quarta-feira, 11 de setembro de 2019

dos Comentários (53) armas del Rey de Portugal

Num email enviado por Djorge, é apresentado um brasão de Portugal, ou de um seu rei, que é completamente diferente dos brasões habituais, com as quinas e castelos. Citando Djorge:
Sempre conheci a bandeira Portuguesa "medieval" com as variantes constantes no sitio da wikipedia. Mas desde, há muito, que sei que o espólio de bandeiras e bandeirolas utilizadas não se limitava a esse conjunto de bandeiras da realeza.
Por outro lado, também reconheço da dificuldade existe hoje, na compreensão da heráldica Portuguesa, pois pelo que tenho lido nem os "especialistas" na área, por vezes conseguem determinar os porquês de certas vertentes.
Dito isto, segue a curiosidade de hoje. Título: 


Data de edição:  1401-1500 (estimada pelo bibliotecário)
A página em questão é a fólio 123r, onde encontramos o separador para a lista heráldica das armas portuguesas que se seguem.
Onde eu pergunto, o que é isto?
Deveriam estar aqui representados as armas dos Reis de Portugal, possivelmente do Rei e da Rainha, mas será? Também poderiam ser as armas navais, caso fossem barcos ou 3 figuras estilizadas de galeras.

Ainda que a caligrafia seja difícil de decifrar, poderemos ler e traduzir(?):
- As armas da realeza e nobreza de Portugal
- As velhas armas de Portugal
- As novas armas de Portugal

O problema é que o brasão da azul, à esquerda, não corresponde a nada que seja conhecido como "armas de Portugal", sendo mesmo raro encontrar qualquer símbolo similar noutros brasões.
O brasão "normal" é claramente aquele que foi criado por D. João I, adicionando as flores de lis, e foi depois usado por D. Duarte e por D. Afonso V. Portanto, este período temporal 1385-1481 insere-se dentro da estimativa que coloca o livro no Séc. XV.

Este poderia ter sido um qualquer engano, mas no mesmo livro (folio 2), vemos uma série de brasões em que o terceiro é exactamente o anterior dizendo ainda "Le roy de portugal", e o quarto é o clássico brasão de Castela e Leão ("Le roy de castelle"). 

Conforme inquiriu Djorge, que símbolo nacional é este?
O que representa? Três embarcações, três vagens, três foices ou cimitarras?
De forma é que se associa ao rei de Portugal?

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

dos Comentários (52) a alabarda suiça

O João Ribeiro trouxe o tema - será o estado suiço uma invenção templária?
Este tema, apesar de nunca ter sido aqui discutido, já foi considerado noutros fóruns (ou fora, já que fora é o plural de forum em latim). Por exemplo, neste link:


consideram-se diversas razões para esta associação ter algum sentido. Dado que sobre este assunto não tenho dados adicionais, vou-me limitar a citar as diversas razões, que podem ser consideradas "provas circunstanciais", mas não são concludentes.

Questão de datas. A confederação suiça começou em 1291 com um acordo entre 3 cantões vizinhos, em torno do Lago Lucerna (ou Lago dos 4 Cantões):
- Schwyz (cantão de onde surge o nome e a bandeira), Uri e Unterwalden.
No entanto o primeiro embate, que define a independência suiça será a Batalha de Morgarten em 1315, contra as tropas de Leopoldo I, Duque da Áustria, um Habsburgo.
Acontece que o fim dos templários, é marcado pela execução de Jacques de Molay em 1314, mas a ordem tinha sido abolida já em 1312, após as prisões ordenadas pelo rei de França, em 1307.

Portanto, o que se pode questionar é para onde teriam ido os templários que estavam em França (o seu maior centro), e que não foram inseridos nos hospitalários, que não migraram para Portugal, para a Ordem de Cristo, ou para outras eventuais paragens - Aragão ou Escócia.
Uma boa possibilidade seria terem sido acolhidos pelos cantões suiços, que assim receberiam uma força com capacidade militar.

A alabarda. Uma arma que tornou a infantaria suiça temível, em Morgarten, e depois noutras batalhas em que foram saindo vencedores, foi a alabarda, uma lança especialmente eficaz contra a cavalaria dos Habsburgos.
Ainda hoje, a guarda papal, que desde 1506 é exclusivamente suiça, ostenta as suas longas alabardas.
O facto que desperta alguma curiosidade será essa passagem de camponeses à invenção de armas de batalha e à constituição de um exército de referência, ao ponto de ser adoptado para protecção papal.
Além disso, os suiços passaram a ter fama de competentes mercenários, e foram usados por diversos reis. Em particular, uma boa parte da guarda de Luís XVI era suiça, e foi massacrada na revolução francesa, quando tentava proteger a família real (ver monumento em Lucerna).
Aliás, o período da revolução francesa foi particularmente complicado, pois alguns suiços franceses, adeptos revolucionários, decidiram convidar à invasão das tropas napoleónicas.

A cruz suiça. Um outro ponto de possível contacto é a semelhança entre a cruz templária, vermelha sobre fundo branco, e o símbolo da bandeira da Suiça, que é uma cruz branca em fundo vermelho, e que é também a bandeira da Cruz Vermelha internacional. No entanto, aponta-se o brasão do cantão Schwyz como estando na origem desta bandeira (o que será menos claro é saber se o cantão já teria essa cruz antes de 1291).

A banca templária. Os templários tinham ainda fama de servirem de banco internacional, e concretamente emprestaram uma considerável quantia ao rei francês, Filipe o Belo, o que contribuiu para que este tomasse a decisão de suprimir a ordem templária, e assim também a sua dívida.
Para além de terem mais este ponto em comum com os judeus, também adoradores do Templo de Salomão, outra questão que permaneceu até hoje é o papel da banca suiça, enquanto gestora de muitas fortunas mundiais, e nem sempre de origem recomendável.

Na minha opinião são ainda um conjunto de factos circunstanciais, soltos, que pode ou não ligar-se entre si, mas mais dificilmente parece faltar uma qualquer ligação directa aos Templários.
De qualquer forma, parece-me interessante, podendo ser relevante, caso se reúnam mais dados concordantes.

Aditamento (10/09/2019):
Esta teoria que liga os Templários à formação e consolidação da Confederação Suiça foi apresentada inicialmente por Alan Butler e Stephen Dafoe no livro "The Warriors and the Bankers" (1998).
Em 2010 Alan Butler deu uma pequena entrevista a um blog de templários:
onde praticamente vemos a repetição dos argumentos acima expostos. Será claro que nem estes dos autores terão sido os primeiros a pensar no assunto, nem provavelmente serão os últimos.

Há outros argumentos de contexto que dão consistência a esta teoria.

(i) A Suiça tem 3 línguas nos diversos cantões, ainda que na sua maioria sejam alemães, tal como eram os 3 primeiros cantões. Reunir sob o mesmo governo populações de línguas diferentes, sem animosidade ou desconfiança, ao longo de uma história europeia tão conturbada, nos últimos 700 anos, não parece difícil, parece praticamente impossível, sem haver uma direcção aglutinadora. 
Os outros casos de governo conjunto com línguas diferentes, se foram também ao ponto de terem raízes diferentes, como o caso do alemão, incompreensível para franceses ou italianos, ou vice-versa. Temos o caso da Bélgica, divididos entre valões franceses e flamengos, mas aí o estado artificial foi unido por uma figura real, um rei comum. Isso não aconteceu na Suiça, pois nunca houve aí uma nobreza estabelecida. A única figura comum preservada pelo mito, foi mesmo Guilherme Tell.

(ii) A posição da Suiça sendo central na confluência das fronteiras francesas, italianas e alemãs ou austríacas, acabou por também facilitar a que fossem esses mesmos países a definirem o avanço da sociedade europeia. Tudo isto foi acontecendo sem cisões internas que poderiam ter levado a guerras civis. A Suiça permaneceu colada com uma cola invisível, algo secreta, que se adequa muito bem a que estivesse em causa um plano maior.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Nuca Antara - Erédia (5)

Para terminar esta sequência de postais dedicados a Erédia e à Austrália, convém juntar mais alguns elementos.

Canhão de Dundee
Um facto interessante é que recentemente, em 2010, um rapaz que passeava numa praia australiana, em Dundee, perto de Darwin, encontrou um canhão de bronze:
na praia australiana com a maré baixa.

Exames preliminares apontavam que se tratava de um canhão de origem portuguesa, e foram diversos os peritos a afirmar isso inicialmente, pela semelhança e características dessas armas portuguesas.
Esperar-se-ia que a praia tivesse sido vasculhada de alto a baixo, à procura de outros vestígios próximos do encontrado, mas parece que não foi esse o caminho tomado pelos australianos.
Mandaram a peça para diversos testes, inclusive de luminescência, para concluir que o canhão só tinha estado enterrado 250 anos, o que curiosamente permitia incluir a visita de Cook. Não se percebe o que interessa ter estado enterrado ou não, mas enfim...
Acrescentou-se ainda que o bronze poderia ter origem espanhola, ou ainda que o mais provável era ser uma cópia feita pelos Macassares, etc, etc... depressa surgiram diversas teorias que asseguraram que poderia ser tudo.
Tudo, é claro, menos português.
Cheguei a esta notícia, de que basicamente não se ouviu falar em Portugal, através de um blog:
onde também se junta uma torre, a Torre Boyd, como possível monumento antigo de uma época  de presença portuguesa na Austrália.

Isto apenas para deixar claro que, independentemente do que venha a ser descoberto na Austrália, do ponto de vista oficial o assunto é considerado encerrado, e tudo será usado para desacreditar as provas que venham a ser encontradas, mesmo que os australianos tropecem nelas. 

Quíloa
Por exemplo, também tropeçaram em moedas de Quíloa, encontradas na Austrália (desde 1945):
Moeda de Quíloa encontrada na Austrália.

A hipótese que a moeda tenha ido parar à Austrália por comércio com o Reino de Quíloa, há 700 anos, parece ser mais apaziguadora do que outra, que é simples - os portugueses tinham saqueado Quíloa em 1505 e é natural que ainda tivessem consigo moedas, ou citando Mike Hermes:
But he says the most likely scenario is that the Portuguese, who looted Kilwa in 1505, went on to set foot on Australian shores, bringing the coins with them. “The Portuguese were in Timor in 1514, 1515 – to think they didn’t go three more days east with the monsoon wind is ludicrous,” Hermes says.
Para o responsável da investigação pode parecer cómico, ridículo ou caricato, pensar que os portugueses não iam usar três dias de navegação para chegar à Austrália... mas veja-se quanta tinta e quantas palavras já correram em cima desta "piada" que vai persistindo, pelo menos desde o tempo de Erédia.

Tratado ophirico ordenado por Manuel Godinho de Erédia
Erédia vai ainda publicar em 1616 um outro texto, e que eu conheça ficou apenas nesta versão manuscrita, disponível na Biblioteca de França "Gallica":

dirigido a Dom Philipe Rey de España Nosso Senhor : Ano 1616

o documento continua a ser interessante, mas não adianta muito mais ao que Erédia já havia publicado antes. Acrescenta algumas considerações sobre o mundo antigo e o que teriam sido as viagens do rei Salomão, com alguns mapas interessantes.

Sobre os mapas, Erédia acrescenta uma nova versão da "Índia Meridional", passando a data da descoberta para 1610.


Não é importante saber se Erédia terá mesmo contratado ou ido em exploração, até porque os holandeses já haviam declarado a descoberta quatro anos antes, nem interessa muito reparar que ainda assim este mapa de Erédia está longe de se parecer com um mapa australiano, e apresenta as mesmas virtudes - deficiências ou semelhanças - que os anteriores.

Erédia, sendo certo que seria bastante egocêntrico, acrescenta ainda uma auto-biografia, apresentando as suas raízes mais nobres e onde vai ao ponto de dar detalhes sobre a hora do seu nascimento.
Ernest Hamy, um etnólogo e historiador francês, é bastante ácido acerca de Erédia,


e em particular ridiculariza essa sua auto-biografia, bem como todo a atabalhoada historieta em que Erédia se encara como descobridor, nunca tendo saído de Malaca.
O ponto principal, ainda nessa altura, era consolidar o descrédito de dar importância à tese de Richard Major, que tinha colocado os portugueses, e Erédia, como descobridores do continente australiano. Nesse sentido, este apontamento de Ernest Hamy serve actualmente para vermos como foi tratado o assunto no final do Séc. XIX, e desde essa altura basicamente não se terá mencionado mais esse assunto. O livrinho de Hamy tem ainda outros apontamentos com marginal interesse.

As ilhas das Caraíbas são América, mas Timor e as ilhas indonésias não são Oceânia
É tanto mais engraçado atribuir a descoberta da América à viagem de Colombo em 1492, quando nessa viagem ele nem sequer tocou no continente americano, apenas avistou e desembarcou nas ilhas das Caraíbas, situadas a centenas de quilómetros do continente... a maioria delas muito mais longe do continente americano, do que estava a ilha de Timor do continente australiano. Usando o mesmo largo critério, a simples presença em Timor deveria constituir prova inequívoca da descoberta do continente australiano, e Cortesão usava isso - afirmava que a expedição de 1512 de António de Abreu tinha definido a descoberta da "Australásia".
Se os historiadores actuais tivessem o mesmo discernimento que Cortesão, pelo menos ensinava-se que António Abreu tinha descoberto a "Australásia", retirando a Janszoon ou Cook qualquer importância, excepto a de marcar a presença das respectivas nações. Mas com efeito, se nem ao nome de Jorge Álvares, que foi alegadamente o primeiro a chegar à China, é dado qualquer relevo, não é de espantar que a chegada à Austrália tenha sido tão desvalorizada ao longo da nossa história.

No meio de toda esta história, sabemos bem que não é a bem, nem a mal, que a comunidade muda a sua história. Normalmente, essa mudança é ordenada por circunstâncias políticas, ou por mudança de poder. Enquanto a ordem instituída for seguir o rebanho das cabras, será aos pastores (ou se quisermos, aos cabrões) a quem compete definir o percurso para algum lado, que é o mesmo que dizer - para lado nenhum.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Nuca Antara - Erédia (4)

Quando escrevi em 2011 que Richard Major tinha sido forçado a considerar que Erédia não tinha efectuado a viagem à Austrália, não supus que a origem disso estivesse no reconhecimento do próprio Erédia, de que não tinha feito a viagem, como acabei de expor no postal anterior.

Parece que Richard Major terá ficado bastante perturbado pelo assunto, perdendo toda a confiança nas palavras de Erédia, quando afinal até teria sido o próprio Erédia a reconhecer essa lacuna (ver: "Erédia - um português de Malaca" de João C. Reis)
De tal modo ficou Major abalado, e ressentido, com esta revelação, sentindo-se assim, redondamente enganado, e ignominiosamente humilhado, que, num penoso ungido, amesquinharia o português e as suas cartas, que o haviam induzido no execrável erro-passando a renegar o que antes dissera nos seus livros e proclamações de enaltecimento das glórias portuguesas.
"Vejo agora -- dizia -- que as supostas palavras portuguesas [dos mapas de Dieppe] são de facto palavras vlaamsch [dialeto francês medieval]. Rejeito, portanto, tudo quanto anterior-mente escrevi, e não acredito mais na descoberta da Austrália pelos portugueses."
Interessa agora o Cap. 6 do livro II, sob título "De Descobrimento a Caso", porque se Erédia não partiu em exploração, soube de quem tinha ido. Citando Erédia:
A caso se descobrirão alguas ilhas da India Meridional, como pollos mercadores da Macao da China, que tendo a carga de sandalo de Tymor, com temporal aportou aquelle junco em hua do sul, da forma de Tymor, e na ilha dezembarcarão para fazer aguada e lenha, por ter agoa de fontes e espesos arvoredos de cravo, e palmas sem encontrar nhua gente nem pisadas de pessoas salvo de veados e animaes. E esta ilha conforme as confrontações, deve ser aquella de Petan, de Marco Polo Veneto, ao parcel de Maletur.
Erédia procura em múltiplas situações identificar as terras australianas com descrições feitas por Marco Polo, e de certa forma remete até para o explorador veneziano essa descoberta... no sentido em que Marco Polo poderia ter sido o primeiro europeu da Idade Média a chegar àquelas paragens. Na concepção de Erédia, o descobridor era ele, porque tinha sido a si que o rei através dos vice-reis tinham dado o privilégio, o alvará da "descoberta".

Cidades de pedra despovoadas
Erédia continua:
Outra embarcação de Malaca com correntes desgarrada por lo boqueirão de Bale, entre a Java e Bima, passou ao sul, e descobrio as ilhas Lucatambini (Luca Tambini), povoada somente de molheres como Amazonas com arcos e frechas deffenderão a praya para nhua pessoa desembarcar em terra. E estas molheres devem ter os maridos em outra ilha apartada e os annaes e lontares da Java fazem mençao de Lucatambini.
E esta mesma embarcação mais a sul, descobrio outra ilha, cujo ambito rodeou por 8 dias de viagem sem enxergar nhua pessoa nas prayas, onde virão em algus portos sumptuosos edifficios de pedra e tijolos, de grandes cidades e fortalezas despovoadas; em que mostra haver na India Meridional aparato de urbanidade e sciencias liberaes e mecanicas.
Esta passagem é curiosa, porque Erédia explicita aqui a questão das Amazonas, que já estava mencionada no mapa anterior, conforme observámos. Mais, para além de referir que o continente australiano estava praticamente cheio de praias desertas, menciona aqui a questão dos sumptuosos edifícios de pedra e tijolos, em cidades despovoadas. Esta referência, retirando posteriores eventuais destruições por parte de holandeses e ingleses, lembrar ainda as ruínas de Nan Madol:
Nan Madol - ilha polinésia com uma cidade em ruínas desabitada, conforme as relatadas por Erédia. 

Ilha da Cera
Recuperando o assunto do naufrágio da nau São Paulo, Erédia continua:
E o piloto da nao S. Paulo que se perdeo em Samattra, com temporal que teve nos Romeros, em altura de 36 gr. austrais, correo a leste muytos dias ate encontrar mais ao sul a ilha da Sera, por muytos paos de sera que acharão na praya marcados com letras differentes de Arabia. E esta sera estava pera se embarcar em algua embarcação que se recolheo depreça pera outra ponta da ilha povoada: porque não pode ser aquela sera da praya de naufragios, porque pudera estar deretida e desfaita com calor do sol. Antes parece sera de tratto de algua terra firme do sul, de mercadores políticos.
Neste caso, Erédia dá a indicação de que a ilha de São Paulo (ou talvez a ilha Amsterdam) seria conhecida como Ilha da Cera (Erédia escreve "sera" em vez de "cera"), devido a paus de cera " com letras árabes" que aí tinham sido encontrados (talvez antes mesmo da viagem da São Paulo).
Usava esse apontamento como justificação para uma eventual proximidade de outros mercadores, originários de um continente a sul - a Índia Meridional, ou seja, a Austrália.

Papagaios.
Erédia acrescenta ainda:
E outra nao de Portugal em altura de 40 gr. austraes descobrio a terra de Papagaios com temporal, e correndo costa acharão muytos papagaios como de banda; e aquela terra parece continente e firme e a mesma de Lucach.
O nome "Terra de Papagaios" neste contexto não era aplicado ao Brasil, com é claro, e Erédia esclarece que eram semelhantes aos da Ilha de Banda, ou seja, eram mais pequenos, semelhantes aos piriquitos, e espécies similares, que como se sabe são típicos do continente australiano. Ou seja, mesmo que estivesse a tentar adivinhar... tinha acertado em cheio. Só faltaria mesmo falar em cangurus, mas os relatos que Erédia teve devem ter sido apenas de viagens costeiras.

Náufragos portugueses
Finalmente, e supreendentemente, Erédia diz o seguinte:
A nao de Olanda com temporal em altura de 41 gr. austraes, descobrio aquella terra firme do sul, onde achou muytos Portuguezes filhos e netos de outros, que com naufrágio derão a costa, e tem as mesmas armas e artelharia em seu poder, mas andão despidos e mal empanados, e vivem de suas lavouras e trabalho, no anno de 1606.
Isto significa que os próprios holandeses reportaram ter encontrado famílias de náufragos portugueses na Austrália, que basicamente sobreviviam, mal vestidos, mas ainda com armas e artilharia portuguesa em seu poder.
Não se percebe se estes portugueses foram deixados pelos holandeses, ou se regressaram com eles, mas tudo parece indicar que esses portugueses ficaram lá, talvez esperando o resgate dos compatriotas, que nunca terá acontecido, ou talvez formando um pequeno reino tribal independente, conforme parecem indicar os desenhos dos mapas de Dieppe (esquecendo aqui outras hipóteses ainda mais especulativas).

domingo, 1 de setembro de 2019

Nuca Antara - Erédia (3)

Godinho de Erédia escreve em 1618 a

em 3 Tratados, ordenada por Emanuel Godinho de Eredia. 

onde se acaba por entender o que se passou, ou pelo menos, uma boa parte da história.

Mapa-múndi
Desenha vários mapas, onde se destaca um mapa-múndi, bastante bom, atendendo à qualidade que depois se seguiria, em termos de mapas holandeses ou franceses.

Neste mapa vêem-se os rios, inclusive os rios canadianos do Oceano Árctico, ou seja, o rio Yukon e afluentes, bem como os rios Ob e possivelmente o Lena na Rússia. Aliás todos os grandes rios estão bem representados, faltando talvez o maior contorno do Mississipi.

Antárctida
A novidade deste mapa não é apenas apontar Luca Antara, como península de um continente australiano maior (que designa por Índia Meridional), mas também definir a parte australiana oriental (à esquerda no mapa) como descoberta pelos castelhanos em 1609, e especialmente definir uma parte sul, contígua a uma península que saía da Antártida, como tendo sido descoberta pelos portugueses em 1606. A este propósito veja-se, por exemplo:
onde se argumenta que este mapa atesta a presença portuguesa nas terras antárcticas em 1606, falando ainda do similar mapa de Lavanha:
 "Região dos papagaios, assim chamada pelos portugueses, devido ao incrível tamanho que nela têm as ditas aves". Papagaios na Antártica? Que loucura é essa? O historiador Luís Thomas, da Universidade Nova de Lisboa, não tem dúvidas: as tais aves de "incrível tamanho" não são outra coisa senão pingüins. Se a inscrição de Lavanha ainda dá margem a alguma controvérsia, o mesmo não pode ser dito de uma outra, que aparece num mapa elaborado por Manuel Godinho de Erédia.
Dada a má localização do contorno, no que diz respeito à latitude (demasiado próximo de África), continuo a preferir a descrição de Ramusio de 1560, onde afirma que os portugueses sabiam desse continente, mas estavam proibidos pelo rei de navegar abaixo do Cabo da Boa Esperança em direcção ao Polo Sul.

Empresa da Índia Meridional
Erédia, quando escreve em 1618, está perfeitamente ciente que perdeu a oportunidade de ficar para a História como descobridor da "Índia Meridional", mas não se conforma pela forma como isso aconteceu. 
E pera esta empreza, no mesmo tempo foi despachado e provido Manuel Godinho de Erédia, em o habito de Christo, e o titulo de Adelantado da India Meridional, pera passar ao sul com estas promessas, para efectuar os descobrimentos meridionaes e tomar posse daquellas terras pera e coroa de Portugal no ditto anno de 1601. E não teve effecto, porque estando em Malaca, prestes para fazer a viagem da India Meridional, sobrevierão as guerras daquella fortaleza com os Malayos e Olandezes que impidirão os descobrimentos, por ser necessária gente pera defensão de Malaca, sendo governador daquella fortaleza Andre Furtado de Mendonça.
Inclui o seu retrato neste livro, assinalando no globo "Luca Antara", bem como o brasão da sua empresa - a Empresa da Índia Meridional:

 

O moto da empresa, abaixo de uma pomba que traz o ramo de oliveira:
columba venit portans ramum
ou seja, "a pomba regressou trazendo um ramo". Erédia usa o episódio em que Noé para averiguar da existência de terra, após o dilúvio, manda uma pomba, até que ela regressa trazendo um ramo de oliveira. Como já referimos, não deixa de ser interessante o nome de Colombo se ter ajustado ao seu papel de pombo, levando a notícia, ou o ramo, à arca espanhola.

O que interessa aqui é que Erédia sabia da existência de terras a sul, houve a encomenda de exploração, dada pelos vice-reis Francisco Vasco da Gama (1597-1600), e Aires de Saldanha (1600-1605), que lhe deram a ordem de descoberta, para a qual definiu a empresa com este brasão singular, porque Erédia acabou por não ir em exploração, apenas recebeu "ramos de pombas", ou seja, informação de outros que foram.

Boicote da Ordem dos Pregadores (Dominicanos)
Erédia explica assim por que razão não partiu em exploração, devido ao ataque holandês a Malaca, mas inclui razões internas, numa certidão assinada por Pedro de Carvalhães, capitão da fortaleza do Ende, que diz (Livro II - Cap.8 - Da Certidão de Luca Veach). 
Diz ele (Carvalhães):
(....) E com esta informação mandei com brevidade negocear e apetrechar 2 embarcações de remo e providas do necessario com pilotos e marinheiros Endes, e outros officiaes, para efectuar esta viagem de Luca Veach. E estando as embarcações a ponto para levar ancora e dar ao vellas, então os padres da ordem dos Pregadores como vigairos daquella Christandade e administradores do sul, me requererão com muyta instancia, impedisse em todo caso aquella viagem, porque os Christãos, como ignorantes daquella navegação, sem conhecimento de alturas, sem duvida tinham por certo sua perdição e mortes naquella Oceano. E por respecto deste requerimento solemne de religiosos, desfis o designo, e não teve efecto aquella rica viagem de Luca Veach, ou ilha de ouro. E por o descobridor Manuel Godinho de Eredia pedir esta enformação pera bem de sua viagem e empreza, e pollo que cumpre ao serviço del Rey, juro por los sanctos evangelhos passar tudo na verdade, e ser meu o sinal abaixo. Em Malaca aos 4 de Octub. do anno 1601. Pedro de Carvalhães.
A Ordem dos Pregadores é a Ordem de São Domingos, ou Ordem Dominicana, e foi esta ordem que coordenou a Inquisição, sendo portanto natural que o Capitão Carvalhães não quisesse vir a ter problemas com a inquisição, caso não acedesse ao pedido da ordem.

Portanto, Holandeses e Dominicanos foram responsáveis naquela altura pela inacção de Erédia, um Jesuíta, que não se vai conformar com esta situação - talvez devido à sua origem mista na fidalguia portuguesa e nobreza Macassar - mas que ainda assim parece ter sido impotente para a alterar, uma vez que os holandeses ao mesmo tempo que atacavam Malaca, declararam a descoberta australiana logo em 1606. 


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Nuca Antara - Erédia (2)

Num postal do início deste ano, com o mesmo nome, referi o mapa de João Teixeira Albernaz, mapa de 1630 que apresentava Nuca Antara, descoberta por Godinho de Erédia em 1601. 
Esse seria um nome dado à parte norte da Austrália e aí também se incluía a parte holandesa.

Como a referência de 1630 era posterior aos primeiros registos holandeses de 1606, não se poderia considerar prova suficiente para reclamar uma descoberta anterior portuguesa.
No entanto, não que isto adiante muito, há mesmo um mapa do próprio Manuel Godinho de Erédia, datado por si de 1602, em que desenha os tais territórios de Nuca ou Luca Antara

Luca Antara - Godinho de Erédia - Original na Biblioteca Digital Brasileira

Legenda:
NOVA TAVOA HYDROGRAPHICA DO MAR 
DE NOVAS TERAS DO SVL FEITA PELO COSMOGRAPHO
E MATHEMATICO EMANVEL GODINHO DE EREDIA
ANNO DE 1602

Apresenta-se Java Maior (a ilha de Java, assinalando 3 cidades: Sanda, Balambuan, Arenon), logo seguida por Bale (a ilha de Bali), Rima e Ende (Sumbawa/Sumba e Flores), e depois Timor.
Logo esta parte não está muito boa, o que era típico dos mapas da mesma época, no entanto a latitude pelo menos estaria certa.
É em latitudes que poderiam corresponder apenas à Austrália que aparecem as "Lucas", a que Erédia acrescenta legendas, começando com uma espantosa do que seriam "amazonas":

- Luca Tambinié aquela ilha de mulheres que passeiam a cavalo de arco e frechas [flechas].
- Luca Antaraé aquela ilha de ouro, cravo, massa, noz, e sandalo branco, reconhecida ?? Gpcbiay Másivro, e é pelos antigos chamada a Java minor.
- Luca Veaou Beach [nome constante de mapa de Ortélioé aquela antiga Província de ouro, reconhecida pelos pescadores de Sabo.
- Iapé aquela antiga ilha de ouro, cravo, maça e sandalo, reconhecida pelos chinas [chineses].
- Malaturé aquela antiga ilha de especiarias.

A sua configuração como ilhas estaria errada?
No entanto, pensando no nível de águas um pouco mais elevado na Austrália, resultaria que Luca Antara seria uma ilha que resultaria da actual Península de Dampier, com a posição longitudinal e a latitude ambas certas. 

Erédia junta algumas legendas interessantes. Faz referência a 3 viagens.
- Viagem dos Bales (habitantes de Bali) que iriam de Java Maior para uma certa Luça Bale. Ora, não há nenhum registo próximo de ilha nessas redondezas... a mais próxima seria a australiana ilha de Barrow (mas estaria a 20ºS e não apenas a 12ºS).
- Viagem dos Pescadores, que iriam das Flores até Luca Vea e Sabo.
- Viagem dos Chinas, os chineses viriam da China, até Flores e depois para Iap.

Imagem habitual
A imagem mais comum de se ver associada a Nuca Antara é posterior ao desembarque dos holandeses e faz referência a esse desembarque.

Neste mapa, talvez feito por outro autor (circa 1630), o nome já é fixado como NVCA ANTARA, e é acrescentada a legenda esclarecedora:
O cosmographo Manoel Godinho de Eredia. Por ordem do Vise Rey Ayres de Saldanha descobrio a Ilha Nuca Antara ou Java menor, o Anno de 1601. E na tal ilha dise aver muytas minas de ouro e muita espesearia como cravo e masa e nós e sandalo branco e outras riquezas. É comforme ao cithio em que os Olandeses achárão a terra Endracht, esta therra maes ao Norte quase de 14 até 15 graos da parte Sul da linha equinoçial ficando distantes uma de outra pouco maes de 100 legoas segundo os terminos que os dous descobridores achárão cada hú na terra q vio podendo tambem ser, seré Conti Continuas ou estaré menos distantes.
Aqui o mapa de Java (Iava Mayor) já é bastante melhor pondo em evidência a Ilha de Madura, e já há o cuidado de não definir Nuca Antara como uma ilha, referindo na legenda que as terras reportadas pelos holandeses e a a terra reportada por Erédia podem ser uma só, contínua... que eram parte do mesmo continente, ou seja, da Austrália. O que parece claramente mal é a posição da latitude face à longitude... ou seja, Nuca Antara não estaria abaixo de Java, mas sim abaixo de Timor.

Pelas latitudes apresentadas no mapa inicial, os territórios reportados iriam da Península de Dampier até às actuais ilhas Tiwi (que poderiam ser as ilhas Iap de Erédia).
Com esta documentação não me parece faltar qualquer prova de que Erédia esteve na Austrália em 1601, e que a reportou em mapa em 1602. Ou seja, pelo menos 4 anos antes dos holandeses.
A viagem está documentada no pedido expresso do vice-rei Aires de Saldanha, e foi cumprida pelo cartógrafo luso-malaio Godinho de Erédia, realizando mapa datado de 1602.

Com muito menos documentação já foram atribuídas descobertas a muitos outros... e nada aqui falta para a chancela oficial de descoberta, mesmo para os mais cépticos de todos - os pseudo-historiadores nacionais.

Talvez ainda mais interessante é que o próprio Erédia reconhece que, antes dos portugueses, havia uma rota, a "Viagem dos Chinas", que colocava a Austrália sob descoberta e comércio frequente com a China. Isso é de alguma forma corroborado por outras fontes portugueses, que falavam da Batachina, e outras viagens chinesas ao Sul.

O problema principal, e ao qual queremos muitas vezes fechar os olhos, é que na definição das "descobertas", o principal critério após o Séc. XVI é o de que se excluem propositadamente não apenas os árabes e chineses, mas também os portugueses e espanhóis. As descobertas só eram consideradas válidas para os novos europeus de gema - os vencedores da Guerra dos Trinta Anos.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

dos Comentários (51) Lionis e Malaca

Surge este apontamento na sequência do comentário de Djorge, que refere:
No seguimento da utilização do Rodízio como um qualquer tipo de arma, que até ao momento desconheço, segue mais um documento Português com um Rodízio no meio de uma guarnição de artilharia por detrás de muralhas.
A ficha do mapa é a seguinte:
Material: Mapa; Título: Malaca [Cartográfico]; Ano: 1568
Assuntos: Guerras - Malaca (Malásia) - Obras anteriores a 1800
http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_cartografia/cart531967/cart531967.html

Para identificar o rodízio, temos de olhar a pequena guarnição no centro da imagem (...) Parece-me ter uma bandeira, e 3 rodízios, seria uma peça “especial” de artilharia?

Notas deste mapa:
1. Não conheço outro mapa, que tenha sobrevivido, com uma dedicatória a D. Sebastião, que tenha sido feito durante o seu reinado.
2. A dedicatória refere que o Vice-Rei da India era à época Dom Antão de Noronha
3. É também referido o capitão “heroico” que defendeu o cerco, D. Leonis Pereira, o mesmo a quem foi dedicado o seguinte poema por “Camoens”.
Sobre a referência a Leonis Pereira e o poema de Camões "Depois que Magalhães teve tecida" já o mencionei e falarei noutra altura, pois pode ser uma pista australiana.
Concretamente a Leonis Pereira é dedicado um outro soneto, ou conforme refere Gândavo:
Soneto do mesmo Autor ao senhor Dom Lionis,
acerca da victoria que houve contra el Rey do Achem em Malaca

Vós Ninfas da Gangética espessura,
cantai suavemente em voz sonora,
um grande capitão, que a roxa Aurora
dos filhos defendeu da noite escura.

Ajuntou-se a caterva negra e dura
que na Aurea Chersoneso afouta mora,
para lançar do caro ninho fora
aqueles que mais podem que a ventura.

Mas um forte Leão com pouca gente,
a multidão tão fera como néscia
destruindo castiga, e torna fraca.

Pois ó Ninfas cantai que claramente
mais do que fez Leónidas em Grécia,
o nobre Lionis fez em Malaca.
Mas o ponto principal do comentário era a observação de uma estrutura semelhante a um rodízio, no mapa ilustrativo da tentativa de invasão de Malaca pelo rei de Achem, em 1568.
A desproporção reportada era a seguinte:

  • 200 portugueses chefiados por Lionis Pereira
  • 15 000 homens e 300 navios do rei de Achem (dos quais morreriam 4 mil)


Deixo ainda a transcrição do que está escrito nos blocos seleccionados a azul:
(1) Reinando, el Rey dom Sebastião, primeiro deste nome, e governando o Estado da Índia o vice-rei Dom Antão de Noronha, Sultão Alla Haradim Rey do d'Achem e doutros reinos, veio cercar esta cidade de Malaca. Sendo capitão dela Dom Lionis Pereira, o qual lha defendeu com duzentos portugueses, trazendo o inimigo trezentas velas e quinze mil homens de peleja, em que entravam muitos turcos e arrenegados, e outras gentes de diversas nações e dez mil homens de serviço. E o capitão lhe fez alevantar o cerco, como lhe matar el Rey de Arun, seu filho mais velho, e quatro mil homens, os principais capitães e soldados do seu exército, e lhe tomou algumas peças de artilharia. O ano de 1568.
(2) Dom Lionis Pereira mandou meter esta sua nau no fundo com toda a fazenda por se o inimigo não lograr dela.
Porém, conforme referido por Djorge, surge nesta imagem uma peça que se assemelha ao rodízio de Afonso V. Essa peça está rodeada a amarelo, e depois aumentada com a resolução possível.

De re militari
Numa transcrição da obra De Re Militari, do escritor romano Flávio Vegécio, feita por Heinrich Stayner em 1548, aparece um dispositivo militar bastante curioso, e que também me parece pertinente de juntar à discussão sobre o rodízio. É este aparelho dito "rotating gun platform":
Rodízio de canhões, na obra "De Re Militari" versão 1529

Não se percebe muito bem como um rodízio de canhões poderia ser pensado pelo romano Vegécio, que escrevia no Séc. IV, ou seja, muito antes de haver canhões na Europa.
Seria uma interpretação das suas palavras pelo editor do Séc. XVI... correcta, ou não.
Não sendo propriamente muito semelhante com a figura do rodízio de Afonso V, não deixa de envolver um rodízio para efeitos militares, em que a roda de baixo seria uma Cruz de Cristo!

Todo o livro de Vegécio merece, pelo menos, um postal exclusivo...

Malaca portuguesa
Não deixa de ser curioso que existissem duas Malacas.
Porta de Santiago, em Malaca
Uma antiga Malaca, cidade romana espanhola, hoje conhecida como Málaga, e a Malaca oriental na famosa península "Aurea Chersoneso", também hoje escrita Melaka. Uma controlava a entrada no Estreito de Gibraltar, a outra no Estreito de Malaca, dois locais importantíssimos no comércio naval.
A presença portuguesa acabou por ser perdida para os holandeses e destes para os ingleses.
Resta ainda assim um bairro português "Portuguese Melaka", e o que resta da muralha e edificações portuguesas resume-se a uma Porta de Santiago (a Famosa).

Acerca do navio afundado por Lionis Pereira, para evitar que a carga fosse capturada pelo rei de Achem, e assim pudesse depois servir contra os próprios; acerca desse navio, Djorge aponta uma possível localização do barco afundado:

Latitude: 2° 7'0.78"N
Longitude: 102°19'6.08"E

Além disso, isto mostra claramente que os portugueses tinham material secreto, que viam necessidade urgente de se desfazer.
Era mais importante destruir do que pôr em risco a sua captura.

Em circunstâncias normais, seria de crer que estando o barco perto da costa, poderia tentar-se a sua localização e recuperação dessa carga antiga "muito preciosa". No entanto, talvez pelas razões que nos habituamos a ver, não parecem ter havido iniciativas nesse sentido... ou se houve, não soubemos delas, como soubemos da tentativa de recuperação do Flor de la Mar.

domingo, 25 de agosto de 2019

Mito atlante - de Minos ao Minus.

Já aqui aflorámos a questão de como a Atlântida foi um outro nome para América, ou ainda como Schwennhagen considerava esse mito, falando do domínio ocidental sobre o Mediterrâneo e a Grécia.

Um devastador dilúvio terá ocorrido no final da Idade do Gelo (circa 12 mil anos), que terá mudado os contornos da costa como hoje a conhecemos. 
De certa forma, o assunto encaixa bem nos mitos da civilização minóica, se entendermos que o rei Minos poderia ser ligado ao rio Minus, nome latino, do rio Minho.

1. Antevéspera diluviana
Quando a maioria da costa portuguesa, existente antes do fim da Idade do Gelo, está debaixo de água, a pelo menos 200 (ou até 500) metros de profundidade, numa extensão que pode ir de 100 a 200 Km da linha de costa actual, entender-se-à que todos os eventuais registos de povoações costeiras se terão perdido neste dilúvio do final da Idade do Gelo.

A verde as terras que foram inundadas pelo Oceano aquando do fim da Idade do Gelo.

Um problema essencial seria o de conhecer quem estava no controlo, ou se havia algum controlo na sociedade humana, que se apercebesse dos sinais de futuro - que neste caso apontariam de forma dramática para uma inundação, um dilúvio, inevitável.

As teorias existentes são no mínimo tímidas ao abordar este assunto.
Aceitam um nível superior de entendimento humano no Paleolítico, capaz de produzir verdadeiras obras de arte. Tiveram que aceitar uma estrutura social complexa ao descobrir Gobekli Tepe, uma complexa estrutura religiosa enterrada no meio da Turquia. Até porque foi datada aquando deste evento diluviano, há 12 mil anos. Mas nem sequer tentam estabelecer qualquer história que leve de um ponto ao outro, para não se dizer que omitem deliberadamente este evento diluviano, ainda que o aceitem, provavelmente porque é politicamente incorrecto admitir um verdadeiro dilúvio.

2. Finisterra
Outro ponto importante é a estranha procissão de povos celtas às paragens de Finisterra, em busca de uma parte ocidental aparentemente perdida. O nome não deixando de ser elucidativo para fim da terra, pode esconder os dramáticos eventos diluvianos.

Havia o registo de que os celtas faziam procissão a Lugo, cidade pensada por Octávio Augusto, e que depois, em tempos da Idade Média, retomaram o caminho, deslocando-se a Santiago de Compostela. 
Porquê? O que fazia habitantes de paragens distantes fazer esta procissão migratória?

Como já foi aqui abordado, neste Caminho estava o Minho.
O Minho que banhava Lugo, o rio de que se fez Caminho terminando em Caminha.
O Caminho não era de Santiago, o caminho era o Minho.

Aí se viram as águas subir ao ponto em que a terra contínua que saía do cabo Finisterra, formou uma ilha, ilha ameaçada pela inundação constante, resultante da verdadeira mudança climática.  
A ilha em frente ao Minho que desapareceu com o dilúvio da Idade do Gelo.

3. Minos e Minho 
A civilização cretense terá sido antiga (circa há 5000 anos), mas não tão antiga ao ponto de se colocar na altura deste evento diluviano.
Por isso, podemos enquadrar dois tempos - o tempo antigo, do dilúvio, e o tempo mais recente, da civilização cretense.

Que sentido faz associar todos os mito taurinos, em particular o do Minotauro, a uma ilha onde os touros não eram nativos... e de onde eram nativos esses touros? Não seria da região ibérica, onde na gruta de Altamira foram pintados os seus primeiros registos?

Portanto, uma hipótese natural seria considerar que os primeiros mitos ligados ao Minotauro não apareceram em Creta, mas sim na Europa, na região entre a França e a Ibéria, como é o caso da pintura rupestre do Quinotauro de Chauvet. As quinas, cinco pontas, referiam-se às 3 do tridente de Poseidon e às 2 dos cornos taurinos, e foi remetida a um origem mítica dos Merovíngios.

Ora, o fim da terra, poderá ter sido o fim da enorme ilha em frente ao Minho, que desapareceu ao tempo desse dilúvio pré-histórico. Esse mito foi passando pelos tempos e pode ter sido confundido em épocas diferentes.

Podem os principais mitos associados a Minos, associar-se ao Minho, nesta particularidade?

a) Minos era filho de Zeus e Europa... Europa que tinha sido raptada por Zeus. Uma Europa raptada pelo deus ligado ao tempo atmosférico, e assim à mudança climática em curso. A Europa tinha ficado definida pela invasão das águas, sendo grande parte do terreno raptado pelo avanço do mar.

b) Minos terá pedido a Poseidon, deus do mar, um belo touro que recusou sacrificar. Como castigo, Poseidon convenceu Afrodite a apaixonar a mulher de Minos pelo touro, resultando dessa paixão animalesca, o famoso Minotauro. Pausanias relacionava Pasiphae (mulher de Minos) a Selene, ou seja, à Lua (com o nome Menes - de onde surge o nome "mens" - "meses"). Estão aqui ligadas as 5 pontas, pelo lado de Poseidon as 3 do tridente, e pelo lado dos cornos do touro, as restantes 2.
Acresce que a ligação entre a Lua e os cornos bovinos sempre esteve presente. Era conhecimento antigo, uma ligação entre as marés e a Lua. Uma subida descontrolada do nível do mar poderia ser associado a uma influência pouco natural da Lua.

c) Minos exigia o sacrifício de 7 jovens gregos ao Minotauro, constando que o número 7 correspondia à periodicidade da lua cheia ocorrer em equinócios a cada 8 anos. Isso teria ocorrido até que Ariadne ajudou Teseu a eliminar o Minotauro.

d) Para esse efeito usou o fio de Ariadne, que de forma figurada é entendido como o processo de encontrar uma solução, memorizando e eliminando as tentativas falhadas anteriores.
Ou seja, de forma concreta, sob ameaça de subida das águas, seriam tentadas as mais diversas soluções, eliminando as que não resultavam. Poderiam ter sido tentados sacrifícios humanos, que só foram parados, porque esse processo não acalmava a subida das águas.

e) O Labirinto foi construído por Minos para aí encerrar o Minotauro. Existem moedas cretenses que o apresentam desta forma:
 
... enquanto ao largo da Madeira apareceu a misteriosa e gigantesca estrutura submarina, que não deixa de ser curiosamente parecida. Poderia ter-se construído uma gigantesca muralha para enredar as águas do oceano, e assim pensar que se detinha o seu avanço?

f) Dédalo foi o "engenheiro" chamado por Minos para construir o Labirinto, mas também ficou conhecido na sua primeira tentativa de vôo... Afinal, para além da construção de uma arca, que outras possibilidades se levantariam, acaso o nível das águas não parasse de subir? 

4. Hércules 
De uma ou de outra forma, parece claro que poderia ter existido uma civilização pré-histórica, muito semelhante à civilização minóica, dir-se-ia minhóica, que foi confrontada com o problema do avanço das águas, que terá submergido ilhas significativas ao largo da costa atlântica. Isso poderá ter ficado registado de forma mítica, com maior ou menor deturpação face aos acontecimentos originais.

Hércules também é associado no 7º trabalho à captura do touro, pai do Minotauro. Além disso é considerado que pela sua força extrema teria aberto a passagem no Estreito de Gibraltar, durante milhares de anos entendidos como "Pilares de Hércules". Mais simplesmente do que isso, o avanço das águas tornou efectiva a ligação entre o Atlântico e o Mediterrâneo, e portanto por esse efeito o Estreito foi definido, dividindo a Europa da África. 

5. Creta
A subida de água, o dilúvio prolongado, terá feito temer o fim da humanidade, e um refúgio natural seria o local mais alto que protegesse dessa subida. Como bons candidatos, para além dos Alpes, as montanhas do Taurus seriam mais altas e menos agrestes à civilização existente. Uma certa elite poderá ter feito aí, nas redondezas do Monte Ararat, esse refúgio de um grupo escolhido, enquanto o restante da humanidade teria ficado entregue a si mesmo, perante a fatalidade iminente. 

Poderá isso ter causado uma cisão social insanável, durante milhares de anos... 
Por um lado, uma certa elite, que pode ter feito na Turquia os monumentos em Gobleki Tepe, e que depois os enterrou, de forma propositada. Essa mesma elite teria levado ao definir das primeiras civilizações, no Crescente Fértil, na altura em que o mar recuou, definindo um contorno próximo do actual. Ao contrário da anterior, mais comercial, estas novas sociedades seriam maioritariamente sociedades agrícolas.
Por outro lado, o que restou da sociedade popular, abandonada a si mesmo, foi recuperado na civilização antiga, tendo mesmo levado ao seu reestabelecimento na ilha de Creta.
A memória da civilização antiga, engolida pelo mar, seria lembrado nessas paragens, com os seus monumentos, com a sua lembrança do touro, bem latente em Cnossos. Cnossos já não seria nosso, mas talvez a lembrança do nome tenha ficado naquilo que foi Nosso

Mais tarde, os povos celtas, outra parte dessa sociedade perdida e recuperada, teriam ainda a lembrança de fazer romaria à ponta de Espanha, ao fim da terra, onde outrora ficara a ilha engolida pelo mar. Ao tempo dos romanos foi o Calix Janos, e no tempo medieval foi o Calix Iago, de peregrinação a Santiago.
Ficou esse Caminho do Minho, pelo rio Minho que findava em Caminha.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Livro de Lisuarte de Abreu (2) As Armadas da Índia

Talvez já percebendo o problema nacional de falta de memória, o governador Jorge Cabral (1549) pediu uma ilustração com as Armadas da Índia, ou seja o conjunto de navios que rumava praticamente todos os anos, de Lisboa à Índia.

Segue-se assim no livro de Lisuarte Abreu as belas ilustrações dos navios que seguiram aquele rumo. 
Discute-se a fiabilidade destas informações, pois só nalguns casos batem certo com outros relatos, também muitos deles incertos. Diz-se que esta informação de Lisuarte é desconcertante, como se a restante trouxesse alguma espécie de conserto. Se as Décadas de João de Barros trouxeram um certo concerto, foi também à custa da imagem que usou para o retrato de Filipe da Macedónio, pai de Alexandre Magno (ver aqui)
... tanto louvor se dá àquele Pintor, que tirando a El Rey Filipe pai de Alexandre per natural, tomou-lhe a postura do rostro de maneira, que lhe encobrisse o defeito que tinha, que era um olho a menos. 
Mesmo que os traços de Lisuarte sejam algo desconcertantes, estão longe de mostrar a cegueira da epopeia portuguesa, que ainda assim foi pouco aflorada por Camões, uns anos depois.
__________________
Armadas da Índia

Uma relação das Armadas da Índia, com algum concerto, pode ser encontrada na página


O GOVERNADOR IORGE CAbRALL MAMDOV FAZER MEMORIA DAS ARMADAS QUE PORTVGALL PASARAM A ESTAS PARTES.
(1) ESTA PRIMEIRA COM QVE VASCO DA GAMA COM QVE PARTIO REINO ANO DE 497.
- Paullo da gama (Paulo da Gama) [bandeira da cruz de Cristo]
- Vasquo da gama (Vasco da Gama) [bandeira com escudo real]
- Ho nauio de Neculao Coelho q dsfizerão. (Nicolau Coelho) [perdido]

(2) A SEGUNDA ARMADA DE PDR ALVARES CAbRAL ANO DE 500
- Amdre guonçalvez (André Gonçalves)
- Dioguo Diaz (Diogo Dias)
- Vasquo De Taíde (Vasco de Ataíde) [perdido]
- Nuno Leytão (Nuno Leitão)
- Rui de mjrãoDa (Rui de Miranda) [perdido]
- Luis Piris (Luís Pires) [perdido]
- Sanchou De Touar varou e puserão lho fogo (Sancho de Tovar) [incendiado]

- Niculao Coelho (Nicolau Coelho)
- João F~iz (João Fernandes)
- Pedralvez Cabral (Pedro Álvares Cabral) [bandeira da cruz de Cristo]
- Symão De mjrãoDa (Simão de Miranda)
- Dioguo de Figuejro (Diogo de Figueiredo) [perdido]
- Bertolameu Diaz (Bartolomeu Dias) [perdido]


(3) JOHAM DA NOVA ALCAIDE DE LISBOA - ANO DE 501.
- Joam da nova (João da Nova) [bandeira da cruz de Cristo]
- Duarte pacheguo (Duarte Pacheco)
- Ruj d abreu (Rui de Abreu)
- Miçe Viçente (Mice Vicente)

(4) DOM VASQUO DA GAMA DESCOBRIDOR DA INDIA - ANO DE 502
- Dom vasquo da gama diguo fernão da gama [bandeira da cruz de Cristo]
- françisquo marequos (Francisco Marrecos)
- Vasquo tinoquo (Vasco Tinoco)
- Dioguo f~iz de mello (Diogo Fernandes de Melo)
- Antão Vaz (Antão Vaz)
- fi~co da cunha da ilha (Francisco da Cunha, da ilha)
- Pero de mendonça no parçel de çofalla (Pêro de Mendonça em Sofala) [perdido]
- Joam Serão (João Serrão)
- fernão d atouguia (Fernão de Atouguia)
- pedr afonço d agiar (Pedro Afonso de Aguiar)

- Dyoguo f~iz corea (Diogo Fernandes Correia)
- Diniz Roiz (Dinis Rodrigues)
- alvaro de taide (Álvaro de Ataíde)
- Do Luis coutynho (Dom Luis Coutinho)
- Don vasquo da gama (Dom Vasco da Gama) [bandeira da cruz de Cristo]
- fernão roiz adarças (Fernão Rodrigues Bardaças)
- Gjil matoso (Gil Matoso)



(5) OS ALBOQVERQVE - ANO DE 503
- Viçente d alboquerque
- Afonso d alboquerque [bandeira da cruz de Cristo]
- francisquo d alboquerque [bandeira da cruz de Cristo]
- bertolameu diaz (Bartolomeu Dias)
- Duarte pachequo (Duarte Pacheco)
- Juçarte pachequo (Zuzarte Pacheco)

(6) LOPO SOARES - ANO DE 504
- Antão de lemoos (Antão de Lemos)
- Dioguo tinoquo (Diogo Tinoco)
- fernão Juzarte (Fernão Zuzarte)
- Symão dal caçova (Simão de Alcáçova)
- Lopo Soajres [Lopo Soares, bandeira da cruz de Cristo]
- Antónjo de bryto (António de Brito)
- tristam da sylva (Tristão da Silva)

- Dioguo ferejra (Diogo Ferreira)
- Dioguo Corea (Diogo Correia)
- Simão gedes (Simão Guedes)
- Diguo d abreu da ilha (Diogo de Abreu, da ilha)
- João de mendanha (João de Mendanha)
- Cristovão de tavora (Cristovão de Távora)
- Amdre guato (André Gato)



(7) DOM fRANCIVO DA EM IDA - O PRIMEIRO VISORTY DA INDIA - ANO DE 505
[Dom Francisco de Almeida - o primeiro vice-rei da Índia - ano de 1505]
- Dom alvaro de loronha (Álvaro de Noronha)
- Dom françisquo d almejda [bandeira da cruz de Cristo, Francisco de Almeida]
- Jeronjmo teijJeira (Jerónimo Teixeira)
- Ruj frejre (Rui Freire)
- Guonçalho Sarajva (Gonçalo Saraiva)
- fernão Soajrés (Fernão Soares)
- João da nova (João da Nova)
- Filipe Rodrigues
- Rodriguo da canha (Rodrigo da Cunha)

- Lucas da fonçequa (Lucas da Fonseca)
- João Homem
- pero fereira (Pêro Ferreira)
- Vasquo gomez d abreu (Vasco Gomes de Abreu)
- Loure~so de brito (Lourenço de Brito)
- Bastião de Sousa
- João Serão (João Serrão)
- Lopo Sanchez
- Lopo chanoqua (Lopo Chanoca)
- guõncallo de paiva (Gonçalo de Paiva)
- Antão Vaz

(8) PERO D NAHAIA PRA COFALLA - 505 
[PERO DE ANAIA PARA SOFALA - 1505]
- pero d alnhaya [bandeira da cruz de Cristo, Pêro de Anaia]
- pero bareto (Pêro Barreto)
- João Leite
- francisquo d anhaya (Francisco de Anaia)
- João de quejros (João de Queirós)
- Manoel f~iz (Manuel Fernandes)


(9) ARMADA DE TRISTAM DA CVNHA QVE VINDO PRA A INDIA 
DESCOBRIO ESTAS ILHAS - ANO DE 506
- afomço lopez da costa (Afonso Lopes da Costa)
- antonyo do campo (António do Campo) 
- manoel teles (Manuel Teles)
- Joam gomez d abreu (João Gomes de Abreu)
- afomço d albuquerque (Afonso de Albuquerque)
- amdre dias alcaide (André Dias, alcaide)
- ... sam lazaro [perdida]

- tristao da cun [bandeira da cruz de Cristo, Tristão da Cunha]
- fr de tavora (Francisco de Távora)
- Jo queimab (Job Queimado)
- alvaro teles (Álvaro Teles)
- lyonxl coutinho (Leonel Coutinho)
- Roy pyaxo (Rui Pereira ?)
- Jº Roy~z pasanha (João Rodrigues Pessanha)

(10) ARMADA DE VASCO MEMZ D ABREU PERA SOFALA ANO DE 507
- Vasco Memds d abreu [bandeira da cruz de Cristo, Vasco Mendes de Abreu]
- dyoguo de mxlo (Diogo de Melo)
- martym coelho (Martim Coelho)
- Vº lourenço (Vº Lourenço)
- Lº chanoca (Lº Chanoca)
- ruy gomsalves de valadares (Rui Gonçalves de Valadares)