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domingo, 4 de agosto de 2013

Santelmo

Por mero acaso, hoje, que se comemoram 435 anos sobre a batalha de que deixou Portugal suspenso, encontrei este vídeo, da TvL Odivelas, sobre o Elmo de D. Sebastião, numa entrevista a Rainer Daehnhardt:

Perspectivas : O Elmo de Dom Sebastião- Rainer Daehnhardt
O elmo de D. Sebastião, segundo R. Daehnhardt.
Programa Perspectivas da TvL.

falei muitas vezes sobre D. Sebastião, e não terei muito mais a acrescentar. 
Já conhecia esta história do Elmo, apresentado há dois anos, numa fugaz participação que tive no facebook, mas não conhecia o vídeo, que é posterior, e onde Daehnhardt detalha as suas conclusões sobre o elmo.
Em particular, depois de explicar as razões que levam à suspeita que foi um dos elmos usado em batalha, dirige as suas conclusões para a violência dos impactos sobre o elmo. Talvez a parte mais interessante é a sua conclusão de que o portador do elmo estaria vivo, e teria rechaçado os inimigos (em número que aponta até mais de 70)... nessa altura, ao abrir a viseira seria atingido por um lança granadas, a curta distância, que teria levado à morte... do rei?
- Rainer Daehnhardt admite a hipótese de ser já um escudeiro a lutar com a armadura do rei. De qualquer forma, o disparo de granada visaria a morte do rei, e sairia por traição, de entre as tropas nacionais.
A outra hipótese leva à diversa especulação de que o rei não teria morrido, nomeadamente à hipótese do Prisioneiro de Veneza...

A expansão otomana complicara o equilíbrio de forças no Mediterrâneo, e após a perda da Ilha de Rodes em 1520, a Ordem dos Hospitalários de S. João fica sem terras, e vai receber a oferta Carlos V sobre as Ilhas de Malta e Gozo, bem como a cidade de Tripoli (em poder espanhol desde 1510).
Em troca, a Ordem, agora chamada Ordem de Malta, entregaria simbolicamente um falcão anualmente... o chamado Falcão Maltês (tributo que esteve na origem do filme Maltese Falcon), o que fez até à intervenção militar de Bonaparte em 1798. Com essa intervenção e a inglesa, os domínios da Ordem de Malta reduziram-se desde então a uma propriedade em Roma...

Esta Ordem militar hospitalária que construíra o Crac dos Cavaleiros, recebera o espólio dos Templários aquando da sua supressão e condenação francesa, acabou mais dedicada ao corso, devido à perda dos territórios na Terra Santa.
O seu renascer como Ordem Malta associava-se ao grande êxito militar quando o grão-mestre La Valette, do Forte de Santo Elmo, consegue segurar o Cerco de Malta, feito pelos otomanos, em 1565.
La Valeta e o Forte de Santo Elmo
(onde La Valette segurou a invasão otomana em 1565).

Nessa altura, o sucesso cristão na Batalha de Lepanto teria como contraponto a perda de Chipre, e a perda definitiva de Tunis em 1576, colocava um acentuado domínio otomano sobre o Mediterrâneo.
É assim simbólico que Filipe II decline o apoio ao sobrinho, mas ofereça a D. Sebastião o Elmo de Carlos V, que ele levara na conquista de Tunis... onde o galeão Botafogo teria servido como peça fundamental.

Não é o Elmo de Carlos V o que é exposto por Daehnhardt, que fala na utilização de 3 diferentes armaduras por D. Sebastião em batalha. O elmo em causa aparenta uma resistência superior, capaz de resistir às armas convencionais, mas não a uma granada europeia disparada a curta distância.

Santo Elmo aparece como designação alternativa para São Erasmo de Fórmia, padroeiro de navegantes, parecendo algo forçada a redução do nome Erasmo para Elmo... ou Telmo (sendo ainda associado a um frade dominicano Pedro Gonzalez).

O Fogo de Santo Elmo, estranho fenómeno em tempestades, era descrito pelos marinheiros portugueses como "fogo de corpo santo". Tal fenómeno é descrito no Canto V (17-18) dos Lusíadas:

Os casos vi, que os rudos marinheiros, 
Que têm por mestra a longa experiência, 
Contam por certos sempre e verdadeiros, 
Julgando as cousas só pola aparência, 
E que os que têm juízos mais inteiros, 
Que só por puro engenho e por ciência 
Vêm do mundo os segredos escondidos, 
Julgam por falsos ou mal entendidos. 

Vi, claramente visto, o lume vivo 
Que a marítima gente tem por santo, 
Em tempo de tormenta e vento esquivo, 
De tempestade escura e triste pranto. 
Não menos foi a todos excessivo 
Milagre, e cousa, certo, de alto espanto, 
Ver as nuvens, do mar com largo cano, 
Sorver as altas águas do Oceano. 


 
Ilustração do fogo de santelmo, e ilustração do Séc. XVI de Santo Elmo 

Camões não nomeia o "fogo de santelmo", apenas disserta sobre a incredulidade dos sábios face às descrições dos "rudes marinheiros". Dado o aspecto de fuzis que disparavam cargas eléctricas partindo dos mastros dos veleiros, a então nova capacidade dos elmos resistirem a esses disparos, conforme explica Daehnhardt, justificaria a invocação da mesma protecção simbólica para os navegantes.
Acresce que o nome Santelmo vai aparecer na mitologia Filipina... nas ilhas de Filipe II, em disputa com D. Sebastião. Aparece aí como uma monstruosidade capaz de emitir bolas de fogo... e não necessariamente granadas convencionais.

A principal curiosidade é que este tipo de elmo e armadura eficaz contra projécteis teria o seu fim exactamente nesta época. O elmo completo de D. Sebastião talvez tenha sido dos últimos usados em batalha... a partir dessa data, usar-se-ia apenas um capacete, em tropas especializadas, como couraceiros ou dragões. Apesar da aparente infalibilidade protectora, o aumento de poder de fogo, e especialmente o "pragmatismo", acabariam por condenar a capacidade de salvação do Elmo.
Os reis e generais ficariam habitualmente fora da primeira linha dos cenários de guerra. A reposição do material humano, carne para canhão, seria afinal mais económica do que financiar um equipamento pesado, protector da soldadesca...

É ainda interessante Daehnhardt referir como foram tratados os restos das cotas de malhas de ferro... no Séc. XIX o liberalismo cuidou de reduzir essa memória à dilaceração para esfregões de panelas! Vêem-se mesmo alguns tachos que usavam partes de armaduras.
Mais do que reciclagem de material... a ideia seria sempre a reciclagem da memória!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Adamastor (26/12/2009)

Quinto texto da série "Tese de Alvor-Silves", publicado em 26/12/2009. Aqui, nalguns pontos, a interpretação "artística" vogou na corrente, e sobrepôs-se à necessária objectividade. Passados alguns dias, vendo isso, decidi concatenar a parte factual dos mapas (deste, e do texto anterior), suprimindo o restante. Por isso, o texto que aqui recoloco deve ser visto mais como uma obra de ficção com base nalguma documentação objectiva, por mais sentido que possa fazer.

Entretanto já percebera que o sistema estava completamente minado, não apenas pelas instituições formais, mas até nas informais. Por isso, a abordagem mais informal, mais polémica, acabou por ser menos eficaz do que tinha previsto. Antes, fruto de educação e informação distorcida, pensara erradamente que o sistema poderia reagir bottom-up, mas as mudanças conhecidas, mesmo aparentando a forma revolucionária, tiveram quase sempre uma génese top-down

A partir daí, tudo ficou mais fácil... não me tinha dado conta de que não precisava fazer quase nada, de que tudo se desenrolaria naturalmente, como uma evidência submersa que pela sua leveza terá forçosamente que emergir.

Segue-se o texto:



terça-feira, 6 de março de 2012

Nuno Gonçalves (14/12/2009)


Nuno Gonçalves
Painéis de S. Vicente de Fora

O que está representado nos Painéis de S. Vicente de Fora? 
Um longo instantâneo da família Avis, na sua interpretação em 1491-92.
Tese de ALVOR SILVES
14 de Dezembro de 2009

A época



Para compreender os painéis de Nuno Gonçalves é preciso perceber o que faz sentido e o que não faz...
Comecemos pelo 3º painel, dito Painel do Infante.

  • (i) O Infante D. Henrique está representado... isto é basicamente indiscutível, dada a imagem semelhante que existe nas Crónicas dos Feitos de Guiné de Zurara. 

Dado que na imagem das Crónicas o Infante tem um aspecto ligeiramente mais jovem, é de admitir que no mínimo, este quadro seja posterior ao das Crónicas, posterior a 1453. Isso exclui teses mais estranhas, que colocam esta pintura nos anos de 1440-50. É de notar que se o nome de Nuno Gonçalves aparece como pintor da corte em 1463, será difícil conceber que o tenha feito antes. E se não foi Nuno Gonçalves, então será preciso justificar outro autor...

Por outro lado, o quadro deverá ser anterior a 1492, pois Nuno Gonçalves terá desaparecido nessa altura. Surge uma hipótese habitual e que faz sentido ~ entre 1470-80 ~ mas então é preciso admitir que o Infante D. Henrique já está morto. Haverá maneira de ver isso?

  • (ii)  O Infante D. Henrique, tal como outros personagens no quadro, têm as mãos unidas. Típico sinal de falecimento, não será?
  • (iii) Assim, será ainda possível associar o Infante D. Pedro à figura (muito semelhante ao seu retrato mais jovem) que surge em primeiro plano no 5º painel, dito dos Cavaleiros.
Mas agora, reparemos noutro detalhe importante:

  • (iv) À excepção de um, no 5º painel (do qual não se vêem as mãos), todos os personagens sem as mãos unidas têm a barba cortada... nota-se aliás que há quem a use e a tenha mal feita.

Há algum facto de tal forma marcante, em que todas as pessoas do reino tenham feito a barba? 
Sim, ocorreu em 1491... foi a morte do herdeiro - o príncipe Afonso, filho de D. João II.

Estamos no limite atribuível a Nuno Gonçalves... talvez exactamente por razão deste quadro!

Este quadro terá sido encomendado por D. João II, para promover a sucessão de Dom Jorge, seu filho "bastardo", e ao mesmo tempo prestar homenagem ao filho morto... que não aparece no quadro.
Como a sucessão se deu pela linha oposta, ou seja, por D. Manuel, é natural que o quadro tenha sido escondido durante séculos!
Nada é acidental... nem a consequente morte de D. João II, escolhida para Alvor, nem o repouso em Silves, antes de seguir para o Mosteiro da Batalha. 
O clima fúnebre e sinistro do quadro, mantém-se hoje... 



Tese de Alvor Silves

Este quadro será um instantâneo único, de todo um processo que levou à morte de D. João II em Alvor, fora da corte, quase isolado. Esse desfecho até já se antevê no magnífico quadro!

Painel real (o terceiro)

Fará tudo o resto sentido, com base nesta hipótese?

  • (v) O rei ajoelhado no 3º painel é D. João II, aos 36 anos. A criança é D. Jorge, com 10 anos. Não está ao lado da Rainha, está na sucessão do pai, na linha do "navegador" D. Henrique.
  • (vi) Quem são as duas figuras femininas poderosas, que aparecem nesse 3º painel?
    A mais velha e também a mais poderosa, será Dona Beatriz de Viseu (com 61 anos), mãe da Rainha D. Leonor (com 33 anos), que se encontra ajoelhada, do outro lado do Rei. Ambas as figuras fazem jus a outros retratos contemporâneos. Haverá outras duas figuras femininas, mais marcantes, à época dos descobrimentos?
Todos estes protagonistas estão vivos, e sem dizer nada, dizem-nos muito!
Nuno Gonçalves capta a alma de forma muito sublime.
Nesse 3º painel, dito do Infante, falta apenas falar de uma figura que tem algum destaque, mas que está na sombra dos acontecimentos... com as mãos unidas, está morto. Poderia estar no 2º painel, mas não será acidental o espaço que surge entre o personagem que se ajoelha por terra, em sinal de penitência, e a personagem seguinte... trata-se de Dom Afonso, 1º Duque de Bragança. Aparece ao lado do meio-irmão, Henrique, em aparente oposição, e mais acima! 
O Infante Dom Pedro não poderia estar neste painel. Surge inequivocamente no plano do seu neto, o Rei D. João II, mas noutro painel, no 5º painel. 
A Batalha de Alfarrobeira nunca desaparecerá do futuro português.

Outros painéis

A partir daqui, não será tão fácil, mas é ainda assim possível encontrar uma linha de raciocínio consistente.
  • (vii) No 1º painel (dito dos frades), estão por ordem de sucessão os reis de Avis, anteriores a Dom João II. Ou seja, primeiro D. João I (mãos juntas, morto), depois D. Duarte (dá indicação das mãos juntas, morto), depois D. Afonso V (mãos juntas, morto). As figuras dos três estão dentro das descrições ou outras imagens que temos deles. Este será o Painel dos Reis... ou da Ordem de Avis, já que é natural que a sua representação invoque a sucessão de Avis pelo lado religioso. Dessa forma se justifica o aparecimento em bastidores de outros protagonistas de menor relevo, ligado ao seu papel enquanto mestres da ordem.
  • (viii) No 2º painel (dito dos pescadores), está a descendência pelo lado de Nun'Álvares Pereira. Será ele o protagonista, em penitência, com as mãos juntas (morreu bastante velho). Há um espaço em branco, de onde terá saído o sucessor genro, o Duque de Bragança, que passou para o 3º painel, por razões já explicadas (parcialmente). Por isso, a seguir aparece uma figura dúbia, representando uma neta. Poderá ser uma representação dupla, invocando a mãe de Dona Beatriz de Viseu, pois assim aparece ao lado da filha (no painel seguinte). Mas também, invocando a irmã, mãe da Rainha Isabel de Castela, a Católica. Parecerá um pescador?
  • (ix) É natural que essa importante figura do 2º painel se pareça com um pescador. Tem a rede, onde foi colocado o corpo do príncipe morto, e daí ter surgido o símbolo do camaroeiro da Rainha D. Leonor. A rede é uma rede política, muito complexa, que herdámos. D. João II olha de frente, nessa direcção da sogra, herdeira das irmãs Bragança, pela sua cumplicidade com a sobrinha, Rainha de Espanha. Procurará apontar aí as culpas desse destino do filho? É muito provável. Não tenho ainda dados suficientes consistentes, para alvitrar o personagem que se encontra ao seu lado... Com a herança deixada por este painel, torna-se clara a posição de grande penitência em que se encontra Nun'Álvares.
  • (x) No 4º painel (dito do Arcebispo), em primeiro plano surge uma corda. Representa, como habitual as navegações. Por razões, que mais tarde explicarei, deverá representar Gama, o escolhido pelo Santo, através de D. João II, para anunciar a Índia. Do outro lado, deverá ser Diogo Cão, que será preterido na escolha. Neste é momento, apenas posso conjecturar que colocado em posição semelhante à da mãe, surja D. Diogo, o duque de Viseu, com as mãos juntas, morto pelo rei. Para os outros dois há, entre os navegadores, demasiadas hipóteses. Em cima, aparece um Cardeal ou Arcebispo, morto, poderá ser D. Pedro de Noronha (mas não é de excluir a hipótese de ser Jorge da Costa, morto para D. João II, exilado em Roma). Os bispos podem ser os próximos de D. João II, o de Coimbra, de Tanger e do Algarve, e depois o prior do Crato.
  • (xi) No 5º painel (dito dos Cavaleiros), aparece em destaque o Infante Dom Pedro, o avô materno que foi grande inspirador de D. João II, morto pelo seu pai em Alfarrobeira. Depois deveria aparecer outro infante, o Infante Dom João, mas devendo estar morto, talvez as luvas verdes permitam uma excepção simbólica... permitindo ainda incluir o Infante posterior, o pai da Rainha Dona Leonor, Dom Fernando de Viseu, também morto, e no seguimento desta sucessão aparece o filho D. Manuel, irmão da Rainha e pretendente à sucessão. Por outro lado, seguindo a linha dos primeiros Infantes, mais acima confirma-se dever ser o Infante Santo, morto, e as suas mãos nem são vistas, indicando talvez que não teve o repouso de morte digna. 
  • (xii) No 6º painel (dito da Relíquia), devem estar representados em destaque os dois sábios em que mais confiava D. João II. O físico-mor Mestre Rodrigo (de Lucena) e o matemático Mestre Josepe (José Vizinho, de origem judaica). O mais velho, parece ser alguém representando o conhecimento popular, que não frequenta a corte, e por isso está curvo, tal como dois navegadores no 4º painel. A relíquia, o osso craniano, pode ser uma alusão ao defunto Afonso, indicando a fractura da futura cabeça do reino. Falta a relíquia - o cérebro, para ler tudo o que o painel representa. Falta ainda o cérebro para prosseguir a herança do conhecimento de Avis - é essa a relíquia que o Mestre Rodrigo nos mostra.

A representação dos diversos estratos sociais não é errada. Foram todos habilmente vestidos para que os painéis permitam ainda essa interpretação imediata. O 1º, 3º e 5º painéis representam protagonistas de realeza, contendo figuras de infantes e reis, são os painéis ímpares. Os outros, painéis pares, representam de alguma forma personagens igualmente fulcrais, mas que não tinham ascendência directa na realeza.

O impacto deste retrato de família, promovendo como herdeiro Dom Jorge, para além dos outros detalhes referidos, deve ter sido devastador na facção já dominante na corte, que pretendia ver apenas como solução de sucessão Dom Manuel. Essa sucessão foi mesmo inserida como condição no Tratado de Tordesilhas. Não admira o desaparecimento do pintor, depois do quadro, e finalmente o envenenamento do Rei (bem enfatizado por Garcia de Resende, dadas as circunstâncias...) que ainda assim demorou mais tempo a morrer.



Detalhes



A dualidade Poente-Nascente

Nuno Gonçalves, é um ímpar entre ímpares... e este quadro poderá ter influenciado a "última ceia" de Leonardo da Vinci, que aparecerá poucos anos depois. Estranho?

Os painéis exploram uma dualidade esquerda-direita, i.e. poente-nascente, ou ainda ocidente-oriente!
O mesmo santo, S. Vicente, apareceria ora virado para ocidente, ora virado para oriente!
Mesmo se S. Vicente estiver de fora... será irrelevante, pois o nome tanto poderá resultar de terem ocultado os painéis, como pode ser o nome original, e querer indicar que há dois santos.
Havendo dois santos é natural que possam representar uma dualidade entre São Tiago e São Tomé, ou ainda entre São Jorge e São Bartolomeu... aqui há demasiadas hipóteses!

De facto, não é acidentalmente que há personagens virados para ocidente e outros virados para oriente. E isto não tem a ver com aspectos que promovam a centralidade do quadro... o Infante Santo é o mais claro, e a sua direcção oriental desfavorece essa centralidade:
  • Ocidente - é o lado de D. João II, e do Infante Dom Pedro, e por agora ficamos por aqui...
  • Oriente - é o lado dos que se lhe opuseram, é o lado da gloriosa cruzada contra os infiéis a Oriente, é o lado da guerra na Índia. Será o lado de S. Bartolomeu... ou será coincidência que o nome de quem "dobra" o cabo da Boa Esperança é o - até então - anónimo Bartolomeu Dias... ou será melhor escrever mesmo:
    DIA S   BARTOLOMEU

    e será preciso dizer que o DIA S. BARTOLOMEU se torna um dia repetidamente importante?  Será preciso dizer que S. Bartolomeu é suposto ter pregado o cristianismo na Índia? Será preciso dizer que a tomada de Arzila, crucial para os preparativos da Cruzada, se deu no Dia de S. Bartolomeu? Já não falo do Massacre de S. Bartolomeu, em França... porque isso faz parte de capítulos seguintes. Claro que deve ter havido alguém encontrado, que foi assim rebaptizado, mas isso não foi feito com o devido profissionalismo, e deixou estas dúvidas.

Os painéis exploram assim a ideia de reflexão num espelho, e essa reflexão faz parte da Relíquia do conhecimento nesta obra... mas há um desequilíbrio propositado, tal como na "Última Ceia" de Leonardo de Vinci. Há uma força que se vira para Oriente que é maior do que a força virada a Ocidente. Dada a importância de Portugal à época, enquanto grande potência, convém notar que o problema português está colocado num tabuleiro muito maior. 
Na "Última Ceia", Da Vinci coloca obviamente um só Cristo, que se vira a Oriente, e coloca mais vida numa representação de Andrea del Castagno (... época da morte do Infante Dom Pedro). Em Da Vinci, a centralidade da coluna, atrás no horizonte, é deslocada e Cristo, ao centro, vira-se para o lado que irá dominar, o lado Oriental-Nascente. - É o lado da Cruzada, dos sacrifícios de guerra por Cristo, é o lado da Ordem de Cristo, e tem 8 elementos (inclusivé Cristo). Virado a Poente está João, o lado Evangelista, ao lado de Cristo, mas caído (1495: data atribuída ao início do quadro, morte de João II). Há apenas 5 elementos virados a ocidente, que ou protestam/ou se resignam a mais esta decisão de Cristo. Podem parecer forçadas as comparações, para um posicionamento de reinos e não de figuras nacionais, e por isso não adiantarei mais... já que não me parecem acidentais todas as relações que aparecem na tese do "Código da Vinci", similares nas conexões, mas diferentes no moto e na essência!

Leonor

Acerca de Camões, faltará dizer muito, e não é para já... mas não posso deixar de incluir aqui a descrição que ele faz de Leonor - se o leitor quiser fazer o esforço de se libertar de condicionantes culturais.... deveremos ver Leonor como uma camponesa dos "amores mundanos" de Camões?




À esquerda, a loura e alva Princesa Perfeitíssima, Leonor
Em baixo, o poema de Luís Vaz de Camões

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Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura
Vai fermosa e não segura
Leva na cabeça o pote
O testo nas mãos de prata
Cinta de fina escarlata
Sainho de chamelote
Traz a vasquinha de cote
Mais branca que a neve pura
Vai fermosa e não segura
Descobre a touca a garganta
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado
Tão linda que o mundo espanta
Chove nela graça tanta
Que dá graça à fermosura
Vai fermosa e não segura

______________________________________

Talvez me esteja a antecipar, Camões não será assim tão óbvio! 
Onde está a fonte? Quem está descalça? Onde está a verdura?.... 

Optar por entender que é Leonor que vai descalça para a fonte... é opção do leitor/comentador.
Retirei as pontuações, pois não tenho acesso ao original. Alguém terá? Fica a cargo do leitor decidir.

sábado, 11 de junho de 2011

Campo Damasceno

No texto anterior mencionámos as citações de Carvalho da Costa a Camões, e na estrofe que se segue, ou seja, a 9ª do Canto III, aparece uma referência ao Campo Damasceno:
       Aqui dos Citas grande quantidade 
       Vivem, que antigamente grande guerra
       Tiveram, sobre a humana antiguidade, 
       Co'os que tinham então a Egípcia terra;
       Mas quem tão fora estava da verdade, 
       (Já que o juízo humano tanto erra)
       Para que do mais certo se informara, 
       Ao campo Damasceno o perguntara.

Começamos com a referência a uma grande guerra entre Citas e Egípcios...
A noção de Citas está ainda mais mal definida do que a de Celtas, servindo esta palavra para resolver com uma única designação um eventual grande grupo de tribos nómadas para além da Pérsia, e que se estenderia da Samárcia à Tartária.
No entanto isso não nos ajuda relativamente a esta "grande guerra" com os que tinham a terra egípcia... e a propósito do Campo Damasceno.

O que temos de mais próximo para se ajustar a tal menção será a Batalha de Kadesh entre Hititas e  o Egípto de Ramsés II. Atrevemos a sugerir isto porque a noção de "Hitita" é razoavelmente recente... na realidade só começou a fazer parte dos livros comuns de História no final do Século XX, apesar de hipóteses já colocadas no Séc. XIX. Ou seja, Camões, ou qualquer outro escritor até ao Séc. XIX nunca falaria de Hititas... os Hititas apareceram do nada, sem referências perceptíveis em textos antigos.
Batalha de Kadesh (Síria)

A situação é de tal forma surpreendente que, apesar da ausência de menção durante milénios, os Hititas renascem no Séc. XX como se sempre tivessem sido mencionados. São encontrados os documentos de relações diplomáticas com o Egipto e com os Gregos, o que vai levar rapidamente à descodificação da sua linguagem! Ao contrário do habitual, tudo corre sem grande polémica...
Para já não quero dizer mais nada sobre o assunto, apenas que é tão estranho os hititas terem estado fora da inspecção cuidadosa dos investigadores anteriores, como é estranho a súbita aceitação, mais uma vez na zona da Turquia - região que é um autêntico depósito de vestígios antigos. 
A existência de Hititas permitiu resolver uma lacuna de inexistência civilizacional nessas paragens na altura do Antigo Egipto, e deu assim consistência a muitos achados na Ásia Menor que não encaixavam nos períodos temporais posteriores.

Para o que interessa, podemos admitir que Camões se referia a esta guerra entre Hititas e Egípcios... ou melhor, com "quem tinha então o Egipto", algo que já tinha sido também mencionado no século anterior (Séc. XV) por Marco António Sabélico.
Em ambos os casos, o assunto era o Campo Damasceno, território na Terra Santa, que foi consagrado como primeiro local onde se povoou o mundo... ou seja, seria aí o Jardim do Éden.

O nome Damasceno está associado a Damasco, na Síria, mas acabou por ficar mais ligado a Hebron e ao monumento árabe que celebra o Túmulo dos Patriarcas: Adão e Eva, Abraão e Sara, Isaac e Rebeca, Jacó e Lea.

O Túmulo dos Patriarcas, em Hébron. Construção muçulmana (em 1906 e actualmente)

Portanto, a disputa sobre a aparecimento do Homem (que hoje é colocada no Vale de Rift, África), e do local do Jardim do Éden, teria entretido Citas e Egípcios em poderosas guerras... mas como dizia Camões, para certeza do local bastava visitar o Campo Damasceno.

Convém fazer um pequeno parentesis para dizer que não é muito claro o que Camões pretende dizer... há quem pretenda que os restos encontrados seriam sim de gigantes, ou seja pode ler-se nalguns textos criacionistas que Adão e Eva para além de lhe ser atribuída longevidade quase milenar, seriam ainda gigantes! Já vimos em muitos filmes que era frequente no final do Séc. XIX, princípio do Séc. XX, aparecerem registos de monstruosidades ou anormalidades, que faziam atracção em feiras (não sendo reconhecidos oficialmente, não poderiam fazer sucesso em mais nenhum lugar). Um dos casos é justamente o de um gigante petrificado encontrado na Irlanda (Revista Strand, em Dez. 1895):

Se houvesse já na altura de Camões alguma suspeita dessa dimensão gigantesca, pois faria sentido perguntar ao Campo Damasceno, onde estariam as ossadas... já que assim a resposta teria alguma evidência auto-explicativa!

Em 1817 o Frei João de Jesus Christo é sensato ao dizer:
(...) a terra he roxa, o que a palavra Adam significa. Santo Arnulfo, antiquissimo peregrino da Terra Santa, afirma, que ali vira o sepulcro de nossos proloplastas Adam, e Eva. Alguns querem, que neste vale fosse o Paraiso, onde Deos colocou Adam. Porém apesar dos belos discursos, que se tem feito sobre estes objectos, eles serão sempre ignorados; e muito mais sabendo-se, que o Diluvio mudou a face da terra. O melhor é confessar, que visto o alto silêncio da Escritura, e tradição sobre isto, nada se sabe de certo.
Não tanto, por nenhum dilúvio ou fenómeno natural, mas muito mais pela acção humana, se tal sepulcro existisse dificilmente se manteria, resistindo a toda a pressão de encobrimento e destruição.

Adam significaria "a terra é roxa", o que é especialmente curioso já que no Séc. XIX o escocês McAdam (filho de Adam) vai desenvolver estradas de macadame, que associamos a estradas de terra batida, de cor semelhante à que vemos nos courts de ténis! E de forma não relacionada, um outro MacAdam australiano do Séc. XIX irá dar nome a uma planta, talvez do Jardim do Paraíso, a que associamos a macadamia!

Não sei se o nome Damasceno deriva de Adam, por deturpação de Adamasceno... mas é de admitir essa ligação, e assim Damasco poderia ter essa referência primeva importante.
Pela parte dos gregos, era comum usar a palavra Adamas, de onde deriva Adamantino como nome para matéria quase inquebrável, dura como o diamante, ou para pessoas marcadas pela integridade. Essa matéria adamantina fez parte do elmo herculano. Para além de Hércules, Perseu matou a Medusa com um punhal adamantino, e era dessa matéria as correntes que prendiam Prometeu, ou a faca usada por Cronos para castrar o pai Urano, entre outros exemplos.

Notas: (12/6/2011)
1) O recente texto Ager Damascenus de Anthony Hilhorst (Univ. Gröningen, 2007) explora justamente a localização do Campo Damasceno, entre Jerusalém, Hébron e Damasco, seguindo a evolução na tradição milenar.
2) Camões usou a figura de Adamastor, titã quase não referenciado na mitologia greco-romana, e que poderia ter ligação etimológica a Adamantino e a Adam, conforme dito em cima.
3) Por isso, quando há um ano ligámos Adamastor a um eventual anagrama com Madrasto, estávamos obviamente concentrados num único enigma... e longe de suspeitar na altura a extensão e confusão de múltiplas ocultações. Ou seja, se hoje abandonamos essa ligação ao anagrama, ainda não abandonamos uma propositada caracterização da figura de D. João II através de Adamastor.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Nova Zimla

Já fizemos várias vezes referências a António Carvalho da Costa, desde o seu Tratado de Astronomia à mais conhecida Corografia Portugueza. Não tínhamos ainda falado do seu Compendio de Geographia, de 1686, e vamos começar por fazê-lo a propósito de Camões!

Há mais de um ano, quando falámos de Lampetusa, a propósito da Carta do Atlântico Norte, e mais recentemente sobre o Trópico Semicapro, invocámos as descrições geográficas constantes nos Lusíadas, como peça não negligenciável de informação.
Curiosamente, fomos agora encontrar essa mesma associação no Compêndio de Geografia de Carvalho da Costa.
O matemático e cosmógrafo jesuíta terá sido das últimas pessoas a evidenciar um claro domínio de um conhecimento multidisciplinar em Portugal, sendo notório que após o Tratado de Methuen e a sujeição a um constante desequilíbrio comercial, a única produção que saiu destas praias foi essencialmente a literatura que expressava o atrofiamento cultural.
A obra de Carvalho da Costa já é só importante a nível nacional, mostrando que Portugal não estava ainda fora do desenvolvimento europeu, e poderia ter recuperado... caso a Restauração tivesse sido mesmo de verdadeira independência, e não tivesse depois ficado toda a Ibéria sujeita a ditames comerciais na nova ordem mundial de Vestfália, especialmente sujeita à protecção inglesa ou veneração francófona... sendo as duas faces da mesma moeda.

Para descrever a parte setentrional da Europa, Carvalho da Costa cita o Canto III (§8) dos Lusíadas, que começa assim:
Lá onde mais debaixo está do Pólo, Os montes Hiperbóreos aparecem
(...)
Que a neve está contino pelos montes, Gelado o mar, geladas sempre as fontes.


Fazemos apenas um parêntesis para referir mais um caso de adulteração corrente... "contino pelos montes" é transcrito "contido pelos montes" quando é obviamente "contínuo pelos montes"! Os fonemas sobrepõem-se sempre à sua escritura posterior...

Esta citação é colocada exactamente depois de dizer "o qual vai também correndo pela parte do Norte para o Oriente direito à Nova Zembla, da qual parte Boreal de Europa fala o nosso Poeta (...)"
Ao descrever o Oceano Hiperbóreo (hoje dito Ártico) até Nova Zembla, parece pretender que o Mar de Barents já teria sido invocado nos Lusíadas. Ora esse conhecimento e descobrimento é atribuído depois a Barents... algo que é contraditório com a datação do mapa de João Lavanha, Theatrum Mundi, onde aparece Nova Zimla e toda a costa norte da Rússia.
Em particular, nesse mapa, datado entre 1597 e 1612, aparece claramente o Rio Obi (Ob ou Obio) e o Rio Lena até ao Lago Baikal, coisa impossível, se atendermos à historiografia oficial que coloca este descobrimento do Lena em 1633 e a origem do nome por Elyu-Ene, na língua local... Porém, talvez haja uma estória mais simples, com um navegador leiriense a lembrar-se do seu rio Lena, e assim a explicar esse registo no muito anterior mapa de Lavanha.
Pilares do Rio Lena, Sibéria Oriental 

É mais ou menos claro que há pormenores estranhos em toda esta história, e havendo uma "Nova" Zembla seria de procurar a Zembla (em russo Zemlya é Terra) original... coisa que parece ter motivado o escritor russo Nabokov na sua obra Pale Fire, identificando uma Zembla imaginária, uma Ultima Thule com um rei colocado na posição xadrezística de Solus Rex (o rei solitário pode não levar à vitória, mas pode forçar o empate por impasse ou abafamento).

No entanto, se seguirmos a designação Zimla, no mapa de Lavanha, vamos parar aos montes da Jordânia... 
Como é óbvio, Nova Zimla, Nova Zembla, ou Novaya Zemlya, já seria conhecida de pescadores russos.. no entanto estes não teriam a chancela da Cúria ocidental para reclamar tal descobrimento, e assim toda a parte da costa norte russa, agora chamada Sibéria, e antes chamada Tartária, era considerada desconhecida. Por aqui chegamos, mais uma vez ao Estreito de Anian, hoje dito de Bering. Diz Carvalho da Costa (pag. 80):
Mar Tartárico que fica ao norte da Tartarea & confina com a Nova Zembla da parte de Leste, comunicando-se com o Oceano mais Ocidental da América, & com o mar, que fica ao Norte do Japão pelo Estreito de Anian, se é que há tal Estreito dividindo Ásia de América, como se descreve nos mapas, o que os Chinas negam & o negava o nosso Joseph de Moura, que tinha feito grandes navegações.
Com alguma prudência, Carvalho da Costa refere o Estreito, que ficaria reservado a Bering, várias décadas depois, porque o nome Anian estava envolto na proibição de que já falámos várias vezes. 
É curioso a referência à negação dos chineses (sobre Joseph de Moura, não se tratando certamente de Bastião de Moura, não encontrámos registo)... Essa negação chinesa talvez manifestasse o receio de explorações sistemáticas que ameaçassem Fusang.

Quanto à Tartária, a história do Império Tártaro acabará definitivamente com Pedro, o Grande.
Em 1686, quando o padre Carvalho da Costa escreve, pode ainda referir (pág.133): 
"A segunda parte da Ásia é aquela que está sujeita ao Grã Cão Imperador dos Tártaros, cujos fins pela parte do Sul são o mar Cáspio, o rio Jaxartes, o monte Imaus [Himalaias]; pela parte do Oriente e Setentrional o mar Oceano; e pela parte do Ocidente o reino já dito da Moscóvia."
É pelo reino da Moscóvia que todo o Império Tártaro cairá... se os gregos chamavam Tártaro ao inferno, considerar que a conquista russa teve combates isolados com tribos nómadas, é capaz de ser uma visão simplista... poderá ter sido um inferno do qual não subsistem registos. Na altura, dizia ainda sobre a quinta parte da Ásia: "contém o mais vastíssimo Império da China, sujeita agora ao Tártaro Oriental, (...)". Ou seja, a China em 1686 estava sujeita aos Mongóis/Tártaros, pelo domínio da dinastia Qing, de etnia Manchu (Manchuria), que em 1644 substituíram os Ming no controlo da China.

O Grã Cão Tártaro estava colocado ao mesmo nível do Grão Turco Octomano(*), enquanto Imperador, muito diferente do Reino da Pérsia do qual dizia "hoje governa-se pelos Sábios". Já aqui referimos que a configuração da Sibéria, pela anterior ligação do Mar Cáspio ao Oceano Antártico, pela bacia do Rio Obi e Mar de Aral, teria significado uma evolução bem diferente.
Tal como António Galvão, também Carvalho da Costa menciona a entrega de Índios ao romano Quinto Metelo pelo Rei da Suécia. Há uma diferença, que não nos espanta... ele diz "Rei da Suécia" e não "Rei da Suévia", conforme já explicámos houve a confusão da Alemanha Escandinava.(**)
Diz mais, citando Plínio, "que toda esta praia para o Nascente da India até ao Mar Cáspio foi navegada pelas armadas dos Macedónios, imperando Seleuco & Antíoco".
Tal navegação, da India ao Cáspio, só é compatível com extenso mar, que depois recuou e deu lugar a estepes, a tundras e a desertos. É dessa região de navegação macedónia, de Seleuco, que surgirão os turcos seleucidas, que alguns escrevem seljucidas.

A ligação ao Norte teria ocorrido por essa passagem, do Cáspio ao norte do Oceano, em que o limite depois se confundiu num rio Tanais. Este rio provável confluência do Don com o Volga, formaria um mais alargado Mar de Azov, então chamado Lagoa Meotis, e estava ladeado pelos Urais, então chamados Montes Rifeus, assim descritos por Camões (Canto III§7):


Da parte donde o dia vem nascendo, Com Ásia se avizinha; mas o rio
Que dos montes Rifeios vai correndo, Na alagoa Meotis, curvo o frio,
As divide: e o mar que, fero e horrendo, Viu dos Gregos o irado senhorio,
Onde agora de Tróia triunfante, Não vê mais que a memória o navegante.

A primeira parte desta oitava é citada por Carvalho da Costa, mas é ainda interessante o recuo que Camões vai fazer sobre uma guerra entre Citas e Egípcios, que nos levará ao próximo texto.

(*) Nota 1: Escrevemos "Octomano" e não Otomano, pois assim escreve Carvalho da Costa, e aqui o simples "c" passa a dar um interessante significado geométrico octogonal à palavra.
(**) Nota 2: Acrescentamos a menção na estrofe 10 (ainda do Canto III), que fala justamente na Escandinávia ilha!