segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A Mina e A Méjica

Neste "peça a peça" vou colocando algumas das coisas que fui vendo ao longo destes três anos, mas que aqui não escrevi, porque acabavam por ser "mais do mesmo". Mais provas, e alguma documentação, que ia sempre ao encontro da tese principal - a História ensinada é uma estória onde se esconde outra história...
Como me vou relembrando de algumas coisas, e encontrando outras novas, acaba por me parecer útil reunir os diversos elementos, que acabam por acrescentar alguns detalhes. O material é tanto que dará para encher muitos textos, mas são essencialmente muitos indícios do mesmo, e não propriamente grandes novidades.
É claro que é fácil rebater um documento isoladamente, enquanto que contra uma extensa lista de documentos e evidências, a Academia usa os expedientes habituais:
- ignora até poder, pode também falar em "algo absurdo" ou em "algo interessante" (é indiferente), mas requer mais explicações (infindáveis, ao bom estilo kafkiano), e quando, esgotando a paciência de todos, finalmente aceita... nada faz, e continua a ignorar como antes, até que venha a nova geração, e tudo se repete. Andamos nisto há séculos... podemos dizer milénios. 
Temos aqui exemplos ilustrativos.

O assunto é sobre a descoberta do Brasil, e menciono três textos.
- Uma bem conhecida carta de Mestre João Faras, um espanhol da migração judaica, ao serviço do Rei de Portugal, D. Manuel, na esquadra que colocou o carimbo de descobrimento no Brasil.
- O livro de Faustino da Fonseca, "Descobrimento do Brazil" e um texto com o mesmo nome, de Garcia Redondo, académico brasileiro, que cita e elogia Faustino. Ambos os textos são do início do Séc. XX, passaram-se 100 anos, e praticamente estão esquecidos. O texto de Garcia Redondo é mais curto, e encontra-se mais facilmente... já o de Faustino não se encontra às primeiras tentativas.

Mestre João
Sobre a carta de Mestre João, descoberta por Vernhagen no Séc. XIX, não há muito a dizer, bastaria um "sem comentários" e ler bem o que ele escreveu. Há uma página razoavelmente completa na Wikipedia, há a documentação na Torre do Tombo, e a transcrição associada:

Excerto da carta de Mestre João (Faras), onde desenha 
o Cruzeiro do Sul para orientação do pólo antártico.

O que tem a descrição de especial? Não é apresentar o Cruzeiro do Sul, pois desde as viagens aceites de Diogo Cão em 1482 seria impossível não o ver...
A maior particularidade é esta citação:
Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina.
Portanto, Mestre João, que acaba de chegar ao Brasil com Pedro Álvares Cabral, diz que aquela terra estava num mapa de Bisagudo. 
Resumindo: por acaso acabavam de descobrir o Brasil, mas tinham deixado em Portugal um mapa que já tinha desenhada aquela costa. 
Há gente que engole isto, e de facto só tem um problema de interpretação dado o significado da palavra "des-cobrir" - Cabral conseguiu "descobrir" por sorte, já o mapa de Bisagudo, esse ficou "encoberto" por azar.
Há um detalhe que ninguém parece mencionar, mas que para mim é muito importante... a Mina.
Aquilo que se torna claro é que a Mina era na América, ou antes - havia um Castelo da Mina junto aos incas, e um Forte da Mina no Benim - algo que escrevi há três anos, quando reparei no paralelismo das descrições entre as costas africana e americana.

Faustino da Fonseca e Garcia Redondo
Este episódio do mapa de Bisagudo é notado no livro 
Descoberta do Brazil, de Faustino da Fonseca.
Aliás, terá sido notado a partir do momento em que Francisco Varnhagen vai desencobrir as cartas, e há muito tínhamos referido Cândido Costa, que compilara informação no mesmo sentido. Na transição de 1900 sucedem-se os achados contraditórios, e pela não divulgação, são vários a chegar às mesmas conclusões. Uns terão ficado inconformados, outros terão-se conformado a alguma irmandade que cuida destes desvios.
Faustino da Fonseca, tentará publicar a sua compilação de factos por ocasião do 4º centenário da descoberta do Brasil, em 1900. Como ele diz, foi a popularidade do seu texto que evitou que ele ficasse completamente encoberto, e acabou por ser editado, para ser hoje convenientemente esquecido.
De acordo com a wikipedia, seria afiliado maçon, foi senador e director da Biblioteca Nacional, depois da implantação da República. Não terá sido o primeiro, nem o último director, que demonstrara antes as inconsistências na descoberta do Brasil.

Há muita informação importante no trabalho de Faustino da Fonseca, e são tantos os elementos que ele reúne que acaba por ser difícil retirar alguns do contexto.
Garcia Redondo, em palestra na Academia Brasileira, rendido à demonstração de Faustino, sintetiza assim as conclusões ("O Descobrimento do Brazil", Garcia Redondo, página 34):
  • 1436—Regista André Bianco nas suas cartas e no seu portulano as descobertas do Brazil ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sargaços.
  • 1447—Um navio parte do Porto e vae á Groelandia onde os marinheiros desembarcam.
  • 1448—Regista André Bianco nas suas cartas a existencia do Brazil á distancia precisa de 1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do Cabo Verde e o Cabo de S. Roque.
  • 1452—Diogo de Teive e seu filho João descobrem a ilha das Flores e chegam á latitude da terra do Lavrador.
  • 1472—Descobre João Vaz Corte Real a Terra de João Vaz, ou Terra Nova, ou Terra dos Bacalhaus, na America do Norte.
  • 1473-1484—Affonso Sanches descobre as Antilhas.
  • 1487—Viagem á America de Fernão Dulmo e João Affonso Estreito, acompanhados de Martim Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo que construiu e no mappa do erario real portuguez, a existencia da peninsula da Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.
  • 1492—Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14 de abril, da terra do Lavrador, por João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos.
Para quem começa a ler a documentação, como diz Garcia Redondo, o que é quase impossível é mostrar que foi Colombo o primeiro a realizar tal viagem...
O mais notável será a leitura do próprio Colombo, que vai à "Terra Firme" (Colômbia, Venezuela), para confirmar da existência das terras que el-Rei Dom João II lhe assegurava existirem, ou seja, de toda a América do Sul, em particular do Brasil, demarcado pelo afastamento do meridiano de Tordesilhas.
Conforme diz Faustino da Fonseca, não era Colombo que inovava pela ideia de circum-navegação, essa ideia era vendida a D. João II, e depois a Colombo, por Toscanelli e pela academia externa, que ignorava a extensão prática da América, bloqueadora da passagem.
Reconstrução da visão de Toscanelli (1474)
(esta ideia de Circumnavegação será adoptada depois por Colombo)

Os portugueses é que se afastavam da escolástica, e afirmavam a experiência, "a madre de todas as cousas", conforme dizia Duarte Pacheco Pereira. O relato da extensão americana, que Pacheco descreve ao delimitar correctamente pela parte portuguesa do continente americano, surpreende Humboldt, já que à época as navegações espanholas nenhuma informação traziam da ligação contínua entre a América do Norte e do Sul.

A Méjica
Garcia Redondo vai ainda juntar uma nota sobre Vespúcio, e como a América resultaria de uma manobra francesa para lembrar o seu cartógrafo Rigmann... mas nacionalidades são ali uma capa que esconde outra estrutura, em que os francos são armados em galos. Redondo refere ainda a possibilidade do nome advir de uma designação dos Índios da Nicarágua para "Terras Altas".
Já aqui abordei o tema, e não me oferecem dúvidas que o termo Américo nada tem a ver com Alberico Vespúcio, que depois passou a ser conhecido como Américo...
Notei depois outro detalhe, que aproveito para escrever agora. 
Figueiredo fazia a separação - falava "da Mérica" e nem sempre da América
Ora, entre Mérico e México, temos apenas um ligeiro desvio de "r" para "x", acresce que os espanhóis ainda escrevem alternativamente "Méjico" enfatizando o som "r" no nome.
Por outro lado, Mexica era o nome dado ao povo Azteca, e pronunciava-se Méhícá, onde o "h" pode ser substituído sem grande distorção pelo "rr" do "j" espanhol.
Ou seja, se perguntassem a um português, diria A Mérrica, um espanhol A Méjica.
As suas malaguetas, paprikas ou amrikas, seriam afinal a pimenta, cujo o prato principal seria o ouro, disfarçadamente misturado no paralelo africano da Costa da Malagueta.
Se a Mexica caíu com Cortés, o nome já em uso acabou por brindar um Alberico renomeado Américo, mantendo-se alguma fonética original.

O atlas Miller 
Já vimos como Faustino da Fonseca (1900), Garcia Redondo (1911), ambos membros da Academia das Ciências de cada país, tomaram conhecimento do assunto, moveram-se para publicar as redescobertas, pelos cargos influentes conseguiriam alguma tomada de posição institucional. Porém, isto foi antes da Primeira Guerra Mundial, depois o assunto parece ter ficado algo esquecido, ou talvez não, e houve uma Segunda Guerra Mundial, e depois um grande silêncio.
Só que este problema acaba por aparecer ciclicamente, porque as coisas não batem certo, e alguém descobre, ou porque as coisas passam de uns a outros, quanto mais não seja em conversa casual.
Chegou-me a notícia (via KT-USA) de uma tese de doutoramento polémica sobre o Atlas Miller, de Alfredo Pinheiro Marques, na Universidade de Coimbra (e que parece ser levado o autor a mover processo judicial). Incluía-se um título significativo:

  • MARQUES, Alfredo Pinheiro
    Para o Silêncio da História: Carta ao Primeiro-Ministro do Meu País, sobre a Censura e a Mentira na História de Portugal
    [For the Silence of History: a Letter to the Prime Minister of My Country, on the Censorship and Lies in the History of Portugal], Coimbra - Figueira da Foz: Edição do Autor, 1999; 235 pp., c/il.; Dep. Legal (Portugal) 139040/99, ISBN 972-97193-2-2. The book about the censorship in Portuguese historiography and commemorations, and the international scandal of the 17th International Conference on the History of Cartography, Lisbon 1997.
Apesar de ter a curiosidade inerente em ver o que é dito sobre o Atlas Miller (de que já aqui falei), o título da "Carta ao PM" é suficientemente esclarecedor. Passados 100 anos, não foi Faustino da Fonseca a ter problemas ("O escândalo dos dramas do concurso do Centenário da Índia". Lisboa, Editora Agência Universal Publ., 1898), mas aparece sempre alguém... neste caso o director do Centro de Estudos do Mar. Se Luís de Albuquerque resistiu à tentação, parece que a nova geração nem tanto...
Não tenho grandes dúvidas que há segredos na representação das cartas portuguesas, e o mais simples - que consiste em virar o portulano de Pedro Reinel, será um deles. É bem possível que Alfredo Marques tenha identificado outros e se tenha deparado com o processo kafkiano inerente (felizmente que não é dirigido contra ele). Porém, parece-me que o segredo que escapou a Alfredo Marques é que se tratam mesmo de segredos... ainda hoje.

Essa reacção da parte culta, do culto, vi em inacção e acção há três anos... nos últimos quinze dias de Dezembro de 2009, e não me surpreendeu. Já as manifestações mais ocultas, essas vieram nos quinze dias seguintes, e deram-me uma dimensão suplementar do problema... essas diabruras é bom que fiquem de onde nunca deveriam ter saído.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Alves dos Reis e sementes similares

O crash da bolsa de Nova York no final de Outubro de 1929 tem um gráfico do índice Dow Jones que é semelhante, mas menos drástico, do que aquele que vimos a propósito da tulipomania.

Na década de 1930, para responder ao colapso financeiro, surgiram soluções de revitalização da economia, sendo especialmente seguidos conselhos de Keynes, nomeadamente no papel de estímulo intervencionista que Roosevelt adoptou, numa altura em que só o Estado poderia repor a crise de confiança, de fé na economia. 
Keynes advogou a separação entre o ouro e a moeda, algo natural pois a escassez do metal tenderia a não reflectir a expansão da economia. Já mesmo antes da 1ª Guerra Mundial, em situações de crise, o padrão do ouro era abandonado, favorecendo uma impressão de moeda sem referencial fixo, como acontecera com Portugal desde 1891, ou seja, após a bancarrota monárquica.

Em 1924 a impressão de dinheiro vai ser levada ao extremo. Entra em cena o famoso "burlão", Alves do Reis, com um incrível processo de falsificação de notas de 500 escudos (as mais elevadas). Com uma "conveniente" série de cúmplices, e com falsificações de documentos, consegue uma ordem de impressão de notas em Inglaterra. Pela primeira vez, e creio que única, um indivíduo iria substituir-se ao Estado na impressão de dinheiro, usando a mesma casa que o Estado para a impressão de notas falsas.

O esquema era audacioso, porque através do Banco de Angola e Metrópole, que acabara de criar, e de outros expedientes, iria proceder à lavagem de dinheiro. Concedendo empréstimos a juros mais baixos, colocaria as suas notas no mercado, e receberia depois dinheiro "legal", mais juros.
Um esquema semelhante ao que tinha usado para comprar uma grande empresa, a Ambaca... com cheques falsos! Depois de a adquirir, usaria o próprio capital da empresa para cobrir os cheques falsos que tinha passado. Acabou preso, mas por falha processual foi solto em 1924, e avançou logo para o esquema mais audaz - produzir dinheiro. Planeava adquirir o controlo do próprio Banco de Portugal, evitando depois qualquer ordem de investigação. Em 1925 acabou por ser apanhado numa investigação jornalística, e foi depois condenado a 20 anos, só saindo em 1945.

Alves dos Reis, após ser libertado em 1946 (daqui).

Argumentou que apenas tinha procurado colocar dinheiro em Angola para dinamizar a economia dessa colónia. Lembro-me de ter visto um filme antigo, que terminava com ele dizendo: "Ainda me vão pedir para salvar as finanças"... ou algo semelhante, mas caberia a Salazar esse papel, com outra política!

Este caso é bem conhecido, documentado, e é ainda alvo de estudos - os ensinamentos de Alves dos Reis acabaram por fazer escola... 

- Primeiro, nos anos 1980, houve uma recuperação dos bancos nacionalizados no 25 de Abril, em que foram usados praticamente os mesmos expedientes. Gente aparentemente falida teve crédito para comprar bancos e usou depois o próprio capital dos bancos adquiridos para efectivar a compra. Um expediente à Alves dos Reis efectivou a devolução, com os naturais custos e benefícios políticos decorrentes das cumplicidades.

- Segundo, a ideia do esquema de impressão de dinheiro para financiar a economia, podia ser anterior, mas obviamente era apenas autorizada aos estados, e gerava inflação galopante, por se distanciar do padrão do ouro internacional. A inflação na Alemanha, durante a República de Weimar, nos anos 20, foi exemplo disso. O descontrolo era induzido externamente, porque o comércio acabava por aceitar qualquer moeda a um câmbio que arruinava o marco. Quando o marco foi suspenso, em 1930, haveria mais notas antigas nos EUA do que na Alemanha. É claro que a produção de moeda, independente do padrão, só poderia resultar num país que não dependesse do exterior, o que não era o caso alemão, nem português, nos anos 20. Foi só com a consolidação de alguma auto-suficiência e independência, através de regimes ditatoriais, que a crise desses países foi afastada nos anos 30. 
O argumento de Alves dos Reis - o financiamento a Angola - antevia o aspecto keynesiano de investimento numa colónia que dinamizaria uma região auto-suficiente, e os estudos apontam para que a impressão de Alves dos Reis, de 1% do PIB, terá tido pouco efeito na inflação.
Aliás, as notas fabricadas pela 1ª República tiveram um destino tão ou mais incerto do que as recebidas pelo falsário... e se ele emprestava dinheiro a juros baixos, o dinheiro fabricado pelos governantes da república maçónica parece ter-se perdido em investimentos "desconhecidos".

- Terceiro, a capacidade privada de inventar capital, foi levada ao extremo recentemente, com os chamados "produtos tóxicos", essencialmente contratos de futuros das tulipas numa versão menos floral. Não foi inventar notas, mas foi inventar dinheiro... dinheiro que não existia hoje, hipotecando gerações futuras ao pagamento desse capital.
Se a ideia de Alves dos Reis era inventar dinheiro para comprar o Banco de Portugal, a ideia recente parece ter sido  inventar capital para comprar as dívidas soberanas de todo o mundo. A megalomania de Alves dos Reis foi levada à escala global.
Ora, Alves dos Reis sabia que quando controlasse o Banco de Portugal abafaria as suspeitas, e de forma semelhante comprando as dívidas soberanas controla-se a economia dos estados e condicionam-se as suas decisões. Uma vez em controlo, Alves dos Reis poderia argumentar que a culpa do descalabro das finanças era da anterior direcção, da mesma forma que hoje se imputam culpas aos governos dos estados. Com uma boa propaganda é sempre fácil definir o culpado conveniente...
Os contratos de futuro funcionaram como cheques sem cobertura, e tal como no caso das tulipas, quem inventou a valorização, certificada por agências, bolsas, bancos e até universidades, foi quem depois passou para o outro lado, exigindo a sua liquidez, arruinando o seu valor.

Se no caso de Alves dos Reis, o Estado português acabou por conseguir ser indemnizado pela companhia produtora das notas (que foi à falência - escapando incólume o seu gestor, depois Mayor de Londres), o caso actual revelou a sua faceta de resgate. Sob a ameaça de colapso, houve um autêntico rapto da economia internacional, e o pedido de resgate foi validar os contratos feitos com os "cheques falsos"... a maioria estava em bancos privados. Com o pretexto de não arruinar os depositantes e a confiança no sistema bancário, a liquidez seria exigida pela cobertura estatal, ou seja, pelos contribuintes, com aumento de impostos. Também seria expectável que Alves dos Reis, se ficasse em controlo do Banco de Portugal, exigisse a validade das suas notas, sob pena de desbaratar o próprio banco.
O resgate leva à situação caricata de uma dívida mundial colossal, sem que se perceba onde estava afinal o crédito que permitiu o empréstimo... e é simples, estava a germinar nos bulbos das tulipas.

Termino, com umas considerações básicas, mas que são usualmente negligenciadas.
O dinheiro é uma manifestação de fé. Usa-se a palavra crédito como sinónimo.
Uma nota transporta a fé de que aquele papel vale alguma coisa para quem o recebe. Já era assim com o ouro, e não adiantava muito negociar ouro com indígenas que não lhe dessem valor. Todo o sistema financeiro assenta numa base de fé, implantada pela pena, ou em casos mais sérios, pela espada.
A máxima realização possível numa vida terrena é ter crédito infindável, com qualquer interveniente. Por isso, quanto mais for valorizado o dinheiro, mais fácil é obter não apenas o trabalho, mas até a  própria vontade alheia. Os valores humanos, fundados pela educação moral, acabam por ceder ao mural do dinheiro.
Assim, tem-se tornado fácil ver pessoas abdicar da sua compostura moral, e fazerem figuras ridículas a troco de alguns cobres. O reconhecimento social tende assim a ser medido apenas pelo valor do dinheiro, facilitando as negociações. É complicado negociar com pessoas com escrúpulos, e outros detalhes morais, que só atrapalham uma fácil negociação. Os detentores do capital de crédito tornam-se assim em autênticos génios da lâmpada, endeusados, capazes de satisfazer qualquer desejo terreno, desde que possa ser comprado.
Quando a finança endeusada tiver capital e técnica suficiente para tal realização, as restantes divindades tornam-se obsoletas. Objectivamente, grande parte dos desejos mortais cumprir-se-iam através de riqueza financeira... aceite a submissão, uma romaria a Wall Street seria mais eficaz do que a Fátima... O pragmatismo científico procura anular dúvidas sobre o universo, e ridicularizar explicações com intervenção divina, só faltando vencer a barreira da doença e morte para terminar com os medos dessa natureza. Tudo o resto será negociável, desde que a educação cuide de eliminar moralidades.
A educação com valores morais e medos mortais é apenas aplicada a uma população subserviente, como forma de controlo. Impregnar conceitos morais é uma antiga forma de impregnar previsibilidade... pessoas honestas, sinceras, leais, são mais previsíveis e facilmente controláveis. A educação sempre cuidou que houvesse menos perigo de rebelião, incutindo comportamentos correctos e medos nas falhas. As barreiras da moralidade popular são cercas mentais destinadas a encurralar o rebanho, e quase sempre foram negligenciadas pela aristocracia, excepto pela sua compostura externa. O cidadão vulgar preocupa-se em não infringir a lei, enquanto que quem tem crédito procura saber se é mais barato/proveitoso seguir a lei, quebrá-la, ou mudá-la.

Se os diversos países tivessem economias independentes e fossem minimamente auto-suficientes, seria necessário controlar cada um deles individualmente. Ao contrário, uma interdependência entre os diversos países acaba por torná-los mais frágeis. Com o pretexto do preço mais baixo, abolindo protecções, concentra-se a agricultura nuns países, a indústria e a tecnologia noutros. Todos ficam reféns de relações comerciais, sob pena de se verem sem produtos fundamentais. Neste contexto, um país auto-suficiente, como os EUA, passou a ter uma dependência exagerada promovida por uma deslocalização dos seus centros industriais. Contrai actualmente mais dívida num ano do que contraíra antes em cem anos.

No entanto, todas as dificuldades económicas são fictícias, e resultam de manipulações financeiras. Nunca, como agora, se produziu tanto, e tudo com o objectivo de melhorar a vida dos cidadãos... a ciência e a tecnologia cresceram com esse esforço propagandeado. No entanto, os progressos tecnológicos passaram a ficar reféns das opções da política financeira, que condiciona a distribuição de riqueza. Pouco adianta a agricultura ou a indústria renderem 10 vezes mais se os produtos não forem distribuídos e não houver compradores. Pouco adianta a maquinaria retirar o esforço humano, se isso se converter, não em menos trabalho, mas sim em desemprego. Para quem lembrar o Life Aid de 1985, percebe como quase 30 anos depois a situação em África tende a ser de pena perpétua. A Europa pode ter uma grande dívida com África, mas não é a ela que a está a pagar...
O estado social, assegurando reformas e pensões, acabou por jogar nos contratos de futuros. As reformas dos pais seriam pagas pelos impostos dos filhos, por um processo indirecto, gerido pela finança dos fundos de pensões.

O ponto básico para um país ser praticamente auto-suficiente é o de restabelecer a sua produção interna, especialmente agrícola, já que um país faminto nunca será independente. A produção industrial tem igualmente que ser minimamente eficaz, e ainda que não se possa competir sozinho na vanguarda tecnológica, tem que se criar valor que permita essas importações. Tudo isto é rapidamente exequível com moeda própria, onde assenta a soberania financeira. A moeda deve ter um padrão fixo, correspondente à riqueza produzida, ou seja deve ter valor económico. O valor financeiro, resultante da moeda gerar moeda, pela criação artificial de juros e rendimentos, leva a uma transferência de riqueza, da produção económica para a especulação financeira. O excesso de produção leva a uma competição estéril, que desaproveita recursos e abre falências. O valor dessa produção mais sofisticada não fica no produtor, que consegue baixar preços, mas sim no seu financiador.

No entanto, o maior problema será sempre o boicote dos cidadãos, porque em última análise, eles detêm o poder de reduzir o seu consumo ao mínimo, e fazer colapsar o mercado. Até porque o maior problema é de procura e não de oferta. A oferta existe ao ponto de ser gratuita, como é o caso da maioria de serviços na internet.
Só há um ponto em que não há possibilidade de evitar a procura - os bens alimentares, e é por aí que começam os novos problemas. Já é sabido que as sementes mais eficazes e resistentes a infecções são vendidas como estéreis, e assim o agricultor fica sempre dependente da "semente patenteada".
Passos seguintes têm sido dados no sentido de introduzir alimentos geneticamente modificados - todos patenteados nos EUA, especialmente pela Monsanto. A Europa parece ter tentado resistir à sua introdução, e é altamente simbólica a construção do
chamado o Doomsday Seed Vault... (ver também "o cofre do fim do mundo"), e eu diria que não será tanto pelo medo de catástrofes naturais, ou pelo "fim do mundo maia" anunciado para 21/12/12, a menos que...
Digamos que uma praga à escala mundial, poderia danificar irremediavelmente todas as plantas existentes... ao estilo de extinção das alcas e pombos. Ao bom estilo da conspiração, o que poderia salvar a agricultura? - Talvez as sementes geneticamente modificadas? - Bom negócio? - Sim, para quem detiver a patente.
A este propósito é instrutiva a conferência dada por William Engdahl no Vaticano, que para além do "A Century of War", escreveu outro livro, com o nome elucidativo: "Seeds of Destruction".

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Grande Alca e outras extinções

Há já bastante tempo coloquei aqui um mapa datado de 1970, do Museu da Marinha, que pretendia ilustrar os descobrimentos portugueses.
Apesar do mapa dizer ser feito pelo "pessoal técnico do Museu da Marinha", não deixava de conter indicações algo enigmáticas. Uma que notei foi a presença de pinguins na Gronelândia, a que erradamente atribuí um erro de execução, e também a de cangurus na Austrália (algo que não se parece observar em nenhum mapa anterior a Cook):

Acontece que desenhar pinguins árticos num mapa de 1970 parece muito estranho, mas não o seria se fosse baseado num original, desconhecido... Porquê? Porque os últimos pinguins árticos foram mortos em 1844, perto da Islândia. Isso eu não sabia, e parece ser propositadamente pouco divulgado!
Encontrei essa informação neste blog: oeco.com.br, e daí encontrei depois a informação natural sobre as "grandes alcas" - assim se chamavam os pinguins do Ártico:
A grande alca - o pinguim ártico, extinto em 1844.

Assim, a menos que se pretenda a coincidência do erro, a ilustração do Museu da Marinha assentará num mapa que tinha esses pinguins do norte e que colocava a Terra de Corte Real sob coroa portuguesa. E como a coroa está aberta, não será provavelmente de D. Sebastião, que a veio a fechar, em sinal de independência ao poder imperial, será talvez do seu avô, D. João III. No entanto, tal como se ilustram os pinguins do norte, também aparecem desenhos de cangurus na Austrália, com uma imprecisão que até sugere autenticidade...

Sobre estes pinguins e sobre a presença portuguesa na Terra Nova e Canada, acho que é suficientemente esclarecedora a obra de Jean de Laet, "L'Histoire du Nouveau Monde...", 1640. 
Na página 33, introduz a Nova França e Terra Nova, atribuindo a descoberta da Terra Nova aos Cabotos, venezianos a serviço de Inglaterra, tal como Colombo seria genovês a serviço de Espanha.
A rivalidade Génova-Veneza, habitual na escolha dos Papas, era transportada na legalização da descoberta americana... um genovês para as Antilhas, em 1492, e um veneziano para as Satanazes - Terra Nova, em 1498. É praticamente óbvio que Génova e Veneza sabiam perfeitamente os contornos desse mundo, mas pelas suas limitações logísticas seguiam os cuidados necessários para a aceitação das descobertas - navegaram em serviço de potências externas.

No entanto, Laet não deixa de referir Gaspar Corte Real, dizendo 
"Pouco depois dos Cabotos, a saber no ano 1500, Gaspar Corterealis visita as mesmas terras a comando do rei de Portugal e as descobre pouco depois" (pág. 34). 
Algo perfeitamente justificável... D. Manuel queria definir as possessões outorgadas por Tordesilhas, e assim em 1500, dois anos depois da incursão de Caboto a norte, retira do encobrimento a Terra Nova e o Brasil. Durante um século os ingleses não mais se aventuraram aí e, até à morte de D. Manuel, ninguém reclamou a Terra Nova ou o Canadá.

Depois, Laet justifica o nome "Nova França", dizendo que se chama assim porque os franceses foram os primeiros a penetrar no meio do país, e a se estabelecer a mando do rei. Portanto, é suficientemente lúcido para não atribuir nenhum papel especial de descoberta a Jacques Cartier, que apenas ali chegou em 1535, uma quinzena de anos após a morte de D. Manuel, quase quarenta anos após Caboto.

É sempre instrutivo rever a carta "Pedro Reinel a fez", datada de 1504, mas que suspeitamos ser contemporânea ao Tratado de Tordesilhas. Para além das outras suspeitas, de representação implícita, atentemos aos nomes atribuídos à parte da carta respeitante à Terra Nova (clicar p/ aumentar):

De cima para baixo, podemos ver os nomes:

- y da fortuna,   - y da tormenta
- c do marco,     - sam joham
- sam pedro,      - y das aves
- a dos gamas,           - c de boa ventura
- y de boa ventura,    - c do marco
- y de frey luis,         - b de santa ana (?)
- y dos bacalhaos,     - b da comcepção
- c da espera,            - r das pa...
- r de sam (?)...
- c Raso
( mais em baixo: sam johã e santa cruz)







Uma boa parte destes nomes vai ser mantida na descrição de Jean de Laet, que fala no Cabo de Raz (cabo raso), na ilha das aves, na ilha dos bacalhaus, baía da concepção, na ilha de Frei Luís, e na ilha da tormenta (nome a que associava origem francesa, e de que já falámos a propósito de Melgueiro).

Os nomes portugueses ainda por lá estão: Baccalieu Island na Conception Bay (baía da Concepção), Bonavista, o Manuel's river e St. Johns, sendo o mais explícito Portugal Cove (já mencionado no Portugalliae.blogspot) que, tendo sido destruída e incendiada pelos franceses em 1696, talvez reporte a si o incidente ilustrado "na descida dos franceses à Terra Nova".

Jean de Laet dá-nos uma imagem diferente do simples aportar de Corte Real à Terra Nova. Numa citação (carta enviada a Hayklut), fala-se claramente numa seca de peixe (bacalhaus, claro) e no Cap. III, dá uma descrição dos portos que vão desde o Cabo Raso, falando nos nomes e seguindo as cartas portuguesas:
- Porto Formoso, Água Forte, Ponta do Farilhão, Iheu de Galeotas, Ponta de Ferro, Cabo de Esp(h)era,  St. Jean (São João), Baía da Concepcion, Ilha dos Bacalhaos, Cabo da Boa Vista, Ponta dos Ilhéus de Frei Luis... ilhas de S. Pierre - São Pedro, e ainda uma Ilha dos Pinguins - certamente as Grandes Alcas, que viriam a ser extintas dois séculos mais tarde.
Depois retornando ao Cabo Raso, no outro sentido, fala da Angra dos Trespassam, de um rio Chincheta, indo em direcção ao Cabo dos Bretões (Cap Breton) e passando pelo Porto dos Bascos... (o que dá uma clara ideia de que os pescadores da orla do atlântico, não apenas portugueses, mas também galegos, bascos, bretões e até irlandeses, cruzavam aqueles mares, pela abundância de peixe nos grandes bancos da Terranova).
Fala ainda claramente (pg. 40) de estabelecimentos portugueses na Ilha do Cap Breton, nomeando Ninganis ("enganos" hoje Ingonish, segundo o site dightonrock.com), que depois foi abandonado, bem como outros lugares, devido ao rigor climático. Também diz que os portugueses se tentaram estabelecer na Ilha de Sable, mas sem sucesso, como aconteceria com os franceses através do Marquês de la Roche.

Ou seja, acaba por ser através de Jean de Laet que temos o melhor panorama da presença portuguesa na Terra Nova. Sendo um relato francês, restam poucas dúvidas sobre a permanência naquelas paragens, pelo menos desde 1500 até 1696, aquando da "descida dos franceses"... 
Dada a existência de material estrangeiro atestando a presença nacional na Terra Nova e Nova Escócia (as Satanazes no mapa de Pizzigano de 1424), quanto mais não fosse pela presença para secar o bacalhau... percebe-se pouco a persistência interna em ignorar o assunto, talvez porque se tenha vergonha de assumir que a colónia foi abandonada à sua sorte.
Para além disso, existem mapas que atestam esse senhorio da Terra Nova e Lavrador ao Rei de Portugal e em particular aos Corte-Reais (cf. JM-CH, ver o Catálogo Huntington HM41- folha 4).

Note-se que "Canada" é uma palavra portuguesa antiga para medidas líquidas - era um duodécimo do almude, e dividia-se em seis quartilhos. À época de D. Manuel, uma "canada" seria um litro e meio, em Lisboa, e chegava a mais de dois litros a norte (ver "Mosteiro de St. Tirso", de F. Carvalho Correia). No site dightonrock.com fala-se num imposto de um décimo para o pescado na Terra Nova, sendo a "canada" um duodécimo do almude, não é de descartar que o termo se aplicasse nesse sentido de um imposto menor (8% em vez de 10%...).

Os pinguins do ártico acabaram por desaparecer, tal como praticamente a notícia dos portugueses que colonizaram a Terra Nova, ficou talvez a pequena "Portugal cove". Com o perigo da extinção dos bacalhaus no Canada, a criação de cotas restritivas no início dos anos 1970, e depois o fim dos navios coloniais em 1975, colocaram um ponto final na grande tradição marítima portuguesa. O patrocínio ao abate das frotas de pesca, no final dos anos 80, foi o golpe final. Em pouco menos de 10 anos, a tradição da nação de navegadores reduzia-se à pesca costeira artesanal.

Os colombos americanos
Termino com um outro apontamento de extinção surpreendente.
No Séc. XIX a colombofilia norte-americana parecia concentrar-se na figura de Colombo, recuperando o mito do descobridor caído em desgraça. Do outro lado, para os nativos pombos americanos, os pombos-migratórios, a columbofilia foi diferente. 
Último pombo-migratório (passenger pigeon) - Cincinati zoo.

Consta que os sociáveis pombos-migratórios infestavam os céus americanos, estimando-se em milhares de milhões a sua população. Porém, este sucesso reprodutivo acabaria por levar à sua extinção num curto período de tempo. Foi instaurada uma caça ao pombo, que só pode ser satirizada com o clássico "Stop the pigeon", ainda que este desfecho nada tenha de comédia:

Compreende-se o efeito devastador nas colheitas que poderia ter um bando de pombos com centenas de milhares de indivíduos, e nesse sentido a sua caça indiscriminada pode ser vista nesse contexto. Porém, ao que parece houve um autêntico patrocínio à exterminação completa, terá havido caçadores que sozinhos abateram mais de um milhão de aves.  Havia competições e jogos cujo objectivo era o extermínio. Quando alguns ambientalistas solicitaram uma protecção no estado do Ohio, em 1857, foi considerada absurda pelo número de pássaros existente. Em 1897 as leis de protecção foram ineficazes para travar a extinção. O último exemplar em cativeiro morreria em 1914 no zoo de Cincinati.

Os pombos eram associados a paragens euro-asiáticas, e foi talvez com alguma surpresa que foram sendo encontrados em todo o globo, na África tropical, nas Américas e até na Nova Guiné (onde a espécie "columba coronata" é algo curiosa).

Não me parece que o carácter migrátorio particular aos pombos americanos carregasse alguma mensagem perigosa que levasse a colombofilia a atacar a columbofilia. Já aqui falámos no papel simbólico mensageiro dos pombos, e do seu contraponto na falcoaria.
E acaba por ser simbólico termos as Pleiades, as pombas filhas de Atlas, na Hespérida ocidental, a América, termos um "Colombo" a desencobrir essas paragens,  e depois olhar para a foto de Martha, a última dos pombos-migratórios, vítimas de um holocausto programado:

Nota complementar (2/12/2012): 
Na sequência do comentário do José Manuel, lembrando o acordo de exploração de 1461, entre Afonso V e Cristiano I da Dinamarca, que envolveu viagens ocidentais do pai dos Cortes-Reais, ficam aqui os links por ele indicados, que complementam a informação:
http://portugalliae.blogspot.ch/2009/06/o-amundsen-ex-quebra-gelo-sir-john.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pesca_do_bacalhau

Aproveito ainda para referir a página do Instituto Camões sobre Diogo Teive:
onde se fala da sua descoberta das ilhas do Corvo e Flores, em 1452, confirmada por cartas de régias de doação, de Afonso V. Em particular é relevante a informação do filho de Cristovão Colombo, que reportando uma viagem ocidental ao Faial de 150 léguas (aprox. 900 km), coloca Diogo Teive mais próximo da Terra Nova do que do Corvo ou Flores (a 200 km).
E também é relevante a informação de Lorenzo Anania já aqui citada, que fala sobre a partida (em 1576) de Aveiro de numerosa frota de navios para a pesca ao bacalhau na Terra Nova.

sábado, 24 de novembro de 2012

O panorama austral

Uma das pequenas surpresas que ganhou uma popularidade turística foi o Ukulele, o cavaquinho havaiano, reportado como tendo sido levado por emigrantes madeirenses para o Havai. Conta a estória que após uma actuação entusiasmante, os havaianos, através do seu rei Kalakaua, começaram a incorporar o cavaquinho na sua música. Se nos parece que o fabrico do cavaquinho pode ter ajudado à música, nada na tradição musical portuguesa se compara aos sons havaianos que dali surgiram... Ao que parece os nativos não dão cavaco a essa estória oficial, e argumentam que a música é mais antiga. 
Talvez até a introdução do cavaquinho tivesse sido mais antiga, nalguma viagem Pacífica não registada, também levada a cabo por portugueses. Pragmaticamente o Rei Kalakaua teria concordado com a versão emigrante... afinal o que se teria passado noutras paragens Pacíficas não afigurava nada de pacífico.

Na página 230 da revista Panorama (Vol. 16) lê-se uma informação instrutiva:
- Os aborígenes australianos dividiam-se em dois grupos: - um de raça negra, semelhante à africana, e outro dos malaios-polinésios... que seria a raça dominante, e a única a impor resistência aos europeus.



Passados alguns anos, os aborígenes passaram a ser entendidos como sendo apenas os negros... os outros teriam desaparecido, como antevia já a revista Panorama. Dos malaios-polinésios podemos ter uma ideia do que se entendia como tal, olhando os Maoris da Nova Zelândia.
É muito natural que os maoris se estendessem da Nova Zelândia à Austrália, e não haveria aparente razão para excluir a Austrália das fixações dos polinésios, especialmente da sua costa oriental.
Já tinha aqui falado na possibilidade de um "reino pirata" na costa oriental australiana, para justificar as ilustrações dos mapas de Dieppe, e a prolongada ausência de exploração de um continente que ficava a distância de piroga das rotas comerciais dos portugueses, espanhóis, holandeses, franceses ou ingleses... Não tinha considerado a hipótese de um reino polinésio hostil, cujo destino se esfumou na historiografia oficial, até ler este apontamento numa revista da época. 
O genocídio associado à Black War dos anos 1830's é essencialmente reportado à Tasmânia e à raça aborígene negra, e nunca me lembro de ler nenhuma referência a malaios-polinésios... percebe-se agora porquê - desapareceram todos!

Por isso, dado o modo de resolução destes problemas Pacíficos, entendem-se as colaborações mais pacíficas doutros reis, nomeadamente de Kalakaua, ainda que um século antes a vida de Cook tivesse terminado nas ilhas havaianas em 1779, de forma algo similar à de Magalhães.

Os polinésios surgem como um dos últimos mistérios à navegação... a menos que se aceite a tese dos acidentes sucessivos, a sua colonização do maior oceano terrestre, espalhando-se por todas as ilhas pacíficas, faz parecer a história das navegações europeias como aquilo que é - uma fantochada completa!
Em 1947 alguns noruegueses mostraram como seria possível navegar entre a América e a Polinésia, através da viagem da jangada Kon-Tiki (aka Viracocha)... ainda me lembro de ver o livro da expedição na estante lá de casa, foi uma aventura que teve sucesso mundial à época!
No entanto, a estória que iria ser vendida no pós-guerra seria outra, e estas aventuras revelam-se mais como desventuras, a quem não soprarem os ventos da boa ventura. E em navegações com ventos tão adversos, melhor é recolher o velame, ou ousar uma navegação à bolina, como faziam as primeiras caravelas.

Nesse sentido há alguma informação interessante compilada no artigo da Wikipedia "Theory of Portuguese Discovery of Australia", onde se reúnem algumas informações relevantes pelo lado português. Já que o material recolhido em terras australianas parece desaparecer ou ser desacreditado, alinhando toda a documentação oficial na fabulosa teoria do "grande continente difícil de encontrar", é especialmente interessante o mapa de Nicola Desliens (que se inclui nos mapas de Dieppe):

Nicola Desliens (1566)

... e é especialmente interessante ver um mapa onde não aparece o Japão, por isso suspeitaremos baseado em original anterior a 1544, mas onde a extensão australiana começa delineada, com o nome Java Maior, e com as respectivas bandeirinhas portuguesas...

Mas, ao contrário do que é popularizado, descobrir não é encontrar, é retirar do encobrimento, e isso só pode ser feito identificando primeiro o que o encobre. Ora, o encobrir resulta normalmente de calculadas vantagens face ao descobrir... e até que se torne por demais evidente que é pior desvelar o encobridor do que o encoberto, os ventos continuam a soprar no sentido errado da História.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

As Tulipas e os Futuros

No início do Séc. XVII, a Holanda desenvolveu um particular gosto por tulipas, cujos bulbos podiam até ser comercializados com o valor de moeda. Uma das tulipas, denominada Semper Augustus foi negociada a valor recorde, uma pequena fortuna inalcançável ao normal cidadão holandês.


 
Publicidade ao investimento em tulipas e a famosa Semper Augustus  (wiki).


Esta importância das tulipas foi retomada em romance de 1850, de Alexandre Dumas, "A Tulipa Negra", talvez querendo alertar para o episódio, dado o peso que a especulação financeira retomava no final daquele século.
O fenómeno, que atingiu o pico máximo e o colapso em 1637, é chamado tulipomania, e tem características especulativas muito semelhantes a posteriores crises bolsistas.

(evolução exponencial dos preços entre 1634 e 1637)

Está documentada nesta altura uma forte publicidade e o aparecimento de "contratos de futuros". Estes contratos de futuros eram negociados com expectativas sobre o crescimento económico do valor dos bulbos de tulipas. O aumento dos preços permitia convencer a pagar alto pelo valor de tulipas que se iriam vender no futuro.
Estes mesmos contratos de futuros estiveram na origem da recente crise financeira de 2008, e não são por isso uma invenção recente, conforme é por vezes pensado. São uma arma financeira que permite o enriquecimento rápido de uns poucos, e a ruína abrupta de muitos mais... dito em poucas palavras, permite uma transferência e concentração de riqueza.

Por estranho que pareça, as pessoas parecem alertadas para os esquemas em pirâmide, ou outros contos do vigário, que aparecem aqui e ali (antigamente em cartas, hoje em emails), mas essas cautelas parecem desvanecer-se quando o intermediário aparenta uma credibilidade institucional.

As tulipas chegaram à Holanda originárias da Turquia, numa altura em que a jovem República Holandesa começava a crescer, recebendo o papel de potência marítima, para o qual foi crucial a emigração de muitos judeus, expulsos de Portugal e Espanha. Estes judeus, por sua vez, tinham a mesma origem remota que as tulipas que iriam ser negociadas na Holanda.

Aliás, convirá referir que este espírito capitalista, que desflorava nas tulipas holandesas, não terá tido muito provavelmente a sua estreia na Holanda. O primeiro registo de economia capitalista parece ter sido exercido pelos Khazares, da parte da Tartária contígua ao Mar Cáspio (que inclui as caucasianas Iberia e Albania), onde também surgiram os Otomanos que iriam arrasar Constantinopla.
A extensão do império Khazar até ao Séc. X.

Estes Khazares controlavam grande parte do comércio oriental, feito pela chamada "Rota da Seda", evitando o inicial bloqueio árabe, e a sua conversão ao judaísmo parece ter-se adequado à sua natureza de comerciantes. Sugere-se ainda que os Ashkenazi (basicamente os judeus europeus, de tez mais branca), são descendentes da emigração da Khazaria, que começou com o fim do império Khazar, basicamente desde o Séc. XI, tendo o seu apogeu com o fim da Idade Média, após a queda de Constantinopla. Podemos dizer que saíram da Iberia caucasiana em direcção à Ibéria atlântica, e depois à Holanda, onde foram reencontrar as tulipas nativas.
Bom, e se as tulipas lhes eram especialmente valiosas, por muito que fosse predominante o papel comercial judaico, na Holanda teriam que fazer um reinício, quase do zero. Porém, a nova Republica Holandesa permitia um sistema económico capitalista, que lhes era familiar, e que dominariam particularmente bem. Chegados sem bens notáveis, em breve consumariam uma transferência de riqueza que lhes permitira dominar a sociedade holandesa, em particular através da sua influência na Companhia das Índias Orientais, mas também através destes novos mecanismos especulativos, como foram os contratos de futuros feitos com tulipas.

Um simples bulbo de planta passava em dois ou três anos a valer mais que o ouro, e esta paranóia induzida aos holandeses terá permitido acumular fortunas a quem dominava perfeitamente as nuances do sistema capitalista.

A Holanda acaba por se definir como crucial para os acontecimentos seguintes. Curiosamente são os holandeses que fundam Nova York com o nome Nova Amsterdão, e o seu último governador, Peter Stuyvesant, é quem vai construir uma muralha que deu nome a Wall Street...
Chegada de Stuyvesant a Nova Amsterdão (1647-1664)

Porém esta muralha não resiste à nova Inglaterra de Carlos II (já casado com Catarina de Bragança), e em 1664 os ingleses acabam por conquistar esse território americano. A pequena Holanda não parece conseguir competir com a nova força da Inglaterra.
No entanto, alguns 25 anos mais tarde, em 1689, três anos depois da morte de Carlos II, o novo rei Jaime II, seu irmão, acaba por ser deposto através de uma invasão naval holandesa, comandada por Guilherme de Oranje, na chamada "Revolução Gloriosa". O pretexto que uniu o parlamento inglês ao soberano holandês, contra o rei legítimo, teria sido a crescente tolerância ao catolicismo.
Esta foi a única invasão que a Inglaterra sofreu desde Guilherme I, em Hastings (1066), e curiosamente seria levada a cabo por outro Guilherme. Porém, neste caso não houve praticamente resistência, devido ao apoio do parlamento, pelo que a revolução também traz o epíteto "sem sangue".

O que mais glorioso teve esta invasão de Guilherme III foi o crescimento do país invadido, e o declínio do país invasor. A Holanda acabou por perder o seu aspecto dominante, e a transferência de riqueza, que já se tinha visto ocorrer dos reinos ibéricos para a Holanda, passou da Holanda para a Inglaterra. O mundo financeiro que iria dominar os próximos séculos seria sediado na City de Londres, até passar depois para a muralha de Stuyvesant, Wall Street. A dimensão da Inglaterra permitia uma armada sem rival, para uma política global, algo que seria muito mais difícil de concretizar na frágil Holanda. Um mesmo rei permitiria essa transferência mais comodamente...
As províncias ultramarinas holandesas acabaram por ser anexadas pelos ingleses, mais tarde ou mais cedo. A Austrália manteve-se escondida até à chegada de Cook, bem como a própria Nova Zelândia, que tem o seu nome derivado de Zeeland, a província "conquistada ao mar" pelos holandeses. O facto da ilha ter nome derivado do holandês não parece importar na tentativa de atribuição a Cook.
Assim, a Holanda que sonhou os futuros nos bulbos de túlipa, acabou ver no futuro apenas uma lembrança do seu poder passado.

A mesma esperteza que transformou bulbos de túlipa em ouro, acabou por se manifestar de forma mais contundente na transformação da moeda. A moeda ligava-se ao ouro, que por tradição, desde a Antiguidade, era considerado um elemento valioso. No entanto, no Séc. XX, após a 1ª Guerra Mundial, e especialmente após a 2* Guerra, em Bretton Woods, vai terminar essa ligação ao metal. Já há muito que o gado servira de moeda de troca, e do pecuário saiu a palavra pecuniário, na tradição grega, ou que o sal servira de moeda de troca romana, de onde saíra a palavra salário. Quando se  emitem as primeiras notas de papel, há uma promessa de ligação a um metal depositado, mas essa ligação vai-se desvanecer.
O dinheiro reduz-se a uma troca de confiança assinada em papel de nota, em papel de acções, etc... deixará de ter correspondente em ouro. Tem correspondente em produtos e serviços pela confiança adquirida, mas também há uma "confiança imposta", que serve de "imposto" imperial.

Os bulbos de tulipas caíram porque a sua vulgarização levou a uma inevitável desvalorização, o mesmo ocorreu quando o mercado foi inundado recentemente por "contratos de futuros" sem futuro. Criaram-se perspectivas de fortuna para muitos, como se todos estivessem contentes por ir ganhar a lotaria, sem se dar conta que teriam que dividir o prémio entre si, e que não havia um grande prémio para cada um. Assim, acabamos por ter uma dívida mundial superior em muitas vezes ao produto bruto gerado. Parece importar pouco que o que foi emprestado simplesmente não existia, e que por isso quem o fez, tomou para si, a crédito, o futuro de todos, que não lhe pertencia, diluindo-o nesses contratos.
Assim, as novas gerações acabarão por ver o seu futuro hipotecado pelos contratos de futuros cobrados pelos bulbos de túlipa que a geração anterior contraiu, iludida pelo poder das flores.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Cabeça perdida

É complicado justificar o achado de uma escultura romana numa estação arqueológica mexicana, neste caso trata-se de uma cabeça fora do sitio...
Eventualmente isso levaria a admitir viagens pré-colombianas à América, e isso é um dos tabus em que ainda não há autorização para tocar.

Cabeça romana encontrada em Tecaxic-Calixtlahuaca (México)

É sempre engraçado e risível observar a reacção a estes achados. Arranja-se sempre uma objecção, por mais estúpida que se possa imaginar.
A solução neste caso foi assumir posteriormente que se tinha tratado de uma brincadeira de um estudante, nas escavações realizadas em 1933.
Quer o professor J.G. Payon, quer o estudante, já estão ambos mortos, e por isso a história nunca foi confirmada, terá sido apenas lançada para o ar depois, pretendendo-se remeter ao descrédito a importante descoberta que tinha escapado ao crivo censório.
Este tipo de atitudes difamatórias resultam bem numa estrutura piramidal académica. 
Aliás, o Prof. Hristov deixou na sua página elementos esclarecedores de como actua o sistema censório actual. Esta reacção de Paul Schmidt é instrutiva:
When Hristov was here, two or three years ago, he approached me to read the first draft of the article. At that time I told him something the old-timers know: A typical student prank; the figurine was planted in Don Pepe's [José Garcia Payón's] dig, the saying goes, by Hugo Moedano. Don Pepe took it so seriously that no one had the heart to tell him it was a joke. This I remember having been told by John Paddock, and others of the older generation –Jaime Litvak for example- had heard this. Hristov refused to check out the story; he told me he had not encountered a published reference to this anywhere!
      Taking into consideration Hristov's known unethical behavior and the obvious controversy which would result from the publication, I find it extremely hard to believe that two of the three serious and professional referees (and in this case perhaps five should have been consulted) would support the article. Consider that a preliminary version of the article was published in Arqueología Mexicana, causing Jaime Litvak to resign from the editorial board."
Paul Schmidt pretendia que por ter contado a Hristov a estorieta de John Paddock, de que o achado tinha sido uma partida estudantil, isso colocasse um ponto final no assunto. Como Hristov não acreditou numa estorieta não documentada, passou a ter "falta de ética". Schmidt queixava-se à revista  porque o artigo tinha passado por 3 referees, e não teria sido chumbado... diz ele que deveriam ter sido mais - de preferência que subscrevessem a estorieta, está visto!

Esta transcrição é elucidativa, e Paul Schmidt acaba por lançar mais crédito à descoberta com a sua carta pouco ética e ainda menos científica... parecendo que ele é que ficou com a cabeça perdida.
Ficamos assim a saber que basta invocar um diz-que-disse (sic. "the saying goes"), uma anedota estudantil, para invalidar achados arqueológicos incómodos.

Porém estas coisas não devem ser vistas isoladamente, há pontos comuns nestas desacreditações institucionalizadas. Há depois quem acredite seriamente, pelo simples facto de ter sido sempre admitido que se tratava de falsificação, como será o caso das Pedras de Ica.

Nesta cabeça, há porém algo mais complicado, porque é praticamente admitido que se trata de uma cabeça romana do Séc. III, que foi parar ao México. Dificilmente é de acreditar que o estudante mexicano tivesse acesso a tal coisa, e que levasse a brincadeira tão longe. Onde a teria arranjado? Não deveria haver em 1933 muitas esculturas romanas à solta em museus mexicanos. Porém este tipo de justificações, necessárias para validar a estorieta da brincadeira, não parecem ser necessárias.
O local de escavações foi datado entre 1476-1510, ou seja antes da presença espanhola. Ainda que fosse depois, perguntar-se-ia o que faria um soldado espanhol levar uma cabeça romana para o México? Era para lançar a confusão no Séc. XX? 

Esta cabeça não está fora do sítio, se atendermos o que fomos aqui recolhendo. Já Candido Costa falava nos achados ptolomaicos em Montevideo e também já aqui falámos da coluna romana que está na cidade de Natal, só para relembrar alguns dos outros exemplos.

domingo, 11 de novembro de 2012

Hwui Shan e Fusang

Na sequência do texto anterior, sobre a eventual presença de Cristo na Índia, comentei sobre o papel dos missionários budistas na divulgação da religião. Esse aspecto está bem salientado no livro 
"An Inglorious Columbus", de Edward Vining, 1885

O livro fala do relato missionário de Hui Shan, monge budista do Séc. V, que teria abordado o desconhecido país de Fusang em conjunto com um grupo de budistas do Afeganistão.  Este seria o mesmo Fusang reportado por Marco Polo, e que começava a constar na Cartografia do Séc. XVIII, conforme já aqui abordámos.
Na realidade este debate sobre uma Fusang americana começa a ser explícito em França, em 1761, por Joseph de Guignes, que lança nesse ano duas memórias (cf. wiki):
  • Recherches sur les Navigations des Chinois du Cote de l'Amerique, et sur quelques Peuples situés a l'extremite orientale de l"asie. (1761)
  • Le Fou-Sang des Chinois est-il l'Amérique? Mémoires de l'Académie des Inscriptions et Belles Lettres, tome 28, Paris, 1761
A Companhia das Índias Francesa cessaria funções pouco depois, e passados 5 anos Cook é autorizado a zarpar pelo Pacífico - o Fusang americano desaparece sem rasto. No entanto, durante o Séc. XIX e até à 1ª Guerra Mundial, a questão da ligação chinesa à América estará presente nas discussões, como verificámos com Cândido Costa
Dez anos antes de Vining, em 1875 Charles Leland já tinha lançado o livro:
que praticamente aborda o mesmo tema. Ou ainda, 
Notices of Fusang de William Wells, 1881, traduzido de Ma Twan-Lin (Séc. XIII).

É perfeitamente natural que a determinação dos monges budistas, na propagação da sua religião, os tivesse levado a paragens americanas. As civilizações americanas, por exemplo a Azteca ou a Inca não parecem ter acolhido essa filosofia, e se os houve, não restaram nenhuns Budas de pé, nem sentados ou mesmo deitados... ainda que Vining tenha procurado encontrar poses budistas nalgumas figuras Aztecas. De acordo com Vining, a rota seguida por Hwui Shan teria sido a seguinte:
E. Vining - suposta navegação feita por Hwui Sheng

A terra de Fusang, Fu Sang Kwoh, situar-se-ia na região californiana, e já na parte mexicana encontramos assinalado o "país das mulheres"... lembrando a motivação feminina que levou à designação do Amazonas, já em plena América do Sul.

Fu sang seria o nome dado a uma árvore sagrada, associada ao Aloe ou Agave Americano (ver chinahistoryforum.com), ou Piteira, uma espécie de cacto que quando floresce produz uma notável árvore:
A "árvore" da Piteira - Aloe ou Agave Americano

Noutra versão, o nome Fu Sang é associado a uma outra árvore - a Amoreira. A este propósito, citamos Alexander M'Alan:
Mulberry land is there, say the Chinese.
Mulberry land is here, say the Mexicans.

Porém, de entre estes autores, Joseph de Guignes levanta uma hipótese surpreendente, e que foi fortemente rebatida pelos seus contemporâneos - Teria sido a China uma colónia egípcia?
E se a argumentação assentava essencialmente no carácter ideográfico de ambas as escritas, não sei por que razão não seria de levantar o recíproco... até porque o Egipto apareceu quase singular a ocidente na sua faceta ideográfica. Essa argumentação continha ainda a pretensão da ligação chinesa aos povos mexicanos, que também tinham desenvolvido escritas ideográficas.

É interessante encontrar estas possibilidades abordados no Séc. XVIII, e talvez só pecassem por tardias... e por mais inverosímeis que possam parecer, é mais estranho terem desaparecido, e no meio do politicamente correcto, numa altura em que sabemos já da existência de pirâmides na China, ninguém ousa retomar as ligações.

Será que os construtores de pirâmides estavam destinados a desenvolver escritas ideográficas? 
Não parecerá estranho terem sido desenvolvidas pirâmides no Egipto, na China, no México, e sempre associadas a povos com escritas ideográficas? Não será de suspeitar de um elo comum?
Para esse efeito, Vining vai buscar uma notável associação feita por Humboldt, entre a designação dos animais associados aos signos tibetanos e os hieróglifos mexicanos para a ordem dos dias, evidenciando uma coincidência que dificilmente se poderá tomar como acidental:
Tabela de Humboldt - signos tibetanos e dias mexicanos

Ainda que se ofereça perguntar por que razão os mexicanos falariam em tigres, talvez se trate de associação com o jaguar, não sendo de excluir outras possibilidades menos convencionais - afinal foram encontradas representações de leões - ver Leão de Techialoyan, e ver agora também as piteiras, que constavam na página ao lado...

sábado, 10 de novembro de 2012

Cristo na Índia

Há uns meses atrás, num comentário amistoso, cafc colocou aqui uma questão sobre a presença de Cristo na Índia. Os interessantes links que deixou:
reportavam eventuais pistas para uma presença de Cristo na Índia. Assumia-se no texto que essa presença seria posterior à crucificação. 

Nestas coisas, uma ocasional releitura pode levar a outra atenção. Aconteceu com a Chronographia repertorio dos tempos, de Manoel de Figueiredo, de 1603, que já aqui mencionámos três vezes.
E estava ali, exactamente na mesma página 131, que já aqui tinhamos mencionado - a propósito da designação Mérica para A Mérica. Antes do Capítulo XI "da América", está o Capítulo X "da Ásia" onde se lê isto:
Também a regam muitos rios caudalosos, Eufrates, Ganges, o mar Abachu. Nesta parte do mundo andou Christo nosso senhor, é mui fertil, & abundante de todo o género de cheiros, frutos, sementes (...)
Assim, despercebidamente, Figueiredo revela que Cristo "andou pela Ásia", e se isso pode ser entendido como uma referência à Palestina, enquanto parte da Ásia, era mais natural colocar-se "viveu" e não "andou"... especialmente quando se acaba de fazer referência ao Eufrates e ao Ganges. Quanto ao "mar Abachu" é uma designação perdida do Mar Tártaro, que aqui é estranhamente incluído no contexto de rios caudalosos. Talvez houvesse ainda aqui uma remniscência da ligação do Cáspio ao Oceano Ártico. O mar Tártaro era colocado a leste do Oceano Hiperbórico, de Nova Zembla ao Japão, ou seja incluiria uma parte do que é hoje considerado o Oceano Ártico.

Ora, já no fim do Séc. XIX, um russo, Novovitch, vai levantar a hipótese de Cristo ter vivido na Índia, por ter aprendido num mosteiro de Ladakh (Tibete) sobre a vida do Santo Issa, onde Isa em árabe corresponde a Jesus. Antes, em 1869, já um francês, Jacolliot, ligara o nome Cristo a Krishna, num livro: "La Bible dans l'Inde, vie de Ieseus Christna". [cf. wikipedia]
 O mosteiro de Hemis, Ladakh, onde Novovitch terá ouvido o relato de Issa.

Passados mais de 350 anos sobre a presença portuguesa na Índia, e a forte tentativa evangelizadora, parece natural que os missionários europeus tentassem eventuais semelhanças com Krishna, e que os hindus não tivessem especiais problemas em tolerar que Jesus pudesse ser uma outra encarnação de Krishna, para satisfação do invasor externo.

No entanto, como referi a cafc, não deixa de ser curiosa a expressão: "Ver para crer, como São Tomé", atendendo que foi São Tomé o apóstolo responsável pela difusão da fé na Índia, e também aquele que presenciou a Ascenção de Nª Srª, indo de encontro à hipótese de uma fuga de Jesus para a Índia com a mãe, no sentido preconizado pelo site, de que Jesus teria sobrevivido à crucificação, com a ajuda de José de Arimateia, segundo cafc, e isso estaria na origem do mito do Graal. Ora, eu diria ainda que o segredo do "cálice", será mais um simples "cale-se", como frisou Chico Buarque.

Não deixa de ser curioso o texto de Manoel de Figueiredo, referindo que "Jesus andou pela Ásia", numa altura em que os portugueses saberiam em primeira mão o que os hindus lhes reportavam.
No Ganges encontrou Alexandre Magno os Magos gimnosofistas (literalmente "sábios nús", em grego), os ascetas hindus, que lhe fizeram frente. Nesse sentido indiano, há pontos de ligação entre a doutrina asceta, o budismo, e a própria doutrina que Jesus introduzira na Judeia. A perspectiva solipsista de Jesus, que se assume como o todo e a parte, o pai e o filho, não é estranha à filosofia hindú que encara a realidade como um sonho do próprio. Os outros não passam de emanações de si mesmo, e assim é natural deverem ser tratados como irmãos. 
Curiosamente esta filosofia cristã seria adaptada por J. P. Sartre, um ateu convicto, que numa linha mais zoroastrista-socialista invocava essa irmandade social, agora mais cientificamente, apenas como filhos humanos de uma mesma natureza.

Há ainda um ponto de contacto interessante entre as religiões. O budismo terá sido a primeira religião transnacional, que rompeu com o carácter religioso local. Até aí, as religiões manifestavam-se como um aspecto cultural distinto de cada povo, levando até à noção de "povo eleito" no caso judaico. Os primeiros missionários foram monges budistas, e o cristianismo, com S. Paulo, vai seguir essa linha unificadora, tal como depois acontecerá com o islamismo. Os romanos no seu império não objectavam aos deuses locais, apenas não queriam a rejeição dos seus. A ideia de religião universal, e da utilização de missionários começa por ser uma atitude budista. Essa atitude tem sucesso no Oriente, onde se difunde extensivamente, mas estranhamente não tem registos a Ocidente, e não terá sido só por falta de esforço.
No entanto, as semelhanças entre a doutrina budista e cristã não comportam o inicial carácter judaico da religião cristã, antes da sua extensão aos "gentios", promovida por S. Paulo. Por outro lado, não constam registos de perseguições romanas a monges budistas, como a que encetaram contra os cristãos, e assim, de forma singular, o budismo apenas aparecerá difundido e implantado a Oriente da Índia. Acresce que o cristianismo e islamismo serão implantados como religiões aglutinadoras, focos de intervenção directa no poder, e tal preponderância religiosa só terá semelhança no budismo implantado no Tibete, onde os monges definiam a estrutura do Estado.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Pedras de Ica

As pedras de Ica são pequenos seixos de origem peruana que pretendem apresentar antigas ilustrações de fauna jurássica. Como exemplo, podemos ver nesta imagem várias espécies extintas de dinossauros.

Estes achados foram revelados por Javier Cabrera, mas aparentemente já o pai os colecionava desde os anos 1930. No entanto, são considerados uma fraude pelos processos de Inquisição actuais. Basicamente, alguém se prestou a dizer que fabricava pedras semelhantes para vender a turistas, evitando assim a prisão face à lei peruana que impede a venda do legado histórico. Era menos penalizador ser farsante do que ser expoliador... e o achado passou a fraude documentada.
Se há quem fale em Forbidden Archeology, também está na moda a Bad Archeology... que vai cobrindo as descobertas, na maioria das vezes com maus argumentos - dir-se-ia mais - Bad Archeology Arguments. Assim, não se vê um desmascarar destes achados por datação, mas sim por um testemunho condicionado. Mais engraçado e comum, usa-se o argumento do absurdo que será alguém supor possível a algum povo peruano fazer imagens de dinossauros. É a típica moderna argumentação do politicamente correcto - variação do magister dixit - a teoria diz que os dinossauros são muito anteriores aos humanos, e portanto qualquer coisa noutro sentido é absurda e ridicularizável. Ou seja, conforme é denunciado no livro Forbidden Archeology, as provas que colocam em causa a teoria vigente são suprimidas, ridicularizadas ou não divulgadas.

No caso em questão, é absolutamente irrelevante saber se as pedras são verdadeiras ou falsas.
Porque há um ligeiro detalhe bem mais importante, que escapa aos detractores de serviço:
- Por que razão não foram descobertos e ilustrados antes do Séc. XVIII vestígios de dinossauros?
Os sumérios, chineses, egípcios, indianos, fenícios, persas, gregos, romanos, etc... faziam escavações, muitas, quanto mais não fosse porque precisavam de minas para extrair os metais. Ora, parece ter acontecido que durante milénios ninguém encontrou ossadas de dinossauros. Já para não falar daquelas ossadas que se revelam sem escavação.
Manifesto azar, rapidamente compensado a partir do Séc. XVIII com imensas descobertas, os vestígios afinal encontravam-se quase a pontapé, mas tinham escapado aos olhares incultos de toda a população humana anterior.

As Pedras de Ica são especialmente importantes por fazerem notar que não é preciso haver contemporaneidade humana para se ilustrarem dinossauros. Pelas ossadas restantes não seria difícil pensar e ilustrar esses animais, o que é estranho, isso sim, é a ignorância permanente que durou milénios e foi partilhada nos legados de todas as civilizações humanas.
Todas? Bom, aqui aparece um registo igualmente interessante - no templo khmer de Ta Prohm, perto de Angkor. Se o templo está parcialmente sepultado por raízes de árvores, mostrando a sua antiguidade (é considerado do Séc. XII/XIII), é ilustrativa esta pequena imagem do que aparenta ser um estegossauro
 
Templo de Ta Prohm e um seu relevo, que aparenta ilustrar um Estegossauro

É claro que à maneira da "boa arqueologia" que faz a "Bad Archeology", ou ignora-se o assunto, ou há quem argumente que as escamas no bicho são afinal raios de um sol que se esconderia atrás do animal... e viva a imaginação! Será apenas por simples burrice que não admitem que se trate mesmo de um estegossauro, idealizado a partir de ossadas fossilizadas encontradas pelos khmers, qual seria o problema de tal coisa? Terem depois que explicar que só os khmers é que encontraram ossadas? 
Afinal não seriam os dragões, que polvilharam o imaginário medieval, uma referência directa a essas ossadas ocultas? Afinal S. Jorge teria eliminado qual dragão?