sábado, 14 de novembro de 2020

Camara obscura (2) Torre de Ulisses

Há uns anos considerei aqui como a camara obscura e o seu efeito, deve ter estado presente desde cedo na humanidade, e, como se pode ver na página da wikipedia, há registos chineses e gregos, que apontam pelo menos para o Séc.V a.C.

Aquilo que não sabia, até porque é algo que não é muito divulgado, é que na Torre de Ulisses, do Castelo de São Jorge, em Lisboa, foi instalado um dispositivo desse tipo, em 1998, que permite aos visitantes ter uma visão de Lisboa, num disco com mais de 2 metros, permitindo imagens notáveis:


Com efeito o operador pode rodar um espelho, e ajustar o foco da lente (dispositivo da Sinden Optical), que assim pode ser tão eficaz quanto uma vigilância por câmara vídeo:


Estas imagens tirei-as do blog "aprender viajando", que também mostra o tecto, de onde é projectada a entrada de luz para o ecrã. 

Portanto, o dispositivo em termos técnicos não tem nada de especial, mas é impressionante, no que consegue fazer. A razão pela qual esse dispositivo foi instalado numa das Torres do Castelo de S. Jorge, terá a ver com razões turísticas, e seguiu a iniciativa que tinha sido já implementada em Espanha, em Cádis, na Torre Tavira em 1994, após terem visto o dispositivo de David Sinden em Edimburgo.

A Torre de Ulisses, era a Torre Albarrã, chamada Torre do Tombo. Foi aí que foi colocado uma boa parte da documentação mais importante do Arquivo real português, especialmente na altura em que o próprio Castelo de S. Jorge tinha o Paço Real, o que aconteceu até ao início dos Descobrimentos.

Independentemente de ter sido colocado nesta Torre (ao lado, havia a chamada Torre do Observatório), este tipo de dispositivos poderia existir na Idade Média?
A resposta é um inequívoco sim!
Mesmo esquecendo a parte da lente (que existiram desde que há vidro), qualquer orifício que permita a entrada de luz numa sala escura, faz uma camara obscura
As chamadas máquinas fotográficas usavam este princípio, e a única coisa mais complicada, que foi conseguida no Séc. XIX, foi imprimir a luz numa película que fosse foto-sensível.

No entanto, digo claramente que não descarto a possibilidade disso ter sido conseguido muito antes.
Que Leonardo da Vinci usava esse princípio, para fazer os seus quadros, é conhecido, e por tentativa de lhe atribuir tudo, atribui-se também a si este dispositivo, que está totalmente descrito quase 500 anos antes, em obras do astrónomo árabe Alhazem, e mais de mil anos antes, já Aristóteles o referia.

Seria daqueles "conhecimentos proibidos", e porquê?
Bom, porque bastaria a qualquer um saber isto, e poderia ver sem ser visto... Uma casa que tivesse um pequeno orifício na parede, dando para uma sala escura, permitiria ao seu dono entrar, fechar a porta, e ver toda a rua projectada na sua parede. Era bem mais fácil do que estar a espreitar pelo buraco. Portanto, seria algo que reis quereriam guardar para si, e não permitir aos outros. A ideia de usar isso para fazer quadros, conforme dissemos, terá sido usada por Da Vinci, mas será de considerar que muitos outros pintores do Renascimento a tenham utilizado.

Este fenómeno ocorre sempre, por qualquer frincha... simplesmente não é observado porque a luz que vem de outros sítios é mais intensa, e sobrepõe-se. Só não se sobrepõe quando a sala está escura, e não entra mais luz, a não ser a que chega através do orifício. 

Coisas destas são feitas de cartão, e encontra-se no YouTube como o fazer em poucos minutos:

(neste caso é colocada uma lente, para poder entrar mais luz, mas nem isso seria necessário)

Se era possível na Antiguidade conseguir o registo, como foi depois conseguido usando uma emulsão de prata, pois isso já será mais complicado de especular. Mas creio que se a fonte de luz fosse forte, e a exposição fosse sobre uma paisagem imóvel durante horas, poderia causar alguma sensibilidade em cera. Ou seja, não será de descartar que possam existir registos "fotográficos" de há milhares de anos, feitos sobre cera... desde que não tenham derretido ou ardido, é claro.
Mas que necessidade haveria disso, se era mais fácil chamar um pintor, que conseguisse colocar a tinta certa em cima das cores na tela que via? Será como pedir às pessoas que façam o desenho que está à frente dos seus olhos, copiando por cima!

Repare-se que ninguém usa a palavra desenhador... nas diversas línguas europeias, fala-se em pintor.
Fala-se em pintura e não em desenho. Porquê? Bom, se fosse este o caso, na realidade nada havia a desenhar, o desenho era a realidade projectada sobre a tela, pelo que ser tratava apenas de uma questão de pintar por cima, com as cores certas.
Ah, mas se fosse assim, porque razão isso não foi usado na Idade Média? Bom, porque justamente na Idade Média, fazer uma cópia da realidade era quase uma heresia - a de se pretender equiparar a Deus.

Não vou repetir as diversas outras considerações que fiz no postal anterior, mas é ainda de considerar que as torres sem aberturas, como a Torre de Ulisses, ou outras, pudessem servir um propósito de  camara obscura, permitindo uma vigilância sobre a paisagem em redor, sem se vislumbrar qualquer vigilante.


terça-feira, 10 de novembro de 2020

Protocolos serpentinos (6+7)

A ideia que passa quando transcrevo estes Protocolos com mais de um século, é que de facto, já precisam de alguma actualização, embora se mantenham em muitos aspectos actuais.

Por exemplo, aqui ficam umas sugestões:

  • Deve-se manter a ideia de democracia, com todas as suas utopias, porque enebriando o povo, iludindo direitos e garantias, esconde a sua total impotência e submissão.
  • Ao contrário de uma fachada despótica, a fachada democrática mantém o povo motivado para trabalhar para um bem comum, apesar desse bem comum estar na mão de uns poucos.
  • Convém sempre acenar com maiores calamidades económicas, se o trabalho falhar. Nunca se poderá dar a ideia de que o tempo de lazer é uma opção para o povo. No máximo, essa possibilidade de lazer, ou despreocupação financeira, deve ser transferida para a velhice, quando já será inútil. Isso mantém a ideia de que há justiça e um merecido descanso no final.
  • O resultado eleitoral convém ser sempre disputado, dando ideia de que há alguma alteração se o voto for num sentido ou no outro. Como o mecanismo eleitoral é complexo, impedindo uma verificação por cada cidadão, o resultado será sempre o que nós quisermos apresentar, porque só os partidos do sistema teriam possibilidade de o verificar, e esses estão sob nosso controlo.
  • Podem criar-se focos de conflito, desde que estejam sob controlo dos nossos media. Isso anima as notícias, pode dar a ideia de que há uma esperança, num sentido ou noutro, não interessa qual.
  • Convém ter sempre presente que os nossos media são quem decide o que é e o que não é notícia. O que não é notícia, não existe. Se por acaso adquirir uma dimensão que não pode ser ignorada, deve ser minado, expondo um qualquer problema ou podre, que leve à confusão generalizada.
  • Até que seja perdido, o referencial de verdade são sempre os media, que ganharam o estatuto de apresentarem factos. Se isso começar a ser duvidado, apresentem-se polígrafos e outros supostos verificadores de verdade...
  • As redes sociais funcionam como os media, usando uns tantos pivots de informação que a difundem num sentido ou no outro. Convém sempre controlar os dois lados, de forma a que se a população acreditar numa coisa, elegeremos alguém nosso como campeão dessa verdade.
  • As redes de contactos, os ditos "amigos" (do facebook e similares), servem para controlarmos como a informação é difundida - por quem e para quem - isso facilitará toda a manipulação.
  • O medo deve ser sempre doseado, e contrabalançado com esperança. A causa do medo é sempre externa (terrorismo, doenças, catástrofes naturais, etc.), a esperança deve ser controlada para não apresentar logo de seguida a solução. Se a solução for simples, deve ser complexificada, impondo pelo meio problemas artificiais. 
  • As ciências devem ser controladas por uma hierarquia que depende de reconhecimento (prémios e outras benesses), concedidas por nós a quem estiver connosco. O resto deve ser visto como uma bizarria, ciência alternativa, etc. São especialmente perigosas as evidências, e os cientistas honestos, que as queiram explicitar, devem ter uma vida complicada e ser afastados da sociedade. As escolas devem educar para que a palavra da ciência seja vista como palavra divina, substituindo-se ao conceito de Deus. 
  • Os media devem recorrer sempre que possível a analistas, cientistas, etc, para passar uma mensagem mais perceptível. Esses cientistas podem ser incompetentes desde que alinhem connosco. 
  • Perante plateias, ou com perguntas complicadas, esses actores que trabalham sob nosso soldo, como políticos, cientistas, etc, podem recorrer a aparelhos auditivos que lhes dizem o que devem dizer. Fazem um brilharete, porque têm por trás uma equipa competente que os instrui.
  • Pode ser importante criar a ideia na comunidade de que o inimigo são os vizinhos e não o Estado. O Estado procura o melhor bem de todos, mas está condicionado por gente má, que não acata ordens. Isso justifica acções contra um maior número de indivíduos que se mostrem resistentes a acatar as nossas ordens. Este tipo de acções deve ser pontual, para não criar uma ideia de um Estado perseguidor, e deve ser sempre apresentada como solução de recurso.
  • Podem ser toleradas vozes dissidentes, completamente desalinhadas, desde que fiquem isoladas e tenham um efeito marginal no conjunto da comunidade. Servem para dar a ideia de que há uma liberdade de opinião, que todas as opiniões são expressas ou ouvidas. Servem para entreter os descontentes na sua inutilidade, e nem se apercebem disso. Passando esse limite, de comichão suportável, devem ser silenciadas.
  • Etc, etc, etc...

No Protocolo nº 7 que aqui apresentamos, fala-se da possibilidade de uma guerra mundial, quando algumas nações desafiassem o poderio judaico. Convém relembrar que não é claro se o protocolo teve origem nos judeus, ou na aristocracia russa, que os queria inculpar, livrando-se da pressão popular que descambou na Revolução Bolchevique, provavelmente organizada por sectores judaicos ou maçónicos.

Ora, este protocolo foi escrito 10 anos antes da 1ª Grande Guerra, e há quem veja aqui uma previsão ou antecipação do que foi essa guerra. Por duas vezes a Alemanha foi geradora de animosidade anti-semita e por duas vezes apanhou com uma Guerra Mundial em cima. O protocolo estabelecia que se fosse uma só nação, bastariam acções terroristas, mas no caso da Alemanha, até porque arranjou aliados, a coisa complicou-se, levando à acção de outros estados, e às Guerras Mundiais.

Batalha do Canal de St Quentin - o Brigadeiro-General John Campbell dirige-se às tropas


Protocolo nº 6 - (Take-over)
Convém relembrar que o tempo presente deste discurso é 1903-05, quando foi publicado.

  • Em breve vão estabelecer imensos monopólios, reservas de riquezas colossais, de que as grandes fortunas "goyim" [não-judaicas] dependem de tal forma, que cairão ao mesmo tempo que o crédito dos Estados, no dia seguinte ao seu esmagamento político.
  • Pergunta aos economistas na reunião para estimarem o significado daquela junção.
  • Diz que o Super-Governo sionista terá que aparecer como Protector e Benfeitor de todos os que se submeterem voluntariamente.
  • Argumenta que a Aristocracia "goyim" enquanto força política, está morta e nem precisa de ser considerada, mas enquanto proprietária de terrenos pode ser perigosa, porque é auto-suficiente. Diz que é imperioso tirar-lhes a terra. Para esse fim devem impor encargos sobre as terras, trazendo dívidas, de forma a colocar os proprietários sob submissão. Acrescenta facilidade, resultante dos Aristocratas serem hereditariamente incapazes de se contentar com pouco.
  • Ao mesmo tempo, repete que devem favorecer o comércio e a indústria, mas acima de tudo, devem favorecer a Especulação, para contrapor à indústria. Argumenta que a ausência de indústria especulativa iria  multiplicar o capital em mãos privadas e serviria para restaurar a agricultura, libertando a terra da sua dívida aos bancos. Diz que o que pretendem é que a indústria extraia da terra trabalho e capital, através da Especulação, para passar para controlo sionista todo o dinheiro do mundo, metendo como proletários todos os não-judeus. Conclui que assim os "goyim" terão que se curvar perante si, para terem o direito a existir.
  • Para completar a ruína da indústria "goyim", recorrerão ao Luxo em complemento à Especulação, porque a ganância pelo Luxo engolirá os "goyim". Argumenta que irão aumentar os salários, o que nada trará de benéfico aos trabalhadores, porque aumentarão os preços dos bens essenciais, dizendo que resulta do declínio da agricultura. Irão minar as fontes de produção habituando os trabalhadores à anarquia e bebedeira, e com isso fazendo desaparecer todas as forças educadas dos "goyim".
  • Para que o verdadeiro significado das coisas não transpareça antes de tempo, vão mascarar o assunto como um ardente desejo de servir as forças trabalhadoras, e sob a capa de teorias económicas, a que se esforçam por dar propaganda.

Protocolo nº 7 - ("Guerras Mundiais")
Convém relembrar que o tempo presente deste discurso é 1903-05, quando foi publicado.

  • Diz que a intensificação dos armamentos e o aumento das forças policiais, tudo isso é essencial para completar os planos explanados. O seu objectivo final é que em todos os Estados do mundo exista apenas a massa proletária, e uns poucos milionários devotos, servindo os seus interesses, com polícia e soldados.
  • Enuncia que devem criar o fermento da discórdia e hostilidades nas nações Europeias e colónias. Assim põem todos os países em cheque, porque as nações sabem que têm o poder de criar desordem ou retomar a ordem, coisa que já se acostumaram a ver. Depois usam as linhas políticas que os ligam aos Gabinetes dos Estados, através de tratados económicos e dívidas. Devem ser ardilosos nas negociações e tratados, mas no que diz respeito à "linguagem oficial" devem usar o oposto, e aparecer com a máscara da honestidade e complacência. Assim, os povos e governos dos "goyim", que os judeus ensinaram sempre a olhar para a casca e não para o interior, vão continuar a aceitá-los como benfeitores e salvadores da raça humana.
  • Devem estar numa posição de responder a qualquer oposição por guerra com os vizinhos desse país, que se atrever a uma oposição. Se esses vizinhos também se opuserem, então deve-se responder com uma guerra universal.
  • Argumenta que o principal factor de sucesso na diplomacia é o segredo do empreendimento - as palavras e as acções do diplomata nunca devem coincidir.
  • Devem forçar os governos "goyim" a tomar acções nas direcções do seu plano, quase completo, no qual vão aparecer como representantes da "opinião pública" através da Imprensa - o Grande Poder - que aqui anunciava estar completamente sob controlo, salvo excepções insignificantes.
  • Em suma, para manter em cheque os governos "goyim" da Europa, respondemos a um com acções terroristas, e a todos com as armas da América, da China ou do Japão.


sábado, 7 de novembro de 2020

Trump show

Uma das mais famosas imagens acerca das eleições presidenciais americanas ocorreu em 1948, quando jornais se apressaram a declarar como vencedor o candidato Thomas Dewey, contra o presidente Harry Truman. No dia seguinte, vemos Truman sorrindo com o erro do Chicago Daily Tribune:


O erro do Chicago Tribune foi natural, avançando uma previsão baseada em sondagens e nos primeiros resultados, para a edição da manhã sair já com um vencedor declarado. Comprometeu definitivamente a credibilidade do jornal, que comemorava um século de história.

Para a posterioridade, Truman quis deixar registado esse erro, de falar antes do tempo!

A fotografia é extremamente curiosa pois o nome Truman aparece cortado neste plano, e vê-se apenas TRUM, o que poderia dar agora igualmente para Trump, mudando as 5 letras de Dewey para Biden.

Não é a imprensa que declara o vencedor, podendo fazer tudo para condicioná-lo. 
Haverá certamente pupilos do sistema prontos a apressar-se na mesma congratulação, sentindo-se no dever de respeitar a ordem internacional. Assim, não será pequena a lista dos interessados em dar o seu apoio a um Biden eleito pela imprensa:
e é claro que a União Europeia seria a primeira da fila.
Mas também há Bolsonaro, Kim Jong Un e Vladimir Putin, e não será por esses darem os parabéns, a quem quer que seja, que isso faz o dito cujo eleito.

O que se segue é uma prevista batalha judicial, onde os juízes do Supremo Tribunal contam já com uma pressão acima do normal, para deliberarem acerca do recorde de 100 milhões de votos por correspondência, na sua maioria atribuídos a Biden.
O dobro da votação por correspondência (em 2016 foram "apenas" cerca de 50 milhões), teve uma justificação conveniente - a Covid. Nada mais natural, portanto.

Porém, ainda que sejamos todos instruídos que as "teorias da conspiração" são todas fantasia, porque como é natural, nunca existiram conspirações no mundo, há algumas coisas que esses juízes vão ter que avaliar... e, mesmo atendendo à pressão descomunal, que vai ser exercida, neste momento, eu olho para o jornal que Truman exibe.

E se muitos de nós lembram o Truman Show, será de considerar a sofisticação do sistema em optar por revelar ou esconder o seu Trump Show. Caso contrário, estaremos no ground zero do desplante despótico. De Biden todos esperam o óbvio - que nem sequer esboce a ideia de que governa, ainda que a sua governação aparente possa ser muito efectivamente assustadora.

domingo, 1 de novembro de 2020

Descobrimentos em diversos anos e tempos (7)

Continuamos, a transcrição do livro de António Galvão.
Nesta parte entre os anos de 1509-11, é especialmente intrigante esta citação que destaco: 

Avante destas ilhas dizem que há outras de gentes mais alvas que andam vestidas de camisas, gibões, e ceroulas como portugueses, e têm moeda de prata; os que governam a República, trazem nas mãos varas vermelhas, por onde parece que devem de ser da China, e não tão somente estes, mas há por aqui outras de gentes pintadas, que dizem ser dos Chins povoadas.

Quem andaria vestido como portugueses, em paragens da Nova Guiné, ou mais além?

Galvão avança com chineses, pelo hábito de trazerem na mão varas vermelhas, mas o hábito de trazer nas mãos varapaus era também coisa muito europeia. Já as gentes pintadas, seriam facilmente ligadas ao hábito das tatuagens maoris e similares.
O texto aqui citado foca o ano de 1511, quando Afonso de Albuquerque depois de conquistar Malaca envia Duarte Fernandes à Tailândia (Sião, Muantai com "Tai" de Tailândia), Rui Nunes da Cunha à Birmânia (Pegú), e António de Abreu parte para as ilhas de Sumatra, Java, e restantes até avistar as ilhas Molucas. Sobre este assunto, Galvão não levanta dúvidas e diz, relativamente a 1511-12:
  • António de Abreu fez seu caminho [de regresso] para Malaca, deixando descoberto todo aquele mar, e terra nomeadas.
Galvão menciona ainda Francisco Serrão, um elemento importante na iniciativa para a viagem de Magalhães (talvez seu primo), mas hesita até em nomeá-lo como português, dizendo que foi o primeiro entre os "espanhóis" a ver a ilha do cravo. A designação Hispânia incluía Portugal, por isso era usada, até ser apropriada por Castela.
O problema é que Francisco Serrão após ter naufragado, ficou ao serviço do sultão da ilha de Ternate, nas Malucas, e morreu pouco antes de Magalhães se querer juntar a ele. Na realidade morreram perto um do outro: Serrão em Janeiro/Fevereiro nas Molucas, Magalhães em Abril de 1521, nas Filipinas.
O plano de Magalhães seria aproveitar a boa influência de Serrão na corte do rei de Ternate, para ter esse rei a negociar com Carlos V, ao invés de estar sujeito ao domínio português na área.

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DESCOBRIMENTOS 
em diversos anos & tempos, 
& quem foram os primeiros que navegaram.
por António Galvão (1563)

continuação de (6) e (5) (4) (3) (2) (1)
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No ano de 1511, e mês de Abril partiu Afonso dalboquerque [de Albuquerque] da cidade de Cochim para Malaca, e neste mesmo ano e mês de Julho foram os Chins de Malaca para a sua terra, e mandou Afonso de Albuquerque com eles a Syão [Sião] um português que se chamava Duarte Fernandes com cartas, e recado a el rey dos Muãtais [Thai Mueang], que agora chamamos Sião ao Sul, ao longo da terra passaram pelo Estreito de Sincapura [Singapura], e tomaram a Norte correndo aquela costa de Panpatane [Pan Patane], até à cidade de Cuy, e dela ao Dia [Bangcoc], que é cabeça deste reino, que estará até quatorze graus de altura [Bangcoc está a 13º30']. El rey fez a Duarte Fernandes, por ser o primeiro português que vira, muita mercê e honra, e mandou com ele embaixadores, a Afonso de Albuquerque, atravessaram pela terra a Loeste a cidade de Tanasarim, que está no mar da outra banda em doze graus, embarcados em dois navios se vieram ao longo da costa até à cidade de Malaca, deixando-a toda vista, segundo alcançam os que vão por mar ao longo da terra.

João de Lisboa. Referências sublinhadas:
Malaca (de onde sai a bandeira portuguesa), Pedra Branca (Singapura), Patane, Siam (Bangcoc), Camboia (Camboja).

A gente deste reino de Syão é gentia, come toda alimária, bicho, pescado que a terra e água produzem, prezam-se de trazer cascavéis em suas naturas (a el rey, e religiosos é vedado); e dizem que são dos mais virtuosos e honestos que há na redondeza, prezam-se muito de castidade e pobreza; em sua casa não criam galinha pomba, nem outra coisa fêmea. Terá este reino duzentas e cinquenta léguas em comprido, e oitenta de largo, fora os que lhe obedecem. Deste só reino põe el rey em campo trinta mil elefantes de guerra, fora os que lhe ficam nas cidades por guarda; tem um branco em grande estima, e outro ruivo de olhos que escamecham, como fogo. Há nestas terras hum bicho pequeno, que se lhe pega na tromba, e os ensanguenta até que os matam, tem a concha tão dura, que um arçabuz o não passa, e cria nos fígados uma figura de homens, ou mulheres a que chamam toqta [toqueta], que é como mendracola, e quem as traz consigo, dizem que não podem morrer a ferro, e nas cabeças de vacas bravas acham-se pedras mui ditosas para mercadores.

Depois de Duarte Fernandes ir aos Mantuis [Muantais, tailandeses], mandou Afonso de Albuquerque um cavaleiro que se chamava Ruy Nunez da Cunha [Rui Nunes da Cunha] com cartas, e embaixada ao Rei dos Sequis, que nós chamamos Pegus [Pegu, Birmânia]; foi num junco dos da terra ao longo dela, à vista do cabo rachado, e daí à cidade de Perá, e aquém da Iunsalão [Phuket], e outras muitas povoações que jazem ao longo desta ribeira, por onde já Duarte Fernandes viera, até à cidade de Tanasarim, e de Bartabão [talvez Abaw, Birmânia], que está em quinze graus da parte do Norte, e à cidade de Pegu em dezassete. Este foi o primeiro português que trilhou aquele reino, e deu informação da terra, e de como traziam cascavéis como os Muantais.

No fim deste anno de 511, mandou Afonso de Albuquerque tres navios às ilhas de Banda, e Maluco [Molucas] e por capitão-mor deles António Dabreu [de Abreu], e um Francisco Serrão: iam neles cento e vinte pessoas, porque não foram mais velas, nem homens ao descobrimento da Nova Espanha com Christouam Columbo, nem com Vasco da Gama à India, porque Maluco depois destes não é menos em riqueza, nem se deve de ter em menos estima, foram pelo Estreito de Sabam ao longo da ilha de Samatra, e à vista de outras que ficam da mão esquerda contra o Levante que chamam dos Salites, até às Ilhas de Palimbão, Lusuparam, donde atravessaram pela nobre ilha da Iaoa [Java], foram a Leste correndo sua costa, por entre ela, e a ilha da madeira. A gente desta ilha é mais belicosa, e que menos tem em conta a vida que se sabe na redondeza, e dizem que as mulheres ganham soldo pelas armas, e por qualquer coisa se desafiam, e matam uns a outros, como se fazem a Mocos, e inventa pelejarem galos com navalhas, porque o principal seu desenfadamento e languiolento.

Além desta ilha da Iaoa, vão ao longo doutra que se chama Balle [Bali], e outra logo (que se diz) Anjano, Simbaba, Solor, o Galao, Mauluoa, Vitara, Rosolanguim, Arus, donde vêm os pássaros mirrados, que são muito estimados para penachos, e outras que jazem nesta corda da parte do Sul, em sete ou oito graus de altura, e tão juntas umas com as outras, que parece toda uma terra.
Haverá nesta derrota mais de quinhentas léguas: os cosmógrafos lhes chamara as Iaoas ainda que agora têm nomes diferentes como aqui vedes. Avante destas ilhas dizem que há outras de gentes mais alvas que andam vestidas de camisas, gibões, e ceroulas como portugueses, e têm moeda de prata; os que governam a República trazem nas mãos varas vermelhas, por onde parece que devem de ser da China, e não tão somente estes, mas há por aqui outras de gentes pintadas, que dizem ser dos Chins povoadas.


Batu Tara ou Batutara será o corrente nome da ilheta Gumuapé avistada por António de Abreu

António de Abreu, e os que com ele iam, tomaram uma derrota contra o Norte duma ilheta que se chama o Gumuapé: porque do mais alto dela corre sempre, e de contínuo até o mar ribeiras de fogo, coisa muito para ver. Daqui foram à ilha de Burro, e Damboino, e costearam a costa daquela que se chama de Muar Damboino [de Amboíno], surgiram num porto, que se diz Guli Guli, saltaram em terra, tomaram uma povoação que ali estava, e acharam nas casas homens mortos dependurados: porque comem carne humana, onde queimaram a nau em que ia Francisco Serrão por ser já velha, e foram ter à Banda que está em oito graus da parte do Sul, donde carregaram de cravo, noz e maça, e um junco que Francisco Serrão aqui comprara. 
Dizem que não muito longe deltas ilhas de Banda há uma em que se não cria senão cobras, e as mais numa cova que tem no meio, umas grandes, e outras pequenas, andam sempre enroladas, mas não se deve de haver por muito, tanto como os da terra, fazendo disto espanto pois os nossos deixaram escrito que junto das ilhas de Mayorca, e Menorca, havia uma que se chamava Euturia, em que havia muita quantidade destas bichas, não as havendo em todas as outras ilhas junto com elas.

No ano de 1512. partiram de Banda para Malaca, e nos baixos de Lulupino, se perdeu Francisco Serrão com o seu junco, donde se tornou à ilha de Midanao com ix ou x (9 ou 10) portugueses que com ele iam, e os reis de Maluco mandaram por eles: estes foram os primeiros Espanhóis que viram as ilhas do cravo, que jazem da Linha contra o Norte em um grau, onde estiveram sete, ou oito anos. António de Abreu fez seu caminho para Malaca, deixando descoberto todo aquele mar, e terra nomeadas.

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Outro vulto da literatura portuguesa, Luís de Camões, alguns anos mais tarde, no Canto X, expressa uma descrição algo semelhante... mas note-se o detalhe de puxar o assunto de que havia memória de Malaca estar ligada a Sumatra:

(...)
Mais avante fareis que se conheça
Malaca, por Império enobrecido,
Onde toda a província do mar grande,
Suas mercadorias ricas mande.

Dizem que desta terra com as possantes
Ondas o mar entrando dividiu,
A nobre Ilha Samatra, que já dantes
Juntas ambas a gente antiga viu.
Chersoneso foi dita; & das prestantes
Veias de ouro, que a terra produziu,
Aurea, por epíteto lhe ajuntaram,
Alguns que fosse Ophir imaginaram.

Mas, na ponta da terra Cingapura
Verás, onde o caminho às naus se estreita,
Daqui tornando a Costa à Cynosura,
Se encurva, & para a Aurora se endireita.
Vês Pam, Patane, reinos, & a longura
De Syão, que estes e outros mais sujeita;
Olha o rio Menão, que se derrama
Do grande lago que Chiamay se chama.

Vês neste grão terreno os diferentes
Nomes de mil nações nunca sabidas,
Os Laos em terra & número potentes,
Avâs, Bramàs, por serras tão compridas;
Vê nos remotos montes outras gentes,
Que Gueos se chamam de selvagens vidas,
Humana carne comem, mas a sua
Pintam com ferro ardente, usança crua.

Vês passa por Camboja Mecom Rio,
Que capitão das águas se interpreta
(...)

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

dos Comentários (72) Magalhães e a carta Hazine

Este assunto foi trazido pelo Djorge em resposta a um comentário de João Ribeiro, e também por email.

A carta Hazine nº1825, está no Museu Topkapi, em Istambul, e é provavelmente de autoria dos Reinel, do pai Pedro Reinel, ou do filho Jorge Reinel. Na sua generalidade apresenta-se assim:


Mas interessa especialmente a parte em que tem o contorno sul americano, pois evidencia o conhecimento das Ilhas Malvinas (ou Falkland) aqui destacadas com um círculo vermelho (mapa do site Malvinas-Falkland.net)


Na Portugaliae Monumenta Cartographica (PMC) a atribuição é feita a Pedro Reinel, em 1521, na sequência das informações trazidas por Estevão Gomes, que havia desertado. No entanto, na PMC é mencionada outra hipótese de M. Destombes, que invocava a possibilidade de esta ser a carta do próprio Magalhães. Argumenta-se que o estreito não está completo, e o que está escrito a vermelho, ao longo da costa é
  • hesta terra descobrio fernãdo de magalhães
Poderá ser inscrição posterior, e D. Couto (Anais de História Além-Mar, XX, 2019) avança uma possibilidade de se tratar de carta feita por Jorge Reinel, levada por Magalhães, e que Antonio Pigafetta teria entrado ao serviço do Império Otomano!

(...) fut vraisemblablement fabriquée par Jorge Reinel en 1519 et apportée à Istanbul par Pigafetta, l’un des dix-huit survivants du voyage de Magellan. Pigafetta déserta le camp chrétien peu de temps après son retour en Espagne, le 18 octobre 1522 ; il gagna l’Empire ottoman probablement après août 1524 et alla offrir ses services à Soliman le Magnifique (...)" 

ver também de Dejanirah Couto Em torno do globo: Magalhães, Pigafetta e a carta Hazine 1825

Em opinião de poder ser mesmo anterior a 1519, está Djorge que adiantou:

A dificuldade em conseguir uma resolução suficientemente boa para ler a toponimia, tb corrobora com a duvida se ela não será até anterior a 1519. 

De facto, esta é uma observação importante, porque tem todos os nomes indicados até ao Rio da Prata, e a partir daí, ao longo da costa da Argentina não aparece um único nome, excepto a menção que já referimos sobre a descoberta de Magalhães, mas que parece ser adição posterior.

Ora, ainda que a hipótese na PMC faça sentido, pois as informações de Estevão Gomes seriam recentes, isso não justificaria que não soubesse ou mencionasse os nomes com que haviam designado os diversos sítios onde tinham estado, nomeadamente o Porto de S. Julião e o Porto de Sta. Cruz, onde tinham invernado durante longos meses.

Teria sido esta a carta que Fernão de Magalhães teria usado, e que depois ficou na posse de Pigafetta, indo parar a mãos turcas? Bom, aqui é de duvidar que fosse a que indicava o Estreito, porque nela não encontramos essa passagem, parecendo mais sugerir uma possibilidade de contornar o Cabo Horn.

Em postal anterior, onde em comentário, Djorge já tinha sinalizado esta carta Hazine, parece-nos claro que a chamada carta de Piri Reis, é muito parecida, com as cartas de Reinel ou Lopo Homem no Atlas Miller:

Acresce, no entanto que, ao contrário de Piri Reis, o Atlas Miller tem mesmo uma possível continuação por um estreito... mesmo estando numa cartografia deformada, alargada a um continente antárctico.

Parece-me que há múltiplos factores que apontam no sentido de não haver grande dúvida que os portugueses tinham chegado ao extremo sul do continente americano, muito antes de Magalhães, e segundo Pigafetta, Magalhães era o primeiro a reconhecê-lo.
O que os impediria? Continuo a pensar que poderá ter sido Diogo Cão com Martin Behaim, ou João Afonso do Estreito com Fernão Dulmo, a explorarem esta parte sul. Mas sem outros dados, essa nomeação concreta mantém-se uma simples suposição.

Ainda mais concreto, é a referência ao mapa que o Infante D. Pedro trouxe, cem anos antes, e que mencionava a "Cauda do Dragão", a tal Draco Cola, na versão mais popular, Coca Cola.


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Coreomania, epidemia dançarina

Coreomania, ou epidemia dançarina, foi um distúrbio mental ou físico que ocorreu na Idade Média, com casos reportados do Séc. VII ao XVII. Uma das histórias mais bem conhecidas passou-se em 1518 em Estrasburgo, quando uma mulher de nome Troffea começou a dançar sem parar, sem razão aparente.
Esta dança errática, mas não caótica, foi contaminando jovens, e muitos outros, até se estimarem centenas de pessoas dançando sem parar, nas ruas de Estrasburgo... até que foram hospitalizados, contando-se também que alguns teriam morrido por exaustão.


Pieter Brueghel (filho) reportou o fenómeno da coreomania.

Um tema que me pareceu importante rever, dadas as circunstâncias de paranóia impostas top-down, seria o de perceber como reagia a população em tempos de pandemia, nomeadamente, aquando da peste negra. 
Este caso da Frau Troffea, e da multidão dançarina que arrastou em Estrasburgo, não ocorre numa altura de peste, mas sim numa altura de fome... onde se suspeita que podem ter existido casos de intoxicação de ergotismo (que esteve na origem da síntese do LSD em 1943), causado pelo esporão-do-centeio, um fungo parasita do cereal. Isso causava alucinações, mas era especialmente notado pelas convulsões e gangrena associadas.

No entanto, a presença desta Coreomania tem um importante registo após a Peste Negra, em 1374, na Alemanha e Países Baixos - ver The Epidemics of the Middle Ages de J. F. C. Hecker, especialmente o capítulo "Dancing Mania in Germany and the Netherlands". 

Teve ocorrências anteriores, nomeadamente em 1237, envolvendo uma centena de crianças, que seguiram dançando sob a música, de Erfurt a Arnstadt, até caírem por exaustão... algo que poderá estar na origem da lenda do Flautista de Hamelin, que depois de encantar os ratos (responsáveis pela peste), e não se ver recompensado, encantou as crianças de Hamelin. 
Em 1278, em Utrecht, numa ponte, também cerca de duzentas pessoas dançando erraticamente em cima da ponte teriam levado ao colapso da estrutura, e ao seu afogamento.

Para além da possível relação com intoxicação pelo fungo, há quem suspeite de estímulo coordenado, ou resposta emocional imposta pelas dificuldades na Idade Média. Ou seja, não é muito claro qual será a resposta de uma população quando é encostada a um certo limite psicológico, e se nalguns casos poderá dever-se a eventual intoxicação, a adesão contaminante poderia ser um fenómeno social de libertação, exteriorizado da opressão para a dança. Em resposta a um comentário de João Ribeiro, brinquei que os "viras" poderiam ser uma alusão ao latim  "virus", dado que essa palavra latina declina em "viro", referente a veneno ou cheiro putrefacto. A coreografia da dança invocando trocas de par, mãos levantadas, e muito rodopio político, não deixa de poder ter outras leituras.

Peste negra e os judeus
No entanto, a resposta da população ao problema viral, causado pela Peste Negra, não deixou de ter outras componentes, mais ou menos expectáveis - os judeus!

No referido livro de Hecker, sobre a Peste Negra, há um capítulo sobre "Moral effects", e os efeitos morais, para além de um notado isolamento das pessoas, acompanhada por alguma solidariedade cristã, peregrinações de uns certos "Flagelantes" e da "Irmandade da Cruz", teve também os judeus como alvo, suspeitos de envenenarem os poços, e trazerem o mal. Fala em 12 mil judeus mortos em Mainz (Mayence), pois estes teriam inicialmente conseguido resistir, o que levou depois ao seu extermínio por acção dos cristãos com os "Flagelantes".
A wikipedia resume assim o início dos massacres contra os judeus:

"The first massacres directly related to the plague took place in April 1348 in Toulon, Provence where the Jewish quarter was sacked, and forty Jews were murdered in their homes; the next occurred in Barcelona. In 1349, massacres and persecution spread across Europe, including the Erfurt massacre, the Basel massacre, massacres in Aragon, and Flanders. 2000 Jews were burnt alive on 14 February 1349 in the "Valentine's Day" Strasbourg massacre, where the plague had not yet affected the city."

Portanto, uma das coisas em que convém haver algum cuidado, é numa certa percepção conspirativa de que os judeus são agentes financeiros, que lucram por trás de qualquer desgraça, e a Covid-19 não será excepção. Daí até serem apontados como suspeitos do costume... é apenas um passo, onde é fácil ver para onde os podem querer empurrar, certas tendências conspirativas de extrema direita.

São tempos de crendice, de muito rodopio, onde aqueles que parecem querer defender os nossos pontos de vista, são depois usados e manipulados no sentido oposto. E nesse vira dançarino, onde os governos optam pelas soluções de navegação à vista, sempre invocando cautela face à ignorância, mas recorrendo à mesma ciência ignorante, é aí que poderemos assistir a mais uma daquelas tragédias históricas, vivida nesta situação como testemunhas presenciais.

É daquelas situações em que muitos governantes gostariam de se poder desculpar com a resistência da população, mas ao invés disso, são pressionados a fazer pior, porque as populações amocham, e vão aceitando praticamente tudo... e não tendo desculpa para travar, só lhes resta passar por cima (para evitarem eles próprios serem cilindrados).

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Fernão de Magalhães (3) pouco viral

Em 21 de Outubro de 1520, passam 500 anos, Fernão de Magalhães avistou a entrada no Estreito.
Conforme temos referido, não se passa nada, o que interessa são contas virais, soma e segue...

Demorou 3 dias, do Porto de Santa Cruz, onde estivera a invernar desde que saiu do Porto de S. Julião, a 23 de Agosto, a um ou dois dias de viagem. Ficou 2 meses parado, mas caso tivessem feito aquele percurso pela praia a pé, nem teriam demorado uma semana.

Ao cabo que define a entrada do estreito chamou das "Cabo das onze mil virgens", e ao estreito que ficou com o seu nome chamou "Estreito de Todos os Santos"... nomes apropriados, porque houve certamente muitos santos e virgens que por ali deixaram o seu suor e sangue, sem rasto histórico ter ficado da sua passagem.

Uma saída natural do estreito seria seguir para sul, pelo canal Magdalena, algo que encarregou a Estevão Gomes de fazer, ao que este achou por bem desertar e regressar a Espanha, conforme já mencionámos.

Durante um mês esteve provavelmente a procurar saídas viáveis, a cartografar, bom, creio que não se saberá muito bem, mas é depois suposto ter tomado a rota mais natural que lhe permitiu sair daquele labirinto de ilhas e entrar no Oceano Pacífico. Ficam aqui algumas das imagens do que poderá ter vislumbrado durante esse percurso... e pouco terá mudado:

Imagem do farol em Punta Dungeness - o Cabo das 11 Mil Virgens.

Em baixo, diversas imagens dentro do Estreito de Magalhães no Google Maps:



Há 10 anos atrás, disse e continuo a achar plausível, que Magalhães poderia também estar numa missão para apagar vestígios de presença portuguesa, ou outra, naquelas paragens. Ainda que se justifique a paragem à beira do Estreito, chegaram a Porto de São Julião a 31 de Março, portanto estão mais de 6 meses à boca do estreito, quase sem se mexerem. Quando saem de São Julião vão para o Porto de Santa Cruz que está a pouca distância, a um ou dois dias de navegação.

Tudo indica que Magalhães sabia que o Estreito era ali, conforme Pigaffeta diz, tinha isso assinalado em mapa, mas chegou justamente na pior altura, do inverno sul-americano. 

Creio que esses 6 meses em terra tiveram outro propósito, e levava portugueses suficientes para o fazerem. Esse propósito seria eliminar eventuais traços deixados, como padrões ou outras decorações, que aí tivessem ficado, de viagens portuguesas, ou ainda anteriores. 

Foi ainda durante este tempo que Magalhães teve contacto com os "Patagões", que dariam nome à Patagónia. Estes gigantes que Buffon dizia não se poder duvidar que existissem, desapareceram, para que também ninguém pudesse acreditar que tinham existido.

Mas toda esta situação, repetida incessantemente na História, tem levado a resultados nulos, ou perto disso, porque a população é completamente afastada de qualquer dúvida, porque quem determina o controlo está apostado em mostrar que não pode ser doutra forma. 

Dou um exemplo... em 30 de Junho de 2014 fiz um aditamento à Wikipedia inglesa onde juntei o seguinte no Estreito de Magalhães (também juntei na Wikipedia portuguesa, onde não houve alterações):

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Accounts before Magellan

It was reported by António Galvão in 1563 that the position of the Strait of Magellan was previously mentioned in old charts as Dragon's Tail (Draco Cola):[1]

... he (Pedro) brought a map which had all the circuit of the world described. The Strait of Magellan was called the Dragon's Tail; and there were also the Cape of Good Hope and the coast of Africa. ... Francisco de Sousa Tavares told me that in the year 1528, the Infant D. Fernando showed him a map which had been found in the Cartorio of Alcobaça, which had been made more than 120 years before, the which contained all the navigation of India with the Cape of Good Hope. - Galvano - | Discovery of the World, sub ann. 1428.

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Esse aditamento foi entretanto modificado (sublinho a amarelo)... mas vá lá, ficou a parte principal. Vejamos como está agora:

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Accounts before Magellan

There is no historical evidence of the knowledge of the strait prior to the Spanish expedition of Ferdinand Magellan [14]. In 1563, António Galvão reported that the position of the strait was previously mentioned in old charts as Dragon's Tail (Draco Cola):[a]

[Peter, Duke of Coimbra] brought a map which had all the circuit of the world described. The Strait of Magellan was called the Dragon's Tail; and there were also the Cape of Good Hope and the coast of Africa. ... Francisco de Sousa Tavares told me that in the year 1528, the Infant D. Fernando showed him a map which had been found in the Cartorio of Alcobaça, which had been made more than 120 years before, the which contained all the navigation of India with the Cape of Good Hope. [16]

Although this would suggest that the strait was mentioned in maps before the Americas were discovered by Europeans, the claim has been considered dubious.[14][b]

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As referências a [14] trata-se de um artigo "South America on Maps before Columbus? Martellus's ‘Dragon's Tail’ Peninsula" de William A. R. Richardson (2003), que visa apenas um mapa de Martellus e só o nome "Dragon's Tail" tem em comum com a referência de Galvão. Deixo o resumo do artigo:

Abstract: Henricus Martellus's four world maps of c.1489 show a non‐existent Asian peninsula east of the Aurea Chersonesus (the Malay peninsula). For some decades a group of scholars in Latin America has been claiming that this so‐called ‘Dragon's Tail’ peninsula is really a pre‐Columbian map of South America. In this paper, the cartographical and place‐name evidence is examined, showing that the identification has not been proved, and that perceived similarities between the river and coastal outlines on this ‘Dragon's Tail’ peninsula and those of South America are fortuitous. Ptolemy's depiction of an enclosed Indian Ocean was invalidated when Bartolomeu Dias rounded the Cape of Good Hope. Consequently, a year or two later, Martellus adapted the east Asian section of Ptolemy's world map, providing China with an east coast and turning the southward extension of Asia into a peninsula. The non‐Ptolemaic place‐names on these maps were derived from Marco Polo's writings.

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Vou fazer o quê?
Vou-me chatear pelo facto de alguém querer manter as aparências da versão oficial?
Claro que não...  Porquê?

- Porque um mundo em que a mentira e contradição se sobreponham à verdade e consistência, tem os dias contados. Mesmo que todos os dias provem que não, que é possível manipular todos até à exaustão, o que interessa a opinião de parasitas virais, face ao universo em que se inserem? 
Sim, os vírus parasitam o hospedeiro, mas o seu maior sucesso não é na morte dele que levará à morte dos próprios, o seu maior sucesso é reduzirem-se a uma certa insignificância, que garantirá a sobrevivência de ambos... e de preferência, sem que o hospedeiro perceba que está a ser parasitado.

domingo, 18 de outubro de 2020

Protocolos serpentinos (5)

Continuamos com os protocolos... denunciados por Serge Nilus em 1903-05, e que revelariam os passos de um plano judaico, sionista, para domínio do mundo. Ou, numa hipótese oposta, revelariam um esquema de culpar os judeus, por planos efectivos que estavam na cabeça da aristocracia russa.

Com o advento da segunda vaga, a população europeia começa a perceber melhor o significado do vírus. A palavra COVID não é nova, já existiu como unidade de medida no Oriente... na China, em particular:


Este é um trecho do livro Foreign Measures and their English values de Robert Carrington (1864), onde se percebe que Covid era um "pé chinês". No entanto a medida "Covid" era muito colonial, aparecia também na Índia, Indonésia, Malaca, etc. Poderia ser uma variante fonética do "côvado", uma antiga medida, representando um antebraço.

Em termos de abreviaturas Covid, como COrona VIrus Disease, faria mais sentido ser Covidis.
Bom, e se Quo Vadis é "para onde vais?", Quo Vidis, será mais "até onde vês?"...

5º Protocolo (Despotismo e Progresso)

  • Que forma de administração pode ser dada a comunidades minadas por corrupção? Onde a moralidade é apenas mantida por medidas penais, pois não há princípios respeitados de forma voluntária? A resposta é um despotismo que se propõe explicar. Desde logo anuncia que o governo será centralizado, para manter sob seu poder a força comunitária. A vida política será determinada por novas leis. Essas leis vão tirar uma a uma, todas as liberdades aos "goyim" (não-judeus). Reclama que o despotismo será tal, que em qualquer instante podem fazer desaparecer qualquer "goyim" que se oponha por actos ou palavras. A quem argumentar que o despotismo de que fala não é consistente com o progresso, ele pretende mostrar o contrário.
  • Acrescenta que antes as pessoas também olhavam para os reis como sendo a manifestação de vontade divina, mas eles induziram na população um olhar diferente, tornando os reis meros mortais, ao mesmo tempo que roubavam a crença em Deus.
  • Diz que sobre a arte de dirigir massas e indivíduos, pela arte da retórica e manipulação, não há quem se possa comparar aos judeus. Só nos planos de acção política encontraram rivais nos Jesuítas, que conseguiram desacreditar aos olhos da multidão acéfala, como uma organização aberta, enquanto eles conseguiam manter a sua organização submersa.
  • Considera a hipótese de poder haver uma coligação de "goyim" de todo o mundo, contra si, com sucesso temporário. Mas nesse caso, diz ele, há que confiar na permanente discórdia entre "goyim" que tem raízes tão remotas que nem os próprios imaginam, e que eles alimentaram durante 20 séculos. Não há nação que vá em ajuda de outra, sem temer o prejuízo que seria ficar sem apoio judaico. Clama que são demasiado fortes, e que as nações não conseguem acordar entre si, sem que esteja por trás uma mão judia.
  • Per me reges regnant - usa esta citação latina que invoca que Deus reina através dos reis, invocando os profetas que clamaram que eles foram os escolhidos por Deus para reinar sobre toda a Terra. Que Deus lhes deu o génio para essa tarefa, e que se alguma vez houvesse um génio do outro lado que lhes fizesse frente, teria toda a desvantagem de um novato, face a sábios já estabelecidos. Toda a maquinaria dos Estados, o dinheiro, foi inventada pelos velhos judeus, e deu prestígio ao capital.
  • Argumenta que o capital deve ser livre, para estabelecer monopólio do comércio e indústria, e que isto já é feito em todo o mundo. Essa liberdade do capital dá poder aos industriais, e ajudará a oprimir o povo. Agora, diz, é mais importante ir desarmando os homens do que levá-los para a guerra. É mais vantajoso manipular as suas paixões do que acicatar os seus ódios. O principal objectivo é debilitar a opinião pública pela crítica, afastá-los de reflexões sérias, calculadas para gerar resistência. Deve-se distrair as forças da mente para uma inútil luta de eloquência vazia.
  • Considera que em todas as eras, povo e indivíduos, tomaram palavras por acções, porque se satisfazem com o espectáculo, e raramente verificam se as promessas foram cumpridas. Por isso vão fundar instituições que darão eloquentes razões do seu benefício para o progresso. Vão-se misturar em todos os partidos e direcções, encontrando oradores que aborreçam de morte os seus ouvintes.
  • Para colocar a opinião pública nas suas mãos, é necessário dar voz a todas as opiniões contraditórias, por um longo período de tempo, para que os "goyim" percam a cabeça num labirinto de opiniões, e concluam que o melhor é não ter qualquer opinião política. Isto não pode ser dado a perceber ao público, e só é entendido por quem guia o público. Este é o primeiro segredo, diz ele.
  • O segundo segredo, para o sucesso do seu governo, é multiplicar os falhanços, hábitos, paixões e condições da vida civil, que será impossível a alguém se orientar no caos resultante. Em consequência todos discordam, e é semeado o caos, para guiar as forças colectivas que ainda não se queiram submeter. Enfatiza que não há nada pior do que a iniciativa individual... porque se tiver um génio por trás, pode fazer pior do que milhões de pessoas em que foi semeada a discórdia. Devem dirigir a educação dos "goyim" para que assim que surja alguma iniciativa individual ela redunde rapidamente em desesperante impotência; para que a liberdade de uns seja parada pela liberdade dos outros. Desse encontro resultam choques morais, falhanços e desencantamentos. 
  • Assim, diz ele, os goyim serão forçados a dar-nos o poder, que vão absorver gradualmente e sem violência, controlando os poderes do mundo num super-governo. Ao invés de dirigentes passa a ficar no seu lugar uma Administração Super-governamental, cujas mãos se estendem em todas as direcções. Uma organização tão colossal, que será impossível não dominar todas as nações do mundo.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Fernão de Magalhães (2) Saturno

Este postal começa com uma imagem de Saturno. É supostamente uma imagem tirada por um amador (Steve Hill), pois para efeitos de alguma relação com a realidade, prefiro isso, a usar imagens da NASA.

A questão é - por que razão haveria de colocar a imagem de Saturno num postal sobre Magalhães?

Numa versão simbólica, poderia dizer-se que representaria a volta ao mundo feita pelo português.
Afinal, o anel assenta bem numa ilustração dessa viagem, à volta ao globo.
Porém não é assim tão simples... e também não estou a insinuar que Magalhães foi até Saturno!

Por estranho que pareça, depois de ter feito o primeiro postal sobre Fernão de Magalhães, tinha pensado fazer o segundo postal agora, já que daqui a uma semana comemoram-se 500 anos da sua chegada ao Estreito que tem o seu nome, mais precisamente ao Cabo das 11 Mil Virgens, conforme lhe chamou.
Provavelmente poderia até me esquecer, mas as sonantes comemorações, as tais que ninguém vê nem ouve, talvez me fizessem lembrar mais tarde. 

No entanto, foi Sanchoniato que fez o favor de me lembrar... ou melhor, a tradução que já reencontrei, de Carlos Oliveira e Silva, feita em 1931, e publicada na revista "O Instituto" no seu número 82. Bom, e o que diz Sanchoniato (versão do latim de F. Wagenfeld):

  •  At vero Saturnus, dum orbem lustrat universum, Minervæ filiæ totius Atticæ regnum tradit. 
com o meu latim, que é rudimentar, não chegaria à tradução que Carlos Oliveira e Silva faz:
  • Foi após esta circunstância que Saturno doou toda a Attica a sua filha Minerva por ocasião duma viagem de circum-navegação da terra.
A tradução não é literal, e assim fui directamente ao grego que estava em Wagenfeld, que supostamente seria o lido do texto grego de Filo de Biblos, encontrado no convento português:

Sublinhei as palavras que são fáceis de perceber: 
  • "Kai" significa "E"; "Kpóvos" lê-se Cronos, ou seja, Saturno; "nepiïwv" lê-se "perion", como em périplo; "oikoumévnv" será ecúmena, ou seja, o mundo habitável. Depois vem "A&nva", que se lê Atena, etc... "Attixns" que será a Ática, e a última palavra é "basileia", que será rainha. 
Convém entender que a passagem para latim introduz uma série de lixo na tradução, mas do grego percebe-se que Cronos teria feito um périplo pelo mundo... se era habitável ou não, será mais uma interpretação actual, e Wagenfeld escolhe "universum", ou seja, o mundo. A tradução portuguesa para "circum-navegação" parece-me puxada, pois ainda que o prefixo peri seja similar a circum, não vejo a sugestão de navegação... ainda que não fosse imaginada doutra forma.

Portanto, este texto não fala propriamente de Magalhães, fala de Saturno, Cronos, ou ainda do correspondente fenício El (que é o nome judaico para Deus). 
Ainda que possa ser disputado qual o significado efectivo de tal afirmação, no contexto de divindades, convém notar que as divindades fenícias em Sanchoniato estavam associadas a reis humanos, a quem posteriormente foi declarado culto. Aliás essa mesma visão pode ser encontrada em Eumero de Messena, (ou Evêmero) que atribui a "circum-navegação" do mundo, por 5 vezes, a Zeus, filho de Cronos... talvez porque duas vezes não fossem suficientes para suplantar o pai.

Por coincidência, ou não, o planeta Saturno é quem tem o anel, o que meu ver representa bem a ideia de circum-navegação. 
Dir-se-à que quando os antigos atribuíram o nome ao planeta, não poderiam saber que este tinha um anel, já que mesmo Galileu não o conseguiu descortinar, e só Huyghens em 1655 atribuiu um anel a Saturno. 

Pois, mas isso é seguindo a velha filosofia de que os burros eram os outros, e os espertos somos nós.
À conta dessa historieta de cordel, já se podem ter acabado e recomeçado 12 mundos... sempre dizendo aos mais novos que antes o pessoal vivia na Idade de Pedra, depois veio a Antiguidade, etc. 
"Ah, e tal, mas os pais e os avós não deixariam que isso acontecesse" - sim, se restassem pais e avós.
"Que horror, quem poderia congeminar tal coisa?..." - dou um exemplo - quem quisesse tecnologia do Séc. XXI para brincar como se fosse faraó no Antigo Egipto.
O problema não é eu escrever isto, o problema é não ter já sido escrito por mais alguém...

Bom, mas deixando isso de lado, não havia vidro de grande qualidade na Roma Antiga?
Portanto, qual era a dificuldade de produzir lentes? 
Não sabia Arquimedes da focagem de espelhos, para queimar a frota romana? 
Por que razão não haveriam de se deparar com lupas, mesmo que não quisessem?
É claro que não nos chegaram estátuas de romanos com óculos.
Como é que isso haveria de entrar na narrativa?

A questão é que é perfeitamente natural que o nome de Saturno, Cronos ou El, esteja ligado ao primeiro rei que fez, ou mandou fazer, a primeira circum-navegação, mesmo que fosse atravessando pelo Panamá e não pelo Estreito de Magalhães. Só depois disso, poderia garantir que dominava de facto todo o mundo, e não apenas o cantinho que conhecia. 

Os Aztecas podem ter tido a ilusão de que dominando o seu cantinho no México, estavam com a situação sob controlo, até que... 200 anos depois apanharam com os espanhóis em cima. 
Podem ter havido tantas outras civilizações pré-colombianas que... subitamente, desapareceram. 
Será que já tinham crescido o suficiente, e achou-se ser precisa uma purga? 
Não é nada que os romanos não pudessem pensar.

O que é certo é que as civilizações mais antigas na América, Incas e Aztecas, estavam consolidadas há pouco tempo, tinham 100 ou 200 anos, quando apareceram os espanhóis. 
As civilizações americanas só se lembraram de aparecer nessa altura? 
As anteriores auto-destruiram-se? Ninguém sobrou para as reconstruir?
É lamentável dizer isto, mas creio que podemos não estar imunes de culpas...

Bom, da próxima vez falarei mesmo de Magalhães.
Aqui só achei interessante esta referência à circum-navegação de Saturno, que veio a propósito.

domingo, 11 de outubro de 2020

A massa da maça que amassa e maça (4)

Este texto é sobre um manuscrito de Sanchoniato, mas começo por lembrar alguns textos encadeados em 11 pontos, sobre o problema da Cobertura, escritos em 2013:

A história de Sanchoniato, é a versão fenícia da História, que terá sido escrita antes da Guerra de Tróia, que nos chegou através de um manuscrito grego, de Filo de Biblos

Bom, normalmente o que se sabia de Sanchoniato não vinha da tradução grega de Filo de Biblos, era apenas citada por Eusébio (de Cesareia) na sua Praeparatio evangelica, em que procurava mostrar a superioridade cristã sobre outras religiões. Curiosamente, Eusébio marca aí uma troca de cartas entre Jesus Cristo e o rei Abgar V, de Edessa.

Sobre o original de Filo de Biblos nada se sabia, até que após, as guerras liberais, surgiu a notícia de que teria sido encontrado num convento português... de nome "Merinhan". Este episódio é em si mesmo rocambolesco, e passo a explicar o que encontrei:

neste artigo o autor diz que os jornais anunciavam a descoberta, há seis meses:

Aussi a-t-il dû apprendre avec une joie bien sans doute mêlée de quelque incertitude, la nouvelle annoncé il y a environ six mois par les journaux, que la traduction grecque de Sanchuniathon, par Philon de Byblos, avait été retrouvée dans un couvent de Portugal.

mas aquilo que tinha saído publicado era uma primeira tradução para latim, depois publicada por F. Wagenfeld em Hanover (1837). Ao que parece nunca mais se viu o original grego... e num artigo inglês no The Foreign Quarterly Review, Volume 19 (1837), pág 184 diz-se isto: 

  • As to the place of discovery, we are informed by natives of Lisbon and Oporto that the name of Merinhan is not Portuguese at all, and that they know of no convent so called. It may be a similar name, and an obscure place; and this obscurity may have concealed the manuscript. We are aware that ancient Portuguese history has never been properly examined, even by the natives, and that many points of similitude or difference connect them with, or sever them from, the various tribes of the Peninsula of Spain. Some such cause might operate for the possession of the manuscript in question; but in any case the production of this manuscript will triumphantly answer all doubts, and vindicate the critical acumen of the learped Professor.

Ou seja, duvidava-se da existência do original... mas devemos ter em atenção que este "Merinhan" pode ser um fraco entendimento de "Marinha" (havia o Convento de Santa Marinha da Costa). 

O aparecimento de tal original grego, ou talvez apenas uma cópia monástica, seria facilmente ligado à pilhagem organizada pelos liberais, aquando do fim das Ordens Monásticas, em 1834. Se apareceu, voltou a desaparecer, e encontrar uma tradução do texto, mesmo em inglês, foi coisa em que não tive sucesso. 

O texto parece ter sido irritantemente inconveniente, e foi submerso de novo, pela falta de atenção que lhe foi dada. Ainda assim encontrei excertos de traduções portuguesas, feitas numa publicação chamada "Instituto" (Biblioteca da Univ. Coimbra). Neste fim de semana, deixei de ter acesso... azar!
Ficamos com a versão em latim, o que serve para praticar...

Hércules - Melqart - escultura fenícia (Museu de Cádis)


Hércules - Melicarto
Bom, e qual poderia ser a importância de tal manuscrito para a história ibérica?
A importância principal é que o nome Tartesso aparece mais de 40 vezes. Tartesso era um antigo reino ibérico cuja cidade principal foi Tarsis, ou Cádis. Tantas vezes quantas aparece o nome de Melicarthus, ou seja, Melqart, Hércules na versão fenícia, e que na versão de Bernardo de Brito será o Hércules Líbico.

Dou alguns exemplos...

  • Regnat autem ille in Tartessiorum regione, ultimi orbis populi
  • Ele reinava na região de Tartessos, a última cidade povoada.
Quem era este? Ou seja, que rei foi deposto por Hércules?
Alguém viu o nome Masisaba antes escrito?
  • Jam vero Liathanam Masisabas, Tartessiorum rex in hanc insulam demovit, ex qua effugere non potest.
Aqui fui ajudado pelo comentário do artigo inglês, que diz que Masisaba tinha aprisionado Liathanam, uma princesa com pés de serpente, numa ilha da qual não podia fugir. 
  • Per multos navigantes dies in Occidentem, arcem conspiciunt loco mediterraneo sitam. Jam vero erant in Tartesso atque arx illa erat Masisabæ. Qui cum navem conspexisset virosque, descendit, ut cum iis dimicaret. Erat autem Melicartho capite major, armis præclarus, corpore valido atque veloci. 
  • Navegando muitos dias para Ocidente, até encontrar aquele lugar mediterrânico. Mas agora, em Tartessos estava Masisaba. Que quando os navios viu, desceu, apenas para lutar. Hércules era o capitão maior, claro de armas, corpo e veloz.
Neste apontamento dá conta do confronto directo entre Masisaba e Hércules. Em texto anterior, na imagem do prólogo da Genealogia do Infante D. Fernando está uma imagem que pode reflectir esta suposta batalha. O rei peludo no centro da imagem será Hércules, e os adversários aparecem como faunos...

Ao lado coloquei a imagem de uma estátua que é suposto representar Hércules a dominar Caco. Ainda que Caco também apareça referido por Bernardo de Brito, é já numa fase bastante posterior, em que aparece um Hércules grego na expedição dos Argonautas. Mais correctamente seria Gerião, ou antes, os 3 Geriões, chamados Lomínios. 
Portanto, haverá uma eventual ligação deste Masisaba, que seria o tal Gerião. O mito grego apenas fala de um Gerião de 3 cabeças, que seriam os seus filhos...
  • Melicarthum autem, qui tanta peregerat facinora, Deum esse videbant, itemque ejus socios, sed minores. Freto autem adjacent duo promontoria et Melicarthus in utroque erexit columnam, quæ etiam nostris temporibus conspiciuntur, nominatæ a Melicartho.
  • Hércules pelo tanto que fez na juventude, vivia como um deus, assim como seus companheiros, porém menores. Num estreito de dois promontórios adjacentes, Hércules elevou em ambos pilares, que mesmo no nosso tempo são nomeados de Hércules.
Bom, e aqui nesta parte a habitual referência às Colunas de Hércules.

Mas talvez, o trecho mais inesperado, será este:
  • Sed longe prospicienti a genis tibi defluent lacrymæ humectantes terram, et pontus resonabit carmine lugubri; naves enim longæ in finibus Tartessiorum fractæ. sunt, filiorumque tuorum fortissimi in ripa longe remota obierunt.
  • No entanto, na face do teu rosto fluem lágrimas que humedecem a terra, e o mar entoa canções lúgubres. Os teus navios foram quebrados nos confins de Tartesso, onde os teus fortes filhos naquele rio distante morreram.
Isto encontra-se segundo o comentário inglês numa Canção de Sídon atribuída a Sanchoniato:
  • But lift up thine eyes afar! Tears shall roll down thy cheeks to water the land; and the sea shall resound with the voice of thy wailing.
  • For thy ships are broken to pieces in Tartessus, and the best of thy sons are laid on a foreign shore, a prey to the vulture and the fishes!
Apesar disto ser uma análise preliminar ao texto, e ainda não consegui enquadrar o contexto, nem ver todas as ocorrências, é bastante significativo de que a história de Tartesso não era, conforme pretendia o comentador inglês, a história de uma região de "espanhóis selvagens"... ou seriam tão selvagens que dos invasores fenícios não restavam nem navios, nem filhos.