Conforme tinha referido num post anterior, ao procurar nos ficheiros mais antigos, encontrei esta relação entre a rotação do mapa de Jorge Aguiar, de 1492 e as bandeiras assinaladas no globo de João de Lisboa.
Não é que dê muito relevo a esta associação, poderia ser casual. Só não achei que fosse casual porque havia também a relação na rotação do mapa de Pedro Reinel com a costa do México.
Não conheço outro mapa com uma costa parcial de África incrustrada, mas nos dois que existem (ambos do reinado de D. João II), encontram-se estas possíveis associações. Note-se ainda que as 3 árvores desenhadas no mapa de Jorge Aguiar são semelhantes às do mapa de Cantino, denotando a zona da Terra Nova.
Sobre os mapas de João de Lisboa já falei muitas vezes, pouco mais há a dizer.
Tenho só um pequeno detalhe a complementar este texto.
Imagino que os telómeros sejam vistos como um problema, porém há uma coisa óbvia:
- O universo só pode ter instâncias de si mesmo, em diversos níveis.
Não há nada que apareça "sabe-se lá de onde"... nada se perde (essa noção resulta da nossa concepção/limitação temporal), e se há alguma que se transforma é a nossa compreensão - que afinal nada mais é do que uma instância que emergiu nesse mesmo universo. A complexificação é natural e imensa, e só parcialmente inteligível.
Desculpem-me este "depeche mode", mas dadas as evidências, pouco mais tenho a acrescentar neste contexto.
Quinto texto da série "Tese de Alvor-Silves", publicado em 26/12/2009. Aqui, nalguns pontos, a interpretação "artística" vogou na corrente, e sobrepôs-se à necessária objectividade. Passados alguns dias, vendo isso, decidi concatenar a parte factual dos mapas (deste, e do texto anterior), suprimindo o restante. Por isso, o texto que aqui recoloco deve ser visto mais como uma obra de ficção com base nalguma documentação objectiva, por mais sentido que possa fazer.
Entretanto já percebera que o sistema estava completamente minado, não apenas pelas instituições formais, mas até nas informais. Por isso, a abordagem mais informal, mais polémica, acabou por ser menos eficaz do que tinha previsto. Antes, fruto de educação e informação distorcida, pensara erradamente que o sistema poderia reagir bottom-up, mas as mudanças conhecidas, mesmo aparentando a forma revolucionária, tiveram quase sempre uma génese top-down.
A partir daí, tudo ficou mais fácil... não me tinha dado conta de que não precisava fazer quase nada, de que tudo se desenrolaria naturalmente, como uma evidência submersa que pela sua leveza terá forçosamente que emergir.
Depois do "Colombo", coloco aqui o quarto texto da série "Tese de Alvor-Silves", sob o título "Encoberto", conforme foi escrito há três anos. Creio que esta foi a primeira versão lançada em 22/12/2009, mas depois fiz algumas alterações e acabei por concatená-lo com o texto seguinte (denominado "Adamastor"), para suprimir as muitas opinações fruto do estilo que ia assumindo. Com a supressão do Knol, muitas das imagens já nem tinham ligação, e tive que recuperá-las em ficheiros gravados. Ao procurar nos ficheiros antigos, fui recuperando muitas coisas que escrevi e que deixei para trás. A mais interessante é a do mapa de Jorge Aguiar, que vou aqui colocar em breve.
Neste texto há dois detalhes sem grande importância, mas que quero referir, pois envolvem o programa de José Hermano Saraiva, que ainda passava na RTP-2. Foi nesta altura que o vi colocar a interrogação sobre a ideia do Infante D. Henrique no desembarque em Ceuta para um ataque terrestre a Tanger. Essa lenta progressão terrestre tinha sido a principal causa do desastre militar, que veio a sacrificar o Infante D. Fernando, que era quem comandava o ataque naval e não estava em perigo...
- Nessa altura estava bastante convencido (como é visível) de uma oposição política sobre a direcção das descobertas... de um lado o Ocidente oferecia-se a uma colonização, aparentemente mais pacífica, e pelo lado Oriental esperavam-se sangrentas batalhas, para a reconquista de Jerusalém (projecto antigo dos Templários, herdado na Ordem de Cristo). Este ideal da reconquista de Jerusalém prosseguia da Idade Média, passados vários séculos sobre a recuperação liderada por Saladino. Feito o Índico um mar cristão, abriria uma frente de ataque - pela rectaguarda, para entrada pelo Mar Vermelho e reconquista da Terra Santa. Tal plano seria seguido por D. Manuel, e executado admiravelmente por Afonso de Albuquerque, até à sua deposição. Nesta hipótese, a linha de acção da Casa de Viseu, iniciada pelo Infante D. Henrique, concretizada por D. Manuel, seria essa - a da cruzada templária a oriente. Por outro lado, a linha da Casa de Coimbra, iniciada pelo Infante D. Pedro, seria (por hipótese aqui colocada) a oposta... seria a de uma expansão colonial e comercial a Ocidente. A Casa de Coimbra tem o seu principal protagonista em D. João II, e a prova objectiva do seu interesse a Ocidente será o Brasil marcado em Tordesilhas. Preterido D. Jorge a D. Manuel na sucessão de D. João II, a sua Casa de Coimbra vê-se forçada a mudar de nome para Aveiro, e os partidários desse projecto de D. João II, ao governarem a Índia, vão esquecendo o objectivo de cruzada. Finalmente, a Casa de Bragança aparecia na sombra, tal como em Alfarrobeira, claramente opositora de Coimbra, representaria essencialmente a oposição a qualquer iniciativa, manobrando nos bastidores da corte. Acabará tanto por convidar a entrada de Filipe II como ser catapultada para o derrube de Filipe IV.
A ideia de que o Infante D. Henrique estaria mais motivado pela cruzada, do que pelas descobertas, ficou mais consolidada naquele programa, pela questão levantada por José Hermano Saraiva.
- O outro detalhe, ocorreu poucas semanas depois. Tendo mencionado o antigo relógio nas Caldas da Rainha, vi outro programa de José Hermano Saraiva que invocava um ainda mais antigo relógio de Serpa, e apesar deste estar datado de 1440, creio que ele o dava como mais antigo. Apresentava ainda, como curiosidade do Museu de Serpa, um relógio de navegação que, ao seu estilo, avisava ser francês... como se avisasse que tal prodígio não era suposto constar das nossas navegações.
Por outro lado, relendo o texto, devo avisar que a minha suspeita da utilização de um sistema de coordenadas local, zenital, baseado nas direcções que partiam das rosas-dos-ventos, e outros centros, se revelou à época menos promissora do que aparentava... verdade seja dita que também não tive vontade de inspeccionar mais. Ou seja, na altura, pareceu-me estranho que se desenhassem cartas mais imprecisas nos anos seguintes às descobertas, para além de muitas marcações, que estavam claramente erradas. Poderia ser só para despiste, mas tal como virando o Reinel se descobre em África um contorno Mexicano, pareceu-me ser natural que os mapas tivessem outros segredos. A pista de Pedro Nunes seria fundada no modo mais prático de navegação, ou seja seguindo as direcções locais que convinham aos "mareantes" pela sua posição. Poderia ser que escondessem num contorno impreciso do continente europeu, um contorno preciso de outras paragens... Mas a inspecção disso não é fácil, porque não é possível saber o que pretendiam representar, nem há mapas suficientes para o confirmar.
Já coloquei aqui a análise da Carta do Atlântico Norte para dar uma ideia do tipo de coisas que se podem procurar, mas terá pouco valor objectivo... a menos que seja para rebater interpretações mais mirabolantes feitas com outros mapas, nomeadamente o de Piri Reis.
O globo de João de Lisboa (que nos serve aqui de logotipo) é um claro exemplo de uso de coordenadas polares - com um só pólo, o pólo norte:
Para que se perceba o trabalho envolvido nestas coisas, tive que assinalar manualmente cada pontinho na carta, para depois programar automaticamente a conversão que se vê.
Se aceitarmos que se trata de um mapa de 1514 e não uma adição feita até 1560 ao seu Tratado (cf. Cortesão), e já apresentámos várias provas, dará uma ideia parcial do que se sabia 5 anos antes da circum-navegação de Magalhães.
Depois, é claro, estas coisas são esquecidas, e como sabemos que não temos capacidade para coisas complicadas, aparece, passados 134 anos, em 1648, um francês de nome Louis de Mayerene Turquet, com a mesma representação centrada no pólo norte, reclamando a sua autoria:
La Nouvelle maniere de representer le Globe terrestre
Repare-se que muito provavelmente Turquet não sabia da existência do mapa de João de Lisboa, tal como hoje a maioria dos estudos em cartografia que vemos parecem ignorar olimpicamente a maioria dos mapas constantes na Portugallia Monumenta Cartographica, lançada há mais de 50 anos... enfim, também parece que está esgotada.
Segue o texto, que me recorda o também o dia em que o contador do Knol "decidiu parar", e a que se devem dar os devidos descontos de entusiasmo, de quem tinha acabado de cair "na real":
Há já bastante tempo coloquei aqui um mapa datado de 1970, do Museu da Marinha, que pretendia ilustrar os descobrimentos portugueses.
Apesar do mapa dizer ser feito pelo "pessoal técnico do Museu da Marinha", não deixava de conter indicações algo enigmáticas. Uma que notei foi a presença de pinguins na Gronelândia, a que erradamente atribuí um erro de execução, e também a de cangurus na Austrália (algo que não se parece observar em nenhum mapa anterior a Cook):
Acontece que desenhar pinguins árticos num mapa de 1970 parece muito estranho, mas não o seria se fosse baseado num original, desconhecido... Porquê? Porque os últimos pinguins árticos foram mortos em 1844, perto da Islândia. Isso eu não sabia, e parece ser propositadamente pouco divulgado!
Encontrei essa informação neste blog: oeco.com.br, e daí encontrei depois a informação natural sobre as "grandes alcas" - assim se chamavam os pinguins do Ártico:
Assim, a menos que se pretenda a coincidência do erro, a ilustração do Museu da Marinha assentará num mapa que tinha esses pinguins do norte e que colocava a Terra de Corte Real sob coroa portuguesa. E como a coroa está aberta, não será provavelmente de D. Sebastião, que a veio a fechar, em sinal de independência ao poder imperial, será talvez do seu avô, D. João III. No entanto, tal como se ilustram os pinguins do norte, também aparecem desenhos de cangurus na Austrália, com uma imprecisão que até sugere autenticidade...
Sobre estes pinguins e sobre a presença portuguesa na Terra Nova e Canada, acho que é suficientemente esclarecedora a obra de Jean de Laet, "L'Histoire du Nouveau Monde...", 1640.
Na página 33, introduz a Nova França e Terra Nova, atribuindo a descoberta da Terra Nova aos Cabotos, venezianos a serviço de Inglaterra, tal como Colombo seria genovês a serviço de Espanha.
A rivalidade Génova-Veneza, habitual na escolha dos Papas, era transportada na legalização da descoberta americana... um genovês para as Antilhas, em 1492, e um veneziano para as Satanazes - Terra Nova, em 1498. É praticamente óbvio que Génova e Veneza sabiam perfeitamente os contornos desse mundo, mas pelas suas limitações logísticas seguiam os cuidados necessários para a aceitação das descobertas - navegaram em serviço de potências externas.
No entanto, Laet não deixa de referir Gaspar Corte Real, dizendo
"Pouco depois dos Cabotos, a saber no ano 1500, Gaspar Corterealis visita as mesmas terras a comando do rei de Portugal e as descobre pouco depois" (pág. 34).
Algo perfeitamente justificável... D. Manuel queria definir as possessões outorgadas por Tordesilhas, e assim em 1500, dois anos depois da incursão de Caboto a norte, retira do encobrimento a Terra Nova e o Brasil. Durante um século os ingleses não mais se aventuraram aí e, até à morte de D. Manuel, ninguém reclamou a Terra Nova ou o Canadá.
Depois, Laet justifica o nome "Nova França", dizendo que se chama assim porque os franceses foram os primeiros a penetrar no meio do país, e a se estabelecer a mando do rei. Portanto, é suficientemente lúcido para não atribuir nenhum papel especial de descoberta a Jacques Cartier, que apenas ali chegou em 1535, uma quinzena de anos após a morte de D. Manuel, quase quarenta anos após Caboto.
É sempre instrutivo rever a carta "Pedro Reinel a fez", datada de 1504, mas que suspeitamos ser contemporânea ao Tratado de Tordesilhas. Para além das outras suspeitas, de representação implícita, atentemos aos nomes atribuídos à parte da carta respeitante à Terra Nova (clicar p/ aumentar):
De cima para baixo, podemos ver os nomes: - y da fortuna, - y da tormenta
- c do marco, - sam joham
- sam pedro, - y das aves
- a dos gamas, - c de boa ventura
- y de boa ventura, - c do marco
- y de frey luis, - b de santa ana (?)
- y dos bacalhaos, - b da comcepção
- c da espera, - r das pa...
- r de sam (?)...
- c Raso
( mais em baixo: sam johã e santa cruz)
Uma boa parte destes nomes vai ser mantida na descrição de Jean de Laet, que fala no Cabo de Raz (cabo raso), na ilha das aves, na ilha dos bacalhaus, baía da concepção, na ilha de Frei Luís, e na ilha da tormenta (nome a que associava origem francesa, e de que já falámos a propósito de Melgueiro).
Os nomes portugueses ainda por lá estão: Baccalieu Island na Conception Bay (baía da Concepção), Bonavista, o Manuel's river e St. Johns, sendo o mais explícito Portugal Cove (já mencionado no Portugalliae.blogspot) que, tendo sido destruída e incendiada pelos franceses em 1696, talvez reporte a si o incidente ilustrado "na descida dos franceses à Terra Nova".
Jean de Laet dá-nos uma imagem diferente do simples aportar de Corte Real à Terra Nova. Numa citação (carta enviada a Hayklut), fala-se claramente numa seca de peixe (bacalhaus, claro) e no Cap. III, dá uma descrição dos portos que vão desde o Cabo Raso, falando nos nomes e seguindo as cartas portuguesas:
- Porto Formoso, Água Forte, Ponta do Farilhão, Iheu de Galeotas, Ponta de Ferro, Cabo de Esp(h)era, St. Jean (São João), Baía da Concepcion, Ilha dos Bacalhaos, Cabo da Boa Vista, Ponta dos Ilhéus de Frei Luis... ilhas de S. Pierre - São Pedro, e ainda uma Ilha dos Pinguins - certamente as Grandes Alcas, que viriam a ser extintas dois séculos mais tarde.
Depois retornando ao Cabo Raso, no outro sentido, fala da Angra dos Trespassam, de um rio Chincheta, indo em direcção ao Cabo dos Bretões (Cap Breton) e passando pelo Porto dos Bascos... (o que dá uma clara ideia de que os pescadores da orla do atlântico, não apenas portugueses, mas também galegos, bascos, bretões e até irlandeses, cruzavam aqueles mares, pela abundância de peixe nos grandes bancos da Terranova).
Fala ainda claramente (pg. 40) de estabelecimentos portugueses na Ilha do Cap Breton, nomeando Ninganis ("enganos" hoje Ingonish, segundo o site dightonrock.com), que depois foi abandonado, bem como outros lugares, devido ao rigor climático. Também diz que os portugueses se tentaram estabelecer na Ilha de Sable, mas sem sucesso, como aconteceria com os franceses através do Marquês de la Roche.
Ou seja, acaba por ser através de Jean de Laet que temos o melhor panorama da presença portuguesa na Terra Nova. Sendo um relato francês, restam poucas dúvidas sobre a permanência naquelas paragens, pelo menos desde 1500 até 1696, aquando da "descida dos franceses"...
Dada a existência de material estrangeiro atestando a presença nacional na Terra Nova e Nova Escócia (as Satanazes no mapa de Pizzigano de 1424), quanto mais não fosse pela presença para secar o bacalhau... percebe-se pouco a persistência interna em ignorar o assunto, talvez porque se tenha vergonha de assumir que a colónia foi abandonada à sua sorte.
Para além disso, existem mapas que atestam esse senhorio da Terra Nova e Lavrador ao Rei de Portugal e em particular aos Corte-Reais (cf. JM-CH, ver o Catálogo Huntington HM41- folha 4).
Note-se que "Canada" é uma palavra portuguesa antiga para medidas líquidas - era um duodécimo do almude, e dividia-se em seis quartilhos. À época de D. Manuel, uma "canada" seria um litro e meio, em Lisboa, e chegava a mais de dois litros a norte (ver "Mosteiro de St. Tirso", de F. Carvalho Correia). No site dightonrock.com fala-se num imposto de um décimo para o pescado na Terra Nova, sendo a "canada" um duodécimo do almude, não é de descartar que o termo se aplicasse nesse sentido de um imposto menor (8% em vez de 10%...).
Os pinguins do ártico acabaram por desaparecer, tal como praticamente a notícia dos portugueses que colonizaram a Terra Nova, ficou talvez a pequena "Portugal cove". Com o perigo da extinção dos bacalhaus no Canada, a criação de cotas restritivas no início dos anos 1970, e depois o fim dos navios coloniais em 1975, colocaram um ponto final na grande tradição marítima portuguesa. O patrocínio ao abate das frotas de pesca, no final dos anos 80, foi o golpe final. Em pouco menos de 10 anos, a tradição da nação de navegadores reduzia-se à pesca costeira artesanal.
Os colombos americanos
Termino com um outro apontamento de extinção surpreendente.
No Séc. XIX a colombofilia norte-americana parecia concentrar-se na figura de Colombo, recuperando o mito do descobridor caído em desgraça. Do outro lado, para os nativos pombos americanos, os pombos-migratórios, a columbofilia foi diferente.
Consta que os sociáveis pombos-migratórios infestavam os céus americanos, estimando-se em milhares de milhões a sua população. Porém, este sucesso reprodutivo acabaria por levar à sua extinção num curto período de tempo. Foi instaurada uma caça ao pombo, que só pode ser satirizada com o clássico "Stop the pigeon", ainda que este desfecho nada tenha de comédia:
Compreende-se o efeito devastador nas colheitas que poderia ter um bando de pombos com centenas de milhares de indivíduos, e nesse sentido a sua caça indiscriminada pode ser vista nesse contexto. Porém, ao que parece houve um autêntico patrocínio à exterminação completa, terá havido caçadores que sozinhos abateram mais de um milhão de aves. Havia competições e jogos cujo objectivo era o extermínio. Quando alguns ambientalistas solicitaram uma protecção no estado do Ohio, em 1857, foi considerada absurda pelo número de pássaros existente. Em 1897 as leis de protecção foram ineficazes para travar a extinção. O último exemplar em cativeiro morreria em 1914 no zoo de Cincinati.
Os pombos eram associados a paragens euro-asiáticas, e foi talvez com alguma surpresa que foram sendo encontrados em todo o globo, na África tropical, nas Américas e até na Nova Guiné (onde a espécie "columba coronata" é algo curiosa).
Não me parece que o carácter migrátorio particular aos pombos americanos carregasse alguma mensagem perigosa que levasse a colombofilia a atacar a columbofilia. Já aqui falámos no papel simbólico mensageiro dos pombos, e do seu contraponto na falcoaria.
E acaba por ser simbólico termos as Pleiades, as pombas filhas de Atlas, na Hespérida ocidental, a América, termos um "Colombo" a desencobrir essas paragens, e depois olhar para a foto de Martha, a última dos pombos-migratórios, vítimas de um holocausto programado:
onde se fala da sua descoberta das ilhas do Corvo e Flores, em 1452, confirmada por cartas de régias de doação, de Afonso V. Em particular é relevante a informação do filho de Cristovão Colombo, que reportando uma viagem ocidental ao Faial de 150 léguas (aprox. 900 km), coloca Diogo Teive mais próximo da Terra Nova do que do Corvo ou Flores (a 200 km). E também é relevante a informação de Lorenzo Anania já aqui citada, que fala sobre a partida (em 1576) de Aveiro de numerosa frota de navios para a pesca ao bacalhau na Terra Nova.
Como várias outras caricaturas já apresentadas, é de James Gillray (1780 ou 84).
Agora que se fala na noção pomposa de Thinker Tanks, acho Gillray lhes chamaria mais Tinker Thanks. Neste sentido, digamos que Gillray diz tratar-se de um painel de funileiros, evitando outra tradução mais literal para o português. A panela tem forma de hemisfério ocidental...
De casaca azul estará o Conde de Sandwich, e ajoelhado tentando reparar a panela está Lord North, enquanto o rei Jorge III aguarda que os buracos sejam reparados. O estado a que a panela chegou é resultado da acção do cozinheiro... Cook.
John Montagu, Conde de Sandwich, enquanto comandante da marinha inglesa, foi entusiasta e providenciou o financiamento da expedição de James Cook.
Em reconhecimento desse apoio, Cook terá baptizado o Havai como Ilhas Sandwich.
Há, é claro uma estória sobre sanduíches e a sua "invenção" por Sandwich...
Se Colombo teve o seu ovo, pois Sandwich teve o seu sanduíche.
Entre o pedaço de pão Asiático e o Americano, Sandwich iria reclamar o bife Pacífico.
Não vejo outra sanduíche que não esta... talvez ficando demasiado explícito, no final do Séc. XIX o Havai foi renomeado e apenas ficaram as ilhas Sandwich do Sul.
Talvez possamos dizer que a viagem anterior de Bougainville e as pretensões francesas foram ensanduichadas pelo plano do grupo de Sandwich:
Da esquerda para a direita: Solander, Banks, Cook, Hawkesworth e Sandwich.
Solander era sueco, botânico da escola de Lineu, amigo de Banks,
e sobre Sir Banks, Gillray dá conta da sua apreciação nesta caricatura...
... uma lagarta encontrada nos Mares do Sul é transformada em borboleta pelo Sol imperial.
O problema complicou-se, e conforme Gillray escreve na primeira caricatura:
- por cada buraco tapado, abrem-se dois novos!
Digamos que um dos "buracos" de Sandwich que o primeiro-ministro Lord North não conseguiu tapar foi a Independência Americana (o desenho sobre Banks é publicado num 4th of July), projecto em que a França se empenhou...
Digamos que ainda estava o Endeavour no mar, entre a Nova Zelândia e a Austrália, em 1770, e rebentava a rebelião em Boston, o primeiro gesto que levou à guerra de independência americana.
Havia certamente uma parte do novos territórios Pacíficos prometidos à França, que acabou por ficar com algumas ilhas (que ainda hoje mantém), mas a solução de Sandwich terá sido um rude golpe nas aspirações francesas.
Quanto aos holandeses, tiveram que fazer quase de conta que nunca tinham visto a Austrália...
Para termos uma ideia da precisão que os mapas holandeses chegaram a ter, basta ver este mapa de Gerritsz em 1618, muito antes da viagem de Tasman (1642):
Apesar de Gerritsz ser considerado um dos maiores cartógrafos, o seu trabalho tem pouca divulgação... e percebe-se que não se queira questionar a razão pela qual as linhas perfeitas acabam onde acabam em 1628, e que os sucessores até Tasman nada tenham feito para completar o circuito. Nem Tasman, nem nenhum seguinte... e é claro que os portugueses estando com colónias em Timor, ou os espanhóis com colónias nas Filipinas, continuavam a não acertar com as velas, e não conseguiam aí navegar para sul!
Foi preciso Sandwich e Cook para resolver o assunto!
O mapa de Gerritsz tem ainda outros problemas... identifica a descoberta de Houtman das ilhas Abrolhos, e apesar de estar datado de 1618 apresenta as descobertas até 1628. Parece claro ao inspeccionar o mapa que as inscrições com as datas e exploradores são posteriores à execução do mapa!
Quanto ao arquipélago e recifes de Abrolhos... descobertas por Houtman em 1619(!), ficaram definitivamente nomeadas Houtman Abrolhos.
Por via das confusões, e não tivesse ficado registo português com esse nome, apareceram também umas ilhas Abrolhos no Brasil. Assim, uma das estórias relata que Houtman terá sido inspirado por essoutras. Não é de espantar, porque Tasman vai repetir a inspiração com Pedra Branca, na Tasmânia, que lhe vai lembrar Pedra Branca, perto de Singapura.
Por acaso, Abrolhos faz-nos lembrar "Vannila Sky" que na versão original espanhola se chamava "Abre los Ojos"... só a Penelope Cruz seria a mesma.
No fundo, um problema de chancela que tem vários aspectos e protagonistas ao longo dos tempos.
Independentemente dos protagonistas, o argumento, esse é intemporal...
A Maria da Fonte publicou a existência de um enigmático mapa, na Biblioteca do Congresso Americano, que estará associado a Marco Polo, aí também entitulado "map with a ship", que contém inscrições chinesas, e também comentários no dialecto veneziano.
As conexões entre a região apresentada e o norte do Pacífico, são evidentes...
Pode ver-se claramente a zona do Estreito de Bering (ou Anian), e representadas as Aleutas, o mar de Okhotsk, o Japão, e outros contornos do sudeste asiático, por um lado, e o contorno do Alasca, por outro... conforme se procura tornar claro nesta comparação:
Na outra parte do mapa, encontramos um desenho de um barco, com uma vela triangular, conforme notou a Maria da Fonte, e algumas legendas relativas ao mapa que se encontram descritas no site.
Para além do barco com vela triangular, e do texto, encontramos uma caixa
com o que seria a assinatura do cartógrafo (Marco Polo),
onde se vê enquadrado pelo C, M, A, O, O e eventuais P, L inseridos.
O mapa está datado c. 1290, mas a proveniência não é confirmada, nem a autenticidade.
As notas associadas ao mapa são as seguintes:
The map, in its ornamental frame, occupies the right side of the sheet. Drawing of a ship and an eight-line explanation of Roman numerals on left side of the sheet.
Place names in Arabic. Chinese in two columns, on right side of map. Text in Venetian Italian.
Undetermined authenticity.
Provenance unverified.
Pen-and-ink.
Further description of map appeared in article: Bagrow, Leo, 1948. The maps from the home archives of the descendants of a friend of Marco Polo. Imago Mundi, vol. V.
Includes key to identifying countries and regions designated by Roman numerals.
Translation of the explanation of Roman numerals: Marco Polo.
I. India and the adjacent islands, according to what the Saracens say.
II. Cattigara of Tartary, island of Zipangu and adjacent islands.
III. Peninsula of the Sea Lions.
IV. Islands connected with the Peninsula of the Deer situated 2 to 4 hours of difference from the walled provinces of Tartary.
Given to the Library of Congress in 1935 by Mr. Marcian F. Rossi, a retired merchant, who considered himself a descendant of a friend of Marco Polo.
É claro que se poderia tratar de uma falsificação muito sofisticada, mas se alguma coisa espanta neste mapa é a ausência de interesse... ao ponto de ninguém ter-se preocupado em fazê-lo, desde 1935 (data da oferta reportada), e a pouca divulgação que o mapa tem.
Acerca da longitude já tínhamos aqui citado António Carvalho da Costa que, em 1682, e com breves palavras, mostrava como era possível saber a correcta longitude de lugares através da observação de eclipses.
Sendo a latitude um problema mais fácil, ficava aí claro que eram conhecidos métodos eficazes para determinar a posição recorrendo apenas a observações astronómicas. O interesse pelos eclipses lunares seria especialmente um interesse geográfico, com vista a uma correcta cartografia. Assim, a tabela de eclipses de 1534, de Jerónimo Chaves, indiciaria isso mesmo.
Encontrámos agora outro texto, de Manuel de Figueiredo, de 1603, que coloca as coisas de forma mais clara, confirmando as nossas suspeitas de que essa técnica seria bem mais antiga.
O texto de Figueiredo é mencionado na literatura (veja-se por exemplo aqui) especialmente porque detalha a construção da balestilha, instrumento prático para a determinação de ângulos, e apropriado para a latitude.
Aqui interessa-nos a questão da longitude, mais complicada.
"Como se acharam as longitudes das terras."
- é este o título do Capítulo XIII da "Chronographia e Repertório dos Tempos", publicada em 1603 por Manuel de Figueiredo. Começa dizendo:
Grande foi o trabalho que os geógrafos tiveram em achar as longitudes das terras, as quais observaram pelos eclipses da Lua e do Sol, & não haviam de ter tão pouco em a todas elas buscarem a longitude, porque nem todos os meses há eclipses para as poderem mostrar (...)
Não especifica quem foram os geógrafos, nem quando... apenas explica como se processou:
Punham-se dois geógrafos em duas terras (...) esperavam o dia e hora a que havia de acontecer (...) observavam a que hora começava & cotejada uma observação com a outra, a diferença que entre elas havia essa era a longitude(...).
... algo que já tínhamos suspeitado como sendo o método usando "enviados do reino".
Duas páginas à frente faz referência às vantagens da "pedra de sevar" (magneto) que teriam marcado a diferença face aos "antigos"... e somos levados a concluir que implicitamente considerava que o processo de eclipses para a longitude era já conhecido desses "antigos". Figueiredo sugere que teria sido o magneto a marcar a diferença, pois esses antigos se restringiam ao hemisfério norte com medo de perder a Estrela Polar... que é outra maneira de dizer que tinham medo de "perder o norte", de ficarem desnorteados!
Merica
Talvez mais interessante é o detalhe de Figueiredo designar a América como "A Merica". Isso poderia passar por erro tipográfico, mas é demasiado propositado para ser qualquer erro acidental:
Menção a "a Merica" e "America", por Manuel Figueiredo
Se já havia algumas suspeitas do nome América não estar necessariamente ligado a Amerigo Vespúcio, creio que esta obra de Figueiredo vai exactamente nesse sentido...
A Merica e não América
Fomos encontrar uma canção dos emigrantes italianos que povoaram o Rio Grande do Sul:
Dalla Italia noi siamo partiti; Siamo partiti col nostro onore;
Trentasei giorni di macchina e vapore, e nella Merica noi siamo arriva'.
Merica, Merica, Merica, cossa saràlo 'sta Merica?
Merica, Merica, Merica, un bel mazzolino di fior.
Trata-se do dialecto do Veneto (Veneza), que tira o A a America, e aparece como uma clara desfaçatez veneziana ao compatriota, mas rival florentino, Amerigo...
Haverá outro sentido para a simples palavra Merica?
O google e a wikipedia têm destas coisas, e fomos parar imediatamente a
- merica: palavra indonésia com raiz no sânscrito que significa a especiariapimenta.
Afinal, como chamam os ingleses a um tipo de pimenta?
- Chili pepper... chegando mesmo a escrever Chile pepper.
A pimenta ou malagueta sempre esteve associada à comida mexicana, azteca e também inca. É claro que também é parte da cozinha indiana, e isso pode reportar perfeitamente uma rota de especiarias que se prestava a unir as índias orientais e ocidentais sob a conveniente confusão!
Ou seja... quando os nossos descobrimentos seguiam na rota da Pimenta, é mais natural que estivessem a seguir a rota da Merica. Como dizia Figueiredo: "a cobiça de reinar abriu o caminho para descobrir tantas riquezas quantas neste novo mundo há"...
Se o nome é anterior a Américo Vespúcio, esta semelhança entre "a Merica" e "Americo" pode ser um caso que já abordei num comentário que aqui fiz - a importância de se chamar Ernesto, neste caso Américo!
Pelo lado chinês, encontramos uma versão sínica de um mapa muito semelhante ao Theatrum Mundi de Lavanha, ou de Ortélio, denominada Wanguo Quantu, e datada c. 1620:
Wanguo Quantu, mapa do jesuíta Giulio Aleni (c. 1620)
É justificado o mapa pela colocação central do Império do Meio, evitando assim a tradicional colocação europeia nessa posição central. Podemos ver que os chineses não pareciam ter problemas em aceitar um mapa que evidenciasse o Estreito de Anian (dito de Bering), ao contrário do que foi depois referido por Carvalho da Costa (ver texto sobre Nova Zimla). Aliás o contorno americano, ou da costa russa, parece reflectir o conhecimento geral dessa zona, tal como já tinha sido verificado nos outros "theatrum mundi".
Antes, teria aparecido no tratado Sancai Tuhui um outro mapa, o Shanhai Yudi Quantu (1606, com base em Matteo Ricci), que mostrava uma concepção mais próxima dos primeiros mapas europeus do Séc. XVI (como o de Waldseemuller):
Na tradução deste mapa é possível ver algumas legendas curiosas:
Um Mar Vermelho "oriental" na península californiana, conforme mencionado aqui nos Sinais Vermelhos e anteriormente. Aparece também o habitual Mar Vermelho "ocidental" na África.
Yawaima - no noroeste americano, que corresponderia à zona de Fusang (o nome Yawai pode sugerir alguma conexão a Hawai).
Mar de Keluotuo - que poderá ser a Baía de Hudson.
Na Europa apenas a França é nomeada... enquanto que na zona ibérica é escrito "mais de 30 reinos", podendo referir-se a toda a Europa! Parece ainda haver uma confusão entre o Mar Negro e o Cáspio (o que não nos surpreende).
A Líbia é a África, e na zona do Atlas é colocada a legenda "montanhas mais altas da Terra"
A sul, a Magellania refere já a confusão de concatenação da Austrália com a a Antártida - de um lado fala-se em "terra de papagaios", e do outro na Terra do Fogo e "picos brancos". A legenda dirá ainda que "poucos teriam chegado a essas paragens a sul".
Se o outro mapa tem a clara marca do cartógrafo ocidental (Giulio Aleni), neste mapa reflectem-se mais as influências na concepção e nomenclatura, especialmente pela referência a Magalhães. Não se parece notar nenhuma cartografia própria dos chineses, mantendo as mesmas restrições/mitos ocidentais, especialmente sobre a parte sul na "Magellania". O "mar gelado" aparece apenas mencionado a norte do Canadá...
Sendo expectável que os chineses tivessem conhecimento, pelas grandes navegações que teriam feito, de outras paragens, como por exemplo a Austrália, estes mapas mostram uma grande sintonia no que era transmitido a Ocidente e a Oriente(*)... sugerindo a existência de uma única ordem global dominante!
A maior demonstração não é essa, é o bom senso. Quem pensar que os portugueses e espanhóis se tinham dedicado a descobrir todas as pequenas ilhas da redondeza, e tinham se esquecido de dar com o continente australiano, tem um problema de cognição. Se ainda se tratasse de falhar o Havai, ou algum arquipélago pequeno no meio do Pacífico... tudo bem. Porém era mais fácil não descobrir Timor do que não descobrir a Austrália que estava ao lado.
Não vou voltar a repisar todos os argumentos já explicados, havia um problema que se colocava nessas paragens, após o Trópico de Capricórnio... muito provavelmente estava instalado um reino "ilegal", de origem europeia, que não era reconhecido, primeiro pelo papado, e depois pelas nações de Vestfália. Até que o assunto fosse resolvido, pela eliminação completa evada a cabo pelos ingleses, a Austrália ficou fora da atenção e destinada à sua confusão com a parte gelada Austral.
A memória não é algo muito duradouro, e ao contrário do que se julga a informação não se espalha tão facilmente. Numa sociedade hierarquizada, de estrutura piramidal, basta secar as fontes num nível superior, onde se exerce o controlo em troca de benesses, ou em troca de não ter problemas. Os casos que indiciam algo diferente mostram apenas que as revoluções não são acidentais, são autorizadas.
Nuca Antara e Erédia
Sobre a Austrália, fomos encontrar a designação Nuca Antara (ou ainda, Luca Antara) por via da Biblioteca Digital Mundial e aí tomámos conhecimento de Manuel Godinho de Herédia (ou Emanuel Godinho de Erédia), um cartógrafo português de origem malaia, que terá feito explorações em território australiano.
A Biblioteca Digital Mundial coloca a datação circa 1630, esclarecendo ao mesmo tempo que o primeiro avistamento teria sido realizado por Janszoon em 1606... aqui já não basta a viagem de Tasman, e é preciso ir ao mais desconhecido Janszoon, que não viu o Estreito de Torres, ao passo que Torres viu o Estreito, mas não viu um dos lados da terra, alguns meses antes.
Isto foi certamente revoltante em tempos, para muitos amantes da Verdade, mas hoje passa por ser divertido... É interessante ver a capacidade de absurdo e desplante possível aos nossos contadores de estórias, que a transformam em História.
Continuamos, com um sorriso no rosto, mas com um certo amargo no coração.
Um dos amantes da verdade terá sido o inglês Richard Henry Major. Numa pequena pérola que fomos encontrar nas Memórias da Academia Real, em 1863, ele explica detalhadamente o
"Descobrimento da Austrália pelos Portugueses em 1601"
e depois tenta argumentar... algo que é engraçado como desporto para passar o tempo, mas que é esforço inútil quando dirigido à maioria dos mortais, além de ser inútil para convencer quem não tem intenção de ceder. Sobram apenas os espíritos irrequietos, que se vão apoquentando com a descoberta da verdade... sendo certo que a verdade nada mais é do que aquilo que resta após expurgar as contradições e identificar os falsários.
Richard Major apresenta uma prova documental que encontra no Museu Britânico:
Nesta cópia encontra-se uma legenda, na posição do continente australiano, que não deixa grandes dúvidas:
Nuca Antara foi descoberta no ano de 1601 por Mano El Godinho de Erédia por mandado do Vice-Rei Aires de Saldanha. Terra descoberta pelos Holandeses a que chamaram Endracht ou Concordia.
Tudo isto é explicado por Richard Major, que acrescenta as razões pelas quais não se pode pensar em falsificação posterior da legenda.
Não explica, é claro, que espécie de Concórdia existiu para que fosse assim designada pelos holandeses ("Concórdias" há muitas... desde praças fundadas em 1755 embelezadas com um obelisco egípcio, até aviões supersónicos malfadados).
Estávamos em 1863... e o assunto não apareceu apenas na Academia das Ciências portuguesa, encontram-se registos em diversas academias de outros países. A comunicação de Major teve impacto à época, mas foi desaparecendo dos registos. É esse o destino das publicações inconvenientes... podem dar incómodo e/ou lucro aos editores, mas não afectam o resultado final.
Richard Major teve que retractar-se e dar o dito por não dito, afirmando depois que a viagem de Herédia não teria sido realizada.
Passados quase 150 anos, o assunto vai voltando à baila, seja por Keneth Macyntire, seja por Peter Trickett, no Beyond Capricorn, seja por quem for... o resultado acaba por ser sempre o mesmo, e o magister dixit de uma academia condicionada impõe-se sobre o entendimento do senso comum.
Gonneville
Convém aqui esclarecer que Richard Major estava ciente dos mapas de Dieppe, e diz até mais do que isso... refere que um francês teria reclamado o descobrimento da Austrália logo em 1503.
O seu nome era Gonneville e depois de ter passado o Cabo da Boa Esperança, uma tormenta teria-o levado à Austrália... ainda que ele argumente poder ser uma natural confusão com a Ilha de Madagascar. Daí teria trazido à Europa o filho do rei, e relatado o desejo de evangelização desses povos que classificava terem atingido algum grau de civilização. Esse grau de civilização, argumentava, era incompatível com o carácter selvagem dos povos aborígenes do norte da Austrália, segundo os relatos a que tinha acesso.
Ora, esta descrição assenta muito bem com a junção que fizémos dos mapas de Dieppe, e que aqui relembramos:
Nas ilustrações do mapa, aparecem alguns aborígenes (a norte da ilustração, a oeste na junção), mas também uma evidente civilização de aspecto europeu (a sul na ilustração, a leste na junção), mas não tão sofisticada quanto a europeia, conforme o relato de Gonneville.
Manilio (séc. I)
A exposição de Major vai ainda um pouco mais longe, e para isso cita um autor romano - Manilio:
Ele não dá a tradução do latim, e também não a encontrei... porém a nossa língua tem fortes semelhanças que permitem deduzir que Manilio afirmava que a Terra era redonda e habitada pelas mais variadas gentes, em particular na parte Austral, que jazia sob os pés... ou seja, nos antípodas.
Há outros autores do Séc. XVI que voltam a falar nessa habitabilidade nos antípodas, mas há sempre forma de invocar o erro e a interpretação, dizendo que afinal a cor do cavalo branco de Napoleão era o preto, esquecendo que à época o erro em latitude não poderia ser tão grosseiro.
E aqui permito-me à divagação fonética... será que afinal Manila, surge como uma Manilia de Manilio?
Uma pequena homenagem ao escritor romano, obrigada a ficar nas Filipinas, mas que deveria ter a sua localização numa Sidney ou Wellington, bem mais próximas dos antípodas do Império Romano?
A nome da cidade chegou a ser escrito como Manilha, certamente por influência espanhola (... e não tanto do jogo da "sueca", onde o 7 ganha um valor diferente do habitual). A manilha permitia afinal completar o círculo do globo sendo a cidade que simbolizava o fecho pelo anti-meridiano de Tordesilhas...
Começamos com Diogo de Couto (Quarta Década da Ásia):
Entre eles [Papuas] há alguns tão alvos e louros com Alemães, e com o Sol são muito cegos: há entre eles muitos surdos, e segundo a informação que há destas ilhas, correm de longo de uma grande terra, que dizem que se fecha no Estreito de Magalhães, porque alguns pilotos castelhanos navegaram de longo dela mais de quinhentas léguas.
Quinhentas léguas são mais de 3000 Km, e por isso a descrição pode naturalmente corresponder à costa da Austrália. Esta citação enquadra-se numa outra feita por Piri Reis(*), em inclusão no seu mapa na parte sul:
"In this country are found white-haired creatures like this, as well as six-horned cattle. The Portuguese had written this on their maps." [tradução de Paul Lunde, Aramco]
Junto estas duas referências a "louros" (ou albinos), já que por razões que ficaram evidentes no texto de Ramusio, as navegações para a parte austral teriam ficado condicionadas/proibidas.
Ou seja, dois continentes austrais poderiam ser perfeitamente confundidos... Austrália e Antártida, afinal ilhas de forma não muito diferente... excepto no clima! Uma confusão propositada entre as duas levaria a mapas em que a actual Austrália era omitida. Aliás ambos os nomes são próprios de continentes no sul, e nada melhor do que a confusão ser levada a cabo por uma casa da "Áustria", os Habsburgos.
Por isso consideramos apropriado os ingleses chamarem "Ostrich" às avestruzes... tal como a diferença entre o nosso Perú e o Turkey se observa no dia de "acção de graças" americano.
É nesse sentido de confusão que numa outra legenda de Piri Reis aparece:
"There is no trace of cultivation in this country. Everything is desolate, and big snakes are said to be there. For this reason the Portuguese did not land on these shores, which are said to be very hot."
Esta citação deixa alguma confusão, já que seria estranho referir-se a uma Antártida, mas é agora perfeitamente apropriada para uma Austrália.
Claro que estes mapas portugueses terão desaparecido, e por isso temos que recorrer ao mapa que Piri Reis tenta reeditar (ilustrado com muitas caravelas...), e compilando vários mapas que dispunha, alguns portugueses, outros do tempo de Alexandre:
Parte sul do mapa de Piri Reis
Colocámos uma linha negra, que é a linha do alinhamento de Gizé, já que há uma rosa-dos-ventos (quase sobre a ilha de Sta. Helena), indicando um alinhamento com as ilhas de St. Tomé e a linha dos Camarões. Isso permite dividir a parte correspondente à América do Sul e à parte Antárctica (confundida com a Australiana). Como Piri Reis admite usar mapas do tempo de Alexandre Magno, temos que levar o problema para tempos remotos... onde a linha de costa poderia ser diferente:
Ilustramos, com pontos verdes, uma linha de costa antiga, com o mar abaixo do nível actual. Vemos que nesse caso a linha do continente sul americano seguiria um contorno semelhante ao descrito pelo mapa de Piri Reis. Na falta de nova informação, poderia estar a seguir um mapa antigo, para descrever essa parte austral. Notamos ainda que, tal como no caso do mar das Caraíbas, há uma forte depressão no sentido directo, nesta zona do Estreito de Magalhães, até às Ilhas Sandwich... (seta verde). Poderia perfeitamente reflectir um embate anterior, colocando o equador nesta zona (não necessariamente como referido aqui), em tempos ainda mais remotos... Isso significaria, é claro, tempos de uma Antártida quase tropical.
Essa associação parece ficar ainda mais clara neste excelente mapa de Oronce Fine (Orontius Fineus), perfeitamente datado de 1531:
A parte austral (representada no mapa à direita) seguiria um contorno quase antárctico, conforme prolongamento previsto na ponta sul americana, mas está claramente incorrecta, aproximando-se mais da topografia da Austrália, resultado dessa propositada confusão austral-antárctica.
Aqui os geógrafos usavam por um lado a informação difundida por Vespúcio, sobre esse continente austral, que tinha sido rodeado pelos marinheiros portugueses (conforme diz e desenha Ramusio), e por outro lado a informação da grande ilha australiana - que na nossa opinião poderá ter sido designada inicialmente como Taprobana (antes do problema Ostrich e das associadas cabeças na areia).
É claro que os espanhóis, que navegaram todo o Pacífico, podiam bem protestar em 1835 no El Instructor (já aqui mencionado sobre a invenção catalã do barco a vapor), dizendo:
"en nuestro numero anterior probamos evidentemente que los celebres navegadores modernos no han hecho descubrimiento alguno de importancia en el espacioso Mar Pacifico, desde la America hasta las costas de Asia, que no haya sido previamente descubierto por los Españoles, y que todo el merito á que son credores está reducido á esplorar las costas de aquellas islas, y fijar sus verdaderas longitudes". [pág. 87]
É óbvio que nada disto seria considerado... quando há quádruplas alianças a actuar posteriormente, na península ibérica. E por isso, nem portugueses, nem espanhóis, devem ter considerado oportuno falar numa prioridade sobre descobrimentos antárcticos. O Tratado da Antártida, de 1959, vai para além da aparente posse territorial, e terá muito a ver com os buracos... de ozono (O3 ouΩ3).
Piri Reis é especialmente interessante pelo que foi transcrito nas legendas. Usando ainda a mesma tradução de Paul Lunde, é dito por Piri Reis que Colombo teria usado o já citado mapa de Alexandre Magno. Revela ainda que esse mapa teria chegado à posse dos "francos", que fugiram do Egipto pela invasão árabe de Amr ibn al-As, em 641 d.C. Esses refugiados, a terem chegado à França devem ter desembarcado certamente na Austrásia... (de Brunildas e Pepinos).
Mais estranhamente, Piri Reis fala de uma prévia invasão dos "francos", que estariam assim em território egípcio antes da invasão árabe! Ora, nessa época apenas é conhecida a presença bizantina, e só pouco antes da invasão árabe, o Egipto esteve sob um breve período de controlo persa - sassânida. No entanto, lembramos que os vândalos chegaram a Cartago, pelo que não há razão para estes ou outros francos/godos não terem atacado e tomado controlo de parte do Egipto.
Esta ligação dos francos ao Egipto e Médio-Oriente justificaria ainda as muitas ordens militares sediadas em França, que partiram depois na reconquista da Terra Santa... já para não falar da visita napoleónica.
Paul Lunde refere que o mapa atribuído a Alexandre deveria ser de Ptolomeu, o geógrafo, que os árabes tenderiam a fazer confusão com Ptolomeu I... mais uma confusão!
Como já fizemos aqui referência do achado em Montevideu, na vila de Dores, referente a túmulos com referências a Ptolomeu I, é óbvio que ajuda à confusão um outro Ptolomeu ter sido depois a referência principal na geografia e astronomia.
Para além disso o contexto é claro... Piri Reis diz que Alexandre (dos "Dois Cornos"... assim conhecido no Islão), Alexandre Magno, "navegou por todos estes mares e escreveu tudo o que viu e ouviu".
É frequentemente aqui citado o Tratado ou Livro de Marinharia de João de Lisboa, porém tinha-nos escapado um detalhe importante, que encontrámos na obra "História Geral do Brasil", do historiador brasileiro Francisco Adolfo Varnhagen (1816-78, visconde de Porto Seguro):
Francisco Varnhagen
A certa altura, sobre a viagem de Magalhães, Varnhagen começa por notar que Magalhães teria começado por tentar mudar o nome do Rio de Janeiro, para Baía de Santa Luzia... facto de menor importância, mas que ilustra que num dos objectivos da viagem de Magalhães se encontraria uma renomeação dos vários pontos geográficos conhecidos (página 31, do Tomo 1):
Façamos porém excepção em favor da pequena frota do primeiro circum-navegador Fernão de Magalhães. Em vão quiz este mudar para bahia de Santa Luzia o nome do golfo, em que aportou no dia do orago daquella santa, e ao qual os primeiros navegantes chamaram tão impropriamente Rio de Janeiro. Deixemo-lo passar adiante sem detença; que o resoluto nauta portuense tem reservadas para si paginas mais brilhantes na historia das navegações em torno do globo, que ele emprehendeu levar avante a preço da propria vida e do labéo, miseravelmente mal cabido, quando se trata de tão grande homem e de tão grande feito, de traidor a um rei e a um paiz que o não ajudavam.
Mas, a parte informativa mais importante é sem dúvida a seguinte:
Consignemos porém de passagem que com o Magalhães ia o piloto portuguez João de Lisboa, que já no Brazil havia estado antes, e que escreveu um livro sobre marinharia, cujo aparecimento seria talvez de trascendente importancia para a historia geographica.
Não restam dúvidas que o aparecimento do Tratado de Marinharia seria de transcendente importância... apesar de nunca ter sido dado como perdido!
A diferença é que se à data de Vernhagen ele seria "impublicável".
Por muito que se fale da velocidade de propagação da informação na internet, isso é um puro mito... só funciona se tiver um circuito lubrificado que estimula o boato. Pela nossa parte, há um ano que temos mantido essa informação acessível, e certamente chegou a centenas de pessoas, mas não tem depois nenhum efeito retransmissor visível.
O próprio interesse das pessoas é canalizado para assuntos de outra natureza, por boa fé na sociedade onde cresceram, e onde definiram os seus valores. Desconhecem como a História pode influenciar definitivamente a actualidade... no fundo, não querem largar o conforto maternal das certezas, e concluir todas as incertezas!
Esta informação adicional, só tem importância no contexto.
Afirmámos que os mapas de João de Lisboa, que tinham o Estreito de Magalhães, eram de 1514, anteriores à viagem... conforme datado no Livro. A "Cola do Dragão" foi assim representada antes da viagem oficial, conforme já dissera António Galvão...
Ao encontrarmos João de Lisboa como piloto de Magalhães, encaixam várias coisas... e coloca em causa a datação da sua morte. Pura e simplesmente, João de Lisboa não consta na lista de 18 sobreviventes da viagem. A história contada por Magalhães a Pigaffeta sobre um eventual mapa de Martin Behaim ganha ainda outros contornos de simples despiste ao cronista.
Já tínhamos referido que Pedro e Jorge Reinel teriam ajudado Fernão de Magalhães com os mapas. Agora, conclui-se que ainda levava consigo João de Lisboa que tinha desenhado 5 anos antes um mapa com o Estreito, e que mais uma vez recordamos...
O facto de já estar escrito "estreito dos Magalhãis" aparenta ter sido uma "torta" inclusão posterior (conforme já extensamente mencionado). Aliás alguns dos nomes coincidem (São Julião... Puerto de San Julian, Baía de São Matias... Golfo de São Matias, Rio da Cruz... Rio de Santa Cruz), mas a maioria não... e de um modo geral, o contorno não corresponde a uma fiável linha de costa.
De entre os nomes que não coincidem... destacamos o singular nome:
Cabo dos Trabalhos
... e assim a expressão "cabo dos trabalhos" tem outro significado relacionado com esta empresa!
Já nos tínhamos apercebido ser duvidosa a data da morte de João de Lisboa em 1525, aliás Vernhagen acaba por dizer em nota, que se sabia que em 1535 era morto, pois nessa data Heitor de Coimbra pedia o seu lugar de "piloto mor do Reino". Apesar do seu nome não constar no desembarque com Sebastian Elcano, não é de excluir que João de Lisboa tenha desembarcado num qualquer outro ponto do império português (afinal a nau Trinidad acabaria por ser capturada). Apesar do serviço a esta empreitada espanhola, continuaria como "piloto mor do reino"?
Todo o registo histórico é suficientemente estranho, e apenas claro no sentido de mostrar que a viagem de Magalhães acabou por servir mais como uma formalidade necessária, acordada talvez uma ajuda adicional de D. Manuel a Carlos V, para consumar a partilha dos hemisférios.
Varnhagen parece ir no mesmo sentido, ainda que escudado pela menção à história brasileira:
A navegação de Magalhães, com respeito à historia do Brazil, só interessa pelo facto da conquista das Molucas, que fez descubrir as primeiras dúvidas na intelligencia dos pontos questionáveis do tratado de Tordesilhas, pontos que a historia hoje elucida; mas que em direito nunca se aclararam, apezar dos muitos gastos e esforços ostensivos feitos pelas duas coroas, como veremos.
Esta aventura conjunta, ou consentida, terá profundas consequências na demarcação do anti-meridiano. A obstinação de D. Sebastião em recusar a união com a casa de Filipe II, que oferecia as Filipinas como dote da sua filha, teria consequências irreversíveis para Portugal.