terça-feira, 13 de novembro de 2018

D. Duarte, bestas, taxas e rei

As bestas
Dizia D. Duarte, no seu livro da "Ensinança de bem cavalgar toda a sela", que:
Saiba corrigir si e sua besta para bem parecer, e se mostrar bem, encobrindo o contrário de si e dela.
Numa sociedade onde as palavras só em rara ocasião significam literalmente o que dizem, uma frase deste género pode ser interpretada para além do simples propósito de corrigir a figura do cavaleiro ou da sua cavalgadura, na arte da equitação. 

Porém, lendo capítulos com títulos como:
  • IX - de como se hão de ter nas coisas que as bestas fazem per que derrubam para diante;
  • X - do que se deve fazer quando a besta faz para derrubar atrás;
não seria completamente claro que o espírito de D. Duarte estivesse a falar de outro tipo de bestas, senão daquelas que montava.

Mas no Capítulo XI, ousa referir que há um comparativo no seu propósito com as bestas:
Tal jeito, como este de andar direito na besta, me parece que devíamos ter nos mais de nossos feitos, para sermos no mundo bons cavalgadores, e nos termos forte de não cair para as malícias com que muitos derrubam por esta guisa se ver em coisas contrárias, de feito, dito, cuidado, ou lembrança em tal  guisa, que sentimos seu derrubamento em sanha, mal querença, tristeza, fraqueza do coração (...)
D. Duarte, seguiu no impulso da besta, no primeiro salto em África, colocado em Ceuta pelo seu pai, D. João I, e pelo derrube para diante colocado pelo seu irmão Infante D. Henrique, na trágica expedição a Tanger, em 1437, onde o irmão mais novo, o Infante Santo, D. Fernando, foi sacrificado. 
De facto, foi o permanecer direito na montada, que determinou o fim do irmão mais novo. Se houve geração em que o projecto do reino falou mais alto do que a família, este exemplo de abandonar o irmão, para não abandonar Ceuta, marcou definitivamente a importância dada à missão. 
Todo o reino percebeu isso, e especialmente a partir do neto, D. João II, as cavalgaduras do reino estiveram prontas aos maiores sacrifícios, além mar, contanto que a realeza permanecesse direita nesse cavalgar, que ultrapassava o bem estar da própria família real e a corte. Claro que, nesta história, a casa de Bragança foi fazendo o papel das bestas que derrubam para trás. Conforme moto da própria casa de Bragança, um "depois de vós, nós"... deixava claro o ideal rasteiro de ocupar o poleiro, visando o final da dinastia de Avis. Enfim, a pequena grande diferença entre ter uma família ao serviço da nação, e querer uma nação ao serviço da família.
Assim, à excepção das bestas mais preocupadas com a crina do que com o porte, que foram formando a corte bragantina, as restantes montadas do reino tomaram a direcção marítima como ADN, e desde que essa direcção se perdeu no nevoeiro sebastianista, não mais deixaram de a desejar.  

D. Duarte não terminou este livro, tendo morrido vítima da peste, em 1438, com 46 anos. 
É interessante vermos como a linguagem de D. Duarte nos é mais estranha, o que significa que vai mudar consideravelmente no espaço de décadas, para não sofrer depois uma tão grande alteração até aos nossos dias.

Taxas e Rex
D. Duarte investiu bastante no melhoramento do Mosteiro da Batalha, com as capelas imperfeitas, e a sua divisa encontra-se marcada em diversas pedras desse mosteiro, como por exemplo aqui:
 
D. Duarte - "tãxas e rex" - "tãyas e rey" - Mosteiro da Batalha

Na primeira figura parece-me clara a transliteração "taxas e rex", o que seria um moto bem drástico e pouco politicamente correcto para um rei, advogando "taxas e rei". Dada a segunda figura será de admitir que pudesse ser "tãyas erey" ou algo similar... se isso fizesse sentido, o que dificilmente faz, e as explicações são pouco convincentes.
Há assim um problema de interpretação no moto usado por D. Duarte, já que normalmente é considerado poder dizer "tã ya serey" ou "tayas serey", o que é curioso já que o "s" se encontra claramente separado do "erey". Encontramos um artigo que aborda este assunto:


... deixando clara a confusão instalada, e a pouca certeza nas especulações avançadas. Existe ainda outro moto, aí entendido como "leaute feray" ou "leau te staray", que é considerado como primeira parte do lema.

 ... neste caso a identificação visual é ainda mais difícil, e por esta imagem, eu não arriscaria nenhuma tentativa de transliteração.

Admitindo que é um "y" e não um "x", então um lema como "tã yas erey", poderia significar uma expressão como "tanto ias, irei", ainda que o "erey" mais facilmente se lê-se "errei" do que "irei".

Não estando identificado este "mistério" como coisa sonante ou importante, talvez porque D. Duarte acabou por ficar na sombra dos irmãos (o Infante D. Henrique e o Infante D. Pedro), não creio que tenha havido suficiente interesse dos ratos de biblioteca, digo, dos investigadores, em dar uma volta aos manuscritos antigos, para procurar o significado do lema.

Atendendo à Lei Mental que D. Duarte publicou, no sentido de reverter ao rei anteriores doações feitas à nobreza (reversão na ausência de filhos varões), podemos entender isso como uma "taxa", e o moto "taxas e rei" faria algum sentido prático, mas teria pouca "alma" para o espírito da época... digamos que seria um moto melhor para qualquer actual "empresário" de pacotilha. 
Por isso, não creio ser essa a empresa que D. Duarte ali quisesse proclamar, e sem mais informação não vejo interesse em arriscar outra.

domingo, 4 de novembro de 2018

A sente na centena

Ocorreu hoje um desfile militar, a propósito do centenário do armistício da 1ª Guerra Mundial.
Uma semana de antecedência, ao que consta, por causa das comemorações oficiais que irão decorrer em França. Macron irá receber 60 chefes de estado, no dia 11 de Novembro, em França. Aliás, Macron serve um pouco como símbolo do armistício, já que o seu bisavó inglês, combatente no Somme, aí ficou, casou e constituiu família.
A excepção a essa convergência mundial para França é um pequeno cerimonial que a rainha de Inglaterra fará, no mesmo dia, com o presidente alemão, em Westminster.

O dia 11 de Novembro de 1918, fica célebre pela enorme falta de bom senso francesa. O acordo de paz, ou digamos, o acordo de rendição, foi assinado numa carruagem do marechal Foch, no bosque de Compiègne, forçando os alemães a uma humilhante negociação, que foi depois ainda agravada no Tratado de Versalhes, assinado no ano seguinte.
O Marechal Foch e a rendição alemã em Compiègne, 1918.

É claro que os franceses tentavam uma vingança da humilhação na derrota da Guerra Franco-Prussiana, em 1871, quando depois de conquistar Paris, Wihelm I  decidiu coroar-se imperador no Palácio de Versalhes. Quarenta e oito anos mais tarde, o Palácio de Versalhes seria usado para assinar o acordo do armistício da 1ª Guerra Mundial.

Também vinte e um anos mais tarde, em 22 de Junho de 1940, um soldado que havia combatido na 1ª Guerra Mundial, decidiu trazer a velha carruagem de Foch, e obrigou os franceses a assinarem uma humilhante rendição, exactamente no mesmo local - na floresta de Compiègne.
Adolf Hitler e a rendição francesa em Compiègne, 1940.

Serve este episódio para lembrar que a castanhada que os franceses quiseram dar, no São Martinho de 1918, teve como consequência alhos porros no São João de 1940. Pelo menos, isso foi aprendido, e se as negociações de paz em 1945 deixaram a Alemanha dividida durante 45 anos, o Plano Marshall foi pelo menos uma medida sensata e pacificadora.

Quanto à participação portuguesa na 1ª Guerra Mundial, foi feita à medida do país que era.
Se o hino republicano dizia "Contra os canhões, marchar, marchar..." pois foi nessa base de "carne para canhão" que funcionou toda a 1ª Guerra Mundial. As tropas saíam das trincheiras para perecerem alguns metros à frente, em vagas sucessivas de carnificina gratuita.
Na batalha de La Lys teve um herói ocasional - o soldado Aníbal Milhais, e pouco mais.
Este pequeno apontamento faz um bom resumo:
O Aliado esquecido - Portugal na primeira Grande Guerra

É claro que estas comemorações de hoje em Lisboa, são muito mais um tónico para esquecer os problemas que sofre o exército, em especial desde o roubo de armas em Tancos. Esta é daquelas vitórias que podemos comemorar, ao contrário da conquista de Ceuta. Mesmo que o politicamente correcto aconselhe Macron a não humilhar Angela Merkel com uma parada militar, parece que o mesmo decoro foi esquecido aqui. Diz-se, enfim, que Macron quererá também evitar falar de Pétain, que de herói da 1ª Guerra Mundial, passou a traidor na 2ª Guerra Mundial, por ter negociado a paz com os alemães. Ficamos à espera da comemoração dos 150 anos do fim da Guerra Franco-Prussiana, para saber se as comemorações se reduzem à única guerra com vitória francesa.

Ainda que o Corpo Expedicionário Português tenha envolvido mais de 50 mil homens, na 1ª Guerra Mundial não havia propriamente uma guerra de ideologias em curso, como aconteceu na 2ª Guerra Mundial. Apesar da maçonaria ter conseguido envolver o mundo inteiro no conflito, não passa de muito mais do que da afirmação de uma seita, que não pode ser assumida como tal, para entendimento público.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Rodízio afonsino (2) - Rodízio de vaca

Na sequência do anterior postal Rodízio afonsino em Arzila, José Manuel Oliveira e David Jorge apresentaram nos comentários outras versões possíveis para explicar o rodízio afonsino que, recordo, trata-se deste símbolo de roda motriz:
 

Rodízio de vacas
Pela restauração (alimentar) sabemos de um rodízio associado à carne de vaca... porém, do que não estava mesmo à espera era de encontrar esta imagem, indicada pelo David Jorge, em que o rodízio está acoplado a um barco movido pela acção rotativa... de vacas:


"XVth century miniature of an ox-powered paddle wheel boat from the 
4th century Roman military treatise De Rebus Bellicis by Anonymous."
Cópia da Bodleian Library - Cosmographia Scoti

A imagem é de um livro de 1436, e recordamos que D. Afonso V é declarado rei herdeiro em 1438.
Esse livro será uma transcrição de um original romano De Rebus Bellicis, publicado mais de mil anos antes.

Ora, a questão principal aqui é que a Idade Média não acabou porque acabasse, foi decidido que iria acabar, que o génio seria libertado, e enfim... o Mundo voltaria a ter acesso, pelo menos parcial, ao conhecimento antigo.
Quando o Séc. XV avança, são cada vez mais as cópias que vemos publicadas dos trabalhos romanos e gregos, muitos deles pensados perdidos no incêndio da Biblioteca de Alexandria.

No final do Séc. XV é Leonardo da Vinci que está a replicar trabalhos de Vitrúvio. Muito ficará ligado mais a si do que ao autor original, como acontecerá depois em tantos outros casos (por exemplo, a La Fontaine que copia literalmente as fábulas de Esopo).

Curiosamente, está nos trabalhos de Vitrúvio o uso do rodízio também como odómetro, ou seja, como um "conta-quilómetros", activado pela passagem de água no curso de um navio - ora, isso foi o que também sugeri como possibilidade.

No entanto, terá havido efectivamente contribuições originais.
A principal proibição que foi levantada não foi o acesso ao material antigo, a principal proibição que foi levantada foi deixar o génio humano à solta, ou pelo menos com rédea mais larga.

Blasco de Garay
Deixei este espaço final para recordar o postal sobre de Blasco de Garay:
(ou ainda o seguinte) onde se relata invenção em 1543 de um barco a vapor, o Trindade, que terá feito uma navegação experimental em Barcelona nesse ano.
Ilustração feita em 1913 na revista Nuevo Mundo (nº 1015).

Como os documentos invocados em 1823, do Arquivo de Simancas, parece que se "perderam"... há quem argumente no sentido oposto, no sentido que seriam apenas homens a mover as pás propulsoras... é claro que no rodízio romano do De Rebus Bellicis também poderiam ser homens e não vacas a efectuar a rotação propulsora. Para o caso do rodízio é indiferente, a engrenagem funcionaria num ou noutro caso, se tivesse em vista substituir as velas pelas pás. É claro que para efeitos de eficiência, o vapor aportaria muito mais potência, conforme se veria nos barcos a vapor desde os primeiros (onde as pás eram visíveis), aos mais sofisticados (como o Titanic, que tinha todo o mecan).
Aliás no caso de Blasco de Garay, como se justificaria o medo de Ravago que a caldeira explodisse, se afinal era apenas a força dos homens a rodar as pás?

Interessava aqui referenciar que a ideia de um rodízio para a locomoção de navios era uma ideia presente nos séculos XV e XVI, e não deve ser dissociada de uma nação que apostava justamente na eficácia da sua marinha para se impor na sua expansão mundial.

Santa Catarina
Convém aqui notar ainda que o brasão de Goa, no tempo da Índia portuguesa, tinha uma roda ou rodízio, com alguma semelhança com o de D. Afonso V:
Brazão da Cidade Portuguesa de Goa.

Invoca-se habitualmente a roda de Santa Catarina para justificar este brasão, tal como é também feito com o rodízio de D. Afonso V, conforme o José Manuel mencionou.
Ainda que haja essa menção na heráldica, e um desenho explícito no Livro de Horas de D. Duarte possa sugerir que o seu culto estava bastante difundido em Portugal, faltaria justificar a associação das gotas, que sugerem um fluxo de água.
Livro de Horas de D. Duarte  (...0037.tif) - ilustração da Roda de Santa Catarina
(com a menção "Sponsa Christi Vere")

É mais natural pensar que a roda de Goa estivesse associada ao símbolo do Dharma budista, disfarçada como roda de Santa Catarina. Além disso, por que não considerar a roda de Goa associada mesmo ao símbolo de D. Afonso V?
A outra hipótese, do símbolo de D. Afonso V se associar já na ligação de Santa Catarina ao Dharma indiano, remeteria já a sua empresa com vista à Índia, e não vou considerá-la sem outros argumentos.

Em suma, o rodízio de D. Afonso V parece-me muito mais ligado a um símbolo de técnica relacionado com a água, e uma sua associação a meras azenhas parece insuficiente explicação, já que a empresa marítima portuguesa, de que D. Afonso V era portador, não era uma empresa de padaria... conforme salientou o José Manuel Oliveira.
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27.10.2018

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Baixos e altos de Lixboa (2) - a ilha de Martim Vaz

Estou a pegar de novo nos mapas de João de Lisboa com a devida calma, e como não estou com muito tempo, escolhi um mapa de análise mais simples. Mesmo assim tem um problema claro com a indicação da Ilha de Martim Vaz.

Trata-se do mapa de parte de África, que já era apresentada por Pedro Reinel em 1485, e trinta anos depois, não haveria propriamente nenhuma novidade especial.
Porém, para além do contorno de África estar consideravelmente bom - sobrepus com o mapa da Google deslocado, para melhor comparação - haveria 3 ilhas que não constavam e que aqui estão presentes. 
Essas ilhas são:
  • Ilha da Ascensão (acemçam) - que está identificada com uma bolinha azul, correspondendo a uma localização praticamente exacta dessa ilha (actualmente sob ocupação britânica).
  • Ilha de Santa Helena (I.desamtailena) - que está identificada com uma bolinha verde, correspondendo a uma localização também praticamente exacta da ilha (igualmente britânica, ficou famosa por ser a última prisão de Napoleão).
  • Ilha de Martim Vaz (I.demarti~vaz) - aqui surge o problema... não existe qualquer ilha naquelas redondezas. Existe uma ilha Martim Vaz identificada, mas está muito mais próxima da costa do Brasil do que de África. Aliás, a ilha de Martim Vaz é brasileira, fazendo um arquipélago com Trindade.
A ilha de Martim Vaz no mapa de João de Lisboa (a amarelo) 
e a ilha de Martim Vaz brasileira (a vermelho).

Portanto, o que se está aqui a passar?
Claro que na técnica do "despachar, para não atrapalhar" é natural que isto seja visto como mais um erro de cartografia, e o trabalho dos nossos grandes historiadores está feito. 

Porém, convém notar que neste mapa de João de Lisboa esse seria o único erro!...
... e logo um erro tão grosseiro, que se torna incompreensível/inadmissível!

Uma hipótese natural, no sentido em que já a usei mais vezes... é que a costa africana tenha servido a certa altura para descrever a costa sul americana!
Isto seria uma hipótese perfeitamente plausível de trabalho, se os pilotos soubessem que quando estavam noutras paragens, deveriam virar o mapa e olhar apenas para certas marcações.
Admitindo que Martim Vaz representava a ilha brasileira, então neste exemplo, se estivessem perto da costa do Brasil, deveriam virar o mapa, e olhar apenas para as marcações a azul.

Para explicar isto melhor vou pegar no mapa de Piri Reis, que apesar de ser muito semelhante ao Atlas Miller de Pedro Reinel, tem um contorno incompreensível na América do Sul. Ao invés de continuar o continente para sul, vira para Oriente, não correspondendo a nada que se encontre na América do Sul. Neste ponto é diferente do Atlas Miller que ao menos tem uma abertura... que corresponderia depois ao Estreito de Magalhães. É mais ou menos claro que o mapa de Piri Reis foi copiado de um mapa português, do tipo Atlas Miller, existente anteriormente.

Ora, acontece que se pegarmos nos pontos assinalados pela "rosa-dos-ventos" e rodarmos aí, podemos colar ao contorno africano, ficando com um bom mapa de África, até aos limites definidos:

Portanto, um contorno que era incompreensível no local onde coloquei pontos de interrogação (??) passa a fazer sentido no local onde coloquei as exclamações (!!).
No mapa de Piri Reis não dá muito perfeito, até porque a embocadura do Rio da Prata tem dois rios (ao contrário do que está no Atlas Miller), mas isso iria corresponder no contorno africano ao Rio do Congo.

Isto mais uma vez vai no sentido de que Diogo Cão ao explorar supostamente o Rio do Congo, estaria muito provavelmente nas paragens do Rio da Prata, no sentido de encontrar a passagem pelo Estreito de Magalhães - ver esse paralelismo no mapa aqui. E da mesma forma, as menções de Magalhães a um mapa de Behaim, que acompanhou Diogo Cão, deixam o Estreito mais "largo".

Bom, então qual poderia ser a estratégia?
Voltamos a pegar num mapa de 1544 de Batista Agnese, de que falámos a propósito dos mares vermelhos, enquanto ponto de proibição de navegação, mas também enquanto semelhança na representação do Mar Vermelho com o Golfo da Califórnia:

O paralelismo poderia ocorrer da seguinte forma. Para além da semelhança de latitudes e posição do Golfo do México e da costa ocidental africana, deve-se ter continuado a reparar na semelhança entre a costa da América do Sul e a costa africana ao sul. Até aqui nada de novo, e passar o Cabo da Boa Esperança, seria assim o mesmo do que passar o Estreito de Magalhães ou o Cabo Horn.
Além disso, em termos de grandes ilhas, já referi uma possível relação de paralelismo entre Madagáscar e a Austrália, também escondida entre os nomes S. Lourenço, Java grande ou Taprobana.

Porém, a semelhança pode ainda ter sido levada mais longe, continuando pelos continentes. Assim, ao subir pela costa americana o primeiro golfo que aparece é o da Califórnia, pintado como mar vermelho. Da mesma forma, ao subir pela costa africana o primeiro golfo que aparecia era o Mar Vermelho. Depois ainda por esse lado chegava-se à Índia, enquanto pelo lado americano chegávamos aos índios... Finalmente, continuando por qualquer um dos lados, apareceria a China.

No entanto, estas pistas para um paralelismo alargado, são ainda demasiado escassas para se considerarem mais do que especulação.

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NOTA: Convém ainda notar que ao lado das Ilhas de Martim Vaz e da Trindade, apareceu também uma ilha com o nome "Ascenção", ou seja com o mesmo nome do que a ilha no meio do Atlântico. Isso figura ainda num mapa de 1794

A Revista Trimestral do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, Tomo XL (parte segunda), 1877, nas suas páginas 272-276 trata desse assunto, esclarecendo o caso como uma "confusão" com nomes diferentes para a mesma ilha - que seria a Trindade.

sábado, 20 de outubro de 2018

Rodízio afonsino em Arzila

A ideia de que o Norte de África é árabe e muçulmano tornou-se numa ideia implantada com a rápida invasão e assimilação cultural a que as antigas províncias romanas ficaram subjugadas, após a desagregação do império. 
No entanto, se atendermos ao que se passava antes da invasão árabe, o Norte de África pouco deveria diferir do que se passara nas outras partes do Império Romano. Foi em Hipona que Santo Agostinho escreveu, e foi aí que pereceu com o cerco e invasão de Genserico. 
Os Vândalos, partindo da Ibéria, estabeleceram aí um curto reinado até que foram derrotados por Belisário, o general bizantino de Justiniano. O Norte de África esteve sob controlo bizantino até à chegada da invasão árabe. 
Aliás com Belisário, os bizantinos tomaram uma parte andaluza da Ibéria visigótica, província denominada Spania, que mantiveram (552-624 d.C.) até começarem a ser derrotados sucessivamente pelos árabes.

Os Visigodos não se desinteressaram pelo perigo crescente da invasão árabe, e por vezes auxiliaram as tropas bizantinas com grandes contigentes, mas não parece ter sido o caso na conquista final de Cartago, ocorrida em 698, quando Vitiza enviou apenas 500 homens. Nessa altura Cartago, Tanger ou Ceuta eram praticamente cidades isoladas, resistindo aos invasores árabes que as cercavam por completo.

Em 710 restaria Ceuta, sob o comando do Conde Julião, um personagem algo lendário, podendo ser  um bizantino, ou mais provavelmente visigodo que, de acordo com a lenda, ao ver a sua filha Florinda violada na corte do rei visigodo Rodrigo (ou "Roderico"), decidiu ajudar Tarique na invasão muçulmana da Ibéria. 
Se a religião no Norte de África era cristã, à época de D. Afonso Henriques já não havia praticamente registos de qualquer celebração cristã entre os invadidos. 

A ideia de recuperar o Norte de África da alçada árabe, começada com a conquista de Ceuta em 1415, não seria tão completamente insana, se houvesse entre a população do Norte de África alguma adesão à sua antiguidade romana. No entanto, muitos séculos haviam passado, e o que os cristãos encontraram no Norte de África foi sempre uma enorme resistência.

Se o desastre do ataque a Tanger levado a cabo pelo Infante D. Henrique em 1437 terminou com o sacrifício do Infante Santo, seu irmão, D. Afonso V levou o tio para a vitória em Alcácer Ceguer, em 1458. Já bem após a morte do tio, preparou o desembarque em Arzila, em 1471, tendo em vista a conquista de Tanger. A vitória de Arzila foi tão efectiva que Tanger foi simplesmente abandonada.

As Tapeçarias de Pastrana constituem um raro testemunho à época do evento. 
Por elas podemos ver a dimensão da força empregue na conquista de Arzila.
As tapeçarias falam em 400 navios (quadrigentaru navium), que é estimado terem levado 28 mil homens (assim, em média, 70 homens por navio). 

Nos bastidores vêem-se os mastros de aproximadamente 40 navios, um décimo da força empregue.

Encontram-se na wikipédia boas imagens das Tapeçarias, referindo os quatro eventos: 
Os tapetes são atribuídos à oficina flamenga de Pasquier Grenier, o que faz algum sentido porque a representação das cidades (Arzila ou Tanger) é feita com características típicas das cidades do norte da Europa. 

Em cada tapete podemos ver uma representação real.
  • No primeiro tapete, aquando do desembarque em Arzila, podemos ver [1] o rei, D. Afonso V, acompanhado do filho, [2] o príncipe D. João II, com 16 anos, acompanhados por [3] Duarte de Almeida, o Alferes Mor do reino (o porta-estandarte), conhecido como o "Decepado", por ter segurado a bandeira com os dentes, quando ficou com as mãos cortadas, 5 anos depois, na batalha de Toro. Os mesmos personagens aparecem em terra, em cima, já que a mesma tapeçaria ilustra os dois momentos. Dominam a paisagem o estandarte das quinas, o rodízio de Afonso V e algumas bandeiras de S. Jorge.
     
  • No segundo tapete, aquando do cerco, D. João II aparece sozinho na montada, pelo lado esquerdo, enquanto o pai segura a batuta de comando, pelo lado direito. Ambos os cavalos aparecem ricamente decorados. Há uma paliçada de madeira a cercar as tropas que fazem o cerco, para proteger ataques externos ao cerco. Nessa paliçada alternam os escudos de Portugal, de S. Jorge, e o rodízio de D. Afonso V. As bandeiras de S. Jorge estão em grande maioria no conjunto.
  • No terceiro tapete, é ilustrado o momento do ataque a Arzila, havendo um aspecto curioso. Vê-se o rei D. Afonso V liderando o ataque, erguendo a espada na mão direita, mas já é D. João II que fica com a batuta de comando das tropas. Tal como no caso anterior, as bandeiras de S. Jorge dominam no estandarte dos barcos, e abundam no campo de batalha, em conjunto com outras bandeiras mais florais, menos típicas e mais difíceis de identificar.
  • Finalmente no quarto tapete, é representada a entrada em Tanger, onde parece apenas aparecer o rei D. Afonso V. Estão pouco evidenciadas as bandeiras de S. Jorge, e os estandartes mais proeminentes são os padrões florais. A cidade fora abandonada (vêem-se os mouros a abandonar a cidade, no lado direito), e o estandarte das quinas apenas aparece a ser colocado num torreão, provavelmente por Duarte de Almeida.

Antes de referir o estandarte de D. Afonso V, convém notar os estandartes florais que abundam, sobretudo na última tapeçaria. Não há propriamente uma comparação com outras batalhas em tempo medieval, onde as pinturas são escassas ou inexistentes (aliás nem conheço algo semelhante depois). Parece uma demonstração de sofisticação, na exibição de belos padrões decorados, mais próprios dos vestidos da corte, do que da dureza do campo de batalha.

O rodízio
Acerca do padrão do rodízio de D. Afonso V, José Manuel Oliveira já falou dele neste postal:




... e há de facto alguns dados que suportam a ideia de que representasse a roda de um mecanismo de escape típico da relojoaria. No entanto, se o desenho tem todo o aspecto de sugerir isso, mostrando ainda a extensão do eixo anexa a uma pequena roda dentada, só surprenderia mais se a composição levasse a um mecanismo pendular ou não pendular, cuja invenção foi só reportada no Séc. XVIII.
Não há nada de objectivo que sugira isso.
Como parece existir a sugestão de gotas de água em torno do mecanismo, podemos ser levados a concluir que poderia tratar-se de um mecanismo de escape para um relógio de água (ou mesmo de mercúrio). 
Num aspecto mais simples, e mais prático, poderia representar apenas um processo de medir o fluxo de água. Anexado a um típico mecanismo relojoeiro, já existente à época, permitiria saber a distância percorrida pelos navios em mar, essencial para uma estimativa da longitude. Claro que não teria em conta as correntes, mas isso faria parte da derrota associada à rota.

Independente de especulação, onde se podem encontrar semelhanças com outros símbolos (desde a indiana e budista Roda do dharma ao Rotary club...), o símbolo de D. Afonso V é um símbolo que preza a técnica e nesse ponto afasta-se bastante de outros símbolos usados até então. 
A esfera armilar que será adoptada depois, começando com D. João II, mas especialmente adoptada por D. Manuel, será mais um símbolo de conhecimento, da ciência astronómica. 
É claro que a partir da dinastia de Bragança, especialmente após D. José, a esfera armilar foi perdendo o uso, e especialmente qualquer sentido, já que o país entrou num progressivo afastamento de quaisquer ideais técnicos ou científicos, e não foi o uso simbólico da esfera armilar pela República que alterou a situação.
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21.10.2018

Nota: Um outro aspecto que foi aqui comentado será a grande diferença na qualidade de desenho, nomeadamente face aos painéis de S. Vicente, que alguns insistem em classificar como anteriores a 1471.
Acerca deste assunto, ver a troca de comentários com Clemente Baeta, e com João Ribeiro.
Para informação similar, ver por exemplo os links:
-  http://marinhadeguerraportuguesa.blogspot.com/2015/09/a-conquista-de-arzila-1471.html
Art review: The Pastrana Tapestries at the National Gallery (Washington Post)

Nota 2: (24.10.2018) Conforme comentário de José Manuel Oliveira, são ainda informativos/alternativos os seguintes links: 



sexta-feira, 12 de outubro de 2018

dos Comentários (43) - escaravelhos egípcios no Alentejo

Este tema foi aqui colocado num comentário há 8 anos, pela Maria da Fonte, e depois mencionei-o no postal sobre Egitânia, também em Outubro de 2010. 

Retomo este tema porque encontrei material bibliográfico que não estava acessível na altura (ou pelo menos, eu não encontrei). Em particular, os seguintes textos:
É especialmente interessante o último título que remete o assunto para escaravelhos "fenícios", em vez de egípcios, mesmo que identifique a maioria como tendo sido fabricada no Egipto, e coloque apenas 3 em 18 com uma duvidosa proveniência de Cartago. 

Do artigo [A3] retirei algumas imagens, relativas à distribuição geográfica (que estranhamente aparece restrita ao território português), e algumas imagens dos escaravelhos. 
O escaravelho do faraó Psamético I (663 a.C - 609 a.C.), referido no comentário de Maria da Fonte, é o último e dele aparece apenas um desenho!

 
Localização dos 18 achados e um dos escaravelhos como rotativo em bracelete - imagens no artigo [A3].

Dois exemplos de escaravelhos encontrados, imagens no artigo [A3].
O da Fig. 5, segundo [A2], é relativo ao faraó Psamético I, representando um sol com asas, 
a deusa Sokmit (leoa) ou Bastet (gata), aludindo ao faraó como: Hórus O-ib "grande de coração".



Os escaravelhos
Escaravelhos sagrados empurrando uma esfera.
A associação egípcia do ciclo solar aos escaravelhos, em particular ao escaravelho sagrado negro, também dito "rolabosta", tem sido frequente por uma associação do transporte de excrementos em forma esférica. 

O deus Khepri teria assim função semelhante, no rodar do Sol ao longo do dia, de Oriente para Ocidente. Ora, como o sítio mais Ocidental do mundo antigo era justamente a faixa costeira lusitana, não parecerá desapropriado encontrarem-se aqui alguns artefactos relacionados com o assunto... porque, no final de contas, era na paragem mais ocidental que o Sol se escondia para reaparecer no próximo dia.

O deus egípcio Khepricom cara definida 
pela carapaça do escaravelho.
Tanto mais que o processo de reprodução do escaravelho coloca os ovos dentro da esfera de excremento, afinal nutrientes para as larvas, que eclodem depois, renovando a espécie, tal como Sol se renovava no ciclo diário.

Acontece que os Coleopteros, insectos onde se incluem os escaravelhos e besouros, ou ainda os percevejos (Heteropteros), têm uma particularidade notável de poderem reproduzir padrões variados, inclusive caras, na sua carapaça... palavra que pode significar "cara-passa", no sentido que "por cara passa".
Scutelleridae - percevejo com uma carapaça que por cara passa (imagem)
A etimologia da palavra escaravelho remete normalmente para o latim scarabaeus, ou ainda ao grego karabeos, mas não deixa de ser interessante decompor "escaravelho" como "es-cara-velho", o que nos remete de novo para cara, neste caso és cara velho, ou no latim parecendo mais és cara feio. Mesmo a designação "carocha" como uma variante de cara (como o é careta), se aplica aos Coleopteros. Ou ainda, em "percevejo" entendendo como "per se vejo" obteremos o mesmo tipo de variante. 
Alguns dos Coleopteros parecem mesmo pequenas jóias, dado o tom metálico das suas cores espampanantes, onde se incluem os besouros, e ainda aqui podemos ver uma variante de "bês ouros", num sentido em que brilhavam como ouro.
Alguns insectos da família Coleoptera, que inclui os escaravelhos. (imagem)
Incluem formas brilhantes quase como pequenas jóias, e nalguns casos sugerem caras humanas. 

Nalgumas religiões era frequente procurar ou ver significados transcendentes em pequenas coisas... por exemplo, lembramos os augúrios gregos com os voos dos pássaros, ou com as entranhas. Não passaria despercebido encontrar alguns insectos deste tipo com inscrições a que dessem significado.
Mesmo o escaravelho sagrado, que era negro, tinha algumas inscrições ou alterações na carapaça, a que os egípcios davam importância e significado.

Escaravelhos gregos, persas e etruscos
Esta moda dos escaravelhos passou por várias culturas, e tal como os animais traziam associados padrões na sua carapaça, surgiu a moda dos "selos". 
A ideia é praticamente a mesma - o que por cara passa, é o sê-lo
Se a pessoa ali não era, com o selo passava a sê-lo. A cara passava pelo selo.

No reverso de uma pequena escultura de escaravelho, apareciam inscrições que já não seriam egípcias, eram adequadas a cada cultura. 
Temos assim escaravelhos numa vertente grega, noutra vertente persa, ou ainda etrusca.
Surgem assim exemplares notáveis, que certamente fazem a delícia dos leilões:

Escaravelhos fenícios (ou cartagineses)
A situação é razoavelmente diferente no caso fenício, já que aparentemente os fenícios copiavam as inscrições egípcias, inclusive os hieróglifos (mesmo sem os entenderem), com o único propósito de servirem o comércio. Faziam assim concorrência a Naucratis, a cidade egípcia que mais se dedicava a este tipo de manufactura.

A menção a estes escaravelhos alentejanos é quase sempre feita no contexto fenício/cartaginês, já que não é aceite, ou pelo menos não é "bem visto" que houvesse qualquer contacto ibérico directo com a civilização egípcia. Assim, parece que para evitar "problemas de convivência" com os dogmas que se vão estabelecendo na comunidade científica, os arqueólogos remetem o assunto com uma simples explicação de que cartagineses/fenícios traziam os objectos do Egipto e trocavam-nos com os indígenas ibéricos... neste caso, alentejanos. Os espanhóis tentam ainda remeter à cultura Tartéssica, como intermediária, já que essa teria maior ligação aos fenícios, por via de Cadiz, a antiga Gades, ou Tartasso.

De facto, pelo aspecto que a comercialização de escaravelhos foi assumida pelos fenícios, parece claro que usavam as peças com um simples intuito comercial, o que lhes era típico. Mesmo que a manufactura tenha sido a cidade egípcia de Naucratis, como parece ser atestado nalguns casos, parece aceitavelmente provável que os objectos possam ter chegado ao Alentejo por intermédio dos fenícios.

Parece afastada a hipótese de que os escaravelhos tivessem qualquer origem interna, até porque não fariam qualquer sentido as inscrições egípcias. Não estamos numa situação semelhante a gregos e etruscos, que foram influenciados pela moda, mas que optaram por decorá-los com temas seus.

No entanto, permanecem "pequenas" grandes dúvidas...

- O faraó Tuntankhamon tinha haplogrupo R1-M269 (ou seja R1b1a1a2), o que dá as maiores probabilidades daquela linhagem de faraós ter ancestrais tipicamente ibéricos.

- O primeiro fenício a quem foi identificado o DNA, por azar, calhou logo a ter um mt-DNA também tipicamente ibérico. O seu mt-haplogrupo era o U5b2c1, exactamente o mesmo que foi encontrado numa escavação arqueológica em La Breña, nas Astúrias.
[Informação dada por MBP num comentário passado]

Ou seja, e esta é a pequena grande dúvida "Egitana" que mantenho:
- Será que os descendentes dos habitantes pré-históricos ibéricos, responsáveis por pinturas rupestres sem precedentes, não continuaram eles a influenciar o curso histórico na Antiguidade?
- Não poderiam ser eles a determinar a linhagem de faraós que veio a governar o Egipto?

... é que estes dados do DNA podem apontar nesse sentido, mas o registo material que nos chegou é tão escasso, ou pobre, que aponta num sentido completamente oposto.

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13.10.2018

domingo, 7 de outubro de 2018

Detroit Electric (1907) - autonomia até 340 Km

Quando nos dias de hoje se procuram carros eléctricos com uma autonomia considerável, esquece-se, como não poderia deixar de ser, os exemplos com mais de 100 anos.

Um exemplo notável era o Detroit Electric, que em 1911 circulava com uma autonomia garantida de 130 Km, podendo atingir uma distância de 340 Km, sem recarregar a bateria eléctrica.


(Wikipedia)

Dado o estado a que chegámos, será altura de ir buscar os anúncios com 100 anos, para percebermos a grande diferença face à actualidade.

Por isso, talvez comecemos a ter alguma sorte, e algumas das invenções com mais 100 anos comecem de novo a ser conhecidas e comercializadas. Claro que não serão comercializadas aos preços de há cem anos... aí não teremos muita sorte.

Ah, sim... isto porque, estamos praticamente há 100 anos com uma completa e total restrição sobre tudo o que pode ser inventado ou comercializado. Que se conheça, os únicos que tentaram fugir a essa total restrição, não querendo ter o seu génio metido na garrafa, foram os alemães... mas depois deram-se mal, muito mal, de 1939 a 1945. Ficou-nos a televisão a cores.

Entretando, se alguém souber de alguma tecnologia inventada neste milénio... é favor dizer.
Já lá vão 20 anos, a fazer de conta que a internet e os telemóveis são sempre novidade.
Qualquer dia, reinventam os walkie-talkies....

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Baixos e altos de Lixboa

Regressei ao Livro de Marinharia, a propósito da Nau São Paulo, já que me pareceu estranho a ilha não constar de um dos mapas de João de Lisboa (seja lá ele quem fosse... eu entendo-o como quem escreveu o Livro de Marinharia, com os seus mapas, antes de outros acrescentos). 

O mapa que interessa está na Torre do Tombo é este (e faz sentido que não esteja aqui, porque a latitude mais baixa deste mapa é 32ºS, bem longe dos 38ºS da ilha São Paulo):
(referência PT-TT-CRT-166_m0091.TIF)

Henrique Dias na descrição que dá da descoberta da ilha de São Paulo, constante na História Tragico-Marítima, acrescenta como pontos de referência dois outros nomes de ilhas - "Romeiros" e "Sete Irmãs", que actualmente não constam dos mapas, nem se sabe se existiram ou não - mas estas ilhas já estão aqui nomeadas.

Mais que isso, Henrique Dias descreve o embróglio na nomeação da ilha, a que o piloto, António Dias, quis dar o seu nome. Ora, isto mostra que ilhas "sem nome" não seriam uma coisa normal...

O mapa começa pela Ilha de João de Lisboa (será estranho aparecer a ilha com o nome do próprio), que foi muito procurada, sem nunca ser encontrada... tal como a nova Ilha de São Brandão, que tem uma identificação actual, mas que não corresponderá ao sítio nomeado.

Com efeito o nome "São Brandão" fez parte das "ilhas imaginárias" nos mapas do Atlântico, e já é suficientemente estranho voltar a vê-la aqui. Ou seja, é directa a suspeita de que se tratava de uma marcação no mapa, e não de uma ilha. 

O que se estava a esconder no Índico?
Se no Atlântico se escondia a América, no Índico escondia-se a Austrália...
Por isso, o aparecimento deste nome "São Brandão" deve ser encarado com a mesma suspeita que havia no caso atlântico... 
Concretamente, neste mapa é natural que surjam pistas para a costa oeste australiana, disfarçada na costa leste africana, mais concretamente na Ilha de Madagáscar (que logo no mapa de Cantino é chamada assim, mas depois foi também chamada Ilha de S. Lourenço).

Temos como auxiliar o livro "Arte de Navegar" de Manoel Pimentel, que dá latitudes e longitudes muito concretas para algumas destas ilhas. Como ele estabelece uma diferença de longitude de 19.5º para as ilhas de Amsterdão e de São Paulo, suponho que usaria a ilha do Ferro, nas Canárias, como referência (que tem 18º de diferença face ao actual). Esta era uma referência habitual, e erros de 1 ou 2 graus na longitude eram perfeitamente admissíveis a larga distância.

Irei colocar o nome da ilha como o entendo, com a sua cor, e depois entre parêntesis o nome que é possível ler no mapa, com a cor em que está escrito. 

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Paralelo 28º-26ºS

- Ilha de João de Lisboa (I.de joão delixboa) - ilha fantasma ou notação cartográfica?
... Manoel Pimentel dá 26º45'S e 76º10' (ou seja, ~55º40'E), mas não consta aí nenhuma ilha! Seria uma ilha a sul da ilha da Reunião (a que dá a mesma longitude), mas o mais próximo seriam as ilhas Crozet (já bem mais a sul, a 46ºS, 51ºE) 

- Ilha dos Romeiros dos Castelhanos (I.dosromeiros doscastelhanos), ilha a vermelho - outra ilha fantasma, mas a que é feita referência por Henrique Dias (Pimentel não a refere).

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Paralelo 22º-18ºS

- Santa Apolónia (samtapolónia) - antigo nome da Ilha da Reunião (sob França).
... Pimentel chama-lhe Mascarenhas, ou Borbon, dando 21ºS, 76º (o que bate certo com 55º30'E).

- do Mascarenhas (domascarenhas) - antigo nome da Ilha Maurícia (Maurícias).
... Pimentel também lhe chama Cirne (nome de nau) dando 20º22´S, 78º10' (também bate certo).
Refere-se habitualmente a Pedro Mascarenhas.

do Cirne (docirni) - baixos.

- Ilha de Diogo Rodrigues (I.dedioguoro~is) - Ilha Rodrigues (Maurícias).
... Pimentel dá o mesmo nome, e coordenadas 19º45'S, 83º (o que bate certo). Convém notar que João de Lisboa escreve Ro~is, abreviatura de Rodrigues, mas que pode ter levado depois outros a entender como Róis, ou Ruiz, noutras paragens.
Refere-se o navegador Diogo Rodrigues.

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Paralelo 17º-16ºS


- a Nazaré (anazare) - Nazareth Bank - é um nome actual dos baixos.
... Pimentel diz que a ponta sul estaria a 16º45'S, 81º20' (ou seja, ~61ºE). Estes baixos têm um atol a 16º30'S, 59º40'E, a que é dado o nome São Brandão ou Cargados Carajos.

- do Gratiao (dogratiao) ? - talvez os baixos Garajaus, referidos por Pimentel.


- São Brandão (sam bramdão) - ilha fantasma a que Pimentel dá o nome de Ilha Brandoa, colocando-a a 17ºS, 87º20, posição em que se vê apenas mar...

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Paralelo 15º-11ºS
  

Estas ilhas correspondem ao arquipélago das Comores, mas dificilmente têm correspondência com as Comores individuais. Pela posição relativamente à costa, as 3 primeiras serão fictícias, mas pelas dimensões talvez faça mais sentido considerar como fictícias as 3 últimas. Pimentel usa os nomes Mayoto ou Maoto (Mayotte sob França), Anjoane (Anjouan), Molale (Mohéli), Comoro ou Angazija (Grande Comore).

- Jamais Louvam (Jamaislouão) - ilha inexistente ou Ilha Maoto.
- Santo Espírito (samtesprito) - ilha inexistente ou Ilha Anjoane.
- do Comaio (docomaio) - ilha inexistente ou Ilha Molale.
- a Leoa (alioa) - Grande Comore ou Ilha Maoto.
- do Comoro (docomoro) - ilha inexistente ou Ilha Anjoane
- do Comaro (docomaro) - ilha inexistente ou Ilha Molale
- do Comaio (docomayo) - ilha inexistente ou Grande Comore
- Baixos de Dom João de Castro (domjoãodecrasto) - existem com o nome inalterado.

A menção aos Baixos de Dom João de Castro pode ser visto com um dos problemas de datação do Livro de Marinharia, só podendo ser inclusão posterior, pois João de Lisboa morre vinte anos antes de João de Castro ser governador ou mesmo ir à Índia. Nesse caso há quem tenha datado os mapas como 1550-60. É mais ou menos como encontrar uma pastilha elástica colada nos Jerónimos e passar a dar cinquenta e não quinhentos anos à construção...

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Paralelo 10º-8ºS 

Inclui aqui uma parte do arquipélago das Seicheles, nomeadamente o grupo Aldabra (... ou aldraba?), o atol de Cosmoledo e depois o grupo Farquhar

- Ilha do Arco (I. doarco)  - desconhecida... talvez a ilha Aldabra.
... Pimentel nomeia Ilha do Aro com as coordenadas (9º40'S, 68º30' ~ 48ºE) do atol de Cosmoledo!

- (ilha a azul, sem nome) - desconhecida (Glorioso ou Assunção?)

- Ilha do Natal (I.donatall) - desconhecida.
... Pimentel dá as coordenadas (8º00'S, ~ 49ºE) que corresponde a "água".
... Do lado australiano 2º abaixo - há a Christmas Island a 10º20'S, mas a 105º30'E.

- de Cós Moledo (decos moledo) - existe um atol de Cosmoledo nas coordenadas que Pimentel dá para a ilha do Aro.

- (ilhas não nomeadas)

- As Doze Ilhas (asdozeilhas) - talvez correspondam às ilhas do grupo Farquhar.

- Água Légua (agualegua) - Ilha a Galega ou Agalega
... Pimentel chama-a Ilha Galega, em 9º30'S,79º25 ~ 59ºE, 
... enquanto que Agalega actual está a 10º20'S, 56º30'E

- Baixos de São Miguel (desão miguell) - são indicados por Pimentel em 8º10'S, ~66ºE.

- Ilha que achou Roque Pires (I. queachou roquepi~z) - ilha fantasma ou inexistente
... Pimentel dá 10º00'S ~69ºE, o que dá água...
... Do lado australiano 2º abaixo - temos as Cocos Islands a 12º07'S, 97ºE.

- Ilha de Diogo Garcia (I.dedioguo graçia) - Ilha Diego Garcia.
... Pimentel dá 7º15'S ~73ºE, batendo certo com o actual 7º20', 72º30'E
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Paralelo 7º-2ºS 

- Baixos do Patrão (baixosdo patrão) - Pimentel dá 4º50'S, ~52ºE.
- Pracel de João Moniz (pracelldejoãom~iz) - Pimentel não refere isto.

- Ilhas do Almirante (Ilhasdoallmirãte) - existem com o nome Ilhas Amirantes, em 4º50', 53º40'E.

- (ilhas sem nome) - provavelmente ilhas das Seicheles.

- Ilha do Mascarenhas (I.domascarenhas) - talvez Mahé das Seicheles a 4º30'S, 55º30'E.

- São Francisco (samfi,co) - as ilhas Alphonse, que têm o atol de S. Francisco.

- do Corpo Santo (docorposamto) - talvez o atol Coetivy das Seicheles.

- (ilha a vermelho) - provavelmente outra ilha das Seicheles.

- Abreolho (abreolho) - poderia ser uma das Seicheles, mas...
... Do lado australiano 2º abaixo da latitude da ilha de João de Lisboa, também existem os Abrolhos Hautman.

- os Sete Irmãos (osSeteIrmaõs) que aparece repetida... é também chamada "Sete Irmãs".
os Sete Irmãos (osSeteIrmãos)
... Pimentel dá às Sete Irmãs as coordenadas 4ºS, ~67ºE que correspondem a água...

- Ilha que achou Roque Pires (I.queachouroquep~iz) outra ilha reportada a Roque Pires - nome de navegador muito pouco conhecido.

- Baixos de Pêro dos Banhos (baixos de pº dos banhos) é o nome do atol Peros Banhos.
... Pimentel dá as coordenadas 7ºS, ~72ºE no Território Britânico do Índico.
... Pimentel fala ainda do Baixo das Chagas, e existe o Arquipélago Chagos.

- do Mascarenhas (domascarenhas) outras ilhas reportada a Mascarenhas, já no Território Britânico do Índico, e que correspondem aos diversos grupos do arquipélago Chagos.


Madagáscar surge em oposição à costa oeste da Austrália, um pouco mais acima em latitude.

Interessa aqui tentar perceber quais as localizações exactas ou fictícias, algumas das quais, mesmo incertas, foram acompanhando os roteiros até ao Séc. XIX.
Não sendo possível retirar nenhuma grande conclusão, deixamos aqui mais uma compilação de dados, do que alguma conjectura.
A circunstância de os nomes Natal (Christmas) e Abrolhos (Hautman) corresponderem a nomes de ilhas australianas é muito pouco, para se poder conjecturar uma relação significativa, ou se quisermos um paralelismo África - Austrália.... mas estão lá as ilhas fantasma, e pistas como "São Brandão" que indiciam que o mesmo tipo de fenómeno de ocultação estaria em curso.
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04.10.2018