sábado, 9 de fevereiro de 2019

Index do Livro de Marinharia de João de Lisboa (1)

Uma das coisas que nunca fiz, apesar de ter falado bastante dele, foi ler o Tratado de Marinharia de João de Lisboa. Na realidade, concentrei-me apenas nos mapas aí constantes, mas dada a dificuldade em ler manuscritos antigos, uma falta de tempo, e a evidência do outro material, acabei por nunca me focar no que estava lá escrito.

Pior, se procurarmos, nem tão pouco encontramos um índice disponível com os capítulos aí constantes. A única parte a que se dedicou Luís de Albuquerque foi a um pequeno capítulo relativo ao Tratado da Agulha de Marear (página 9).

Deixo por isso aqui a primeira parte do index com o que de mais relevante aí constava.
Vê-se que as tabelas de declinações e os mapas foram inseridos entre as páginas 19 e 20 do manuscrito original. É por isso perfeitamente natural pensar que foi uma inserção posterior. É tão natural isso, quanto analisar os mapas e concluir que eram mapas existentes em 1514, porque a representação aí constante pára nesse ponto. As inclusões de nomes posteriores ocorreu, é claro, mas isso não deturpa os mapas sem as alterações, como seja o caso do globo de João de Lisboa.

Normalmente, já nem sequer gosto de olhar para os mapas, porque sei que vou descobrir mais coisas, e não vale rigorosamente de nada. 
No entanto, como acabei por olhar e ver, não vou deixar de assinalar duas ou três coisas acerca do mapa que tem o Golfo do México, ali chamado "Enseada dellucatão":


(i) O mais natural é que o nome original fosse "Enseada de Catão" ou "Cataio", ligando à mítica China, também designada "Cathay". Aqui já se processava a transformação dos nomes portugueses em espanholês, e daí ficar "Enseada de lo Catão", e por mau entendimento do espanholês, a coisa foi escrita/entendida como "del Iucatão", e Iucatão acabou por ficar, justificado por uma salganhada de pseudo-nomes indígenas. Porque razão se processava esta transformação? Por razão do Tratado de Tordesilhas, e do compromisso de D. Manuel de dar todo o Hemisfério Ocidental aos espanhóis. Não só dar, como também educar na dádiva...

(ii) Assinalo também no mapa o nome "c.delcanaverall". É o Cabo Canaveral de onde partem os foguetes da NASA... Os espanhóis por lapso foram-lhe chamando "Caña Real", e assim consta dos mapas (por exemplo num mapa de Ortelius de 1584). Alguém depois deve ter corrigido bem o nome.

(iii) Aparece ao lado "b joão ponçe", que deveria depois corresponder à Ponce de Léon Bay, mas aqui João de Lisboa assinala outro sítio, talvez porque o espanhol desembarcou num sítio diferente ao que lhe disseram. Aparece ainda a "baia omda", e mais uma vez esta é colocada como Honda nas Florida Keys, demasiado a sul, face à localização original, que seria Tampa Bay.

(iv) Poderíamos ir continuando, mas ficamos pela antecipada menção a Vila Rica e Vera Cruz, já que o desembarque espanhol de Cortés apenas aconteceu aí em 1519 (ou seja, cinco anos depois do mapa). É especialmente curioso não haver nenhuma localização da cidade do México, ou até das pirâmides Maias, o que poderá significar que o conhecimento português estava muito circunscrito à parte costeira, sem qualquer contacto interior. Com efeito, a única edificação (castelo) que aparece no mapa é muito mais a sul, na zona actual das Honduras.

Será ainda engraçado perceber que o Rio Mississipi já aqui se chamava Rio Espírito Santo, nome que é suposto ter sido usado por Hernando de Soto em 1542. Será interessante ler o relato do português que o acompanhava, pela mão, nesta expedição:


Segue a primeira parte do índice do Tratado de Marinharia, sem mais comentários.

------------- Tratado de Marinharia de João de Lisboa - Índice (1) ------------

Breve tratado de marinharia com alguns exemplos que falam acerca da altura

1. Exemplos (emxempros)
1. para saberes quanto estas de uma terra que vires pela proa

2. Achando-vos onde houver fluxo ou refluxo de águas fareis vossa cota da maneira seguinte

3. Regra para saberes demandar uma ilha

4. Capitº. Como se há de cartear para qualquer dos polos. 4. Capº. Segundo
4v. Capº. Terceiro. Capº. Quarto

5. Capº. Quinto. Capº Seisto
5v. Capº. Sétimo. Capº Oitavo

6. Capº. Noveno. 
6. Regra para saberes a parte de onde te noresteia ou nordesteia tua agulha
6. Fim

7. Regimento para tirar a declinação pelo quadrante e assim mesmo para saber todo o tempo em que lugar está o sol em qual quer dos sinos ou em quantos graus dele estiver
7v. Capitº da maneira que o Sol se move para fazer sua declinação

9v. Aqui se começa o Tratado da Agulha de marear achado por João de Lixboa no ano de 1514...
9v. Capitº primº do comprimento da agulha de marear para verdadeiramente saberes a diversidade das agulhas.
9v. Capitº segundo da maneira que se há de fazer a caixa
9v. Capit. terceiro como se há de forçar a caixa de fora

10. Capitº 4º para saber como se há de tomar a estrela do norte pela agulha de marear
10. Capº quinto em que declara como haveis de tomar a estrela do sul.
10v. Capº. em que declara como hás de ter as agulhas nas mãos

11. Capº em que se declara onde havemos de tomar este meridiano vero: e assim a quantidade da 4ª. E depois das outras começam do equinocial para os polos do mundo
11. Capº em que declara como se acha de tomar altura em uma torre ou a qualquer outra cousa que quiserdes.
11v. Capº da declaração do meridiano
11v. Capº dezeno

12. Regimento para em uma carta de marear dares pelo manifesto: e para saberes por ela dar a quantidade de um grau pelo qual quer paralelo em que se faz em uma poma te mostra Regra em plano.
12. Regra para saberes pelo astrolábio quantas horas tem o dia.
12v. Lembrança dos dias que o Sol cursa mais da banda do norte que da banda do sul. Os quais são.
12v. Da maneira que hás de tirar as marés em terras novas: ou em outras quais quer terras que quiseres saber como correm.

13. Regra para saberes as Marés, a que hora do dia são.
13v. Regimento de marinharia para saberes quanto te arredas da costa por cada quarta que fores.
13v. Isto é para dares e saber dar Razão de ti

14. Outras perguntas.
14. Estees são os paralelos e quanto vale cada quarta da agulha que te norestear ou nordestear.
14v. Regimento para saberes quantos graus tomas no astrolábio em qual quer dia do ano ou em qual quer terra que estiver
14v. Regimento da altura do Sol quando ainda da banda do norte

15v. Regimento do Sol da parte do Sul
15v. Regimento para tomares altura do norte: é para saberes com se deve tomar a estrela do norte pela agulha de marear

16v. Das tabuletas (tavoletas)
16v. Regimento do Cruzeiro do Sul: e como deves de tomar a estrela do sul

17. Regimento da Estrela do Sul para saberes o que levanta e a baixam e faz dos graus de Rota a Redor do polo de alto e baixo.
17v. Regimento da altura do Sol: pela banda de cima do astrolábio de menos trabalho e melhor.
17v. Regimento da estrela da barca

18. Regimento do cruzeiro do sul
18. Regimento para tomar o Sol pela balestilha
18. Regra das festas
18. Os áureos números de todos os anos

19. As três Regras escritas mais largas e com suas contas feitas
19. Regimento da Estrela do Norte
19v. Declaração para saberes as léguas que vale cada um dos Rumos da agulha
19v. Declaração para saber quando é meia-noite pela estrela do norte

(Tabelas de declinações)
Ano primeiro - Janeiro - Fevereiro - Março
Ano primeiro - Abril - Maio - Junho
Ano primeiro - Junho - Agosto - Setembro
Ano primeiro - Outubro - Novembro - Dezembro

Ano segundo - Janeiro - Fevereiro - Março
Ano segundo - Abril - Maio - Junho
Ano segundo - Junho - Agosto - Setembro
Ano segundo - Outubro - Novembro - Dezembro

Ano terceiro - Janeiro - Fevereiro - Março
Ano terceiro - Abril - Maio - Junho
Ano terceiro - Junho - Agosto - Setembro
Ano terceiro - Outubro - Novembro - Dezembro

Ano bissexto - Janeiro - Fevereiro - Março
Ano bissexto - Abril - Maio - Junho
Ano bissexto - Junho - Agosto - Setembro
Ano bissexto - Outubro - Novembro - Dezembro

(Mapas)
- Terra do Lavrador; Os Bacalhaos;  Ilhas Treseiras (Açores)

- Emseada dellucatão; Costa da nova espanha; nõbre de deos; as amtilhas; mar dos ull do nombre de deos; costa de peru

- as amtilhas; Rio das almazonas; ho maranhão

- as seis ilhas; R da prata; estreito dos magalhãis

- ho manhão; c de samtagustinho; costa do brasill; martim vas; as seis ilhas

- a grã canaria; ilhas do cabo verde; ho maranhão; ho brasill; cabo de samtagustinho

- martim vaz; ilhas de tristão da cunha

- tera dos bacalhaos; Islamda; Imgratera (Inglaterra); Ilhas terçeiras; llixboa; çafim

- allemanha; Imgratera; framdes (Flandres); frãca (França); llixboa; castella; çafim; africa

- çafim; africa; a gra canaria; as ilhas do cabo verde; guine; tera do brasill

- as camboas; guine; I de sã tome

- I de sã tome; ho comgo

- (mapa da costa oriental africana, da áfrica do sul até ao equador)

- (mapa de madagáscar e ilhas da costa oriental africana)

- Mar d Alexandria; Jerusalem; Mar Caspeo

- (mapa do Golfo Pérsico e Índia ocidental)

- (mapa de Malaca e Índia oriental)

- China

- (mapa de Malaca, Maluco, Timor, etc)

- (globo) nova espanha; peru; tera nova; brasill; guine; prestes joão; allemanha; turquia; persia; china; japão; maluco; jaoa; nova ginea; c. da boa esperança

(Tabelas de declinações)
Janeiro - Fevereiro - Março
Abril - Maio - Junho
Junho - Agosto - Setembro
Outubro - Novembro - Dezembro

Janeiro - Fevereiro - Março
Abril - Maio - Junho
Junho - Agosto - Setembro
Outubro - Novembro - Dezembro

Janeiro - Fevereiro - Março
Abril - Maio - Junho
Junho - Agosto - Setembro
Outubro - Novembro - Dezembro

Janeiro - Fevereiro - Março
Abril - Maio - Junho
Junho - Agosto - Setembro
Outubro - Novembro - Dezembro

20. Alturas das terras da linha equinocial (Quanuncial): Até ao cabo de finis terra
20. Aqui começam as alturas (cabo de Lopo Gẽz até Cabo da Boa Esperança)
20v. Alturas do Cabo da Boa Esperança até Moçambique
20v. Alturas da Costa do Brasill


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O raio do Vaticano

Como algumas pessoas fizeram notar, não se conheciam imagens de um raio atingir a cúpula do Vaticano até que há 6 anos, a 11 de Fevereiro de 2013, apareceu a imagem que vimos.
Um relâmpago atinge o Vaticano no dia da resignação papal (11/02/2013).

A situação nada teria de especial, excepto que no mesmo dia, de manhã cedo, o Papa Bento XVI anunciara a sua resignação do mandato papal. Ou seja, às 8h30 (hora de Roma) o papa faz o anúncio da resignação - algo sem precedentes desde a renúncia do Papa Clemente XII em 1415, alguns dias antes da frota portuguesa partir para conquistar Ceuta. Às 5h55 (hora de Roma), é registado em foto o momento da queda do relâmpago (é também dito que caiu depois outro).

Quatro dias mais tarde, a 15 de Fevereiro de 2013, um meteoro atinge estrondosamente a Rússia em Chelyabinsk. O facto mais curioso é que, aparentemente, este meteoro era suficientemente grande, e seria supostamente detectado antes do embate, o que não terá ocorrido, tendo apanhado todos de surpresa... e de certa forma perdendo a esperança que iriam ser avisados antes do próximo embate!
O meteoro que atingiu Chelyabinsk em 15 de Fevereiro de 2013.

Convém lembrar que ainda não tinham passado dois meses sobre a anunciada data do "fim de ciclo Maia", que fôra o 21 de Dezembro de 2012. Portanto, havia alguns profetas da desgraça e do apocalipse, que tinham ganho um novo alento, com a conjugação destes dois episódios.

A primeira questão que devemos colocar é a seguinte:
- Poderiam ambos os fenómenos ter origem humana?
A resposta é sim, mesmo que não me pareça que tal tenha ocorrido, não podemos descartar isso.
Com efeito, bastaria induzir suficiente corrente eléctrica positiva no topo da Catedral de São Pedro, para se produzir uma descarga eléctrica das nuvens carregadas negativamente. Como efeito dramático associado à resignação não deixaria de causar o espanto que causou.
O mesmo se passa com a queda de objectos espaciais... basta lembrar o Skylab que tanto pânico gerou em 1979. Portanto, a priori não há razão para desconsiderar uma possível intervenção humana.

É claro que, para quem considera que tudo são coincidências, mesmo que todos os dirigentes mundiais fossem fulminados por relâmpagos no mesmo dia, isso não passaria de uma infeliz coincidência.
Ora, na altura, em 2013, estava pouco virado para acreditar em coincidências... até porque tinha feito uma certa recuperação do material antigo (perdido com o fim do Knol), publicava quase um post dia-sim-dia-não, e estava um pouco cansado do resultado nulo. Sim, porque apesar de não acreditar muito na mudança das coisas, ficava sempre uma secreta esperança de que "algo deveria mudar"".
Fiz assim uma espécie de voto de silêncio, ao som de "enjoy the silence", mas que foi curtíssimo!
Ao fim de três semanas, acabei por encontrar uma "Nota de Rodopé" que considerei relevante para o interromper. Em particular, cito um trecho:
Na parte da mitologia que falta contar, em Gaia, há uma estrutura suporte, que detém a ordem, uma visão, metade do sistema... a outra metade é externa, será filha do caos, do exterior, e terá a outra visão. Nessa mitologia de contornos fisiológicos, mas que é uma figuração de ideias, a estrutura ovular é preservada, pois é dela que sairá o ovo. É claro que se não houver ovo, entramos numa figuração diluviana.
Curiosamente, até porque já não dou relevo às coincidências, como antes, mas gosto de as assinalar, não me lembrava minimamente de ter escrito isto:
O cone tem figurações que escapam à pirâmide quadrangular, justamente porque a base não é de raiz quadrangular... tem como génese a "quadratura do círculo", ou se quisermos, a "circulatura do quadrado", e o seu nome é Pi, e "ainda não tem vida". Pi está no nome "pirâmide", mas não na sua estrutura... aliás o prefixo "pi", podemos encontrá-lo em "pico", "pilar", e mais não "falo".
O nome "Circulatura do Quadrado", foi estreado hoje na TVI, programa que antes estava na SIC e se chamava "Quadratura do Círculo". É uma coincidência mínima o nome ser o mesmo. É uma coincidência máxima ter decidido escrever este postal hoje, e ter encontrado isto. Aliás ainda vou ver o PDF que guardei, porque não tinha ideia nenhuma de ter usado este mesmo nome.

Estamos no ponto em que as coincidências ainda acreditam em mim, mas eu já não lhes ligo.
Ora, eu sei que isso não vale de nada, e quando elas acontecem a sério, mesmo a sério, é quase impossível não ser afectado. Quando se sintoniza a frequência, é impossível deixar de ouvir, pode-se é deixar de ligar muito ao assunto.

Adiante, no postal seguinte, "Panóptico ou ovo de Cólon" levei este assunto da gestação para um caso muito concreto - o da influência dos eunucos no controlo secreto do futuro da sociedade:
O epílogo com uma nova forma de vida, posso entendê-lo, no sentido do "ovo de colon", quando colocado em Ganimedes... funcionando como o resultado final do projecto de gestação social, numa visão primeva de alguém a quem foi suprimida a possibilidade de outra descendência.
Ora, essa influência de eunucos teria sido passada para o catolicismo, enquanto abstinência voluntária, e finalmente chegamos ao postal de 11 de Fevereiro. Quando terminei "Abraçadabra", lembro-me de ter pensado "... depois de escrever isto, as coisas não podem ficar na mesma".
Claro que isto não seria mais do que o wishful thinking de um mudo pensar que alguém o ouve, ou que alguém o houve, e assim deve ser entendido. No entanto, fui-me deitar às 7h30 da manhã, e quando vi as notícias da tarde, vi que o Papa tinha resignado. Por isso, esta coincidência foi um bocado especial, e não a esqueço. Não era obviamente nada disso que estava a pensar, mas teve piada.

Interessante, porque depois escrevi aquele que é provavelmente um dos melhores postais que aqui deixei, "Arquitecturas (5)", e que é de certa forma o epílogo do trabalho inicial que tive. E sim, no dia seguinte, vi que tinha caído o tal meteoro em Chelyabinsk, mas não liguei quase nada ao assunto.
Depois, as coisas foram-se complicando cada vez mais até ao final de 2013... ao ponto de ter chegado a pensar que o tal 2012 ia chegar com um ano de atraso. Mas, não. Desapareceu tal como chegou, do nada. Porque, uma coisa é encontrar as respostas, outra coisa completamente diferente, é perceber as dúvidas de quem tem as perguntas. E quem tem dúvidas, que não são mais que dúvidas que outros só podem entender como dúvidas próprias, ou talvez resultado de alguma dissociação esquizofrénica, pode ser muito persuasivo e insistente nas múltiplas formas como as coloca.
Aí sim, percebemos o que são coincidências, coincidências a sério...

Quanto ao nome "Vaticano", pois parece ser de origem incerta, mas parece reportar-se ao nome do monte "Mons Vaticanus", que podendo ser nome de origem etrusca, foi também associado ao culto da adivinhação. Pode ter a mesma origem que "vaticínio", concatenado com um sufixo "cano" ligado ao canto, como "ave canora"... ainda que seja incerto.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

dos Comentários (45) Apocalipse do Lorvão

Relativamente ao comentário acerca do mapa constante no manuscrito "Apocalipse do Lorvão", trazido por Djorge, deixo aqui os meus comentários.

Em primeiro lugar, penso que se sabe que "apocalipse" é um sinónimo de "revelação".
Quero dizer, no sentido "desvelar", porque "revelar" seria "velar" de novo (meter novo "véu").
Tal como "eucalipto", que significa "bem-cobre", "apocalipto" seria "des-cobre".

Já falei sobre este assunto, e pouco há mais a acrescentar. Uma técnica conhecida de manter a cobertura, parecendo que se está a tirar, é colocar uma outra por cima. Há uma grande diferença entre expor mentiras, e inventar uma nova verdade. Expor mentiras é de facto "desvelar", substituir a mentira anterior por uma nova verdade, já pode ser uma simples tarefa de "revelar", e há adoradores dessas cobras, que cobram e cobrem tudo. 

Adiante.
O "mapa do Lorvão" que apresento aqui tem inserções (a amarelo) com os nomes ali escritos.

Mapa comentado no Manuscrito "Apocalipse do Lorvão" - (apenas metade está disponível)

Conforme sinalizado por Djorge, apenas temos metade do mapa, mas após breve análise do conteúdo, estou convencido que se tratava do hemisfério sul, e teria sido a parte norte que desapareceu.

Com efeito, o mapa começa com Calpes Mons, e isso é a designação antiga do rochedo de Gibraltar. Curiosamente, há um outro grande rochedo em Espanha que também é designado Calpe (perto de Valencia), mas também é conhecido como Peñon de Ifach.
Um outro monte Calpe - Peñon de Ifach 

Depois, o mapa segue para os Montes do Atlas (ali escrito "adlas"), fala de uma região deserta (provavelmente referindo a costa do Saara), e de seguida de "monstruosos alpes etíopes", sendo natural que se pudesse referir ao Monte dos Camarões (vulcão, dito "Carro dos Deuses").

Segue-se uma designação "adanziam", a que não consegui identificar relação (mas poderia referir um "adamastor"). No entanto, em frente está uma designação de ilhas "Furtuniax Insula", que podem ser associadas às míticas Ilhas Afortunadas, que tanto serviram como designação das Canárias, das Ilhas de Cabo Verde, ou até foram ligadas às Antilhas ou ao Brasil. 

Passado esse ponto, o mapa sobe rapidamente, ignorando a parte leste africana, aparecendo uma "região deserta e arenosa" (talvez a península arábica), para chegar rapidamente a uma outra zona, identificada como "Caldeia", aparecendo de seguida os rios Tigre e Eufrates, da Mesopotâmia, muito perto de uma "Índia de São Tomé" (escrito "Thomas").

Como era hábito nos mapas medievais coloca-se uma fonte no paraíso (Fons Paradisi), de onde saíriam os rios principais (Tigre, Eufrates, Giom~Nilo, Pisom~Ganges), na área Pártia. Curiosamente, ao lado está a ilha "Tabroiano", que se identifica provavelmente à mítica ilha Taprobana.

Há uma interessante análise deste mapa neste link:
que permite a seguinte leitura da inscrição da ilha/continente identificada aos Antípodas (e aqui podemos estar com uma ficcionada ou real representação australiana):
Ad est regio solis ardore incognita nobis et inhabitabilis antipodes habitare ibidi cuntª homines pedem latum habentes de quo pede umbra sibi ad calorem adhibetur 
ou seja, tendo em conta a tradução aí constante, "A região de sol ardente é-nos desconhecida, nuns limites inabitáveis antípodas, onde homens têm grande pé, a qual sombra os guarda do calor", remete-nos para o tema dos patagões, já aqui trazido também por Djorge no postal Regno Patalis.  

Veja-se também o link do trabalho de Thiago Borges (pág. 42, "O mapa-múndi do Beato do Lorvão"), que é pouco elucidativo quanto ao significado, nomeadamente das ilhas "Espendum", ou "Cors & Agire", de que não encontro outra referência.

Em suma, creio que estamos claramente perante uma representação de um hemisfério sul, com uma referência clara a regiões míticas que polvilham a mentalidade monástica, como sejam as ilhas afortunadas ou os antípodas com os patagões. Apesar de prever uma África contornável, nada tem de preciso que sustentasse esse conhecimento, tendo sim uma distorção geográfica impressionante, própria de forçar a geografia à lenda e não o contrário. 

O aspecto mais relevante parece-me ser a completa ausência de referência às partes da China, o que não se pode concluir em definitivo por falta da outra metade, mas que se pode deduzir, já que a China só terá começado a polvilhar o imaginário medieval depois dos relatos de Marco Polo.

Divergindo parcialmente da sua conclusão, não deixo de citar o comentário inicial de Djorge, que foi particularmente informativo e motivador para esta breve análise.
Há dias estava eu a dar uma olhada no manuscrito do Beatus Apocaliptico de Lorvão, que se pode consultar no arquivo digital da torre do tompo com o seguinte link:
Quando me lembrei deste post, pois como lhe disse em tempos, não acredito em coincidências.
Assim segue algumas "curiosidades" que detectei e que me levaram a ligar este post com o Manuscrito.
    1. Para além de estar ligado à Ordem de Cister, tal como outros manuscritos copiados dos apontamentos pelo Biato de Liébana sobre o apocalipse, como de San Andrés del Arroyo. Este, o Português, foi escrito em latim, teoriza-se por "Monjas" (o que por si já denota a importância da figura feminina no seio do conhecimento na época medieval) da ordem de Cister.
    2. A autoria é atribuida, no site da torre do tombo, a EGEAS.
    3. Está atribuida uma data de 1189 ao manuscrito.
    4. O Apocalipse do Lorvão pertenceu ao mosteiro de São Mamede Lorvão, de onde foi trazido para a Torre do Tombo por Alexandre Herculano.
    5. Tal como o manuscrito de San Andrés, este manuscrito tem um mapa mundi, semelhante ao de Stº Isidoro. 
    6. Tem "particularidade" de lhe faltar o verso da página 78, ou seja metade do mapa mundi.
    7. A metade que lhe falta, é exatamente a metade OESTE, a do Atlantico, e respectivas "ilhas" que no manuscrito de San Andrés ladeiam a margem exterior do mapa.
    8. O catálogo da Torre do Tombo (https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4381091) não menciona a falta dessa página.
   9. Enquanto o mapa do Beatus de San Andrés contem um mapa iluminado muito figurativo, a metade do mapa no Beatus do Lorvão é mais simplista e aparentemente mais geograficamente correto.
Especulação:
Ora se Pero Vaz Bisagudo tinha um mapamundi, "mapamundi antigo", teria de ser copiado de algo.
Não seria certamente o mapa de Andrea Bianco, aliás, o de Andrea Bianco também teria de se basear em algo. Como consequência surgem mais uma vez as explorações Portuguesas ao longo da costa africana, como fontes para o Mapa de Bianco. A ligação entre Bianco e Bisagudo aparenta fazer sentido tendo em conta a viagem de 20 Caravelas que Bisagudo levou ao Reino do Benim com um forte "em peças" para montar (já escrevi noutro post aqui no seu blog, sobre a caravela que da Gama levou numa Nau e que montou na Ilha de Moçambique). Podemos suspeitar que Bisagudo contactou Bianco e lhe forneceu informações sobre a costa africana e as explorações para Bianco colocar no seu mapa?? Não me parece.
Especulo então que, à falta de outro mapa passível de ser uma fonte fidedigna existente em Portugal à época, pela semelhança com os codexes (beatus), pela semelhança e próximidade de datação entre o mapamundi de Stº. Isidoro e o mapamundi no Beatus "Apocalipse" de Lorvão, a metade em falta teria uma grande probabilidade de ter sido o tal mapa que Bisagudo detinha com a localização do "Brasil".

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Ver mudo. Ver, muda. Vermuda em Bermuda

Ver que muda Vermuda em Bermuda:

Mapa de Gillaume Le Tetu (1566) - a ilha Bermuda, era aí chamada la Vermude

No mapa anterior de Le Tetu, pode-se reparar que na posição da ilha Bermuda, está escrito La Vermude, uma mudança de Bermuda no tom francês. Mas, havendo a passagem do B a V, fica mais estranho, e soa mesmo a "Vermute"... até porque mais a sul temos Martinica.

O nome Bermuda é supostamente reduzido a uma pseudo-descoberta por um piloto de Colombo, de nome Juan de Bermudez, em 1505. Não parece difícil aceitar que ficasse com esse nome, até porque no livro Legatio Babylonica (1511) de P. Anghiera, aparece um mapa com "la bermuda" e a forma gótica da letra 𝖇  sugere uma  possível confusão com um gótico 𝖛 (que pode ainda ser pior em maiúsculas, ou seja, entre 𝕭  [B] e 𝖁  [V]).
Ou seja, como habitual, confusões à espera de ocorrerem...

É certo que os próprios espanhóis usaram o nome Vermuda, como se pode ver num livro de 1673, "Arte de Navegar" de Lázaro de Flores. Isto só é mais estranho, porque querendo reportar a Bermudez, não seria natural escrever Vermudez, ou Vermuda.

Esta confusão típica entre B e V, levou-me à decomposição de Vermuda
com origem em "Ver Muda" ou ainda em "Ver Mudo", 
em português.
Teria havido na ilha da Bermuda uma presença portuguesa? Como se denominaria?
- "A boa ilha" parece ser a resposta.

Aparentemente é reportado que antes da chegada dos ingleses em 1612, a ilha teria servido como porto ocasional de navios portugueses e espanhóis.
Depois, ao mesmo tempo que se desenrolava a ocupação espanhola do território português, é sabido que ingleses e holandeses começaram a rapinar todos os mares.

No caso inglês, a ocupação começou na Virgínia e Terra Nova.
Curiosamente, neste mapa de Tetu, toda a parte da América (correspondente à costa leste dos EUA) é denominada "Florida", não se resumindo o nome à península como passou a ser comum.

Nesta incursão pelo território americano, há a célebre história de John Smith e Pocahontas, que marca essa colonização da Vírginia, mas é ao mesmo tempo (1609) que ocorre o naufrágio na Bermuda de George Somers. Consta que os ingleses adoptaram inicialmente o nome de Somers, para designar as Bermudas como "Somer Isles".
No entanto, o que encontramos num registo de John Smith (1624), poucos anos depois, é o nome "Summer Isles", o que dá um significado diferente, mais ligado ao Verão do que a Somers.

A vila de São Jorge (St. George) na Bermuda é o mais antigo estabelecimento colonial inglês, com ocupação e permanência contínua desde 1612. Pelo que podemos ver do registo de John Smith, a fortificação na Bermuda teria sido impressionante em apenas 12 anos...

Muitos destes fortes lembram... fortificações portuguesas. Mas, isso nem seria de estranhar, porque no Séc. XVI e XVII este tipo de fortificações tornou-se popular. 
Há na Bermuda, por exemplo, torres chamadas "Martello Tower", ou mais simplesmente "Martellos"... um tipo de construção que se tornou popular na Inglaterra do Séc. XIX, e que teria o nome oriundo da "Torra di Mortella" (Córsega)... 
Mas que vemos que foi construída pela primeira vez pelos portugueses, por exemplo na Índia, no Forte da ilha de Arnala (chamada pelos portugueses "Ilha das Vacas").
Torre Martelo na Ilha de Arnala (Índia portuguesa)

Pois bem.
Uma suspeita circunstancial de aproveitamento de fortificações portuguesas deixadas na Bermuda, por parte dos recentes colonos ingleses, é apenas uma suspeita muito ligeira. Mas se atendermos às rudimentares paliçadas em forma triangular, que os ingleses colocaram no Fort James em Jamestown, na Virgínia... digamos que a pedra que sobrava nas Bermudas, era quase inexistente em Jamestown, num ponto que era bem mais necessitado de defesa!

O que há do lado português?
Normalmente, ao contrário dos ingleses, os registos portugueses têm uma grande tendência a serem ignorados, a desaparecerem rapidamente, sem justificação, ou com justificações caricatas/grotescas.

Procurando num dos poucos registos sérios - mapas de João de Lisboa (1514), vemos um pouco mais.

"A boa ilha" em mapa no Livro de Marinharia de João de Lisboa (......080.TIF)

Note-se que neste mapa os Açores são designados como "Ilhas Terceiras".
É preciso aqui considerar que há ilhas que são indicações ou posições, como "Sana" ou "Ilha da Graça" (chamadas "ilhas fantasmas"). Ou ainda, a "Ilha de Santo Antão", que poderá reportar o grande banco de Meteora (Great Meteor Seamount), por estar abaixo dos Açores.
Porém, pela latitude, que é quase igual à da Madeira (32ºN), as Bermudas parecem estar assim identificadas em 1514 (ou bem antes disso), como "A boa ilha". Todos os restantes nomes das ilhas da Madeira e Açores estão bem sinalizados.

Em conclusão:
- A ilha Bermuda chegou a ser chamada "A boa ilha", talvez uma certa Ilha dos Amores, ao jeito dos Lusíadas (ainda que tenha tido o epíteto de "ilha dos diabos", talvez para despiste).
Depois houve a "Muda", a mudança do "Tratado das Tordesilhas" - que curiosamente nunca é representado no Livro de Marinharia. Essa mudança implicava uma mudança de territórios que teriam sido antes portugueses e passariam a ser espanhóis, pelo referido tratado. 
De onde os portugueses iriam ver a muda ser feita? - de certa "ver muda", Vermuda, ou Bermuda.

Tal como os Açores ou a Madeira, seria natural que pudesse ter tido um estabelecimento estável, e bem sustentado com boas fortalezas. Só que seria para ver, sim, mas para ver mudo.
Ou seja, seria uma das silenciosas ilhas não reportadas, no meio do Oceano, tal como foram Tristão da Cunha, Ascensão, Santa Helena, etc... 
Depois, quando houve o domínio filipino, com os esforços que D. António, Prior do Crato, levou a Inglaterra, no sentido de ganhar apoio para recuperar o trono, todo esse silêncio e segredos foram em grande parte revelados aos ingleses. Seria natural que, entretanto (entre 1580 e 1610) estivesse "a boa ilha" abandonada, por falta de abastecimento regular do reino.
Aparentemente os espanhóis só fizeram um esforço para a recuperar em 1614, mas talvez percebendo que os ingleses já faziam uso das fortificações portuguesas, abandonaram qualquer outra tentativa.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

dos Comentários (44) a Antárctida e o Canado

Coloco aqui dois comentários de Djorge, com umas pequenas observações adicionais


(1) Comentário sobre a Antárctida    ____________________________________________
Mais uma preciosidade que encontrei num "outro" mapa de Dieppe, que penso, ainda não ter sido mencionado aqui no seu blog.

Trata-se de:


Titre : [Mappemonde en deux hémisphères] Ceste Carte Fut pourtraicte en toute perfection Tant de Latitude que Longitude Par moy Guillaume Le Testu Pillotte Royal Natif de La ville Françoise de grace... et fut achevé le 23e jour de May 1566 Auteur : Le Testu, Guillaume (1509-1572). Cartographe Date d'édition : 1566
Existente na BNF com o link: 

Ora, até ao momento, a cópia que tinha visto, não permitia zoom suficiente que desse para ler o texto na caixa sobre o território Austral "pacífico".
No entanto, uma pesquisa por outro tema, resultou num único link, mas com 2 versões do mesmo mapa, e, esse link que lhe apresento tem um nível de zoom superior e permite a leitura seguinte:

(...)
_____________________________________________________________________________

Observação 1:
(coloco aqui a tradução que fiz)
Alguns portugueses indo às Indias foram por contrariedade do tempo transportados fortemente a sul, do Cabo da Boa Esperança. Os quais fizeram relatório que  eles teriam tido algum conhecimento desta Terra. Todavia por não haver esta descoberta "outramente" a hei somente e a notei não querendo juntar-lhe fé.
_______________________________________

Neste mapa, Guillaume Le Testu é particularmente cuidadoso, ou parece pretender ser, denotando saber que haveria muita informação falsa ou deturpada em circulação, e nos mapas. Nesse sentido, por várias vezes refere preferir não apresentar o contorno, por não ter certeza nas informações. Mesmo assim não deixa de apresentar a ilha fantasma "Maidas" no meio do Atlântico. O resultado é de um modo geral satisfatório, como seriam o de outros cartógrafos da época, mas não resolvendo minimamente o problema da Austrália, que é confundida ou misturada com a Antárctida.

Ver ainda o postal "E o rei Óscar vai para... um ponto na Antártida!" que cita Ramusio (1560):
... [o Rei de Portugal] não quer que se saiba nem esta nem muitas outras coisas. E sobretudo, é proibido navegar além do Cabo da Boa Esperança em linha direita na direcção do Pólo Antárctico, onde é opinião expressa de todos os pilotos portugueses que se via um grandissimo continente de terra firme, o qual corre levante e poente em redor do Pólo Antárctico. E dizem, que outra vez, um excelente homem de Florença, dito Amerigo Vespuccio com certos navios do dito Rei o encontrou e correu por um grande espaço, mas que depois foi declarado proibido que alguém aí possa andar.
... [o Rei de Portugal] nè vogliono che si sappian nè queste nè molte altre cose. & sopra tutto è vietato il poter navigar oltra il capo di Buona Speranza à dritta linea verso il polo Antartico, dove é opinione appresso tutti il pilotti Portoghesi chi vi sia un grandissimo continente di terra ferma, la qual corra levante & ponente sotto il polo Antartico. & dicono che altre volte uno eccellente huomo Fiorentino detto Amerigo Vespuccio con certe navi de i detti Re la trovò & scorse per grande spatio, ma che dapoi é stato prohibito che alcun vi possa andare.


(2) Comentário sobre o Canadá e o Canado    ________________________________________

Aqui tem o CANADO e a CANADA:

https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b7200390t/f94.item.r=atlas.zoom


O atlas está identificado da seguinte forma na BNF:

Titre : Theatrum orbis terrarum 
[De Mona druidum insula antiquitati suae restituta... epistola... Humberti Lhuyd... Synonymia locorum geographicorum, sive antiqua regionum... urbium... nomina, recentibus eorundem nominibus explicata... (a Arnoldo Mylio)] 
Auteur : Mylius, Arnold (géographe). 
Auteur du texte Auteur : Van Meetkercke, Adolf. 
Auteur du texte Éditeur : (Antverpiae) 
Date d'édition : 1571 
Contributeur : Ortelius, Abraham (1527-1598). 
Auteur du texte. Cartographe
___________________________________________________

Observação 2:
Esta questão surgiu ainda num comentário anterior, quando Djorge sugeriu o seguinte:
Segundo o "Dictionnaire universel françois et latin" de 1758, na pag. 1635 Tomo Primeiro, temos a seguintes definições:
" C A N A D E - s.s. Nom que les Portugais donnent sur la mer à la mesure du vin, ou d'eau, qu'on donne par jour à chacun de ceux qui composent l'équipage. Il y a trois cents canades à chaque pipe. "
Do que conheço e pesquisei, seria mais CANADO que CANADE, mas ainda assim admito ser mais um francesismo de um termo Português. (...) somos quase que levados a pensar que alguém teria ensinado os Nativos a pedir vinho quando os Europeus chegavam.
Portanto, Djorge avançou com a possibilidade do termo "canado" referindo-se a essa quantidade de vinho fosse passado aos nativos, e que o uso desse novo nome, poderia ser referido pelos indígenas aos visitantes, pedindo esse vinho, acabando por ficar no novo baptismo da região, que passou de Terra dos Bacalhaus (ou Labrador), para Canadá.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Boss Bottled

Muitas pessoas sentem que têm queda... mas falta-lhes sítio onde cair.
O relato oposto é o dos que levaram milhares ou milhões consigo, na queda.

Há quatro figuras razoavelmente emblemáticas do processo de rápida ascensão e queda: 
- duas antigas, Alexandre e César, e duas modernas, Napoleão e Hitler.

É uma situação que se tende a repetir indefinidamente, e por isso merece alguma reflexão.
Episódios com fotos e filmes únicos da ascensão de Hitler.

Todos temos uma opinião crítica sobre o que está mal, não deveria acontecer ou poderia ser feito melhor. Na maioria dos indivíduos isto não chega ao ponto de pensar que podem ser eles a iniciar ou a protagonizar um movimento de mudança. Mas quando isso acontece, são ainda menos os que conseguem arranjar um número considerável de seguidores, capazes de os seguir no seu rumo.

As pessoas apenas se dão ao trabalho de seguir movimentos numa perspectiva egocêntrica, ou seja, pensando que esse movimento os levará a uma posição melhor. Como é óbvio, quem está bem não vê grande motivo em mudar, e só se mexe se sentir que a mudança traz algo de bom para si ou para a sua comunidade. Estes movimentos têm génese complicada ou mesmo improvável se a situação social é favorável, e uma génese facilitada em alturas de grandes conturbações sociais.

A ascensão de Hitler é um caso notável.
Poderíamos pensar que foi colocado no poder por interesses industriais alemães, e foi... mas não teria sido ele, um soldado e pintor com pouco sucesso, a escolha natural desses mesmos industriais.
São muitos os casos de empresas alemãs que participaram e beneficiaram dessa projecção hitleriana, passando depois a respeitáveis empresas no mercado internacional.
Alguns casos são mais ou menos conhecidos, como a IG Farben, AEG, VW, Porsche, Mercedes-Benz, BASF, Siemens, Thyssen, Bosch, Bayer AG, etc... os casos são tantos que seria mais fácil excluir as empresas alemãs que não estiveram envolvidas no projecto nazi. Deixo aqui um, que me surpreendeu, porque não tinha a Hugo Boss associada ao fabrico do fardamento das SS:
Hugo Boss: a moda em 1932, e 80 anos depois, em 2012. (img)

Que se refira sempre o assunto da 2ª Guerra Mundial com um grande drama sobre os crimes nazis, é uma coisa... que todas as empresas que sobreviveram ao regime, continuem a ostentar a mesma marca, e por vezes métodos semelhantes, pois isso é outra história, que não é conveniente misturar.

É nesse sentido que este caso, como tantos outros casos, foram engarrafados... ao estilo Boss Bottled é claro - success without integrity means nothing.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Sob o signo de Aquário

Começamos este signo de Aquário com o primeiro eclipse lunar que presenciei, por completo, e por mero acaso. Estava simplesmente na varanda, e a Lua começou a ser comida pela penumbra da Terra... é um fenómeno engraçado, vale a pena ser visto uma vez, mas não justifica ficar acordado.

Tinha começado este postal antes, e por isso o eclipse veio a propósito.
Basicamente tinha recolhido uma série de imagens de horóscopos, que remontam a tempos romanos, e que não tiveram praticamente nenhuma alteração, desde então.

Horóscopo com Apolo e a quadriga solar (Bonn RLM 67)

Se até aqui não falei sobre esta tradição astrológica, não é porque não lhe ache interesse, é apenas porque não retirei nenhuma conclusão que seja minimamente objectiva.
Como é óbvio, o nome das constelações nada tem a ver com o aspecto que as estrelas tomam no céu... no máximo isso poderia ser aplicável à Ursa Maior que é também conhecida como "Caçarola", e esse é o desenho mais significativo que pode ser visto por essas 6 estrelas brilhantes.

Assim, os nomes dos signos, que também se ligam a essas constelações, também nada têm a ver com qualquer desenho estelar. No entanto, como é claro, há uma tradição milenar que não deve ser negligenciada. A sua origem mais remota é colocada em 18 signos da Babilónia, a partir do compêndio MUL.APIN, que também começaria com o equinócio da Primavera, mas ao que parece, na Idade do Bronze, isso corresponderia ao nascimento das Pleiades no horizonte, ou seja, o primeiro signo seria Touro e não Aries. É previsto que esta mudança do signo do equinócio demore mais de 2 mil anos, pelo que a "era de Aquário", tão popular nos Anos 60, pela comunidade hippie, ou pelas suas remniscências New Age, falta-lhe muito para chegar!

Tratando-se essencialmente de um fenómeno social, definido por antigos astrólogos, e passado religiosamente aos seguintes, há aí um ponto comum de tradição ancestral que poderia significar algo. Mas o quê? Concretamente, há alguma razão significativa para a escolha de umas noções, ou palavras, e não de outras? Se pode fazer algum sentido a sequência Aquário-Peixes, já parece mais esquisita seguir com Carneiro e Touro, ou depois com Gémeos e Caranguejo... as noções são suficientemente díspares, para reterem algum espanto se quisermos dar a isso algum sentido racional, que parecem não ter.

Ainda pensei ver nesta lista uma lista de possíveis perigos humanitários, ou ciclos históricos que teriam ocorrido. No entanto, tudo parece demasiado frágil para se poder suster com alguma clareza e nexo. Deixo o exemplo de perigos, para que se entenda:

(i) Aquário - o perigo seria construir, ou isolar-se uma comunidade, por completo.
(ii) Peixes - neste caso, seria entendível o perigo de morder o anzol, para fora de pé.
(iii) Carneiro - mais ligado aos arietes, uma obstinação numa ideia até partir a cabeça.
(iv) Touro - uma investida em alvos de curta distância, perdendo visão do redor.
(v) Gémeos - tudo o que pode ser feito por um grupo, pode ser replicado por outro.
(vi) Caranguejo - a regressão, um caminho que sob aparência de avançar, remete a erros passados.
(vii) Leão - a ilusão de um domínio aparente, imposto sob medo.
(viii) Virgem - uma pretensa virtude impoluta, que pode ser também estagnação.
(ix) Balança - de novo o perigo de monotonia por excessiva tentativa de equilíbrio.
(x) Escorpião - o óbvio perigo do veneno que pode resultar de pisar indiscriminadamente.
(xi) Sagitário - pretender almejar alvos em movimento, deixa-nos colados à montada.
(xii) Capricórnio - outro perigo híbrido, entre uma virtude e uma obstinação.

Por outro lado, esta sequência poderia ainda representar épocas humanas, ou épocas mitológicas, correspondentes a períodos históricos bem específicos, mas isso torna ainda mais complicado fazer uma associação que não seja meramente uma especulação arbitrária. De facto, não consegui dos signos astrológicos retirar nada de muito concreto ou meramente assinalável.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Sam Vecente

No número 24 da Rua das Farinhas em Lisboa, mais precisamente no bairro da Mouraria, está uma antiga casa com uma laje, onde está um corvo representando São Vicente, estando escrito: 

"ƧAM VECẼTE"

 
Sam Vecente - Rua das Farinhas, nº 24 na Mouraria (ver aqui ou aqui)

De quando será este apontamento singular?
Bom há registos fotográficos de 1900 que mostram o local e podemos ver que em comparação com os dias de hoje, as modificações foram praticamente só de pintura e restauro.
 

Repare-se que as pedras, varandas e janelas são exactamente as mesmas. O ferro das varandas deve estar ali há séculos e não apenas há um... há muitos! Na imagem de 1900 o corvo mal se vê, só se nota o relevo, pois foi pintado por cima. As pessoas, mesmo algumas sendo crianças, parecem demasiado pequenas.

Transcrevo a citação do blog Lisboa de Antigamente, que remete para o livro "Legendas de Lisboa" (pág. 80-81) de Norberto de Araújo:
Conserva o sítio de S. Cristóvão, no meio do seu encanto de pitoresco alfacinha, uma pedra esculpida que representa um corvo da nau da heráldica olisiponense. Tem este corvo movimento, pisar lesto e olho alerta; sobre a sua silhueta fina lê-se ƧAM VECẼTE.
Neste muito alfacinha bairro de S. Cristóvão, vizinho da Madalena e da Mouraria, no sopé dos muros do Castelo, com os seus becos das Flores, os seus largos da Achada, de cazitas de andar de ressalto e janelas ogivais, e dos Trigueiros, fantasia do acaso urbanista, com a Rua das Fontaínhas e o Largo da Rosa — a pedra do corvo de S. Vicente do prédio de empena de bico, n.° 22 [n.º 24] da Rua das das Farinhas, é uma preciosidade de pitoresco.
Nada em Lisboa assim. Deve ter sido o prédio foreiro aos cónegos regrantes de Santo Agostinho. O foro passou; o corvo não.
Há imagens que mostram o corvo pintado de preto, e o prédio pode ter pago foro aos cónegos pretos ou crúzios, mas isso leva-nos justamente a um tempo remoto, seguinte à conquista de Lisboa.
Também a forma da escrita aponta para séculos XIII-XIV, mas a pedra pode ter sido feita bem antes e depois colocada ali, decorativamente, tirada de um outro lugar.

A questão principal que aqui gostaria de levantar é que me parece que estes prédios, tal como uma boa parte dos prédios antigos de Lisboa, podem ter mais de 500 anos, e ao contrário do que é costume invocar, não caiu tudo com o abalo do Marquês... nem a casa onde este nasceu.
Por exemplo, as casas do Bairro Alto têm quase todas uma mesma tipologia, e citamos Joaquim Moreira de Mendonça que na sua obra após o Terramoto de 1755, refere-se ao maremoto que ocorreu em 1531, levando à construção do Bairro Alto:
Tenho certeza por documentos autênticos que ainda depois daquele ano se erigiram todas as ruas do Bairro Alto, que ficam para fora das Portas de Santa Catarina e Postigo de S. Roque (...)  "História Universal dos Terramotos" - J. J. Moreira de Mendonça (1758). .
Um aspecto típico dessas casas antigas é que as portas e janelas estão rodeadas por lajes de pedra simples, num formato rectangular, como vemos no nº 24 da Rua das Farinhas.

As razões para esta suspeita são simples...
Após o início da expansão marítima no Séc.XV, Lisboa teve um crescimento enorme, havendo um acréscimo significativo de zonas residenciais, que se processou desordenadamente como era habitual. O primeiro bairro com planificação moderna, quadriculada, foi justamente o Bairro Alto, após o devastador sismo de 1531. Acontece que uma boa parte dos imóveis não eram da nobreza, eram simplesmente de habitação vulgar, por exemplo de marinheiros, mercadores ou mestres de artes. Eram propriedade privada, e não era fácil ao Estado arrasar com toda a propriedade privada alheia... para esse efeito convinha a uma reestruturação e planeamento a existência de sismos, incêndios, etc. Por isso, foi sendo natural que as casas, não caindo, fossem simplesmente restauradas, no mesmo processo que vemos a imagem da Rua das Farinhas ser hoje praticamente igual à Rua das Farinhas há 120 anos. Até que chegassem grandes empresas, capazes de comprar lotes e fazer novos empreendimentos, como só aconteceu no final do Séc.XX, as habitações iam durando até desmoronar pelo envelhecimento da estrutura. E é claro, as zonas mais atractivas para a especulação imobiliária não eram as pequenas ruelas dos bairros típicos, que se foram mantendo, desde há séculos.

Olhando para as ruas e casas de Óbidos, assumidamente uma vila que foi mantendo o seu aspecto medieval, vemos o mesmo tipo de construção com janelas e portas rodeadas por lajes de pedra, com varandas de ferro, o mesmo aspecto medieval que foi herdado também em Lisboa. É claro que, do ponto de vista do agente imobiliário, poderá haver alguma hesitação em dizer que uma casa tem 500 ou 600 anos, mas do ponto de vista histórico e de legado patrimonial será algo bem diferente.



terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Heresia toponímica

Uma das improbabilidades mais descaradas é ver na toponímia holandesa dos descobrimentos nomes associados a santos. Não é que tal fosse impossível, simplesmente era altamente improvável, ou as probabilidades andariam ao nível de árabes baptizarem uma ilha com o nome de "Santa Maria". Com os ingleses passar-se-ia algo semelhante, mas em menor escala.

Vejamos aqui um mapa holandês, que foi depois copiado pelos franceses, de forma que se trata de um mapa publicado em França em 1663-66, mas que se assume ter sido copiado de um mapa de 1644 do cartógrafo holandês Joan Blaeu.

A questão é agora saber de quem os holandeses copiaram... mas não parece difícil perceber.

Em cima, ao centro, lê-se facilmente "TERRA DOS PAPOS".
Não é holandês, flamengo, ou francês. 
Ainda que "TERRA" seja também latim, a contracção da preposição "DOS" só ocorre mesmo em português. Quanto aos "papos" podemos entendê-lo no significado de "papou-os" dado o historial antropofágico das tribos dessa ilha. Trata-se da ilha Papua - Nova Guiné.

Curiosamente o meridiano vertical, que separa "Terra dos Papos" de "Nova Guinea" é praticamente o mesmo que separa hoje a parte da Papua indonésia, da parte independente da Nova Guiné.
Para quem ainda não percebeu... esse meridiano era o do Tratado de Saragoça, o correspondente ao meridiano de Tordesilhas, mas como anti-meridiano - uma dor de cabeça que só foi resolvida no tempo de D. João III. A razão pela qual os holandeses o colocam ali, pode ser apenas coincidência, é claro.

Mas não há apenas essa designação. Acima da "Terra dos Papos" vemos C. de Goede Hoope, o que em holandês quer dizer "Cabo da Boa Esperança". O que faz ali outro "cabo da boa esperança"?
Logo ao lado lemos "Vilems Schoutens Eyl - Olim I. de aguada". Esta "ilha de aguada" parece também vir do mapa português, tal como logo de seguida "I. Arimoa" e "I. Moa".
É ainda curioso aparecer a palavra francesa "Rivier" e depois como abreviatura aparece "Riv" mas escrito como "Riu", ou seja quase como "Rio". Pode ler-se isso na parte da Carpentaria, que eu diria que se fosse coisa portuguesa e não remetida a um Carpentier, pareceria "carpintaria".

Mais abaixo, nesse mesmo mapa podemos ainda ver:

... e, em baixo, do lado direito, vemos então as ilhas "I. St. François" e "I. St. Pierre". Os nomes estão já em francês, mas estas ilhas de São Francisco e São Pedro, seriam designações dos santos padroeiros do capitão e do seu comandante! Ora, normalmente estas histórias arrumam-se de outra forma, por vezes com o nome do navio, mas é mais difícil quando não é o caso, e esta malta eram holandeses protestantes, sem qualquer vontade social de exibir santos padroeiros. Ou seja, no contexto da sociedade holandesa, muito influenciada pelo judaísmo comercial, e protestantismo rígido, estes nomes de santos seriam uma "heresia toponímica"... a menos que já tivessem sido assim designadas, e nesse caso foi apenas honestidade puritana, ou vontade de afirmação de presença num sítio pelo uso da sua designação antiga.

Pode ainda ver-se a designação de Houtman Abrolhos de que falámos antes, que tal como "Pedra Blanca" no sul da Tasmânia. Estas são duas designações que reconhecidamente derivam do português, no caso dos Abrolhos enquanto "abre olhos" similar às ilhas Abrolhos no Brasil, e no caso da Pedra Branca por eventual semelhança com a ilha de Pedra Branca em Singapura. Ver no mapa seguinte, em baixo:

Ainda que se quisesse estabelecer uma qualquer semelhança com Singapura, faz pouco sentido não usar a tradução para holandês do termo, quando tantos outros eram traduzidos. 
Quereria isto significar que os holandeses teriam descoberto que havia uma semelhança entre os mapas portugueses de Singapura, que pretendiam representar ali a Tasmânia? Não parece provável, e vai ficando a curiosidade bem expressa neste mapa, de que os holandeses nunca procuraram completar a informação da viagem de 1643 de Abel Tasman e foram deixando o tempo rolar 125 anos até que Cook, com o simples intuito de observar o "trânsito de Vénus", achou acidentalmente o restante território australiano que falta a este mapa holandês. 
Uma preciosidade do género "novela histórica".

_____________
NOTA (10.01.2019):
Em comentário (de David Jorge) está a observação do uso do termo malaio Nusantara que se ligaria à designação Nuca Antara para Austrália por Godinho de Erédia (ver post anterior). O termo resultaria das palavras malaias ou javanesas: nusa (ilha) e antara (entre), e aplicava-se a territórios tributários do império Majapahit, centrado na ilha de Java. 
Aproveito para adicionar as referências no mapa (1ª imagem) à Batochina e às designações Terra Alta, Cera ou Mola, que teriam sido tiradas também de mapas portugueses.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Nuca Antara - Erédia

É instrutiva a consulta do atlas de João Teixeira Albernaz, de 1630:


... porque, para além de outros detalhes é bastante explícita na descoberta da Austrália por Manuel Godinho de Erédia em 1601:
(clicar no mapa para aumentar)

Há duas coisas escritas, na parte que corresponde à Austrália, que são:

  • NUCA ANTARA - descuberta por Manoel Godinho de Eredia : Ano 1601.
  • Terra descuberta pelos Holandezes a q chamárão Eendracht ou Concordia
A descoberta holandesa é remetida a 1606 por avistamento do holandês Janszoon. 
Ou seja, é exactamente como a carta que estava no fac-simile que Richard Major apresentou em 1863, assunto que abordámos em postal anterior:




O mapa global adiciona à inscrição "por mandado do Vizo Rei Aires de Saldanha":
(clicar no mapa para aumentar)

Como já debati este assunto demasiadas vezes, não vou insistir sobre ele, remetendo esta parte ao postal de Maio de 2011 já referido.

Fica no entanto uma questão razoável.
- O que teria acontecido se portugueses e espanhóis tivessem que dividir a Austrália ao longo do meridiano de Saragoça, o anti-meridiano de Tordesilhas?
Deslocar-se-iam exércitos para a Austrália, um para cada lado da ilha?

Estes atlas de Albernaz aparecem com uma carta espanhola, que se queixa dos enganos sucessivos, e propositados, que os portugueses faziam na demarcação dos meridianos. Aliás, é à conta dessa entrada por território espanhol que o Brasil tem quase o dobro do tamanho que normalmente teria.
O mesmo tipo de problemas iria ocorrer sem dúvida na parte australiana.
Ora, curiosamente, ao longo de toda a exploração marítima acabaram por ser muito reduzidos os conflitos entre Portugal e Espanha. 
Talvez porque se passaram a preocupar com os outros intervenientes na partilha do bolo, foram diminuindo de forma considerável os conflitos de vizinhos. 
A Austrália não parecia ser suficientemente interessante para deslocar grandes exércitos. 
Talvez tenha ficado decidido ser uma "terra de concórdia", afastada da atenção, até que os conflitos na América ficassem resolvidos... porque foi isso que acabou por acontecer. Quando finalmente a Inglaterra saiu vencedora da Guerra dos Sete Anos, o seu domínio marítimo era já completo, e foi justamente James Cook, um oficial que combateu no Canadá, que 5 anos depois irá fazer o protocolo das viagens de "descobertas" pacíficas, em particular, a australiana.

Sob esse aspecto, a Austrália foi de facto o único território que se livrou das contínuas guerras entre potências ocidentais, e poderia chamar-se "terra de concórdia"... se não tivesse depois ocorrido uma chacina ainda mal documentada, que vitimou os aborígenes e especialmente uma população malaia (a única a fazer resistência aos europeus) que nem entra na contabilidade nos livros de história.