte que corresponde à Austrália, que são:

  • NUCA ANTARA - descuberta por Manoel Godinho de Eredia : Ano 1601.
  • Terra descuberta pelos Holandezes a q chamárão Eendracht ou Concordia
A descoberta holandesa é remetida a 1606 por avistamento do holandês Janszoon. 
Ou seja, é exactamente como a carta que estava no fac-simile que Richard Major apresentou em 1863, assunto que abordámos em postal anterior:




O mapa global adiciona à inscrição "por mandado do Vizo Rei Aires de Saldanha":
(clicar no mapa para aumentar)

Como já debati este assunto demasiadas vezes, não vou insistir sobre ele, remetendo esta parte ao postal de Maio de 2011 já referido.

Fica no entanto uma questão razoável.
- O que teria acontecido se portugueses e espanhóis tivessem que dividir a Austrália ao longo do meridiano de Saragoça, o anti-meridiano de Tordesilhas?
Deslocar-se-iam exércitos para a Austrália, um para cada lado da ilha?

Estes atlas de Albernaz aparecem com uma carta espanhola, que se queixa dos enganos sucessivos, e propositados, que os portugueses faziam na demarcação dos meridianos. Aliás, é à conta dessa entrada por território espanhol que o Brasil tem quase o dobro do tamanho que normalmente teria.
O mesmo tipo de problemas iria ocorrer sem dúvida na parte australiana.
Ora, curiosamente, ao longo de toda a exploração marítima acabaram por ser muito reduzidos os conflitos entre Portugal e Espanha. 
Talvez porque se passaram a preocupar com os outros intervenientes na partilha do bolo, foram diminuindo de forma considerável os conflitos de vizinhos. 
A Austrália não parecia ser suficientemente interessante para deslocar grandes exércitos. 
Talvez tenha ficado decidido ser uma "terra de concórdia", afastada da atenção, até que os conflitos na América ficassem resolvidos... porque foi isso que acabou por acontecer. Quando finalmente a Inglaterra saiu vencedora da Guerra dos Sete Anos, o seu domínio marítimo era já completo, e foi justamente James Cook, um oficial que combateu no Canadá, que 5 anos depois irá fazer o protocolo das viagens de "descobertas" pacíficas, em particular, a australiana.

Sob esse aspecto, a Austrália foi de facto o único território que se livrou das contínuas guerras entre potências ocidentais, e poderia chamar-se "terra de concórdia"... se não tivesse depois ocorrido uma chacina ainda mal documentada, que vitimou os aborígenes e especialmente uma população malaia (a única a fazer resistência aos europeus) que nem entra na contabilidade nos livros de história.


sábado, 29 de dezembro de 2018

Alvo de Maia - volume 9

Está feita a acta de 2018.
Um PDF de 393 páginas para juntar às anteriores, fazendo um total de 3303 páginas.

Alvo de Maia - Volume 9 (2018)
Para que serve isto?
- Para nada.
É apenas uma prenda que faço a mim próprio, de atar tudo num PDF, agradecendo as contribuições dos leitores, em particular do José Manuel de Oliveira, João Ribeiro e David Jorge.

Todos os volumes estão disponíveis em

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Fim da Evolução - do multicelular ao multianimal (2)

O processo de fotossíntese permite às plantas retirar energia do Sol...
... porém, na "criação", os animais foram daí excluídos.

Todos os animais? ... bom, há raras excepções.
Algumas lesmas marinhas absorvem cloroplastos de algas que ingerem, ficando capazes de realizar fotossíntese, e assim depender directamente do Sol como fonte de energia.
São casos disso:
Costasiella kuroshimae (lesma encontrada nos mares do Japão)

Pteraeolidia ianthina (lesma encontrada nos mares da Austrália)

Havendo esta possibilidade de criar animais capazes de obter energia solar, parece ideia um pouco perversa da "criação" dar aos animais um tubo digestivo como processo de alimentação.
Não terá sido tão perversa enquanto os animais se alimentaram de plantas, mas começou a sê-lo quando se começaram a alimentar uns dos outros.

Energia
Não houve nenhuma evolução objectiva quando os animais optaram por matar para extrair energia. Os maiores seres, e mais possantes, são herbívoros, como é o caso do elefante em terra, ou de baleias no mar. A chita pode ser o animal mais rápido, mas ao contrário de impalas e antílopes, são incapazes de aguentar essa velocidade de topo, mais do que um ou dois minutos. Portanto, a circunstância de animais se alimentarem de outros animais não tem propriamente uma justificação trivial.

A necessidade de energia foi outro presente evolutivo.
Há seres, como sapos ou salamandras, capazes de congelar até 6 meses uma hibernação praticamente total, e recuperam como se nada se tivesse passado. Mas, na maioria dos casos, os animais nem sequer podem tirar férias da refeição diária... comer por uma semana num dia não lhes dá uma semana de folga nas necessidades alimentares, dá-lhes apenas uma semana de fome.

Todo o movimento definido pelos indivíduos, que altera o movimento definido pelas leis naturais, é pago em energia, ao ponto da própria existência ser cobrada.
A mãe Natureza usa a energia como moeda de troca na sua economia da sobrevivência.
Todos os dias os animais pagam pela sua existência, pela energia, sendo forçados a aniquilar outros seres vivos no processo. Vendo a Natureza como modelo exemplar, como muitos gostam de ver, isto corresponderia a um chefe exigir que a sobrevivência dos seus súbditos só acontecesse se outros fossem sacrificados.

Mas a questão energética pode ser resumida a um simples ponto.
A evolução temporal determina uma sequência de acontecimentos, não dando existência a qualquer outra. O custo de ter uma configuração em favor de outras, é um preço energético.
Se não existissem seres vivos, as trocas energéticas ocorreriam sem eles, mas não teriam a complexidade que a sua luta pela sobrevivência os obrigou a definir. A opção por uma acção, ou até a escolha por nenhuma acção, provoca uma evolução material que é paga energeticamente. Se os seres vivos desistissem do jogo energético, a evolução material decorreria sem eles, porque simplesmente iriam perecer.

Ser superior
O que emerge então dos agrupamentos sociais, ou multianimais?
É-nos clara a identificação de agrupamentos celulares enquanto seres vivos bem definidos.
A individualidade dos agrupamentos sociais não se distingue de forma tão evidente.
Porém, desde o momento em que as espécies foram definidas distintamente, cada uma delas passou a poder considerar-se como um agrupamento social.


"Murmuração" - efeito conjunto de um bando de pássaros.
O efeito conjunto ultrapassa qualquer vontade ou plano individual dos pássaros.

Na prática esse agrupamento social reduzia-se na maioria das vezes a um agrupamento familiar, e nessa ideia de família, de passagem de ADN de umas gerações para outras, podemos ver uma primeira tentativa de eternização. Os indivíduos teriam um tempo de vida limitado, mas atendendo à sua descendência, passava a haver uma componente secundária de prolongamento no tempo, na vida de filhos, de filhos de filhos, etc, para além da existência dos próprios.

Este aspecto de eternização, na constituição de uma entidade superior ao indivíduo, que era a família, foi uma criação natural, associada à própria evolução. Foi assim natural que os primeiros grupos sociais humanos estivessem praticamente ligados apenas por uma filiação, que era herança do próprio processo natural. Também se vê o mesmo tipo de ligação nas colónias de formigas ou abelhas, que partilham o mesmo ADN, onde os elementos podem ser encarados como extensão de uma mesma individualidade genética.

Acima deste aspecto trivial, herdado naturalmente, nos homens começou a manifestar-se a criação de outras entidades, para além da simples assinatura genética. Um desses aspectos foi a religião. Criaram-se fortes ligações, que não estavam ligadas ao ADN biológico, passando a estar mais ligadas ao ADN intelectual. Outro aspecto foi a conexão cultural ao aspecto comunitário, ao aspecto nacional. Passou a ser habitual ver indivíduos fazerem sacrifícios pelo bem comum.

É claro que uma estrutura social passou a ter uma força descomunal, que em muito ultrapassava a força dos seus indivíduos. A evolução humana caminhou no sentido de criar esses monstros sociais, capazes de impor vontades com a força organizada de muitos.
Poder-se-ia concluir que o poder se resumia muitas vezes à vontade da liderança, mas na prática esses monstros sociais ultrapassavam qualquer poder individual. O líder teria uma certa discricionariedade na sua actuação, mas como em qualquer acção de um grupo, o resultado era mais do que a soma das partes. Os elementos começam a funcionar em nome de um ideal abstracto, e já nem formulam os seus raciocínios sem atender à reacção dos outros. O líder pode ser aquele que está mais próximo da vontade do grupo, mas é totalmente incapaz de controlar toda a acção, ao ponto de ver a sua vontade menorizada, face a uma vontade maior que lhe é transmitida pelo agrupamento.

Eles
No meio de todo este processo social, começam a surgir acções que não são efectivamente responsabilidade de ninguém em particular, acabam por ser resultado da incapacidade dos indivíduos de se afirmarem. É claro que podem ser explorados por elementos nos bastidores, levando a uma designação comum de um responsável indefinido que são "eles", mas que na prática pode não ser ninguém em concreto. São mais acções que resultam de equilíbrios, conveniências, ou medos pessoais, que deixam que certos acontecimentos evoluam num sentido e não noutro.
As estruturas sociais ganham vida própria, acima dos indivíduos, tal como a estrutura celular tem uma vida própria, muito para além da vida individual de cada uma das células. Tanto poderá parecer caricato admitir que se define um individualidade numa estrutura social, para além da individualidade dos seus membros, como ignorar que o resultado das acções individuais nessa estrutura vai para além da vontade pessoal dos seus elementos. Por exemplo, o grau de violência de um grupo pode ser contagioso e levar os seus membros a atitudes que individualmente não tomariam, porque não sentiriam uma necessidade de afirmação artificial, exacerbada nas relações pessoais dúbias que se estabelecem.

É fácil antecipar que, tal como as células animais perderam a sua individualidade, para definir depois uma individualidade do seu conjunto, também as estruturas sociais possam tender para o mesmo resultado, quando para o grupo o que interessa é o resultado do conjunto, e muito menos o destino individual dos elementos no processo.

domingo, 16 de dezembro de 2018

Fim da Evolução - do multicelular ao multianimal (1)

Um dos interessantes aspectos evolutivos é a abnegação individual das células animais.

Lembrando a origem celular, os animais começam por ser uma única célula, chamada ovo.
No entanto, ao fim de pouco tempo, essa única célula vai-se duplicando sucessivamente, e no final de contas, no caso humano, estima-se que o número total de células, formadas a partir da primeira, a partir do ovo, sejam 37 biliões (... em inglês "triliões"), ou seja, há 5000 vezes mais células num homem, do que a totalidade de homens na Terra.

Se tão cientes estamos da nossa individualidade, então em que célula estamos nós?
Há alguma célula no corpo humano que possa reclamar tal importância, que sem ela deixaríamos de ser? Bom, é claro que não... mas não é claro porquê.

Com efeito, sabe-se que as células vão sendo substituídas, ou morrendo, sem darmos conta do processo. O mais natural é que as moléculas do ovo inicial já nem estejam no nosso corpo. Portanto, aquele "eu" que se associa ao corpo físico, fisicamente não se associa a nada de concreto.

A única característica que os organismos multicelulares partilham entre as suas células é terem todas a mesma codificação do DNA. As células podem ser extremamente diferentes - entre um neurónio que é comprido, e uma célula de Merkel, que está na pele, na extremidade do nervo, o ponto comum é esse material genético.
No entanto, duas células de Merkel de fulanos diferentes são praticamente semelhantes, enquanto a única coisa em comum entre o neurónio e uma célula de Merkel, será a ligação pelo axónio.
Aliás o ponto chave da medicina é que praticamente de um fulano para o outro, tudo é muito semelhante no funcionamento, e se prevalecesse alguma individualidade nem a medicina exisitiria.

Do unicelular ou multicelular
A questão fundamental neste aspecto dos seres eucariotas, que vão desde amebas, unicelulares, até plantas e animais, é que as células são individualizadas por um núcleo. Simplesmente houve alguns seres eucariotas que não evoluiram em organismos complexos, permaneceram como células únicas, e não formam nenhum organismo, como é o caso das amebas. Com efeito, a maior cadeia de DNA não é a humana, é justamente a de uma ameba, a Polychaos dubium:
A ameba Polychaos dubium tem um genoma 200 vezes maior que o humano.

A questão evolutiva é perceber a vantagem da associação celular, em que as células desprezaram a sua individualidade para definir uma nova individualidade, enquanto grupo ou organismo.
Enquanto uma ameba sobrevive sozinha, uma célula num animal só sobrevive enquanto o animal viver. Não haveria especial razão para as células perecerem todas quando o animal morre, excepto que, falhando a sua completa dependência na alimentação sanguínea, perderam toda a sua capacidade de encontrar subsistência autónoma.

Uma célula animal é um ser social. Tem um lugar e uma função específica na estrutura do organismo. A sua operacionalidade é crucial para certas funções, algumas vitais. A moeda de troca nesta organização extremamente complexa é a rede sanguínea, que funciona como uma rede comercial que garante a alimentação de todas as células. Uma falha nesta alimentação leva à morte celular, os tecidos tornam-se putrefactos, e todo o organismo arrisca perecer se as suas partes não estiverem saudáveis. Ou ainda, por quebra do protocolo de obediência celular, algumas células tornam-se rebeldes, desenvolvendo uma estrutura cancerígena, em que voltam a gozar de uma liberdade temporária, até que o seu sucesso é a falência do organismo, o que finalmente redunda num completo insucesso para todas as células, obedientes ou rebeldes.

Social - do animal ao multianimal
Não é difícil perceber que há um ponto comum na associação celular com vista à formação de um organismo animal, com alguns animais que evoluiram num sentido social. Tal como as células perderam a sua individualidade em favor de um organismo superior, de que faziam parte, também formigas, térmites, abelhas ou vespas, ganharam características sociais, em que cada indivíduo passava a funcionar como uma célula, e a colónia passava ganhar características próprias de um novo organismo.

Porém, nada disso é tão significativo quanto o que veio a acontecer no caso humano.
O aspecto social ganhou uma importância tão marcante que os indivíduos, tal como as células, passaram a ter uma subsistência quase completamente dependente de uma rede comercial.
As redes comerciais começaram a funcionar como fluxos sanguíneos que alimentavam cidades e aldeias. Os indivíduos começaram a especializar-se em certas tarefas, tal como as diferentes células são especializadas em diferentes tarefas, consoante o órgão a que pertençam.

Porém, o aspecto mais curioso é que mesmo em termos de filosofia social, surgiu o comunismo, onde a individualidade era colocada bem abaixo da colectividade, como se estivesse a ser formado um organismo superior, bem mais importante que as células individuais.
Não interessa tanto perceber se essa colectividade era apenas um meio de dar uma extensão de poder aos indivíduos que detinham o poder, interessa notar que todos os mecanismos presentes na passagem da individualidade para sociabilidade, parecem ser copiados do processo que levou as células a decidirem pela pertença a organismos multicelulares.

O ponto interessante é que da estrutura multicelular surgiu uma nova entidade, um organismo que assumiu em si a individualidade perdida pelas células... da mesma forma que a individualidade perdida pelas pessoas numa sociedade comunista seria herdada pelo Estado. Poderá questionar-se então se essa nova entidade que se forma pela fé das pessoas num organismo social, ganhará ela própria uma consciência autónoma das pessoas que a constituem? Enfim, tal como a consciência humana nada parece estar ligada a qualquer "consciência celular", poderia esta evolução em agrupamento multi-animal levar a evolução a um nível superior?
Ora, é claro que não, mas não deixará de haver quem julgue de forma diferente, mesmo que nenhuma razão objectiva se ligue ao assunto.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Colete Amarelo, festa brava, Colete Vermelho (2)


Tanto podem bovinos ir com campinos a seguir, como campinos a manobrar e os bois a acompanhar. 

Matança na Galícia
Entre Fevereiro e Março de 1864, na Galícia (Polónia), ocorreram uma quantidade impressionante de assassínios de nobres polacos, estimada em mais de 1000 vítimas, feita por camponeses descontentes com a sua condição de servidão feudal. - Este é o lado em que se vê a manada a correr descontrolada, matando as famílias nobres que os oprimiam e deixando uma quantidade impressionante de órfãos.

No outro lado - a história registou que essa manada campesina que parecia correr descontrolada, era conduzida por "campinos" do império austríaco, que pagavam aos camponeses em troco das cabeças dos nobres, conforme cena ilustrada pela figura seguinte:
Austríacos pagam aos camponeses pelas cabeças, e ficam com os órfãos dos nobres polacos. (Quadro de Jan Lewicki)

O problema é que a Polónia estava repartida (p.ex. entre Áustria e Rússia), e a parte "galega" que correspondia a esta Galícia, tinha acabado de provocar uma revolta na capital Cracóvia (ver "Krakow uprising"), onde os nobres tentavam reclamar uma independência polaca. Tiveram pouco sucesso, com a intervenção russa e austríaca, mas o lado sinistro foi outro.

No campo da "grande coincidência", o movimento libertador dos povos ganhou um grande impulso com a chacina de mil polacos, senhores feudais que oprimiam os camponeses. Também favoreceu os austríacos, é claro... e esse foi o ponto ilustrado pelo pintor polaco, mas só mentes carregadas de teoria da conspiração poderiam pensar que os austríacos, no pico da civilização de Viena, no meio das valsas do Danúbio, iriam patrocinar uma Matança na Galícia

Revolta da Maria da Fonte
Ainda estavam mal secas as lâminas do sangue polaco e eclode, na Póvoa de Lanhoso, a revolta minhota. As comparações estão bem patentes no cartaz seguinte, onde é feita a invocação polaca:
Liberdade, Guarda, Nacional, 
15 de Março de 1846
Póvoa de Lenhoso, Princípio da Revolução

Guerra aos Tiranos. Paz ao bom Governo
Província do Minho. Nossa Polónia

De Grécia e Roma os feitos espantosos
O mundo conhecido acobardarão
Porém agora os feitos protentosos
São do Minho, que a Pátria, Libertarão.
Cabraes - víboras
Dedicado aos Heróis da Província do Minho
_________________________________________________

A descrição da revolta iniciada simbolicamente por uma Maria da Fonte Arcada, é dada pelo próprio ministro Costa Cabral, alvo da cólera popular, nas palavras que dirigiu um mês depois aos deputados:
 .... há uma conspiração permanente contra as instituições actuais, contra a ordem estabelecida, e mãos ocultas que manejam estas conspirações, [mas reconhece que a sublevação em curso no Minho] é uma revolução diferente de todas as outras, que até hoje têm aparecido, porque todas as outras revoluções têm tido por bandeira um princípio político, mais ou menos, mas esta revolução é feita por homens de saco ao ombro e de foice roçadora na mão, para destruir fazendas, assassinar, incendiar a propriedade, roubar os habitantes das terras que percorrem e lançar fogo aos cartórios, reduzindo a cinzas os arquivos! [e Costa Cabral continua, reconhecendo que é uma revolta sem chefe, na qual pontifica] a mais ínfima classe da sociedade, executada por um bando de duas mil e quatrocentas a três mil pessoas, armadas com foices roçadoras, alavancas, chuços, espingardas, com tudo quanto eles podem apanhar.
Costa Cabral (20 de Abril de 1846) - wikipedia

Assim, a moda da Polónia passou ao Minho como se a Galícia fosse a Galiza, e em Março de 1846,  se os camponeses da Galícia andavam a matar, os camponeses do Minho andavam a saquear.

A revolta em Portugal levou a uma pequena guerra civil entre cartistas (direita, no governo) e setembristas (esquerda) coligados a miguelistas (extrema-direita), guerra chamada Patuleia... que acabou em 1847 com uma intervenção externa no quadro da Quádrupla Aliança (Portugal, Inglaterra, Espanha, França) que condicionou a Península Ibérica depois de Napoleão. 

Primavera dos Povos
Com estes antecedentes, é convenientemente esquecida a Revolta da Maria da Fonte, no quadro das revoluções que despontaram em 1848, não porque as antecede, porque a Matança da Galécia também antecede, mas simplesmente porque sim... 

Afinal, o Manifesto do Partido Comunista surgiria logo em Fevereiro de 1848, publicado por Karl Marx e Friedrich Engels, que em 1847 tinham fundado na Alemanha a Liga Comunista. 
Já havia uma estrutura político-filosófica para enquadrar os movimentos de revolta popular, e para a narrativa da insatisfação popular, não interessavam nem os pagamentos austríacos aos camponeses, nem revoltas de minhotas religiosas desenquadradas do propósito. O manifesto comunista surgiu como legenda, para que depois se lessem as irrupções populares com o conveniente libreto.

É claro que desde o fio ao pavio, a chama que animou este protesto popular foi acesa pela maçonaria. Apagou e acendeu protestos, de forma mais ou menos atabalhoada, e tão coordenadamente quanto só conseguiria uma estrutura de poder internacional, já muito fortemente implantada.

Bom clima em Katowice
Katowice fica a pouco menos de 80 Km de Cracóvia, e a 172 anos da matança. 
Enquanto o clima em Paris aqueceu em pancadaria pelo aumento do combustível, realizava-se neste fim de semana, em Katowice, o Congresso das Mudanças Climáticas...

O frio não foi anti-climático nos protestos fantoches em Katowice. 

Festa brava, onde o frio animou a palhaçada natalícia, e ao mesmo tempo que se tiritava de frio, os coerentes manifestantes reclamavam contra o suposto/previsto/anunciado aumento de temperatura. Que se aumentem pois os combustíveis fósseis, que os manos do colete amarelo tratam do outro tratamento... Como sempre, um reino de caos para manipular mesquinhos interesses de sobrevivência no poder.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Colete Amarelo, festa brava, Colete Vermelho

Há 170 anos, em 1848, a Europa foi contagiada pela "Primavera dos Povos"... uma série de revoluções em diferentes capitais que, fomentando algumas mudanças de governo, basicamente deixaram tudo na mesma, se exceptuarmos os milhares de mortos, e uma mensagem de bastidores.

Este tem sido um cenário histórico colocado a par dos bravos desacatos do Colete Amarelo, ocorridos em Paris, no passado fim-de-semana e repetidos moderadamente neste.

Não é de estranhar que a moderação tivesse ocorrido uma semana depois, dado o número de efectivos policiais e militares, chamados para patrulhar a capital... que incluíam tanques estilo chaimite:
Neste fim de semana as ruas de Paris ficaram plenas de forças policiais e militares.

Coletes amarelos em pose de rendição... lembrando a posição de rendição no liceu de Mantes-La-Jolie:

 
151 jovens estudantes de Mantes-La-Jolie foram presos nesta quinta-feira, 6 de Dezembro.

Ao ver estas imagens, só me lembrei de um vídeo premonitório dos Arcade Fire, resumo de um filme  distópico dirigido por Spike Jonze, apresentado depois no Festival de Berlim de 2011:

Arcade Fire - The Suburbs (2010)

Para contar esta história apropriadamente, convém notar que na lista de revoluções de 1848 não aparece a Revolução da Maria da Fonte, mas aparece a Matança da Galícia, ambas em 1846.

Bom, com efeito, recuamos ainda mais... e vamos começar com o culto de Mitra:

Consta que o culto de Mitra teria sido tão influente no império romano que se media em popularidade com o cristianismo, antes da adopção da religião cristã por Constantino. Na figura vemos a cena típica desse culto - Mitra executa o sacrifício taurino, na presença do deus Sol, para quem se vira; enquanto o touro está virado para a deusa Lua, representada com os cornos do crescente lunar. Um corvo está junto ao Sol, um caranguejo ataca o touro nos testículos, um cão e uma cobra bebem o sangue taurino. Mitra usa o barrete frígio, que o liga a Àtis, a Páris de Tróia, ou aos reis magos.
Como já mencionei algumas vezes, esta figuração indicia reflectir o fim do calendário e culto lunar, e a sua substituição pelo calendário e culto solar.

Os mais típicos homens de barrete ligados ao touro são, em Portugal, os campinos ribatejanos.
Além disso, ainda que o seu barrete não seja frígio, o seu típico colete levou à instituição das "festas do colete encarnado".
Acontece que, também os artistas ligados à maçonaria passaram a pintar a liberdade munida de um barrete frígio, como no caso típico do quadro de Delacroix, em que lidera os movimentos revolucionários populares. Não é o caso destes proletários que, mais seduzidos pela melodia do que pela letra, de uma canção de não conhecem, arranjaram-se com os coletes de segurança, de quem é vítima de um acidente social, e passaram a ser conhecidos por isso mesmo.
Não tanto por aqueles que vão pela festa, os 150 jovens do liceu de Mantes-La-Jolie experimentaram a dureza de um estado policial  afamado pela sua brutidade e falta de jeito, sendo as primeiras vítimas colaterais do processo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Escritores portugueses até ao Séc. XVII

Seguimos ainda aqui o livro "The ancient and present State of Portugal" (1706), de John Stevens, que é praticamente uma tradução do livro "Epítome de las Historias Portuguesas" de Manuel de Faria e Sousa (1590-1649), mais precisamente na Quinta Parte cap XV, pág. xlv.

É apresentada aí uma lista dos escritores portugueses mais relevantes, com uma breve referência ao período em que viveram ou à actividade. A lista de John Stevens é uma parte reduzida da lista de Manuel Faria e Sousa, que tem uma lista de nomes maior. 
Diogo Barbosa Machado vai depois levar esta tarefa mais longe, com a Bibliotheca Lusitana (1741-58), procurando dar conta de tudo o que tinha sido publicado até à sua época.

Fica aqui a lista reduzida, conforme John Stevens:
Manuel Faria e Sousa tinha ainda a seguinte lista de nomes:
Afonso Álvares; Afonso Nunes. Álvaro Valasco; Angelo Pacense; António de Gama; Frei Antonio de Lisboa; Frei Antonio Dominico; Frei Antonio de Sena, dominicano; Frei Antonio de Sousa; Antonio Velez; Antonio Ferreira;  Frei Bartolomeu Ferreira; Frei Baltasar de Santo Domingo; Cristovão da Costa; Frei Damião Dias de Santo Domingo; Frei Damião da Fonseca de Santo Domingo; Damaso I, Pontífice santo: Teologia, poesia; Diogo Pereira, sob D. Manuel: Poemas latinos; Diogo de Gouveia e Diogo de Teive, sob D. João III: Humanistas; Diogo de Paiva, sob D. Sebastião: Teologia; Frei Diogo de Stela; Diogo do Couto, sob Filipe II: História; Diogo de Sá; Diogo de Castro: Poesia; Frei Domingo de Paz, de Santo Domingo; Duarte Barbosa; Frei Estevão Leitão, de Santo Domingo; etc....

------------------
Nota (30.12.2018):
Nomes que não constavam em nenhuma lista, porque provavelmente teriam sido demasiado polémicos:
... entre diversos outros. Mas, por exemplo, o padre António Carvalho da Costa - "Tratado de Astronomia" (1680), como já seria contemporâneo da compilação de escritos seria mais natural não aparecer.

sábado, 24 de novembro de 2018

Cortes de Portugal em cortes

No livro "The ancient and present State of Portugal" (1706), de John Stevens, encontramos uma disposição dos lugares nas cortes portuguesas.
É uma "fotografia" das cortes que antecede o tempo em que se iria instalar o absolutismo de D. João V, e que nos permite ver o peso que a representação das diversas vilas e cidades tomava no conselho. Veremos ainda quase a mesma disposição num livro de João Batista de Castro, publicado uns anos mais tarde. Acaba por ser extremamente curioso ver a importância tida por certas vilas, que acabaram por definhar na sua evolução, sendo hoje praticamente esquecidas.

A questão toma ainda outro significado se entendermos que no Séc. XVIII também não faria muito sentido incluir aqueles lugares pela sua importância à época. Mais, mesmo durante os tempos mais remotos da nossa monarquia, na 1ª Dinastia, ainda dificilmente faria sentido incluir aqueles lugares e não outros. Além disso, não se nota propriamente nenhuma distinção entre a vilas algarvias, sendo Tavira e Silves colocadas no segundo banco, Lagos e Faro no terceiro, Loulé no 9º e Castro Marim no 13º. No entanto, essas vilas só entraram no reino após a conquista algarvia de D. Afonso III. A própria inclusão de Vila Real, sugere que poderá ter havido uma reorganização levada a cabo por D. Dinis.

Estes cortes ou recortes do território nacional, representados nas vilas pelos representantes, formaram um tipo de parlamento singular, chamado cortes. Este parlamento estava desligado do conceito de corte, que resumia uma parte de nobreza residente em Lisboa, frequentadora do paço real.
Era aqui dada uma elevada importância aos conselhos locais, que depois foram deturpados em escrita diferente como concelhos. Mesmo no assento dos diversos elementos, tirando algum destaque dado aos duques, os marqueses e condes ficavam na mesma parte da sala que os representantes das vilas, apenas um degrau acima. Não havia propriamente uma grande diferença representativa face à dimensão da cidade ou vila, permitindo um espelhar do território que seria especialmente conveniente ao rei, pelo corte efectuado na proporcionalidade.

Parece ficar assente nestes assentos que poderá ter havido um legado, vindo de uma tradição nacional ainda mais antiga, remontando ao tempo da presença sueva, ou ainda mesmo antes da presença romana, se quisermos pensar numa monarquia lusitana não fabulosa. A reunião dos diversos líderes locais poderia dar-se em assembleias deste tipo, a que foi depois inserido todo o aparato da presença real até 7 degraus acima da plebe. Para além dos cortes territoriais, passaram a estar presentes os cortes sociais, que definiram o formato dessas novas cortes.

Mapa dos lugares nas cortes, segundo o livro de John Stevens (1706)


Trono
1. Rei - cátedra estatal, onde o rei se sentava com o ceptro na mão.

Degrau 6
2. Camareiro mor, atrás do rei (lord chamberlain).
3. O grande selo real, em cima de uma almofada.

Degrau 5
4. Escrivão da Puridade, secretário do rei, que guarda o grande selo.

Degrau 4
5. Guarda mor, responsável pela segurança do rei, em pé.
6. Mordomo mor (lord high steward), em pé.
7. Condestável (antes Alferes mor), com a espada erguida.
8. Meirinho mor (ou Alguazil).
9. Prelado, responsável pelo discurso inicial, senta-se depois junto dos outros prelados.

Degrau 3
10. Duques, sentados em bancos sem costas, com almofadas de veludo.
11. Regedor da Casa da Suplicação, presidente do conselho real.
12. Chanceler mor, chefe de governo.
13. Veedores, superintendentes da fazenda.
14. Desembargadores do Paço.
15. Chanceler mor da Suplicação.

Degrau 2
16. Desembargadores dos agravos.
17. Corregedores da corte.
18. Oidores, juízes do conselho real.

Degrau 1
19. Outros advogados do conselho real.

20. Marqueses, sentados em bancos sem costas, com almofadas de veludo pretas.
21. Condes.
22. Pessoas do conselho, em ambos os lados.
23. Donatários, nobres fidalgos, senhores, com domínio absoluto sobre as suas terras.
24. Alcaides, governadores de cidades ou vilas.
25. Bispos e prelados.

Degrau 0
26. Arautos reais, ou reis de armas.
27. Porteiros, ou sargentos de armas, com as suas maças, de pé.

- Representação das cidades e vilas (um ou dois lugares):

28: Lisboa. 29: Évora. 30: Porto. 31. Coimbra. 32. Santarém.
33. Braga. 34. Viseu. 35: Guarda. 36: Tavira. 37: Lamego. 38: Silves. 39: Elvas.
40: Beja. 41: Leiria. 42: Faro. 43: Lagos. 44: Guimarães. 45: Estremoz. 46: Olivença.
47: Montemor o Novo. 48: Tomar. 49: Bragança.
50: Portalegre. 51: Covilhã. 52: Setúbal. 53: Miranda.
54: Vila Real. 55: Viana de Lima (Viana do Castelo). 56. Ponte de Lima. 57. Moura.
58. Montemor o Velho. 59: Alenquer. 60: Torres Novas. 61: Sintra.
62: Óbidos. 63: Alcácer do Sal. 64: Almada.
65: Torres Vedras. 66: Nisa. 67: Castelo Branco. 68: Aveiro.
69: Serpa. 70: Mourão. 71: Vila do Conde. 72: Trancoso.
73: Pinhel. 74: Arronches. 75: Avis. 76: Abrantes. 77:  Loulé.
78: Valença. 79: Freixo de Espada à Cinta. 80: Alter do Chão. 81: Monção. 82: Alegrete.
83: Penamacor. 84: Castelo de Vide. 85: Castelo Rodrigo. 86: Marvão. 87: Sertão.
88: Monforte. 89: Fronteira. 90: Crato. 91: Veiros. 92: Campo Maior.
93: Castro Marim. 94: Torre de Moncorvo. 95: Caminha. 96: Palmela. 97: Cabeço de Vide.
98: Monsanto. 99: Coruche. 100: Barcelos.
101: Garvão. 102: Panóias. 103: Ourém.
104: Albufeira. 105: Ourique. 106: Arraiolos. 107. Borba. 108: Portel.
109: Vila Viçosa. 110: Monsaraz. 111: Atouguia. 112: Penela. 113: Santiago do Cacém.
114: Vila Nova de Cerveira. 115: Viana de Évora.
116: Porto de Mós. 117: Pombal. 118: Alvito. 119: Mértola.


No "Mapa de Portugal Antigo e Moderno", João Bautista de Castro faz assim a descrição:
As cortes de Portugal correspondem às assembleias de França, dietas de Alemanha, e parlamentos de Inglaterra. Compõem-se dos três estados do reino, eclesiástico, nobreza, e povo, aos quaes costuma el rei convocar para as determinações públicas, e de grandes interesses. Juntam-se as pessoas dos três estados em uma sala ricamente adornada: na cabeceira d’ella se levanta um estrado de seis degraus com a elevação de sete palmos, que é para o trono d'el rei: na parte inferior arrimados à parede se põem bancos, e pelo corpo da sala, para se sentarem os chamados, que são os títulos, prelados, senhores de terras, e procuradores das cidades e vilas.
Principia este acto com a assistência d'el rei, o qual costuma vir com opa rossagante de brocado, e ceptro de ouro na mão. Vem diante dele o condestável do reino com o estoque levantado, e mais adiante o alferes mór com a bandeira real enrolada, precedendo os reis de armas, arautos, e passavantes vestidos em cotas, onde se vê bordado o escudo do reino. A estes antecedem os porteiros com maças de prata; e, se o acto é de juramento de algum príncipe, precedem a tudo os atabales, e clarins. Chegando el rei à cadeira, se acomodam todos nos seus assentos determinados. 
Bancos   (Preferência dos procuradores das cidades , e vilas do reino, que têm assento em acto de cortes)
1: Porto, Évora, Lisboa, Coimbra, Santarém, Elvas.
2: Tavira, Guarda, Viseu, Braga, Lamego, Silves.
3: Lagos, Faro, Leiria, Beja, Guimarães, Estremoz, Olivença.
4: Portalegre, Bragança, Tomar, Montemor o Novo, Covilhã, Setúbal, Miranda.
5: Ponte de Lima, Viana Foz de Lima, Vila Real, Moura, Montemor o Velho.
6: Sintra, Torres Novas, Alenquer, Óbidos, Alcácer do Sal, Almada.
7: Nisa, Torres Vedras, Castelo Branco, Aveiro.
8: Mourão, Serpa, Vila do Conde, Trancoso.
9: Avis, Arronches, Pinhel, Abrantes, Loulé.
10: Alter do Chão, Freixo de Espada à Cinta, Valença, Monção, Alegrete,
11: Castelo Rodrigo, Castelo de Vide, Penamacor, Marvão, Sertã.
12: Crato, Fronteira, Monforte, Veiros, Campo Maior.
13: Caminha, Torre de Moncorvo, Castro Marinho, Palmela, Cabeço de Vide.
14: Barcelos, Coruche, Monsanto, Garvão, Panoias, Ourém.
15: Arraiolos, Ourique, Albufeira, Borba, Portel.
16: Atouguia, Monsaraz, Vila Viçosa, Penela, Santiago de Cacém.
17: Viana junto de Évora, Vila Nova de Cerveira, Porto de Mós, Pombal.
18: Alvito, Mértola. 
Nota adicional (25.11.2018):
A descrição de John Stevens é completamente importada da "Epítome de las Historias Portuguesas" de Manuel de Faria e Sousa (1590-1649), na Quinta Parte, Capítulo II, pág. ix.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

T´ouro

Em 1876 a Sociedade Protectora dos Animais, dirigida pelo Conde de Penamacor (António Maria de Saldanha e Castro Ribafria), apresentou um requerimento ao rei D. Luís para a abolição das touradas. O documento exemplar está disponível aqui:



Transcrevo o primeiro ponto, mas o documento de 34 páginas merece ser lido.
Tudo quanto tender, directa ou indirectamente, para extirpar dos usos nacionais os restos da barbárie de antigas eras, amaciar os animos, e espalhar ideias sensatas, suaves, e compassivas, é da estricta obrigação d'esta Sociedade lembral-o, pregoal-o, e persuadil-o quanto poder. Às auctoridades constituídas (sabe-o Vossa Magestade para ventura d'esta nação) compete propagar aquellas ideas sãs, empregar todos os meios para desenvolver no povo as tendencias humanitarias, e arrancal-o aos perigosos entretenimentos, que lhe acordam no peito o desamor, a ferocidade para com os animaes, e a final lhe endurecem o coração para com os seus próprios semelhantes.
Entre os usos mais barbaros figuram em primeiro logar as repugnantes, as inqualificaveis corridas de touros, vestígio das civilisações cahoticas e sanguinarias de outros tempos, descendencia espuria dos circos romanos, escarneo ás ideas modernas, conservado para opprobrio da Peninsula em face da Europa culta, christã, e utilitaria, e em pleno seculo XIX!
Não ha principio que as defenda; não ha lei que as auctorise; não ha consideração, que não as condemne bem alto.
Vamos demonstral-o.
I
Não ha principio moral que defenda as corridas de touros. Martyrisar durante horas, e sem motivo, uns desgraçados animaes, arrancados ao seu meio, á sua vida pacífica, arrastados a grande custo, e com grande risco, a enormes distancias, é (pelo menos) prova de uma ociosidade de animo e de uma crueza notaveis; muito mais, se considerarmos que as victimas são, antes de entrarem na praça, barbaramente espicaçadas a pampilho no recinto de poucos palmos que lhes serve de jaula, a fim de se acordar nellas maior furia, isto é mais pretextos a maior supplicio.
Acabada a tourada, chega, em vez do descanço, o chamado curativo. O curativo das feridas feitas a sangue frio por homens adestrados n'aquelle triste mister, e talvez mais atormentador do que os dois supplicios que se acabam de infligir.
E quem auctorisa o homem, o rei magnanimo da creação, a fazer das dores de algum ente vivo o joguete para horas frivolas, a suppliciar esses bons animaes, dos mais uteis sem duvida, dos nossos mais prestadios servidores, os bois, companheiros e instrumentos das lidas agrarias, servos constantes, e não salariados, do lavrador!?
Quem permitte á praça de touros, ignobil e ridiculo Colliseu de taboas pintadas, recinto immoral, onde a crueldade se arvora praticamente em principio, a vir desmentir com ironias as doutrinas puras da escola primaria, onde se inoculam theoricamente nas creanças as ideas de compaixão e protecção para com os irracionaes?
Vir-se-ha ainda invocar, pela millesima vez, a usança, a posse consuetudinaria, para justificar as corridas? fraco argumento na verdade, ante o qual cairiam sem duvida por terra todas as reformas, por mais uteis, por mais instadasl
Não confundâmos a tradição, esse archivo sui generis das nações, com as praticas e costumagens da plebe inculta. Nada mais alto, Senhor, nada mais nobre, que as commemorações do passado; nada mais augusto, que a tradição dos povos. Nada mais odíoso que o preconceito, enferrujado grilhão da nossa escravidão moral.
Adduzir-se-ha ainda o exemplo da nossa briosa visinha, a Hespanha, onde (pela força do vezo) as corridas são bem mais barbaras do que em Portugal? Mas essa sombra de rasão não poderia colher, visto que o pessimo alheio não justifica nunca o nosso mau.
Julgar-se-ha defender as touradas affirmando serem ellas clara prova da dextreza dos cavalleiros e capinhas, signal do seu sangue frio e da sua hombridade, e mostra brilhante da victoria do engenho sobre a força? Mas, por Deus! quando tantas outras demonstrações podem blazonar aquelles luctadores da sua pericia e do seu valor, porque hão-de assim escolher para taes alardos o mais condemnavel dos passatempos, praticando sevicias inuteis, e (o que é mais grave) expondo a vida n'uma lucta ingloria, sem alvo nobre, sem motivo que saiba ao menos justificar os meios? 
Os argumentos continuam, invocando o papel primeiro que Portugal teve em abolir a pena de morte, algo já então entendido como motivo de orgulho nacional. Faz uma resenha história que lembra uma proibição das touradas por bula papal de 1567 de Pio V, proibição que durou 8 anos, até que em 1575, por pressão do rei de Espanha, Filipe II, foi levantada a excomunhão aos toureiros pelo papa seguinte, Gregório XIII.
Não deixa ainda de se lembrar que D. Afonso VI ou o irmão D. Pedro II impuseram algumas proibições, determinando o fim do toureio com os cornos afiados. 
Lembra-se ainda o decreto de Passos Manuel de 1836, em nome da rainha D. Maria II, que proibia as touradas, mas que viria no ano seguinte a revogar a proibição... este foi um ponto falado nas últimas semanas.

Numa sociedade que praticamente desprezou tudo o que eram tradições populares, vindas de tempos imemoriais, perdendo-se grande parte do seu significado, é especialmente caricato ver uma protecção desta prática com o argumento da "tradição". 

O argumento da "tradição" é uma "contradição", porque nenhum dos promotores tem a mais pálida ideia de qual seria o significado remoto dela. A herança mais recente poderá ter-se ligado a uma continuação dos circos romanos, conforme sugere o documento, no seu lado de espectáculo violento, promotor da libertação de um lado negro na índole humana.
Mas, do que pude entender, a tradição mais antiga prende-se provavelmente com a celebração do "touro embolado", com os cornos em chamas, conforme referimos em postal anterior:
... e que pode estar ligado a uma manifestação ainda mais antiga, encontrada em pinturas rupestres na Crimeia.
Há alguma ligação histórica pretendida entre uma coisa e outra? Algum nexo, alguma moral digna, algum ensinamento primevo que se transmita? Claro que não!
Curiosamente, se alguém promovesse o espectáculo do "touro embolado", seria provavelmente acusado de mau trato aos animais... apesar de nada disso se passar, e haver muito mais razões e mais antigas, para manter essa tradição. Lembramos ainda os frescos de Creta, onde o convívio com o touro se limitava à acrobacia de fazer um "pinote" nas suas costas.
Se o "touro embolado" é uma tradição que remonta à pré-história, é muito natural que as touradas tenham aparecido "recentemente", na altura em que a civilização da Lua deu lugar à civilização do Sol. Ou seja, quando o tempo da caça, regido pelos meses lunares, deu lugar ao tempo da agricultura, regido pelos anos solares.

O crescente dos cornos do touro sempre esteve associado à Lua, e às sua fases, que mostrava esse mesmo aspecto, em quarto crescente ou quarto minguante. O touro esteve assim ligado a uma civilização primordial, matriarcal, de pequenas comunidades, uma sociedade mais feminina do que masculina. A sua importância não parece perdida na palavra onde touro ou tauro se liga a ouro ou a auro, a um esplendor antigo, entretanto perdido.
A substituição da caça pela agricultura trouxe comunidades sucessivamente maiores, de dimensão descomunal, onde "descomunal" significa mesmo fora da comunidade, pela sua dimensão exagerada. O símbolo dessa civilização agrícola passou a ser o Sol em substituição da Lua, e parece-me natural que tourear o touro, fosse uma espécie de comemoração insana da vitória do dia sobre a noite, na perspectiva dos novos mandantes.

Interessa que é absolutamente perverso, e cínico, invocar tradição sem querer ligar ao seu significado, não ao significado de duas patacoadas e meia, mas sim ao significado mais profundo.
O que resta assim da tradição é apenas o espectáculo... e sobre esse mesmo espectáculo não há grandes dúvidas - ou a empatia com o touro é maior, ou é menor.
Havendo empatia com o touro, quem observa o espectáculo, ou simplesmente quem sabe que ele existe, não pode ficar indiferente a que haja pessoas que não tenham qualquer empatia pelo bicho, e o tratem de forma desalmada. Não se trata de uma questão de liberdade, tal como não faz parte da liberdade individual afectar a liberdade alheia.
Trata-se de uma questao de civilização.

Enquanto a nossa civilização não evoluir ao ponto de nutrir empatia com o que nos rodeia, pois permanecerá numa evolução que leva inevitavelmente à separação, e ao afunilamento em grupinhos e grupelhos.
Não me preocupa muito o sofrimento do touro, preocupa-me saber que há quem saiba que o touro sofre e faça disso um espectáculo. Não tem paralelo com outro tipo de sofrimento infligido a animais, que pelo menos serve um pretexto de necessidade humana.


Nota adicional (24.11.2018):
Surge este postal também um pouco na sequência dos comentários ao anterior.

Convém salientar o argumento de atraso civilizacional no Século XIX... pois estamos no XXI.
Há assim uma tradição crítica que remonta não apenas aos quase 150 anos deste requerimento, mas até aos mais de 450 anos da bula papal. 
Ao mesmo tempo que há já proibição do uso de animais em espectáculos de circo, a tauromaquia tem se feito valer da sua última ligação às ganadarias e perdida aristocracia, para mover influências e manter ao longo dos séculos este status quo. Não é apenas o touro bravo que arrisca extinção, é uma última ligação de alguma aristocracia ao combate de sangue, que dos sarracenos passou para os bovinos. 
Citando o documento: 
- "Tristissimo preconceito (ainda hoje não extincto) o que assim erguia aqueles lidadores do corro á cathegoria de heroes, e como que realçava, perante a opinião de uns certos, o quilate heraldico dos seus brazões."

O argumento de que sem as touradas não existiriam os touros... tem alguma razão histórica, mas não tem a razão emocional. Não podem os ganadeiros invocar-se como protectores da espécie, se apenas o fizeram para gáudio da exploração sem consideração pelo animal, socorrem-se da tradição para uma contradição de propósitos.

Finalmente, do outro lado da barricada, começam a crescer vozes de uma completa imbecilidade argumentativa, colocando o homem como apenas mais uma espécie, que não tem o direito de se querer distinguir dos restantes animais. Essa insanidade que aparenta ser científica, é uma irracionalidade básica, promovida por muitos pretensos cientistas. 
Quando o homem é colocado par a par com os restantes animais, tem liberdade para agir irracionalmente. É por isso de uma perfeita contradição de termos pedir racionalidade, invocando uma paridade com a irracionalidade.
Uma tristeza dos nossos dias...