sexta-feira, 28 de junho de 2019

Do Cavalo ao Cavaleiro e ao Cavalheiro

Não consta terem os homens tentado deslocar-se em cima de mamutes, nem em cima de leões, tigres, ou rinocerontes. Consta ainda que os primeiros cavalos eram pilecas pouco eficazes, parecidos com zebras, ou mesmo com burros.

 
Um cavalo primitivo desenhado numa parede da gruta de Niaux
Garrano no Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Os desenhos nas grutas francesas, de Lascaux ou Niaux, estão longe de exibir a elegância que vemos hoje aos cavalos modernos, porque os mais altos e robustos parecem ter resultado da primeira engenharia genética. Curiosamente é raro vermos cavalos primitivos nas grutas espanholas, onde o mais habitual serão os bois/touros. Quanto às grutas portuguesas, por enquanto estamos limitados a saber dos desenhos equestres do Vale do Côa.

Domesticação
A domesticação animal terá seguido as seguintes vertentes principais:
- Bovina. Que levou de selvagens auroques, ou similares zebus, a pacíficas vacas.
- Outra vertente bovina, que é caprina e ovina. Poderá resultar da cabra selvagem ou muflão.
- Suína. Que terá resultado dos javalis.
- Equina. Que sairá de zebras e garranos afins. 

Quanta paciência e quanto tempo terá demorado este processo de domesticação?
Será uma tarefa ocasional de poucas gerações, ou um processo prolongado de muitas gerações?
Colocados no meio de uma África selvagem, quantas espécies conseguiríamos domesticar de raiz, por exemplo, ao ponto de usar como cavalos os descendentes de um grupo de zebras?

Alguns estudos apontam que a domesticação bovina poderá ter começado com um grupo de auroques criados na Mesopotâmia, há 10 mil anos, dos quais foi traçada alguma ascendência genética, para todos os bovinos (bos taurus) actuais. Parece-me uma grande simplificação do problema, que tende a esquecer a inundação provocada pelo degelo seguinte à Idade do Gelo, ou seja, de forma simplificada, tende a esquecer o dilúvio e a arca de Noé.

Há ainda a questão da domesticação de canídeos e felinos, que terá sido diferente. Os lobos eram já gregários com hierarquia social, e a colocação do homem como lobo-alfa poderá ter facilitado o processo. Será o caso mais antigo de domesticação, remontando a 15 mil anos, na Europa (ver cão de Oberkassel). 
A domesticação de gatos terá sido inversa e não terá sido procurada pelo homem... o mais natural é que os próprios felinos tenham procurado no homem um parasitismo de subsistência, após a agricultura, devido à grande presença de roedores no armazenamento de cereais. Alguns leopardos são igualmente simpáticos para os homens (por exemplo, as chitas). 
Numa família, enquanto os cães identificam o dono, os gatos identificam o escravo - aquele a que permitem que lhe faça festas, etc. Os cães exibem um raciocínio directo masculino, de utilidade, enquanto que os gatos têm uma inteligência indirecta, tipicamente feminina, que visa mais o aproveitamento.

Houve outras domesticações, uma delas a aviária, nomeadamente de galos, de que já aqui falei, e creio que a sua origem é claramente da região indonésia, tendo sido trazida para Europa pelos celtas, gaulos da Gália, da Galícia, de Gales, da Galécia ou da Galácia. 

Do cavalo ao cavaleiro... e do porco ao porqueiro
Qual a diferença?
A diferença seria entre ter um cavalo ou ter um porco, não considerando a sua criação.
Tivesse sido o cavalo um animal destinado ao consumo da sua carne e não haveria provavelmente grande diferença entre uma coisa e a outra. 
No entanto, o cavalo passou a ser crucial no combate.
Cavaleiro passou a ser uma faceta da nobreza, enquanto o porqueiro uma faceta popular. Isto pelo menos até ao momento (fim do Séc. XX) em que alguns porqueiros ficaram mais capitalistas, na venda de carne de porco, do que os cavaleiros na preservação da tradição equestre. 
Com pequeno desvio, lembrança da tradição medieval da cavalaria, ficou-nos ainda o Cavalheiro.

A grande diferença é que quando o homem conseguiu domesticar o Cavalo ao ponto de meio de transporte, capaz de tornar a sua deslocação quase 10 vezes mais rápida, todo o enquadramento social teria que mudar.

Para mostrar que tal coisa nem sempre é fácil, bastam 8 segundos nos rodeos americanos, para ser colocado fora do dorso de um touro, ou de um cavalo (bronco). Portanto, será de prever que a criação de cavalos e equitação tenha sido fruto de imensa paciência e estabilidade. Houve a capacidade de conduzir cavalos, elefantes e camelos. Isto permitiu uma vantagem considerável ao proprietário de tal espécime.
Para colocar as coisas em perspectiva, suponhamos que queremos domesticar uma variante de urso, de tal forma que seja possível chegar ao ponto de o montar e conduzir nas suas capacidades guerreiras. Quanto tempo demoraria esse projecto, supondo ser realizável? Que se saiba não houve grande sucesso na domesticação de ursos, mas sendo tão comuns nas florestas europeias, certamente que foi tentado.

De forma notável, e mostrando algum contacto e comércio global primitivo, o mesmo tipo de animais que foi domesticado numa parte do mundo foi semelhante ao que foi domesticado na restante, com possível excepção na domesticação de cobras (um assunto algo submerso). 
Note-se que há um foco que aponta origem de domesticação de bovinos, suínos, caprinos e ovinos, para uma zona central Euro-asiática, entre 10 e 8 mil a.C. o que coincidirá com uma provável inundação de toda a orla marítima pelo menos até 300 metros de profundidade, e que terá atingido áreas hoje com 200 metros acima do nível do mar. Os sobreviventes desta inundação seriam residuais de uma fictícia arca de Noé.

O cavaleiro
A presença de cavaleiros em figuras rupestres é rara, mas foi encontrada em Bhimbetka, na Índia, com uma datação até 2000 a. C. A presença de cavalos em batalha é atestada desde o confronto com os Povos do Mar, e em particular o uso de carros puxados por cavalos, em combate, está presente nas inscrições relativas à Batalha de Kadesh, entre egípcios e hititas.
A figuração de cavaleiros montados, que requer uma técnica equestre mais cuidada, aparece posteriormente, como por exemplo neste friso assírio (onde quem dispara o arco, não é quem conduz o cavalo - sugerindo o uso de parelhas de cavalos).
 Friso assírio (séc. VIII a.C.) mostrando o uso de cavalaria.

O registo mais comum era quase sempre o de tropas apeadas, e mesmo na Grécia, até que as tropas macedónias ganharam protagonismo, com Filipe e Alexandre Magno, era raro saber-se de tropas montadas.
Aliás, a esse propósito recordamos o texto de Calisto Barbuda,

onde se elabora sobre a hipótese de na Ibéria ter aparecido a técnica equestre:
"Em nenhum outro local existem evidências da existência de cavalos montados há tanto tempo. Embora noutras paragens, como na Grécia ou no Egipto, também já se utilizasse o cavalo na guerra, essa utilização era sempre feita como animal de tiro, puxando os carros de combate. Isto permite-nos colocar a hipótese da origem ibérica da própria equitação. A confirmar-se, o cavalo Peninsular seria, então, o primeiro cavalo de sela conhecido."
De facto é remetida uma certa fama existente entre gregos e romanos de que os cavaleiros e a cavalaria ibérica seria particularmente apta no combate, tal como aconteceu com a cavalaria numida (de origem maura-africana que é posterior).

Equites
O nome equites refere à classe patrícia romana, cuja principal característica era a posse de cavalo, e que em termos hierárquicos apenas estaria abaixo da classe senatorial de Roma, que era eleita de entre os seus membros. 
A equidade entre os seus membros era a "egualdade", no sentido em todos seriam "eguais", possuindo "éguas", ou cavalos. Portanto, falamos de uma igualdade elitista, tal como depois foi entendida no quadro da cavalaria, quando se referia ao carácter supostamente equalitário dos cavaleiros da Távola Redonda. Seria o carácter de igualdade entre pares, entre cavalheiros, entre cavaleiros.

O código de conduta exigido aos cavaleiros, especialmente durante a Idade Média, tornou que uma característica lendária associada ao cavaleiro, seria ser também um cavalheiro... algo que foi mais desenvolvido no imaginário quando os cavalos perderam a sua importância, já no Séc. XIX.

Cavalos em Tróia
Há alguns heróis trazidos por Homero no enquadramento da Guerra de Tróia, mas não seria propriamente uma característica fulcral dos aqueus, primevos gregos. Se Aquiles teria arrastado o corpo de Heitor, este é puxado por uma quadriga nas representações muito posteriores, que ilustram esse episódio:
Ilustração de vaso posterior (Séc. VI a. C.), mostrando Aquiles numa quadriga a arrastar o corpo de Heitor.

Até essa altura os heróis gregos não são propriamente conhecidos enquanto cavaleiros. 
O episódio do cavalo de Tróia é muito provavelmente ilustrativo de que os gregos podem ter aprendido em Tróia a arte do combate montado, que seria muito mais uma arte troiana do que grega. Essa poderia ter sido uma vantagem que Tróia manteve até ao momento em que a força grega aproveitou a presença de cavalos, domesticados na redondeza, em seu proveito... ou seja, através de Ulisses, teria sido mesmo desenvolvida uma cavalaria grega capaz de ali competir com a troiana. Isto poderia então ter dado origem ao mito do Cavalo de Tróia.

O uso de cavalos cada vez mais seleccionados e apurados para o confronto militar poderá ter tido origem nessa transição entre a Idade do Bronze e a Idade do Ferro. Convém lembrar que os mitos gregos sobre os centauros podem ter justamente origem numa estilização de tribos de cavaleiros violentos que amedrontavam as primitivas tribos gregas.

Se o nome "centauro" sugere mais uma relação com o touro, com efeito para além do Minotauro (cabeça de touro, corpo humano), o mito associado a Aqueloo, deus dos rios, apresenta-o com cabeça humana e corpo taurino (em oposição ao Minotauro). É particularmente representado em Gela (ou Celas), em muitas moedas sicilianas
Moeda siciliana de Gela (Celas), ilustrando um cavaleiro, e na outra face, Aqueloo, deus dos rios.

Rapariga conduz uma vaca.



Também nestes casos se poderá colocar a possibilidade da figura de Aqueloo corresponder a uma eventual figuração de outras tentativas de conduzir animais... neste caso de gado bovino, o que é possível de ser conseguido, com paciência, conforme é mostrado na imagem ao lado (com ligação ao vídeo incluída).
Ou seja, tal como no caso dos cavalos, também no caso do gado bovino, nem todos os animais reagem violentamente à presença de um peso incómodo no dorso. A condução bovina parece ter ainda um lado perfeitamente acessível.


Interessa especialmente notar que, mesmo no caso de tropa de combate, o uso de cavalos estava praticamente reservado à nobreza e fidalguia, deixando situações de desvantagem por mero preconceito social. Só já depois do Séc. XVII é que começou a ser popular a instrução de tropas com uma parte de cavalaria plebeia - por exemplo, o caso dos regimentos de dragões.
Com efeito só com a popularização do coche, inicialmente muito reservado à nobreza, especialmente a partir do Séc. XVIII, é que os cavalos começam a ser usados como um transporte mais normal e não apenas propriedade distintiva de uma classe abastada. Quando chegamos ao Séc. XIX já teremos colonos ou comerciantes vulgares como felizes proprietários de cavalos, e não de meras pilecas para trabalho pesado.

A imagem do cowboy viajante pelas paisagens do Oeste americano é o último símbolo de liberdade (e perigo) que seria encontrado pelos colonos exploradores daquelas paisagens. O cavalo em breve seria substituído pelo automóvel, quando a sociedade conseguiu enquadrar a mobilidade humana com naturalidade. Nunca antes o homem teria sido movido pelo desejo de passear, sem um qualquer propósito de utilidade subjacente.
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29.06.2019

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Moedas (3) moedas portuguesas

Continuando o assunto de "moedas ibéricas"  interrompido há dois meses atrás... e ao invés de regressar às moedas anteriores à administração romana, vou aqui colocar algumas moedas da monarquia portuguesa, de D. Afonso Henriques a D. Sebastião. 

Serve especialmente para notar que só houve uma grande diferença qualitativa com D. João III.
Antes disso, a cunhagem das moedas era tosca, e mesmo no período dos descobrimentos não se pode considerar que fosse de grande qualidade.

Isso é razoavelmente importante, porque significa que a técnica que esteve presente em Portugal, mesmo durante o período áureo, não foi uma técnica que seria de esperar tendo em conta a exigência de outras experiências - como a exigência da navegação.

As moedas aqui colocadas estão acessíveis pela página do Museu da Casa da Moeda, que fornece uma extensa lista de moedas, reinado a reinado.

1ª Dinastia. Começamos pelas moedas da primeira dinastia, onde não há propriamente grandes surpresas, e onde parecem ser escassas as moedas restantes, com desenhos quase infantis, mal definidos, próprios de uma cunhagem deficiente e pouco cuidada. As moedas típicas mais simples são os dinheiros (bolhão), havendo também tornês de prata com D. Dinis, e dobras ou morabitinos de ouro.
  • D. Afonso Henriques
     
    Morabitino de ouro (esq.) e dinheiro [bolhão] (dir.) com pentagrama!
  • D. Sancho I até D. Afonso III
    Morabitino de ouro de Sancho I (esq.) e dinheiro [bolhão] (dir.) de D. Afonso III.
  • D. Dinis até D. Pedro I
    Tornês de prata de D. Dinis (esq.) e conto (dir.) de D. Afonso IV.

D. Fernando a D. João I. Uma significativa diferença parece ocorrer no reinado de D. Fernando com a presença de um maior número de moedas - forte, real, grave, barbuda, pilarte, isto para além do dinheiro, do tornês, e ainda das dobras de ouro.

Diferentes moedas do reinado de D. Fernando.

Dobra de ouro de D. Fernando (esq.) e real de 10 soldos (dir.) de D. João I.

Curiosamente, no decurso do reinado de D. João I não parece haver uma produção numismática comparável.
A produção parece ser assinalável no curso do reinado de D. Fernando, onde convém lembrar que se fez uma das mais importantes obras medievais em Lisboa - o cerco da Muralha Fernandina. 
No entanto, aqui será de ponderar que o comércio implementado por D. Fernando poderia já estar ligado às primeiras explorações portuguesas do continente americano e africano, feitas ainda sem qualquer autorização papal... É importante aqui notar que o papado estava deslocado para Avinhão, o que correspondia quase a uma delegação no reino de França.

D. Duarte a D. Afonso V. Tal como no reinado de D. João I, também no reinado de D. Duarte, a produção numismática parece ser bastante escassa, merecendo apenas destaque a introdução do "leal" - uma designação cara a D. Duarte. 
Significativa diferença ocorrerá de seguida com D. Afonso V, só semelhante à ocorrida antes com D. Fernando. Nota-se aqui uma nova produção de moedas, com diferentes designações. 

Leal de D. Duarte (esq.) e  meio escudo de ouro (dir.) de D. Afonso V.

Diferentes moedas do reinado de D. Afonso V.

De entre os novos nomes de moedas que estão presentes no reinado de D. Afonso V, destacam-se o ceitil, o cruzado, o espadim, o cotrim, o chinfrão, ou o real grosso, para além do escudo de ouro. O ceitil, tal como o vintém ou o tostão, serão moedas populares no curso dos descobrimentos.

D. João II a D. Manuel
A produção numismática não parece sofrer grande diferença no reinado de D. João II, talvez apenas com a introdução do justo de ouro, ou do vintém. As moedas anteriores, do reinado do pai, são praticamente mantidas, com pequenas alterações.
Justo de ouro de D. João II.

Moedas no reinado de D. João II: espadim, cinquinho, cruzado, vintém, ceitil.

Já no reinado de D. Manuel parece haver de novo uma grande abundância de novas moedas, e novas designações... começando por uma moeda com o seu próprio nome - manuel.
Manuel de ouro de D. Manuel, com a esfera armilar.
Moedas no reinado de D. Manuel: bazaruco, tostão, português, vintém, ceitil, cruzado, bastardo, soldo.


D. João III a D. Sebastião
É apenas no reinado de D. João III que vemos moedas já com uma qualidade bastante razoável, que depois só será melhorada no reinado de D. João V. Deixamos aqui como ilustrativo o caso do "S. Vicente" de ouro, vendo-se o santo segurando um navio, e ladeado por duas estrelas.
S. Vicente de ouro de D. João III, onde notamos uma maior qualidade na escrita e desenho.

Com D. Sebastião não há propriamente uma grande diferença face ao anterior. Um tema que se tornava recorrente era a designação "In Hoc Signo Vinces", ou seja, "com este sinal vencerás", que está presente na moeda que trazemos aqui enquanto ilustrativa:

Engenhoso de ouro de D. Sebastião com a inscrição "in hoc signo vinces" e a data 1562..


Nota adicional: Ver ainda

domingo, 9 de junho de 2019

Outros Quinhentos (4) 500 anos - A méxica

Em Fevereiro de 1519, Hernán de Cortés parte de Cuba para a invasão do território Azteca.
Doze anos mais tarde, Francisco Pizarro irá iniciar a invasão do Peru, saindo do Panamá.
Farão isso de forma cruel, pragmática, ou brilhante. Ajustam-se diversos adjectivos.
Passam 500 anos, e para os mexicanos não é muito claro o tom da comemoração.

Convém notar que os Aztecas e Incas não eram civilizações antigas.
Os Incas iniciaram o seu império em 1438. 
O Império Azteca começa em 1428, com a aliança das cidades Tenochtitlan, Texcoco e Tlacopan.
Passado um século, ambos estes impérios foram destruídos num ápice pelos espanhóis.

Quadro da conquista do México e Tenochtitlan por Cortés.
Portanto, quando Ceuta é conquistada (1415), e o Infante D. Henrique começa a tomar conta das explorações atlânticas, os impérios Azteca e Inca ainda não existiam. Estes impérios desenvolvem-se ao mesmo tempo que se desenrolam as explorações portuguesas no Atlântico, e vão cair quando Carlos V é sagrado imperador do Sacro-Império Germânico, em Janeiro de 1519, e inicia a sua expansão territorial além das Caraíbas.

Surge assim uma pergunta:
- Há alguma evidência de contacto anterior entre Incas ou Aztecas com europeus?
- Aparentemente, não.
Um argumento comum é que se tivesse havido um contacto anterior, as doenças que vitimaram muitos indígenas, teriam aparecido mais cedo.

Esse dado, normalmente aparece sem grande suporte objectivo.
Os indígenas teriam sucumbido às doenças trazidas pelos europeus, dando-se como exemplo mais comum a varíola. Aponta-se para este número uma redução de 90% da população indígena. 
Normalmente parece esquecer-se que também os europeus eram vítimas naturais desta doença, e que na Europa do Séc. XVIII foi contabilizada a morte de 400 mil pessoas por ano, até à invenção da vacina. Ou seja, a varíola não atingia só os indígenas, a novidade terá sido que passou a afectar também os indígenas. Também os europeus passaram a ser vítimas de novas doenças tropicais, de que antes tinham pouca notícia - por exemplo, a febre amarela.

Outra causa do decréscimo da população indígena pode explicar-se praticamente por um factor:
- Mestiçagem.
Este factor teve logo como exemplo a entrada de Cortés no México.
La Malinche foi oferecida como companheira de Cortés, e dela ele teve vários filhos. 

Este processo era o mais frequente porque as tripulações embarcadas de Espanha não levavam mulheres. As mulheres a que os espanhóis tinham acesso eram as indígenas, e aí não houve prurido de múltiplos acasalamentos. Rapidamente surgiu uma segunda geração mestiça, já afiliada a uma origem espanhola, ocidentalizada, que foi perdendo a ligação aos aztecas. Repetidamente, o processo levou a que se perdesse a língua e cultura dos antepassados, com a pressão do clero católico, extremamente cioso da pureza cristã e condenação da bárbara cultura pagã azteca.
A população nas cidades mexicanas poderia ser medida no seu nível social pela maior ou menor quantidade de sangue espanhol. Ao contrário do que veio a ocorrer depois com as colonizações britânicas ou holandesas, no caso espanhol ou português a mestiçagem foi crucial para o desaparecimento da cultura indígena. Por exemplo, o emblemático Mayflower partiu para a América com colonos - homens e mulheres - mas só nos séculos XVIII e XIX é que as colonizações portuguesa ou espanhola seriam mais feitas por famílias partidas do continente europeu. Apesar de haver alguma presença de mulheres e famílias nos navios que cruzavam os oceanos, esse número foi sempre contido ou reduzido ao estritamente necessário.
A facilidade de ligação com os indígenas nem sempre foi tão facilitada quanto no caso americano, sendo claro que no caso do contacto com populações chinesas ou japonesas, a miscenização foi uma prática muito residual, quase inexistente.

A rota de Cortés
O sucesso estrondoso de Cortés é pouco digno de ser reconhecido, porque ao mesmo tempo acaba por se ligar a um pragmatismo possível. 
Cinco centenas de espanhóis consegue, por meio de grande engenho e artimanha, fazer sucumbir em dois anos, um império ingénuo e cruel, que contava com milhões de habitantes.

Uma das razões do sucesso de Cortés foi o seu percurso até Tenochtitlan, de Abril a Novembro de 1519, onde com sucessivas alianças a tribos inimigas dos aztecas foi reunindo uma força invasora já muito considerável, com milhares de homens.
Para esse efeito contribuiu La Malinche, a concubina nahua oferecida a Cortés, que depois o ajudou não apenas na tradução, mas até a definir a estratégia de alianças. O termo "malinche" passou a designar a traição ao próprio povo... por incompreensão posterior.
Mais crucial terá sido a aliança com Tlaxcala, que após feroz guerra no início de Setembro, aceitaram negociações e aliança com os espanhóis contra os aztecas, seus inimigos. Os seus quatro chefes foram baptizados e ofereceram as filhas em casamento aos companheiros de Cortés. 

Parte da grande pirâmide de Cholula.
De forma mais importante, Tlaxcala deu um exército suplementar a Cortés, que o usou contra Cholula, a segunda cidade mais importante, e um grande centro religioso. 
Cholula tinha sido instruída pelo imperador Moctezuma para parar Cortés, mas a cidade era um ponto religioso, com fraco dispositivo militar. Acabou por acolher Cortés, e como a sua concubina acabou por revelar/descobrir um plano de assassinar aí os espanhóis, estes terão executado 3 mil (ou 30 mil) habitantes, e deitado fogo à cidade para servir de exemplo.
A partir daí, Cortés não teve maiores dificuldades em seguir até ao centro do império Azteca, a cidade de Tenochtitlan, e lago Texcoco, no que é hoje a Cidade do México.

Tenochtitlan no lago Texcoco, é hoje a Cidade do México.
Tenochtitlan teria, à chegada de Cortés, uma população estimada em 200 mil habitantes, e seria assim uma das maiores cidades do mundo à época, maior que as cidades europeias.
Além disso, a complicada construção de Tenochtitlan, no meio do lago Texcoco, faziam dela uma cidade comparável a Veneza, em diversos aspectos. Este enorme lago Texcoco foi completamente assoreado pelos espanhóis, o que permitiu depois a construção de uma Cidade do México cada vez maior, assente num lamaçal que resultou da construção feita sobre o lago (isto causa ainda problemas graves na propagação das ondas sísmicas, conforme se verificou no sismo de 1985).

Aztlan, Quetzalcoatl, Kukulkan e Viracocha
Moctezuma II recebeu com todas as honras Cortés e os seus homens, instalando-os no palácio que fôra de seu pai. Desde que desembarcara, emissários de Moctezuma enviavam saudações e presentes, procurando que ele não fosse a Tenochtitlan, mas os ricos presentes apenas serviram para mostrar que estava no caminho certo. 
Moctezuma prendeu-se à lenda Mexica-Azteca que colocava a origem do povo em Aztlan (note-se a semelhança com o termo Atlan, ou Atlas-Atlântico), um local indefinido a norte. Ligando Cortés à divindade Quetzcoatl, enquanto homem branco de barba, o imperador dava aos espanhóis um estatuto divino que facilitou a perdição azteca. A mesma lenda, que existia nos Maias e nos Incas, variando no nome - Quetzalcoatl era Kukulkan para os Maias e Viracocha para os Incas - serviu de grande facilitador para a conquista de Aztecas e Incas (os Maias, menos centralizados, resistiram mais tempo). 
Ao fim do segundo dia, e com o pretexto de erguer uma cruz e um altar à Virgem Maria, os espanhóis arranjaram pretexto para sequestrar Moctezuma, e mantê-lo como imperador fantoche. Fraco, esteve mais preocupado em não ser destronado, caso os espanhóis escolhessem o irmão Cuitlahuac, apesar dos protestos da sua corte. Moctezuma foi colaborando ao ponto de o avisar da chegada de um exército de Cuba, liderado por Narvaez, para o prender. 

Cortés, mais uma vez resolveu a situação pragmaticamente. Foi até Veracruz, onde derrotou Narvaez, e convenceu o exército que vinha no seu encalço a juntar-se a si, na conquista de Tenochtitlan. Quando regressou, a situação era ainda mais caótica, os Aztecas tinham-se juntado em torno do irmão de Moctezuma, após um massacre no grande templo ordenado por Alvarado (segundo no comando de Cortés). Cortés pede a Moctezuma que fale à população para a apaziguar, mas este acaba morto pela saraivada de pedras que recebe.
Com a morte de Moctezuma, os espanhóis são forçados a fugir de Tenochtitlan, mas reagrupam forças com os aliados de Tlaxcala. No final tudo se resume a convencer as cidades vizinhas a alinharem com o novo poder espanhol, e um cerco de dois meses à capital, que acabará por cair a 13 de Agosto de 1521.

Uma conquista que doutra forma poderia ter demorado séculos (o que aconteceu noutras paragens próximas, incluindo os Maias), acabou por se resumir, numa série de acasos favoráveis, e numa crença no cumprimento do mito de Quetzalcoatl. O engenho de Cortés, para coordenar os diversos balanços de poder, e tirar daí o melhor proveito, foi ainda mais notável.

Os Aztecas, e a sua Méxica, caíram sem grande dificuldade aos pés de Cortés.
Como já referimos, o nome "América" poderá ser um desvio de "A méxica", mas aqui também surge como interessante este mito ligado a "Aztlan", um nome demasiado próximo de "Atlan" para não ser ignorado. Aliás, a frequência dos nomes aztecas com o som "tl" não deixa de ser intrigante como relação do próprio nome de Atlas, com este continente perdido.

Curiosamente, até a descrição de Platão de uma cidade aquática atlante deixa algumas questões, pois isso teria ocorrido milhares de anos antes de ser construída. Ou seja, a lenda que levou os Mexica-Aztecas até ao lago Texcoco, procurando o símbolo da águia que bica a serpente junto ao cacto (símbolo da bandeira mexicana), serviu ainda para ajustar a pretensão de que a lenda parecia inspirada no cumprimento do relato de Platão no Timeu.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Outros Quinhentos (3) 500 de Terra e 50 de Lua


Paisagem no Estreito de Magalhães (Google Maps)

A hipótese que faz mais sentido, daquilo que conheço, relativamente à circumnavegação do globo, é a seguinte...

Entre 1482-88, o rei D. João II enviou diversas armadas para contornar o continente americano, que como é óbvio, era conhecido de quem fizesse navegações sistemáticas no Atlântico. 
O Infante D. Henrique sabia do assunto, mas ignorou-o, porque era tudo menos "navegador". A sua política era militar, tal como a da Ordem de Cristo, ou seja, a da herança templária, visando contornar a África e invadir a península arábica, chegando a Jerusalém. Essa política veio a ser concretizada por Afonso de Albuquerque que chegou a conquistar o Mar Vermelho até ao Suez. 
Ao contrário, o Infante D. Pedro, esse sim um viajante e explorador, seria a de navegar a América, ao ponto de tentar encontrar uma passagem no continente americano para chegar à Ásia.
Essas explorações continuaram no reinado de D. Afonso V, patrocinando a empresa privada de Fernão Gomes, mas deverá ter sido apenas no reinado do seu filho, D. João II, que foi descoberta a passagem. 

Como marco importante na tentativa de cruzar o continente americano, o ponto mais importante pelo Infante D. Henrique terá sido a descoberta do Rio Sagres - agora chamado Rio Chagres, no Panamá.
Aliás, à mesma latitude do rio Chagres 9º30' N encontramos o Cabo Sagres... em Conacri, Guiné.
Foi aí que terminou declarada a exploração do Infante D. Henrique. Foi também o Rio Chagres que acabou por servir para fazer o Canal do Panamá, porque com efeito esse era o ponto mais prático de passagem. Assim, a descoberta do Oceano Pacífico terá ocorrido uns 50 anos antes de Balboa.

Para efeitos de encontrar uma passagem a norte ou a sul, D. João II enviou sucessivamente armadas para latitudes árticas e antárticas, e nesse processo terá descoberto praticamente todo o globo. Não deu conhecimento disso, porque lhe interessava uma passagem mais rápida do que aquela que obteria circum-navegando a África. Ora, isso veio a revelar-se impraticável.

Nas expedições em que Diogo Cão andou supostamente "no rio Congo", o objectivo seria o de encontrar o Estreito de Magalhães. É provável que na primeira viagem de 1482 tenha apenas conseguido contornar o continente americano pelo Cabo Horn, e que só na segunda viagem de 1484-86 tenha encontrado a passagem pelo estreito. O Estreito de Magalhães terá sido descoberto pelo piloto João Afonso do Estreito, ou pelo menos assim o sugere o seu apelido... 
No entanto, a expedição seria comandada por Diogo Cão, e teve Martin Behaim como "companhia", que nessa altura terá feito o mapa da região. 
Depois, com base nos mapas de Behaim, João Afonso do Estreito terá proposto em 1487 navegar a Ocidente, em conjunto com o flamengo Fernando Dulmo, mas a expedição não terá tido retorno. Seria só em 1488 que Bartolomeu Dias, passando pelo cabo Horn, dito das "tormentas", teria feito a circumnavegação, regressando pelo cabo da Boa Esperança vindo por paragens australianas.

Essa teria sido a boa esperança que o rei viu - um caminho ocidental, contornando a América do Sul, ao invés de contornar a África, evitando entrar em conflito com os muçulmanos no Oceano Índico.
Entre 1488 e 1492, creio que D. João II se convenceu que haveria a passagem noroeste, que pouparia imenso tempo, evitando ir ao hemisfério sul. Para esse efeito contava com a experiência dos Corte Real na exploração da América do Norte, e também dos Gama. 
No entanto, a dificuldade dos gelos árticos em latitudes além do círculo polar não permitiriam uma passagem exequível para a carga. Os riscos seriam demasiados, mesmo que tal passagem fosse encontrada - e se tal foi conseguido, foi provavelmente depois, já no reinado de D. Manuel ou mesmo de D. João III.

A razão para isto ser mais certo do que mera especulação é a descrição que Pigafetta faz, quando Magalhães redescobre esse estreito:
E se non era el capitano generale non trovavamo questo stretto, perchè tutti pensavamo e dicevamo come era serrato tutto intorno: ma il capitano generale, che sapeva de dover fare la sua navigazione per uno stretto molto ascoso, come vide ne la tesoreria del re di Portugal in una carta fatta per quello eccellentissimo uomo Martin di Boemia, mandò due navi, Santo Antonio e la Concezione, che così le chiamavano, a vedere che era nel capo della baia. Relazione del primo viaggio intorno al mondo por Antonio Pigafetta.
[E se não fosse o capitão não teríamos encontrado este estreito, porque todos pensávamos e dizíamos o quanto era apertado: mas o capitão, sabia que tinha que navegar por uma passagem muito estreita, como vira no tesouraria do rei de Portugal num mapa feito pelo excelente homem Martim da Boémia, e enviou dois navios, Santo Antonio e Conceição, assim se chamavam, para ver o que estava ao cabo da baía.]
Pigafetta junta um mapa, que podemos comparar com o mapa que João de Lisboa tem:



A diferença entre o mapa de Pigafetta e o mapa de João de Lisboa, é a diferença entre um amador e um profissional. A diferença de tempo entre os dois mapas é pequena, sendo mais provável que o mapa de João de Lisboa seja mesmo anterior à viagem de Fernão de Magalhães. 
A referência ao nome "magalhães", como foi sugerido pelo David Jorge, pode referir-se à presença de pinguins que hoje são conhecidos por esse nome. Numa inclusão posterior, a tinta vermelha pode ler-se "estreito de fernão de magalhãis", mas a tinta preta e em destaque vemos apenas "estreito dos magalhãis", no plural.
De resto, para além das designações concordantes entre os dois mapas, o mapa de João de Lisboa tem muito mais informação e nomes em português que indiciam a sua nomeação anterior.
Em particular, note-se na ilha fictícia chamada "dos castelhanos", designação similar à existente ao largo de Madagáscar (ver postal anterior).

Coincidentemente, também em 1519 é dada autorização a Cortéz para desembarcar no México, e assim arrasar o império Azteca.
Passam 25 anos do Tratado de Tordesilhas, e a época de transição das descobertas de Portugal para a posse definitiva de Espanha, seria trabalhada entre D. Manuel e Carlos V.

Não foi à toa que uma grande parte da tripulação que Magalhães levou consigo era portuguesa.
Os portugueses simplesmente não queriam que acontecesse de novo o episódio de Colombo. Não queriam que a descoberta da passagem sul ficasse associada aos espanhóis, quando tanto sacrifício teria sido feito para conseguir aquela proeza. É nesse contexto que múltiplos portugueses se associam à expedição de Magalhães, incluindo João de Lisboa, que poderá ser João de Carvalho. 

A viagem teria assim uma particularidade de rebelião quase permanente, já que os castelhanos não entendiam e aceitavam mal o comando português. Uma parte da expedição regressa a Espanha sem sequer passar o Estreito. A restante prossegue, e após a morte de Magalhães será mesmo João de Carvalho a tentar tomar o controlo da expedição, mas os espanhóis já não o autorizam, e ficará Elcano a terminar a volta, já na parte conhecida da Ásia, onde a presença portuguesa estava estabelecida.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Outros Quinhentos (2) 500 de Terra e 50 de Lua

Cabo Canaveral, 16 de Julho de 1969 - há 50 anos saiu a Apollo 11.
Sevilha, 10 de Agosto de 1519 - há 500 anos saiu a expedição de Magalhães.

Vamos falar primeiro da Apollo 11.
Os 4 jovens que restam dos 12 que foram à Lua estão agora com mais de 80 anos.
Um projecto audacioso, onde partindo do nada, ou dos foguetes nazis, em menos de 10 anos, os americanos teriam conseguido desembarcar homens na Lua, ao contrário dos soviéticos, que nunca o fizeram. Essa paródia durou de 1969 até 1973, e desde aí acabou.
Como este planeta é um lugar estranho, os americanos agora se quiserem ir ao espaço têm que ser lançados do Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, o cosmódromo soviético.

Questionar a ida à Lua seria ridículo nos anos 70, mesmo nos anos 80 ou 90 ainda poderia pensar-se nalguma contenção de custos. Porém, como é óbvio o dinheiro que falta para repetir viagens à Lua, segundo o argumento comum, não falta para enviar múltiplos engenhos, especialmente a Marte.
Assim, a prova que falta da ida à Lua é... repeti-la!

Em 2015, dois astronautas foram entrevistados em directo na Euronews, e o comandante Terry Virts saíu-se com esta:
The plan that NASA has is to build a rocket called SLS, which is a heavy lift rocket. It’s something that is much bigger than what we have today, and it will be able to launch the Orion capsule with humans on board as well as landers or other components to destinations beyond Earth orbit. Right now we only can fly in Earth orbit, that’s the farthest that we can go, and this new system that we’re building is gonna allow us to go beyond and hopefully take humans into the Solar System to explore. So the Moon, Mars, asteroids... there’s a lot of destinations that we could go to and we’re building these building-block components in order to allow us to do that eventually.
Quando algum pessoal ouviu isto, ou seja, dizer que actualmente o máximo que poderíamos fazer era estar na órbita da Terra, e que depois o plano era ir à Lua, a Marte, aos asteróides... achou, como é óbvio, que o homem tinha-se descaído, revelando que ainda não tinhamos saído da órbita terrestre, e assim que nunca teríamos ido à Lua.
É verdade que Terry não diz isso exactamente, mas qualquer um o pode entender assim.
Com outra vontade, poderia-se estar a referir à órbita da Terra à volta do Sol, e não acerca da órbita à volta da Terra... enfim, múltiplas justificações. Acharam por bem que o homem viesse esclarecer, e ele optou por dizer que se referia ao período actual 2015-18 e não aos anos 1960...
Ou seja, mais valia estar calado, porque argumentar que actualmente haverá menos tecnologia disponível é mais que ridículo!

Há sempre muitas perguntas que ficaram por fazer, e é preciso quem as faça!
Por exemplo, que tal encontrar um vídeo ou imagens do nascer ou pôr do Sol na Lua?
Foram lá tantas vezes, fizeram tudo o que havia a fazer, certamente que há.
Deveria haver, mas não há, ou não se encontra! Ou, melhor apresenta-se uma encenação feita pelo "Planetário do Curdistão" que até tem o astronauta com a sombra contrária... e a simulação é tão mázinha que mete dó.
Aliás fotos do Sol, tiradas da Lua (ou mesmo do espaço exterior) é coisa que não consta, e já falámos sobre as pretensas fotografias tiradas à Terra, na dissertação sobre NASA e NASmyth.

Radiação electromagnética - o visível é apenas uma estreita faixa 
após o infravermelho e antes do ultravioleta.
Para explicar o problema que ocorre, e pelo qual não é possível passar simplesmente uma cintura de partículas que rodeia a Terra, a chamada Cintura de Van Allen, basta compreender que a luz é apenas uma parte da radiação emitida pelo Sol.

Como é claro, o Sol não emite apenas radiação visível... e se abaixo do visível a radiação solar não é incomodativa, acima do violeta, começa a dar problemas de saúde.
Chega o Verão e começamos a ouvir os cuidados a ter com os raios ultravioletas, porque esses ainda são filtrados pela atmosfera, mas soube-se da permissividade na camada de Ozono.

OK. Muito bem. Mas acima dos ultravioleta, temos Raios X e Gama. O que impede que esses raios solares nos esturriquem, como se estivessemos sempre a fazer radiografias?
O que impede que esses raios cheguem à Terra é essa camada de partículas carregadas magneticamente, denominada Cintura de Van Allen, que foi descoberta aquando das primeiras viagens espaciais, em 1958. Miraculosamente essa camada magnética protectora impede até que a atmosfera seja destruída pelos "ventos solares".

A questão é que passando essa cintura, não apenas essa zona é perigosa (diz-se que a missão Apollo fazia os foguetões passar pelo buraco da agulha, para evitar a questão), como em todo o espaço, além dessa cintura que rodeia a Terra, estar-se-à sujeito a Raios X e Raios Gama, vindos do Sol, ou ainda ao vento solar.
Se achamos que a radiação solar pode ser muito quente, na parte visível, quando ainda tem que passar pela atmosfera, é uma questão de pensar o que acontece relativamente ao aquecimento, se juntarmos aí os Raios X e Gama. Pois, e não é assim à toa que se proclamam 200ºC na superfície lunar, que incomodaram pouco os astronautas... porque sim (já agora poderiam ter levado uma amostra de água para a ver evaporar...)

Imagem Raio-X da Lua em 1990.
Acontece que os Raios X vindos do Sol não são em pequena quantidade (e.g. The Sun as an X-ray Source), e além disso deveriam ser reflectidos pela Lua, nalguma quantidade. Ou seja, poderíamos ter imagens Raio-X da Lua, mas o máximo que está disponibilizado é esta foto de 1990 - ou seja, aparentemente ninguém se lembrou de fazer telescópios para Raios-X.
Será? É que curiosamente é conseguido sem dificuldade observar Raios-X de estrelas que nem sequer são visíveis...
Mesmo para outro tipo de radiação, as imagens da Lua em frequência não visível são menos que escassas, veja-se por exemplo aqui (Caltech).

Não é ridículo, é pior que isso. É total falta de vergonha misturada com incompetência.

Bom, para bem da continuação da ficção existe um filme de comemoração "Apollo 11", e esperemos que seja digno da realização de Kubrick.
É claro que também existem os adeptos da "Flat Earth", uma brincadeira provavelmente patrocinada por associados da NASA, mas a esses aconselha-se a fazer uma viagem de avião... ou de barco, como terá feito Magalhães - mas essa história fica para depois.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Os Sismos dos Cismas (3)

O Cisma de Avinhão é remetido ao regresso do papado a Roma em 1378, mas o problema começou antes, com a saída do papado de Roma, em 1305-09.

A personagem no centro da acção seria o rei francês Filipe IV, dito "o Belo".
Filipe IV de França manda prender e queimar templários (13 de Outubro de 1307).

Filipe IV, estando cheio de dívidas, decidiu cobrar taxas ao clero. 
O papa Bonifácio VIII opôs-se, invocou que o poder papal estava acima do real, e excomungou o rei francês. Este não esteve com pruridos, enviou um exército contra o papa, Bonifácio foi preso e espancado, acabando por falecer em 1303.
Os cardeais tentaram eleger um novo papa mais simpático para Filipe, mas mesmo tendo-lhe levantado a excomunhão, o papa Bento XI acabou por morrer oito meses depois, em 1304, envenenado, provavelmente sob champignons françaises.
A solução sob pressão foi eleger o papa Clemente V, francês e um parente de Filipe IV, que assim serviria directamente ao rei francês... e mais que isso, instalou-se em solo francês!
Começa assim o papado de Avinhão em 1305, com a vinda da cúria em 1309, e até que o papa regressasse a Roma em 1377. 

O cisma oficial, de 1378 a 1417, ocorre pela insistência francesa em eleger papas em Avinhão que passaram a ser chamados "antipapas". Para complicar o assunto (ou talvez para o resolver) em Pisa apareceram ainda outros "antipapas". 
Curiosamente, o cisma termina em 1415, no ano da conquista de Ceuta, com a abdicação do papa de Roma, Gregório XII e do antipapa de Pisa, João XXIII, e também com a excomunhão do papa de Avinhão, Bento XIII, que não abdica. O novo papa Martinho V, que só toma o lugar em 1417, acabará por ser reconhecido mesmo por Avinhão, mas só em 1429. 
Este abdicar em 1415 visou resolver o problema de Avinhão, quanto ao seguinte, em 2013, é mistério.

Interessa que houve uma certa divisão por reinos na aliança aos papas de Avinhão ou Roma:
  • Avinhão: França, Castela e Aragão, Borgonha e Savóia, Nápoles, Gales e Escócia.
  • Roma: Inglaterra, Portugal, Sacro-Império Alemão, Flandres, Escandinávia, Hungria, Polónia.

Por isso, na aliança de 1373, e depois no Tratado de Windsor (1386), entre Inglaterra e Portugal, há aqui um outro aspecto de ligação. Ao contrário de uma baixa Idade Média, com os reinos muito focados em si mesmos, com a entrada dos Normandos, e dos reinos escandinavos (Dinamarca, Noruega e Suécia) no mundo católico, o que levou praticamente ao início das Cruzadas, o panorama europeu alterou-se significativamente quando entramos na alta Idade Média. 

As Cruzadas abrem de novo a Europa a contactos entre as diversas nações, há um espírito de união contra a ameaça muçulmana, e para isso será crucial o papel das ordens monásticas, especialmente os templários e hospitalários. Antes deste período, seria impensável ter uma armada de cruzados de diversas nacionalidades a participar na conquista de Lisboa, por exemplo.
Até por uma razão simples... os cavaleiros, escudeiros, homens de armas eram propriedade exclusiva de uma casa real, de um ducado ou condado, e só se mexeriam para combater sob o seu senhor. Isso iria ser alterado com os exércitos convocados para as Cruzadas, e para as ordens militares.

Templários
O rei francês Filipe IV e o seu papa Clemente V, ficaram mais conhecidos pela perseguição e extinção da Ordem dos Templários em 1307-12, levando à morte na fogueira de muitos templários e em particular do mestre da ordem, Jacques de Molay, em 18 de Março de 1314.

A ideia do rei francês seria propor a união dos templários e hospitalários, numa única ordem, da qual o próprio rei de França seria o único grão-mestre. 
Para Filipe IV seria especialmente incómodo ter o rei inglês como vassalo na Aquitânia, então chamada Guiana (variação de Aguitana), algo que foi conseguido em troca da Normandia, porque os reis de Inglaterra eram naturalmente duques da Normandia, até que o rei Luís IX, dito São Luís, convenceu a troca com a província mais distante, a Guiana, com capital em Bordéus.
Provavelmente, à frente desse exército seria mais fácil recuperar a Guiana, e finalmente unir o território francês, sem presença inglesa-normanda. 

Conseguiu a extinção dos templários, por bula papal, a que escapou apenas Portugal, onde tomou a forma de Ordem de Cristo. Não conseguiu a extinção dos hospitalários, que se mantiveram até hoje, sob forma de Ordem de São João, ou posteriormente, Ordem de Malta.

Após a expulsão dos Cruzados dos territórios da Palestina, o outro território onde a sua acção seria mais efectiva contra os árabes, seria a Ibéria. Assim, e especialmente os templários, tinham múltiplos castelos na Península Ibérica... e vemos desde logo aqui a diferença entre a abordagem portuguesa, que permitiu a permanência da ordem, e a abordagem castelhana ou aragonesa, que acabaram por seguir a bula de Avinhão e suprimir a ordem, em favor de outras ordens locais, espanholas - como as ordens de Calatrava, de Montesa, de Alcantara, ou de Santiago (esta também com uma variante portuguesa).
Tal como a Ordem de Avis, portuguesa, ou a Ordem Teutónica, tipicamente alemã, estas ordens locais não tinham o mesmo impacto trans-nacional que exibiam as ordens templária e hospitalária, que eram de nomeação papal directa.

A agenda dos templários não teria mudado, e o plano continuaria a ser um combate contra o domínio muçulmano. Em particular, a denominada "tática da cunha", que consistiria em contornar o continente africano e surpreender os árabes pela retaguarda, na península arábica... Algo que esteve praticamente pronto a ser concretizado por Afonso de Albuquerque, aquando da sua substituição como vice-rei.

Também não será de estranhar que em mapas de Pedro Reinel, e outros, apareça não só a bandeira das 5 quinas, mas também a bandeira com a Cruz de Cristo, significando possivelmente uma concessão à Ordem de Cristo.
Mapa "Pedro Reinel a fez" - bandeira com a cruz templária da Ordem de Cristo 
e bandeira nacional com as 5 quinas.

A reconquista de Jerusalém chegou mesmo a tentar ser negociada com a China, enquanto sob dinastia mongol, quase ao mesmo tempo que Marco Polo fazia as suas famosas viagens. O interesse não era apenas europeu, e houve um enviado de Kublai Khan, de nome Rabban Bar Sauma que partiu numa viagem de 1280 a 1294 onde se encontrou com diversos monarcas europeus, em particular com o rei francês Filipe IV, e com o rei inglês, Eduardo I. Ainda constou que o grão-mestre templário, Jacques de Molay, tivesse comandado uma ofensiva mongol que teria invadido Jerusalém, em 1300, mas essa notícia veio a constatar-se ser falsa. A partir dessa altura, e com os relatos de Marco Polo, os europeus consideraram ser igualmente perigoso o risco de uma invasão pelos mongóis, no pretexto de se aliarem contra os árabes.

Maçonaria
Com o fim dos templários, e apesar dos hospitalários manterem um carácter trans-nacional, a ideia de um projecto trans-nacional para a reconquista de Jerusalém foi sendo perdida. Poucos anos após o fim dos templários, o rei inglês Eduardo III decide formar a Ordem da Jarreteira, inicialmente ligada à disputa com França na Guerra dos 100 anos, mas que vai afiliar reis estrangeiros aliados - em particular, e o primeiro rei não inglês, seria D. João I, assim como serão membros os seus sucessores da Dinastia de Avis. Em contrapartida, seria criada a Ordem do Tosão de Ouro, pelo Duque da Borgonha, também de carácter multi-nacional. A política no final da Idade Média começa já a fazer-se de alianças entre os reinos, devido à constatada fraqueza da posição e arbitragem papal.

Esse paradigma de alianças e tratados entre estados passará a ser a única forma diplomática de relacionamento quando termina a Guerra dos Trinta Anos, em 1648, com uma derrota dos Habsburgos e consequente declínio e fragilidade da posição papal.

Um entendimento e uma diplomacia subterrânea, passam a ser necessárias para além da Cúria Romana, agora com um poder de influência muito limitado. É neste contexto que vai aparecer em Londres a Maçonaria, formalmente em 1717, ou seja praticamente 70 anos depois.

A Maçonaria exibe ainda no seu rito escocês, ou de York, nomenclaturas que invocam uma herança templária, e também hospitalária. Portanto, a herança de uma organização trans-nacional que terá sido característica destas ordens monásticas francesas, acabou por migrar para uma organização inglesa, praticamente sob alçada da coroa britânica. Seriam ainda os britânicos que finalmente, em 1917, vão conquistar Jerusalém, realizando o velho sonho templário. A ordem templária, depois maçónica, e que nunca deixou de transparecer uma forte influência judaica (começando na invocação ao Templo de Salomão), acabaria mesmo por definir na declaração de Balfour o projecto sionista.
É verdade que antes, Napoleão ao desembarcar em Jaffa, procurava ser ele o restaurador do domínio europeu sobre Jerusalém, mas nessa altura já todo o poder se desequilibrava para o lado inglês, e não caberia aos franceses esse papel de regular os sinos das lojas. 
A sucessora de Roma não seria Avinhão, mas sim Londres.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Os Sismos dos Cismas (2)

Afinal, o que aconteceu aos sacerdotes faraónicos, quando o Egipto foi engolido pela cultura greco-romana, depois pela cristã e finalmente pela muçulmana?
Ou, o que aconteceu aos sacerdotes do panteão greco-romano quando apareceu a religião cristã?
Ou ainda, o que aconteceu aos druidas celtas com o crescimento da religião cristã?

As religiões sobreviveram enquanto desempenharam o papel social promovido pelos seus sacerdotes. Quando os sacerdotes deixaram de ter relevo social, apadrinhado pelo poder executivo e militar, o número de fiéis foi diminuindo significativamente, até ao ponto da extinção religiosa.

Uma importante excepção foi a religião hebraica, que se formou como carácter identitário do povo judaico. Outra importante excepção foi a religião budista, que se propagou sem a ajuda de uma conquista bélica, como aconteceu com a religião muçulmana. Os budistas foram pioneiros numa difusão missionária da religião, com um paralelo que teria lugar com os missionários cristãos, ainda que essa cristianização fosse acompanhada também de um domínio militar.

Ascetas egípcios e beneditinos
O carácter ascético, que iria definir as ordens monásticas cristãs, teria um paralelo numa tradição antiga hindu, depois transportada para o budismo, e também para os primeiros monges egípcios (S. Paulo de Tebas, S. Antão do Deserto) que influenciaram São Bento a definir as regras de vida reclusa dos monges nos mosteiros, no Séc. VI. Este tipo de ordem monástica não foi exclusiva dos beneditinos, tendo sido praticamente seguida por todas as ordens posteriores, tendo as ordens militares outras variantes.
S. Paulo de Tebas, S. Antão do Deserto - primeiros eremitas cristãos (Séc. III, Egipto)
(Excerto de quadro de Velasquez.)

Os sacerdotes egípcios terão feito uma rápida conversão ao cristianismo, talvez porque na dinastia ptolomaica, a religião egípcia se começara já a focar em Hermes Trimegisto, visto como uma derivação de Tot, o que muito terá influenciado os primeiros movimentos cristãos gnósticos. O mistério da Trindade seria importante nessa filosofia religiosa, como depois se tornou crucial na religião cristã.

As correntes de pensamento neoplatónicas, ou gnósticas, deram esse aspecto teológico eremita, de reflexão pessoal, que pode encontrar raízes mais antigas em Zaratustra - cujas reflexões sobre a entidade suprema - Ahura Mazda, também se teriam processado numa caverna afastada. Esta influência eremita de Zaratustra estará também depois presente num hinduísmo politeísta e num posterior budismo ou taoísmo, mais introspectivos.

Monoteísmo e politeísmo
O aspecto monoteísta versus politeísta, começou a causar problemas no Séc. XIV a.C. com o faraó Akhenaton, e um conflito latente entre o aspecto mais popular - de múltiplas divindades - e o aspecto mais intelectual - de uma única divindade, foi coexistindo, sempre com vantagem para o politeísmo até à chegada do cristianismo, onde a velha filosofia monoteísta se impôs em todo o mundo romano.

Houve assim um conflito prolongado no tempo, onde o aspecto religioso mais popular tendia para a adoração de múltiplas divindades ocasionais, e o aspecto teológico, mais filosófico, proclamava a criação por uma única divindade suprema. No sentido dessa tradição monoteísta, a religião hebraica, talvez resultado de uma facção resistente dos tempos de Akhenaton, lembrando Moisés, foi aceite como "velho testamento", mesmo na sua versão pouco filosófica, e muito politeísta, na concepção de divindades inferiores (os anjos).

Assim, apesar da Igreja medieval se centrar num neoplatonismo, que entendia Platão e Aristóteles como grandes doutores da igreja, e preconizar um idealismo monoteísta, as diversas tendências populares a que a Igreja foi cedendo, fizeram aparecer um politeísmo de múltiplas pequenas divindades, de anjos a arcanjos, de beatos a santos, etc. Enquanto instrumento de poder, a Igreja não deixou de seguir na tendência comum da população, e aceitou ou tolerou os cultos populares.

Um exemplo interessante é o da tradição chinesa, onde existe uma espécie de capitalismo religioso, onde os templos crescem consoante a lei da oferta e da procura... ou seja, se as preces a certa divindade resultarem, então as oferendas aumentam e o templo cresce. Se, pelo contrário, as preces não forem atendidas, o templo entra em decadência, e as pessoas deixam de aí procurar a sua sorte, acabando por desaparecer. Isto acontece de forma similar também com muitos santos católicos e locais de peregrinação, que foram crescendo ou decrescendo, consoante a popularidade.

O politeísmo foi ainda necessário para acomodar os cultos europeus pagãos, de origem celta, que permaneciam enraízados nas populações. A figura de uma deusa mãe passou a ter um substituto no papel materno de Maria, e cultos mais específicos dedicados à fertilidade tiveram a sua dedicação a entidades cujo nome deixa poucas dúvidas - como é o caso de Nª Srª do Ó, onde o Ó se refere simplesmente à forma do ventre em "O" (por muito que se pretenda argumentar outra coisa).

Grande Cisma - Filioque
A separação entre a Igreja Romana Ocidental e Oriental era quase inevitável, e será até estranho que só tenha ocorrido em 1054. O pretexto da ausência da palavra "filioque" foi aparentemente a menor causa arranjada para uma divisão tão marcada.
Há alguns detalhes que não devem ser desconsiderados.

Carlos Magno é coroado imperador.
Em 800 d.C. Carlos Magno é coroado pelo papa Leão III como imperador do Sacro-Império Romano, e abre-se um conflito com o Império Oriental de Constantinopla - o legítimo herdeiro, porque não teria perdido a sucessão de imperadores. Este novo Império Ocidental surgia do nada, aparentemente por iniciativa papal, mas já estaria em preparação.

Exactamente na mesma altura, e muito provavelmente em resposta à anexação da Saxónia por Carlos Magno em 772-804, os Vikings começam os seus raides invadindo os territórios costeiros ocidentais.

Portanto, não foram apenas os bizantinos a incomodar-se com esta ascenção de Carlos Magno ao título imperial. Também os povos escandinavos - até aí remetidos basicamente a um certo isolamento - passam a aparecer de forma incómoda na história europeia, e não é claro que os dois acontecimentos não tivessem uma outra ligação mais directa.

A pressão viking foi de tal maneira complicada que o rei francês Charles III só conseguiu terminar com os raides, cedendo o território da Normandia ao líder viking Rollo, ou Rolf, que seria assim o seu primeiro duque.
Seria da Normandia que se estabeleceria a sucessão dinástica de Inglaterra, após a invasão de Guilherme I (William) em 1066. Nesse mesmo ano, e pouco antes de ser destituído e morto por Guilherme, o rei inglês Harold tinha evitado a invasão do rei norueguês Harald, na batalha de Stamford Bridge. Neste altura, em 1066, já o rei noruguês ou o duque da Normandia, eram ambos cristãos.

A entrada dos normandos na história da Europa já tinha começado na incursão e conquista de territórios no sul de Itália, que antes estavam sob domínio bizantino. As guerras entre bizantinos e normandos foram por assim contemporâneas do Cisma e antecederam a 1ª Cruzada.

Um pedido de ajuda do Imperador bizantino levou à convocatória da 1ª Cruzada 1096-99, pelo papa francês Urbano II. Para esse efeito foi determinante o papel dos normandos, que engrossaram esse grande exército - que ao contrário do que esperava o imperador bizantino Alexis I, não foi apenas uma simbólica força de ajuda.

Roma e Constantinopla viviam bem com uma Jerusalém sob domínio árabe, até que apareceu esta nova vaga de soldados normandos, que levariam mais a sério a questão de ter o local sagrado de Jerusalém acessível à peregrinação cristã. É assim neste contexto que surgem logo de seguida as ordens monásticas militares, destinadas a combater a presença muçulmana em território cristão.

Subitamente a Europa reunia forças militares trans-nacionais, de grande dimensão, fundadas sob ordens monásticas, como os Templários, Hospitalários ou Teutónicos, capazes de desequilibrar o equilíbrio medieval.