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domingo, 15 de setembro de 2013

Pés e Cabeça

Um dos registos passados mais misteriosos é o que diz respeito à deformação cefálica.
Que motivo levou diferentes civilizações a deformarem os seus crânios de forma tão pronunciada?
Olhando para os crânios deformados da civilização de Paracas (Perú, zona Nazca), apenas pelos aspectos morfológicos, poderíamos até duvidar que se tratavam de Homo Sapiens...
Crânios deformados encontrados em Paracas... (ver também esta página)
Dada a sua vizinhança à paisagem Nazca, é de perguntar: 
- por que razão estes crânios expostos em museu, que lembram "figurações extraterrestres",
não aparecem habitualmente nos livros sobre Nazca, onde se fazem conjecturas sobre visitas passadas?

Não é só em Paracas (península de Ica, perto das figuras Nazcas) que se encontram crânios deformados.
A página da wikipedia que citámos (e que remete ao livro The Enigma Of Cranial Deformation: Elongated Skulls Of The Ancients, D.H. Childress and B. Foerster, 2012), indica vários casos: 
They were not unique in this, as the process of manipulating the shape of a child's head in infancy was practiced by many cultures, at different times, around the world. These other cultures include those in ancient Iraq, Russia, Melanesia, Malta, North America, Mexico, and possibly Egypt during the Amarna period: Tutankhamen has been cited as having an elongated head, but that is disputed by many scholars.
O que motivaria esta tradição em culturas que vão da Oceania (Melanésia) até à Europa (Rússia, Malta), ou às Américas (Mexico, Perú)?
Não se trata propriamente de uma moda de "corte de cabelo"... a deformação craniana é um processo violento, que poderia provocar dores inimagináveis.
Pintura do Séc. XIX (Paul Kane), representando o processo de deformação cefálica
numa criança índia Chinookan (EUA), e um resultado obtido no adulto...

No entanto, este processo estava normalmente associado a uma certa casta social... ou seja, parecia haver uma vontade de se parecer com algum modelo. Haveria uma ligação religiosa a xamãs ou sacerdotes, propagada pelas classes mais altas. É pouco verosímil que povos tão distintos se lembrassem do mesmo absurdo sem que houvesse um motivo forte, e sem dúvida que teria havido um elo ou influência comum. É dito ainda que tal prática, que ocorre modernamente, poderia colocar a pessoa mais próximo do "mundo dos espíritos"... pode ser por alucinações, ou por tradição de contacto com os tais "modelos".

Quanto à conexão entre estes crânios alongados, existentes nos Aztecas, Maias, Incas e os crânios alongados representados no Egipto, creio que esta imagem (daqui) é auto-suficiente:

Os crânios alongados de um lado do Atlântico... e do outro.
Quase todas as imagens apresentadas na página (que deve ser visitada)
... mostram bem as semelhanças e conexões culturais entre o Egipto e os Incas.

Bom, a sugestão de ligação habitual passa pela Atlântida perdida... mas convenhamos, isso não nos leva à Melanésia ou Polinésia, onde este costume ainda se mantinha, bem como que parece ter sido praticado entre os Aborígenes Australianos. Nem nos leva a registos russos... ou ainda à tradição que se manteve entre suevos e alanos (de que já falámos no texto "Suevos e os Arianismos", a propósito do texto "Mare Suevorum", no blog Portugalliae)

Isto é mais um dado no sentido da ligação que vai da Nova Guiné à Europa, passando pela América... falha aqui o registo indiano ou chinês. 
No caso chinês (ou japonês), as deformações não ficaram na cabeça, passaram para os pés.
O drama da deformação de pés, num conceito de "beleza" oriental.

Dir-se-à que isto "não tem pés, nem cabeça"... mas fico cada vez mais circunspecto com a língua e expressões que herdámos. Aliás, para além de alguns títulos "sugestivos", estou a evitar entrar na questão da linguagem, porque apesar de haver coincidências a um nível demasiado grande, não é fácil abordar o assunto de maneira clara, sem entrar em especulações. 
Porém, neste caso é inevitável falar na questão da palavra "colar"... lembrar a Cola do Dragão, cobra que afinal cobre e cobra, a troco de cobres, unindo o "cou" ao pescoço francês. E sendo coço a traseira, juntar pés e coço em pescoço, mostra como colam os colares ao pescoço, com as devidas Ordens. Bom, mas já dei o meu chá para essa procissão... 

O que me interessa aqui é abordar o "modelo"... ou seja, será que estas culturas pretenderam imitar um modelo de pessoas que tinham um aspecto diferente?
Haveria uma raça diferente, dominadora, que teria servido de modelo?
Poderia falar em extraterrestre... mas tenho largas dúvidas sobre essa teoria. 
O que teria mais de "extra" seria não se querer misturar com os outros, porque afinal de contas não deixariam de ter aspecto macacóide, como todos nós, desde o Erectus ao Sapiens, passando pelos Neandertal. Ah, e claro que também teriam "esperteza macaca"!

O que é perfeitamente natural, e é nisso que tenho insistido, é que estes últimos 100 ou 200 anos, nos mostraram como poderia evoluir rapidamente uma sociedade humana, quando o génio é libertado, e não fica preso em tradições absurdas que nos amarraram a cabeça e os pés.
Se houve dezenas de milhar de anos de estagnação não foi por falta de génio... foi porque uma educação condicionada, baseada numa estrita tradição, é a maior prisão que pode existir para o espírito humano. As pessoas são ensinadas a ter os seus objectivos programados para uma inserção na sua sociedade, e se essa sociedade está doente, os indivíduos são contaminados por essa doença. As ideias instalam-se e formatam os cérebros para determinadas expectativas e objectivos, são raros os que questionam o funcionamento, e só o fazem quando tiverem razões para isso.
Faço apenas notar uma coisa - o tempo mais importante é o tempo de perceber o que é importante.
Esse tempo nunca é uma perda de tempo, porque só depois de perceber a importância das coisas é que podemos falar em perda de tempo.

A verdade é importante, mas muito mais importante do que conhecer a verdade, é aprender a distinguir o que é falso. A verdade surge apenas como consequência desse processo. 
Por exemplo, o que será mais relevante? 
- Que se decida agora publicar os segredos, ou que se definam políticas educativas que mostrem a falsidade e de como a ocultação pode ser global?
Se os segredos fossem "revelados", ficaríamos convencidos?... Como dizia Albert Pike, o famoso mação, "revelar" é apenas colocar novo véu (velo). Tal coisa poderia ser feita numa grande encenação hollywoodesca, talvez até com  gente disfarçada de humanóides, para justificar a nossa provação (e de como os nossos dirigentes eram uns meros coitados, lutando contra forças extraterrestres)!

Não há qualquer dúvida que grande parte da humanidade foi enganada durante milhares de anos, e essa capacidade de enganar não desaparece pela simples vontade. Se somos capazes de enganar, o que é importante é ser capaz de reconhecer o engano. Se há estruturas sociais dedicadas ao engano, deveria também haver estruturas sociais dedicadas a combater o engano... caso contrário o desequilíbrio é imenso.

O maior engano das estruturas sociais é que passam a seres abstractos que se usam os indivíduos contra si próprios. Nunca nenhum indivíduo vai conseguir identificar-se à estrutura, e por isso, enquanto indivíduo, vai-se sempre sentir frágil. Pode julgar que ignora isso, por estar dentro e beneficiar da estrutura, mas não conseguirá nunca libertar-se do seu papel de simples indivíduo no meio da estrutura que o ultrapassa... 
O que uma sociedade faz de mal a um indivíduo, faz por medo a todos o que o souberem.

Bom, voltando à questão das cabeças alongadas, não posso deixar de mencionar o texto anterior Cobertura de Anedotos... onde fiz notar da semelhança das vestes dos Anedotos-Anunaki com os "bacalhaus", e também com a mitra papal. Ora, uma mitra alongada, sendo uma "cobertura" da cabeça, não pode deixar de ser referida neste contexto, porque tanto pode ter existido uma raça dominante com a cabeça alongada, como essa cobertura poderia ser disfarce, que depois levou a uma propagação desse costume entre os povos que sofriam a dominação dos outros.

No sentido da hipótese de ter havido mesmo uma raça com essa característica basta reparar numa grande diversidade de fisionomias humanas, que ainda existe, mas que seria muitíssimo mais acentuada há uns milénios atrás... e não deixo de lembrar uma figura que vi no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Uma pequeníssima cabeça mumificada da Amazónia, da tribo dos jívaros:
Apesar de se poder ler na descrição que a cabeça foi reduzida pela remoção do crânio, o tamanho das letras dá para ter uma ideia de que tal cabeça caberá numa mão, algo que me impressionou, e que me deixou muitas dúvidas sobre a dimensão original do indivíduo liliputiano. Conhecemos a espécie que sobreviveu, mas já aqui referimos várias notícias que apontam no sentido de terem havido homens quase gigantes na Patagónia, e homens muito pequenos, pigmeus na Indonésia, na ilha das Flores, perto de Timor.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Fernão de Oliveira (2)

Vamos fazer uma pequena mistura antigo-moderno neste texto.

Catedral de Salamanca
Muitos foram vendo na catedral espanhola a escultura de um astronauta, e isso ganhou algum espaço de divulgação, devido à internet, nos últimos anos:
Catedral de Salamanca - escultura de astronauta. (imagem)

O que isto tem de especial? Nada. Nada, porque descobre-se que afinal é habitual os escultores de catedrais espanholas colocarem astronautas, fotógrafos, dragões a comer gelados, telemóveis, etc...
Sim é verdade, mas a versão oficial diz-nos que não foram os escultores antigos... é fruto da inspiração artística dos restauradores modernos! A Igreja ou o Estado encomendam o restauro, e o sujeito pensa - não, vou mas é aqui colocar um astronauta (deve ser pelo efeito Axe, com um cheiro de sovaco diferente).

Depois alguém publica uma foto diferente... que tanto circula como sendo uma foto anterior (versão de que existia antes do restauro), como posterior (versão de que foi vandalizado o restauro - creio que correcta).
Por isso aparece uma terceira versão, que creio ser a actual, com um restauro mais grosseiro, substituindo a anterior cara por uma máscara, tirando a expressão dos olhos.

Curiosamente não encontrei fotos dessa parte da Catedral sem o astronauta, antes do restauro, algo que teria acontecido em 1992 (parece ser uma teoria lançada pela Wikipedia portuguesa), e vi muitas pessoas a queixarem-se do mesmo problema - ausência de fotos anteriores (ninguém fotografou antes de 1992?).
Num dos sites apresentam-se testemunhos de que o astronauta já estaria representado na catedral em 1970. Antes dos anos 1960 era natural que as pessoas nem soubessem o que era um astronauta, e por isso nem notavam nada de especial numa representação com aquele aspecto.

Há quem também possa ver referências a astronautas nas esculturas de Pensacola:
Seria possível que o "astronauta" da Catedral de Salamanca tivesse sido inspirado nas esculturas encontradas na América-Latina? 
Após 1960, pela sua parecença com os astronautas, talvez isso tivesse motivado a ideia de um restauro original... ou seja, substituir a imagem que se parecia com um astronauta por uma verdadeira representação de astronauta moderno. Isso seria uma solução para evitar polémicas - criando uma figura mais explícita eliminava-se a parecença. As imagens anteriores não teriam entretanto sido divulgadas porque afinal iriam revelar essa semelhança, não resolvendo o problema.

Isto é obviamente uma hipótese... outra hipótese será que qualquer dia se veja uma garrafa de Coca-Cola esculpida no túmulo de Camões, por inspiração dos restauradores. 
Finalmente, a outra hipótese é a de que a evolução da tecnologia pode não ter sido o que se pensa... e já assim dizia Fernão de Oliveira.

Artilharia de Fernão de Oliveira 
Fernão de Oliveira escreveu também uma "Arte da Guerra do Mar", em 1555.
Não, não encontramos na decoração do livro nada de estranho. Talvez se destaque uma Fénix que sempre renasce das cinzas, um poder que renasce sempre de todas revoluções... porque, enfim, parece que tem sido preciso "mudar para que nada mude". Esta "arte" de Fernão de Oliveira tinha sido "novamente escrita", agora "vista e admitida pelos senhores deputados da Santa Inquisição". Há uma parte rasgada, e a data de 1555 é confirmada no final.

Há mais uma vez muito material de interesse, começando por uma dissertação sobre a necessidade de manter guerra constante para não ser surpreendido em paz pela guerra alheia.
Passamos directamente à artilharia. Diz ele, na página XXV:
A invenção da artilharia, segundo dizem alguns, foi achada na Alemanha do ano de Cristo de c. 1380, mas a mim me parece que é mais antiga. Porque nós temos que os homens da Fenícia se defendiam de Alexandre Manho com tiros de fogo. E que as gentes de Russia pelejavam com pelouros de chumbo lançados de canos de metal com fogo de enxofre. E alguns filósofos que fizeram fogo artificial que voava, o que parece que fariam com os materiais de pólvora que se acostuma nas bombardas e arcabuzes. Finalmente a fábula de Prometeu, o qual dizem que quis imitar os trovões e coriscos de Jupiter, disto parece que teve seu fundamento, que no princípio da Grécia sendo ela rústica, Prometeu trouxe este artifício de tiros de fogo do exército de Jupiter, rei de Creta ou da África, o qual artifício os rústicos Gregos imaginaram ser trovões, como também cuidaram que os homens de cavalo eram monstros. Como quer que seja, a invenção da artilharia quer velha, quer nova, ela é mais danosa que proveitosa para a geração humana.
(clique na figura para aumentar)

Portanto temos aqui uma explícita referência à existência de armas de fogo, artilharia, desde o tempo dos Fenícios, contra Alexandre Magno (ele diz Manho), e que também era usada na Rússia (muitas vezes o nome aparece só Rusia ou ainda como Rufia...).
Se "tiros de fogo" pode ter alguma ambiguidade, saber que o cerco foi a Tiro, diz muito sobre o conceito de "tiro"... e depois não atirem mais nossa língua, com o objectivo de atirar para a tirar.

No caso russo a descrição é bastante completa, e não parece oferecer grandes dúvidas. Afinal, já é aceite a utilização de dispositivos explosivos na China, praticamente desde a Antiguidade. A sua utilização apenas para efeitos pirotécnicos seria uma limitação filosófica benigna, pouco realista dada a capacidade humana, e desumana, de transformar invenções positivas em armas negativas... conforme Fernão de Oliveira salienta no final.

A referência a um Júpiter rei de Creta (ou África, talvez Cyrene, Líbia, que seria ilha), é bem mais antiga, e tem muito maior ambiguidade interpretativa. Pode servir como pista para entendermos como um rei passou a ser associado a raios e coriscos, e depois a um deus de raios e trovões, pela utilização da artilharia.
Não deixa ainda de ser curioso Fernão de Oliveira dizer que os gregos primitivos entendiam os cavaleiros como um conjunto monstruoso... sendo natural que daí tivesse surgido a noção de Centauro

Lembramos que também é dito que os cavaleiros espanhóis foram vistos como um conjunto homem-cavalo pelos Incas.

No fundo...
O que hoje é associado a representações de "antigos astronautas" tem algo de moda passageira...
Podemos usar uma imagem meso-americana, que encontrámos, para ilustrar a questão:

Acontece que hoje pode ser habitual ver esta figura como um Astronauta... mas no Séc. XIX seria muito mais natural ver esta representação como um Escafandrista.
Escafandristas em 1873 (wikipedia)

Portanto, estas interpretações estão sujeitas às modas dos tempos... convenientemente confundidas.
Depois, é preciso rever um pouco da história do mergulho.
No fundo, chegamos mesmo aos Assírios, que nos ofereceram esta representação:
Representação de um mergulhador num friso Assírio (c. 900 a.C.)

Trata-se provavelmente de um Anedoto, do homem-bacalhau, de que já falámos... e aqui torna-se mais evidente como ele poderia desaparecer nos mares, parecendo um homem-peixe.
A imagem pode ser encontrada no US-Navy Diving Manual. Acrescenta-se aí que a origem do mergulho poderia ser remetida a 3000 a.C., há ainda a lenda de Scyllis e da filha Cyana, ao tempo de Xerxes.

Mas, ainda mais interessante, voltamos ao cerco de Alexandre "Manho" aos fenícios de Tiro, que usavam "tiros", a que se contrapunha a "manha" de mandar mergulhadores ao fundo do Porto de Tiro para remover os obstáculos, em 332 a.C.
Nesse manual encontra-se ainda uma figura de 1511, que ilustra a utilização de um tubo de respiração:
Ilustração de 1511, mostrando o uso de um tubo de respiração em mergulho.

Bom... e haverá quem possa ver no mergulhador uma cabeça com aspecto alienígena?
Talvez... porém, serviria para isolar a cabeça para a respiração.
Outras imagens que nos aparecem com aspecto alienígena são, por exemplo, estas:

Ora, fica mais ou menos evidente que o halo que envolve a cabeça também poderia ser visto como uma "representação de santidade".
Essa foi uma outra interpretação... mas nos tempos que correm nem sequer se pensa em santos, nem em capacetes de escafrandos, vai-se directamente para astronautas ou alienígenas.

Enfim... o que concluir?
- Não vou discutir a versão dos "restauradores brincalhões", até porque esse caminho é uma contradição com a noção de obra "restaurada", é mais uma visão de "rês tourada". Quando a cozinha aventar uma "restauração" com ares desses, acaba-se a credibilidade do serviço, entra-se no fast-food justificativo.
- Tenho dúvidas sobre a capacidade tecnológica dos Anedotos. Já percebemos que impressionavam as civilizações menos desenvolvidas com um aspecto estranho. Tanto poderiam ser homens-peixe, como homens-falcão, homens-crocodilo, etc... dependia do povo e da religião que quisessem impor. Pelo lado homem-peixe justificar-se-iam os acessórios de mergulho. Porém, creio que o mais importante seria protegerem o seu corpo... A última imagem indicia uma possível vestimenta imune a alguma flecha perdida, que os poderia vitimar. Assim, para não serem vítimas de ataques de populações hostis, ou de um atirador incauto, uma fatiota-armadura com um elmo de vidro espesso seria suficiente para lhes conferir um estatuto de imunidade, de divindade.
- Bom, e sobre os Anedotos mais não sei, mas como também percebemos, as Anedotas continuam...

14/06/2013

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Cobertura de Anedotos

Nota de Rodopé (bis)
Começamos com mais uma "Nota de Rodopé"... 
Já tínhamos falado de Rodopé, a propósito da fábulas de Esopo e de Perrault. 

Faltou-nos uma história de "sapatinho rosa-dourado"... de uma escrava grega, que apreciada pelo seu senhor recebe os tais sapatinhos, causando inveja nas outras escravas... que a sobrecarregam de trabalho!
Acontece que o faraó Amásis II convida todos para uma festa em Mênfis, mas a pobre escrava não pode ir... é sobrecarregada com trabalho pelas outras invejosas! 
Lembra uma história de gata borralheira... e enquanto a festa decorre em Mênfis (só faltaria ter a actuação de algum Elvis...), a pobre escrava, ao lavar a roupa, molha os chinelos. 
Pior, quando os deixa ao sol a secar, um pássaro pega num e foge com ele.
Porém, o pássaro era afinal o deus Hórus, que deixa cair o chinelo em frente a Amásis II.
Tomando tal sinal divino evidente, o faraó procura a donzela que tenha o outro chinelo rosa-dourado. Acaba por encontrar a escrava... essa escrava é Cinderela?... Não, é Rodopé!
  
Ponte Diavolski, Bulgaria - Montes Rodopé (Trácia)... e o sapato de Cinderela.

Parecerá de facto, a história da Cinderela, mas de quem? 
De Esopo, de Estrabão, de Perrault, dos Irmãos Grimm, ou de Disney?
Bom, parece que também há uma versão chinesa - com Ye Xian, que perde um sapatinho dourado, e também tem uma madrasta malvada. É sabida a importância que os chineses davam aos pés pequenos, por isso esta história é também antiga - encontra-se numa compilação do Séc. IX d.C. (ver também aqui).

Encontrei, por mero acaso, mais esta "nota de Rodopé". 
Não era sobre isso que queria falar. Mas, aparecendo contada por Estrabão, convirá situar a época. 
Rodopé tal como Spartacus seriam escravos da Trácia. A brutal repressão romana à revolta de Spartacus ainda estaria fresca na memória dos gregos, e não podendo falar de Spartacus, talvez ocorresse a Estrabão falar de Rodopé, enquanto símbolo escravo da vizinha Trácia.
Se o grego Esopo atribuíra a Rodopé uma das pirâmides egípcias, o grego Estrabão iria dar-lhe um pé, que colocaria, através de Hórus, ao lado do poder divino faraónico. 
Se o pé do trácio Spartacus, como o de mais 30 mil escravos, foi pregado numa cruz na Via Ápia, houve poucas décadas depois outro pé onde tal cruz ficou imortalizada, com uma Roma rendida a esse símbolo.

4) O declínio egípcio
Amásis II - o faraó que escolheria o pé de Rodopé - seria o último grande faraó egípcio. A partir daí, de Rodopé ficaria essencialmente um Canto, um canto de arquitectos e poetas. 
Logo a seguir à morte de Amásis II os egípcios iriam cair sob domínio persa, do Império Aqueménida, ficando como uma província (isto, à excepção de um curto período, onde por alguns anos a capital será a cidade egípcia de Mendes - XIX dinastia).

Se a civilização egípcia consegue resistir ao primeiro Império, ou primeira monarquia Assíria, o mesmo já não se passará na transição para o segundo Império, quando Medos, Caldeus e Persas passam o poder da velha capital assíria de Nínive para a Babilónia, e depois Persépolis.
Já falámos da descrição de Figueiredo que fazia a divisão em 7 monarquias em vez de 4 impérios.
Quando se fala na mitologia do "Quinto Império", há em comum a primeira monarquia iniciada com os Assírios, por Nimrod ou Nembroth (associado à Torre de Babel e à capital Nínive).
Após a queda assíria, com Assurbanípal, ou Sardanapalo, o segundo império de Medos e Caldeus, começaria na Babilónia, e ficaria marcado por Nabucodonosor, em particular pelo registo bíblico da deportação hebraica, que terminaria com a ascensão persa de Ciro (560-530 a.C), a quem Figueiredo associa a terceira monarquia, persa, que só seria deposta por Alexandre Magno, marcando também o fim do segundo império. O terceiro império será macedónio-grego, a que se seguiria o quarto, de Roma.

O declínio egípicio, a ascensão de Nabucodonosor, e depois de Ciro, no Séc. VI a.C. vai produzir uma significativa mudança global. É dessa época que nos vão chegar os antigos registos históricos, míticos e religiosos... notando que são contemporâneos, ou posteriores ao "grande" Ciro, os "veneráveis": 
- Sete Sábios Gregos (em particular, Sólon, ou antes Tales de Mileto, 624 a 554 a.C) 
- Buda, ou Sidarta Gautama (563 a 483 a.C), 
- Confúcio, ou Kung Fu Tziu (551 a 479 a.C).

O ponto principal é que é nesta época que se definem os registos que passam para as gerações seguintes.
O caso mais emblemático será a confusão hebraica-judaica. É reconhecido que quando Ciro recoloca hebreus e judeus no mesmo "território de origem" já se teria perdido grande parte da cultura pelo período no cativeiro da Babilónia... onde choraram por Sião. Até a língua hebraica seria estranha aos judeus, pelo que a recuperação bíblica será feita com a ajuda dos magos persas - os seus antigos captores.
Não será assim tão estranho que haja muitos pontos comuns entre os registos míticos babilónicos e aqueles que serão depois adoptados pelos judeus. 

Por outro lado, ainda antes do declínio, fica claro que há uma aproximação entre egípcios e gregos.
Sólon, um dos Sete Sábios Gregos do Séc. VI a.C. procura informações no Egipto... em particular será aí que terá o registo da Atlântida, que depois será contado por Platão. 
O aparecimento da cultura grega não pode ser desligado dessa clara influência egípcia, que assim procura uma oposição à expansão persa. O Egipto acabará por retomar o seu protagonismo através deste investimento, pela importância que a dinastia Ptolomaica de Alexandria assumirá até à queda de Cleópatra. 

A tragédia que envolve Júlio César, Cleópatra, Marco António e Augusto Octávio, é uma história que assinala a luta de poder na transição entre o 3º Império sediado em Alexandria e a passagem para o 4º Império sediado em Roma.
Não será imediata, pois mesmo durante o período romano, Alexandria com a sua Biblioteca continuará a ser o principal pólo de conhecimento da Antiguidade. Será apenas com a chegada de Constantino, e a consagração de Bizâncio, que Alexandria perderia a sua importância como capital oriental, entrando em declinio até à conquista árabe.

Se notamos uma influência egípcia na formação filosófica e científica grega, também podemos ver alguma exportação filosófica para Oriente. Em muitos aspectos encontramos noções da filosofia de Hermes ou de Zoroastro nas reflexões budistas, confucianas ou taoístas.  Nota-se uma mudança significativa na forma, mas há muitos pontos comuns no conteúdo, que passam por quase todas as filosofias e religiões.

5) Beroso - Anedotos e Caldeus
Há vários relatos sobre Beroso, mas a sua história dos Caldeus só teria chegado parcialmente através de alguns relatos de Eusébio. Encontrámos um notável trabalho de Isaac Cory que nos dá uma tradução em inglês das citações de Eusébio, e das passagens atribuídas a Beroso (Berossus).
Começamos por esta:
(...) then Ammenon the Chaldean, in whose time appeared the Musarus Oannes the Annedotus from the Erythrean sea.
Quem era esta abominação "Joanes, Anedoto do Mar Vermelho"? 
- Os anedotos eram homens-peixe!
Parecerá "anedota", mas estes "anedotos" eram apresentados como se estivessem "vestidos de peixe", vendo-se os pés, e a cabeça na posição das guelras, assim:
 
Dois Anedotos - Homens Peixe... (imagem) e um enorme bacalhau (imagem)

Se a ideia era dessa forma passarem por "homens-peixe", parece de facto "anedota", e o nome "anedoto" é apropriado. Para além de "Joanes", ou "Oanes", Beroso refere mais anedotos, sempre do Mar "Eritreu"-Vermelho, um outro teria o nome Odacon.
Num dos relatos é dito que o Anedoto conversava com os homens de dia, não comia, e ao pôr-do-sol mergulhava nas águas, onde ficava toda a noite. Parece que com esta anedota eram convencidos os assírios que ele era anfíbio... 
De qualquer forma, aprenderam dele as letras, ciências e outro tipo de artes, como das sementes e frutos. Teria ainda ensinado-os a construir casas, fundar templos, compilar leis, bem como os princípios de geometria. Os seus conhecimentos eram considerados tão universais que nada mais era necessário, tendo tornado os caldeus mais gentis e humanos.
Ao lado decidimos colocar uma imagem de um enorme bacalhau... para que se torne mais claro o que poderia ser um Anedoto ou uma anedota, um bacalhau ou uma cabala.


Não deixa de ser algo estranha esta reverência dos caldeus a esses homens-peixe, que vindos de um Mar Eritreu lhes teriam transmitido conhecimento fundamental. Já aqui referimos da ambiguidade sobre a designação "Eritreu", e de que o Mar Vermelho já foi tido e achado em lugares diferentes. Em particular, esta pesca de bacalhau poderia corresponder a uma secagem de pele noutras paragens, talvez na zona da ilha Eritreia, colocada na Iberia.

Por outro lado, um símbolo na hierarquia cristã é a Mitra, um barrete que já foi visto como perfil de cabeça de peixe. O nome "mitra" está também associado a uma religião persa que chegou a ter um destaque semelhante ao do cristianismo à época da sua implantação no Império Romano. Porém, o barrete do mitraísmo seria o barrete frígio, e não algo com uma abertura que lembra a boca de peixe, como a mitra papal.
Mitra de João XXIII.

Não é nenhuma novidade que um símbolo cristão é o peixe, mas não é convincente que tal se deva às iniciais ΙΧΘΥΣ que corresponderiam a Iesous Christos Theou Yios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador,  sendo Ichtys a palavra grega de peixe)... ou ainda a um "alfa" que tem a forma de peixe.
Se o hábito faz o monge, neste caso parece que há hábitos que vêm de longe, do fundo do mar...

6) Beroso - Dilúvio
No mesmo relato atribuído a Beroso fala-se do dilúvio. A divindade é Cronus, que aparece numa visão ao regente Xisuthrus (ou Sisithrus), avisando-o do dilúvio que destruiria a humanidade. Por isso, ele é encarregue de fazer uma história do mundo que guardaria na Cidade do Sol (ver Heliopolis) em Sippara, e de construir um navio onde levaria quem e tudo o que conseguisse, inclusivé todas as espécies de animais.
Depois, tal como na bem conhecida história de Noé, após o dilúvio, envia pássaros três vezes, até que eles não regressaram - o que significava que tinham encontrado terra firme. Num relato (via Abydenus) diz-se explicitamente que o navio se mantinha na Arménia, onde era ainda costume os habitantes fazerem pulseiras e amuletos a partir da sua madeira! (isto é visto como prova posterior da presença do barco no monte Ararat)

Nesse mesmo relato fala-se da construção de Torre de Babel, feita pelos habitantes da terra para desafiarem as alturas, contra vontade dos deuses, que através de ventos a demoliram caindo sobre os executantes, ao mesmo tempo que misturavam as diversas línguas, havendo antes apenas uma língua universal. Do desacordo teria surgido depois uma guerra entre Cronus e Titan...
A torre é colocada na Babilónia, e é dito que "para confusão é pelos Hebreus chamada Babel"...

Podemos concluir, que a menos de detalhes, e diferença de nomes, estas estórias caldeias-babilónicas do Dilúvio e de Babel são exactamente as mesmas que aparecem depois na tradição judaico-cristã. A grande diferença será o carácter monoteísta que parece associado a Cronus, eliminando referências a outros deuses ou a entidades míticas ou controversas, como o caso dos homens-peixe, os anedotos.

Será que podemos associar estes homens-peixe às figuras de sereias ou ao mito da Atlântida?
Até que ponto é que a questão do desaparecimento de uma potência atlântica não estaria ligada ao próprio mito do dilúvio?
- Afinal, havendo uma Idade do Gelo, quando essa termina para onde iria a água derretida?
- Não faria sentido considerar que o degelo teria provocado um considerável aumento da água do mar, afundando por completo povoações costeiras?
Se os gelos permanentes chegassem até ao Sul de França, como é habitualmente admitido, a retenção de água nesses gelos seria enorme, e a linha de costa seria bem diferente, estendendo-se muitos quilómetros no que hoje é Oceano. Um aquecimento do planeta teria como consequência uma catástrofe diluviana para civilizações costeiras. Só seriam sobreviventes as que assumissem algum carácter marítimo, ou que migrassem para zonas montanhosas. Essa mudança climática provocaria ainda uma mudança civilizacional, arruinando estruturas antigas, deixando perdidas várias tribos, e praticamente tudo teria que ser recomeçado.
Porém, quem sobrevivesse com a herança do passado perdido teria uma grande vantagem civilizacional face a todos os outros sobreviventes desorientados e espalhados por diversas partes, regressando à faceta de homens de cavernas.

Num dos relatos atribuído a Beroso é dito que o mesmo Oanes indicava que no início os homens teriam aparecido também com duas asas, outros com quatro asas e duas caras... podendo ser de homem e mulher.
Haveria ainda figuras humanas com cornos e pernas de cabras, outros pés de cavalo, touros com cabeça humana, etc... toda uma mistura zoológica, que teria sido desenhada no templo de Belus na Babilónia!
Não será assim de admirar que também no Egipto, por altura semelhante, tivessem aparecido representações mistas, que invocavam uma parte humana e outra parte animal... assim se constitui uma boa parte do panteão de divindades egípcias, que também foi exportada para mitos gregos.

Que propósito haveria nestes anedotos, ou nestas anedotas?...
Ou antes, como se manifestaria uma civilização mais avançada no contacto com tribos que estavam praticamente na pré-história? 
Teria paciência para fazer evoluir essas tribos para o mesmo nível? 
Aparecia como elite e tratava os restantes como servos? 
Interviria pontualmente como deuses e deixaria as tribos prosseguir a sua evolução?

Há alguns pontos na mitologia que podem ser encarados como abordagens a estas perguntas.
A civilização preponderante poderia ser encarada como um deus dominante, imortal, que decidiria sobre o futuro das civilizações que nasciam. A diferença de poder seria tal que permitiria intervir para proteger ou aniquilar civilizações emergentes. 
Neste sentido, apenas uma civilização, ou estrutura civilizacional, seria imortalizada... as outras passariam por fados, por jogos de poder, que as levariam a aniquilar-se. Não admitiria filhos... no sentido em que evitaria a competição interna com uma fonte semelhante de poder. 
Estamos perante uma figuração semelhante à de Cronos... que será deposto por Zeus.
O poder com Zeus substituiria essa dominância absoluta de Cronos, partilhando o Olimpo com os seus irmãos, numa oligarquia divina. Figurativamente, seria como substituir uma civilização dominante por uma assembleia olímpica de estruturas civilizacionais dominantes. Seria como se houvesse apenas doze tribos (o número de elementos no Olimpo) que decidissem sobre o futuro das guerras entre todas as outras... 
(ou ainda, seria como um conselho de segurança da ONU, onde cinco estados detêm o poder de veto)

De uma forma, ou de outra, não importa muito, os impérios ou monarquias que dominaram o mundo a partir dos Assírios, parecem ter tido um patrocínio externo, uma influência civilizacional superior que se constituiu como mitologia. Há quem refira os Anunnaki, o que parece ser apenas nome alternativo para a figuração dos Anedotos (um nome por interpretação cuneiforme, o outro das transcrições gregas de Beroso). 



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Pacífico (31/12/2009)

Sexto e último texto da série "Tese de Alvor-Silves", sim, porque o sétimo seria propositadamente uma "folha branca". Na realidade creio que escolhi o número sete pelo seu simbolismo, e pensava escrever sete textos, mas... as coisas acabaram por correr noutro sentido, até porque pretendia fechar o assunto em 2009. Após três meses intensos, resumidos em duas semanas de escrita, não pensava despender mais tempo no assunto... mais um erro, o problema tornara-se mais complicado do que suspeitara, e fez questão de me atormentar bastante mais tempo. E o principal problema não tinha a ver propriamente com as questões históricas, mas sim em reencontrar alguma racionalidade na estrutura filosófica global. Ora, isso não era tarefa para três meses, e para esclarecer tudo o que me interessava, de fio a pavio, acabei por demorar bastante mais tempo, até porque se adicionaram incómodos e surpresas, de uma ordem que classificaria como imaginária. 
No entanto, a receita é sempre a mesma... quando a fachada abana, têm que se inspeccionar as fundações, mesmo as mais profundas, as raízes que fundam o nosso pensamento. No meio de tanto caos, parecia complicado encontrar alguma ordem, mas estas coisas são ao mesmo tempo necessariamente complicadas, e necessariamente simples. A simplicidade resume-se a aceitar que aquilo que vemos como caos tem uma ordem, não é um acaso... mas isso não basta, porque as coisas são complicadas e não é "por acaso". 
O que acho mais curioso, é que para refazer a minha interpretação de uma racionalidade global, fui impelido a escrever parte disso aqui, ou seja a escrevê-lo para terceiros. Por isso não "é por acaso" que o leitor aqui encontrará assuntos filosóficos que à partida pouco ou nada se enquadram em assuntos ou polémicas históricas... mesmo assim, procurei remeter uma boa parte para o blog odemaia.

Quanto ao texto em questão, também acabei por suprimi-lo pouco depois... sobretudo opinativo, tinha pouca matéria objectiva. Não iria obviamente falhar a passagem de ano, e por isso foi acabado em horas tardias, às 8h00 da manhã do dia 1 de Janeiro, o que se tornou adequado ao título. Foi acabado em Pacific Time, com 8 horas de diferença da Califórnia, do outro Mar Vermelho... horário que ainda mantenho no blog.

Ficaria a faltar colocar aqui os dois primeiros textos. Foi relendo agora o segundo, sobre os Painéis de S. Vicente, que reparei que me tinha esquecido de colocar aqui os restantes, conforme afirmara, a propósito da supressão do Knol. Faltaria assim, o primeiro de todos, que esteve também suprimido, e apesar de ter aproveitado parte da matéria mais substantiva no post Peça-a-Peça (evitando a conjectura sobre as Molucas, sendo que nesta altura não sabia que eram literalmente Malucas, só depois passaram a Molucas), fica aqui também incluído. 

Seguem-se assim os dois textos, o último e o primeiro...

domingo, 30 de dezembro de 2012

Encoberto (22/12/2009)

Depois do "Colombo", coloco aqui o quarto texto da série "Tese de Alvor-Silves", sob o título "Encoberto", conforme foi escrito há três anos. Creio que esta foi a primeira versão lançada em 22/12/2009, mas depois fiz algumas alterações e acabei por concatená-lo com o texto seguinte (denominado "Adamastor"), para suprimir as muitas opinações fruto do estilo que ia assumindo. Com a supressão do Knol, muitas das imagens já nem tinham ligação, e tive que recuperá-las em ficheiros gravados. Ao procurar nos ficheiros antigos, fui recuperando muitas coisas que escrevi e que deixei para trás. A mais interessante é a do mapa de Jorge Aguiar, que vou aqui colocar em breve.

Neste texto há dois detalhes sem grande importância, mas que quero referir, pois envolvem o programa de José Hermano Saraiva, que ainda passava na RTP-2. Foi nesta altura que o vi colocar a interrogação sobre a ideia do Infante D. Henrique no desembarque em Ceuta para um ataque terrestre a Tanger. Essa lenta progressão terrestre tinha sido a principal causa do desastre militar, que veio a sacrificar o Infante D. Fernando, que era quem comandava o ataque naval e não estava em perigo...
- Nessa altura estava bastante convencido (como é visível) de uma oposição política sobre a direcção das descobertas... de um lado o Ocidente oferecia-se a uma colonização, aparentemente mais pacífica, e pelo lado Oriental esperavam-se sangrentas batalhas, para a reconquista de Jerusalém (projecto antigo dos Templários, herdado na Ordem de Cristo). Este ideal da reconquista de Jerusalém prosseguia da Idade Média, passados vários séculos sobre a recuperação liderada por Saladino. Feito o Índico um mar cristão, abriria uma frente de ataque - pela rectaguarda, para entrada pelo Mar Vermelho e reconquista da Terra Santa. Tal plano seria seguido por D. Manuel, e executado admiravelmente por Afonso de Albuquerque, até à sua deposição. Nesta hipótese, a linha de acção da Casa de Viseu, iniciada pelo Infante D. Henrique, concretizada por D. Manuel, seria essa - a da cruzada templária a oriente. Por outro lado, a linha da Casa de Coimbra, iniciada pelo Infante D. Pedro, seria (por hipótese aqui colocada) a oposta... seria a de uma expansão colonial e comercial a Ocidente. A Casa de Coimbra tem o seu principal protagonista em D. João II, e a prova objectiva do seu interesse a Ocidente será o Brasil marcado em Tordesilhas. Preterido D. Jorge a D. Manuel na sucessão de D. João II, a sua Casa de Coimbra vê-se forçada a mudar de nome para Aveiro, e os partidários desse projecto de D. João II, ao governarem a Índia, vão esquecendo o objectivo de cruzada. Finalmente, a Casa de Bragança aparecia na sombra, tal como em Alfarrobeira, claramente opositora de Coimbra, representaria essencialmente a oposição a qualquer iniciativa, manobrando nos bastidores da corte. Acabará tanto por convidar a entrada de Filipe II como ser catapultada para o derrube de Filipe IV.
A ideia de que o Infante D. Henrique estaria mais motivado pela cruzada, do que pelas descobertas, ficou mais consolidada naquele programa, pela questão levantada por José Hermano Saraiva.
- O outro detalhe, ocorreu poucas semanas depois. Tendo mencionado o antigo relógio nas Caldas da Rainha, vi outro programa de José Hermano Saraiva que invocava um ainda mais antigo relógio de Serpa, e apesar deste estar datado de 1440, creio que ele o dava como mais antigo. Apresentava ainda, como curiosidade do Museu de Serpa, um relógio de navegação que, ao seu estilo, avisava ser francês... como se avisasse que tal prodígio não era suposto constar das nossas navegações.

Por outro lado, relendo o texto, devo avisar que a minha suspeita da utilização de um sistema de coordenadas local, zenital, baseado nas direcções que partiam das rosas-dos-ventos, e outros centros, se revelou à época menos promissora do que aparentava... verdade seja dita que também não tive vontade de inspeccionar mais. Ou seja, na altura, pareceu-me estranho que se desenhassem cartas mais imprecisas nos anos seguintes às descobertas, para além de muitas marcações, que estavam claramente erradas. Poderia ser só para despiste, mas tal como virando o Reinel se descobre em África um contorno Mexicano, pareceu-me ser natural que os mapas tivessem outros segredos. A pista de Pedro Nunes seria fundada no modo mais prático de navegação, ou seja seguindo as direcções locais que convinham aos "mareantes" pela sua posição. Poderia ser que escondessem num contorno impreciso do continente europeu, um contorno preciso de outras paragens... Mas a inspecção disso não é fácil, porque não é possível saber o que pretendiam representar, nem há mapas suficientes para o confirmar.
Já coloquei aqui a análise da Carta do Atlântico Norte para dar uma ideia do tipo de coisas que se podem procurar, mas terá pouco valor objectivo... a menos que seja para rebater interpretações mais mirabolantes feitas com outros mapas, nomeadamente o de Piri Reis.

O globo de João de Lisboa (que nos serve aqui de logotipo) é um claro exemplo de uso de coordenadas polares - com um só pólo, o pólo norte:
e já aqui fiz a conversão para aparecer como um planisfério típico:
Para que se perceba o trabalho envolvido nestas coisas, tive que assinalar manualmente cada pontinho na carta, para depois programar automaticamente a conversão que se vê.

Se aceitarmos que se trata de um mapa de 1514 e não uma adição feita até 1560 ao seu Tratado (cf. Cortesão), e já apresentámos várias provas, dará uma ideia parcial do que se sabia 5 anos antes da circum-navegação de Magalhães.

Depois, é claro, estas coisas são esquecidas, e como sabemos que não temos capacidade para coisas complicadas, aparece, passados 134 anos, em 1648, um francês de nome Louis de Mayerene Turquet, com a mesma representação centrada no pólo norte, reclamando a sua autoria:
La Nouvelle maniere de representer le Globe terrestre
... inventée par Louis de Mayerene Turquet 
(1648)

Repare-se que muito provavelmente Turquet não sabia da existência do mapa de João de Lisboa, tal como hoje a maioria dos estudos em cartografia que vemos parecem ignorar olimpicamente a maioria dos mapas constantes na Portugallia Monumenta Cartographica, lançada há mais de 50 anos... enfim, também parece que está esgotada.

Segue o texto, que me recorda o também o dia em que o contador do Knol "decidiu parar", e a que se devem dar os devidos descontos de entusiasmo, de quem tinha acabado de cair "na real":



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Grande Alca e outras extinções

Há já bastante tempo coloquei aqui um mapa datado de 1970, do Museu da Marinha, que pretendia ilustrar os descobrimentos portugueses.
Apesar do mapa dizer ser feito pelo "pessoal técnico do Museu da Marinha", não deixava de conter indicações algo enigmáticas. Uma que notei foi a presença de pinguins na Gronelândia, a que erradamente atribuí um erro de execução, e também a de cangurus na Austrália (algo que não se parece observar em nenhum mapa anterior a Cook):

Acontece que desenhar pinguins árticos num mapa de 1970 parece muito estranho, mas não o seria se fosse baseado num original, desconhecido... Porquê? Porque os últimos pinguins árticos foram mortos em 1844, perto da Islândia. Isso eu não sabia, e parece ser propositadamente pouco divulgado!
Encontrei essa informação neste blog: oeco.com.br, e daí encontrei depois a informação natural sobre as "grandes alcas" - assim se chamavam os pinguins do Ártico:
A grande alca - o pinguim ártico, extinto em 1844.

Assim, a menos que se pretenda a coincidência do erro, a ilustração do Museu da Marinha assentará num mapa que tinha esses pinguins do norte e que colocava a Terra de Corte Real sob coroa portuguesa. E como a coroa está aberta, não será provavelmente de D. Sebastião, que a veio a fechar, em sinal de independência ao poder imperial, será talvez do seu avô, D. João III. No entanto, tal como se ilustram os pinguins do norte, também aparecem desenhos de cangurus na Austrália, com uma imprecisão que até sugere autenticidade...

Sobre estes pinguins e sobre a presença portuguesa na Terra Nova e Canada, acho que é suficientemente esclarecedora a obra de Jean de Laet, "L'Histoire du Nouveau Monde...", 1640. 
Na página 33, introduz a Nova França e Terra Nova, atribuindo a descoberta da Terra Nova aos Cabotos, venezianos a serviço de Inglaterra, tal como Colombo seria genovês a serviço de Espanha.
A rivalidade Génova-Veneza, habitual na escolha dos Papas, era transportada na legalização da descoberta americana... um genovês para as Antilhas, em 1492, e um veneziano para as Satanazes - Terra Nova, em 1498. É praticamente óbvio que Génova e Veneza sabiam perfeitamente os contornos desse mundo, mas pelas suas limitações logísticas seguiam os cuidados necessários para a aceitação das descobertas - navegaram em serviço de potências externas.

No entanto, Laet não deixa de referir Gaspar Corte Real, dizendo 
"Pouco depois dos Cabotos, a saber no ano 1500, Gaspar Corterealis visita as mesmas terras a comando do rei de Portugal e as descobre pouco depois" (pág. 34). 
Algo perfeitamente justificável... D. Manuel queria definir as possessões outorgadas por Tordesilhas, e assim em 1500, dois anos depois da incursão de Caboto a norte, retira do encobrimento a Terra Nova e o Brasil. Durante um século os ingleses não mais se aventuraram aí e, até à morte de D. Manuel, ninguém reclamou a Terra Nova ou o Canadá.

Depois, Laet justifica o nome "Nova França", dizendo que se chama assim porque os franceses foram os primeiros a penetrar no meio do país, e a se estabelecer a mando do rei. Portanto, é suficientemente lúcido para não atribuir nenhum papel especial de descoberta a Jacques Cartier, que apenas ali chegou em 1535, uma quinzena de anos após a morte de D. Manuel, quase quarenta anos após Caboto.

É sempre instrutivo rever a carta "Pedro Reinel a fez", datada de 1504, mas que suspeitamos ser contemporânea ao Tratado de Tordesilhas. Para além das outras suspeitas, de representação implícita, atentemos aos nomes atribuídos à parte da carta respeitante à Terra Nova (clicar p/ aumentar):

De cima para baixo, podemos ver os nomes:

- y da fortuna,   - y da tormenta
- c do marco,     - sam joham
- sam pedro,      - y das aves
- a dos gamas,           - c de boa ventura
- y de boa ventura,    - c do marco
- y de frey luis,         - b de santa ana (?)
- y dos bacalhaos,     - b da comcepção
- c da espera,            - r das pa...
- r de sam (?)...
- c Raso
( mais em baixo: sam johã e santa cruz)







Uma boa parte destes nomes vai ser mantida na descrição de Jean de Laet, que fala no Cabo de Raz (cabo raso), na ilha das aves, na ilha dos bacalhaus, baía da concepção, na ilha de Frei Luís, e na ilha da tormenta (nome a que associava origem francesa, e de que já falámos a propósito de Melgueiro).

Os nomes portugueses ainda por lá estão: Baccalieu Island na Conception Bay (baía da Concepção), Bonavista, o Manuel's river e St. Johns, sendo o mais explícito Portugal Cove (já mencionado no Portugalliae.blogspot) que, tendo sido destruída e incendiada pelos franceses em 1696, talvez reporte a si o incidente ilustrado "na descida dos franceses à Terra Nova".

Jean de Laet dá-nos uma imagem diferente do simples aportar de Corte Real à Terra Nova. Numa citação (carta enviada a Hayklut), fala-se claramente numa seca de peixe (bacalhaus, claro) e no Cap. III, dá uma descrição dos portos que vão desde o Cabo Raso, falando nos nomes e seguindo as cartas portuguesas:
- Porto Formoso, Água Forte, Ponta do Farilhão, Iheu de Galeotas, Ponta de Ferro, Cabo de Esp(h)era,  St. Jean (São João), Baía da Concepcion, Ilha dos Bacalhaos, Cabo da Boa Vista, Ponta dos Ilhéus de Frei Luis... ilhas de S. Pierre - São Pedro, e ainda uma Ilha dos Pinguins - certamente as Grandes Alcas, que viriam a ser extintas dois séculos mais tarde.
Depois retornando ao Cabo Raso, no outro sentido, fala da Angra dos Trespassam, de um rio Chincheta, indo em direcção ao Cabo dos Bretões (Cap Breton) e passando pelo Porto dos Bascos... (o que dá uma clara ideia de que os pescadores da orla do atlântico, não apenas portugueses, mas também galegos, bascos, bretões e até irlandeses, cruzavam aqueles mares, pela abundância de peixe nos grandes bancos da Terranova).
Fala ainda claramente (pg. 40) de estabelecimentos portugueses na Ilha do Cap Breton, nomeando Ninganis ("enganos" hoje Ingonish, segundo o site dightonrock.com), que depois foi abandonado, bem como outros lugares, devido ao rigor climático. Também diz que os portugueses se tentaram estabelecer na Ilha de Sable, mas sem sucesso, como aconteceria com os franceses através do Marquês de la Roche.

Ou seja, acaba por ser através de Jean de Laet que temos o melhor panorama da presença portuguesa na Terra Nova. Sendo um relato francês, restam poucas dúvidas sobre a permanência naquelas paragens, pelo menos desde 1500 até 1696, aquando da "descida dos franceses"... 
Dada a existência de material estrangeiro atestando a presença nacional na Terra Nova e Nova Escócia (as Satanazes no mapa de Pizzigano de 1424), quanto mais não fosse pela presença para secar o bacalhau... percebe-se pouco a persistência interna em ignorar o assunto, talvez porque se tenha vergonha de assumir que a colónia foi abandonada à sua sorte.
Para além disso, existem mapas que atestam esse senhorio da Terra Nova e Lavrador ao Rei de Portugal e em particular aos Corte-Reais (cf. JM-CH, ver o Catálogo Huntington HM41- folha 4).

Note-se que "Canada" é uma palavra portuguesa antiga para medidas líquidas - era um duodécimo do almude, e dividia-se em seis quartilhos. À época de D. Manuel, uma "canada" seria um litro e meio, em Lisboa, e chegava a mais de dois litros a norte (ver "Mosteiro de St. Tirso", de F. Carvalho Correia). No site dightonrock.com fala-se num imposto de um décimo para o pescado na Terra Nova, sendo a "canada" um duodécimo do almude, não é de descartar que o termo se aplicasse nesse sentido de um imposto menor (8% em vez de 10%...).

Os pinguins do ártico acabaram por desaparecer, tal como praticamente a notícia dos portugueses que colonizaram a Terra Nova, ficou talvez a pequena "Portugal cove". Com o perigo da extinção dos bacalhaus no Canada, a criação de cotas restritivas no início dos anos 1970, e depois o fim dos navios coloniais em 1975, colocaram um ponto final na grande tradição marítima portuguesa. O patrocínio ao abate das frotas de pesca, no final dos anos 80, foi o golpe final. Em pouco menos de 10 anos, a tradição da nação de navegadores reduzia-se à pesca costeira artesanal.

Os colombos americanos
Termino com um outro apontamento de extinção surpreendente.
No Séc. XIX a colombofilia norte-americana parecia concentrar-se na figura de Colombo, recuperando o mito do descobridor caído em desgraça. Do outro lado, para os nativos pombos americanos, os pombos-migratórios, a columbofilia foi diferente. 
Último pombo-migratório (passenger pigeon) - Cincinati zoo.

Consta que os sociáveis pombos-migratórios infestavam os céus americanos, estimando-se em milhares de milhões a sua população. Porém, este sucesso reprodutivo acabaria por levar à sua extinção num curto período de tempo. Foi instaurada uma caça ao pombo, que só pode ser satirizada com o clássico "Stop the pigeon", ainda que este desfecho nada tenha de comédia:

Compreende-se o efeito devastador nas colheitas que poderia ter um bando de pombos com centenas de milhares de indivíduos, e nesse sentido a sua caça indiscriminada pode ser vista nesse contexto. Porém, ao que parece houve um autêntico patrocínio à exterminação completa, terá havido caçadores que sozinhos abateram mais de um milhão de aves.  Havia competições e jogos cujo objectivo era o extermínio. Quando alguns ambientalistas solicitaram uma protecção no estado do Ohio, em 1857, foi considerada absurda pelo número de pássaros existente. Em 1897 as leis de protecção foram ineficazes para travar a extinção. O último exemplar em cativeiro morreria em 1914 no zoo de Cincinati.

Os pombos eram associados a paragens euro-asiáticas, e foi talvez com alguma surpresa que foram sendo encontrados em todo o globo, na África tropical, nas Américas e até na Nova Guiné (onde a espécie "columba coronata" é algo curiosa).

Não me parece que o carácter migrátorio particular aos pombos americanos carregasse alguma mensagem perigosa que levasse a colombofilia a atacar a columbofilia. Já aqui falámos no papel simbólico mensageiro dos pombos, e do seu contraponto na falcoaria.
E acaba por ser simbólico termos as Pleiades, as pombas filhas de Atlas, na Hespérida ocidental, a América, termos um "Colombo" a desencobrir essas paragens,  e depois olhar para a foto de Martha, a última dos pombos-migratórios, vítimas de um holocausto programado:

Nota complementar (2/12/2012): 
Na sequência do comentário do José Manuel, lembrando o acordo de exploração de 1461, entre Afonso V e Cristiano I da Dinamarca, que envolveu viagens ocidentais do pai dos Cortes-Reais, ficam aqui os links por ele indicados, que complementam a informação:
http://portugalliae.blogspot.ch/2009/06/o-amundsen-ex-quebra-gelo-sir-john.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pesca_do_bacalhau

Aproveito ainda para referir a página do Instituto Camões sobre Diogo Teive:
onde se fala da sua descoberta das ilhas do Corvo e Flores, em 1452, confirmada por cartas de régias de doação, de Afonso V. Em particular é relevante a informação do filho de Cristovão Colombo, que reportando uma viagem ocidental ao Faial de 150 léguas (aprox. 900 km), coloca Diogo Teive mais próximo da Terra Nova do que do Corvo ou Flores (a 200 km).
E também é relevante a informação de Lorenzo Anania já aqui citada, que fala sobre a partida (em 1576) de Aveiro de numerosa frota de navios para a pesca ao bacalhau na Terra Nova.