domingo, 14 de abril de 2019

Tribus centum annorum

A maçonaria comemorou 300 anos em 2017, já que a 24 de Junho de 1717, dia de S. João Baptista, foi formalmente constituída Grande Loja de Londres. A comemoração decorreu no Royal Albert Hall, com alguma pompa e mais exposição pública do que é habitual:
Comemorações dos 300 anos da Maçonaria de Londres em 2017 (vídeo curto, vídeo longo).

Como previsto, as comemorações foram presididas pelo Duque de Kent, grão-mestre e primo da rainha Isabel II, e acima mostra-se foto do espectáculo associado, e do estilo variedades ligeiras, uma coisa entre o popularucho e o rude, que nos é trazida pelo vídeo longo.
Talvez haja comemorações mais dignas aos 303 ou 333 anos, já que há uma certa obsessão pelo número 3, ou mais em concreto, pela tribus. Dei conta destes 300 anos, quando vi que os coletes amarelos tinham saqueado um templo maçónico em Paris. Sem querer falar muito do assunto, a contribuição portuguesa para a maçonaria inglesa será tão grande e quase equivalente à aniquilação do país com a submissão à guarda do poder real inglês, que despontaria nos Séc. XVII e XVIII.

Barrete de Hefesto
Interessa aqui uma compreensão do enquadramento maçónico no contexto mediterrânico.
Por isso continuamos com uma moeda ibérica, de Málaga (Malaka), e que é algo diferente.
- Invoca o deus Hefesto (ou Vulcano) na face, e tem Hélios (ou Sol) no verso:
CoinArchives: IBERIA, Malaka. 2nd century BC. Æ Unit (25mm, 14.19 g, 11h). Bearded head of Hephaistos left, wearing conical cap; tongs to right; all within laurel wreath / Radiate facing head of Helios. ACIP 790. EF, dark green patina with light earthen dusting.
Olho radiante e pirâmide,
no Great Seal da nota de 1 dólar.
São especialmente curiosos os desenhos do verso, ao acompanhar a divindade solar Hélios, de face radiante, no topo do que parecem ser mais duas pirâmides. Ou seja, vendo uma moeda destas, seria difícil não lembrar o verso de outra moeda, o dólar, com a sua icónica nota...


A referência a Hefesto é clara por ter atrás da sua cabeça uma tenaz, um símbolo próprio, bem como por usar um barrete cónico, o pileus, a que estava associado.



Esse barrete cónico foi usado como símbolo da liberdade dos escravos, desde o tempo dos romanos.
Moeda de Brutus - "idos de Março".
Por exemplo, Brutus manda cunhar uma moeda "Idos de Março" (EID:MAR), após assassinar Júlio César, onde coloca justamente esse barrete cónico entre 2 punhais, procurando enfatizar que o motivo do homicídio era restaurar a república e a liberdade dos cidadãos romanos face a um ditador.
Este barrete "pileus" não tinha o formato frígio, conforme se veio a adoptar depois, especialmente no republicanismo do Séc. XIX.

Curiosamente o uso deste tipo de barretes é até remetido à cultura Bell-Beaker, sem que se perceba muito bem o suporte desta hipótese. Numa versão mais curta e mais reduzida ao coruto da cabeça, temos o barrete de velha tradição judaica - o quipá.

Na moeda ibérica não há nenhum nome associado, e assim não podemos ver qual seria a designação local de Hefesto, ou seja, talvez um nome Hé-festa fosse mais apropriado, já que a tradição helénica deixou o deus metalurgico na pouco simpática lembrança de marido traído, pela festa das escapadelas de Afrodite com Ares. Noutras moedas com invocação ao mesmo deus podem aparecer diferentes nomes, talvez invocando apenas a menção enquanto patrono do rei.

Hefesto, estando ligado à produção metalúrgica, teria ficado ainda associado ao avental de couro do ferreiro, e não tanto ao avental de pano do cozinheiro.
Em ambos os casos tratava-se de assar, num caso o aço, noutro caso um assado.
Seria uma alquimia de altas temperaturas, em que era invocado o Sol, ou Hélios.
De transformar chumbo em ouro, à poção da eterna juventude, haviam objectivos icónicos, que variavam entre a figuração de despiste, e alguma experimentação especulativa.

Três pontos fulcrais terão preocupado os detentores do poder efectivo.

  • O primeiro e mais antigo, de que se perdera a talvez a memória, seria a transição para o arco e a flecha, e cavalaria associada. Esse momento marcou um problema de equilíbrio de poder entre o indivíduo isolado e a sociedade. Uma pequena horde de cavaleiros seria capaz de destruir num ápice qualquer aldeia não fortificada.
  • O segundo momento terá sido o uso dos metais, inicialmente do cobre, e logo de seguida do bronze, numa alquimia entre o cobre e o estanho. Este terá sido um momento prolongado, de definição de algumas das antigas civilizações conhecidas. Um período de estabilidade onde a troco da protecção da estrutura social com exército próprio, algumas civilizações floresceram.
  • O terceiro momento foi o colapso da Idade do Bronze, e o advento das civilizações que baseavam o seu poder no ferro temperado, no aço. Os Assírios, com Sargão, terão sido dos primeiros a usar o ferro, mas talvez o momento crucial de transição tivesse sido definido pela Guerra de Tróia. Essa transição entre a Idade do Bronze e a Idade do Ferro, terá sido particularmente brutal e cruel.
Os poderes que perduraram foram aqueles que resistiram e definiram a transição, da Pedra ao Cobre, entre o Bronze e o Ferro. 

Sendo, mais ou menos claro que, aqueles que combatiam não eram os mesmos que produziam o material de guerra, a sociedade só era minimamente funcional quando os mestres profissionais, como os ferreiros ou os pedreiros, eram cooperantes com o poder existente, permitindo que o poder fosse efectivo.

Nenhuma eleição muda o poder existente.
Os eleitos limitam-se a sentar-se nos lugares, nas cadeiras, a eles destinadas, e a fazer como poucas variações os papéis para si previstos. Numa eleição, o povo não dá uma nova estrutura de poder, simplesmente mete novas caras na hierarquia de poder pré-existente. A maior variação que existe é na coexistência de duas máquinas operacionais concorrentes - uma ligada a um partido e uma outra ligada a outro. Mesmo em revoluções, é raro ver uma completa substituição do anterior poder, até porque o novo poder é sempre ignoto em múltiplas matérias. Um caso típico é a manutenção da máquina judicial anterior, quase sem alteração significativa face à nova.
Por isso, as repúblicas passaram a definir um poder próprio inerente e imutável, submerso numa ideia de mudança de cara, que raramente trazia qualquer mudança de política.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Moedas (2) moedas ibéricas

Uma particularidade dos escritos ibéricos é que estão longe de reunir algum consenso sobre o que poderiam dizer, ou até de qual seria o correspondente fonético.

A base dos estudos começa no que está estabelecido como sendo símbolos gregos e fenícios, sendo normalmente assumido que as letras gregas são uma variação das fenícias. Além disso, como já aqui abordámos, as letras gregas iniciais eram 16 ou 18, a que foram adicionadas outras, algo redundantes, após a Guerra de Tróia, segundo é referido por Aristóteles e outros autores antigos.

As letras gregas originais seriam inicialmente

α β γ δ ε ζ ι κ λ μ ν ο π ρ ς τ υ φ    e em maiúsculas   A B Γ Δ Ε Ζ Ι Κ Λ Μ Ν Ο Π Ρ Σ Τ Υ Φ 

e só depois da Guerra de Tróia teriam aparecido as letras  Η (η), Θ (θ), Ξ (ξ), Χ (χ), Ψ (ψ), Ω (ω).
Se isso aconteceu, será de ponderar, de novo, quem teriam sido os vencedores e os vencidos... porque não é propriamente hábito de vencedores mudar o seu alfabeto após uma vitória. Aliás toda a identificação dos gregos aos aqueus, e toda a ridícula geografia de proximidade do conflito, sugere apenas que a história está muito mal contada.

É suposto ainda que as letras gregas derivem do alfabeto fenício, o primeiro alfabeto, o primeiro uso da correspondência fonética na escrita.

Alfabeto fenício e correspondências.

Podemos encontrar as semelhanças, atendendo a que os fenícios escreviam da direita para a esquerda, ou seja, é natural a variação por simetria (ou rotação) de alguns símbolos.

É também daqui que é suposto terem aparecido as diversas escritas ibéricas entre os séculos VII a.C. e II a.C. Podemos ver as diferentes variantes, consoante a região ibérica correspondente (nalguns casos os símbolos correspondem a sílabas e não a letras individuais, o que acontece para G, K, B, D, T, que aparecem em coluna, ligados às vogais, para formar GA, GE, GI, etc., KA, KE, etc....):

 
Esquerda: Alfabeto Greco-ibérico. Direita: Alfabeto no nordeste ibérico.

 
Alfabeto Celtibérico: à esquerda, ocidental; e à direita, oriental.

Alfabeto do sudoeste ibérico (à esquerda), e do sudeste ibérico (à direita).

Apenas coloco esta informação porque para analisar as moedas ibéricas é preciso perceber como estes símbolos são habitualmente traduzidos... e até que ponto é que isso faz sentido.

Uso aqui informação sobre moedas ibéricas leiloadas nos últimos meses (Coin Archives):

BOLSKAN (XΓMAN, XCMAN)
Bolskan (X Γ M A N)

É uma moeda em prata, datada de 150-100 a.C., com um homem de barba, provavelmente o cavaleiro com a lança que aparece no verso.
Junto à cara vemos as letras XN o que talvez fosse indicador de número.
Na coroa, no verso, o nome "Bolskan" é suposto ser a tradução (ver alfabeto celtibero ocidental):

XBO ΛL MS AKA NN

No entanto, mais convictamente leria o escrito como ximan, para não dizer xaman...
Há bastantes moedas com esta inscrição, conforme se pode ver nos leilões.
Nalgumas aparece ainda um golfinho (na cara) em vez de XN, e por vezes uma estrela (no verso).
Existe ainda uma outra versão, em que aparece apenas X na cara e o homem não tem barba; no verso, o cavalo aparece sem cavaleiro. Podemos estar a falar de dois reis, pai e filho, ambos Bolskan, em que um deles seria Bo e o outro Bon. Ou simplesmente seria o mesmo em diferentes idades.

AREKORATA, SEKOBIRIKES, BILBILIS
Uma certa prova de que o nome servia para designar o rei, ou a pessoa representada, é que a mesma moeda aparece com outros nomes e outras caras. Não irei de novo divagar sobre a "tradução" do nome, porque o mais importante será manter um consenso evitando confusões desnecessárias.

Moeda do Séc. III a.C. com a inscrição AREKORATA, aparecendo O atrás da cara. 

Moeda do Séc. II a.C. com a inscrição SEKOBIRIKES, aparecendo U ou uma lua crescente, e M abaixo da cara.
Moeda do Séc. III a.C. com a inscrição BILBILIS, aparecendo M atrás da cara.

Curiosamente em todos os rostos é possível ver um perfil grego clássico, em que o nariz escorre directamente da testa, sem inclinação, e que podemos ainda ver nalguns espanhóis (como em Javier Bardem), mas que é agora mais raro (especialmente na Grécia...)

BELIKIO, EKAULAKOS, TITIAKOS, KONTERBIA
Este tema, do cavaleiro com a lança (no verso), aparece ainda noutras moedas
 
Belikio (esq.), Ekaulakos (dir.)
Titiakos (esq.), Konterbia Karbika (dir.)


TURIASU, SEKAISA, IKALKUSKEN, ILTIRTA, BARSKUNES, KELSE
Na mesma, ou em pequenas variantes (sem lança, com ou sem espada), temos moedas associadas a outros nomes:

 
Turiasu (esq.), Sekaisa (dir.)

Ikalkusken (esq.), Iltirta (dir.)

 
Barskunes (esq.), Kelse (dir.).


No total juntam-se aqui 16 moedas com referências a outros tantos reis ou personagens, e isto sem ser minimamente exaustivo (há muitas outras moedas).
Para além de Melqart, o Hércules fenício, deveremos estar na presença de reis que emitiram moeda, e portanto não se devem tratar de personagens fictícios, falando sim de líderes reconhecidos, que emprestavam credibilidade às moedas que mandavam cunhar.
Estando em diversas colecções, a sua origem é ibérica, principalmente em território espanhol (talvez exclusivamente no caso das apresentadas aqui), e é reportada uma datação que varia entre 300 a.C. e 100 a.C., mas desconhecendo o processo de datação, podemos considerar que podem até ter origem muito, mas muito mais antiga.

Sucessão de reis celtiberos?
Até que ponto é que se pode dizer ou excluir que estes personagens correspondam a uma linhagem de reis celtiberos, ou que de alguma forma dominaram uma parte considerável do território ibérico.
Apesar destas provas numismáticas da sua existência, talvez por falta de registos complementares concordantes, ou apenas por mera inércia ou política, a historiografia tem descartado estes nomes, e a Hispânia pré-romana continua a aparecer como uma massa bruta, parecendo quase surpreendente que montanheses como Argantonio, Viriato, e outros similares, de cujo nome apenas vemos nestas moedas, tivessem capacidade sequer de mandar cunhar moeda.
Podemos estar aqui com referências a alguns reis constantes na Monarquia Lusitana?
No caso de Hércules (ou Melqart), é claro que sim... e se a diferença entre o nome cunhado e o nome constante na Monarquia Lusitana for assim tão grande, então poderíamos considerar isso, ou outra coisa qualquer. No entanto, não vejo base para isso, e não vamos seguir esse caminho fácil.

Interessa notar que, ao contrário do que acontecia com os cavalos em moedas fenícias, onde era normalmente exibido um único em posição estática, aqui os cavalos estão sempre em movimento, em galope, o que é visto noutras moedas gregas, especialmente nas sicilianas. Ou seja, parece claro que a cultura ibérica estava em muito maior proximidade com a cultura grega, do que com a fenícia ou cartaginesa.

Num próximo postal continuaremos com as moedas ibéricas.


Nota [28.07.2019]:
Há uma associação comum de Bolskan a Osca, ou Huesca (a cidade espanhola).

terça-feira, 9 de abril de 2019

Moedas (1) contas que contam contos

O verbo contar decompõe-se nas sílabas "con tar", ou seja "com + estar".
Contava-se com quem? Com quem estava.
Contava-se com o quê? Com o que estava, com o que existia.

Acresce que uma forma primitiva de moeda eram justamente "contas", pequenos discos ou cilindros furados enfiados num fio. Serviram para negócios com os indígenas no período colonial, por exemplo, para tráfico de escravos. O seu aspecto estético era um factor principal para determinar o seu valor de troca, um valor quase nulo para os comerciantes europeus.


A moeda com contas, será mais antiga.
A palavra moeda pode resultar da forma  (a roda com um buraco central), no mesmo tipo de variante em que rocha dá rochedo (ou bruxo dá bruxedo). 

A tradição minhota de exibição de ouro.
Que a exibição de riqueza passou pela exibição de colares, chegando ao ponto do exagero popular, pois isso encontra-se em Portugal na tradição ornamental que passava pela exibição de grandes colares de ouro nas mulheres minhotas.

Convém ponderar que a escolha do ouro como metal de eleição e como carácter distintivo de riqueza, não terá sido propriamente uma escolha masculina. Terá sido resultado de uma preferência feminina, a que os homens procuraram dar agrado. A sua raridade foi fazendo o resto do processo de separação entre o ouro e as suas imitações.

Em Esparta, é relatado que Licurgo, o seu mítico legislador, teria proibido o uso do ouro pelos seus habitantes.
A única moeda aceite era o ferro. Ora, como não havia nenhuma carência de ferro, os mais abastados teriam dificuldade em exibir a sua riqueza, já que a quantidade para tal seria equivalente a ter uma casa cheia de ferro velho. Assim pensou Licurgo numa forma de evitar a ostentação.

Com este postal quero iniciar uma sequência dedicada à história através das moedas, da numismática, disciplina que parece muito vezes negligenciada, mas que é uma das formas mais eficazes de seguir o registo antigo. 

Moedas antigas ibéricas
Começo com uma moeda que aparece em Cadiz, a antiga Gades, com inscrição fenícia, e apresenta o seu herói na versão Hércules, que era designado como Melqart.

A representação de um homem usando como capuz a cabeça de um leão remete logo para o mito de Hércules, que tinha ainda uma versão fenícia e cartaginesa, com o nome Melqart (que parece ser traduzido como o "maior da cidade" - de "mel", bom, e "cart", cidade).

A tradição das almadrabas de atuns em Cadiz pode justificar a presença do peixe na moeda, talvez querendo referir uma equivalência entre a moeda e um atum. Esta moeda está identificada como sendo do Séc. III a.C., enquanto o culto de Melqart, rei lendário da cidade de Tiro, encontra-se em registos que vão até ao Séc. IX a.C. Ou seja, pode bem enquadrar-se num período temporal mítico a que a Monarchia Lusitana fazia referência.
Mesmo que consideremos tudo como mito, não parece oferecer grandes dúvidas que terá havido um grande líder na antiguidade que deixou marcas na bacia mediterrânica, em fenícios e gregos, romanos e cartagineses, e que usava como capuz uma cabeça de leão.
Moeda fenícia em Gades, com as supostas inscrições "HE GADIR" e "BALN".

Noutras moedas, encontramos 2 atuns. Será natural presumir que isso reportasse ao dobro do valor, ou seja, talvez aquela moeda permitisse comprar dois atuns... encontram-se ainda moedas com Melqart e outros animais, como o golfinho ou o elefante. 

Quando vi pela primeira vez estas moedas, e talvez porque a associação a Hércules fosse imediata, o atum pareceu-me uma maça. Seria aliás natural que Hércules tivesse a força necessária para usar um atum como uma maça... mas a representação dos dois peixes, ou outros animais, levou-me a descartar essa possibilidade. 
No entanto, a Hércules associa-se a maça e a maçã
Ora, é ainda curioso que o nome grego para maçã fosse melon (μῆλον), já que isso nos remete justamente para "mel", a primeira sílaba do nome Melqart. Pode ser mera coincidência, ou uma forma grega de lembrar que a origem do personagem remetia a esse prefixo fenício.

domingo, 7 de abril de 2019

Queirós dedicado a Scott...

Em 1904 a Hakluyt Society edita em 2 volumes as viagens de Pedro Fernandes de Queirós:

translated by Sir Clements Markham, president of the Hakluyt Society.

O único ponto curioso desta tradução é a sua dedicatória a Robert Falcon Scott.
Scott foi quem liderou a expedição inglesa ao Pólo Sul entre 1901 e 1904, e acabou por morrer em 29 de Março de 1912, meses depois de constatar que Amundsen tinha chegado ao Pólo Sul antes de si, na frustrada tentativa de regresso, onde o grupo de ingleses pereceu gelado.
É uma aventura trágica em que a fama de Scott suplantou pela morte a fama vitoriosa de Amundsen.
A expedição de Scott perante a bandeira norueguesa no Pólo Sul em Janeiro de 1912.

Terra Nova, o navio que levou a expedição de Scott.
Curiosamente, a expedição de Scott era chamada Terra Nova Expedition, porque o navio que os transportou chamava-se Terra Nova

Era um baleeiro que operava justamente nas águas do Labrador, e que depois foi requisitado e comprado para o serviço inglês nas expedições austrais. 

A dedicatória de Markham a Scott escreveu-se assim:

I dedicate this translation of the voyages of Pedro Fernandez de Quiros to you, because the efforts and aspirations of the first navigator who ever conceived the idea of discovering the Antarctic continent cannot fail to have an interest for you who have actually made such great discoveries in the Far South; as tribut also of admiration for your great qualities as a leader, and of affectionate regard for yourself.

Esta dedicatória foi escrita em 1904, alguns anos antes de Scott partir para a decisiva e trágica expedição ao Pólo Sul, onde perdeu a vida. Nesta altura, pelo valor das primeiras expedições, já Scott tinha aquirido uma fama ímpar em Inglaterra, e talvez essa fama gloriosa o tenha empurrado mais facilmente para o desastre de não a querer perder.

O curioso deste apontamento é remeter a Queirós a primeira ideia de descoberta do continente Antárctico, algo que nem sequer passa pela cabeça dos historiadores nacionais, nos dias que correm. No máximo, nalguns casos, questiona-se se Queirós teria encontrado a Austrália, mas não se vai ao ponto de o ligar à Antárctida, o que é compreensível, se atendermos a que os seus registos não apresentam latitudes que cheguem sequer aos 30ºS.

O mapa incluso no Volume 2 resume o relato das viagens "oficiais":
Reconstrução das viagens de Mendaña, Queirós e Torres (conforme mapa de 1904).

Há primeiro uma viagem em que Queirós é o piloto de Mendaña, e depois a viagem em que Queirós segue com Torres (Luís Vaz de Torres). 
Ao contrário da sua intenção de seguir para sul, Queirós regressa pelo Pacífico norte, e Torres vai passar entre a Austrália e a Nova Guiné, no agora chamado "Estreito de Torres".

Depois, seguem-se todos os problemas e miséria que Queirós irá experimentar no seu regresso a Espanha, e na forte censura que foi feita à sua aventura em paragens austrais.
A terra Austrialia do Espírito Santo, a cidade de Nova Jerusalém, etc... tudo isso acabou só por fazer sentido no nome Austrália que substituiu Nova Holanda, ou numa tentativa de remeter uma pátria judaica para a Tasmânia.

Só depois, com Bartolomeu de Gusmão, ou melhor com Alexandre de Gusmão (ver "Gás na Passarola"), vemos a mesma ideia de exploração do continente antárctico... mas agora, mais audaz, com uma "simples" viagem de balão!

domingo, 31 de março de 2019

Ventos Rugidores a 40º Sul

De entre os ventos que ajudavam a navagação, mas que ao mesmo tempo podiam ser assombrosos, ganharam fama os ventos que sopravam de oeste para leste, a 40º ou 50º de latitude sul.

Quarenta Rugientes, ou Rugidores Quarenta, é uma tradução do inglês Roaring Forties
Esta expressão inclui os ventos que começam a 40ºS, mas pode incluir latitudes mais próximas do pólo sul, mas nesse caso fala-se ainda de "furiosos cinquenta" ou "gritantes sessenta" (furious fifties, screaming sixties)

Os principais ventos na Terra, com foco na variação das monções em Janeiro e Julho, 
e nos constantes roaring forties.     (após mapa em J. Malhão Pereira, Ac. Ciências, 2017)


No século XIX, após o desencobrimento da Austrália, a rota usada pela nau S. Paulo (e que depois foi chamada rota de Brouwer) foi-se tornando popular, especialmente usada pelos navios clippers, que faziam o transporte do chá, ou de lã australiana, pela rota oriental, até começarem a perder utilidade com a abertura do Canal do Suez.

Cutty Sark, o último navio clipper, no seu ano de construção: 1869.

Entre esses navios clippers, um deles tornou-se razoavelmente famoso - o Cutty Sark, que passou até por ser propriedade portuguesa. Vendido em 1895 à firma Ferreira, manteve-se em operação até que em 1922 era o último navio clipper do mundo. Ainda se chamou Maria do Amparo, e enquanto último sobrevivente dos clippers, regressou a Inglaterra, acabando por regressar ao nome original, e dar assim inspiração à famosa marca de whisky.

Um dos casos típicos de tormenta, era a passagem do Cabo Horn, ilustrada aqui nestas impressionantes fotos, com mais de um século.
 
Esq: Foto de Idriess, no cabo Horn. Dir: O navio Garthsnaid numa tempestade nos mares do sul (c.1920).

Mas a questão que se pode levantar é muito simples.
Estes ventos definiam autênticas autoestradas marítimas.
Por isso, a mais provável primeira viagem de circumnavegação do globo, é muito mais natural que tenha ocorrido, pela rota da nau São Paulo, cruzando a Austrália, e depois caindo no Cabo Horn, pelo lado oposto. 
Esta terá sido uma rota frequente ao tempo de D. João II, só muito depois se terá pensado na que Magalhães seguiu...

quinta-feira, 21 de março de 2019

dos Comentários (48) coches coxos de argumentos

Sendo um assunto de cocheiras, e como o meu avô tinha uma, sei bem do ambiente infestado de bostas, moscas e varejeiras, que felizmente o meu pai soube cimentar e converter em garagem.

Este postal resultou inicialmente dos comentários de João Ribeiro em "Coxos de Coches", que levou a um texto que deixo no final (para que se possam fazer as devidas comparações). Esse texto levou a novos comentários aqui, de João Ribeiro e David Jorge, que permitem dar uma nova luz à questão, corrigindo-a de informações prestadas pelo Museu Nacional dos Coches.

Perante a pergunta pertinente de João Ribeiro, cito a resposta relevante do Museu:
Referenciando igualmente as justas notas do tradutor de uma das últimas reedições desta mesma obra do príncipe polaco Felix Lichnowsky, Portugal: Recordações do anno de 1842, desta vez editada em Maio de 2005 pela editora Frenesi, Daniel Augusto da Silva (o tradutor) justifica bem esta questão no trecho da página 282 que lhe envio, em foto anexa.
Reiterando esta ideia, o veiculo hipomóvel mais antigo da coleção do MNCoche é de facto o Coche de Filipe II.
O que diz essa nota (nº15) na página 282 é o seguinte:
15 É visível que nesta descrição que se faz dos coches da casa real houve uma crisma singularmente anacrónica: o Autor aceitou, decerto sem o mínimo reparo, a informação ignorante de algum empregado ínfimo nas cocheiras do paço. A invenção e uso das carruagens não é de muito antiga data na Europa. A primeira viatura desta espécie, que talvez apareceu em Paris, foi o carro que em 1457 ofereceu à rainha de França o embaixador de Ladislau V, rei de Boémia e Hungria - país que parece ter sido o berço daquela descoberta sumptuária. Até à época da invasão espanhola, os nossos monarcas não usavam coches, mas sim espécies de liteiras, que se denominavam andas. D. Filipe II foi o primeiro que os trouxe a Portugal, e desde então ficou o uso deles estabelecida na nossa corte.
Acontece que o assunto está cheio de pequenas armadilhas burocráticas, próprias de quem quer embaralhar a questão, se alguma vez fosse levantada em público.

Entendendo que a informação do Museu era correcta, fiz o postal assumindo que teria havido um tradutor de 2005, e que se chamaria Daniel Augusto da Silva
Porém, conforme observou David Jorge, tratava-se do matemático português do Séc. XIX, cujo irmão foi ministro do governo entre 1857 e 1877. A sua facilidade com a língua alemã, seria devida à necessidade de se manter actualizado com os trabalhos alemães.

Só que há aqui um detalhe... as notas não foram colocadas por si, mas foram sim colocadas noutra edição da obra, já muito posterior, por Castelo Branco Chaves. Assim sendo, a versão anterior do postal seria profundamente injusta para o nome de Daniel Augusto da Silva, que terá sido o tradutor apenas do texto publicado em 1844. 
A obra com notas pessoais de Castelo Branco Chaves foi doada pelo filho em 2005, e daí talvez se justifique o ano da reimpressão pela Editora Frenesi.

Fui encontrar no OLX, à venda, o exemplar com o prefácio e notas deste autor, editado pela Ática em 1946:
Príncipe Felix Lichnowsky. Portugal: Recordações do Ano de 1842
Prefácio e Notas por Castelo Branco Chaves. Edições Ática.

De facto, o único cuidado que haveria a ter, devido à má informação do Museu, seria mudar o nome de Sr. Silva para Sr. Chaves... que decidiu colocar chaves no assunto, enublando o texto com notas suas, sem qualquer justificação objectiva.

Mantêm-se pois as observações feitas, agora actualizadas.

(i) Antes das notas do Sr. Chaves, houve a tradução de Daniel Augusto Silva:


(Traduzido do allemão)
Imprensa Nacional 1844

O propósito de juntar notas parece claro, já que tinham desaparecido os tais coches antigos de D. Afonso Henriques, D. Dinis, e D. Manuel.

(ii) Nessa edição de 1844 da Imprensa Nacional o tradutor não quis pôr o nome (sabemos agora ser Daniel Augusto Silva), mas não deixou de começar com uma "Advertência do Traductor". Deixo essas três páginas, onde o tradutor da Imprensa Nacional, para além de elogiar a obra e o autor, só acha de maior significado eventuais incorrecções sobre: a estátua de D. José, o teatro S. Carlos, e sobre o desenvolvimento dos estudos científicos na Universidade de Coimbra.


 


Portugal: Recordações do anno de 1842.  A advertência do tradutor em 1844. (clicar p/aumentar)

(iii) Quebrando o propósito de não comentar a obra, aparecem aqui e ali, notas de rodapé informativas nessa edição da Imprensa Nacional em 1844. Curiosamente, e justamente na página 84, onde se falam dos tais coches, aparece uma nota de rodapé (a) sobre o "príncipe do Brasil":

(iv) Portanto, vejamos... o tradutor (D. A. Silva) preocupa-se em instruir o leitor mais inculto, avisando-o de que antes o herdeiro da coroa era príncipe do Brasil, mas deixa passar a questão da descrição dos coches, comendo por boa a "ignorância" de um ínfimo empregado da cocheira... aqui citando literalmente a opinião avulsa do Sr. Chaves, não sei se contaminada ou não pela sua causa monárquica.

(v) Parece pois que o Museu dos Coches tomará por boa a informação de que as notas são do tradutor original, porque a Editora Frenesi em 2005 terá escrito "conforme edição portuguesa de 1845" (deveria ser 1844). Nem sequer reparando que algumas notas referem anos posteriores (por exemplo, a nota nº44, página 275, cita uma obra de 1938).
Quanto ao Sr. Chaves, parece desconhecer, ou descartar como "ignorante", o tradutor da Imprensa Nacional (D. A. Silva). Seria o tradutor da Imprensa Nacional, o tal cocheiro ignorante que acompanhou o príncipe Lichnowsky?

(vi) Porque se não era, alinhou com ele na mesma ignorância, e além disso fez passar por ignorantes todos os seus colegas, amigos, conhecidos e leitores da Imprensa Nacional em 1844, e anos seguintes, que não tiveram acesso às preciosas informações que tinha o Sr. Chaves em 1946. A saber... nada. Nada, porque o argumento do Sr. Chaves é o mesmo do que não dizer coisa nenhuma. Acresce que sendo o tradutor Daniel Augusto da Silva, foi irmão de um ministro do governo, e portanto não lhe deveriam faltar amigos bem informados sobre o assunto em causa.

(vii) Como prova adicional da ignorância passada, só esclarecida pela luz que nos traz o Sr. Chaves, cito o trecho do cronista-mor António Brandão:
O Arcebispo D. Rodrigo não afirma tal coisa, antes dá por razão de El Rey D. Afonso Henriques andar de coche, não poder subir a cavalo, pelo mau tratamento da perna.

Tal e qual um cocheiro ignorante, também o nosso cronista-mor alinhava na ideia absurda de que D. Afonso Henriques andava de coche, não sabendo certamente, como só saberão eruditos como o Sr. Chaves, que os coches foram inventados lá pela Hungria no Séc. XV, e que quando António Brandão nasceu "nem sequer haveriam coches em Portugal".
Pior, remetendo António Brandão a afirmação a um "autor antigo" (o Arcebispo D. Rodrigo), terá transcrito mal o termo "coche", pois segundo o Sr. Chaves, o termo usado antes seriam "andas".

(viii) A este propósito junto ainda a informação trazida por João Ribeiro, que cita a "Crónica de 1419", que também corrobora a existência de coche ou carro de D. Afonso Henriques:
"Entom se tornou el-rey de Portugal a seu reyno e foy bem sam da perna e nunqua despois quis cavalgar em besta por não aver azo nem rezom de tornar à menagem que avia feyta, mes andou sempre em caro, como soyom andar os reys amtiguamente, e algumas vezes em andas e em colos d.omens."
(ix) Ainda João Ribeiro, fez o favor de indicar o programa de J. Hermano Saraiva (A Alma e a Gente III, nº31):



Este coche mais antigo que José Hermano Saraiva apresenta, e que passa por ser de Filipe III de Espanha, diz ele poder ter sido de D. Sebastião (afirmando haver documentação de dois coches seus, um dos quais perdido em Alcácer Quibir).
Acrescenta haver perto de 80 coches guardados em Vila Viçosa.

(x) Esta história não ficaria completa sem o lado romano (ver Romae Vitam).
Haveria diversos tipos de carruagens na época romana, sendo alguns destinados ao transporte dos mais abastados, que eram chamados "carpentum" (ou carrucas).
Um carpentum - coche no império romano. Reconstrução no Museu de Colónia.

Porque razão se terá perdido a tradição romana de transporte? Pois, isso é uma questão mais complicada, que já foi aqui tratada, e resume-se numa expressão - "a reinvenção da roda". 
Curiosamente esta expressão parece ser recente, com menos de 50 anos, mas é muito ajustada ao reaparecimento dos coches no Séc. XVI.

(xi) Há um detalhe importante que José Hermano Saraiva refere, relativamente ao coche mais antigo... é que a sua suspensão não parece ser a dos supostos coches húngaros.
O habitáculo estava suspenso por fortes correias de cabedal, o que justificaria melhor o uso do termo "suspensão". 

Conclusão: 
Devo uma visita ao Museu dos Coches (incluindo Vila Viçosa). 
Poderemos pensar que os coches anteriores ao Séc. XVII se encontram escondidos, nalguma colecção privada, nalguma cave do Vinho do Porto, numa cave em Vila Viçosa, fora do país, etc...

Mas também não descarto uma outra possibilidade... que seria a de que o coche mais antigo do museu fosse mais antigo, ou mesmo o coche de D. Afonso Henriques. A descrição do Príncipe Lichnowsky não me parece suficiente para afastar essa hipótese, ainda que os vidros não pareçam conjugar a descrição. Se as coisas fossem fáceis, perceber-se-ia pelos brazões a que data reportam (mas esses brazões podem ter sido pintados por cima). Se se quisesse fazer algum estudo mais profundo, haveria forma de datar a madeira, etc, e faltará muita vontade de o fazer.

Terá havido a necessidade de fazer acreditar que não haviam coches antes do Séc. XVI, mesmo que haja descrições de António Brandão e da Crónica de 1419. Essa necessidade só parece ter acontecido no Séc. XX, já que antes disso, em 1844, não houve problemas em publicar a tradução sem nenhum reparo. Portanto, essa censura terá sido decidida já no Séc. XX, ou poucos anos antes.

23 de Março de 2019

terça-feira, 5 de março de 2019

dos Comentários (47) Monte Urbano

Urbano Monte é o nome de um cartógrafo italiano que deixou um atlas razoavelmente completo e intrigante. O assunto foi trazido há duas semanas, em emails de David Jorge, de que procuro fazer aqui um pequeno resumo.

Curiosamente, o assunto acaba por cair também em D. Sebastião, já que o cartógrafo italiano inclui dois mapas com a sua cara, em forma de continuação:


O que se pode ler abaixo da imagem de D. Sebastião é quase o mesmo, de uma página para a outra, mas há ligeiras diferenças entre os dois.

Podemos ler desta forma:
Il Re di Portogallo
seguita ancor nell'oceano Immenso
la fama di costui drizando il volo
et mentre a lui per honoranza il censo
pagaro i Dei del marinesco stolo
D'armati legni un longo bosco e denso
per lui molt'ani corse il salso suolo
che sia in cielo grato a Giesu Cristo
Dove vivendo procuro l'aquisto
... estrofes que se poderão ler mais ou menos assim:
O rei de portugal.
Seguida ainda no imenso Oceano, a fama dele encaminha o voo;
e quanto a ele honra o senso pagão dos deuses do marinheiro solitário.
Armadas de grande lenho e denso bosque, por ele tantos correram o solo salgado,
que esteja no céu grato a Jesus Cristo. Onde vivendo adquiriu o adquirido.
Duas imagens do autor
A situação é tanto mais estranha porque o atlas acaba por incluir uma adição com um diferente auto-retrato do autor Urbano Monte. 
- Primeiro com 43 anos, lê-se no original URBANO:TERTIO:DA:MONTE:AN: 43.
- Depois com 45 anos, é cosido o retrato circular, dizendo URBANO MONTE D'ANNI XXXXV

Um retrato 2 anos mais recente de Urbano Monte é colado sobre o anterior

A razão pela qual isto acontece é estranha e dificilmente explicável.
Não é comum esta actualização do auto-retrato com inserção de nova imagem.

Aliás, todo o mapa é suficientemente estranho, para merecer diversos comentários. 
Só agora foi recompilado, pela biblioteca David Rumsey (Stanford University), de forma a satisfazer um contorno polar, conforme pareceria ter sido originalmente pensado.
Aspecto geral do atlas de Urbano Monte, agora compilado assim pela biblioteca David Rumsey, 
e assinalamos a amarelo a posição onde ficaria a figura de D. Sebastião.

A referência mais antiga que encontrei deste atlas é de 1810, num Magasin Encyclopedique (por A.L. Millin), dizendo que Carlo Amoretti (membro do Instituto Nacional e do Conselho de Minas do Reino de Itália, bibliotecário da Ambrosiana de Milão)
a trouvé dans la même bibliothéque un grand Traité de Géographie, manuscrit autographe d'URBANO MONTI, écrit entre 1590 et 1598, où l'on voit dessiné le détroit qui porte à la mer Glaciale
Nota "en passant" - Ferrer Maldonado; João Martins
Convirá aqui salientar que o mesmo texto de Amoretti refere que os espanhóis teriam enviado o capitão Lorenzo (Laurent, Lourenço) Ferrer Maldonado numa viagem pela passagem Noroeste.
É suficientemente estranho que esta descoberta fez sensação à época, e Amoretti mandou publicar o livro do capitão espanhol (que está à venda... por quase 10 mil dólares).
Entretanto, o tempo passou... Amoretti terá morrido, e todo o documento de viagem de Ferrer Maldonado foi desacreditado nos anos seguintes, como sendo falso ou fantasioso.
Interessa que este nome nem sequer consta da wikipedia, e dificilmente aparece mencionado pelos próprios espanhóis.

Curiosamente é ainda feita referência a uma carta náutica de João Martins ("Juan Martines", Portugais) que teria sido seguida por Ferrer Maldonado na "parte complicada".
De João Martins é dito haver um portulano na Academia Imperial de Turim. Ora, desse João Martins, em Portugal, não se parece saber quase nada... mas constam 18 atlas, e 140 cartas, atribuídos a si.

Urbano Monte -vs- Sebastião
Acerca do atlas de Urbano Monte, Djorge vai citar a Maria da Fonte que já tinha antes mencionado este mapa (no facebook), na perspectiva de que o que veríamos seria o retrato do próprio D. Sebastião e não haveria nenhum Urbano Monte!

Esta perspectiva poderá parecer ousada e bizarra, para os leitores mais convencionais.
No entanto, segue a linha de que o próprio D. João II poderia não ter morrido em Alvor.
Há comandantes e comandados.
As idílicas paisagens paradisíacas de que as navegações traziam notícia, estavam ao alcance real?
Houve conhecimento de algum rei que se fez ao mar, e seguiu os seus pilotos, em viagens que já eram corriqueiras, e que raramente traziam grandes desastres?
Haveria maior risco em enfiar-se numa batalha no meio de mouros em África, ou em enfiar-se numa nau, visitando o Brasil, que só foi conhecido "realmente" na fuga napoleónica de D. João VI?

À partida, não vejo nenhum obstáculo lógico a que um rei decidisse findar os seus dias fora de uma corte europeia decadente e burocratizada, e partisse numa outra aventura além-mar, para ver com os seus olhos, terras, ilhas e mares, que não passariam de desenhos em mapas, doutra forma. E, se nisso tivesse projecto de desenvolver nova sociedade, para além da sociedade europeia, juntando a si os seus mais próximos... pois que outra forma subtil de se fazer desaparecer que numa batalha, no meio do nevoeiro das intrigas?

Comentários/questões
Djorge, a propósito do mapa deixa ainda as observações:

  • 1º) Julgo ser a primeira vez que vejo um autor assinar um mapa com dois auto-retratos seus.
  • 2º) Os dois auto-retratos "aparentemente" separam-se em 2 anos, no entanto não aparentam ser a mesma pessoa nos 2.
  • 3º) Se a data do atlas/mapamundi for a que aparece na discrição pelo arquivista da biblioteca, 1587, e tendo em conta que o wikipedia dá como data de nascimento 1544, significa que nem o primeiro o primeiro nem o segundo selo corresponderiam à correta idade do autor.
  • 4º) Sendo que D. Sebastião é dado como tendo nascido em 1554, a soma das duas idades das figuras daria uma datação para o mapa de 1599, ou 1596 dependendo da figura do selo.
  • 5º) Não vi ligação nenhuma no soneto, embora não me soe estranho, podendo ser algum excerto dos Lusiadas, não sei se era isso a que se referia "Maria da Fonte".
  • 6º) O texto por baixo da figura do rei de Portugal, parece-me referir a lenda do regresso de D. Sebastião, o que é estranho é que em 1586, 1596 ou em 1599 já seria Filipe I a reinar em Portugal e Algarves.
  • 7º) Estranho é que neste atlas o Rei de Espanha e das "Indias" não é o Rei de Portugal.


Ora, a este propósito mostramos a ilustração reservada ao Rei de Espanha, "Philipo:Max"

Do lado esquerdo segurando no globo e de joelhos, está o rei do Peru e diz-se:

  • qui parla Atabalipa Re del Peru designato como nela tavola seguente
  • Quando sugetto a me, quel novo mondo, et al Demonio ancor, era infelice, hora que é tuo, fia molto giocondo

... ou seja, o chefe inca diz com sarcasmo a Filipe II, que a América sujeita a ele, e ao demónio, era uma terra infeliz, mas que sujeita a Filipe II passava a ser muito agradável/feliz.
Por outro lado, no mar há uma sereia que acrescenta:

  • Eccoti o Re magnanimo, e soprano, che come merti, il marinesca stofo Del mar l'Imperio con questa a te dano.

Portanto, se Urbano Monte envelheceu muito naqueles 2 anos, percebe-se que a sua ironia poderá ter tido consequências... e também parece natural que o atlas estivesse escondido durante mais de 200 anos.

domingo, 3 de março de 2019

dos Comentários (46) cometa e larachas

No final de 1577, início de 1578, apareceu um grande cometa nos céus, e podemos ler os maus augúrios que tal avistamento causou, nas "Memórias do Reinado de D. Sebastião" de Diogo Barbosa de Machado (1751):




Com efeito, pouco depois, em 1578, morrem D. João de Áustria, meio-irmão de Filipe II e D. Sebastião, seu sobrinho. As duas mais jovens promessas da cristandade na luta contra os turcos, parecem assim ser levadas pelo cometa. Assim o cometa parece ter levado o cometimento bélico medieval dos D. Quixotes substituindo-o pelo pragmatismo do poder oportunista, que teriam os novos Panças.

Mas no meio da história ficcionada que se fabricou, na mitologia sebastianista do desejado e do encoberto, fica ainda uma possível encarnação messiânica de D. Sebastião, que ao interpretar uma promessa divina judaica, recebeu um ódio visceral - que os judeus de Marrocos nutrem ainda por D. Sebastião.


Em comentário por email chegou-me indicação de um vídeo (de 2016) sobre a problemática sebastianista, aqui protagonizado por Manuel Gandra.
CLEPUL-FLUL (2016) - Manuel Gandra: documentos 
sebastianistas nos arquivos do Ducado de Medina-Sidónia

Conforme podemos ver, Gandra afirma da existência de documentação relevante, de que terá publicado fac-similes, em Espanha, obtidos por via da falecida duquesa de Medina-Sidónia.

Em breve... do que se pode entender, a tese de Gandra será que D. Sebastião teria ficado prisioneiro em Marrocos, mas não pretendeu regressar a Portugal...
Mais, Manuel Gandra avança para uma derrota propositada em Alcácer-Quibir, no sentido de poder dar cumprimento a uma versão profética de Pseudo-Metódio, que visaria depois um reaparecimento em força. Diz ainda que D. Sebastião seria um preso solitário, vivendo abastadamente com uma corte em Marrocos... e esqueçamos a contradição de termos. Teria um plano de regressar (talvez na manhã de nevoeiro), reunindo grande exército para finalmente derrotar o Islão, dando início a um Quinto Império, conforme a profecia. Nesse sentido teria desembarcado em Inglaterra, e depois acabaria por ir parar e morrer em Limoges, sem concretizar o regresso. Acrescenta, en passant, que haveria correspondência de D. Sebastião a Marco Túlio Catizone, seu sósia, a que se acrescenta o executado "prisioneiro de Veneza".

Quanto aos documentos que Gandra menciona colocamos aqui três, que nos foram gentilmente cedidos da cópia do livro de Gandra, e deles fazemos uma breve transcrição:

---------------------------------- (1) --------------------------------


El Rey

Duque primo, el corregidor de Cadiz me ha embiado la Carta que seza con esta que es de un Captivo que esta en Alarache, la qual me ha parecido que seos embies pª que la veais  y procureis entender è informarvos particularmente de la sustancia que el rey puede tener y avisarme de lo que seos ofreciexe acerca de ello, procurando que sea todo com el recato y secreto que el negocio requiere y saveis que combiene de Madrid. à 11 de Henero de 1587 años...






------------------------------- (2) -----------------------------------

El Rey




Duque primo: He visto un carta de xiiii del presente y la de Diego Marin. de xxx del passado y dos del Xariffe para el y el Alcayde de Alcaçar en Arabico que (haviendo se traduzido aqui) contienen lo que vereis por la copia dellas, que con esta se os embia. Y cierto se a sus palabras de haviera de dar credito, por las que en ellas escrive paresce querer de veras, que con los captivos de Fez se haga la entrega de Alarache pues no se hizo con los que Marin tenia, y embio en los tres navios que alli se hallavan, mas yo lo dubdo agora tanto como antes si ya por ventura la necessidad no le fuerça a hazer virtude maiormente si ha sabido el apparato de galeras y gente que Alarache quedava haziendo en Constantinopla por orden del Turco a xx de Abril para la empreza del Reyno de Fez...





--------------------------------- (3) ---------------------------------


El Rey
Adelantado de Castilla parente, .. Capitan general de las galeras de España, teniendo entendido lo mucho que importa al serviço de Dios y mio y por conseguinte al beneficio de nos Reynos y subditos, tenez en Affrica el puerto pueblo y fuerte de Alaracha, embres in havia cinco años e medio poco mas o menos a Pº Venegas de Cordova y en fu companhia à Diego Marin (come platico de la tierra gente y lengua Arabiga) para que continuando la platica, començada com Mulei Moluco, hermano del Rey Xariffe que o y es se pidiesse de mi parte la dicha plaça, offresciendole partidos y conditiones que pareceo que podiram mover a darmela, y despues de haver passado muchos dias y muchos dares e tomares, ..lamente se contento devera e nello comando en recompensa La Villa e fuerça de Mazagan que por estar mas cerca de sus tierras julgo te feria mas a proposito (...) 

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Larachas nas cartas
A primeira coisa que podemos ver na interpretação de Gandra das cartas, é que se força uma identificação da praça de Larache com um possível preso em Larache. Nada parece sugerir isso, aliás o que parece é haver uma tentativa de troca da posse das praças de Mazagão e Larache.
Parece haver menção a um cativo português em Larache, mas poderia tão somente ser um sósia, já que era hábito os reis fazerem acompanhar-se de personagens semelhantes, para efeitos de despiste, conforme pudemos ver nas tapeçarias de Pastrana.
Toda a teoria de Gandra parece ser assim um retorcer da leitura das cartas, no sentido de conformar à hipótese de um rei que teria ficado cativo em Marrocos, ao ponto de confundir o nome da vila africana com o próprio nome do preso.

Cometimento do cometa
O único ponto com alguma novidade nesta interpretação seria o de conformar a decisão de D. Sebastião em insistir na batalha - mesmo com "maus augúrios" de cometas, a uma leitura retorcida do apocalipse de Pseudo-Metódio.
A ideia de que D. Sebastião teria forçado a expedição, e especialmente que teria feito propositadamente para que a expedição corresse mal, para assim se ajustar à profética, parece-me rocambolesca e desajustada. Ficar como "encoberto" na sombra de um renascimento do nevoeiro, até obter um exército suficiente para desafiar o turco, parece impensável, mais típico de um egocentrismo deslumbrado destes dias, do que ajustável ao voluntarismo de D. Sebastião.
Ninguém veria o rei aguardando em Marrocos por melhores dias, enquanto Portugal passava para as mãos do seu tio, e se perdia nas lutas de sucessão de D. António, com o apoio inglês.

Um desaparecimento que equivale à morte
Qualquer ideia de que D. Sebastião poderia ter sobrevivido à batalha, ficando como prisioneiro de um destino onde não o reconheciam como rei de Portugal, seria equivalente à sua efectiva morte. Não interessa muito especular a partir daí, porque o rei só era entendido como rei, se tivesse nessa pretensão o apoio inequívoco de quem estava próximo de si. Quando o perdeu, fosse por efectiva morte, desaparecimento, ou armadilha interna, remetível a um golpe de estado, ou complot entre Filipe II e a casa de Bragança... pois tudo isso seria equivalente, e apenas diferente no grau de maquievelismo exercido. Não havia nenhuma prova de realeza absoluta, acima das condicionantes humanas. O valor da realeza era o berço, e longe do berço, D. Sebastião acabaria por ter o destino de um mero sósia real.

Conforme consta ter dito D. Sebastião a propósito do cometa de 1577-78:
"o cometa diz que acometa"
... e com esta laracha acometeu a Larache.