segunda-feira, 28 de julho de 2014

Cem anos

As razões para a 1ª Grande Guerra são normalmente ligadas ao assassinato do herdeiro do trono Austro-Húngaro, Franz Ferdinand(*) por um nacionalista sérvio, mas a guerra que se iria travar entre a Sérvia e a Áustria, em 28 de Julho de 1914, dificilmente teria consequências globais apenas por isso. 
Uns dias depois a Rússia, aliada Sérvia, declara guerra, a que responde a Alemanha, e em menos de uma semana, estão envolvidas a França e a Inglaterra, por alianças declaradas.

Encontrar uma causa ou dizer que se trata de uma soma de vários factores, é só parcialmente informativo.

A ideia de uma causa estruturada, e que basicamente se resume à disputa de hegemonia entre Alemanha e Inglaterra, é mal vista, e até nalguns casos, alargando-se o seu âmbito, passa por "teoria da conspiração". Prefere-se assim algo mais politicamente correcto - distribuir culpas por diversas causas, respeitando as razões dos vencedores fora de um plano hegemónico global de longa data e extensão até ao presente. 
No entanto, convém lembrar o nexo estabelecido por Engdahl em "A Century of War", que neste ponto aponta para o abastecimento petrolífero alemão, pela via férrea Berlim-Istambul-Bagdade.
A via começou a ser construída em 1903, e em 1904 a França e a Inglaterra estabeleciam a Cordiale Entente, como oposição ao crescimento alemão.

Assim, se podemos ver a crise começar na vontade independentista da Sérvia face à Áustria, com a chamada "Guerra dos Porcos"... um problema de tentativa de independência económica sérvia, apoiada pelos franceses (1906-08), a crise dos Balcãs seria apenas um dos vários pontos de tensão, tal como o foram as crises marroquinas, pelo apoio alemão à independência de Marrocos face à França.

Desde a vitória de Waterloo, em 1815, a França abdicara de combater a única potência de cariz global - a Inglaterra... mas da reunificação alemã-prussiana surgira outro pretendente a essa hegemonia mundial - a Alemanha de Bismarck, que infligira em 1870 uma pesada derrota à França.

A 1ª Guerra seria o conflito europeu global que sucedia quase 100 anos após o término do outro - levado por Napoleão. A diferença de posições é que a Alemanha que se substituía à França. Do outro lado, estavam ainda a Rússia e a Inglaterra, como aliadas... situação que se vai repetir na 2ª Guerra.

Portanto, o poderio inglês foi desafiado primeiro pela França de Napoleão, e cem anos depois pela Alemanha, em duas guerras mundiais. Ora, desde a Guerra dos Cem Anos que a França era rival de eleição da Inglaterra, e só perdeu esse estatuto com a derrota napoleónica, entrando-se num período de paz relativa, cimentada por vários tratados de partilha das colónias.

No entanto, este equilíbrio do Séc. XIX parecia algo instável, e foi desafiado no Séc. XX, com o renascer de movimentos nacionalistas. O nacionalismo foi sempre visto como a maior ameaça ao imperalismo. O imperialismo é uma conformação à pax imperial, e o nacionalismo é visto como motivação imediata para disputas territoriais, e um constante confronto das nações.
Porém, ou a pax imperial satisfaz as nações, ou estas irão gerar movimentos que a questionarão.

A 1ª Guerra Mundial é ainda a primeira guerra tecnológica, e isso é importante.
Ou seja, de alguma forma poderia ser questionado se um domínio maior da técnica criaria uma vantagem tal que esmagasse os adversários rapidamente. Antes as guerras viviam mais de estratégia com armas algo convencionais. 
É na 1ª Guerra Mundial que passam à acção todo o tipo de invenções:
- submarinos, aviões, tanques, guerra química, etc...
Curiosamente, se um lado aparecia com uma invenção, ela nunca era suficientemente decisiva, e o opositor tinha tempo de desenvolver algo semelhante, ou mais eficaz.

O tempo de interlúdio dos anos 1930 foi algo diferente, porque o secretismo nazi permitiu sofisticar o armamento, e aparecer logo em vantagem na Blitzkrieg da 2ª Guerra Mundial.

Assim, a 1ª Guerra Mundial é caracterizada por um estranho equilíbrio, que se saldava num número incontável de mortes, numa frente de batalha que mal mexia. O equilíbrio é tal que os EUA só entram na Guerra em Abril de 1917 para compensar a saída da Rússia em Março de 1917. Uma entrada antecipada dos EUA teria decidido o evento mais rapidamente, quando o afundamento do Lusitania em 1915 teria servido o pretexto, na morte de civis americanos.
Lusitania - afundado por um submarino alemão em 1915

Curiosamente, o Lusitania será ainda usado como pretexto de entrada em guerra pelos EUA, mas com dois anos de atraso...

No uso da guerra química, podemos ver uma característica típica dos beligerantes.
Havia tratados que impediam o uso de armas químicas, na forma de projéctil. A Alemanha para não ser acusada de quebrar o acordo, decide mesmo assim libertar químicos, mas aproveitando os ventos... 
A certa altura, quebrada a restrição dos químicos, já se enviavam mesmo os projécteis.
A atitude é muito diferente, porque no lado anglo-saxónico deu-se valor ao espírito da lei, enquanto o lado alemão foi-se à sua letra... isto é recorrente, em várias circunstâncias.

Interessa talvez mais notar que o grande resultado da 1ª Guerra Mundial foi ver que a tecnologia não seria exclusivo de uma parte, e não iria alterar tão dramaticamente o resultado do confronto.
Agora, é claro que após as duas Guerras Mundiais, a paz obtida foi ainda assim intermitente, mantêm-se questões insanáveis, prontas a servir de desculpa para novas aventuras. De um lado, porque não se quer ficar inferior, do outro lado porque não se quer perder a superioridade... e esse medo é o principal rastilho para criar razões de "ataques preventivos".

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(*)... que curiosamente, é também nome de banda.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Raio ou Corisco

Quando D. João II protesta ao Reis de Espanha, sobre a viagem de Colombo, diz que tais descobertas pertenciam aos seus "domínios da Guiné" e logo prepara Francisco de Almeida uma armada para ir às Caraíbas esclarecer o assunto... 
Podemos ver que a noção da palavra "Guiné" foi evoluindo, passando a circunscrever-se à zona do Golfo da Guiné (que provavelmente seria nome primeiro do Golfo do México, por analogia às paragens caribenhas a que D. João II se referia). 
Finalmente hoje há apenas três países que partilham o nome Guiné acrescido dos sufixos Bissau, Conacri, e Equatorial.

Não vou falar aqui da polémica política actual sobre a Guiné Equatorial e a CPLP.

No entanto, é interessante a informação que surgiu recentemente (desde 2006, altura em que a Guiné Equatorial pediu a adesão): 
- D. João II teria usado em 1493 o título de "Primeiro Senhor de Corisco".
Não encontro outra referência, a não ser a divulgação na internet, começada provavelmente na Wikipedia. Por isso, não sei se tal informação é verdadeira ou não... apesar de ter aspecto de ser.

Corisco é suposto aqui referir-se a uma das ilhas da Guiné Equatorial, próxima de São Tomé, e parece tão pouco importante, que seria improvável D. João II lhe querer dar destaque especial, face às múltiplas posses que acumulava. Assim, se Guiné tinha um sentido lato, Corisco é natural que se referisse a algo diferente da pequena ilha... por muito importante que viesse a ser aí o negócio de escravos feitos nas "razias" dos Bengas, e depois propósito de comércio da Companhia da Ilha do Corisco, fundada após a Restauração em 1648.

Por outro lado, "corisco" é uma designação alternativa para "raio, relâmpago", e se alguém se poderia designar como "Senhor do Corisco" era Zeus, pela sua capacidade divina.
Assim, é compreensível que tanto se queira reduzir o assunto à pequena ilha, descoberta por Fernando Pó, algumas décadas antes, como se poderá pensar que o título que D. João II usava poderia referir-se a maior ostentação... provavelmente de poder de fogo semelhante aos coriscos. 
É até natural que a ilha não tivesse esse nome, e por necessidade de associar o título a uma paragem, na habitual política de ilusionismo, optou-se por designar uma ilha pelo Corisco de D. João II... tal como a ilha do Princípe lhe está associada.

Por outro lado, será bom não esquecer que o Carro dos Deuses, já aqui mencionado a propósito do Alinhamento Piramidal, alinha-se com aquelas ilhas de Ano Bom, Fernando Pó, S. Tomé, etc.
Ora esse Carro de Deuses, mencionado na antiguidade, e associado ao vulcânico Monte dos Camarões, é também uma referência apropriada para Corisco. 
E, se interessam as coincidências nos Camarões, o símbolo do Camaroeiro foi usado por D. Leonor e D. João II, pois o Príncipe seu filho, Afonso, acabou envolto num camaroeiro, ao ser retirado morto da margem do rio Tejo, em Santarém.

Este Carrilhão dos Deuses dos Camarões, tem à sua frente o Golfo dos Mafras.
A opção de usar Carrilhão em vez de Carro é minha, mas Mafras e não Biafras é assim explicado:
Bight of Biafra será em todo este trabalho substituído por golfo dos Mafras. Fizemos um exame bastante rigoroso a tal respeito, e tivemos occasião de ler : golfo de Biafára, golfo de Biafra ou golfo de Biaffra, golfo dos Mafras, das Mafras ou Maffras. 
Que discordâncias ! 
A porção de mar que fica entre o cabo Lopo Gonçalves e o cabo Formoso deve chamar-se golfo dos Mafras. 
A porção de mar que fica entre o cabo Formoso e o cabo de S. Paulo tem o nome de golfo de Benim. 
Tal texto é de Manuel Ferreira Ribeiro, num Relatório de Serviço de Saúde Pública de S. Tomé e Príncipe de 1869, onde justifica a opção porque 
        "O distincto escriptor Alexandre de Castilho formou uma longa lista de nomes portuguezes que os estrangeiros alteraram ou substituíram por outros"

Aquela área da Guiné Equatorial esteve sob administração portuguesa, mas por via das sucessivas derrotas do Marquês de Pombal face aos espanhóis, quer na fronteira portuguesa, quer na fronteira brasileira, acabou por ser cedida ao reino de Espanha, tal como o Uruguai, no Tratado de St. Ildefonso de 1778, por troca com a ilha brasileira de St. Catarina. Assim, não deixa de ser curioso que a parte do Golfo dos Mafras seja perdida por via da política desastrosa do Marquês, quando tanto se pretende remeter as suas falhas para D. João V.

Do tempo da dúvida entre raio ou corisco, relativamente à designação de D. João II, vamos passando sucessivamente a tempos de "raios e coriscos", recentemente alimentados a petróleo, para uma combustão rápida.

Informação Adicional:
A designação "Primeiro Senhor do Corisco" tem a seguinte origem interessante do que pude apurar:

2002 (Fevereiro): Num artigo sobre a Ilha do Corisco, Fernando Garcia Gimeno, escreve a certa altura:
Fué don Juan II de Portugal "Señor de Guinea" , el primer Señor de Corisco, 
>por el año 1493, y el primer español Don Felipe II, que recibió informes de 

... ou seja, apenas diz que D. João II, Senhor da Guiné, foi o primeiro senhor de Corisco, assim como diz que foi depois Filipe II. Não diz que usa o título, apenas diz que tomou posse.

2005 (Março): Numa página aparentemente semi-oficial da Guiné Equatorial surge então algo diferente:
Hacia 1493, don Juan II de Portugal se proclamó 
como Señor de Guinea y el primer Señor de Corisco.
Certamente com origem no texto anterior, é dito agora que D. João II se proclamou Senhor de Corisco, o que altera bastante o significado anterior.

2006 (Abril): Na Wikipedia espanhola aparece esta mesma referência, que depois vai passar na tradução para a Wikipedia portuguesa.... e está feito o caminho de uns se repetirem aos outros.
Neste momento há até livros que já escrevem isso como factual, e quase sempre da mesma forma, respeitando algo do original (a data 1493, Senhor da Guiné, Senhor do Corisco).

Quando se chega a este ponto, de um facto surge um erro de interpretação e daí pode surgir toda uma lenda justificativa.

Uma boa parte da informação é habitualmente papagueada sem cuidado de confirmação.
E o problema é muito velho... quem conta um conto acrescenta um ponto!

Esta sequência que verifiquei não impede ainda assim que D. João II possa ter usado tal título, mas fica muito mais difícil de acreditar dado o registo histórico da internet guardado pelo Google.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

As estórias e a História dos vencedores

É habitual ver escrita uma frase batida, atribuída a Orwell:

A citação completa é esta, foi escrita no final da 2ª Guerra, e vale a pena ser lida na íntegra...
During part of 1941 and 1942, when the Luftwaffe was busy in Russia, the German radio regaled its home audience with stories of devastating air raids on London.  Now, we are aware that those raids did not happen.  But what use would our knowledge be if the Germans conquered Britain?  For the purpose of a future historian, did those raids happen, or didn't they?  The answer is:  If Hitler survives, they happened, and if he falls they didn't happen.  So with innumerable other events of the past ten or twenty years.  Is the Protocols of the Elders of Zion a genuine document?  Did Trotsky plot with the Nazis? How many German aeroplanes were shot down in the Battle of Britain?  Does Europe welcome the New Order?  In no case do you get one answer which is universally accepted because it is true: in each case you get a number of totally incompatible answers, one of which is finally adopted as the result of a physical struggle.  History is written by the winners. (...)
The really frightening thing about totalitarianism is not that it commits 'atrocities' but that it attacks the concept of objective truth; it claims to control the past as well as the future. 

Avanço dos tanques alemães para recuperar na batalha de Kursk, em Junho de 1943. 
A partir desta derrota, a Alemanha não pararia o avanço russo na frente oriental.  

Como citação é curiosa a sua atribuição a George Orwell, não havendo dúvida que a tenha escrito em 1944, numa altura em que os Aliados já se estariam a preparar para a sua história, com as vitórias decisivas do exército soviético, primeiro um ano antes, em Fevereiro de 1943, em Stalinegrado, e depois em Julho ao deter nova tentativa em Kursk.

Seria daquelas frases que se diria atribuída a algum pensador da antiguidade, a Cícero, a Sun Tzu, enfim... ninguém esperaria termos que esperar até ao Séc. XX para ver isto escrito. Temos um registo proverbial 
"dos fracos não reza a história" (ver p.ex. Brava Dança dos Heróis)
.. mas não é exactamente o mesmo.

Bom, isto vem a propósito de um comentário da Amélia Saavedra, a que respondi muito laconicamente com o outro lado: "a História será escrita pelos vencedores".

Ou seja, é claro que os vencedores ocasionais vão escrevendo "estórias"... a seu belo prazer, consoante os equilíbrios e os tratados que vincularam vencedores e vencidos. 
No entanto, há outro ponto... a verdadeira História essa só poderá ser contada pelos vencedores finais.
Os vencedores ocasionais precisam da ilusão, porque é necessária ao seu poder.

Assim, uma boa medida para ver a fragilidade de um poder é ver até que ponto ele se baseia nas mentiras e contradições mais disparatadas. A menos que consideremos que é natural uma sociedade humana permanecer indefinidamente envolta em ilusionismos, ou seja, algo dopada com artes circenses, ou senão, haverá sempre um ponto de ruptura em que essas mentiras têm que cair.

O único fiel desta balança é averiguar da consistência do discurso. Se é um discurso que procura ser honesto e verdadeiro, ou se é um manta de retalhos, mal justificada, onde as contradições podem existir porque houve tratados de paz que assim o impuseram... apenas porque os vencedores preferiam uma estória à História.
Enquanto verificarmos que os vencedores actuais insistem em manter-se no caminho das "estórias", então é porque estes não parecem ser os vencedores que vão escrever a História.
Porque, vencedores há muitos, mas História sem contradições, só haverá uma.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

In hoc signo vincis

Em 1546, dá-se o Segundo Cerco de Diu, quando era vice-rei D. João de Castro, e estava como governador da cidade, João de Mascarenhas. 
Jerónimo Corte Real, contemporâneo de Camões, vai escrever um épico a propósito deste cerco, assim como também irá decorar o texto com gravuras suas.
In hoc signo vinces  (por este sinal vencemos) 
Sucesso do 2º Cerco de Diu, 

Um dos factos mais interessantes deste cerco foi o papel guerreiro de um batalhão de mulheres, lideradas por Isabel Madeira. No Séc. XIX, encontrámos uma breve descrição do seu papel:
 Por este motivo se formou uma grande Companhia de Mulheres, para que unido um e outro esforço, masculino e feminino, pudesse mais fortemente resistir à fúria dos inimigos. Entre aquelas ficaram em memória os nomes de Grácia Rodrigues, Isabel Dias, Catharina Lopes, e Isabel Fernandes, governando a todas como Capitão Isabel Madeira. Estas, de tal sorte se houveram neste memorável cerco, que não só acudiam aos reparos dos muros e baluartes, senão que, ajudando aos mesmos Soldados, a elas se deveu o não ser rendida aquela Fortaleza. 
No referido cerco de Diu, deu uma mui distinta prova do seu valor Catharina Lopes. Foi o caso, que querendo ela rechaçar o orgulho de um combatente inimigo, que se tinha avançado aos muros, caiu deles abaixo juntamente com o Soldado. Quis este fartar a sua ira, empregando todas as suas forças para suprimir as da valorosa Matrona. Esta porém, depondo a fraqueza natural, se revestiu de um tão varonil espírito, que vindo com ele à luta, o derrubou em terra, e não tendo arma alguma com que o ferir, se valeu das que o próprio furor lhe ministrava (porque como lá disse um Poeta: Furor arma ministrat. Virgil.) E assim metendo-lhe os dedos nos olhos, lhos arrancou; e depois socorrida dos seus escapou à raiva dos inimigos, que já com mão alçada corriam a vingar o insulto cometido.   "Heroínas Portuguesas". O Recreio (jornal das famílias) nº8, 1842. 
Voltando ao texto épico de Jerónimo Corte Real, o assunto é colocado de forma algo simples...
Diu era uma fortaleza com pouco mais que um milhar de habitantes, e segundo as suas contas, a totalidade dos portugueses na Índia seria pouco superior a 5 milhares de indivíduos.

Frontispício do Sucesso do Segundo Cerco de Diu

Portanto, estas fortalezas em solo alheio, eram vistas como uma afronta aos poderes locais, desde os antigos marajás, xás, ou os cãs mógois. Acrescia a isso a presença de europeus doutras nações, colocados no conselho dos regentes locais. 

Neste caso, entra um renegado italiano, chamado Coge Çofar (ou Coge Sofar, Cogeçofar)... que teve direito a nome num prato de lulas (a gastronomia portuguesa guarda muita memória). A questão basicamente começa com a tentativa do Sultão de Gujarate, Mamude, de vingar a memória do avô, Bahadur, derrotado e morto em Diu. 
Diu tinha sido cedida pelo próprio Bahadur, dada a ajuda militar fornecida pelo vice-rei, Nuno da Cunha (filho de Tristão da Cunha), em 1535, pela ajuda em batalha contra o imperador Mogul de Deli.
Só que Bahadur arrependeu-se da oferta, e quis recuperar Diu... foi nessa tentativa que foi morto, e sucedeu-lhe o neto. Em 1538 Coge Çofar, senhor em Cambaia, tinha já convocado os turcos de Solimão Pachá (Suleiman Pasha) para um primeiro cerco, repelido por António Silveira.

Logo na altura do primeiro cerco de Diu, uma mulher tinha merecido destaque, da mesma revista:
Barbara Fernandes ostentou no cerco de Diu o maior valor, pois recebendo em seus braços a um filho morto, nem uma só lágrima derramou, mostrando a mesma, ou maior constância com a noticia da morte de outro, que também morrera no conflito. E enterrando a ambos, disse para os circunstantes: Não resta mais que morrer a mãe; e dito isto tomou armas, e com elas foi ajudar os combatentes, militando com tal distinção, que, a seu exemplo, os mesmos covardes obravam proezas singularíssimas. Vendo a necessidade que havia de Soldados, formou um luzido esquadrão de mulheres, com as quais fez acções tão ilustres, que nelas poucos a imitaram, nenhum a excedeu.
Sobre o primeiro cerco de Diu, defendido por António Silveira, há um livro

Em 1546, volta a ser Coge Çofar, com o sultão Mamude, o neto de Bahadur, que vai convocar diversas nações locais para o segundo cerco de Diu.

Para além de um extenso texto em verso heróico, Jerónimo Corte Real acrescenta 8 interessantes desenhos, que quase são uma primitiva tentativa ilustrativa do texto, conforme podemos ver de seguida:

terça-feira, 1 de julho de 2014

Monarchia Lusitana de Bernardo Brito (1)

No campo do que é hoje chamado "História Alternativa", Bernardo de Brito, monge cisterciense escreveu em 1597, o primeiro volume da "Monarchia Lusitana" dedicada a Filipe II de Espanha, então rei de Portugal. 
Pelo teor algo fantasioso, a obra foi sofrendo várias críticas externas, principalmente francesas, até à sua exclusão completa de consideração ou até menção após o Séc. XIX, com Alexandre Herculano.

De qualquer forma, desde 1597 até 1750, poderia considerar-se a obra de referência, a "História Oficial" de Portugal.

Figura inscrita na capa da Monarchia Lusitana (1597)

Bernardo de Brito tem o cuidado de justificar a maioria das suas afirmações, remetendo para autores da Antiguidade. Por isso, a obra é sustentada, e tem esse valor. Por outro lado, há todo um misticismo religioso associado a registos históricos, que foi sendo alvo de crítica severa com a ascensão Iluminista. 
O domínio ibérico nos descobrimentos levou a uma procura pouco objectiva de registos. Foi pretendido uma elevação da história ibérica a níveis míticos, especialmente nos tempos filipinos, e surgiram assim versões iberocêntricas, que davam um relevo maior ao papel da Hispania na história mundial.

Com a expulsão pombalina dos jesuítas, era já quase insustentável manter tal História de Portugal, enredada em registos fabulosos. Passaram a vigorar versões afrancesadas, em que os autores, em contraponto, basicamente reduziam a história nacional a pouco mais que zero.
Tal situação agravou-se no liberalismo com a dissolução das ordens monásticas.
Para evitar uma total secundarização da história nacional, Alexandre Herculano tomou uma decisão que seria muito aplaudida - tomou a seu cargo expurgar todo o conteúdo místico anterior, e começar a história portuguesa com o nascimento de Afonso Henriques. 
A história anterior, escrita por estes monges fervorosos, seria remetida ao esquecimento - nem sequer lhe era dado o estatuto de lenda. Seriam apenas mentiras... e como mentiras, seriam apagadas.

Ora, essa decisão de Alexandre Herculano pode ser compreendida pela necessidade à época de trazer objectividade ao registo histórico, mas foi uma completa lapidação da própria história.
Porquê?
Porque não há forma de apagar uma história que fez história durante pelo menos 150 anos, e por outro lado, esqueceu que o esforço dos monges ia beber a historiadores clássicos, que para outros registos eram ainda usados e considerados credíveis.
Assim, a censura do absurdo foi também ela absurda... pela simples vontade de "não contaminar os espíritos das gentes".
Por mais que uma vez se tem visto que é pior a emenda que o soneto... e o registo de Bernardo de Brito foi história oficial, tal como o passou a ser o registo de Alexandre Herculano.
Ocultar uns, para dar relevo a outros, é mera censura simplista. 
O que se deve fazer é mostrar as versões, e criticá-las à luz da razão.
Se têm falhas, então elas devem ser tornadas evidentes - quais são e por que razão são erradas.

Se o registo de Bernardo de Brito me parece algo fantasioso, podendo ir beber a fontes de mentiras, também noutros pontos pode mostrar que ainda hoje permanecem muitas fontes de mentiras, convenientes aos vendedores das ilusões dos tempos modernos.

Segue o índice dos primeiros capítulos da Monarchia Lusitana, cujos títulos são de alguma forma auto-explicativos.

Primeiro Livro
  • Cap. 1: Da criação do mundo e do que nele sucedeu até à morte do nosso primeiro pai Adão.
  • Cap. 2: Do nascimento do patriarca Noé e do dilúvio geral, com as mais coisas que houve no mundo até à divisão das gentes.
  • Cap. 3: De como as gentes de dividiram por várias partes do mundo e como Tubal, neto de Noé, veio povoar nosso Reino de Lusitania, e fundou nele a povoação de Setúbal.
  • Cap. 4: De Ibero, filho de Tubal, e do tempo que reinou em Lusitania, e nas mais partes de Espanha.
  • Cap. 5: Do reino de Jubalda em Espanha e do que se fez neste tempo em Lusitania.
  • Cap. 6: Do rei Brigo, Senhor de Espanha, e do particular amor que teve aos Lusitanos.
  • Cap. 7: De Tago, quinto rei de Espanha, e do que em seu tempo fizeram nossos Lusitanos.
  • Cap. 8: Do rei Beto, sexto rei de Espanha, e do que sucedeu em seu tempo em Lusitania.
  • Cap. 9: De como o tirano Gerião se apoderou do Reino de Espanha, e do que em Lusitania sucedeu até à sua morte.
  • Cap. 10: De como os filhos de Gerião reinaram em Espanha, e da vinda de Hércules Líbico contra eles, e como o mais que se passou até sua morte.
  • Cap. 11: De Hispalo e Hispano, reis de Espanha, e do que sucedeu no tempo de seu reinado em Espanha.
  • Cap. 12: Do tempo em que Hércules reinou em Espanha, e dos favores que sempre fez aos Lusitanos.
  • Cap. 13: Do tempo em que na Espanha reinaram Hespero e Atlante Italo, das guerras que entre si tiveram, e da fundação de Roma, feita por gente Lusitana.
  • Cap. 14: Do tempo em que reinaram em Lusitania Sic Oro (Sicoro), filho de Atlante Italo, e seu neto Sic Ano (Sicrano), com algumas coisas particulares, que em seu tempo sucederam.
  • Cap. 15: Do reino de Sic Celeo (Siceleu) e de Luso em Espanha, e de como esta parte Ocidental se começou a chamar Lusitania, como muitas outras particularidades acerca desta matéria.
  • Cap. 16: De como Sic Ulo (Siculo) começou a governar o reino de Lusitania, e das coisas que lhe sucederam, durando seu Império, dentro e fora de Espanha.
  • Cap. 17: Do que sucedeu em Lusitania, reinando Testa nas outras partes de Espanha, com a relação de certa gente estrangeira, que passou nestas partes.
  • Cap. 18: Do que sucedeu em Lusitania, reinando em Andaluzia um rei chamado Romo, e da vinda de Baco à Espanha, com outras particularidades a este propósito.
  • Cap. 19: De Licínio, capitão dos Lusitanos, e das batalhas que teve com Palato, rei da Andaluzia, até que Hércules Grego chegou a Espanha, com favor do qual Licínio ficou vencido, e Palato seguro em seu reino.
  • Cap. 20: Do rei Eritreu, senhor de Espanha, do que em seu tempo fez a gente Lusitana com alguma opiniões acerca da Ilha Erytreia.
  • Cap. 21: De Gorgoris, rei de Lusitania, do que em seu tempo sucedeu neste reino, com algumas coisas particulares, que os autores referem deste tempo.
  • Cap. 22: Da vinda de Ulisses a Portugal, e da fundação da famosa cidade de Lisboa, feita por este capitão, com algumas coisas a este propósito.
  • Cap. 23: Como Abidis começou de reinar em Lusitania, e nas mais partes de Espanha, e das coisas que sucederam em seu reinado.
  • Cap. 24: De certa esterilidade que os autores contam, que aconteceu em Espanha neste tempo, e da verdadeira e menos duvidosa opinião que há nesta matéria.
  • Cap. 25: De várias coisas, que sucederam em Lusitania, depois desta esterilidadade acabada, principalmente da vinda de Homero a estas partes, e dos Franceses Celtas, que povoaram muita parte do nosso reino.
  • Cap. 26: Da vinda de muitas nações estrangeiras a Espanha, e das terras, que em Portugal se povoaram com a vinda delas e dos Franceses Celtas.
  • Cap. 27: Das guerras e descontos, que a gente de Andaluzia teve com os Fenícios, que viviam em Cadiz, e como os Lusitanos foram em socorro dos Espanhois.
  • Cap. 28: Das guerras que houve em Lusitania, entre os Celtas e Turdulos, e da vinda a Espanha de Nabucodonosor.
  • Cap. 29: De como a gente Portuguesa, que foi em socorro de Cadiz, tomou as armas contra os Fenícios, por lhes negarem o soldo.
  • Cap. 30: De como os Turdulos, que viviam na costa marítima de Portugal, se estenderam pelo sertão contra o nascente, e da origem dos povos Transcudanos.
Cronologia da Monarchia Lusitana, por Bernardo de Brito
  • 3962 a.C. - Criação
  • 2306 a.C. - Diluvio
  • 2161 a.C. - Tubal - 2009 a.C. 
  • 2009 a.C. - Ibero - 1970 a.C. 
  • 1970 a.C. - Jubalda - 1906 a.C. 
  • 1906 a.C. - Brigo - 1855 a.C. 
  • 1855 a.C. - Tago - 1825 a.C. 
  • 1825 a.C. - Beto - 1795 a.C. 
  • 1794 a.C. - Gerião - 1760 a.C. - Jupiter Osíris
  • 1760 a.C. - 3 Lomínios - 1718 a.C. - Hercules Lybico
  • 1718 a.C. - Hispalo, Hispano - 1669 a.C.
  • 1669 a.C. - Hercules Lybico - 1628 a.C.
  • 1628 a.C. - Sic Oro - 1584 a.C.
  • 1584 a.C. - Sic Ano - 1553 a.C.
  • 1553 a.C. - Sic Celeo - 1509 a.C.
  • 1509 a.C. - Luso - 1476 a.C.
  • 1475 a.C. - Sic Ulo - 1415 a.C.
  • (1415 a.C. - Testa - 1344 a.C. - Romo - 1311 a.C.)
  • 1332 a.C. - Baco, Lísias - 1309 a.C.
  • 1309 a.C. - Licínio vs. Palatuo - 1239 a.C. - Hercules Grego
  • 1239 a.C. - Eritreio - 1179 a.C.
  • 1156 a.C. - Gorgoris - 1079 a.C.
  • 1079 a.C. - Abidis
  • - - fuga pela seca e esterilidade na Hispania - -
  • 999 a.C. - entrada dos Celtas franceses no Alentejo
  • 932 a.C. - gregos de Rodes em Roda (Andaluzia)
  • 923 a.C. - grande incêndio dos Pirinéus
  • 752 a.C. - exploração dos Fenícios das minas de ouro e prata
  • 604 a.C. - nova chegada de gregos
  • 589 a.C. - vinda de Nabucodonosor a Espanha
Que crédito dar à Monarchia Lusitana?
Em 1493, Annio de Viterbo disse ter encontrado em Viterbo manuscritos que se julgavam perdidos, nomeadamente um registo do caldeu Beroso, que explicaria grande parte da história que faltava.
As suspeitas sobre a autenticidade dos registos de Viterbo começaram a ser questionadas nas décadas seguintes, e o próprio Bernardo de Brito em várias passagens lhe retira algum crédito, mas não o deixa de mencionar. Mas, só quase um século mais tarde é que Scaliger declara a completa falsificação da obra de Viterbo.
Entretanto, já ilustres académicos tinham compilado as suas histórias com os dados de Viterbo, nomeadamente o espanhol Floriano de Ocampo ou João Vaseo. Aparentemente a receita de Viterbo agradava em vários aspectos... a toponímia - nomes de rios, cidades, terras, ligava-se directamente a antigos reis. Não só, fazia-se uma ligação entre várias lendas, antes desconexas. Por exemplo, Jupiter e Osiris seriam o mesmo personagem, Hercules e Horus também, etc...

Mostrando-se falso esse registo, a obra de Bernardo de Brito ficaria como uma ficção desprovida de sentido, poderia ser apenas uma ficção literária... só que Bernardo de Brito vai mais longe.
Descobre, nos arquivos do Mosteiro de Alcobaça, uma crónica de Laimundo Ortega, monge do Séc. X.
É essa crónica que Bernardo de Brito vai seguir principalmente... e nalguns aspectos pareceria coincidir com o tal registo falso de Beroso.
O que acontece de seguida? 
- Já no Séc. XVIII é questionado que essa obra de Laimundo seja autêntica, e portanto, mais uma vez, perante novas acusações de falsificação, a Monarchia Lusitana sofre novo ataque.

Parece-me bastante provável que, quer Viterbo, quer Bernardo de Brito, tenham encontrado documentos antigos, provavelmente feitos no Séc. XI ou XII, que visavam criar essa história mirabolante unificadora. 
No fundo, havia necessidade disso.
Sendo a Bíblia a única referência, e dando apenas conta da história judaica, faltavam registos que não fossem apenas gregos ou romanos. Se não existiam, podem bem ter sido inventados, com maior ou menor inspiração em factos conhecidos, para satisfazer uma história das restantes paragens europeias.

Assim, se Bernardo de Brito pode ter bebido em fontes impuras, também é verdade que não segue apenas estas duas fontes. Segue centenas de autores antigos, muitos dos quais os clássicos, a partir dos quais se organizou toda a história greco-romana. 
O que acontece é que de Plínio, Estrabão, Heródoto, e outros, apenas se tem tirado o que se considera ser "politicamente correcto", e à sua maneira, a história oficial foi fazendo a sua censura, escolhendo o que interessava e não interessava. 
Nesse aspecto, a obra de Bernardo de Brito junta múltiplas fontes, numa ficção que ele considerou ser consistente, à luz do pensamento católico vigente, e com base numa extensa documentação de suporte.

Não é menos do que uma história mítica de Artur, Merlin, Lancelote, Parseval, e tantos outros personagens que, sendo míticos, não deixaram de ser apresentados a público como tal. Foram igualmente resultado de obras de monges do Séc. XII, como Geoffrey de Monmouth, e a sua relação com eventos reais ou míticos não foi prejudicada pela divulgação.
Porém, a censura às obras ibéricas teria um objectivo de evitar estabelecer o mesmo aspecto mítico, que ilude populações, e não era já conveniente que os reinos ibéricos tivessem ideias de grandezas perdidas... muito menos que competissem no tempo com a Bíblia e a família judaica.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Mau tempo no Canal das Histórias

O History Channel decidiu promover uma charada, numa mistura de Wells e Welles.
Digamos, entre a "Guerra dos Mundos" de H. G. Wells (1898) e a "Guerra dos Mundos" de Orson Welles (1938).

Well, Wells, Welles.
Chamaram-lhe a "Grande Guerra Marciana", e segundo a descrição que apresentam:
No seu 100º aniversário, "A Grande Guerra Marciana" narra a história de acontecimentos catastróficos e horrores inimagináveis de 1913-17, quando a Humanidade teve de lutar contra uma invasão de selvagens alienígenas. Com fortes e detalhados paralelismos à Primeira Guerra Mundial, a Grande Guerra Marciana funde ficção científica com uma realidade factual histórica muito específica, para explorar as tragédias do mundo real e horror único da Primeira Guerra Mundial.
Numa suposta comemoração da 1ª Guerra Mundial (1914-18),
 aparece a charada dos 100(!!) anos da Guerra Marciana (1913-17).

O enredo escolhido da história é praticamente irrelevante.
O que interessa?
Interessa que há licença para brincar com as histórias... mas nem sempre!

Implicitamente, poderíamos considerar que os alemães foram aqui retratados como "selvagens alienígenas", já que tudo se passa na clássica frente de batalha em França, com aliados de um lado... e pois, al-iens ou al-emães, do outro lado. 
Que engraçado!
Antes de ficarmos deslumbrados com tal imaginação, vejamos por que razão não foi escolhida a 2ª Guerra Mundial? 
Ah! Já sabemos, é ainda crime duvidar do "holocausto judeu"... e portanto, os produtores podem brincar com a 1ª Guerra, porque os milhões de mortos aí não se importam, mas já se for com a memória das vítimas judaicas... Ui, ui, ui! Com isso, não se brinca.
Pois, o mau gosto é selectivo.

É claro que a realização foi razoavelmente cuidada, e com a técnica actual podem fazer-se boas inclusões realistas em cenários antigos. Tal coisa dá ainda para alimentar um público que o History Channel tem procurado cativar - o público obcecado por conspirações extra-terrestres.
Porquê? Porque segue na linha de que poderiam então ser usadas novas tecnologias capturadas aos marcianos, algo que é habitualmente invocado para justificar avanços tecnológicos mais recentes.
Enfim, só faltou dizer que as aparições de Fátima foram a última palavra dos marcianos antes de se irem embora.

Tudo o que se segue é um perfeito disparate, sem mais comentários.

Porquê? Porque a invasão em causa veio de Vénus e não de Marte.
Esse é o engano sistemático que tem causado o controlo dos homens. Sim, porque o controlo é feito através das mulheres. A primeira forma religiosa era no feminino, com grandes deusas, que os homens aprenderam a adorar. Com o controlo no feminino, a sociedade passou a ser matriarcal... e assim as sociedades que se desenvolveram mais rapidamente foram essas. Numa variante, desenvolveram-se poderosas Amazonas que, quando necessário, competiam na violência com os homens. É conhecido o caso da Rainha Tomiris que exige a cabeça de Ciro.
A rainha amazona Tomiris recebe a cabeça de Ciro, o Grande.

Ciro tinha acabado de "devolver" os escravos judeus às paragens israelitas, onde se iriam encontrar com outros escravos deslocados, os hebreus. Ora, este poder hierárquico no feminino teve sempre grande importância nos bastidores. Os reis eram facilmente seduzidos por belas moçoilas, e acabavam por ser muito influenciáveis. Convém não esquecer o caso da Guerra de Tróia, tudo por causa de Helena.
Em termos de ardis, intrigas, esquemas, e arte de sedução, ninguém igualava as cortesãs... e os homens são fáceis presas perante a beleza feminina. 

É claro que tinha sido fácil às mulheres tomarem conta da sociedade, porque basicamente eram elas que definiam a escolha reprodutiva, e a educação das crianças. Desde o momento em que o líder não tinha que ser escolhido como o mais valoroso em combate, tudo se resumia a saber quantos obedeciam a quem... mais importante do que o poder físico, era o poder mental.
Só que isto não era um ponto consensual entre todas as mulheres, e muitas acabaram por ter pena dos homens serem tratados como bonecos. Assim, houve uma divisão entre as mulheres... umas decidiram tentar desenvolver uma sociedade aceitando o domínio masculino, e outras foram desenvolver uma sociedade com domínio no feminino. No entanto, estas últimas, mais poderosas, nunca deixariam que a a sociedade masculina as ameaçasse, e trataram de inventar esquemas de controlo. Usariam os homens mais cegos ao seu poder para criar uma civilização evoluída, e perturbariam a masculina com incessantes guerras. Para isso bastaria colocar umas "irmãs" nas cortes, em sacrifício de causa.

À distância, em paragens americanas, as Amazonas controlariam os destinos do velho mundo, vendo à distância se alguma civilização no masculino seria capaz de evoluir ao ponto de respeitá-las como iguais. Algo difícil, como se calcula... Como elas bem sabiam, desde o momento em que foram adoradas como deusas de fertilidade, a religião seria a maneira mais fácil de controlar o assunto, e colocarem enormes exércitos a lutar por si. Por outro lado, os homens começaram a exigir uma abstinência sexual para efeitos religiosos. Assim, as grandes religiões começaram a evitar as mulheres na sua hierarquia. Porém, a grande diferença tecnológica já estava marcada com milénios de distância.

É fácil perceber que o valor do ouro e das pedras preciosas, não foi decidido por nenhum homem voluntariamente. Um homem pouco liga a essas coisas, sem ser pelo seu efeito na troca. Quem definiu esse valor foram obviamente as mulheres, que não resistem aos adornos.
A filosofia, o budismo e o cristianismo, é claro, marcou uma grande inflexão. As mulheres começaram a ver nos homens alguma sensibilidade, para além dos trogloditas que tinham que suportar, e isso começou a baralhar as contas. A sociedade medieval no masculino estagnara, mas seria mais pela interferência externa, que levara os religiosos a definirem restrições cada vez maiores no comportamento perante "forças sobrenaturais".

A porta dos descobrimentos vai ser aberta por influência de duas mulheres, do lado espanhol Isabel, a Católica, e do lado português, por Dona Leonor, ou ainda mais, pela tia e mãe, D. Beatriz, também mãe de D. Manuel. Começa o culto alargado no feminino, a Nossa Senhora.
Porém, a sociedade no masculino continua a inspirar pouca confiança, e a concessão é muito limitada, só alguns territórios são cedidos à exploração, porque interessa apagar vestígios anteriores. Até que se ganhe maior confiança, guarda-se ainda o reduto australiano. Importa mesmo haver uma mulher a comandar os destinos seguintes, e a Rainha Isabel inglesa, servirá essa tarefa. Outros factos começam a ganhar relevo, porque uma maior liberdade na sociedade masculina permitia criações não antes vistas na sociedade amazona. Assim, subitamente, há duas tendências - a tendência inquisitorial de restringir a sua divulgação, mas também uma tendência de permitir abertura, para novas criações. Não conviria é que se continuasse a passar nos estados ibéricos, que entretanto já sabiam demais, e tinham que ser mantidos sob controlo estrito. A transferência será cuidadosamente feita por Luísa de Gusmão, que casa a filha Catarina com o rei inglês. Começa por essa via o desenvolvimento do poder inglês, por via das suas lojas... maçónicas, mas é bem sabido que as mulheres adoram lojas.
Passa a haver até novas máquinas voadoras, e isso dá uma segurança não apenas terrestre, às amazonas mais cépticas... sempre hipnotisadas pelo planeta Vénus. Assim, feita a limpeza principal, quando chega ao tempo da Rainha Vitória, é dada permissão às lojas maçónicas, e aos sempre fiéis judeus, para o conhecimento total do globo terrestre. É claro que já tinha sido conhecido pelos portugueses, mas Sebastião, com a sua permanente recusa em aceitar a tentação no feminino, tinha estragado tudo.

Ainda assim, a sociedade masculina, apesar de evidenciar criatividade suplementar, continuava com o obstinado poder dos homens sobre as mulheres. As tentativas de emancipação eram pouco claras. Foi isso que levou pois à 1ª Guerra Mundial, que pode ser vista como uma guerra entre Marte e Vénus. A vitória foi venusiana, no sentido em que se seguiram os "anos loucos", em que as mulheres se viam finalmente emancipadas na sociedade masculina. Porém, era óbvio que o bichinho do poder masculino estava ainda latente, na forma da reprodução preferenciada - uma forma amazona de seleccionar os rebentos. A 2ª Guerra Mundial foi já mais brutal, porque se tratou de uma dissidência entre facções amazonas. Uma das quais já considerava que bastava manter os homens seduzidos, numa grande ilusão, enquanto outra pretendia controlar todo o processo reprodutivo, como na velha sociedade matriarcal.

Pronto, é mais ou menos assim a história amazónica, e se algum homem achar que faz mais sentido do que a história da grande guerra marciana, prepare-se para ter problemas em casa - afinal os homens são todos iguais!
Agora coloca-se a decisão sobre ir a Marte, que é uma espécie de "ir amar-te" sob signo de Vênus, que é como quem diz "vê-nos", ou "vê nus".

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Ré vista (3)

(009) Os mapas Theatrum Mundi conferiram à época mais uma confirmação da ocultação propositada e consciente. Neste caso, o que era perfeitamente claro dos mapas era o conhecimento do Estreito de Bering, muito antes de Bering sequer ter nascido. Já era evidente dos mapas de João de Lisboa, mas quer o mapa de Lavanha-Teixeira, quer o mapa de Ortelius deixavam claro o nome desse estreito:

Como novidade ao assunto, citamos o notável ensaio de Sebastião Francisco de Mendo Trigozo:
Memórias da Literatura Portugueza - Academia Real das Sciencias (1814) Tomo VIII pág. 305

Trigozo, ao contrário de outros vai tentar sustentar cautelosamente uma posição menos oficial. Numa tentativa de salvar o corpo e a alma, não quer deixar de referir o seguinte (pág. 325):
Se déssemos crédito a alguns Authores, seriam os Portuguezes os que achassem esta nova Pedra Filosofal, do caminho às Índias pelo Norte da América(1), em que tanto trabalharam até nossos dias as Nações Marítimas da Europa (...)
... assim, para salvar o corpo não dá o crédito, mas para salvaguardar a alma deixa a nota de rodapé:
(1) Referiremos (ainda que sem lhe dar credito) o que dizem dois modernos Escritores a respeito deste nosso pretendido descobrimento. He o primeiro o Duque de Almodovar em a Historia Politica de los Establecimentos Ultramarinos de las Naciones Europeas Tom. IV. pag. 584, onde conta que Lourenço Ferrer Maldonado, Hespanhol de origem, se embarcara em 1588 no Porto de Lisboa, em hum navio de que era Piloto João Martins, natural do Algarve; e dirigindo o seu rumo pelo Nordeste á Terra do Lavrador, passando o Estreito de Davis, desembocou pelos 75 gráos de Latitude em o Mar glacial: depois navegando ao Oeste quarta de Sudueste, se achou em o Estreito de Anian, que dista de Hespanha 1750 legoas, segundo a sua derrota, e desembocou no Mar do Sul pelos 60º. Na ida atravessou o Estreito em Fevereiro, e saiho da sua boca em Março, pelo que padeceo muitíssimo frio, e escuridade: vio grande quantidade de gelo em as margens, porém nunca achou o mar gelado. Na sua volta, que foi em Junho e Julho, teve sempre muito bom tempo, e desde que cortou o Circulo Artico em os 66° 30' até que o tornou a cortar no meio do Estreito de Lavrador , jamais lhe desappareceo o Sol do Orisonte, e sempre sentio bastante calma. O Author que dá esta noticia, diz que se conserva o Roteiro manuscrito donde ella foi extrahida, escrito mui circunstanciadamente, com as correspondentes relações das correntes, marés, e sondas, com as vistas das Costas da Ásia, e dos rumos, e Costas da America &c.
O segundo lugar he tirado de Debrosses na sua Historia da Navegação às Terras Austraes Tom. I, pag. 73. Tratando da passagem da Índia á Europa pelos mares do Norte: 
« Não he fora de propósito (diz elle) accrescentar .... o contheudo n' huma Carta escrita a hum Ministro d' huma Corte, que tomava informações sobre hum semelhante facto. Os novos descobrimentos (diz a Carta) que eu fiz sobre a passagem á China pelo Norte da Europa , e de que me pedis a relação, vem a ser, de que hum navio chamado o Padre Eterno, commandado pelo Capitão David Melguer, Portuguez, partio do Japão a 14 de Março de 1660; e navegando ao longo da Costa da Tartaria, correo ao Norte até 84º de latitude; donde continuou a viajem entre Spitzeberg, e a velha Groenlândia, e passando pelo Oeste da Escossia e da Irlanda, chegou á Cidade do Porto; aonde hum Marinheiro do Havre de Grace diz ter visto haverá 28 annos este Navio o Padre Eterno, e o Capitão Melguer que morreo neste tempo, e cujo enterro o Marinheiro prezenceou. Já fiz escrever para Portugal a fim de obter, se for possível, o Jornal desta navegação. &c. »
Trigozo refugia-se em Almodovar e Debrosses, autores estrangeiros, e assim não deixa de relatar os pormenores de duas viagens.
- viagem de Ferrer Maldonado e João Martins, em 1588, que fazem a Passagem Noroeste.
- viagem de David Melgueiro, no navio Padre Eterno, que em 1660 faz a Passagem Nordeste.

Estes relatos apenas se acrescentam à evidência dos mapas Theatrum Mundi, que tinham já os contornos dessas Passagens bem evidenciados... muito para além do que depois vieram a apresentar os mapas fantasiosos do século seguinte, e até à viagem de Cook. A preocupação teatral fantasiosa nos Theatrum Mundi era só o hemisfério sul, da parte australiana, então proibida.
A parte das passagens árcticas, noroeste e nordeste, foi só causada pela mudança climática que congelou os mares e anulou a repetição da proeza até ao Séc. XX.

Esta não é a primeira vez que falo de Melgueiro, é claro, mas creio que o nome do navio e a data exacta não tinha sido referenciada. Quanto à viagem de Ferrer Maldonado creio ser a primeira vez que aqui é mencionada (ver por exemplo: uma pequena biografia canadiana ou a menção na wiki-espanhola Paso del Noroeste). A existência de documentação detalhada não redundou em nada, pois o relato do historiador espanhol, o Duque de Almodovar, em 1788, foi só tomado a sério à época, e passadas umas décadas foi decidido serem tudo falsificações... Quando se está sob alçada de uma Quádrupla Aliança as opiniões tendem a ser muito unânimes. Nem é preciso o efeito de prebendas e ameaças, basta cuidar que as vozes sejam isoladas para parecerem malucas face ao consenso. 

Lendo estes textos antigos e as caixas dos comentários, acabo por notar que aqueles primeiros meses foram de facto significativos, pois basicamente andei nos anos seguintes a relatar as mesmas conclusões que já estavam ali presentes, e de alguma forma esquecidas. Um caso bem visível é já estar neste texto a observação de que o golfo da Califórnia era chamado Mar Vermelho.

(010) Bom, mas tudo isto é quase redundante face à prova brutal do Teatro nos Descobrimentos

Não vou negar que depois da afirmação de Pedro Nunes de 1538, clamando a total descoberta, até dos penedos e bancos de areia, ficava a curiosidade de saber como seria um mapa dessa altura, com toda a informação. Não teria resistido nenhum?
Pois bem, por momentos pensei que poderia ser aquele. Aquele que estava exposto no Museu da Marinha, à vista de todos, mas em que a simples menção "Executado pelo pessoal técnico do Museu da Marinha. Maio de 1970" destruía a convicção de ser o original.

Assim, havia só uma frágil convicção, de "poder ser"...
Essa convicção passou a ser muito maior quando os "pinguins" desenhados na Gronelândia faziam sentido, dada a extinção das "grandes alcas". Portanto, não era só toda a consistência do mapa relativa às inscrições, bandeiras, e tudo o resto... até a colocação aparentemente errada dos pinguins estava certa. E estava tão certa que depois foi ocultada no Museu da Marinha, pintando-lhe um iceberg por cima. 
Ainda assim, era claramente insuficiente como prova... apenas aumentava a convicção.
A prova final surgiu da forma mais estranha - autêntica obra do Caos.
Um simples quadradinho num artigo de Steve Strong sobre aborígenes
mapa antigo no artigo de Steve Strong
... e como não me falhou a memória visual, constatei que aquele mapa da Austrália já o tinha visto - era o mapa do Museu da Marinha. Não tinha inscrições, tal como acontecia estranhamente no caso do mapa do museu, estava descolorido, e mal se viam os cangurus. Ora como tinha Steve Strong aquele mapa? Ainda hoje não sei, que não me respondeu... nem sei se chegou a ler a pergunta.
É irrelevante. 
Interessa só que apesar de idênticos ao olhar, um não sai do outro por simples descoloração ou por efeitos automáticos tipo Photoshop. Para algo desse género ficaria assim:
alteração "photoshop" do mapa do museu da Marinha
... ou parecido.
Qual é a grande diferença?
A grande diferença está no facto de uma parte da costa estar mais carregada que outra, e todo o mapa não tem equilíbrios resultantes de algo automático. Se era para dar um efeito antigo, bastava fazer isso. A única outra hipótese seria andar a escurecer manualmente todo o mapa, salientando umas partes e outras não... basicamente a pintá-lo de novo. 
Qual o interesse de fazer isso casualmente, a partir de um mapa recente do Museu da Marinha? Nenhum!
Não. Tem aspecto antigo, porque vem de um mapa antigo.
Há um limite para acreditar em coincidências. 
Depois das suspeitas anteriores, já existentes, passados 3 anos estava ali a prova, irrefutável.
Claro que é irrefutável para mim. 
Outros podem ser iludidos no que quiserem, porque há inúmeras histórias sempre prontas para inventar. A imaginação desta malta já se viu que entra em acção facilmente. Só que o Caos que dá é o Caos que tira... e nesse processo de dar e tirar, só a racionalidade fica. Senão, é só o Caos que impera.

Depois desta prova, o assunto das descobertas fica arrumado até à época de D. Sebastião, circa 1570, que é a datação muito provável do mapa. 
Obrigado a Marcelo Caetano ou ao responsável pelo atrevimento, pela coragem de 1970... pode parecer pouco, mas a guerra do ultramar poderia ser muito mais que uma obstinação por terras. Poderia ser uma luta pela verdade, em nome das gerações seguintes.



sábado, 14 de junho de 2014

Porque sim

Dicionários
Quando temos um dicionário podemos fazer o teste de seguir as definições.
Uma palavra é descrita por outras, vamos à procura das outras, e reparamos logo que nada está definido... é tudo um novelo circular, porque não se pretende assumir que há noções base, indiscutíveis.

Por exemplo, seguindo um dicionário online:
    Tempo: Série ininterrupta e eterna de instantes.
    Instante: O mais pequeno espaço apreciável de tempo.

Vemos que tempo remete para instante, e depois instante remete para tempo.
Isto irritava-me na adolescência, e cheguei a pegar numas tantas noções base e começar a definir todas as palavras a partir dessas noções base.
Hoje já não me irrita, porque vejo esta dança mal definida, e algo primitiva, como uma forma de conhecimento que não se pretende fechada. Não me irrita que "instante" esteja mal definido, porque percebo o que o autor quis dizer.
Na realidade há uma série de palavras que aprendemos e que dispensariam qualquer dicionário, mas há também muita ambiguidade no uso das palavras e não é pior procurar ligá-las a outras.

Ex-isto
Ex-isto aponta para fora disto...
O conhecimento que temos assenta assim sobre palavras, que são noções que temos seguras, que ficaram tão seguras quanto o respirar. Sabemos o que significam para nós, e julgamos que o seu significado não será diferente, ou muito diferente, para os outros. 
Porém isto nem sempre é assim... e por vezes em conversas mais profundas somos confrontados com dúvidas que pensávamos nem existirem. Aconteceu-me com uma pessoa bastante inteligente, com a devida formação académica, que sinceramente disse não saber definir o que era "existir".

Ora, ninguém está à espera de ter que explicar o que é "existir"...
Neste simples exemplo cai a ideia de se fazer um dicionário a partir de noções indiscutíveis... porque todas as noções são discutíveis, quando saem do ambiente corriqueiro.
Qual era a dúvida?
A dúvida surgiu porque em contraponto à evidência científica, que basicamente afirma só a existência ligada ao mundo físico, eu argumentei que as palavras tinham existência para além da matéria física. Ia acrescentando que a matéria física pode ser destruída, mas as palavras não... ninguém pode aniquilar a noção associada a uma palavra. Assim, as palavras têm uma existência para além da matéria.
Ora, como essa é uma existência que normalmente é desconsiderada, mas que é inegável, a pessoa em causa ficou algo baralhada, e teve que refazer conceitos, começando pela existência. 
Nisso apanhou-me de surpresa, porque não estava à espera de ter que explicar essa noção fundamental.

A existência física está ligada ao contexto físico, e no contexto físico as coisas aparecem e desaparecem.
Quando aparecem assinalamos a sua existência, até constatarmos o seu desaparecimento... tudo isto é feito através dos sentidos. Como a ciência só admite a informação vinda pelos sentidos, para a ciência a existência é essa ligação à presença física adquirida pelos sentidos. Esse é o olho que só vê para fora...

Visão Interna
Falta admitir o olho que vê para dentro.
O olho que vê para dentro é recusado pela ciência... porque a ciência recusa o pensamento
Tenta remetê-lo a umas ligações cerebrais por neurónios... mas, na melhor das hipóteses, isso seria sempre o pensamento dos outros, e nunca o pensamento do próprio. Portanto é até ridícula nessa pretensão.

É verdade... a ciência usa o pensamento, mas recusa a sua existência.
A observação dos neurónios não mostra nenhum pensamento.
Já se conseguem fazer telecomandos "guiados pelo pensamento", pelos impulsos eléctricos dos neurónios.
Isso leva ao erro de se pensar que se está a ler o pensamento... não está! 
Não há nenhuma diferença entre isso e a pessoa pegar no telecomando e carregar no botão. A diferença é usar os dedos ou não. Fisicamente, os neurónios justificam a associação entre uma disposição e os dedos, tal como podem justificar outra associação similar que evite os dedos, se tiverem outra interface. 
Tudo o resto são pretensões ignotas que resultam de manias e megalomanias.

O olho que vê para dentro, para o qual a ciência persiste em ser cega, é o olho directo ao nosso pensamento sem passar pelo cérebro ou os seus neurónios. É o olho puramente filosófico.
É nessa visão interior que encontramos as palavras (associadas a noções intemporais).
Nesse mundo interior o que vemos ou deixamos de ver não precisa de sentidos, é determinado pela visão do nosso pensamento no instante e pela memória.
Ou seja, é um mundo onde também desaparecem coisas, pelo esquecimento. A existência não é assim garantida ad eternum no pensamento individual. 
Para o pensamento a ciência disponível é a da manipulação... ou seja, levar as pessoas a associarem certas ideias a outras. Levar a pessoa a associar o Pai Natal à Coca-Cola, Einstein a inteligência, ou algo semelhante, que vai do mero marketing comercial ao marketing político.
O resto é demasiado caótico, porque o pensamento são é saudavelmente caótico.
O que não é atitude sã é transformar qualquer pensamento caótico em acção.
O que não é atitude sã é não procurar perceber a razão pela qual pensamos assim e não assado...
Toda a manipulação de domesticar o pensamento - de evitar "maus pensamentos", tão frequente na moral religiosa, resulta dessa incapacidade de distinguir a vontade de dar um chuto da acção concretizada de dar o chuto. É uma castração inútil evitar o pensamento, porque ele é latente e imprevisível. O que é útil é aceitar o pensamento e perceber as consequências da sua concretização... mas isso implica uma visão interior alargada e não um simples transporte da visão exterior para o interior.

Regras internas
O nosso mundo interior tem regras, tal como tem o exterior.
Pretende-se que não, porque se considera que o pensamento pode fantasiar o que quiser, sem consequências. Não é assim. 
Nós não somos bons com os outros, porque gostamos deles... nada disso.
Podemos pegar num pão, abri-lo com uma faca e comê-lo.
Muito bem... substitua-se a palavra "pão" por "coelho" ou por "homem" na frase anterior e veremos o desconforto a aumentar. Porquê? Porque há uma identificação connosco que é cada vez maior.
Somos bons com os outros, porque gostamos de nós. 
Repugna-nos a identificação numa situação semelhante.
Ora, essa identificação é imediata quando vemos os outros como semelhantes.
Se não o fizermos, então estamos a isolar-nos, se ninguém for semelhante a nós, estamos a condenar-nos à eterna solidão.
Esse confronto pode ser escondido, por recusa de pensamento, mas o pensamento é imprevisível, e essas associações são automáticas, pela sua lógica, quer queiramos, quer não. Não há como evitar isso... porque essas são as regras da nossa faculdade de pensamento. É frequente vermos registo de ditadores que começam a isolar-se, por verem todos como inimigos, quando o maior inimigo é o próprio - porque vê nos outros uma imagem de si. É desse inimigo, que é o próprio, que nunca se libertará, se não se curar.

O máximo simbolismo da omnipotência cristã está na sobranceria de partilhar tudo o que sabe, porque não quer estar em vantagem, quer estar em igualdade de circunstâncias... simplesmente porque não teme o outro, não vê no outro um inimigo, não quer estar em posição de domínio, porque isso apenas o isolaria. É como um adulto que sobrevive numa ilha com crianças... se não conseguisse que as crianças crescessem, iria ter que reencontrar harmonia com os outros, comportando-se como uma criança. A compreensão adulta teria que a guardar para si, ou ficaria na ilusão de que as crianças o entendiam.

Que estão
Uma questão é como um espaço em branco, que falta preencher.
Tanto podemos questionar escrevendo "O que é aquilo?" ou escrevendo "Aquilo é ____".
O espaço em branco deixado para a resposta implica a pergunta.

Para se fazer uma pergunta devemos antes de mais saber se temos consistência para a resposta.
Por exemplo, podemos questionar como funciona um computador.
Agora, que tipo de resposta queremos? Uma completa, que nos permita fazer uma máquina, ou uma resposta vaga que nos remeta para coisas que conhecemos.
A atitude é completamente diferente. 
O sujeito que explica o funcionamento de fio a pavio estará normalmente a perder o seu tempo ao entrar em detalhes, porque quem indaga quer outra resposta, ajustada ao que quer saber. Para esse efeito, uma resposta vaga e imprecisa seria muito mais útil para o receptor.
No entanto, prosseguindo na curiosidade, uma mitologia própria é definida para processos que não se entendem, nem se querem entender. Depois, pode até achar que descobriu coisas novas, que tanto podem ser afinal coisas banais que não quis ouvir logo, como podem ser ideias falsas, como até podem mesmo ser ideias novas. 
Simplesmente a disposição para a comunicação padece de diversos males.
Um dos males é o emissor e receptor falarem de coisas diferentes, parecendo que estão a falar da mesma coisa, porque os contextos e propósitos são diferentes. Uns falam de alhos, e os outros entendem bugalhos.
Por isso, é bom que antes de se questionar se perceba qual seria a resposta que pretendem obter, para o seu conhecimento.

Há assim questões que são colocadas falsamente, porque não pretendem e até ignoram respostas.
Pretendem simplesmente continuar a colocar perguntas... porque sim.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Ré vista (2)

(005) Durante o período de Janeiro a Abril de 2010 devo ter lido mais obras literárias antigas do que julguei possível. Não estava muito interessado em escrever nessa altura, estava muito mais ocupado a ler o suficiente para colar de novo as peças históricas.
A carta enviada por Angelo Poliziano a D. João II, bem como a resposta, foi muito importante para ter uma ideia independente, de como era entendida a figura do rei português no Renascimento italiano.
Angelo Poliziano (1454-94)

Por um lado, a percepção de um rei estrangeiro ao italiano Poliziano, por ele colocado acima de Alexandre Magno, Júlio César, Átila, ou até de Hércules. Por outro lado, pela estória feita história, será ainda uma figura quase desconhecida do protagonismo mundial. A carta tem o lado subjectivo de se propor a um trabalho, ao trabalho que Camões, 80 anos depois, teve que fazer em circunstâncias muito mais difíceis. Camões já pouco podia mencionar em nome de D. João II, o rei que o então já famoso humanista Poliziano queria cantar para a eternidade. Quando Poliziano refere:

                                             Então haveria eu também de absolver de toda a suspeita de falsidade o grande Platão e os annaes seculares do Egipto, que, sem prestarem crédito, fizeram menção d'esse Oceano por ti subjugado com poderosos exércitos.

... parece bastante claro a referir-se à referência de Platão tirada dos anais egípcios sobre a existência da Atlântida, ou melhor da América enquanto fronteira do Oceano Atlântico, a tal "ilha" cujas dimensões se reportavam ao conjunto da África e Ásia. Sobre a subjugação que D. João II terá feito no Oceano Atlàntico é difícil encontrar registos, a menos que nos reportemos à já mencionada presença islâmica na América.

Ambos os correspondentes vão morrer envenenados, e de alguma forma, a resposta de D. João II transmite bem a Poliziano esse perigo funesto.

(006) A questão do Tejo Mahalay, mais conhecido hoje como Taj Mahal aparece no texto seguinte, que começa por abordar a bandeira de quinas em Jerusalem, no Livro de Marinharia.
Foram duas hipóteses lançadas, tendo em conta o domínio completo que Portugal detinha sobre o Índico no Séc. XVI. Não procurei, nem encontrei, mais informação sobre estas possibilidades.
Sobre o Taj Mahal a questão é um mero detalhe da menção "Tejo Mahalay" e da construção de tão imponente monumento num subcontinente indiano sob controlo português, que certamente não se alheavam do Império Mogol sediado na nova Agra.

Mais enigmático é a bandeira portuguesa, a quina com cinco bezantes, estar colocada em Jerusalém em 1514 (ou anos seguintes).
Para nexo suplementar relevam os 3 bezantes de Bolonha (Boulogne), de onde sairiam os irmãos Bulhão, primeiros reis de Jerusalem, e cujo outro irmão Guilherme seria o avô de Afonso Henriques, segundo as investigações de Damião de Goes.
Todos estes irmãos seriam filhos de Eustácio II, Conde de Bolonha, que acompanha em 1066 o ataque bem sucedido do Duque da Normandia, Guilherme I.
Escudos de quinas em Hastings, e a admitida ilustração de Eustácio II,
completando a inscrição apagada de EVSTACIVS que segura uma bandeira 
talvez com uma quina (4 bezantes tem, o bezante central apagado é duvidoso)

O episódio de Hastings em 1066, que forma a base da monarquia inglesa posterior, é interessante.
Primeiro, é um problema de sucessão de Eduardo o Confessor, que gera uma disputa entre 3 candidatos ao trono vacante:
- Guilherme da Normandia,
- Haroldo Godwinson, Conde de Wessex
- Harald Hardrada, Rei da Noruega, aliado de Tostig Godwinson

Segundo a Tapeçaria de Bayeux, que ilustra a pretensão normanda (e é atribuída a Matilde, mulher de Guilherme), o rei Eduardo teria encarregue Haroldo de passar a coroa a Gulherme, seu primo. Numa certa desventura, Haroldo acaba capturado, liberto por resgate pago por Guilherme que o convida a uma investida contra um certo Conan II, então duque da Bretanha, de que sai vencedor.
Lembramos que desde o primeiro Conan, havia uma ligação entre as Bretanhas, e Guilherme terá tratado de afastar a Grã-Bretanha da pretensão bretã. Porém, do lado nórdico ainda aparecia Harald, rei da Noruega a reclamar o trono.
Quando Haroldo regressa e o rei Eduardo morre, é investido como rei pela nobreza Anglo-Saxónica, e a tapeçaria não deixa de colocar o Cometa Halley, que aparece em 1066, como prelúdio dos eventos seguintes.
O já rei Haroldo vê-se confrontado com duas invasões.
De um lado o seu irmão Tostig alia-se ao rei norueguês Harald e desembarcam em Inglaterra, quase ao mesmo tempo que Guilherme desembarca, vindo da Normandia.
Haroldo é vencedor em Stamford Bridge (conhecida no futebol por ser nome do Estádio do Chelsea), parando a invasão do rei norueguês Harald, que é aí morto, tal como o irmão Tostig.
Quadro moderno da Batalha de Stamford Bridge (25/09/1066).
Vitória de Haroldo sobre o rei norueguês.

Haroldo acorre então para Hastings, tentando parar a invasão de Guilherme. Nas ilustrações de Bayeux, ao contrário da cavalaria de Guilherme, o exército de Haroldo irá então lutar apeado.
Em 14 de Outubro, menos de um mês depois de Stamford Bridge, dá-se a Batalha de Hastings, onde os normandos de Guilherme saem vencedores, e Haroldo é morto.
Batalha de Hastings (14/10/1066)
Haroldo é morto por Guilherme da Normandia

A vitória de Guilherme não será imediata, a instalação de uma corte afrancesada encontrará muita resistência britânica. Os normandos provinham da concessão da Normandia a piratas vikings liderados por Rolão. Assim, a Inglaterra manteria a sua ligação a uma corte de origem viking com os normandos, depois de um longo período de domínio de invasões de anglos e saxões que se perdem na mitologia do Rei Artur, de um domínio original bretão.

Este apontamento é interessante porque mostra a importância que tinham aqueles terrenos no Canal da Mancha, da Normandia, de Bayeux, Bolonha, Brabante, Bulhão, etc.
Quando as tropas inglesas desembarcam na Normandia no dia D, há 70 anos, em Junho de 1944, é visto como um regresso para libertar a Normandia natal de Guilherme, a quem remonta a monarquia inglesa.
Aliás, até ao Séc. XIII a Normandia continuava a fazer parte dos domínios dos reis ingleses, situação que levou aos problemas da Guerra dos 100 anos, já que a troca da Normandia com a Guiana (na Aquitânia francesa) não resolvia essa velha ligação normanda à França.

A participação de Eustácio II, conde de Bolonha, ao lado de Guilherme, ganha especial relevo quando são os seus filhos, e muitos nobres da Normandia, que irão estabelecer o Reino de Jerusalém.
Entre 1066 e 1099, nesses 33 anos, a Normandia aparece na invasão da Inglaterra e da Terra Santa.
Segundo Damião de Góis, o próprio Conde D. Henrique seria neto de Eustácio II, pelo que a primeira dinastia seria Bolonhesa e não Borgonhesa.
Esta ligação à Bolonha francesa seria depois indiscutível com Afonso III, o Bolonhês, que é Conde de Bolonha por casamento com outra Matilde. Afonso III irá depor o irmão Sancho II e terminar a conquista do Algarve. 

A quina, com o número de bezantes em 5 ficou só definitivo com D. João II, e inscrições anteriores mostravam escudos até com maior número de bezantes. O número de bezantes fixado para Bolonha passou a 3, mas também variou, e podemos ver nas ilustrações de Bayeux cavaleiros com maior número de bezantes nos seus escudos.

A única informação nova, face ao já exposto antes, será assim a associação de Eustácio II a esses escudos com bezantes, provavelmente 5, que irão definir também o símbolo português. O filho, Godofredo de Bulhão, primeiro regente de Jerusalém, será associado também ao número cinco, com o símbolo de cinco cruzes.

(007) Ainda nas paragens do Mar do Norte, temos o texto Navegações Islandesas que retrata os relatos das navegações vikings que teriam chegado à América. É o conhecido período de expansão viking, que leva Rolão à Normandia como duque em 911, mas também Eric, o Ruivo, à Gronelândia em 982, e o depois o seu filho Leif Ericson à América.
Convirá referir que até ao Séc. XIII a cristinização da Escandinávia era escassa, e portanto um dos objectivos da Igreja foi também inserir a ameaça viking no quadro aristocrático europeu... de forma semelhante ao que tinha sido feito nas invasões bárbaras.
Os piratas vikings passaram a normandos, e esses normandos serviam as Cruzadas. De inimigos em raides mortais contra mosteiros e populações, os vikings iriam ser inseridos na sociedade e aristocracia europeia pela "porta grande".
O que começou na Normandia prosseguiu com a cristianização da Escandinávia.
Stavekirke Borgund - Séc. XII - Primeiras igrejas na Noruega

Um dos aspectos curiosos na Tapeçaria de Bayeux é ilustrar o irmão de Guilherme, o Bispo Odo na sua vertente militar, com uma maça a incentivar os cavaleiros.
Essa vertente de monges militares, que tem em 1066 com Odo o seu primeiro registo visível, terá depois sequência nas Cruzadas com toda uma lista de Ordens militares de monges guerreiros.

(008) Sobre o texto Tagus Aureo é importante a citação de Juvenal, e de outros autores romanos, acerca da riqueza do Tejo enquanto fonte interminável de ouro!
Aparentemente seria algo que rivalizaria com as míticas lendas de Midas e Creso, ligadas ao minúsculo rio Pactolus, na Lídia (Turquia).
É ainda feito aqui um primeiro avanço sobre as associações à mitologia que remeterá a Ulisses de Olissipo, mas mais a Calipso, pelo nome Calipos dado ao Sado.
A associação pelos nomes serve apenas como pista e não é nenhum tipo de prova.
O que é uma prova de bom-senso é que Ulisses não iria ficar perdido no Mediterrâneo, e portanto a sua viagem foi muito além do circuito clássico. Encarar Tróia como vizinha à Grécia também não faz qualquer sentido. Ítaca estava mais longe de Micenas do que Tróia... o cerco de 10 anos que tinha afastado os gregos da pátria seria ridículo com uma Tróia ali ao lado na Turquia.
Há limites para o ridículo... e Homero não era certamente ridículo.