quinta-feira, 21 de julho de 2011

Marco Polo... mapa com barco!

A Maria da Fonte publicou a existência de um enigmático mapa, na Biblioteca do Congresso Americano, que estará associado a Marco Polo, aí também entitulado "map with a ship", que contém inscrições chinesas, e também comentários no dialecto veneziano.
As conexões entre a região apresentada e o norte do Pacífico, são evidentes...
Pode ver-se claramente a zona do Estreito de Bering (ou Anian), e representadas as Aleutas, o mar de Okhotsk, o Japão, e outros contornos do sudeste asiático, por um lado, e o contorno do Alasca, por outro... conforme se procura tornar claro nesta comparação:
Na outra parte do mapa, encontramos um desenho de um barco, com uma vela triangular, conforme notou a Maria da Fonte, e algumas legendas relativas ao mapa que se encontram descritas no site.
Para além do barco com vela triangular, e do texto, encontramos uma caixa
com o que seria a assinatura do cartógrafo (Marco Polo),
onde se vê enquadrado pelo C, M, A, O, O e eventuais P, L inseridos.

O mapa está datado c. 1290, mas a proveniência não é confirmada, nem a autenticidade.
As notas associadas ao mapa são as seguintes:
  • The map, in its ornamental frame, occupies the right side of the sheet. Drawing of a ship and an eight-line explanation of Roman numerals on left side of the sheet.
  • Place names in Arabic. Chinese in two columns, on right side of map. Text in Venetian Italian.
  • Undetermined authenticity.
  • Provenance unverified.
  • Pen-and-ink.
  • Further description of map appeared in article: Bagrow, Leo, 1948. The maps from the home archives of the descendants of a friend of Marco Polo. Imago Mundi, vol. V.
  • Includes key to identifying countries and regions designated by Roman numerals.
  • Translation of the explanation of Roman numerals: Marco Polo. 
  •        I. India and the adjacent islands, according to what the Saracens say. 
  •       II. Cattigara of Tartary, island of Zipangu and adjacent islands. 
  •      III. Peninsula of the Sea Lions. 
  •     IV. Islands connected with the Peninsula of the Deer situated 2 to 4 hours of difference from the walled provinces of Tartary.
  • Given to the Library of Congress in 1935 by Mr. Marcian F. Rossi, a retired merchant, who considered himself a descendant of a friend of Marco Polo.
É claro que se poderia tratar de uma falsificação muito sofisticada, mas se alguma coisa espanta neste mapa é a ausência de interesse... ao ponto de ninguém ter-se preocupado em fazê-lo, desde 1935 (data da oferta reportada), e a pouca divulgação que o mapa tem.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Alberigo e Amerigo - Américo e a Merica

Na sequência da posta anterior sobre A Merica, e começando a faltar saúde e paciência para tanto encobrimento de "gato escondido com o rabo de fora"...

A teoria vigente sobre a nomeação da América, está directamente ligada ao mapa de Waldseemuller.
Nesse mapa de 1508 surge pela primeira vez o nome AMERICA.
Este A em AMERICA, com o traço superior, vindo da esquerda, 
não se encontra em mais nenhuma parte no mapa, nem nos A de Africa ou Asia...

Usamos aqui o texto de Jonathan Cohen que é bastante ilustrativo sobre a versão oficial, mas dando também oportunidade a outras teorias.
A partir da sua menção sobre Jan Carew e a teoria "Amerrique", diz o seguinte:
Carew moves from the "fictions" of Columbus to those of Vespucci with these striking words: "Alberigo Vespucci, and I deliberately use his authentic Christian name, a Florentine dilettante and rascal, corrected Columbus's error [thinking he had found the Orient] … Vespucci, having sailed to the American mainland declared that what Columbus had indeed stumbled on was a New World."
Cohen diz que isto é falso, e é mais específico:
Vespucci was born in 1454 in Florence, where he was baptized, according to the official record, "Amerigho" — not, as Carew asserts, Alberigo. 
"Official record" - temos aqui um problema de seriedade...
A capa do livro que mostramos é de Fracanzano da Montalboddo, de 1507, com o título
Paesi nouamente retrouati et Nouo Mondo da Alberico Vesputio 

Se o silêncio irrita, irrita mais a mentira fabricada. Jan Carew tinha razão, o nome chegou a ser Alberico e não Amerigho, como Cohen pretendia argumentar com a sua "versão oficial".

Mas não só... junto ao espécime "raríssimo", encontrámos uma carta anexa de 1968 do "antiquário":
Este "natural sigilo" terá desaparecido no que diz respeito a esta obra, que foi parar ao domínio público... porém, será caso raro! Do pedreiro ao dono da obra, passando pelo empreiteiro, todos têm o seu pequeno motivo para serem cúmplices, a troco de qualquer coisa... neste caso 8 contos de réis (de 1968)!

Como é óbvio se o nome era Alberico, não foi a América que tomou o nome de Vespúcio, foi Vespúcio que tomou o nome de Américo, para ser associado a Merica.
Os feitos de Américo, para além de estar associado à trapaça, terão sido outros. Como já aqui falámos, Vespúcio terá integrado a expedição de Gonçalo Coelho, que poderá ter atingido a Antártida... algo importante de ser escondido, ao ponto de lhe encontrarem um outro pedestal, onde o arrumar.

Quanto a Alberico, lembramos Alberich... o nome do personagem que Wagner colocou como guardião do Anel dos Nibelungos. Se há quem tenha ilustrado de forma sublime o problema subjacente, foi sem dúvida Wagner... que preconizava como finale o crepúsculo dos deuses - Götterdammerung:

domingo, 17 de julho de 2011

A Merica e a longitude

Longitude
Acerca da longitude já tínhamos aqui citado António Carvalho da Costa que, em 1682, e com breves palavras, mostrava como era possível saber a correcta longitude de lugares através da observação de eclipses. 
Sendo a latitude um problema mais fácil, ficava aí claro que eram conhecidos métodos eficazes para determinar a posição recorrendo apenas a observações astronómicas. O interesse pelos eclipses lunares seria especialmente um interesse geográfico, com vista a uma correcta cartografia. Assim, a tabela de eclipses de 1534, de Jerónimo Chaves, indiciaria isso mesmo.

Encontrámos agora outro texto, de Manuel de Figueiredo, de 1603, que coloca as coisas de forma mais clara, confirmando as nossas suspeitas de que essa técnica seria bem mais antiga. 
O texto de Figueiredo é mencionado na literatura (veja-se por exemplo aqui) especialmente porque detalha a construção da balestilha, instrumento prático para a determinação de ângulos, e apropriado para a latitude. 
Aqui interessa-nos a questão da longitude, mais complicada.
"Como se acharam as longitudes das terras.
- é este o título do Capítulo XIII da "Chronographia e Repertório dos Tempos", publicada em 1603 por Manuel de Figueiredo. Começa dizendo:
Grande foi o trabalho que os geógrafos tiveram em achar as longitudes das terras, as quais observaram pelos eclipses da Lua e do Sol, & não haviam de ter tão pouco em a todas elas buscarem a longitude, porque nem todos os meses há eclipses para as poderem mostrar (...)
Não especifica quem foram os geógrafos, nem quando... apenas explica como se processou: 
Punham-se dois geógrafos em duas terras (...) esperavam o dia e hora a que havia de acontecer (...) observavam a que hora começava & cotejada uma observação com a outra, a diferença que entre elas havia essa era a longitude(...).
... algo que já tínhamos suspeitado como sendo o método usando "enviados do reino".
Duas páginas à frente faz referência às vantagens da "pedra de sevar" (magneto) que teriam marcado a diferença face aos "antigos"... e somos levados a concluir que implicitamente considerava que o processo de eclipses para a longitude era já conhecido desses "antigos". Figueiredo sugere que teria sido o magneto a marcar a diferença, pois esses antigos se restringiam ao hemisfério norte com medo de perder a Estrela Polar... que é outra maneira de dizer que tinham medo de "perder o norte", de ficarem desnorteados!


Merica
Talvez mais interessante é o detalhe de Figueiredo designar a América como "A Merica". Isso poderia passar por erro tipográfico, mas é demasiado propositado para ser qualquer erro acidental:


Menção a "a Merica" e "America", por Manuel Figueiredo

Se já havia algumas suspeitas do nome América não estar necessariamente ligado a Amerigo Vespúcio, creio que esta obra de Figueiredo vai exactamente nesse sentido... 
A Merica e não América

Fomos encontrar uma canção dos emigrantes italianos que povoaram o Rio Grande do Sul:
Dalla Italia noi siamo partiti; Siamo partiti col nostro onore;  
Trentasei giorni di macchina e vapore, e nella Merica noi siamo arriva'. 
Merica, Merica, Merica, cossa saràlo 'sta Merica? 
Merica, Merica, Merica, un bel mazzolino di fior. 
Trata-se do dialecto do Veneto (Veneza), que tira o A a America, e aparece como uma clara desfaçatez veneziana ao compatriota, mas rival florentino, Amerigo...

Haverá outro sentido para a simples palavra Merica?
O google e a wikipedia têm destas coisas, e fomos parar imediatamente a 
- merica: palavra indonésia com raiz no sânscrito que significa a especiaria pimenta.

Afinal, como chamam os ingleses a um tipo de pimenta? 
- Chili pepper... chegando mesmo a escrever Chile pepper.
A pimenta ou malagueta sempre esteve associada à comida mexicana, azteca e também inca. É claro que também é parte da cozinha indiana, e isso pode reportar perfeitamente uma rota de especiarias que se prestava a unir as índias orientais e ocidentais sob a conveniente confusão!

Ou seja... quando os nossos descobrimentos seguiam na rota da Pimenta, é mais natural que estivessem a seguir a rota da Merica. Como dizia Figueiredo: "a cobiça de reinar abriu o caminho para descobrir tantas riquezas quantas neste novo mundo há"...


Se o nome é anterior a Américo Vespúcio, esta semelhança entre "a Merica" e "Americo" pode ser um caso que já abordei num comentário que aqui fiz - a importância de se chamar Ernesto, neste caso Américo!

sábado, 16 de julho de 2011

Portas do Ródão

Nesta sequência de "portas", e tal como Olinda, também nos lembrámos das Portas do Ródão... e que estariam na zona atribuída aos Carpetanos, povo ibérico.
Aqui falha-nos o último volume de Pinho Leal que poderá ter algum comentário a propósito de Vila Velha de Rodão. Encontrámos menção a Vila Velha de Ródão na Corografia (1708) de António Carvalho da Costa, mas não especifica o que significará "velho" neste caso, poderá remeter-se à formação da nacionalidade, ou anterior. Nos territórios adjacentes, mas em ponto bastante mais elevado, encontra-se o Castelo de Wamba (ou Vamba).
Um bom texto relativamente a reabilitação arqueológica desse Castelo e da Capela próxima, pode ser encontrado na Associação de Estudos do Alto Tejo.

Focando-nos mais na Portas do Ródão, começamos por uma gravura antiga, de 1823 (por William Westall)
Passage of the Tagus at Villa-Velha  (Westall, 1823)

Quer-nos parecer que a paisagem mudou consideravelmente, já que as escarpas parecem na gravura muito mais acentuadas, se atendermos a imagens mais recentes da mesma vista de jusante (poente):

Podemos falar em exagero do artista... porém não parece ser o caso de Westall, e temos alguma confirmação da diferença pela imagem vista do lado nascente (C. Turner, 1811):
Pass of the Tagus at Villa Velha into Alemtejo (C. Turner, 1811)

Parece ter havido entretanto uma erosão acentuada, já que as imagens do Séc. XIX dão uma ideia de cortes limpos, quebrando a rocha a pique, algo que se terá atenuado significativamente nestes séculos seguintes. Por outro lado, nota-se na imagem de Turner que o rio seria razoavelmente baixo, não se notando o forte caudal. Sobre esse assunto, fomos encontrar uma outra referência:
A pouca distância do porto de Villa-Velha, corre o Tejo por entre dois altos montes de finíssimo mármore, formando uma espécie de garganta, a que chamam as portas do Rodão. Pelas influências do, Marquez de Pombal se fez o mesmo, rio navegavel até ao porto de Villa Velha, que fica dentro desta garganta. Junto do porto havia huma Fazenda e Casas, em cuja porta se viam as armas, do Marquez, que são huma Estrella entre uma, quaderna, de crescentes.   (Poesias de Cruz e Silva, 1805)
Ou seja, concluímos que os cortes abruptos, vistos nas gravuras do início do Séc. XIX, eram provável resultado da "fresca intervenção" do Marquês de Pombal, no sentido de tornar o rio mais navegável.
Tal como acontecia com o Rio Douro, que tinha uma forte cascata perto de S. João da Pesqueira, chamado o "Cachão do Douro", é possível que algo semelhante se passasse nas Portas do Rodão.
Acrescentamos este texto de J. J. Forrester (1854):
The Tagus (that beautiful river which our forefathers used to ascend without difficulty as far as Toledo [cf. Faria e Sousa]) has been fearfully neglected. During the winter season, in some situations, the current is five feet per second; and at the place called Vallada, where the river is 1330 feet wide, the volume of water that descends in that time is not less than 100,000 cubick feet. At the Portas do Rodão, 150 feet wide, the current is twelve feet per second; so that a volume of 7776 millions of cubick feet of water passes through this gorge in one day.
The Portas do Rodão, on the Tagus, are similar to the Cachão on the river Douro, that is to say, during the wet season, the passage being narrow, the river above naturally overflows its banks, and lays the country under water. Now one of two things,— either widen the passage to give egress to the waters, or store them up for irrigation purposes, preserves for fish, &c. The idea is not originally ours. It is the conviction of the much-injured and persecuted Portuguese author, Bento De Moura (born 1702), who proposed to construct a dam and form an enormous deposit of water, 20 leagues square, during the winter, so as to leave its rich deposits and manure on the land, and prepare it for cultivation in the summer. "Rivers," says Senhor de Moura, "bring down earth in proportion of 15 to 1 of sand. From 5 to 25 years, 1000 moios of earth would be deposited, and would produce 10,000 moios of grain, or in a few years the deposits would yield ten times their weight in grain."
Ou seja, no sentido inverso ao do Marquês, Bento de Moura tinha proposto construir uma barragem.
Isto é interessante, pois podemos ter uma ideia da consequência dessa barragem:
Por uma simples inspecção de altitude a 200 metros (as montanhas laterais ultrapassam os 300 m), o terreno formaria uma bacia natural que se estenderia até Idanha-a-Nova, criando um lago artificial... seria esta a ideia de Bento de Moura. Assim, se havia alguma represa natural de água, parece certo que o Marquês acabou com ela... e com um nível baixo, a navegabilidade ficou também comprometida, excepto para pequenas embarcações, conforme se pode ver nas gravuras.

As gravuras não mencionam o nome Ródão... o acrescento de Ródão a Vila Velha pareceu-nos ser posterior às invasões francesas, mas o registo de 1708 não deixa dúvidas sobre a origem anterior do nome. Não queremos deixar de notar uma associação fonética de Ródão a Ródano, e alguma semelhança na paisagem das Gargantas do Ródano (Rhône)... 
Gargantas do Ródano (imagem)

Castelo de Wamba
O rei visigodo Wamba (672-680) ficou ligado a uma antiga fortaleza, no monte norte das Portas do Ródão, da qual ainda se mantém uma torre quadrada interessante:
Torre de Wamba (Portas do Rodão)

A associação a Wamba é discutida, mas atendendo a que os visigodos tiveram o cuidado de renomear Idanha como Egitania, reconstruí-la depois da destruição sueva... e outros detalhes (Pinho Leal diz que Wamba seria natural da zona), mostrará o interesse que os visigodos tiveram pela região.

Com as Portas do Ródão fechadas ao Tejo, este formaria um lago interior que se estenderia até à zona de Idanha-a-Nova, e anteriormente talvez mesmo próximo de Idanha-a-Velha. Estas vilas que aparecem hoje como isoladas nos limites montanhosos da Serra da Estrela, poderiam ter tido um lago natural resultante da acumulação de águas do Tejo. Uma primeira cedência da rocha teria causado a deslocalização de Idanha-a-Velha para Idanha-a-Nova, mas a ideia de navegabilidade do Marquês teria terminado com qualquer ideia de recuperar o lago interno, conforme parecia pretender Bento de Moura.

Pinho Leal diz que "alguns" davam também o nome de Hircania a Idanha-a-Velha (que diz ser uma das primeiras vilas lusitanas, fundada c. 500 a.C.)... lembrando-nos que o mar Hircanio era exactamente a designação do Cáspio, não deixamos de ver aqui uma alusão a um mar interno. Egitania foi um bispado importante na época visigoda, e a cidade terá mudado de nome para Eydaia na época árabe, de onde viria o nome Idanha. A nova Idanha parece ser só mencionada já com D. Sancho I.

Serras
Sendo uma zona de grifos, e outras aves de rapina ou não, em belos parques naturais, não deixamos de mencionar outras "portas" semelhantes, na vizinha Extremadura espanhola.
Salto do Gitano - o Tejo no Parque Natural de Monfrague
--- Canchos de Ramiro


Canchos de Ramiro e ponte sobre o Alagon 
(afluente do Tejo) [imagens]

Ou seja, as portas do Ródão não são muito diferentes da paisagem que o Tejo e afluentes fazem ao "furar" as serras da Extremadura ou Alentejo.
E aqui convém mencionar a noção de "Serra"... porque é nestas formações que ela ganha sentido.
Estas formações características da Estremadura espanhola e portuguesa, ou do Alentejo, surgem como linhas montanhosas bem definidas como se pode ver no mapa (em cima, também na zona de Castelo de Vide/Marvão). São praticamente linhas montanhosas singulares cujos "dentes" são os picos oscilantes... e por isso têm verdadeira analogia com a noção de "serra", da lâmina de corte. A generalização desta palavra a qualquer conjunto montanhoso fez perder a particularidade destas formações quase laminares. Não havendo distinção particular entre o nome desta estrutura "de serra" e os conjuntos montanhosos, poupa-se qualquer justificação particular para a singularidade que estas montanhas exibem enquanto serras - linhas bem definidas de montanhas que aparecem como autênticos muros na paisagem.


Nota: (17/07/2011)
Texto consideravelmente reeditado e corrigido no dia seguinte, por nos ter escapado a menção a Vila Velha do Ródão na Corografia de António Carvalho da Costa, de 1708:
A Villa Velha de Ródão fica cinco léguas de Castelo-Branco para o Sul, & está fundada num tezo, que banha o rio Tejo: tem 160 vizinhos com uma Igreja Parroquial, Vigararia da Ordem de Christo, & Commenda, de que é Comendador o Conde de Atouguia; tem mais Casa da Misericordia, & uma Ermida de N. Senhora do Castelo, imagem milagrosa, aonde concorre em romaria muita gente do Alentejo, & de outras partes. O seu termo é fertil de pão, azeite, linho, & tem muita caça, & colmes, com algum vinho.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Às Portas Cáspias

A progressão de Alexandre Magno em direcção ao Oriente tem um episódio que foi retratado num romance iniciado no Séc. III, com variações no primeiro período medieval, denominado o "Romance de Alexandre". As variações incluem uma exploração subaquática do próprio Alexandre... 
Romance de Alexandre (edição russa, Séc. XVII)

... o que pelo menos mostrará que a ideia de explorar os fundos marinhos não foi certamente ideia recente, e esteve presente, pelo menos no imaginário humano, desde a Antiguidade.

Porém o episódio que talvez tenha ficado como mais simbólico é a estória de Alexandre definir uma muralha contra Gog e Magog, personagens bíblicos, episódio que até se encontrará mencionado no Corão (na identificação de Alexandre a Dhul Qarnayn).
A ideia terá sido construir uma muralha (ou portas de ferro...) para impedir uma invasão dos povos do norte, descritos como Gog e Magog, enquanto gigantes lendários. Esta invocação tem sido atribuída a uma tentativa de controlar invasões do Norte, e diverge desde se considerar o perigo das Amazonas, o perigo dos Godos, ou até a ameaça Mongol. Neste último sentido é atribuída uma confusão entre a muralha de Alexandre e a própria muralha da China... feita com o mesmo propósito!
No sentido de associar os Godos a Gog fala-se na semelhança do nome (Goth e Gog), e finalmente o próprio romance estabelece uma relação com Taléstris, uma rainha amazona. 
A conexão com as rainhas amazonas tinha já outro protagonista anterior. 
Com efeito, a rainha amazona Tomiris (ou Thamiris), como vingança da morte de seu filho, teria ordenado que a cabeça de Ciro fosse mergulhada em sangue:
Rubens: a cabeça de Ciro é entregue a Tomiris 
A história oficial não confirma este funesto destino para Ciro, o Grande, que assim terminaria a sua imensa saga de conquistas numa vingança Amazona. Há alguma consonância em reportar a sua morte em batalha com os Citas... designação geral onde se poderiam enquadrar as Amazonas, ou pelo menos uma rainha Tomiris.

No mesmo sentido, Alexandre Magno parece ter reportado uma proposta de casamento com uma princesa ou rainha dos Citas, que poderia ser Taléstris, entendida enquanto amazona.
Parece haver uma certa relutância em aceitar um reino com um poder no feminino, neste caso o reino das Amazonas, sendo que há diversas evidências de sociedades matriarcais. Por outro lado, constata-se ainda que todos os grandes impérios da Antiguidade tiveram como limite de progressão as paragens mais setentrionais... os romanos debatiam-se dificilmente com os godos, e parece nunca terem conseguido um controlo sobre a parte norte do Mar Negro.

Conforme temos aqui insistido, é bastante natural que a configuração geográfica fosse especialmente diferente, e estava a alterar-se na altura de Alexandre (ou mesmo já de Ciro), com a diminuição do nível do mar. As terras contíguas aos montes Urais deixavam de estar isoladas enquanto ilhas num Oceano setentrional, e ao fechar-se progressivamente num Mar Negro, por um lado, e num Mar Cáspio, pelo outro... tornava mais real a ameaça de invasão por povos desse mítico Norte de citas, tártaros, ou amazonas...
Um desses pontos de ligação seria exactamente o istmo (ou península) caucasiana.
A construção de uma defesa que permitisse evitar a invasão terrestre, que entretanto se tornava possível, aproveitando a cadeia montanhosa do Cáucaso, é algo que parece fazer sentido estratégico.

Portas Cáspias de Derbent
Essa linha de defesa foi aliás efectuada em Derbent.
As Portas Cáspias de Derbent parecem datar pelo menos do período sassânida persa, mas podem bem assentar numa linha de defesa já anterior. Uma parte é mesmo conhecida como Muralha de Alexandre, e ainda que não seja reportada a Alexandre, pode bem resultar de uma construção Seleucida, imediatamente posterior.

 

Portas Cáspias de Gorgan
De forma semelhante, na parte sudeste do Mar Cáspio, estão as Muralhas de Gorgan, já datadas pelo menos até ao império Parto-Persa, império sucessor dos Seleucidas macedónicos, em 247 a. C. Estas muralhas estendem-se por uma vasta linha, que as torna segundas em comprimento, com 195 Km. Sendo claramente superadas em extensão pela imensa Muralha da China, o propósito seria possivelmente o mesmo, evitando uma invasão tártara pelas margens do Cáspio.
  

Como Gorgan estaria na rota de progressão de Alexandre, pode ser considerado mais natural associar-lhe estoutra muralha. Porém, parece mais natural que no curto e intenso reinado de Alexandre apenas se possa ter planeado tal empreendimento. Qualquer concretização ligada a Alexandre deverá ser relegada para a dinastia do seu sucessor, o general Seleuco.

Gog e Magog
O Mar Cáspio que agora tende a desaparecer, seria a zona de defesa perante as ameaças de Citas, Tártaros ou Mongóis. A identificação dos gigantes bíblicos Gog e Magog (neto de Noé) aos Citas é feita por Flávio Josefo, com uma conotação de povos bárbaros, e que são até ligados ao Apocalipse!
Independentemente disso, os gigantes Gog e Magog são até considerados como patronos da City de Londres e estão ligados a mitos de gigantes nas ilhas britânicas:
Caricatura que mostra como os gigantes Gog e Magog 
sustentam o Paddy inglês.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Carpo

Como complemento dual ao texto Tarso, ficaria incompleto não falar do Carpo, mesmo que pareça ser algo que surge do pé para a mão...
Os primeiros RX de Roentgen, em 1896.

Há sempre alguma dúvida em fazer associações, porque é muito fácil associar coisas completamente distintas, sem que haja necessariamente uma relação. Esse é o caminho restritivo, que conhecemos bem, que nos guia na precaução, mas que não deve conduzir à inibição.
Neste caso do "carpo" a linha condutora não tem a mesma sustentação do "tarso"... tem a sua própria razão.

Cárpatos
Os Cárpatos são montanhas que se estendem da Eslováquia, pela Polónia, Ucrânia, e Roménia até à fronteira Sérvia. O nome das montanhas foi apontado por Ptolomeu e associado a um povo denominado Carpos
Ora, indo recuperar um mapa anterior (sobre a viagem de Jasão), reparamos que as montanhas dos Cárpatos estão praticamente coladas às montanhas dos Balcãs: 

relembrando que já havíamos referido a particularidade da região húngara aparecer como uma planície  ao nível do mar, que assim aparece neste mapa colocada como lago.
O notável é que estas duas grandes cadeias montanhosas separam-se nas chamadas Portas de Ferro, sulcadas pelo curso do Danúbio, numa extensão de 134 Km.
Danúbio nas Portas de Ferro

O Danúbio esculpiu uma paisagem de gargantas, entre as duas cadeias montanhosas, no seu percurso para nascente, que termina no Mar Negro. 
Não foi só o Danúbio que foi escultor nas Portas de Ferro...

Quem fizer o cruzeiro pelo Danúbio, ficará certamente surpreendido por uma enorme escultura na montanha invocando Decebalus, que foi feita entre 1994 e 2004, por um promotor romeno, Constantin Dragan... fecit. Para além das dificuldades inerentes à obra, não devemos esquecer que este período de dez anos inclui uma turbulência na zona, não tanto na parte romena, mas mais na parte sérvia.
Uma estátua desta dimensões num pilar natural do rio, não deixa de despertar a invocação de Tolkien, no filme "Senhor dos Anéis", relativa aos "pilares dos reis" da "terra média". Constantin Dragan, sendo historiador pode apenas ter querido homenagear o mítico rei Decebalus, mas a obra também não deixa de sugerir que naquelas Portas podem ter estado esculturas que o "tempo" apagou...
Filme "Senhor dos Anéis" - pilares dos reis

Não longe, encontra-se a célebre Ponte de Trajano, de que já aqui falámos, a propósito "de uma ponte de Lisboa há muitos mil anos".

Esboço da Ponte de Trajano sobre o Danúbio (comprimento ~ 1 200 metros);
Vestígios da ponte (princípio do Séc. XX); Placa de Trajano (Tabula Traiana)
... o que resta depois da construção da barragem Dardap I em 1972, que submergiu o conjunto.

Na sua expedição contra os Dácios, Trajano terá derrotado Decebalus, que se suicida para evitar o cativeiro, cortando a própria garganta, conforme ilustrado no relevo romano:
Relevo invocando a morte de Decebalus, derrotado por Trajano

O anel dos Cárpatos completa-se juntando a Iliria, as montanhas balcânicas, fechando como uma bacia Ilíaca sobre a planície húngara. A divisão entre os Cárpatos e os Balcãs surge singularmente como uma brecha nos Portões de Ferro (que não devemos confundir com a Cortina de Ferro, ainda que a sua divisão com uma Jugoslávia neutral tivesse passado por esse ponto do Danúbio). 
Esta brecha chega a reduzir-se a 150 metros de largo, mas com 53 metros de profundidade... um trabalho de erosão notável para o Danúbio, podendo mesmo dizer-se quase de precisão cirúrgica! 
Essa erosão é tanto mais um prodígio "natural" se atendermos a que o rio desde a zona de Budapeste vai serpenteando calmamente a Hungria a um nível próximo de 100 m até chegar a Belgrado, com aproximadamente 80 m de altitude... são muitos milhares de quilómetros de extensão, com uma inclinação reduzidíssima, até desaguar no Mar Negro.


Carpetani
Carpetanos era ainda o nome de um dos povos ibéricos assinalados por Estrabo. Ao falar no Tejo diz:
The river contains much fish, and is full of oysters. It takes its rise amongst the Keltiberians, and flows through the [country of the] Vettones, Carpetani, and Lusitani, towards the west;
Portanto os Carpetanos viveriam provavelmente na zona montanhosa da Extremadura espanhola, sendo "vizinhos" dos Lusitanos. É claro que aqui convém não ignorar que etimologicamente temos a palavra "escarpa", que era ainda latina, e que se liga a uma possível origem dos "carpos", tendo o significado de rocha na língua albanesa, na Ilíria. 
Estrabo diz ainda que devido à estóica resistência Galaica, muitos dos Lusitanos tinham passado a designar-se como Galegos.
Já aqui mencionámos que a Galicia era uma região da Ucrânia (e Polónia), convém agora dizer que esta região se situa exactamente na zona dos Cárpatos, nesses países.
A Roménia tem ainda o episódio singular de manter uma língua latina, com a desculpa de ter resultado de uma política romana de colonização agressiva, que basicamente teria substituído os Dácios de Decebalus por colonos romanos. 
Porém, estoutra eventual ligação deixa outra pista para essa ligação linguística... poderia acontecer que esses povos - em partes tão distintas - estivessem ligados por uma língua e cultura semelhante.
Essa conexão seria marítima, não através do Mediterrâneo, mas sim através da costa oceânica europeia, que se estenderia com ligação até ao Mar Negro... até que essa ligação desapareceu, com o fecho final do Tanais. 


Lethes
O que aqui falamos é de uma possível conexão entre povos em extremidades diferentes, e de um esquecimento, tal como o simbolizado pelo Rio Lethes - Lima. Estrabo menciona um outro detalhe relativo à lenda do esquecimento no Rio Lima. Se já tínhamos mencionado a ligação entre os nomes a norte (como Astorga) e os nomes a sul (como Conistorga), e as desavenças internas que podem até ser reflectidas no nome "Endovélico", Estrabo conta que o episódio que teria dado fama ao Lima resultava de uma desavença, da morte de um líder, e da dispersão dos que habitavam as margens do Guadiana para norte do Lima:
Around it dwell the Keltici, a kindred race to those who are situated along the Guadiana. They say that these latter, together with the Turduli, having undertaken an expedition thither, quarrelled after they had crossed the river Lima, and, besides the sedition, their leader having also died, they remained scattered there, and from this circumstance the river was called the Lethe.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sair da Foz

Umas ruínas, das mais interessantes que se encontram em Portugal, são as da chamada "alfândega" de Salir do Porto:
Estando razoavelmente abrigadas do mar e da rebentação, a degradação das ruínas tem-se mantido branda ao longo das últimas décadas, e será talvez caso único de edifícios muito antigos, que ainda se encontram junto à orla costeira. A entrada da barra de Salir e S. Martinho do Porto serviria uma extensa baía que se estenderia até Alfeizerão, que era o Porto marítimo, muito importante até ao Séc. XVII, conforme já aqui assinalámos, havendo diversa documentação.

Diz Pinho Leal que o nome Salir do Porto será etimologicamente "Sair do Porto", pois o verbo "sair" dizia-se "salir", tal como ainda acontece em espanhol. Curiosamente, diz ainda que "salir" tinha outro significado antigo, o de "falecer"... e ao contrário do que chegámos a pensar, "salir" nada parece ter a ver com "salinas".

Originalmente a povoação chamar-se-ia "Salir da Foz", talvez invocando a foz do rio Tornada, ainda que hoje este se trate basicamente de um ribeiro. Pinho Leal não deixa de referir que se trata de uma povoação muito antiga:
Esta povoação é antiquissima, e ficava a pouca distância da famosa cidade da antiga Lusitania chamada Eburobriga.
Na sequência de registo já aqui colocado sobre a zona contígua da Pederneira, e pedras da Serra da Pescaria, importa observar as ruínas do edifício da "alfândega":
Parece-nos claro que podemos identificar diferentes tipos de construção sobre a mesma estrutura.
A parte do topo, mais recente, identificada por (1), é a que se encontra predominantemente em todo a estrutura dos edifícios adjacentes. Trata-se de um muro conglomerado de pequenas pedras irregulares, o que contrasta significativamente com a base que tem ficado visível. A parte seguinte mostra uma base de pedras bastante maiores, umas que estariam predominantemente à superfície (2), e outras que devem ter estado quase sempre imersas (3) e (4). A estrutura, especialmente da junção das pedras (4) denota uma construção regular antiga diferente da colocada depois em (3) e (2), provavelmente numa época romana, e especialmente da estrutura superior, provavelmente medieval. É possível que a estrutura (4) remonte a tempos anteriores aos romanos, dando razão à menção "antiquíssima" dada por Pinho Leal.

Estas ruínas do edifício da "alfândega" estão numa zona exígua, em que ainda hoje há pouco (ou quase nenhum) espaço entre o íngreme monte e a água. A povoação de Salir do Porto está situada bem mais longe, fora da zona da praia, talvez num nível que antigamente fosse apropriado ao nível marítimo. Estes edifícios surgem assim fora do conjunto da vila, e ainda que a finalidade fosse a alfândega ou outra (fala-se também na reparação de navios ao tempo de D. Dinis, ou da construção(!) da nau São Gabriel...), há ainda hoje um motivo de atracção, que leva aquele ponto muita gente das redondezas. Trata-se da chamada "Pocinha" de Salir, que é uma fonte de água doce que brota no meio das rochas marítimas. Tem apenas um cano largo, de aspecto muito antigo, por onde a água jorra abundantemente há séculos... e poderá ter servido como fonte de abastecimento de água natural, antes da saída dos navios para alto mar. Hoje há ainda alguma romaria local a essa fonte de água, baseada numa tradição popular de propriedades medicinais...

No topo desse monte, promontório sul da barra, do lado de Salir do Porto, encontra-se ainda uma capela em ruínas, denominada Capela de Sant'Ana, sobre a qual não consegui encontrar muitos pormenores - aparenta ter estado já abandonada na época do censo do Marquês de Pombal.
A sua construção parece basear-se no mesmo conglomerado que vemos na "alfândega", provavelmente de época medieval, mas o arco "romano" que ainda define a porta de entrada parece estar lá há bastante mais tempo. Se é possível associá-lo a uma primitiva construção medieval, também não será inverosímel que houvesse uma estrutura bem mais antiga, de onde se aproveitaram as colunas quadradas e o arco circular, que aparentam destoar da restante construção.
Capela de Sant'Ana (Salir do Porto).

Dentro dos limites da vila, encontra-se ainda um castro sinalizado, que chegou a merecer alguma atenção arqueológica. Estas outras estruturas mais visíveis não estão sinalizadas, ficaram quase propositadamente ao abandono dos tempos e dos elementos, sem que ainda hoje pareça haver nenhuma intenção de as conservar, são aquelas que nos prendem mais a atenção, pois parecem ser registos inconvenientes, convenientemente ignorados... 

domingo, 10 de julho de 2011

Cavaleiro do Corvo

Apareceram hoje novas notícias sobre achados arqueológicos nos Açores. Seguimos os links que nos foram indicados por Calisto, e ainda o site da APIA:

  

Estas notícias de hoje seguem uma notícia anterior de Março, com novos dados e fotografias, colocando em cima da mesa a presença humana nas ilhas açorianas antes da colonização portuguesa.

Dadas as imagens supra, dificilmente podemos falar em "descobertas", trata-se muito mais de uma tentativa de "des-cobrir", no sentido das nossas explorações quinhentistas, ou seja, trata-se de "retirar do encobrimento" estes achados no Monte Brasil, perto de Angra do Heroísmo... que devem ser conhecidos dos locais e de alguns visitantes. O importante é reunir provas que não deixem dúvidas sobre a antiguidade dos monumentos... e esperar pela resposta do sistema - mas, desde a primária desvalorização, até bizarras explicações alternativas, tudo vai sendo possível para manter o encobrimento!

Ao mesmo tempo fomos encontrar no Arquivo da RTP-Açores um apontamento sobre o livro "Cavaleiro da Ilha do Corvo":
Refere o livro do Prof. Joaquim Fernandes, da Universidade Fernando Pessoa, sobre a estátua que já foi aqui referida várias vezes, mencionada por Damião de Góis, e que teve esboço de Duarte d'Armas.
Esboço da Estátua do Cavaleiro do Corvo (dita Ilha do Marco)

Há três anos, esse autor enviou ao blog.thomar.org um anúncio de publicação do livro "O Cavaleiro da Ilha do Corvo" na colecção Temas e Debates, do Círculo de Leitores, e vimos também agora uma referência à publicação em Abril de 2011, na editora Bússola, do Rio de Janeiro.

Para nosso registo, citamos aqui parte do texto que complementa a informação que já tinhamos:
A este estranho monumento juntou-se a descoberta, no século XVIII, de um não menos perturbador vaso de cerâmica, achado nas ruínas de uma casa, no litoral da mesma ilha, repleto de moedas de ouro e de prata fenícias, que, segundo numismatas da época e não só, datariam de, aproximadamente, entre os anos 340 e 320 antes de Cristo.

As descobertas fabulosas não se ficaram por aqui: viajantes estrangeiros, no decurso do século XVI, alegaram ter encontrado inscrições supostamente fenícias de Canaã (Palestina), numa gruta da ilha de S. Miguel. Por fim, em 1976, nesta mesma ilha, haveria de ser desenterrado um amuleto com inscrições de uma escrita fenícia tardia, entre os séculos VII e IX da era cristã.

Todas estas perplexidades levaram Joaquim Fernandes a encetar uma longa e exaustiva investigação bibliográfica e documental e a escrever O Cavaleiro da Ilha do Corvo.

No romance, o autor refere um testemunho que reforça de modo evidente o relato de Damião de Góis: um mapa dos irmãos Pizzigani, de 1367, descoberto em Parma, apresenta um desenho com uma figura explícita ostentando uma legenda em latim onde se diz: Estas eram as estátuas diante das colunas de Hércules... Ora esse desenho está colocado à latitude dos Açores, no meio do Atlântico, sugerindo a tradição das Estátuas como marcos-limites do oceano navegável ou conhecido e serviriam para avisar os perigos que corriam os navegadores mais ousados. Mais ainda: a historiografia árabe, do século X, por exemplo, faz referência a essas mesmas estátuas e à sua eventual função de marco dos limites navegáveis, o que credibiliza, por outra via, o testemunho de Damião de Góis. Demasiadas coincidências, pois, para um simples rumor ou lenda...


O Cavaleiro e os Corvos
aqui apontámos o facto sui generis de D. Afonso Henriques, indo para além de Ourique, teria feito uma incursão ao Algarve, então território muçulmano, para resgatar o corpo de S. Vicente que estaria no Promontório Sacrum
Concerteza que as "certezas" ficam para a historiografia oficial... aqui, sendo local de hipóteses e "estórias" pessoais, ficamos com uma dúvida pela tradição associada com a presença dos corvos na embarcação, onde seguiu o corpo de S. Vicente. Poderiam os corvos representar o corpo junto à estátua da ilha, no ponto mais ocidental... que ainda antes de ser descoberta já aparecia nos mapas com a referência Corvi Marini
Seria esse o limite de navegação para D. Fuas que ficou simbolizado na Nazaré?... sendo que a latitude em que se situa o Corvo é 39º40' e tem como correspondente continental os pinhais acima da Nazaré, com o Sítio/Pederneira colocado a 39º36' ? Uma diferença de apenas 4 minutos do grau...
Teria resistido D. Fuas a seguir a direcção americana apontada pelo Cavaleiro do Corvo?


Ponta Delgada
Convém notar que nem sempre é preciso afastar-mo-nos muito para encontrarmos peças de interesse.
Numa zona que já faz parte de Ponta Delgada, tirei esta fotografia num baldio que está já delimitado e pronto para intervenção de construção:
Ficamos com a sensação clara de haver aí uma ponte antiga, soterrada por terras agora removidas pelo construtor. Talvez um incómodo para o empreiteiro, mas que arrisca a ser temporário... 
Em Ponta Delgada não podemos fazer aquele exercício habitual de classificar todas as pontes como romanas ou medievais...
Os detalhes intrigantes aparecem-nos à vista desarmada, resta saber se os queremos ver e questionar, ou se nos deixamos guiar como caolhos!


Nota adicional (12/07/2011):
Para além do esboço acima, a conhecida imagem da estátua equestre de Marco Aurélio corresponde razoavelmente à descrição feita por Damião de Góis (a mão direita também aponta uma direcção, porém a esquerda não se coloca sobre o dorso do cavalo). Já tinha colocado antes um comentário sobre uma possível ligação da estátua a Marco Aurélio (ou Alexandre), mas dado o esboço a invocação da estátua equestre de Marco Aurélio quase dispensaria comentários adicionais.
Acrescentamos que após Marco Aurélio, com o filho Cómodo o Império Romano entrou num período conturbado (retratado no filme Gladiador).
Se a pequena Ilha do Corvo foi também chamada Ilha do Marco, talvez dispensasse o Aurélio... já que a direcção apontava para as áureas riquezas americanas. É possível que Marco Aurélio tivesse sido tentado a passar o limite colocado no Marco da ilha, seguindo na direcção do Cavaleiro do Corvo, pelo que se teria associado com uma estátua equestre semelhante.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Theatrum Mundi Sinico

Pelo lado chinês, encontramos uma versão sínica de um mapa muito semelhante ao Theatrum Mundi de Lavanha, ou de Ortélio, denominada Wanguo Quantu, e datada c. 1620:
Wanguo Quantu, mapa do jesuíta Giulio Aleni (c. 1620)

É justificado o mapa pela colocação central do Império do Meio, evitando assim a tradicional colocação europeia nessa posição central. Podemos ver que os chineses não pareciam ter problemas em aceitar um mapa que evidenciasse o Estreito de Anian (dito de Bering), ao contrário do que foi depois referido por Carvalho da Costa (ver texto sobre Nova Zimla). Aliás o contorno americano, ou da costa russa, parece reflectir o conhecimento geral dessa zona, tal como já tinha sido verificado nos outros "theatrum mundi".

Antes, teria aparecido no tratado Sancai Tuhui um outro mapa, o Shanhai Yudi Quantu (1606, com base em Matteo Ricci), que mostrava uma concepção mais próxima dos primeiros mapas europeus do Séc. XVI (como o de Waldseemuller):
Mapa Shanhai Yudi Quantu (1606), aqui com tradução de Roderich Ptak.

Na tradução deste mapa é possível ver algumas legendas curiosas:
  • Um Mar Vermelho "oriental" na península californiana, conforme mencionado aqui nos Sinais Vermelhos e anteriormente. Aparece também o habitual Mar Vermelho "ocidental" na África.
  • Yawaima - no noroeste americano, que corresponderia à zona de Fusang (o nome Yawai pode sugerir alguma conexão a Hawai).
  • Mar de Keluotuo - que poderá ser a Baía de Hudson.
  • Na Europa apenas a França é nomeada... enquanto que na zona ibérica é escrito "mais de 30 reinos", podendo referir-se a toda a Europa! Parece ainda haver uma confusão entre o Mar Negro e o Cáspio (o que não nos surpreende).
  • A Líbia é a África, e na zona do Atlas é colocada a legenda "montanhas mais altas da Terra"
  • A sul, a Magellania refere já a confusão de concatenação da Austrália com a a Antártida - de um lado fala-se em "terra de papagaios", e do outro na Terra do Fogo e "picos brancos". A legenda dirá ainda que "poucos teriam chegado a essas paragens a sul".
Se o outro mapa tem a clara marca do cartógrafo ocidental (Giulio Aleni), neste mapa reflectem-se mais as influências na concepção e nomenclatura, especialmente pela referência a Magalhães. Não se parece notar nenhuma cartografia própria dos chineses, mantendo as mesmas restrições/mitos ocidentais, especialmente sobre a parte sul na "Magellania". O "mar gelado" aparece apenas mencionado a norte do Canadá...

Sendo expectável que os chineses tivessem conhecimento, pelas grandes navegações que teriam feito, de outras paragens, como por exemplo a Austrália, estes mapas mostram uma grande sintonia no que era transmitido a Ocidente e a Oriente(*)... sugerindo a existência de uma única ordem global dominante!

Nota:
(*) Esta concepção restritiva é ainda visível em mapas coreanos, mesmo do séc. XIX.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Seres e DaQin

Tendo mencionado os Seres, designação que os Romanos usariam para os Chineses, é interessante notar que em português o significado de "seres" adequa-se ainda hoje a uma noção abstracta para um povo indefinido.
A grande vantagem da wikipedia é a partilha de conhecimento ainda pelo outro lado... e assim podemos chegar ao contraponto - os Chineses designariam o império Romano por DaQin, e a visão do mundo pelo lado chinês, seria representada num mapa denominado Sihai Huayi Zongtu, em que colocámos algumas legendas, para dar seguimento à ideia de que o Oceano Ocidental para os chineses seria definido pela extensão do Mar Cáspio, conforma mapa já apresentado
Mapa Sihai Huayi Zongtu e o mapa com o Cáspio enquanto mar.

Apesar de estar datado para o Séc. XVI, o mapa chinês ao referir a designação DaQin aponta claramente para tempos de memória do contacto com o outro império, o Qin ocidental, o DaQin.

Pela extensão de água que se prolongaria do Mar Cáspio até à Sibéria, justifica-se que Da Qin, o império Romano, fosse considerado para além do Oceano Ocidental, o prolongamento do Cáspio. Apesar de estar representado um oceano circundante, notamos que sem uma efectiva visita por territórios já dominados por Romanos e Partos-persas, seria delicada a confirmação da ligação terrestre feita apenas na zona persa.

É reportada a especial embaixada de Zhang Qian às zonas ocidentais logo no Séc II a.C., no início da dinastia Han. Na wikipedia é ainda referida a descrição do historiador romano Florus no tempo de Augusto:
Even the rest of the nations of the world which were not subject to the imperial sway were sensible of its grandeur, and looked with reverence to the Roman people, the great conqueror of nations. Thus even Scythians and Sarmatians sent envoys to seek the friendship of Rome. Nay, the Seres came likewise, and the Indians who dwelt beneath the vertical sun, bringing presents of precious stones and pearls and elephants, but thinking all of less moment than the vastness of the journey which they had undertaken, and which they said had occupied four years. In truth it needed but to look at their complexion to see that they were people of another world than ours.
A última frase "... para ver que eram povos de um mundo diferente do nosso" aplica-se não só aos Seres, mas também aos Indianos, Citas, Sarmácios. A jornada de algumas embaixadas teria chegado a durar quatro anos.

Um ponto que já tinha merecido a nossa atenção, e que volta a estar presente neste excerto, é a importância que era dada aos indianos que "habitavam zonas debaixo do Sol vertical". A inexistência de sombra que podia ocorrer nestas paragens era considerada como algo excêntrico. 
Ora, estando a India bem acima da linha equatorial, esta observação só faz sentido como referência à linha definindo o Trópico de Cancer... ou seja, conforme já mencionámos é possível que na época de Augusto este Trópico estivesse bem abaixo do ponto actual, abaixo da conhecida Arabia Felix e acima do sul da India... ou seja, perto dos 10º de latitude.

Catigara vietnamita
Nas referências às paragens orientais, aparece Catigara (ou Kattigara), enquanto o porto mais oriental do Mar Índico, e que já foi identificado com a zona do Delta de Mekong, mais propriamente com Oc Eo
O Vietname tem uma particularidade interessante que é ser praticamente o único país asiático que adoptou o alfabeto latino (ver colocação no mapa dos alfabetos), supostamente por influência dos missionários portugueses no Séc. XVI e XVII. É aliás no Delta de Mekong, na zona de Catigara, que Camões teria salvo a nado os seus Lusíadas!
Aparentemente terão sido recuperados achados romanos nessa zona do Delta do Mekong... o que pode dar um significado bem mais antigo à presença do alfabeto latino nessas paragens! Teria sido depois disfarçado pela presença e influência europeia posterior...