sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Silêncio musical (2) Adeste Fideles

O ponto anterior, referindo a composição de Carlos Seixas, penso deixar claro ao leitor que em Portugal também houve quem tivesse alguma graça das musas, Euterpe ou Polímnia. Assim quando se atribuiu origem portuguesa o hino Adeste Fideles, não deverá ser considerado algo estranho... ou um disparate, conforme pretendido por alguns inúteis, antigos ou actuais responsáveis nacionais.



Em 1828 Dwyer associa esse hino aos seus pensamentos sobre a costa portuguesa...
Coasting along the rocks of Portugal, the imagination listens to the hymn of “Adeste Fideles;” along those of Sicily, it rests upon the “ O Sentissima” of the Sicilian mariners; (...)
Porque depois da apresentação na embaixada portuguesa de Londres, em 1795, à composição ficou associado o nome "Portuguese Hymn". Depois, como a composição se tornou um sucesso incontornável, e sem autor atribuído, começou outro fandango de autores.

Num anúncio de 1799 vê-se anunciado um Concerto de "Música Antiga", e atendendo à lista de nomes - onde predomina Händel (1685-1759), mas também De Majo (1697-1771), Marenzio (1553-1599), Pergolesi (1710-1736), Corelli (1653-1713) ou Gluck (1714-1787), podemos ver que não seria música tão antiga quanto isso... 


Interessa aqui a referência ao Portugueze Hymn - Adeste fideles... repare-se que todas as composições estão identificadas ao autor, excepto essa composição supostamente portuguesa.
Não haveria nenhuma especial razão para isso, caso o autor fosse conhecido.

Cito aqui o que escrevi num comentário (há 4 anos)
Porque, basta ver o site da Marinha Portuguesa, que cita a História de Portugal" (Vol.5) do conhecido historiador Joaquim Veríssimo Serrão:

«E, para além do monarca e do restaurador, impõe-se considerar nele o artista e o letrado, o amador de música que, no seu tempo, compondo o hino Adeste Fideles, esteve à altura dos maiores de Portugal.»

Não sei sobre os documentos que teriam sido encontrados em Vila Viçosa, a notícia da Wikipedia remete para uma obra a que não disponho de acesso:
- Neves, José Maria (1998). Música Sacra em Minas Gerais no século XVIII, ISSN nº 1676-7748 – nº 25
Os ingleses investigaram sobre o assunto, e apesar da obra ter sido dada a vários autores, convém notar que há alguns problemas. Foi assumido ser um tal de John Francis Wade, que assinara as pautas, mas essa versão definida só em 1947, tem o problema de Wade (1711-86) ser um copista de pautas musicais, que vivia em França... onde foi encontrada uma cópia muito anterior (mas sem a letra):
Por outro lado, em 1879, havia quem a atribuísse a Marcos Portugal, um músico conhecido da corte de D. João VI:

The tune known by the name "Portuguese Hymn" is commonly ascribed to Redding, an English composer, who died a century and a half ago. The real author seems to be Marcos Portugal, who died at Rio de Janeiro, forty-five years ago. He was a chapel-master of the King of Portugal, and composed the tune for the Latin hymn “ Adeste Fideles,” to be to be sung during the offertory in the worship of the Roman Catholic Church.

Texto que aparece em duas revistas inglesas:
- New Outlook (1879) - Volume 19 - Page 205
- Frank Leslie's Sunday Magazine (1879) - Volume 5 - Page 636

A obra que supostamente diria que havia documentos que associavam D. João IV, não faz nada disso.
É uma informação errada da Wikipedia, coloquei agora o link, e se fala numa atribuição ao rei do Adeste Fideles, não fala de nenhuma documentação associada a isso.

Também me parece claro que tendo sido encontradas partituras com a obra antes do nascimento de Marcos Portugal, também não faz qualquer sentido associar-lhe o nome. 

Há ainda assim diversos candidatos que poderiam estar ligados a Portugal e à composição - que se tratava de um hino católico romano, e assim pouco ligado a autorias inglesas ou até francesas.

O que parece claro é que após o Terramoto de 1755 muito material de origem nacional foi perdido, e pior que isso - foi perdido com intenção de nunca ser achado. Por isso, se mesmo quando há clara autoria e documentação, o assunto é remetido ao silêncio, o que falar dos outros casos, em que se perdeu o rasto?
O que parece especulativo, mas também será muito afirmativo, é que depois de 1755, se houve perda do património nacional, houve um grande renascimento musical europeu com autores preferidos da maçonaria, nomeadamente o seu Mozart.

A partir desse momento, e mais ou menos em simultâneo com todas as actividades intelectuais, a Península Ibérica sucumbiu num colapso mental, que nem mesmo as mais prodigiosas figuras nacionais (é claro, ligadas à maçonaria) conseguiram diminuir. Foi um vírus que atacou Portugal, Espanha e até mesmo em larga medida todos os países ibero-americanos. Coisa tão rara, e tão entranhada, que deveria ser objecto de estudo. Durante séculos também atacou a Rússia, mas estes conseguiram reescrever a sua história a tempo de entrarem no Séc. XIX e mais fulgurantemente no Séc. XX.

Para terminar fica uma lista de antigos compositores portugueses do período renascentista e barroco, (não esquecendo o músico medieval que foi D. Dinis). De entre estes nomes, ou talvez perdido entre tantos outros, poderá estar um candidato a ter escrito composições que nos são familiares, como é o caso do Adeste Fideles, e que se terão perdido na destruição de 1755, ou na persistente ocultação que se vai mantendo desde essa altura.

Renascentistas
Barrocos


4 comentários:

  1. Eis mais achega sobre este tema: https://1.bp.blogspot.com/-jQG0zjU3xv4/XidDTNnn9vI/AAAAAAAAwP4/MjJTDR7Qn7orYwXPktO_PJ2uAlMZBSBtQCLcBGAsYHQ/s1600/A%2BSala%2Bdas%2BPerguntas001.jpg

    O autor Fernando Campos, no romance A Sala de Perguntas, publicado pelo Círculo de Leitores em 2000, diz que foi Damião de Góis... :-)

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    1. Obrigado, Amélia.
      Gostava de saber se ele se fundamenta em algo, ou se é apenas uma hipótese literária.
      De qualquer forma, há um facto importante e que me esqueci de enfatizar - é que a versão inicial que aparece escrita vem com uma notação musical antiga, e portanto não é de excluir que a música possa ter origem mais antiga, do tempo de Damião de Góis. Agora se foi ele ou não, pois aí faltam dados mais objectivos.

      Abraço,
      da Maia

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  2. Creio que é mais uma hipótese literária... mas nunca se sabe... ;-)

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    1. https://alvor-silves.blogspot.com/2020/01/dos-comentarios-59-tradicao-e-traducao.html

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