sábado, 17 de março de 2018

Teatro dos Descobrimentos (2)

Recupero o assunto do mapa do Museu da Marinha.
Como escrevi há pouco tempo, comprei uma cópia do mapa há uns anos, e não ligando mais ao assunto, deixei-o enrolado conforme o comprei... mas tendo voltado a falar nisto, desenrolei-o.

Sem querer falar de novo sobre a origem do mapa, há outros aspectos que merecem notas detalhadas.

1. Origem do mapa
Como o próprio mapa indica (embora não se veja isto nas reproduções "vintage"), foi:

"Executado pelo pessoal técnico do Museu de Marinha - Maio de 1970"


... e é justamente nesse aspecto "técnico" actual que se colocam também algumas questões.

1. América do Norte
- Primeiro, aparece uma cidade perdida no meio do Canadá, justamente com o nome Canadá!
Não há nenhuma cidade aí... os cinco grandes lagos apontados no Canadá serão (de cima para baixo):
- Great Bear Lake, Great Slave Lake, Lake Athabasca, Reindeer Lake, Lake Winnipeg.

Trata-se de uma das zonas mais desabitadas do mundo, um frio labirinto de montes e pequenos lagos, no estado canadiano de Sasktchewan, onde aparecem os Lagos Atabasca e Reindeer, que limitam a referência à tal "cidade Canadá". 


- Segundo, aparece uma viagem de Gaspar Corte Real (1500-01) que, partindo dos Açores, terá rodeado toda a península da Florida, basicamente até ao Mississipi (~Nova Orleães), para depois seguir sempre junto à costa da América do Norte até Cape Breton, onde aparece uma bandeira nacional. Nada disto foi alguma vez reportado... que eu saiba!
- Terceiro, fica definido todo um território que engloba as províncias do Quebéc e Labrador, Terra Nova, sob uma grande coroa nacional.
- Quarto, aparecem pequenos montes em forma de pirâmide... um dos quais na zona onde se poderá localizar Monks Mound, um monte que é a maior pirâmide artificial da América. O outro(s) seria no Canadá, junto à Baía de Hudson, mas nada se conhece aí (pelo menos por enquanto).
- Quinto, a viagem de João Rodrigues Cabrilho em 1542 tem a seta conforme partisse bem acima de S. Francisco na Califórnia em direcção ao México... e não no sentido oposto, conforme é suposto. 

2. América do Sul
- O problema na América do Sul começam por ser todas as bandeiras portuguesas no lado oriental da costa, ao longo de toda a Argentina (escrita "Terra de Gigantes"). Como as bandeiras coincidem com o percurso da viagem de Fernão de Magalhães, poderá pensar-se numa atribuição nacional por via da nacionalidade do explorador, mas isso não aconteceu com Cabrilho, onde não são assinaladas bandeiras.

- Além disso junto à cidade do Lima, escrita "Cidade dos Reis", aparecem duas bandeiras, uma castelhana, mas a outra portuguesa, ao tempo da "união ibérica". Isso deve referir claramente a origem do piloto nacional, tanto que depois são colocadas as quinas nas Novas Hébridas (agora Vanuatu), como ponto de chegada da sua viagem.
- Vemos ainda as diversas ilhas atlânticas descobertas pelos portugueses. 

3. Gronelândia
O único problema da Gronelândia é a marcação da viagem de "João Fernandes Labrador - 1495", partindo dos Açores e assim mostrando a perfeição do contorno que encontrámos, desde o início, no mapa de Cantino.

4. China e Japão
Começo por notar que nada é escrito na península da Coreia, nem no Vietname (então Conchichina).

Pontos no Japão: 
- Kioto e Tokio, que têm as mesmas letras, estão colocadas em simetria.
- Não longe de Tokio está Yokohama, e mais abaixo Tana Shima, que corresponde à ilha de Tanegashima, onde foram feitas as primeiras armas de fogo pelos japoneses... após a célebre história dos portugueses naufragados (António da Mota, Francisco Zeimoto e António Peixoto). Aliás, a navegação de António da Mota (ao que consta num junco...) é assinalada a vermelho - justamente até Tana Shima, ou seja, Tanegashima.
- Duas bandeiras portuguesas - uma em Nagasaki, outra em Tanegashima. Nagasaki era o principal porto de comércio português, e a cidade esteve mesmo sob administração portuguesa de 1580 a 1586. Será de supor que o mesmo possa ter ocorrido em Tanegashima.


Pontos na China:
- Cidade de Cantão - está desenhada, tal como mais acima deve estar desenhada Pequim (mas não mencionada).
- Bandeira na Ilha Formosa, que foi descoberta por portugueses, e que depois passou a ser também espanhola, até que os holandeses conquistaram a ilha aos espanhóis em 1642.
- Passando a ilha de Ainão, surge a exploração de Jorge Álvares que chega à China em 1513.

5. Molucas
- Nas Filipinas - Cebu, vemos a cruz do local da morte de Fernão de Magalhães.
- Mais abaixo vemos as ilhas Molucas (antes, ilhas Malucas) com bandeira portuguesa, e está marcado o fim da viagem de António de Abreu, que terminou esta exploração em 1512, nas ilhas de Timor e Banda.
- Vemos depois a Austrália, sem qualquer marcação (demoraria 100 anos, depois da viagem de Abreu, até ser marcada parcialmente pelos holandeses), e os estranhos desenhos de cangurus, bem como mais a sul, os eucaliptos. Presume-se acreditar que estes bonecos tenham sido feitos em 1970 pelo pessoal técnico...

Ou seja...
Não há grandes dúvidas que a marcação da viagem de Pedro Queirós terá ocorrido depois de 1606, e por isso, essa inscrição no mapa teria que ser posterior. Acresce a menção às "Novas Hébridas", que só poderia ocorrer depois da viagem de Cook, ou seja, depois de 1760.

No entanto, não está neste mapa a viagem de David Melgueiro - pela passagem Nordeste, rota que era habitual mencionar em 1970, como uma das proezas nacionais.
Por outro lado, um dos aspectos mais estranhos, é a inclusão da viagem de Gaspar Corte Real pela costa americana desde a Florida, ao mesmo tempo que era atribuída a sua navegação à Gronelândia, antes de ter desaparecido em 1501.

Não querendo sobrecarregar o assunto com detalhes, o mapa mantém as suas incoerências, juntando inscrições e um recorte de costa próprio do Séc. XX, com uma formação estética e técnica do Séc. XVI. O mapa que aparece como "vintage" é uma variante deste que, incluindo as rotas das viagens, será posterior a 1606 e talvez anterior a 1660 (por não incluir a viagem de Melgueiro), e se também tiver a designação "Novas Hébridas" então não é um mapa antigo...

domingo, 11 de março de 2018

dos Comentários (34) ... um judeu Nasi

A abreviatura Nazi para "Nationalsozialismus", relativa ao partido NSDAP de Hitler, seria usada pelos opositores, e ganhou especial uso no exterior, sendo usada raramente pelos nazis, para se identificarem.
Curiosamente, um principal problema que os Nazis identificaram foram os judeus AshkeNazis, e não dou ênfase especial à palavra ashkenazi terminar com nazi.

O problema com os judeus tinha ficado bem caracterizado pelo Imperador Guilherme II (Wilhelm II), quando a Alemanha perdeu a 1ª Guerra Mundial:
(...) "Let no German ever forget this, nor rest until these parasites have been destroyed and exterminated from German soil!" (...) [Wilhelm] further believed that Jews were a "nuisance that humanity must get rid of some way or other. I believe the best thing would be gas!"
in Wikipedia, citando John Röhl: 
The Kaiser and His Court: Wilhelm II and the Government of Germany 
(Cambridge University Press, 1994), p. 210 

Portanto, a ideia de eliminar os judeus através de câmaras de gás não foi um original nazi, e a conservadora Alemanha imperial, não deixaria de partilhar o mesmo tipo de sentimentos.

Quando se fala na "solução final" como sendo o plano nazi de "gasear" os judeus, é preciso notar que o termo se aplicou a encontrar um destino final para a comunidade judaica, e nunca constaram documentos de que o termo se referisse à eliminação por gás - excepto talvez as palavras do imperador deposto em 1919, e exilado na Holanda até morrer em 1941. O imperador tendo sido inicialmente um adepto das ideias nazis, acabou por desprezar Hitler, e também o sucesso militar desse plebeu.

Os Rothschild lideravam um plano de fazer renascer um estado israelita... em Israel, no contexto da declaração de Balfour em 1917. Havia outras soluções que os alemães preconizavam, e assim sugeriam a ida para o Canadá, Austrália ou para a Rússia (cf. Oblast judeu), ou de certo modo, para sítios onde não houvessem problemas em ter que desalojar outras comunidades existentes. Conforme se sabe, um problema óbvio da localização em Israel foi o desalojar da comunidade palestiana árabe.

Ora, os judeus andavam em diáspora praticamente desde a invasão muçulmana ocorrida no Séc. VII, tendo-se espalhado por todo continente europeu, e Mar Mediterrâneo, em comunidades que chegaram a ser bastante mal tratadas pelos anfitriões. No entanto, havia uma forte convicção religiosa de que não deveriam regressar, até que o Messias aparecesse... e por isso nem todos os judeus teriam a ideia de largar tudo, e ingressar num novo estado israelita (isso seria mais uma ideia dos Ashkenazi).

Tudo se modificou decisivamente com o chamado "holocausto judaico", porque ficaria aí óbvio que os judeus não tinham outro lugar, do que criar a sua própria nação. Mesmo assim, e ainda que à custa de algumas bombas terroristas, a efectivação do Estado Israelita tenha sido rápida, após a 2ª Guerra Mundial, houve um considerável número de judeus que ficou onde estava, e não foi para Israel, ajudar na construção de um novo estado. Poderia ser duvidoso o efectivo sucesso de Israel, caso não tivesse havido um efeito dramático que os uniu após o holocausto, na procura do melhor sucesso para um estado ameaçado pelos vizinhos árabes.

Yosef Nasi
Se os nazis acabaram por ter sucesso de reunir os judeus no regresso a Israel, pelas piores razões, já muito antes tinha havido alguém que procurou reunir os judeus junto ao Mar da Galileia, na cidade de Tiberias. 
A cidade israelita de Tiberias, junto ao Mar da Galileia.

Era português de nascimento em 1524, com o nome "João Micas", e ficou com o nome hebraico de Yosef Nasi. A sua tia, Gracia Mendes Nasi igualmente judia portuguesa, foi uma figura influente que permitiu a fuga de centenas de judeus portugueses, que assim escapavam dos processos da Inquisição.
Se a tia era já uma figura influente da comunidade sefardita exilada em Constantinopla, o sobrinho Yosef Nasi tornou-se bastante próximo dos sultões Suleiman I e Selim II, tendo sido nomeado Duque de Naxos. 
Foi isso que lhe permitiu ser o primeiro a tentar reinstalar os judeus em Israel, algo que ia contra a política religiosa mais ortodoxa, que só aceitava o regresso a Israel com a vinda do Messias.

Assim, de forma estranha... foram primeiro os Nasis que procuraram reinstalar os judeus em Israel, ainda no Séc. XVI, e foram só depois os Nazis que provocaram a efectiva criação do Estado de Israel, a seguir à 2ª Guerra Mundial, essencialmente por uma significativa migração dos Ashkenazis.

Este tópico resultou de um email que recebi de David Jorge, mencionando a figura de Yosef Nasi, e também uma significativa migração de judeus para Ragusa (actualmente Dubrovnik). 

Pareceu-me curiosa a semelhança do nome, e especialmente curioso, resultar do mesmo propósito - o regresso judaico a Israel. Yosef Nasi morre em 1579, um ano depois de D. Sebastião ter desaparecido em Alcácer Quibir, onde o rei português, tão odiado pelos judeus, visava travar o avanço otomano.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Estado da Arte (12)

Na região do país basco, entre Santander e Bilbau, está a Caverna de Cullalvera com inscrições pré-históricas, que tem uma entrada com 30 metros de altura... 



... e que serve de apresentação a uma interessante pequena palestra de Genevieve von Petzinger, que é bastante elucidativa, do tipo de investigação que decidiu fazer sobre a arte rupestre.
Não se focou na imagem dos animais, mas sim nos múltiplos desenhos geométricos que polvilham as cavernas, e que segundo ela, são mais do dobro das representações de animais.


Em particular, ficou mais conhecida por definir 32 símbolos geométricos frequentes, que aparecem na arte rupestre, comuns a diversas cavernas europeias.

1) Timidez...
Desculpem, mas só pintamos se ninguém ver!
Conforme é dito no vídeo, é suficientemente estranho só encontrar os primeiros símbolos depois de se entrar 800 metros na caverna. As paredes não eram boas para escrever?
Uma situação mais típica, é outra... todos os registos na entrada acessível podem ter sido destruídos, e só os registos mais inacessíveis, ou considerados pouco relevantes, foram poupados.
Porquê?
Para simplificar, coloquemo-nos ao tempo romano do imperador Augusto, que finalmente arrumou com toda a resistência ibérica. Os chefes locais ainda poderiam ser tentados a mostrar aos jovens a sua ascendência a tempos mais gloriosos, fazendo-os visitar cavernas magnificamente pintadas, ao estilo de Altamira. Ora esse despertar de consciência nacionalista, seria um rastilho para rebelião e inconveniente para uma potência invasora. Assim, tudo o que seriam símbolos visíveis de um passado notável, deveriam ser ocultados.
Por isso, com escopro e martelo, nada seria mais fácil do que destruí-los. 
Como se isso não fosse muito ético, fica a esperança de que os desenhos tenham sido reproduzidos em pergaminho, e mandados para Roma, para as catacumbas do Vaticano, antes de serem destruídos.

Podemos perguntar, isso não implicaria igualmente destruir monumentos megalíticos?
A questão é que uma civilização estar associada a monumentos de pedra não trabalhada, não se compararia minimamente com a sofisticação e imponência que os edifícios romanos tinham.
Acrescia um problema maior... as pinturas pré-históricas mostrariam animais extintos, como bisontes, mamutes, tigres de dente-de-sabre, etc. Isso remeteria para um passado demasiado longínquo, que convinha ser ignorado. Tanto pior quando o cristianismo começou a despontar a sua faceta mais ortodoxa, que foi levando à destruição de referências a outras divindades, vistas como diabólicas.
Basta lembrar que esse mesmo espírito levou a que no tempo de Teodósio, em 393 d.C. tivessem terminado os jogos olímpicos, e abandonada a cidade pagã de Olímpia, que os acolhia.

Por outro lado, ainda uma explicação mais simples, é que seria natural que os sítios mais acessíveis, podendo ser facilmente vandalizados, não fossem convenientes a desperdiçar tempo com pinturas demoradas e sofisticadas. No entanto, em contraponto, convém não esquecer as diversas pinturas ou relevos, encontrados ao ar livre, que contrariam essa tendência.

2) Montanheses
Acima de 500 metros só cabras e montanhas...
Depois há um pequeno grande problema!
Na Idade do Gelo o nível do mar estaria umas boas centenas de metros abaixo do actual, por isso o mais natural seriam as povoações estarem concentradas junto ao nível do mar, e hoje em dia isso significa... umas boas centenas de metros submersas, como foi exemplificado no caso da Caverna Cosquer. Ou seja, aquilo que recuperamos enquanto registo civilizacional, é apenas aquilo que está acima do nível da água, e que antigamente seriam regiões em altitude, ou montanhosas.
Curiosamente uma boa maioria das cavernas pré-históricas encontra-se na zona basca, onde a diferença entre o anterior nível marítimo e o actual, seria menos significativa, o que não é muito diferente da zona occitana, onde ocorre a mesma frequência de pinturas rupestres.

Não estamos a falar apenas da questão do nível do mar, porque a Idade do Gelo também é supostamente fria... e assim os ambientes mais elevados, onde a densidade atmosférica seria menor, seriam igualmente os mais frios, e os menos convidativos à vivência.

Para se entender melhor a questão, pensemos que o nível do mar subitamente passava a ser superior a 5000 metros... o que temos como vestígios humanos acima dessa altitude? Praticamente só não ficaria submersa a região montanhosa dos Himalaias, e como Lhassa está abaixo de 4000 metros de altitude, praticamente não ficaria uma única povoação significativa, só restariam montanheses nepaleses...

3) Os símbolos geométricos
O que há e o que falta...
Conforme é colocado por Petzinger, o problema não está apenas no que está representado, está também em tudo o que não foi representado!
Não se vêem desenhos de árvores, de pássaros, dificilmente se encontram referências às fases da Lua, às constelações, não há desenhos de rios, de mares, de nuvens, de armas, são praticamente raras ou quase inexistentes figuras humanas,  etc...
Parece ter havido um propósito de desenhar apenas certas coisas, muito específicas... como fossem os animais que constituíam parte da dieta paleolítica.
A razão pela qual há essa selecção de temas, parece um aspecto fulcral, sem grandes respostas convincentes. Uma possibilidade, que já considerei, seria o uso da técnica da camera obscura para a fazer as pinturas com um elevado nível de precisão.
Mas, conforme é referido, surge um grande número de símbolos abstractos, geométricos, cuja intenção ultrapasaria uma representação concreta. A sua difusão, ou presença comum em diferentes paragens, mostra que haveria contactos reais entre os diveros grupos pré-históricos, e mesmo que se pretenda algum significado, na tentativa de servir de passo conducente a uma línguagem escrita, o ponto principal que Petzinger consegue é mostrar que o conjunto existe, sem avançar nada mais, do que escassas especulações.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Números em Éfeso

Há uns tempos fiz uma visita turística às ruínas de Éfeso, e este era o aspecto geral das ruínas da antiga cidade grega, focando em especial a "reconstruída" Biblioteca de Celso (à esquerda), e que era considerada a terceira maior do seu tempo, após Alexandria e Pérgamo.

 As ruínas de Éfeso, com a Biblioteca de Celso. 

Não se tratando de um blog de trivialidades históricas, ou de viagens, vou deixar os detalhes de parte, exceptuando dois.

- O primeiro é que entrámos 10 Km no interior da Turquia, para reencontrar esta cidade "costeira", que tinha um dos maiores portos da Antiguidade... e isto é mais uma, das dezenas (ou talvez centenas) de situações, em que se evidencia como na Antiguidade o nível do mar seria mais alto!

- O segundo detalhe está explicado em duas fotos que tirei a uma mesma pedra, no exterior. 

A pedra estava junto a várias outras, sem nenhuma identificação especial, parecendo ser restos por classificar, da exploração arqueológica. 
Pedra em Éfeso, com os algarismos 6 1 numa face...

... e com os algarismos 7 3 na face oposta.

Ora, o detalhe interessante é que ao contrário das restantes pedras, que tinham inscrições especialmente em grego, ou romano, esta pedra tinha grandes algarismos, com os números 61 e 73, numa inscrição que seria mais própria de ter sido feita no Séc. XX, do que em tempos antigos... 

Pior, se tivesse sido feita em tempos antigos, teria que ser no tempo de domínio árabe, já que o sítio foi completamente abandonado depois da invasão otomana, no Séc. XV, e não se notavam nenhuns símbolos, de presença árabe, ou otomana. 
Não consegui saber mais nada sobre a pedra, mas também não me preocupei em saber... poderia ser uma pedra colocada para marcação das escavações arqueológicas recentes - o que seria o mais natural como explicação, mas que não justificaria o destaque dado à pedra naquele conjunto, nem justificava a degradação da pedra.

Assim, ainda que tivesse arrumado o assunto, não deixei de o guardar na memória, como "oopart" , até porque esta questão já não era nova na minha opinião...

A questão é que os algarismos que usamos parecem ter uma lógica intrínseca, podendo representar o número de ângulos formados pelas linhas - ou seja, o 1 sinaliza 1 ângulo, o 2 pode significar 2 ângulos, o 3 relacionar 3 ângulos, e até o 4 invoca 4 ângulos... 

A razão desta observação, prende-se com o símbolo de 1 ser diferente do simples traço I que era usado pelos romanos, e a conclusão segue normalmente até ao 4, mas não extrapolei assim para 5 e seguintes (aqui o 7 e 9 parecem-me extremamente forçados) - simplesmente os restantes poderiam ter mudado de forma, ou de posição.
O ponto engraçado era o mesmo - o zero seria uma bola - zero ângulos!

Ainda que seja incerta a origem desta conjectura, o proponente que vi associava esta representação aos fenícios... algo que contraria a teoria habitual sobre a numeração fenícia, e que fica sem ter outra justificação, que não seja uma conveniência própria. 

Também não é habitual ver-se uma distinção entre as 12 letras que são feitas sem traços redondos:
 - AEFHILMNTVXZ
e as 11 letras que usam traços redondos:
 - BCDGJOPQRSU
... considerando as 23 letras do alfabeto português tradicional.
Múltiplas coisas podem ser ditas, querendo especular sobre o assunto, mas não interessa estar a especular sobre coisa nenhuma, sem que se veja alguma razão ou sentido nisso.

Os números hindo-árabes
Não é difícil encontrar derivações que fazem os números aparecer, desde um sistema Brahmi até à forma ocidental que eles hoje têm... Deve notar-se que há mesmo entre os árabes diferenças significativas, consoante estejam a Ocidente ou a Oriente da Líbia.

Evolução dos números hindo-árabes até à forma ocidental (wikipedia).

Um caso típico será um telefone egípcio que irá apresentar dígitos em árabe, que são bastante diferentes daqueles a que chamamos "árabes" no Ocidente.
Dígitos/algarismos árabes num telefone egípcio actual.

Portanto os Algarismos (nome devido ao matemático persa Al Guarismi, Al Khwarizmi, Séc.IX), terão tido diversas variantes, sendo claro que nessa versão oriental, os três primeiros dígitos seguem uma lógica do número de vértices na parte superior da letra.

Sendo Éfeso uma cidade grega na costa turca, o seu sistema numérico era esperado ser semelhante ao grego, que depois influenciou o romano. Ou seja, seria uma numeração baseada no valor das letras, e se tal podia ser prático, também poderia levar a confusões desnecessárias.
Não me parece nada impossível que, comerciantes mais pragmáticos, como eram os fenícios, ou os gregos, necessitassem de outro tipo de numeração mais eficaz. Tal seria possível de ocorrer em qualquer cidade, e Éfeso seria apenas um possível exemplo.
Da mesma maneira que as letras latinas chegaram até hoje sem qualquer alteração significativa, seria possível que um conjunto de dígitos viesse a ser guardado até que houvesse autorização para ser usado de novo!
Claramente que a matemática grega estava desenvolvida a um ponto tão avançado, que só por teimosia ou feroz proibição, não iriam preferir usar uma representação posicional, como o fizeram os Caldeus ou Babilónios.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Almadraba de Cadiz

Numa gravura do Séc. XVI, de Georgius Houfnaglius, podemos ver as "Torres de Hércules":

"La muy noble y muy leal ciudas de Cadiz" por Georgius Houfnaglius (Séc. XVI), com as duas Torres de Hércules.

Legenda: 1- Mar Oceano, 2 - Sant Sebastiano, 3- Santa Catherina, 4- Torres de Guardia, 5- Yglesia Maior, 6 - Castillo;
7- Puerta del Muro, 8- Camino para la ysla, 9- Puntal, 10- Goertas de Safia, 11- Arenas, 12- Torres de Hercules;
13- Stanca, 14- La Baija, 15- Los puercos, 16- Tierra firma d'España, 17- Punta de Sant Lucar, 18- Scipiona;
19- Rotta, 20- Sant Catalina, 21- Pa barra, 22- Puerto Sta Maria, 23- Mar Oceano, 24- La Ysola.

As torres não exibem nenhuma dimensão impressionante, e aparecem aqui a enquadrar ou limitar uma "almadrava", técnica da pesca de atuns. Usamos também a expressão "armação" como em "Armação de Pêra", para designar essa pesca com rede, que redunda numa matança dos animais encurralados.

Relevam para este assunto, textos aqui publicados:
mas esta gravura é curiosa por englobar dois aspectos de tradição antiquíssima - por um lado, a almadrava enquanto armação para "pesca em massa"; e por outro lado as Torres de Hércules.

Conforme já referimos nesses textos anteriores, não restam vestígios ou sinais de quaisquer Torres de Hércules em Cádis. No "maremoto" cultural que ocorreu com o Terramoto de 1755, o que restou de vestígios da primeira torre, passou a ser designado como "Torregorda", e ainda assim encontramos apenas esse nome numa praia.

Mapa de Cádis com o local onde se erguia uma das torres, notando que a paisagem, 
que vemos na gravura acima, estaria orientada para a cidade de Cádis, seguindo o istmo de terra.

Na gravura, a presença de homens em ambas as torres parece indicar uma altura que estaria entre os 10 e 20 metros, e a utilidade das torres parecia aqui muito ligada a esta pesca de atum, ainda que possa não ter sido esse o propósito inicial da sua construção. E também não é nada claro que estas duas torres fossem ou não as chamadas Colunas de Hércules.

O nome Torregorda liga-se a Montegordo, pelo sufixo "gordo", e devido à história dos pescadores de atum que viram as suas cabanas incendiadas pelo Marquês de Pombal, que os queria empurrar para a nova Vila Real de St. António.

Nota: Ainda procurei alguma referência a um "Monte Hércules", sem sucesso... mas curiosamente em 1873, devido a uma descrição falsa de um capitão J. A. Lawson, sobre a Nova Guiné (ver pág. 22), acreditou-se existir aí uma montanha com quase 10 Km de altura, e assim maior que o Everest. Só passadas uma década tal pretensão foi declarada falsa.


Adenda - Dolmen de Poitiers
Ainda do mesmo autor, G. Houfnaglius, não deixa de ser curiosa uma figura que traz de um antigo dólmen às portas de Poitiers (França), onde se vêem vários sujeitos a deixarem marca da sua passagem:

Actualmente este dólmen "pierre levée" ainda sobrevive, junto a uma estrada de Poitiers, mas apresenta a pedra superior partida (ver megalithic.co.uk)

domingo, 18 de fevereiro de 2018

do Sótão (10) «Ré vista (5) ...»

Disse há pouco tempo, num comentário, que a linguagem servia para a compreensão e entendimento humano, e não para o contrário.
- No entanto, como conjugamos isso com todo o desentendimento que se propaga por sua via?
... e falamos de conflitos, que muitas vezes passam de guerras de palavras a guerras efectivas!

Surge este assunto a propósito de um texto que seria o 5º da série "Ré vista", e que não concluí.
Aliás, nunca mais escrevi nenhum texto para essa série, e esta foi só uma razão parcial para isso.

O propósito da série era rever, ou seja "re-ver", ver a ré, ver de novo o que tinha ficado escrito atrás.
O último texto tinha sido o Ré vista (4) escrito no mês anterior, onde tinha ficado no 19º tópico aqui publicado em 2010 (... e ainda bem que não prossegui porque já está a chegar aos 500 textos)!

Bom, e conforme é fácil ler no que se segue, ao rever o 20º texto, um comentário de Maria da Fonte, fez-me coincidir referências a "Cruz", com a notícia da morte de Paulo Cruz, alguém que aqui comentara extensivamente.
Essa coincidência fez-me parar, e ali parei a série "Ré vista".

Também se pode notar que o texto se inicia com uma referência ao ex-primeiro ministro que acabara então de ser detido e constituído arguido... mas esse é um detalhe insignificante.

Coloco aqui ainda outro texto, que não tinha título, e ficou igualmente pendurado nessa altura. Seria o início de uma abordagem genérica a "muros e barreiras", numa perspectiva meio ética e filosófica. Não me lembro se na altura já se falava dos muros que a Hungria veio a construir em 2015, para evitar o acesso dos refugiados. Mas não era nada de novo... a imperial Espanha há muito que os erguera para proteger os seus dois resquícios africanos, e assim não se sentir humilhada pela posse de Gibraltar, pela imperial Inglaterra.

___________________  26 de Novembro de 2014  ________________

Dado o assunto do momento, o título apropriado por esta altura seria mais do género "Réu visto" e não tanto o feminino "Ré vista". Porém aqui a ré é da rectaguarda, no sentido da ré que te aguarda, ou da ré que te a guarda.

(020) West fall é capaz de ser o primeiro dos textos "complicados". Porquê? 
Para perceber isso, veja-se o comentário da Maria da Fonte que ali está:
E se a Cruz tiver outro significado?
Se for o símbolo de uma Herança Ancestral.
Nefer, era representado com um Coração estilizado em coração de cordeiro, cravado numa Cruz, colocado sobre a Traqueia.
Se a Cruz for o símbolo da Voz, do som das ideias? (...)
O significado que tinha na altura fica agora diferente, depois da passagem tempestiva do Paulo Cruz por este blog. Repito que as coincidências são o que são, estamos educados para não lhes dar importância, mas por vezes elas aparecem, desafiantes.


___________________  10 de Novembro de 2014  ________________

Um muro evidente em Melilla (foto de J. Palaizon)

A postura local leva rapidamente a um erguer de muro.
O muro protege o adquirido, mas não deixa de ser um simples muro.
O muro pode ser físico, herança de um arremesso hispânico à costa marroquina, onde o Duque de Medina-Sidónia quis imitar os portugueses na Seta africana.
Porém Melilla não era Ceuta, e por isso esta Seta era a verdadeira Cepta.

Barreira
Qualquer barreira entre corpos, ou é indetectável, e a sua existência é desconhecida, ou é detectada, e a sua existência é questionada.
- Há a ilusão habitual de que o questionar barreiras arbitrárias pode ser evitado.
- Não pode.

A perspectiva local é intrinsecamente ignorante do contexto global. É uma visão exacerbada do "eu" que, ainda que preze o "tu", despreza o "ele". Respeita os segundos, para definir terceiros.

Só que esta visão de grandeza é tão pequenina, tão pequenina, que mete dó... porque os terceiros são sempre a parte monstruosamente maior, aliada de todo o caos universal.

A redução, ou controlo, dos efeitos caóticos é um rotundo nada, porque ou seca a fonte caótica, e congela toda a inspiração, ou a deixa solta, e nesse caso é incapaz de controlar o caos.
É algo triste ver a mediocridade reinante, tão presa à visão pequena do seu enorme umbigo.

Definida uma barreira, a questão universal inevitável é - quem fica de um lado e quem fica do outro?
A arbitrariedade da escolha é a arbitrariedade da barreira, e carece de fundamento.
Não há herança, só há errança, num acaso e espasmo temporal.
A existência de semelhantes, invoca um princípio de reflexão inevitável:
- Colocados uns no lugar de outros, o que fariam esses de diferente face a estes?
Fariam pior... sim, talvez o mesmo.

A lógica que preside à construção da barreira actua com a mesma arbitrariedade na sua destruição.

Interessa avaliar a sua estrutura moral, ou seja, até que ponto resiste à tensão dos desequilíbrios que traz consigo. Trata-se de uma simples questão física, onde a temperatura financeira aparece quase em razão inversa da temperatura climática. Os pontos mais quentes estão localizados nos centros financeiros, e os pontos gélidos estão dispersos pela restante parte subdesenvolvida.
Assim, a termodinâmica financeira, acentuadas as diferenças, exerce um fluxo natural dificilmente separável por um simples muro.
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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

do Sótão (9) «Trópico de Cancer»

Ainda em 2014, deixei por publicar este texto acerca do "Trópico de Cancer", na altura do solstício de Verão... se bem me lembro, foi apenas porque demorei a escrevê-lo, e não o completei.
Tem uma informação interessante acerca da história da Ursa Maior que considerei semelhante ao desenho na caverna da Crimeia.
No entanto, não terei dado a isso relevo suficiente, e no mesmo dia publiquei um texto
sobre a ridícula "estória" que o Canal História trazia nessa altura.

_____________________ 25 de Junho de 2014 __________________

O Zénite é o ponto no céu tirado acima da cabeça do observador. A trajectória solar atinge o seu ponto mais elevado ao meio-dia, mas nas zonas não tropicais o Sol nunca atinge o zénite.
Os trópicos delimitam assim a zona tropical, onde a sombra pode desaparecer... quando o Sol está a pino.

Trópico de Cancer é a linha limite norte - no dia de solstício de Verão a sombra fica na perpendicular, dando ideia de desaparecer em qualquer relógio solar. Como podemos ver na figura seguinte, e porque há sempre imprecisões naturais e mínimas, a linha tem-se deslocado aproximadamente 15 metros por ano em direcção ao equador:
Marcação anual do Trópico de Cancer (México)

De forma semelhante, o Trópico de Capricórnio assinala o limite sul, no solstício de Inverno, e entre os dois, passará pelo Equador nos equinócios.

Acima do Trópico de Cancer, no hemisfério norte, o meio-dia aponta sempre a sul, de onde em latim "meri-dies" originou a palavra meridional para sul, tal como setentrional se associava às sete estrelas da Ursa Maior, para indicar o norte.

Várias notas acerca disto. 
O Cabo Bojador é um ponto relevante na costa africana antes de passar o Trópico de Cancer. 
A partir daí, o meio-dia, que indicava o sul, podia aparecer a norte, e a sombra poderia desaparecer... alguns temas que poderiam fazer as delícias metafísicas da Idade Média. Já antes disso, Eratóstenes usara o fenómeno para medir a circunferência terrestre, com uma distância e simples trigonometria.
Por outro lado, esta indicação latina especificava bem o que era norte e o que era sul, e associação das Sete Estrelas à Ursa Maior não remete para nenhuma alteração significativa da posição das estrelas e do norte. A menos que as Sete Estrelas passassem a ser as Pleiades... e que a Estrela Polar fosse uma Estrela "Pular"... que então pulara para norte.
Ainda que nada disto bata certo, não deixam de ser muito estranhas as orientações sugeridas por Plínio ou Estrabão para a localização dos pontos geográficos da península ibérica, que parecem invocar uma posição menos correcta dos pontos cardeais, como os entendemos hoje. Porquê hoje? Porque falar em nascente poderia não significar Leste, mas sim sudeste, já que só nos trópicos o Sol nasce mesmo a Leste, acima do Trópico de Cancer o sol vai nascendo cada vez mais a sul.

No sentido de não ter havido grandes diferenças até ao tempo greco-romano, há a referência habitual à Odisseia, onde se terá dito que as Sete Estrelas eram a única constelação que não mergulhava no Oceano... e isso só é verdade acima do Trópico de Cancer. Portanto, a ida para paragens a sul tinha este aspecto de perder as referências habituais de navegação... mas que seria um problema muito ligeiro, já que outras referências se estabeleceram sem problemas - nomeadamente o Cruzeiro do Sul.

Ainda sobre este assunto, e a propósito da Ursa Maior, encontrei esta referência na wikipedia:
«Using statistical and phylogenetic tools, Julien d'Huy reconstructs the following Palaeolithic state of the story: "There is an animal that is a horned herbivore, especially an elk. One human pursues this ungulate. The hunt locates or get to the sky. The animal is alive when it is transformed into a constellation. It forms the Big Dipper".»
Esta descrição é curiosa porque, sendo mero resultado de análise de lendas "paleolíticas", a descrição de uma caçada a um veado, ou outro grande herbívoro com chifres, e a sua relação com um fenómeno celeste, enquadra-se perfeitamente na história que se subentende da gravura rupestre na gruta da Crimeia, conforme detalhámos no fim de um texto anterior "à volta do Mar Negro".
Bom, mas se há registos de lendas que associam a constelação a veados ou a touros, a principal que herdámos é grega e associa a ursos, nomeadamente à mãe Calisto e ao filho Arcas, imortalizados no céu como ursa maior e urso menor...
Assim, dando crédito a que sejam as mesmas estrelas, a disposição estelar, ou a posição orbital da Terra, não se teria alterado significativamente desde o final do paleolítico, pelo menos... (uma outra curiosidade é que a Estrela Polar, apesar de pouco brilhante, é afinal a mais brilhante das estrelas variáveis cefeidas).

A existência de desertos na zona do Trópico de Cancer marcava ainda o antigo limite romano do "mundo habitável".
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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

do Sótão (8) «Alternativa (4)»

Há 4 anos atrás, no início de 2014, escrevi aqui três textos que fizeram sentido para estabelecer uma eventual "Estória Alternativa":


não publiquei o quarto texto, ou antes, acabei por publicar uma outra versão dele em 2016:


Fica aqui o rascunho que comecei, para o que iria ser o quarto texto, mas que nunca acabei por publicar, simplesmente porque a tarefa ficou demasiado complicada, para não ser apenas uma "estória"...

_________________ 19 de Janeiro de 2014 ________________

Escritas
O nexo histórico só começa a ser escrito consistentemente no 1º milénio antes de Cristo. Antes disso há as referências mesopotâmicas e egípcias, mas são interpretações por tradução conveniente feita no Séc. XIX.
É preciso notar que o registo egípcio e mesopotâmico estava praticamente perdido até essa altura, e nem tão pouco havia mitos reportados no ocidente (o movimento anti-Beroso-Viterbo tinha desacreditado muitas teorias não bíblicas). Como vimos, as primeiras imagens das pirâmides são feitas por viajantes isolados, apresentando contrastes face ao depois reportado por Napoleão.
Para além dos disparos contra a esfinge, e um desbaratar de achados transportados para França, é nessa expedição que a Pedra de Roseta leva à tradução de textos egípcios. Pouco depois, pelo lado inglês, é feita a tradução de inscrições cuneiformes sumérias.
Em poucos anos, no início do Séc.XIX, já se começa a fazer nova história com traduções de hieróglifos e inscrições cuneiformes. A tradução egípcia foi proeza exaltada, e no entanto a solução foi quase imediata ao problema, consensual. Mas, vejamos diversas formas de escrever Set (o deus que se opôs a Hórus)

Portanto, temos aqui três conjuntos, completamente diferentes, supostamente representando o mesmo nome (com a posterior identificação a Tot, juntam-se pelo menos mais dois). A isto, acresce uma certa compressão evitando as vogais, que veio a acontecer em muitas escritas (por exemplo, hebraico, abreviaturas romanas).

É habitual ver dúvidas sobre interpretações de textos em latim e grego, onde muita gente conhece as línguas, e é muito menos frequente ver dúvidas sobre textos sumérios ou egípcios... onde a incerteza seria enorme.
Como dizia Disraeli, acrescia haver mais que uma interpretação sobre os hieróglifos. Uma do conhecimento da escassa população letrada, outra apenas do conhecimento sacerdotal.
Qual tem sido traduzida? O que concluir?
Devemos continuar a usar primordialmente a tradição vinda pelos textos greco-romanos.
A outra sofre do método educacional. Quem ensina, condiciona a interpretação. Se há dúvidas remete-se sempre para o topo, onde prevalece a hierarquia... o antigo aluno raramente questiona os mestres.
Depois, tratam-se de profissões, onde ninguém quer ser desacreditado ou ridicularizado pela comunidade, logo é melhor concordar do que discordar. Tudo razões para não tomar "demasiado à letra" o que resulta dessas traduções modernas... e que trouxeram reinos perdidos pela história, como os Hititas.
O reino hitita, apesar da enorme influência hoje atribuída, só foi "desenterrado" no Séc. XIX.

Portanto, não se trata de duvidar por duvidar, porque certamente um nexo de tradução foi encontrado.
Só que o nexo encontrado foi também o que se quis encontrar, o que se ajustou a muitos factores, uns mais subjectivos que objectivos. O amador quando encontra uma inscrição envia para tradução, raramente arrisca traduzir juntando os hieróglifos. Porém, se repararmos nas traduções que são feitas, podemos ver que dificilmente se trata de uma ciência muito exacta... 
Não falamos do registo chinês, supostamente bem mais antigo e bem melhor guardado, mas igualmente envolto em incerteza e secretismo.

O Egipto, sendo a grande referência do mundo antigo, merece alguma atenção especial.
Preferia não entrar em detalhes, alguns já mencionados, mas podemos olhar para este caso especial, indo de novo à época do dilúvio. Este dilúvio é também chamado de Ogyges, o que é um nome grego para Oceano, mas também se liga a um rei mítico de Tebas.
Surge aqui uma das confusões entre a Tebas grega e a egípcia, até porque o início faraónico começa na zona de Tebas, em Abidos.
A versão oficial aponta para um faraó Ro (ou Iry Hor), denominado companheiro de Horus, sendo que na mitologia ibérica Horus correspondia a Hércules Líbico... que depõe os Geriões. Nessa versão, este Hércules tinha sido antecedido por Júpiter, a que os egípcios chamariam Osíris, cujo filho seria Hórus, que irá eliminar Seth, tal como o correspondente Hércules eliminaria o Gerião.

Há assim analogias não negligenciáveis nesta parte inicial, também com Tot e Mayat, cujo nome não se deixa de associar a Maia, mãe de Hermes, explicitamente associado a Tot em Hermopolis. O culto de Tot associado a Hermes Trimegisto será intenso no período ptolomaico, de fusão cultural.
Há ainda uma história egípcia com Ka e com o mítico Rei Escorpião...

A queda de Tróia poderá ter sido o equivalente à queda de Roma. 
Após o período destabilizador com os povos do mar, semelhante às invasões bárbaras, a zona mediterrânica e europeia terá entrado num longo equilíbrio, semelhante a uma Idade Média. 
Nessa época o foco religioso foi o Egipto, especialmente Heliópolis, que faria o papel de controlo papal, semelhante ao que se fez em Roma depois. Continuava o poder militar na Mesopotâmia, sempre pronta a intervir e a invadir até mesmo o Egipto.
A situação geográfica seria praticamente a mesma antes e depois da Guerra de Tróia, mas com novos acordos de paz, mais estáveis, entre as elites sacerdotais. A Europa continuaria raptada, com controlo pelas cidades e reinos da Ásia Menor, havendo alguma liberdade de navegação em Tarsis, e por extensão com os fenícios do Líbano, que se encarregariam de navegações purpurinas, para além das colunas de Hércules. Autorização semelhante conseguiria Salomão e os hebreus, também com um entreposto na Ibéria. Os gregos, apesar da sua vitória, saíriam menos bem, ficando espalhados pela costa e ilhas do Mediterrâneo. A aliança de Agamémnon desvanecer-se-ia após o fim de Tróia.
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sábado, 10 de fevereiro de 2018

A braça e a brasa, abraça e abrasa (2)

O brasão e o braseiro - a brasa e a braça
Ainda que a etimologia seja uma espécie de "ciência oculta", remetida a diversos segredos e especulações convenientes, é um bom exercício remeter as palavras às suas sílabas.
Protesto contra ferrar animais.
Neste caso, é interessante especular sobre a semelhança dos termos "brasa" e "braça".
A conjectura é simples... as palavras podem ser semelhantes, porque referiam colocar uma brasa num braço. Recentemente, em protestos contra marcar os animais com brasas, houve activistas que aceitaram ser marcados no braço com uma brasa. 
Um brasão diferente, mas igual noutro sentido... os escravos, na Antiguidade, e na Idade Moderna, eram muitas vezes marcados com ferros em brasa, especialmente em caso de fuga. Um local de fácil observação, menos escondido por roupa, seria justamente o braço.
Por coincidência, em inglês, "arm" tanto significa arma como braço. A derivação enquanto arma é latina, e enquanto braço será germânica. Curiosamente, brasão diz-se "coat of arms", e essa cota de armas também pode ser entendida como uma "malha no braço", uma espécie de insígnia, que de ser marca de escravos, passou a ostentação militar ou burguesa. A semelhança inglesa entre braço e arma faz ainda sentido, já que os braços foram uma primeira arma.

De forma genérica a sílaba "bra" remete ao braço, sendo claro que esta suposição parece ligeira, e mais, é gratuita. Porém vendo palavras como "dobra", notamos que o dobrar é típico do braço; e a própria "quebra" ocorre como um dobrar do braço. Tal como a primeira "obra" terá remetido para trabalho braçal; ou ainda "abra", se entendermos que um "abraço" começa por um abrir de braços.  Depois podemos até entender que "bradar" não seria mais do que "dar aos braços", ou que "vibrar" seria um "vi braço" - a acenar, a mexer. Poderíamos ir até à "cobra" na forma e flexibilidade do braço, ou num braço que cobre, mas dificilmente chegaríamos a conexão com "cabra". No entanto, apesar de parecer mais um exercício de imaginação, não é difícil imaginar que "bravo" seria o que avançava, confiante nos seus braços.

Feita esta pequena introdução, continuamos com os brasões de mais três vilas:
- Alenquer, Almada e Almeida.
Nalguns casos já vimos estas vilas serem mencionadas por João de Barros, mas aqui iremos concentrar-nos no que Vilhena Barbosa diz no seu livro.

Antes de especificar cada vila, notamos que o antigo brasão é diferente nestes três casos, também no que diz respeito ao nicho superior. Nos três brasões das vilas anteriores era sempre uma vieira que se enquadrava no nicho superior. Aqui isso só acontece com Alenquer, já que Almada tem uma coroa imperial fechada, e Almeida uma coroa real aberta... o que pode indiciar uma origem mais recente para ambas, que não é remetida à Antiguidade.

ALENQUER
Invocando uma lenda sobre D. Afonso Henriques e um cão de nome Alão... Vilhena Barbosa, diz que as armas da vila são "em campo de prata, um cão pardo preso a uma árvore com um grilhão de oiro".
Temos uma substancial mudança para o actual, onde o cão passou a negro, está em campo de ouro (amarelo), não há grilhão nem árvore, passando a haver um castelo azul. A página da Câmara de Alenquer explica o brasão actual de 1936, e menciona o de Vilhena Barbosa.
Acerca da toponímia, Vilhena Barbosa refere a ligação à romana Jerabriga, mencionada por João de Barros, e que o nome lhe poderia advir dos Alanos, enquanto Alan-Kerke, significando "templo dos alanos", ou dos Suevos, como Alankerkana
Como já aqui mencionei num comentário, gosto da possível ligação dos Alanos no nome Alancastro (castelo de Alanos), e também o Calisto fez referência aos Alanos nas tropas do rei Artur. Há ainda a referência ao cão Alano (alaunt), mesmo que Vilhena Barbosa diga que o símbolo alano seria um "gato" que, de ser toscamente representado, parecia um cão.

ALMADA
Aparentemente a origem de Almada é "recente", e Vilhena Barbosa diz: "não conserva esta povoação padrão algum da sua antiguidades, mais do que tradição e memórias. Do castelo que os ingleses aí levantaram no Séc. XII não restam vestígios." Quer no brasão antigo, quer no actual, um mesmo castelo, que invocará o edificado pelos cruzados ingleses que ajudaram D. Afonso Henriques.
Quanto ao topónimo, a origem seria "Al Maden", nome de uma povoação árabe arrasada na conquista cristã, nome que os ingleses aí estabelecidos teriam mantido, segundo Vilhena Barbosa.
Em Espanha há uma cidade de nome Almadén, que tem o nome resultante de "al ma'din" referindo a mina, a maior do mundo na produção de mercúrio líquido. O mercúrio tornou-se importante na extracção do ouro americano, formando amálgamas que permitiam retirar o metal da escória. Não sei se assim podemos falar num paralelo com Almada. Uma outra raiz, "al madina" (a cidade), de onde surge Almedina, ou Almadina, também se poderia ajustar ao topónimo.
Vilhena Barbosa refere um incidente notável, de Frei Luís de Sousa (Manuel de Sousa Coutinho), que teria incendiado a sua casa, para não servir de habitação aos governadores espanhóis que em 1599 pretendiam aí refugiar-se da peste que atingia Lisboa.
Refere ainda a "Torre Velha", uma fortaleza oposta à Torre de Belém, que funcionaria a par desta.
Torre Velha e Torre de Belém num mapa inglês de 1810.

ALMEIDA
As armas de Almeida são remetidas a D. Manuel, nomeadamente a sua esfera armilar. Vilhena Barbosa, diz: "As armas de Almeida são um escudo com as armas reais, sendo a coroa destas aberta, ao uso antigo, e ao lado a esfera armilar, divisa d'el rei D. Manuel, que foi quem lhe deu este brasão".
Actualmente no brasão consta apenas um castelo.



Duarte de Armas - Castelo de Almeida
Sobre a origem do nome, e conforme é dito na página camarária, a origem é provavelmente árabe. Vilhena Barbosa, ou Bernardo de Brito, falam em Talmeida ou Talmayda, como significando um hipódromo (Atmeidan), ou remete-se ainda para uma "mesa", lugar plano que estaria mais a norte, num certo vale de nome "Enxido da Carça".

D. Dinis teria deslocado a povoação com a construção do castelo (que depois desapareceu numa explosão do general Massena, em 1810), mas que podemos ver num esboço de Duarte de Armas, onde a esfera armilar está como estandarte numa das torres, e a cruz de cristo, noutra.
Barbosa refere ainda as fontes termais junto ao rio Côa, a Fonte Santa (que tem hoje um moderno equipamento termal).

______________________ 11/02/2018


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A braça e a brasa, abraça e abrasa (1)

Inicio aqui uma digressão sobre um livro de brasões de vilas e cidades, 

publicado em 3 volumes por Inácio Vilhena Barbosa em 1860. 

Irei comparar esses com os brasões actuais (cf. wikipedia), podendo reparar em semelhanças e diferenças... conforme ilustramos com os três primeiros exemplos: 
- Abrantes, Albufeira e Alcácer do Sal.

Antes disso, começo pela etimologia da palavra brasão, que segundo alguns poderia ter uma mesma origem indo-europeia do que a palavra "brasa"... e que estará também na origem do nome "Brasil". Do que li, a opinião maioritária não será esta.
No entanto, parece-me ser uma suficiente justificação a clara proximidade do nome. Sobretudo porque ainda hoje um ferro em brasa serve para identificar a casa do proprietário de gado.
Brasão pode até ter sido o nome do ferro que tinha a marca do proprietário, e de forma semelhante o brasão de armas passou a funcionar como identificação da casa senhorial. Esta coincidência é demasiado clara e óbvia, dispensando outras teorias, com menos sentido. No entanto, como há sempre mais a dizer... guardo para o fim.
Para já, apresentamos os três brasões, antigos e actuais:

Os brasões no livro de Vilhena Barbosa (1860), e os actuais (img: wikipedia).

ABRANTES
O brasão de Abrantes não mudou. Segundo a descrição de Vilhena Barbosa - "... tem por armas quatro flores de lis, e quatro corvos, com uma estrela no meio, em campo azul". 
Vilhena Barbosa refere que Abrantes é uma das vilas mais antigas de Portugal, atribuindo a sua fundação aos "galos celtas", ou seja, à migração que os celtas teriam feito de França para a Ibéria. Chega ao ponto de estabelecer a sua fundação precisamente no ano 308 a.C. Diz ainda que foi própera durante o tempo romano, onde era chamada Tubuci (ainda que esse nome também possa ser atribuído a Tancos). 
Segundo ele, o nome Abrantes deriva de designação Aurantes que os godos lhe teriam posto, devido ao muito ouro que aí se recolhia das areias do Tejo. Desse nome Aurantes teria havido corrupção para Avrantes e depois Abrantes. Acrescenta que no tempo de domínio árabe seria chamada Libia
A Câmara Municipal investe numa lenda local brejeira, para a origem do nome...
Vilhena Barbosa justifica o brasão com a vinda de um cruzado francês (flor-de-lis, azul) para a conquista de Lisboa aos mouros, e que com D. Afonso Henriques participou na recolha do corpo de S. Vicente (corvos). O rei teria-o colocado como alcaide-mor de Abrantes, e isto praticamente justifica o nexo do brasão escolhido. 

Vilhena Barbosa menciona aqui o episódio trágico-romântico de Guiomar Coutinho, uma rica herdeira, filha do Conde de Marialva, que se envolveu primeiro com o Marquês de Torres Novas, João de Alemcastro, filho de D. Jorge (e assim neto de D. João II), mas que depois se veio a casar com o infante D. Fernando, filho de D. Manuel, e Duque da Guarda. O episódio terminou com a morte dos dois filhos, do infante, seu marido, e dela própria, todos falecendo no ano de 1534. O drama de Camilo Castelo Branco - "O marquês de Torres Novas" aborda esta tragédia.

ALBUFEIRA
Situação oposta é a de Albufeira, em que o brasão mudou por completo. Segundo Vilhena Barbosa - "O seu brasão d'armas é uma vacca de oiro em campo azul." A página da Câmara Municipal não acrescenta razão para a mudança, mas confirma que a "vaca de oiro em campo azul" constava das ordenações filipinas, e simbolizava uma abundância de gado. Apresentam um brasão antigo com orientação para leste, diferente da orientação para oeste, usada por Vilhena Barbosa. Poderá haver alguma semelhança com o brasão de Atougia da Baleia, que já aqui foi mencionado.
Quanto à toponímia, Vilhena Barbosa diz que o nome de origem romana seria Balium, e com a invasão árabe passou a ser Al Buhar, significando "o mar" (dito "al-buhayra", para "pequeno mar"... digamos que bufar seria o mar, e bufeira seria a lagoa). Referia-se a uma grande lagoa de água que o mar enchia em tempestades, ou grandes marés, e que ficava ali aprisionada. Agora essa Albufeira desapareceu, ou digamos aparece naturalmente quando há cheias e inunda a cidade... Na região de Valencia em Espanha, também encontramos uma Albufera, referente a uma mesma lagoa retendo águas.

ALCÁCER DO SAL
Salacia, mulher de Neptuno.
O brasão de Alcácer do Sal inclui agora um castelo e cruzes de Santiago, mantendo o navio (em direcção oposta) já constante no livro de Vilhena Barbosa que diz - "Tem por brasão uma nau, e por timbre as armas reais". Segundo ele, a nau referia-se à armada de cruzados que ajudou D. Afonso Henriques na conquista da cidade. Conforme já fizémos aqui referência, o nível do mar era bastante mais alto, permitindo que Alcácer do Sal recebesse navios de grande porte no seu porto até ao Séc. XVIII. E também por isso é perfeitamente admissível que a conquista de Alcácer do Sal tivesse uma forte componente marítima, conforme já abordámos, para o caso da Batalha de Ourique.
Acerca do nome, Vilhena Barbosa refere Salacia ao tempo dos romanos, referindo-se à deusa, mulher de Neptuno que, para preservar a sua pureza tinha fugido do deus dos mares, escondendo-se no Oceano Atlântico. Conforme o próprio nome indicia, a ninfa Salacia refere o carácter salino da água do mar, e assim o Sal já era carácter notório da vila em tempo romano (segundo a Câmara Municipal, teria antes dos romanos o nome púnico de Bevipo).
Vilhena Barbosa acrescenta uma lenda interessante... de uma invasão vinda do norte de África, ao tempo do imperador Augusto, chefiada por um rei de nome Bogud. Este Bogud teria saído do sul da Lusitânia carregado de despojos, após ter destruído o templo a Salacia. Porém, um forte temporal fez naufragar os navios com a pilhagem, e fez perecer a maioria do seu exército. Isto foi entendido pela população como um castigo de vingança da deusa Salacia, sendo erguido novo templo ainda maior. Augusto aproveitou para declarar Salacia Imperatoria como município romano. Em tempo romano poderá ter ficado enorme, já que alguns autores reportam 10 Km, havendo vestígios de grandes edifícios. Do nome Alcácer é fácil de entender a sua origem árabe, pois comummente "alcazar" significa castelo. Vilhena Barbosa acrescenta que em 1217 deu-se a definitiva recuperação, após curta perda, com tropas lideradas por D. Soeiro, bispo de Lisboa, e as batalhas em redor, com auxílio de tropas árabes vindas de Badajoz, Jaen, Sevilha e Córdova, terão sido tão sangrentas, que foi chamado a um local "Vale da Matança".

_________________ 03/02/2018


sábado, 27 de janeiro de 2018

Indica! Índico. Orienta! Oriente.

Índia foi um topónimo grego relativo à região do rio Indo, até porque em sânscrito a palavra para rio era "sindo", e portanto, era praticamente a mesma (ainda hoje usada na região).
Do grego, é suposto ter passado igualmente ao latim.

Por outro lado, "indicar" tem no latim a forma "indicare" que resulta da concatentação do prefixo "in" com "dicare", que é uma forma de dizer, ditar, proclamar. Talvez devesse ser escrito em português como "inditar", e ganhou outra forma em "indigitar". Em "indigitar" vemos a raiz no digitar, no "dígito", significando "dedo". Ora, quem aponta usa a ponta do dedo "indicador".

De forma aparentemente ocasional, vemos como desde os tempos romanos havia na linguagem uma indicação que remetia a indicar o oceano Índico, ou indo para o rio Indo, a Índia de outrora, hoje Paquistão.

Noutro ponto, a ponta em apontar apontava provavelmente para Ponto, o mar, que tanto serviu como divindade marítima, precedente a Poseidon, primeiro referindo o Mediterrâneo, e especialmente o Mar Negro (Pontus Euxinus)... onde na costa norte da Turquia, se definiu o Reino do Ponto. Foi nessa direcção que partiu Jasão com os seus Argonautas, numa pretensa viagem à Pontica Cólquida que seria mais famosa na Antiguidade, quanto foi a viagem de Gama no estabelecimento da ligação à Índia, e depois a todo o Oriente.

Rosa dos ventos em Reinel -  flor de lis azul para
Norte e uma cruz apontada para Oriente (Jerusalém).
Quanto à palavra "orientar", dá a indicação do Oriente como direcção a tomar. A razão para essa orientação tem explicação numa razão de construção -  as igrejas deveriam estar dirigidas ao oriente, ao nascer do Sol, à direcção da alvorada, da aurora (assunto que já abordámos).

Neste aspecto, mistura-se com essa indicação de oriente com uma cruz nas rosas-dos-ventos, por referência a Jerusalém, indicação que passou a ser apresentada nos mapas, a partir do Séc. XVI, por directiva papal.

Oriente resulta do nominativo latino "Oriens", palavra associada a "origem", a "nascente", pelo nascimento do sol. Mas a partícula "ori" é similar a "auri", tal como em "aurora", sugerindo o elemento "ouro", do dourado brilhante das alvoradas. É natural que originalmente "hora" se referisse a essa "aura" matinal, e só depois fosse optado como medida do tempo, por divisão do dia. Fazendo notar que "aura" enquanto "ao Rá", reportaria directamente ao nome egípcio para o Sol.
Especulamos assim que, como nome mais adequado, seria "auriente".

Independentemente das razões, propositadas ou ocasionais, não deixa de ser curioso que na história nacional o verbo "indicar" indicasse o Índico, e que a orientação marítima fosse o Oriente. As palavras têm mais ligação latina, já que "nascente"/"poente" seriam palavras mais comuns, tal como "apontar" versus "indicar". Existindo já em tempo romano, essa vocação de direcção oriental estaria já estabelecida na Antiguidade.