sábado, 21 de abril de 2012

Obelisco de 7

No centro da Praça de São Pedro, no Vaticano... bem à vista de todos os olhares do mundo, ergue-se um obelisco. A história do obelisco é relacionada com os cristãos, no sentido em que Tácito associou a sua presença no meio do Circo de Nero, onde cristãos teriam sido executados (incluindo S. Pedro). Não havendo erro Tácito (suspeitas de autenticidade começadas por Voltaire), esta seria a razão da colocação de um antigo monumento pagão no meio do centro cristão... foi aliás algo complicado, já que a deslocação do obelisco em Roma envolveu grandes meios, conforme ilustra a imagem (em baixo, à direita):
 
Obelisco do Vaticano, após a sua deslocação em 1586 (imagem à direita)

O obelisco encontra-se limpo de inscrições hieroglíficas (restam inscrições de imperadores romanos), mas não estava assim à altura do seu transporte... Quem organizou o transporte, Domenico Fontana, a mando do Papa Sisto V, deixou ainda uma descrição do que estava inscrito no obelisco:
Desenho do obelisco do Vaticano no livro de Fontana, aquando da deslocação
Pilar de Seth
Há obeliscos egípcios em diversas capitais mundiais - Washington, Londres, Paris, Roma (ver Agulhas de Cleopatra)... mas no caso do Vaticano, a lembrança de ser egípcio foi completamente apagada. 
É compreensível isso, dado o contexto cristão, mas ao mesmo tempo encontramos um texto de Diego Haedo (Topografia e Historia Geral de Argel, 1608), que se baseia numa descrição de Flávio Josefo nas Antiguidades Judaicas (Séc. I):
And that their inventions might not be lost before they were sufficiently known, upon Adam's prediction that the world was to be destroyed at one time by the force of fire, and at another time by the violence and quantity of water, they made two pillars, 19 the one of brick, the other of stone: they inscribed their discoveries on them both, that in case the pillar of brick should be destroyed by the flood, the pillar of stone might remain, and exhibit those discoveries to mankind; and also inform them that there was another pillar of brick erected by them. Now this remains in the land of Siriad to this day.
Esta descrição de Josefo é sobre Seth, e a partir desse momento falou-se dos Pilares de Seth, onde estaria inscrito um legado escrito do filho de Adão e seus descendentes. Quando Josefo diz que o pilar de pedra se mantinha até aos seus dias na "terra de Siriad", geram-se várias confusões. Primeiro, a céptica, dos que gostem de observar uma contradição "entre o pilar ter resistido e ser visível após o dilúvio", depois a geográfica, já que "Siriad" confunde Egipto e Síria. As dúvidas de resistência do pilar ao dilúvio, parecem algo ridículas (após o recúo das águas, seria possível tentar reencontrar o pilar e reergue-lo), já que normalmente provêm de quem também considera que o dilúvio não foi mais que uma cheia de um rio porque na Bíblia se fala num aumento de água de apenas 15 cúbitos (menos de 7 metros)... que cobria todos os montes.

Já a confusão geográfica sobre a Síria, ou Siriad, é interessante pois adiciona-se à existência dos templos de Heliopolis - havia a Heliopolis de Baalbek (Síria/Líbano) e a Heliopolis egípcia, curiosamente associada a um pilar do faraó Sesostris I, ou Senusret, que tem sido associado a Seti I e o liga directamente ao deus Set

 
Pilar de Set I ou Sesostris (Heliopolis, Egipto... actual e no Séc. XIX)

É provável que Josefo se referisse a este obelisco, enquanto o Pilar de Seth, filho de Adão. No entanto, convém dizer que o Obelisco do Vaticano terá também como origem a mesma Heliopolis (egípcia)...
Pode conjecturar-se que Josefo mencionava o Obelisco do Vaticano, ainda que o seu deslocamento para Roma seja contemporâneo a Josefo, e nada de concreto aponte nesse sentido... excepto que seria o mais importante obelisco a deslocar para o centro do Vaticano, a acreditar na sua mítica origem em Seth ou Adão.

O que diz Haedo?
Nuestro sapientissimo padre Adan (como Iosepho autor gravissimo dexó escrito) viendo que sus nietos y descendientes (que ya eran multiplicados en gran numero) començavam apartar-se del conocimiento verdadero, y fiel servicio de Dios, que el les enseñara ansi, como de Dios fuera enseñado: y temideo como hombre tan prudente, que siendo los pensamientos, y sentidos de los hõbres tan inclinados al mal, por discurso de algun tiempo, entre ellos se acabasse de perder todo el conocimiento de Dios: acordo de hazer como hizo, para remediar este mal, dos muy grandes, y muy altas colunas: una de ladrillo, y otra de piedra marmol rezio. De manera que el tiempo consumidor de todas cosas, o nunca o tarde las consumirsse: y en ellas de su mano entallo, y escrivio la doctrina de la Fé, y conocimiento de Dios, y la manera de su culto, y veneracion, conque de los hombres avia de ser honrado e venerado: y el mysterio de la venida del Messias: y juntamente muchas otras cosas de philosofia, astrologia, movimiento de los ciclos, curso de los planetas, y durasiõ de los tiempos y meses del año.
Y estas dos colunas ansi escritas, y entalladas (dize) que las puso en alto, para que todos las mirassen, y como eh unos libros pudiessen todos ler en ellas: de manera que fuesse (como el otro dezia de los libros) unos mudos, maestros q sin estruendo de bozes, advirtissen a los hõbres lo que devian de crer, y hazer en todo tiempo, y hedad: de manera que podemos dezir y afirmar con razon, que fueron estos los primeros libros de mundo; porq importa poco fuessen de piedra, y bronze, o de cortezas de Arboles y hojas, o de pergamino y papel, como despues por discurso de tiempo acostumbraron hazer los hombres.
(...)
... ou seja, citando Josefo, vai um pouco mais longe e diz que o "livro" escrito sob forma de pilar remontaria directamente a Adão, e preveria directamente a vinda do Messias, para além de conter considerações filosóficas e astronómicas. Juntar-se-ia a prática e conversação dos Santos Patriarcas, que por linha e sucessão directa herdaram de Adão e do terceiro filho Seth, listando depois Noé, Sem, Arphaxat, Chaynã, Sala, Heber, Ragau, Saruch, Nachor, Thare, Abraão, Isaac, Jacob e seus filhos.
(...) porque muchos tiempos, y por muchas edades se conservo el conocimiento de Dios en el mundo y q entre muchas naciones de Oriente, como Assírios, Chaldeos, Arabios, Egypcios, y otrostales quedasen despues perdido, muchas reliquias de buena y santa dotrina: y de todas las artes y ciencias liberales: de las quales naciones, deprendiendo los Griegos todo esto, por el discurso de tiempo (porque muchos deles, como Solon, Licurgo, Archita y Platon passaron en aquellas partes), y ornandolo, y poliendolo con artificiosas palabras, y añadienno algun poco de su casa, lo vienderon al mundo por suyo.
Explicitamente, Haedo denuncia aqui que o conhecimento grego (nomeadamente de Solon e Platão) teria bebido directamente de fontes primevas, e não reportava devidamente essa origem antiga.
Não é muito diferente do que sugerimos num texto anterior (Teogonias-3), porém aí era colocado o centro dos dois pólos na babilónia/caldeia... e de facto, a deslocação do centro de influência para a egípcia Heliópolis faz mais sentido, já que são conhecidas as boas relações greco-egípcias, e nem será surpresa que os gregos tenham sido herdeiros do conhecimento egípcio, já que a mistura que ocorre com a dinastia Ptolomaica trata como gregos uma multiplicidade de legados egípcios, e por exemplo Eratóstenes, Euclides, Ptolomeu, são tidos como gregos, bem como a generalidade do conhecimento vindo da egípcia Alexandria. A razão disto está muito ligada aos textos serem escritos em grego e que, com a mesma ligeireza, assumir-se-ia que todo o conhecimento actual, escrito em inglês, seria de origem americana ou inglesa.

Sete, Seti, Seth
Na Enéade divina de Heliópolis é natural que Seth fosse considerado o sétimo deus, depois dos cinco primeiros deuses cósmicos, a que se seguia a primeira geração: Isis, Seth e Osiris, e depois Horus.
Reparamos na ligação da apresentação de Isis alada e no estandarte aqueménida de Ciro:
 

As asas de Isis voam para o pavilhão aqueménida, com o detalhe suplementar de termos ao invés de Isis, um falcão, o símbolo de Hórus, seu filho. A relação entre Isis e Hórus surge ainda como mais uma manifestação de maternidade apropriada para o postal sobre o Puto de Vénus
Isis e Hórus, aqui a ligação maternal

Na mitologia ibérica de Tubal faz-se referência a reis Osiris-Júpiter e Hórus-Hércules Líbico.
Estes personagens seriam reis do Egipto que empreendem uma questa imperial contra a tirania, chegando à Ibéria para expulsar o tirano Gerião e os filhos Lomínios. Na versão ibérica Osíris mata Gerião, mas acaba morto pelos Lomínios e é vingado pelo filho Hórus. Na versão egípcia, Osíris é morto pelo irmão Seth, mas há também vingança do filho Hórus que, com ajuda da mãe Isis, acaba por destronar o tio Seth.

Se atendermos a que na Enéade egípcia o papel de Deus criador é desempenhado por Atum-Rá, a luta entre Osiris e Seth, filhos de Geb (deus da Terra, associado à Serpente), toma aspectos da rivalidade entre Abel e Caim, no sentido em que também Abel, o preferido, é morto por Caim.
Curiosamente, o terceiro filho de Adão, toma o nome Seth... e será deste Seth que surge a sucessão hebraica. Assim, o nome Seth aparece ligado ao mito hebraico pelo lado "bom", e ao mito egípcio pelo lado "mau". Não será tanto assim, já que o mesmo Seth é identificado a Tot, enquanto filho ou enquanto sua manifestação. Ora, acaba por ser Tot/Seth que tornará vivo o morto Osíris, e curará as feridas de Hórus, que substitui o Olho esquerdo (lunar) perdido no combate com Seth por uma serpente no chapéu (que seria usada pelos faraós). Como detalhe adicional esse olho de Hórus, estaria ligado a aplicações médicas...

 
Seguindo uma notável observação na Wikipedia, a ligação do olho de Hórus à
Medicina era representada pelo grafismo do R (semelhante a parte do olho),
mas deveria ser cortado... lê-se RX e fala-se só em conexões ao símbolo de Júpiter?

Pergunto - por que não reparar que a conexão directa da abreviatura "RX", para o olho de Hórus, é exactamente a abreviatura de "Raios X" ??
A escolha de um falcão como símbolo de Hórus, ao invés de uma habitual águia, à semelhança do que fará depois o imperador Ciro, é algo que merece alguma reflexão. Há algumas diferenças, no que diz respeito à velocidade, mas parece claro que é a acutilância da visão do falcão que marca a escolha de Hórus.
A "prenda" de Tot (também associado a Hermes) é literalmente uma visão RX. É natural que o significado RX seja uma "graça" do misticismo moderno, mas o ocultismo caminha lado a lado com a ocultação, a ocultação do conhecimento passado...

As colunas
Aparentemente estavam duas colunas em Heliopolis, e um site interessante, com ligações sobre este assunto encontra-se neste link... em particular apresenta um modelo do que teria sido Heliopolis:
Obeliscos em Heliopolis - modelo no Brooklyn Museum (NY)

O mesmo site apresenta uma "bizarra" ligação a Saturno... fantasmas pavlovianos, com  uma "ligação a Satan". É sempre engraçado ver coisas destas, ao mesmo tempo que deveriam saber que "Saturday", o dia de Saturno, é também Sabbath, o dia de Deus judaico. Mas aqui é ainda mais engraçado, pois a ligação a Saturno é feita pelo Sol... e "Sunday", o dia do Sol, é o dia de Deus cristão. 
Quando se vê o Sol, ou a luz, como algo mau... só pode corresponder a quem vê nas trevas algo bom para si!

A existência de duas colunas em Heliópolis, na "Siriad" egípcia... provavelmente uma cópia da original síria, com importação de monumentos, leva-nos assim às afirmações de Josefo e Haedo, sobre as colunas de Seth, onde se liga a coluna do Vaticano.
Curiosamente, foi-me agora indicado um texto maçon que dá conta das duas colunas, com o conhecimento pré-diluviano, que teriam sido descobertas por Hermes (filósofo) e Pitágoras (matemático):
No antigo manuscrito maçônico Cooke, (cerca de 1.400) da Biblioteca Britânica, lê-se nos parágrafos 281-326 que toda a sabedoria antediluviana foi escrita em duas grandes colunas. Depois do dilúvio de Noé, uma delas foi descoberta por Pitágoras, a outra por Hermes, o Filósofo, que se dedicaram a ensinar os textos ali gravados. Isto se encontra em perfeita concordância com o testemunhado por uma lenda egípcia, da qual já dava conta Manethon, segundo o mesmo Cooke, vinculada também com Hermes. 
É óbvio que essas colunas, ou obeliscos, semelhantes aos pilares J. e B., são as que sustentam o templo maçônico e, ao mesmo tempo, permitem o acesso ao mesmo e configuram os dois grandes afluentes sapienciais que nutrirão a Ordem: o hermetismo, que assegurará o amparo do deus através da Filosofia, quer dizer do Conhecimento, e o pitagorismo, que dará os elementos aritméticos e geométricos necessários, que reclama o simbolismo construtivo; deve-se considerar que ambas as correntes são direta ou indiretamente de origem egípcia. Igualmente que essas duas colunas, são as pernas da Mãe loja, pelas quais é parido o Neófito, quer dizer pela sabedoria de Hermes, o grande iniciador, e por Pitágoras, o instrutor gnóstico.  
in TRADIÇÃO HERMÉTICA E MAÇONARIA (1) de FEDERICO GONZALEZ
 (link cafc)

É claro que se sabe que a tradição maçónica é hermética... algo que contradiz a figura de Hermes, afinal o deus mensageiro. Felizmente este texto de Gonzalez parece seguir na direcção mais mensageira e menos hermética! 

domingo, 8 de abril de 2012

Era dos Cobres

Os retratos de Fayum ilustram claramente o conceito de regressão civilizacional.
É sempre revelador olhar para o naturalismo numa pintura do período Romano-Egípcio, como no caso desta criança de Fayum (Egipto, Séc. I a.C):
que tem uma precisão quase fotográfica. Depois basta lembrar todos os retratos toscos (por exemplo na tapeçaria de Bayeux), ao nível de pinturas de crianças na escola primária, que caracterizaram a época medieval (ocidental e oriental) até ao Renascimento.
Ou seja, a pintores que dominavam as cores e a luz, de forma perfeita, na época romana (ver ainda os frescos de Pompeia ou Herculano), sucederam gerações dos mais inábeis pintores que há registo, fazendo parecer qualquer homem das cavernas como um sobredotado desenhador.

O aspecto educacional associado esquece este pequeno detalhe de regressão na técnica de pintura, e ensina uma lenta evolução que, ao fim de quase dois milénios atingiria uma técnica retratista, ou seja - levaria de volta ao ponto de partida dos retratos de Fayum. Assim, como dos gregos ou romanos restaram poucos registos contraditórios, sempre que se olhar para uma pintura ou escultura demasiado realista tender-se-à a vê-la como coisa recente, com poucos séculos e nunca como uma pintura milenar.

A ideia criada e ensinada, é a de que houve uma lenta evolução, semelhante à evolução que uma criança tem no seu conhecimento. Como essa ideia é transmitida na juventude, quando as crianças estão num processo evolutivo, a ideia de que a humanidade passou pelo mesmo caminho evolutivo é apelativa e facilmente apreendida pelos jovens petizes. Os legados greco-romanos são vistos como "excepções que confirmam a regra", servindo para apenas elogiar o prodígio pontual desses antepassados.

Poderá pensar-se que foi um problema com a pintura... mas é claro que não foi! Foi um problema transversal que afectou todo o conhecimento, desde as artes às ciências e tecnologia (relembramos a máquina de Anticitera e a pilha de Bagdade). 
A humanidade foi infantilizada regredindo para um pensamento primário, recorrendo a ensino dogmático, primeiro pela argumentação "magister dixit" - Idade Média, depois pela fama/prestígio - Idade Moderna e actual. Sofreu uma amnésia ou uma lobotomia... conduzida pela Invasão dos Godos e dos Árabes, que de povos "bárbaros" (alguns vindos literalmente da Barbária) passaram a potências dominantes que instalaram o seu referencial de subdesenvolvimento como referencial do futuro não-desenvolvimento. Do ponto de vista cultural e científico, estes povos permaneceram com os valores e superstições que tinham antes, como se tivessem feito um compromisso assumido de regressão universal. Conforme diz Galvão, toda a memória e legado anterior foi destruído, como se tivessem inveja do desenvolvimento dos povos que conquistavam.
Porém é demasiado redutor pensar que se perdia deliberadamente conhecimento, apenas por inveja... e afinal os povos que conquistavam, sob domínio Romano, já estavam também eles condicionados no seu progresso. O condicionamento tem origem anterior...

A história foi bem coberta, desde a Idade do Cobre. A complexidade de manufactura dos metais não está directamente ligada ao necessário desenvolvimento tecnológico para que tal acontecesse. É pretendido que sociedades rudimentares conseguissem produzir metal para armamento em massa, ao mesmo tempo que não seriam capazes de menores prodígios para conveniência do seu uso civil... por exemplo a simples orientação por mapas. Na Era do Cobre cobre-se um desenvolvimento tecnológico, do qual restam apenas alguns prodígios megalíticos. 

Parte do Cobrimento só seria levantado pelos Descobrimentos... autorizados!
Os cobres... as moedas, ajudaram e ajudam a consolidar o encobrimento, de forma mais inteligente, aceitando um descobrimento controlado. Iniciou-se a Era dos Cobres. Na dúvida, ainda alguém falou em Achamento... como no Achamento do Brasil! Podiam achar que achavam algo de novo, e por isso o achamento era um conceito bem mais fraco que o descobrimento. Alguns achamentos têm direito a ser descobertos, outros mantêm-se cobertos a troco de cobres.

Na Histoire des Terres Australes (Liv, XVII, Ch. XI) em 1764 diz-se:
On peut aussi attribuer, en quelque façon, à une Politique intéressée tant de Relations absurdes & ridicules qu'on a données de différentes parties de notre Globe, & surtout du Continent Austral, en ce qu'une connaissance plus parfaite de ces Pays ne s'accorderoit vraisemblablement point avec l'interêt de certains Corps ou de certains Particuliers, qui ont un grand crédit.
Este é o primeiro texto que encontro em que se denuncia a estupidez da não exploração do "Continente Austral"... ou seja da Austrália, por interesse de "certos Corpos ou certos Particulares"!
É aliás mais ridículo, porque nesse texto há até uma necessidade de especificar em que consiste esse continente, limitando a possível localização da Austrália. Essa estupidez será associada directamente à política das Companhias das Índias... e já aqui falámos de como essa companhia funcionaria como uma "boa companhia" para evitar "más companhias". O texto fala mais especificamente da Companhia das Índias Holandesas, mas sabemos que havia uma "companhia da índias" com monopólio em cada "potência descobridora":
(à excepção dos originais, Portugal+Espanha, as restantes companhias foram instaladas os reinos que saíram vencedores da Guerra dos Trinta Anos e que a partir do Tratado de Vestfália definiram o mundo moderno)

O texto francês alerta para os perigos do seu monopólio que se verificavam já também em França em 1764. Dois anos mais tarde, Cook inicia a sua viagem, e a Companhia Francesa fica fora desse jogo... e acaba extinta  por decreto real. Porém, como já se nota nesse texto, é estranha a atitude da Companhia Holandesa, que limitava de tal forma a actuação dos holandeses que prejudicava o próprio país(*). A atitude era tanto mais estranha, pois já se sabia que o continente era praticamente desabitado, havia terrenos eram férteis e suspeitava-se que as anunciadas tribos assustadoras pouco mais serviam do que de fábula para amedrontar exploradores.

O poder do Cobrimento saiu de imposição medieval de cariz religioso, ligado a um catolicismo fundamentalista, e ganhou nova expressão como consequência moderna dos interesses interligados das diversas Companhias das Índias. O encobrimento religioso deu lugar e forma a um encobrimento económico, justificado por aparentes interesses financeiros dos monopólios das "companhias das índias".
O metal continuava a ser o Cobre... os cobres dados aos mercadores justificavam o encobrimento dos descobrimentos. O controlo quase total exercido pela religião em épocas medievais dava lugar ao controlo quase total exercido pelo comércio oligárquico das companhias das índias...

As Companhias das Índias eram alvos visíveis e a revolta do chá em Boston, contra esse monopólio, prelúdio da Revolução Americana, mostrava isso mesmo. Por isso estas Companhias tornaram-se mais sofisticadas, as suas lojas tomaram forma secreta, e os nomes "Grande Oriente" saíram das Companhias das Índias estabelecendo-se em lojas mais selectas e discretas.

Após a derrota de Napoleão e do Congresso de Viena, em 1815, a nova ordem mundial passaria a estrutura económica para a forma Bolsista. Assim, no início do Séc. XIX consolida-se essa nova estrutura económica que irá dominar por completo a sociedade nos próximos 200 anos e na actualidade. A evolução das Companhias das Índias para a forma de Bolsas de Valores é notória (Bolsas de Valores de Londres, Paris, Nova Iorque...) passando a controlar todos os produtos e não apenas o comércio de importação das colónias.
No fundo, todo o mundo passaria a uma gigantesca Índia e assim controlado como uma grande colónia.
Conforme já dizia o Vice-Rei Francisco de Almeida, era mais útil ter governos locais conduzidos por marajás colaborantes do que empreender numa efectiva conquista. A política subserviente de alguns líderes de nações europeias transformou-os em simples marajás colaborantes duma Índia alargada a todo o mundo.

Com o mercado bolsista dá-se a primeira efectivação de acordos de globalização, em que as nações comprometem a sua independência a entidades financeiras ao assumir uma completa dependência a um comércio controlado essencialmente por grandes entidades financeiras e bancárias. O comércio globalizado, passa a ser exercido sob controlo de organizações transnacionais, como é o caso da OMC - Organização Mundial do Comércio (ou do FMI). As desregulações e impunidades permitem uma actuação sem-rosto e sem-fronteiras, controlando todos os "cobres". A Era dos Cobres implantava-se, cobrando o encobrimento.


(*) é citado Jean de Wit: "Quand la Compagnie des Indes Orientales, dit-il, a été à un certain degré de richesses & de puissance, son intéret est devenu contraire à celui de son Pays" (...)
A França, com o fim da sua Companhia das Índias vê também a sua situação financeira aproximar-se da bancarrota. 
Luís XV terá dito "aprés-moi, le déluge" - e ao filho Luis XVI deixa um caos financeiro, uma fonte para o dilúvio da Revolução Francesa... É interessante reparar no contraste com o esplendor do seu pai, Luis XIV, o Rei Sol, que iniciara o seu mandato justamente com a constituição desta Companhia.


(reeditado em 9/04/2012)

domingo, 1 de abril de 2012

Laracha, Lixo, Loucos, Maluco

Há uma obra que já fiz aqui referência:
Jornada de África, de Jerónimo de Mendonça (1607)

e talvez mereça uma menção (que nem sei bem como adjectivar) haver uma obra homónima, de Manuel Alegre, o nosso contemporâneo poeta, político e assumido maçon. Apesar de mencionar a obra original, a usurpação do mesmo título "Jornada de África", por Manuel Alegre, pouco mais parece servir do que contribuir para uma conveniente confusão.

A obra de Jerónimo de Mendonça relata a expedição de D. Sebastião a Alcácer-Quibir, e surge em pleno domínio de Filipe II de Espanha. Portanto todo o enquadramento é condicionado por uma escrita aparentemente subserviente a esse domínio filipino, tendo a necessária consciência de qualquer outra abordagem não seria autorizada.

Tornou-se comum usar a expressão "Larachas" para designar palavras sem sentido, mas ao que pude constatar esta expressão só se tornou habitual em textos já na segunda metade do Séc. XIX.
Diz Jerónimo de Mendonça:
           "porque de uma maneira ou doutra melhorava no partido; pois tomando el Rey Dom Sebastião Larache segurava os Reynos de Espanha, e morrendo na demanda ficava seu herdeiro"

... é claro que esta confortável posição de Filipe II não é denunciada por Mendonça, mas sim repudiada por ele, tentando defender acusações que circulavam. Uma maneira sagaz de dizer o que não podia ser dito...

Larache, ou Laracha (também aparece assim designada), aparecia como o destino estratégico de conquista na jornada de África de D. Sebastião. 
O nome Quibir associado à batalha acaba por substituir um verdadeiro objectivo anunciado - Laracha!
Larache - gravura de J. Ogilvy (1670)

Será elucidativo associar-se depois à palavra Laracha um significado distinto, de índole jocosa.
Esta suposta coincidência... ou que quer que seja, não está isolada. 
Já mencionámos várias vezes o problema Maluco... das ilhas Malucas, depois designadas Molucas.
Para além de serem um problema no anti-meridiano (prometidas como dote a Sebastião, tivesse ele querido o casamento espanhol), as Malucas eram a essência da especiaria!
Acresce que, como sabemos, o Mulei inimigo de Sebastião era também designado Mulei Moluco...

Podemos ignorar isto, evitar a expressão "Malucos" e passar a "Loucos"...
... curiosamente isto não resolve bem o problema porque a batalha dá-se ao pé do Rio Loukos.

Às margens deste Rio Loukos, encontravam-se as ruínas de Lixo (cidade antiga que antecedeu Laracha):
Lixo - ruínas, Loucos - rio

Para dia 1 de Abril, parece-me bem maluca esta Laracha, que veio de Lixo, e é claro - rio de Loucos.
Não rio da laracha, mas rio de loucos fazendo lixo.

De origem latina, o Lixo tem mais raiz no lixar, traduzido directamente de Queimar... é lixado, mas já a palavra Lixo enquanto "depósito de desperdício" parece-me ter entrado apenas nos nossos textos posteriormente.

Ainda indo aos tempos em que o "calendário de Rómulo" começava em Abril, sendo depois substituído pelo "calendário de César" que passou a começar em Janeiro, honrando Janos das duas faces, parece que esta cidade de Lixo era a última cidade habitável admitida, a partir dali o resto seria... lixo, ou talvez ficassem lixados... queimados!

Minas no Séc. XVI
O texto de Jerónimo de Mendonça fala de minas...
Que o texto de Manuel Alegre pudesse falar das minas na guerra de África... é algo normal e trivial.
Porém, de que minas fala Mendonça?... Não é certamente das Fortalezas das Minas.
Vejamos o texto, logo no final do prólogo "ao leitor":

       E quando trata del Rey Phelippe nosso senhor segundo deste nome, na Cidade de Lisboa diz, que correu nela dois grandes perigos de vida, porque duas vezes foram descobertas minas que os portugueses fizeram nos paços Reais, e na igreja onde costumava ouvir Missa, e se isto senão descobrira, fora el Rey arruinado, ou nos paços, ou na igreja, e que os Autores desta maldade foram gravemente castigados (...)

Se isto não é uma descrição de uma tentativa de atentado, com minas explosivas, colocadas para serem detonadas na presença de Filipe II, não sei que outra laracha pode ser inventada para justificar este texto.

Portanto trata-se de um relato de minas explosivas, com detonamento programado, e seja de que forma fosse, é um claro sinal de que a tecnologia era suficientemente sofisticada para ser dissimulada e usada num atentado. Para além de raras experiências e relatos chineses, até ao Séc. XIX não há propriamente registo da utilização de minas explosivas, especialmente com o intuito de atentado.

Se esta iniciativa portuguesa tinha origem numa ideia chinesa, ou não, pouco importa, pois este é um dos raros casos em que compreendemos que houvesse alguma necessidade prática em evitar a divulgação destas ideias literalmente explosivas.

Não deixa de ser curioso que a palavra Mina, originalmente ligada ao minério, tanto se vai associar depois à riqueza do minério como ao explosivo... no fundo, a uma riqueza explosiva.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Gás na Passarola


Já aqui escrevi sobre Passarolas e Balões, no entanto na altura não tinha conhecimento do texto de Pinheiro (Fr. Lucas de S. Joaquim) que vim a descobrir online no Arquivo da Torre do Tombo.
Este texto está incluso no final de uma compilação de cartas e obras de Alexandre de Gusmão até 1752, pelo que se conclui que Pinheiro, o autor desta transcrição viveu posteriormente, e pela descrição na sua Nota final, dá a entender que o texto foi escrito numa altura em que o Torreão da Casa da Índia estaria por concluir, após a reconstrução derivada do Terramoto de 1755. A frase final, assinalando a perda desta glória para Portugal, sugere que talvez as experiências dos Montgolfier já fossem conhecidas, remetendo esta transcrição para final do Séc. XVIII.

O que interessa é que a leitura deste texto coloca praticamente um ponto final sobre o assunto. É claro que não fui eu o único a ler o texto, que até se encontra online, pelo que se trata obviamente de mais um segredo de Polichinelo, silenciado pelos numerosos arlequins que embelezam esta tragicomédia popular.

Transcrevo as páginas manuscritas 202 a 204 que podem ser consultadas directamente no link da Torre do Tombo. Fica claro que houve de facto uma farsa, mas não no desenho remetido ao 2º Marquês de Abrantes, nem que se tratava de uma outra embarcação com ascenção por ar quente, conforme tinha lido e escrito no texto anterior... ou seja, em breves palavras:
  • Bartolomeu Lourenço terá criado o primeiro dirigível, que se elevava por auxílio de um gás leve, provavelmente hidrogénio. Isso tornava grande parte do restante aparato como uma grande ilusão, onde entrava o fascínio à época pelo magnetismo (pedras de cevar). Uma grande quantidade de gás poderia de facto permitir a ascenção independentemente da forma pouco convencional do aparelho.
  • Pinheiro sugere que o gás poderia estar colocado nas esferas e no velame, mas talvez seja mais natural considerar ainda que o corpo da barca também seria um depósito de gás. A isso acresce a descrição de que o corpo da barca era forrado a chapas de ferro e palha de centeio, talvez com algum propósito de calafetar o conteúdo. As duas esferas poderiam estar ligadas a dois depósitos internos, regulando a inclinação da barca pela libertação de gás, e finalmente permitiriam a descida do aparelho.
  • Isto não exclui que o próprio Bartolomeu não tivesse feito demonstrações com balões de ar quente, usando o princípio das Lanternas de Kongming (balões de S. João...). Porém a verdadeira novidade seria mesmo a utilização de um gás mais leve, o que evitaria a necessidade de alimentar uma combustão e daria a necessária autonomia.
  • É notável que na carta a D. João V, Alexandre de Gusmão refira o particular interesse de explorar as regiões mais vizinhas dos Pólos, dando a entender por isso que seriam apenas aquelas onde não seria possível a navegação... assumindo implicitamente que as naus portuguesas já teriam explorado as regiões navegáveis. Nada disto será de estranhar se lermos o que dizia Pedro Nunes, já 200 anos antes... e complementa-se pelo pouco relevo dado à descoberta das costas marítimas da Antártida (que nem tem descobridor atribuído...).
Após este gás no reinado de D. João V, que potenciaria uma nova ascenção portuguesa, percebemos que seria necessário um abalo de fortes consequências para que os sonhos caíssem por terra.

Segue a transcrição que fiz do texto manuscrito:
_________________________

Petição do Padre Bartholomeu Lourenço
sobre o instrumento que inventou para andar pelo ar e suas utilidades.

Diz o licenciado Bartholomeu que ele tem descoberto um instrumento para andar pelo ar da mesma sorte que pela terra, e pelo mar, com muita mais brevidade, fazendo muitas vezes duzentas e mais léguas de caminho por dia, nos quais instrumentos se poderão levar os avisos de mais importância aos exércitos e terras mais remotas, quasi no mesmo tempo em que se resolvem - no que interessa a Vª Majestade muito mais que todos os outros Princípes pela maior distância de seus Domínios, evitando-se desta sorte os desgovernos das conquistas, que provem em grande parte de chegar tarde a notícia deles. Além do que poderá V. Mag. mandar vir todo o (?) delas muito mais brevemente e mais seguro. Poderão os homens de Negócio passar letras e cabedais a todas as Praças sitiadas: poderão ser socorridas tanto de gente, como de víveres, e munições a todo o tempo, e tirarem-se delas as Pessoas que quiserem, sem que o inimigo o possa impedir.

Descobrir-se-ão as regiões mais vizinhas aos Pólos do Mundo, sendo da Nação Portuguesa a glória deste descobrimento, além das infinitas conveniências que mostrará o tempo. (?) deste invento se podem seguir muitas desordens cometendo-se com o seu uso muitos crimes, e facilitando-se muito na confiança de se poderem passar a outro Reino, o que se evita estando reduzido o dito uso a uma só Pessoa, a quem se mandem a todo o tempo as ordens convenientes a respeito do dito transporte, e proibindo-se a todas as mais sob graves penas. E é bem se remunere ao suplicante invento de tanta importância.

Pede a V. Majestade seja servido conceder ao suplicante o privilégio, de que pondo por obra o dito invento nenhuma pessoa de qualquer qualidade que for possa usar dele em nenhum tempo neste Reino, ou suas conquistas sem licença do suplicante, ou seus herdeiros sob pena de perdimento de todos os bens, e as mais que a V. Majestade parecerem.

Consultou-se
No Desembargo do Paço a El Rey com todos os vossos(?) e que o prémio que pedia era muito limitado e que se devia ampliar.
Saiu Despachado
Como parece à Mesa, e além das penas acrescento a de morte aos Transgressores, e para com mais vontade o suplicante se aplicar ao novo Instrumento, obrando os efeitos que relata, lhe faço mercê da primeira Dignidade, que vagar nas minhas colegiadas de Barcelos, ou Santarém, e de Lente de Prima de Mathematica da minha Universidade de Coimbra com 600 mil réis de renda, que crio de novo em vida do suplicante somente.
Lisboa, 7 de Abril de 1709
(com a rubrica de Sua Majestade)

Explicação da Máquina
a. Mostra o modo velame para cortar os ares.
b. Mostra o leme para se poder governar
c. Mostra o corpo da barca levando em cada concha um fole e cano para lhe suprir a falta de ventos.
d. Mostra as Asas, que como pás servem para não voltar de todo à banda.
e. Mostra as Esferas feitas de metal, levando na base uma pedra de cevar e dentro dizia o Autor que ia o segredo. O corpo da barca era de madeira forrado de chapas de ferro forrado de esteiras de palha de centeio e tabuado capaz de conduzir até 11 Pessoas.
f. Mostra uma coberta feita de Arames com alambres enfiados fingindo que com o calor do Sol atrairão a si as esteiras com a barca.
g. Mostra a agulha de marear
h. Mostra o Piloto com o Astrolábio
i. Mostram as roldanas para se governar a escota.



Nota
Suposto como certo, e infalível, que o Autor achando o segredo do gás o havia de encobrir até estar certo da felicidade de suas operações, e de alcançar os prémios que pretendia, devemos confessar que justo o encobrisse fingindo que o ascenso da Máquina procedia de outros princípios atractivos com que o vulgo se enganasse.
Enfim, não obstante que diga que dentro dos globos ia a Magnete, cujo virtude faria subir a Máquina, ou barca, contudo a sua elevação não podia proceder da virtude atractiva, mas sim da expansão, e força do gás, a que o Autor chama segredo que ia dentro dos globos - ou talvez no velame. O certo é que o Autor era curiosíssimo na composição de fogo do ar e que esta Máquina foi experimentada, e lançada da Praça de Armas do Castelo, e que veio cair no Torreão da parte Ocidental da Praça, que então era Terreiro do Paço, e o Torreão Casa da India, e hoje é Praça do Comércio, e o Torreão está por concluir, e disto havia muitas testemunhas que alcançaram os meus dias. O fim desastrado do Autor foi causa de Portugal não ter a glória desta descoberta.

Pinheiro (assinatura)


segunda-feira, 26 de março de 2012

Direito Sinistro

Tendo colocado aqui o último texto sobre os Painéis de Nuno Gonçalves, notei que a questão sobre a dualidade Poente-Nascente, um aspecto a que dei muita importância na altura, acabou por ter sido negligenciado na maioria dos textos seguintes. 
Talvez por ter insistido demasiado nessa particularidade nos meses iniciais de pesquisa, acabei por negligenciar alguma necessidade de menção nos textos seguintes... No entanto, de nenhuma forma ele deixou de estar presente no meu olhar sobre os mais insignificantes pormenores. Acho que já aqui referi que um pormenor distintivo, nas duas primeiras edições dos Lusíadas de Camões, era justamente a diferença na orientação da cabeça do pelicano, no fronstispício.

A dualidade Poente-Nascente foi assim chamada também para relacionar directamente com a dualidade sobre as duas designações de Vénus - ao amanhecer seria encarado como "portador de luz", ou Lucifer, e ao entardecer era encarado como "fonte de esperança", ou Hespero (de onde surgia a designação das ilhas ocidentais paradisíacas - as Hespérides). Era ainda claramente uma dualidade sempre presente entre o Ocidente e o Oriente, dois destinos diferentes que se colocavam a uma Europa que se via como centro do mundo. Houve uma progressiva deslocação do centro de poder para ocidente, desde um centro babilónico ou persa, passando a um centro cultural helénico e depois romano, caminhando para os centros mais recentes, inglês e americano. 
É uma separação claramente diferente e menos óbvia face à dualidade entre o alto e o baixo, o norte e o sul, entre um topo próximo do céu e uma profundidade infernal.

Poderia também falar-se de uma dualidade Esquerda-Direita, que se foi mantendo como divisão política.
Porém aqui é habitual notar que, em italiano, a Esquerda é Sinistra, e em inglês, a Direita está Certa (right).
Será que a posição escolhida pelos deputados na Assembleia francesa de 1788 foi acidental?... não nos parece! Não foi nenhum acidente, nem nenhum sinistro... simplesmente colocaram-se na posição que já reflectia opções políticas, da mesma forma que ter uma cabeça de águia imperial olhando para a esquerda ou para a direita não seria exactamente um simples acaso nos antigos brasões (a ponto de com os Habsburgos terem surgido mesmo águias bicéfalas).

É claro que muitas das relações são fortuitas, desinformadas, e será por isso fácil contra-argumentar contra qualquer pretensão séria de levar estas relações mais longe... nem todos os brasões foram escolhidos com as suas armas viradas para a esquerda ou para a direita com propósito necessariamente informativo. Aliás, essa desinformação foi-se acentuando com uma progressiva entrada na Idade Moderna.
Para além disso é ainda claro que quem se sentava à esquerda, ficaria voltado para a direita, para nascente, aguardando um novo amanhecer com uma estrela da manhã portadora de luz... ao passo que quem se sentava à direita ficaria olhando o pôr do sol com uma estrela de entardecer sinónimo de esperança. Como se isto não fosse suficientemente sinistro, esta posição dependeria ainda da própria orientação do edifício (e os exemplos de edifícios parlamentares que vimos seguem exactamente esta orientação solar... os lugares da esquerda viram-se a nascente e os da direita a poente)!

Porém, aqui queria acentuar um outro aspecto... o do Direito!
Quando comentei sobre a separação de poderes não coloquei, nem mesmo implicitamente, qualquer referência a esta particularidade relativa ao poder judicial... o poder do Direito.
Vivemos num "Estado de Direito", ainda que cada vez mais nos pareça que vivemos num "Estado Sinistro"... e não apenas "sinistro" no seu aspecto oculto, mas também porque parece caminhar para um inevitável acidente.

Nas sociedades modernas o sistema político acabou por cumprir uma separação de dois poderes, que já comentei (havendo a confusão entre poder executivo e legislativo). Há um poder pseudo-legitimado por uma pretensa eleição partidária, esse constitui o lado sinistro, e há um outro poder que assumidamente não é outorgado pelo povo, que simplesmente se desenvolve numa carreira pelo lado do direito, o poder judicial.
É especialmente interessante ver como o poder desse direito se acentua quando decide investir pelo lado sinistro da governação e pelos seus intérpretes, supostamente eleitos democraticamente. Assim, tem sido curioso verificar como os diversos governos ficam sinistramente presos(!) no estado de direito.
Nem tão pouco falo dos processos mais ou menos caricatos, alguns ridículos, que têm manchado a credibilidade da justiça portuguesa... falo aqui de um imperativo do Direito, que ao se sobrepor, tem tornado os governos praticamente impotentes para alterar cláusulas ou contratos, compromissos feitos em nome de um estado que apenas parece vacilar perante o "corte a direito" que executa a legislação sinistra.

Não assumir uma posição "às direitas" pode parecer meio sinistro, ou uma simples brincadeira na língua portuguesa... Porém, vai ficando claro que o compromisso de separação de poderes pouco mais fez do que dar a um lado de corrente maçónica-judaica uma parte do bolo, enquanto que a aristocracia-oligárquica tradicional iria manter a outra parte. De um lado uma faculdade de letras, da cultura, à esquerda, e do outro lado uma faculdade de direito, no efectivo poder...

O lado sinistro fez cair sobre a educação e cultura um véu de encobrimento, e foi nomeando alguns dos seus eleitos como pequenas estrelas - referências de luz... talvez para orientação na grande noite que os levaria a Vénus, portador da luz, e assim à "alvorada" (new dawn...)! A população ganharia uma maior liberdade aparente, já que encaminhada nos seus carreiros/carreiras dificilmente veria a altura dos muros da prisão que se erguiam a direito, mesmo a seu lado. A aparente cedência de poder a uma pretensa eleição popular pouco seria mais do que colocar um caminheiro com um bordão à frente do rebanho de carneiros... sabendo-se exactamente que as ovelhas tresmalhadas se assustariam com os cães, e dificilmente deixaram de seguir o seu caminho a direito, nalguns casos direito ao açougue.

O direito teve uma transição da sua componente canónica, com residência medieval no Vaticano, passando para um direito civil que foi consagrando direitos aos indivíduos que foram esquecendo o seu estatuto de servos da plebe... a missão libertadora que os movimentos maçónicos preconizaram, e que enfiou o barrete frígio em muitas revoluções, foi assim progressivamente cumprida. No entanto, por uma natural descrença na natureza humana, acabou por desistir de levantar o véu da farsa que criou, tendo mesmo pensado em criar uma ilusão de alvorada, como farsa final.
Ora, é praticamente claro que os donos do rebanho não tencionam deixar de encarreirar os carneiros, assumindo que no deslumbre das flores (flower-power) se escondem latidos de lobos disfarçados de cães-pastores, e por isso os seus carneiros não podem deixar de seguir o carreiro a direito...
Lei da Babilónia
Estela menir de diorite (séc XVIII a.C) 
com a forma de um digito indicador 

terça-feira, 6 de março de 2012

Peças dos Painéis de S. Vicente

Já há algum tempo tinha preparado um texto para retomar a peça sobre os Painéis de S. Vicente... porém, já referi implicitamente nos comentários que considero uma absoluta perda de tempo qualquer actividade humana com intenções sérias. Numa farsa os personagens sérios são os mais facilmente ridicularizados, porque o seu sentido de seriedade está desalinhado com a comédia ensaiada, aparecendo como absurdos.

Porém, esta supressão do Knol motiva-me a escrever alguma coisa mais neste blog. É claro que a farsa em que vivemos pode vir a ter autores conhecidos, mas em última análise, não passam eles próprios de meros personagens risíveis numa comédia de contornos complexos, que escapam por completo a uma simples inspecção de mortais.

Numa carta de 1844 dirigida a Atanazy Raczyński, o visconde de Juromenha relata sucintamente o que se conhecia da pintura portuguesa antes de 1500. Começava por falar de Jorge Afonso, que pintou parte do Palácio de Sintra, ao tempo de D. João I... e conhecia-se muito pouco mais.
Nessa altura ainda não tinham saído do sótão de S. Vicente de Fora os famosos painéis.
S. Vicente de Fora em estampa - funeral de D. Pedro V
(Ilustração Portuguesa, 1867)

A saída dos painéis do sótão do Mosteiro de S. Vicente de Fora terá causado alguma incomodidade imediata, já que subitamente a pintura quinhentista portuguesa passava quase do zero ao infinito, com a notável cena retratada por Nuno Gonçalves. Parece que os painéis foram descobertos em 1882 por um entalhador Leandro Braga, quando estavam a ser usados como plataformas de andaimes em obras no mosteiro... essa terá sido a "primeira redescoberta" oficial, por ter sido atestada por Columbano Bordalo Pinheiro. Mesmo assim caiu no esquecimento, e terá sido uma "farpa" de Ramalho Ortigão que voltou a trazer os painéis a assunto público em 1895, mas só em 1909 foi autorizada a saída para o Museu de Arte Antiga e o restauro de Luciano Freire.

Desde essa altura os painéis acabaram por fazer parte do imaginário pródigo de especulação, havendo mesmo a tese de que Salazar teria procurado inserir o seu retrato num personagem dos painéis.
Não foi longe desse espírito imaginativo que coloquei a hipótese de retratarem um episódio marcante - a morte do filho de D. João II...

A tese habitual colocava os painéis em 1470-80, encaixando alguns detalhes importantes, que Dagoberto Markl enumerava como impossibilidades de uma datação anterior, em 1445, conforme se pretendeu entretanto admitir. Essa datação de 1470-80 tinha um problema complicado, pois a imagem do Infante D. Henrique aparecia claramente nos painéis, e este teria morrido em 1460... havia ainda assim quem argumentasse que não se tratava do Infante D. Henrique - algo meio ridículo dada a semelhança quase fotográfica entre as duas representações.
Apesar disso, tudo apontava para uma data posterior a 1470, desde os trajos a outros detalhes que pude ler nas críticas de Dagoberto Markl, e que tornam a tese de 1445 facilmente refutável.
Essa tese teria como argumento adicional uma datação dendocronológica... colocando as tábuas num tempo aproximado, com a dúvida inerente ao processo, e não menos óbvia possibilidade da pintura não ter ocorrido exactamente sobre madeira acabada de recolher...

De qualquer forma, o mais engraçado acaba por ser a tentativa de justificar os personagens... onde basicamente tudo é possível. Acho que cada cara já deve ter tido pelo menos umas dez possibilidades de ser fulano X ou fulano Y... e não havendo possibilidade de contraditório, tudo encaixa, especialmente recheando o contexto de figuras menores.

O funeral "simbólico" do Infante Santo em 1445 até seria uma possibilidade plausível, não houvessem tantos problemas, e apenas cito um que me parece colocar um ponto final sobre essa hipótese - as figuras reais em primeiro plano (no 3º painel, chamado Painel do Infante) não podem ser Isabel de Coimbra e o D. Afonso V... por uma simples razão... D. Afonso V teria em 1445 não mais que 14 anos!

As diversas argumentações que coloquei em 2009 continuam a fazer todo o sentido, e poderia alongar-me num ou noutro argumento, ou corrigir alguns excessos de entusiasmo, mas dificilmente retiraria muitas virgulas ao que escrevi.

Há um interesse sinistro em manter o assunto como secreto, e apoiar as teses menos consistentes, mas isso também não é nada de novo... faz parte da alimentação da farsa! Continuará a fornecer matéria para argumentação e contra-argumentação inútil ou fútil, mais ou menos ridícula, tanto ou pouco consistente.
Pela minha parte, já dei o que tinha a dar para esse peditório... pouco ou nada me importa saber se esta tese será alguma vez considerada, interessa-me que fez e faz todo sentido num quadro muito mais lato.
A maior crítica será justamente ter procurado ir demasiado ao detalhe e interpretar algumas coisas direccionado numa perspectiva que acabava de descobrir.
Mais do que o detalhe de determinar todos os personagens e particularidades, interessa saber por que razão o quadro teve um destino de ocultação... e aí nenhuma das outras teses "politicamente correctas", logicamente incorrectas, esboça nenhuma resposta convincente... é claro que nem precisa, porque o objectivo continua a ser a ocultação, agora uma ocultação educativa que permite até ousar a sua exposição ao público.
A censura ganhou novos contornos... há muito que deixou de ser feita escondendo ou destruindo as coisas, é feita publicitando o que devemos pensar, e marginalizando eventuais pensamentos dissonantes.
Simples, porque afinal os cérebros são formatados na educação e dirigidos pela informação... quem controla a educação e a informação só tem praticamente que se preocupar com quem pensa por si próprio... manifestamente um pequeno número de pessoas.


Nuno Gonçalves (14/12/2009)


Nuno Gonçalves
Painéis de S. Vicente de Fora

O que está representado nos Painéis de S. Vicente de Fora? 
Um longo instantâneo da família Avis, na sua interpretação em 1491-92.
Tese de ALVOR SILVES
14 de Dezembro de 2009

A época



Para compreender os painéis de Nuno Gonçalves é preciso perceber o que faz sentido e o que não faz...
Comecemos pelo 3º painel, dito Painel do Infante.

  • (i) O Infante D. Henrique está representado... isto é basicamente indiscutível, dada a imagem semelhante que existe nas Crónicas dos Feitos de Guiné de Zurara. 

Dado que na imagem das Crónicas o Infante tem um aspecto ligeiramente mais jovem, é de admitir que no mínimo, este quadro seja posterior ao das Crónicas, posterior a 1453. Isso exclui teses mais estranhas, que colocam esta pintura nos anos de 1440-50. É de notar que se o nome de Nuno Gonçalves aparece como pintor da corte em 1463, será difícil conceber que o tenha feito antes. E se não foi Nuno Gonçalves, então será preciso justificar outro autor...

Por outro lado, o quadro deverá ser anterior a 1492, pois Nuno Gonçalves terá desaparecido nessa altura. Surge uma hipótese habitual e que faz sentido ~ entre 1470-80 ~ mas então é preciso admitir que o Infante D. Henrique já está morto. Haverá maneira de ver isso?

  • (ii)  O Infante D. Henrique, tal como outros personagens no quadro, têm as mãos unidas. Típico sinal de falecimento, não será?
  • (iii) Assim, será ainda possível associar o Infante D. Pedro à figura (muito semelhante ao seu retrato mais jovem) que surge em primeiro plano no 5º painel, dito dos Cavaleiros.
Mas agora, reparemos noutro detalhe importante:

  • (iv) À excepção de um, no 5º painel (do qual não se vêem as mãos), todos os personagens sem as mãos unidas têm a barba cortada... nota-se aliás que há quem a use e a tenha mal feita.

Há algum facto de tal forma marcante, em que todas as pessoas do reino tenham feito a barba? 
Sim, ocorreu em 1491... foi a morte do herdeiro - o príncipe Afonso, filho de D. João II.

Estamos no limite atribuível a Nuno Gonçalves... talvez exactamente por razão deste quadro!

Este quadro terá sido encomendado por D. João II, para promover a sucessão de Dom Jorge, seu filho "bastardo", e ao mesmo tempo prestar homenagem ao filho morto... que não aparece no quadro.
Como a sucessão se deu pela linha oposta, ou seja, por D. Manuel, é natural que o quadro tenha sido escondido durante séculos!
Nada é acidental... nem a consequente morte de D. João II, escolhida para Alvor, nem o repouso em Silves, antes de seguir para o Mosteiro da Batalha. 
O clima fúnebre e sinistro do quadro, mantém-se hoje... 



Tese de Alvor Silves

Este quadro será um instantâneo único, de todo um processo que levou à morte de D. João II em Alvor, fora da corte, quase isolado. Esse desfecho até já se antevê no magnífico quadro!

Painel real (o terceiro)

Fará tudo o resto sentido, com base nesta hipótese?

  • (v) O rei ajoelhado no 3º painel é D. João II, aos 36 anos. A criança é D. Jorge, com 10 anos. Não está ao lado da Rainha, está na sucessão do pai, na linha do "navegador" D. Henrique.
  • (vi) Quem são as duas figuras femininas poderosas, que aparecem nesse 3º painel?
    A mais velha e também a mais poderosa, será Dona Beatriz de Viseu (com 61 anos), mãe da Rainha D. Leonor (com 33 anos), que se encontra ajoelhada, do outro lado do Rei. Ambas as figuras fazem jus a outros retratos contemporâneos. Haverá outras duas figuras femininas, mais marcantes, à época dos descobrimentos?
Todos estes protagonistas estão vivos, e sem dizer nada, dizem-nos muito!
Nuno Gonçalves capta a alma de forma muito sublime.
Nesse 3º painel, dito do Infante, falta apenas falar de uma figura que tem algum destaque, mas que está na sombra dos acontecimentos... com as mãos unidas, está morto. Poderia estar no 2º painel, mas não será acidental o espaço que surge entre o personagem que se ajoelha por terra, em sinal de penitência, e a personagem seguinte... trata-se de Dom Afonso, 1º Duque de Bragança. Aparece ao lado do meio-irmão, Henrique, em aparente oposição, e mais acima! 
O Infante Dom Pedro não poderia estar neste painel. Surge inequivocamente no plano do seu neto, o Rei D. João II, mas noutro painel, no 5º painel. 
A Batalha de Alfarrobeira nunca desaparecerá do futuro português.

Outros painéis

A partir daqui, não será tão fácil, mas é ainda assim possível encontrar uma linha de raciocínio consistente.
  • (vii) No 1º painel (dito dos frades), estão por ordem de sucessão os reis de Avis, anteriores a Dom João II. Ou seja, primeiro D. João I (mãos juntas, morto), depois D. Duarte (dá indicação das mãos juntas, morto), depois D. Afonso V (mãos juntas, morto). As figuras dos três estão dentro das descrições ou outras imagens que temos deles. Este será o Painel dos Reis... ou da Ordem de Avis, já que é natural que a sua representação invoque a sucessão de Avis pelo lado religioso. Dessa forma se justifica o aparecimento em bastidores de outros protagonistas de menor relevo, ligado ao seu papel enquanto mestres da ordem.
  • (viii) No 2º painel (dito dos pescadores), está a descendência pelo lado de Nun'Álvares Pereira. Será ele o protagonista, em penitência, com as mãos juntas (morreu bastante velho). Há um espaço em branco, de onde terá saído o sucessor genro, o Duque de Bragança, que passou para o 3º painel, por razões já explicadas (parcialmente). Por isso, a seguir aparece uma figura dúbia, representando uma neta. Poderá ser uma representação dupla, invocando a mãe de Dona Beatriz de Viseu, pois assim aparece ao lado da filha (no painel seguinte). Mas também, invocando a irmã, mãe da Rainha Isabel de Castela, a Católica. Parecerá um pescador?
  • (ix) É natural que essa importante figura do 2º painel se pareça com um pescador. Tem a rede, onde foi colocado o corpo do príncipe morto, e daí ter surgido o símbolo do camaroeiro da Rainha D. Leonor. A rede é uma rede política, muito complexa, que herdámos. D. João II olha de frente, nessa direcção da sogra, herdeira das irmãs Bragança, pela sua cumplicidade com a sobrinha, Rainha de Espanha. Procurará apontar aí as culpas desse destino do filho? É muito provável. Não tenho ainda dados suficientes consistentes, para alvitrar o personagem que se encontra ao seu lado... Com a herança deixada por este painel, torna-se clara a posição de grande penitência em que se encontra Nun'Álvares.
  • (x) No 4º painel (dito do Arcebispo), em primeiro plano surge uma corda. Representa, como habitual as navegações. Por razões, que mais tarde explicarei, deverá representar Gama, o escolhido pelo Santo, através de D. João II, para anunciar a Índia. Do outro lado, deverá ser Diogo Cão, que será preterido na escolha. Neste é momento, apenas posso conjecturar que colocado em posição semelhante à da mãe, surja D. Diogo, o duque de Viseu, com as mãos juntas, morto pelo rei. Para os outros dois há, entre os navegadores, demasiadas hipóteses. Em cima, aparece um Cardeal ou Arcebispo, morto, poderá ser D. Pedro de Noronha (mas não é de excluir a hipótese de ser Jorge da Costa, morto para D. João II, exilado em Roma). Os bispos podem ser os próximos de D. João II, o de Coimbra, de Tanger e do Algarve, e depois o prior do Crato.
  • (xi) No 5º painel (dito dos Cavaleiros), aparece em destaque o Infante Dom Pedro, o avô materno que foi grande inspirador de D. João II, morto pelo seu pai em Alfarrobeira. Depois deveria aparecer outro infante, o Infante Dom João, mas devendo estar morto, talvez as luvas verdes permitam uma excepção simbólica... permitindo ainda incluir o Infante posterior, o pai da Rainha Dona Leonor, Dom Fernando de Viseu, também morto, e no seguimento desta sucessão aparece o filho D. Manuel, irmão da Rainha e pretendente à sucessão. Por outro lado, seguindo a linha dos primeiros Infantes, mais acima confirma-se dever ser o Infante Santo, morto, e as suas mãos nem são vistas, indicando talvez que não teve o repouso de morte digna. 
  • (xii) No 6º painel (dito da Relíquia), devem estar representados em destaque os dois sábios em que mais confiava D. João II. O físico-mor Mestre Rodrigo (de Lucena) e o matemático Mestre Josepe (José Vizinho, de origem judaica). O mais velho, parece ser alguém representando o conhecimento popular, que não frequenta a corte, e por isso está curvo, tal como dois navegadores no 4º painel. A relíquia, o osso craniano, pode ser uma alusão ao defunto Afonso, indicando a fractura da futura cabeça do reino. Falta a relíquia - o cérebro, para ler tudo o que o painel representa. Falta ainda o cérebro para prosseguir a herança do conhecimento de Avis - é essa a relíquia que o Mestre Rodrigo nos mostra.

A representação dos diversos estratos sociais não é errada. Foram todos habilmente vestidos para que os painéis permitam ainda essa interpretação imediata. O 1º, 3º e 5º painéis representam protagonistas de realeza, contendo figuras de infantes e reis, são os painéis ímpares. Os outros, painéis pares, representam de alguma forma personagens igualmente fulcrais, mas que não tinham ascendência directa na realeza.

O impacto deste retrato de família, promovendo como herdeiro Dom Jorge, para além dos outros detalhes referidos, deve ter sido devastador na facção já dominante na corte, que pretendia ver apenas como solução de sucessão Dom Manuel. Essa sucessão foi mesmo inserida como condição no Tratado de Tordesilhas. Não admira o desaparecimento do pintor, depois do quadro, e finalmente o envenenamento do Rei (bem enfatizado por Garcia de Resende, dadas as circunstâncias...) que ainda assim demorou mais tempo a morrer.



Detalhes



A dualidade Poente-Nascente

Nuno Gonçalves, é um ímpar entre ímpares... e este quadro poderá ter influenciado a "última ceia" de Leonardo da Vinci, que aparecerá poucos anos depois. Estranho?

Os painéis exploram uma dualidade esquerda-direita, i.e. poente-nascente, ou ainda ocidente-oriente!
O mesmo santo, S. Vicente, apareceria ora virado para ocidente, ora virado para oriente!
Mesmo se S. Vicente estiver de fora... será irrelevante, pois o nome tanto poderá resultar de terem ocultado os painéis, como pode ser o nome original, e querer indicar que há dois santos.
Havendo dois santos é natural que possam representar uma dualidade entre São Tiago e São Tomé, ou ainda entre São Jorge e São Bartolomeu... aqui há demasiadas hipóteses!

De facto, não é acidentalmente que há personagens virados para ocidente e outros virados para oriente. E isto não tem a ver com aspectos que promovam a centralidade do quadro... o Infante Santo é o mais claro, e a sua direcção oriental desfavorece essa centralidade:
  • Ocidente - é o lado de D. João II, e do Infante Dom Pedro, e por agora ficamos por aqui...
  • Oriente - é o lado dos que se lhe opuseram, é o lado da gloriosa cruzada contra os infiéis a Oriente, é o lado da guerra na Índia. Será o lado de S. Bartolomeu... ou será coincidência que o nome de quem "dobra" o cabo da Boa Esperança é o - até então - anónimo Bartolomeu Dias... ou será melhor escrever mesmo:
    DIA S   BARTOLOMEU

    e será preciso dizer que o DIA S. BARTOLOMEU se torna um dia repetidamente importante?  Será preciso dizer que S. Bartolomeu é suposto ter pregado o cristianismo na Índia? Será preciso dizer que a tomada de Arzila, crucial para os preparativos da Cruzada, se deu no Dia de S. Bartolomeu? Já não falo do Massacre de S. Bartolomeu, em França... porque isso faz parte de capítulos seguintes. Claro que deve ter havido alguém encontrado, que foi assim rebaptizado, mas isso não foi feito com o devido profissionalismo, e deixou estas dúvidas.

Os painéis exploram assim a ideia de reflexão num espelho, e essa reflexão faz parte da Relíquia do conhecimento nesta obra... mas há um desequilíbrio propositado, tal como na "Última Ceia" de Leonardo de Vinci. Há uma força que se vira para Oriente que é maior do que a força virada a Ocidente. Dada a importância de Portugal à época, enquanto grande potência, convém notar que o problema português está colocado num tabuleiro muito maior. 
Na "Última Ceia", Da Vinci coloca obviamente um só Cristo, que se vira a Oriente, e coloca mais vida numa representação de Andrea del Castagno (... época da morte do Infante Dom Pedro). Em Da Vinci, a centralidade da coluna, atrás no horizonte, é deslocada e Cristo, ao centro, vira-se para o lado que irá dominar, o lado Oriental-Nascente. - É o lado da Cruzada, dos sacrifícios de guerra por Cristo, é o lado da Ordem de Cristo, e tem 8 elementos (inclusivé Cristo). Virado a Poente está João, o lado Evangelista, ao lado de Cristo, mas caído (1495: data atribuída ao início do quadro, morte de João II). Há apenas 5 elementos virados a ocidente, que ou protestam/ou se resignam a mais esta decisão de Cristo. Podem parecer forçadas as comparações, para um posicionamento de reinos e não de figuras nacionais, e por isso não adiantarei mais... já que não me parecem acidentais todas as relações que aparecem na tese do "Código da Vinci", similares nas conexões, mas diferentes no moto e na essência!

Leonor

Acerca de Camões, faltará dizer muito, e não é para já... mas não posso deixar de incluir aqui a descrição que ele faz de Leonor - se o leitor quiser fazer o esforço de se libertar de condicionantes culturais.... deveremos ver Leonor como uma camponesa dos "amores mundanos" de Camões?




À esquerda, a loura e alva Princesa Perfeitíssima, Leonor
Em baixo, o poema de Luís Vaz de Camões

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Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura
Vai fermosa e não segura
Leva na cabeça o pote
O testo nas mãos de prata
Cinta de fina escarlata
Sainho de chamelote
Traz a vasquinha de cote
Mais branca que a neve pura
Vai fermosa e não segura
Descobre a touca a garganta
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado
Tão linda que o mundo espanta
Chove nela graça tanta
Que dá graça à fermosura
Vai fermosa e não segura

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Talvez me esteja a antecipar, Camões não será assim tão óbvio! 
Onde está a fonte? Quem está descalça? Onde está a verdura?.... 

Optar por entender que é Leonor que vai descalça para a fonte... é opção do leitor/comentador.
Retirei as pontuações, pois não tenho acesso ao original. Alguém terá? Fica a cargo do leitor decidir.