sábado, 15 de setembro de 2018

dos Comentários (41) - o que fazer?

Uma pergunta que um leitor colocou por email é muito simples e resume-se a isto:
- E agora, o que fazer?
A minha resposta é igualmente simples - não é preciso fazer nada!

O tiro deve ser sempre apontado à cabeça - mas isto deve ser entendido...
- À cabeça de quem detém o poder, no sentido de mudar o seu pensamento.
- À cabeça de todos os que se abstêm de pensar, e são executantes de ordens que não entendem, ou não querem entender.
A única coisa que interessa é mudar o pensamento, no sentido em que é uma auto-tortura prosseguir uma enfernizada guerra surda interna, cujo propósito é ridículo.
O maior perigo que surgiu contra o homem foram os grupos de homens - clubes, associações, sociedades, nações. O indivíduo sempre ficou fragilizado e amedrontado perante o poder de ser espezinhado por esse monstro da evolução, que são grupos de homens organizados. Como diriam os anarquistas, o maior objectivo de uma sociedade seria destruir de raiz qualquer agrupamento. A principal organização social seria no sentido de evitar qualquer organização que desse a um o poder de muitos, excepto para evitar isso.
As multidões são giríssimas em folia, mas são pavorosas em agressividade.
Mas isto não é só uma consciência que deve ter quem controla, é uma consciência que deve ter quem não quer ser controlado. 
Se quem estiver a controlar não quiser mudar, pois ou há uma mudança de mentalidade de quem está a ser controlado, ou continua tudo na mesma, pelo tempo que for preciso... com consequências más, para uns e para outros.

Giuseppe di Tomasi Lampedusa
"Il Gattopardo"
A ideia de que uma pessoa, ou um grupo de pessoas, pode protagonizar uma mudança social, tem sido conduzida de forma perversa, e colocada ao serviço do espectáculo.
As pseudo-revoluções, ou grandes mudanças, foram feitas seguindo a velha máxima de Lampedusa - "tudo deve mudar para que tudo fique como está".

Ora, o que é que não muda?
O que não parece ter mudado é a sensação de que existe um poder oculto que condiciona de forma determinante o poder visível.

É claro que os protagonistas visíveis de um "certo poder" mudam, vão sendo substituídos por eleições, ou mesmo mudanças de regime, afectando de forma abrupta pequenos poderes locais. Esses poderes locais são vistos localmente pelas populações como fontes independentes do poder, mas não o são.

A nobreza, ou elites sociais, são mais imunes às alterações de regime, porque numa lógica familiar mantêm a sua rede de contactos, que continua a funcionar, mesmo quando tudo colapsa. 
Normalmente jogam de ambos os lados de uma disputa, e têm as peças já colocadas no caso da insurgência surtir algum efeito. Depois, é apenas uma questão de esperar uns anos, que o fulgor revolucionário se dissipe, e podem voltar a constituir-se como poder, da mesma ou de outra forma.

A receita
Parte desta receita foi ditada por D. Francisco de Almeida, 1º vice-rei da Índia:
Que tenhamos fortalezas ao longo da costa mas apenas para proteger as feitorias porque a verdadeira segurança delas estará na amizade dos rajás indígenas por nós colocados nos seus tronos, por nossas armadas defendidos.
Esta era uma receita de colonialismo não presencial, que foi de forma eficaz estendida a todas as nações (fossem ou não colónias).
Como? - Através do poder militar, económico e financeiro.
Os marajás eram postos e depostos, tal como mudam os governos, mas a política dos novos seria a mesma dos antigos. Uma feitoria, como Goa ou Macau, era suficiente para manter o comércio sob os bons auspícios portugueses. Um banco nacional com instruções do FMI é igualmente suficiente para assegurar uma política financeira ditada por Wall Street ou pela City de Londres... os governos podem mudar, mas sujeitam-se às mesmas directrizes para ficarem no trono. 

As Companhias
A ideia de os navios partirem com companhia, começou cedo, até porque provavelmente sem uma companhia fiscalizadora, os navios arriscariam caminhos cobertos, que não deveriam ser descobertos. Assim avisava a VOC, a Companhia Holandesa das Índias Orientais. 
Os navios poderiam até ter partido como iniciativa privada (como fez D. Afonso V a Fernão Gomes), mas não foi essa filosofia que prevaleceu. Apareceram "companhias das índias" estatais monopolistas em todas as nações dedicadas ao comércio marítimo. Se na Holanda começaram por haver 12 companhias, todas foram rapidamente aglomeradas na VOC, que se fundou no moderno espírito de participação de capital... tal como a Holanda foi a primeira nação a ver a especulação bolsista judaica a funcionar, num esquema piramidal de bolbos de túlipa.

Ainda antes destas companhias estatais estarem definidas, já se definia que os navios não passavam sem uma companhia cristã, ou seja sem uma Companhia de Jesus. Os jesuítas nasceram dois anos antes da Inquisição entrar em Portugal, e rapidamente passaram a figurar como missionários, sendo o mais famoso "companheiro" S. Francisco Xavier. 

Só que não houve diferença na mudança, entre a ocultação australiana exigida pela companhia cristã, ou a permanência da mesma ocultação australiana durante o tempo da companhia holandesa. 
Mudando, nada mudava.  

A influência das Companhias das Índias cresceu com a maçonaria, par a par.
Um exemplo foi a criação pela Companhia das Índias Britânica, a EIC, de um estado independente do poder monárquico inglês, como foi o caso dos EUA, em que a bandeira original era semelhante à bandeira da EIC. Dois anos depois foi dado um toque na bandeira (com estrelas como as da UE), porque as ideias vão sendo as mesmas (nos EUA eram 13 e não 12 os estados iniciais):

Bandeira da EIC (Companhia das Índias Britânica)
e a Bandeira (Betsy Ross) dos EUA
(as 13 estrelas representavam os 13 estados iniciais)

A VOC funcionava em participação bolsista. Ora, quando as diferentes Companhias das Índias foram desaparecendo, no Séc. XIX, apareceram nas suas sedes as primeiras Bolsas de Valores.

A capacidade de uma Companhia das Índias fazer desaparecer um regime foi bem testada pela maçonaria na Revolução Francesa. Descontente com o resultado da Guerra dos Sete Anos e depois com o cozinhado de Cook e Sandwich (na glutonice de apanhar todo o Oceano Pacífico), o rei francês Louis XV decidiu extinguir a Companhia das Índias Francesa. A partir daí começaram problemas escassez comercial, e de fome, que se foram agravando durante 20 anos até culminar na Revolução Francesa.

A Revolução Francesa pouco terá tido de "francesa", o modelo de governo republicano já tinha sido ensaiado na Inglaterra de Cromwell no século anterior. No entanto, a maçonaria já tinha aprimorado o modelo, e estava disposta a nova tentativa. Mesmo com o insucesso da revolução, as ideias liberais acabaram por se impor nos estados durante o Séc. XIX.

Os Tratados 
Génova e Veneza costumavam traficar influências na nomeação papal, que normalmente caía num papa italiano. Quando o Tratado de Tordesilhas foi declarado pelo papa espanhol Borja (Bórgia), todas as restantes nações europeias foram desconsideradas na partilha do mundo entre Portugal e Espanha. Isso causou um impacto maior do que é reconhecido, e ainda hoje é sentido.

Quando se começou a tornar evidente que as navegações oceânicas iriam ser uma galinha de ovos de ouro, aparece também Lutero com as suas teses em 1517. Pouco depois Henrique VIII define a igreja anglicana, em 1534, e o poder papal começa a deixar de ser o aparente regulador da paz europeia. 

Mesmo em 1509, quando se dá a Batalha de Diu, os portugueses não defrontavam apenas os mamelucos do Cairo, e o sultanato indiano de Guzarate, havia o grande apoio dos venezianos, que forneceram os navios de guerra e armamento. Quando Carlos V coordenou a conquista de Túnis em 1535 recebeu balas de canhão que já falavam francês. 
Ou seja, as tradicionais alianças europeias "pela cristandade" sujeitavam-se à real politik.

As coisas iriam ser "diferentes", e a guerra que definiu essa mudança foi a Guerra dos Trinta Anos, e a "Paz de Vestfália". O novo equilíbrio de poder iria ser feito de tratados bilaterais, ou como a maçonaria se regozijaria depois - terminavam até as costas voltadas a entendimentos com as nações árabes. Numa longa aliança, a França praticamente absteve-se de qualquer intervenção contra o Império Otomano (exceptuando algum tempo, na regência de Napoleão).

Portanto os tratados bilaterais pareciam ser uma panaceia, mas devido aos insucessos diplomáticos que levaram às Guerras Mundiais do Séc. XX, voltou a criar-se uma espécie de papado, na Sociedade das Nações, depois ONU, perdendo apenas a conotação religiosa.

A ideia de criar um governo global controlador pode ser interessante no sentido em que seria a organização que impediria as organizações. No entanto, como é óbvio, o que se pretende sempre é estender a eficácia de uma máquina controladora a uma organização maior. 
Isso não levará a nada, porque quando as organizações não têm inimigos externos, arranjam-nos internamente. 


Em suma, na aparência não vai mudar rigorosamente nada. 
No entanto, como estas coisas não dependem de ninguém em particular, uma vez começada a desconfiança ela irá propagar-se como um incêndio. Não vale a pena isolar quem sabe, porque não é isso que impedirá outros de saber. Não há um foco de incêndio, é toda a terra que aquece, e nesse caso, não há contenção possível.

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