domingo, 22 de março de 2020

Lavagem de Pilatos

Como os romanos possuíam um elaborado sistema de abastecimento de água, o hábito da lavagem de mãos, que seria certamente refrescante na Judeia, era visto como um desperdício exótico por muito dos povos sujeitos aos romanos. O lavar das mãos de Pilatos, que isentava as suas mãos do sangue de Jesus, passou para a posterioridade com um significado pouco higiénico.

Chegarmos ao Séc. XXI com instruções de saúde que se resumem a um "lavar de mãos", parece remeter-nos aos tempos primitivos em que a peste assolava cidades, e a instrução de salvaguarda era manter as populações isoladas, praticando um afastamento higiénico.

Convém perguntar qual será a diferença entre as orientações das "entidades de saúde" e os conselhos das avós, quando éramos crianças. Rapidamente poderemos concluir que as nossas avós eram bastante menos mentirosas, atabalhoadas ou bobas. Só faltará às autoridades sugerirem colocar pimenta nos dedos, para não os levar à boca.

Se há uns meses alguém fizesse uma aposta de que conseguiria passear-se em Paris, Milão, Madrid, Roma, como se tratassem de cidades fantasma, certamente pensaria ganhar sem qualquer problema. 
E se alguém apostou o contrário, teria outra ideia na cabeça... 
Quando foi feito o filme Vanilla Sky, apenas com autorizações especiais conseguiram filmar em Nova Iorque com uma Times Square esvaziada, que é praticamente o cenário actual:

Imagens de Times Square vazia, com o recolher obrigatório (esq.). Imagens de Vanilla Sky (dir.).

O realizador poderia ter escolhido outro cenário, mas pensou que acordar numa Times Square deserta, sem vivalma, seria algo tão bizarro que o personagem teria que forçosamente perguntar-se se estava a vivenciar um sonho ou uma realidade.

O número de mortes anual em Portugal, na Itália (e em boa parte dos países) é de 1% da população por ano. Ou seja, no ano de 2019 morreram aproximadamente 100 mil pessoas em Portugal (à volta de 500 mil em Itália), pelas mais diferentes razões. 
Num mês, isto significa um número de mortes que ronda as 10 mil (50 mil em Itália).
A maioria dessas mortes será de pessoas acima dos 80 anos, por razões que podem ser apontadas, mas que antigamente, em tempos menos politicamente correctos, seria dito "morreu de velho", porque a partir dos 80/90 anos as células entram numa fragilidade persistente, e se não morre de uma doença, aparece outra, etc.

Nos EUA a percentagem de mortes anual é semelhante, e desse número 7% podem ser atribuídas a gripes e pneumonia, presumindo-se que algo semelhante ocorra em Portugal e Itália. 
Ou seja, está praticamente instituído que, por mês, e especialmente nos meses de inverno, os números podem chegar aos mil mortos em Portugal, e 5 mil em Itália. 
Ou seja, o número de 5 mil mortes em Itália, passado um mês, não será assim fora do comum, face aos problemas de gripes e pneumonias que normalmente ocorrem. Aliás, dado o envelhecimento da população, 99% dos mortos associados ao corona-vírus em Itália tinham outras doenças graves.

Todos os anos aparecem novas estirpes de vírus, e daí ter-se propagado o hábito de proceder a uma vacinação aos grupos etários mais velhos, mas isso não impede a sequência natural das coisas...
Parece ainda claro que foi lançado um novo corona-vírus, e que este bicho é mais perigoso que os anteriores, não tanto pela mortalidade, mas sim pela sua fácil capacidade de transmissão. 

Inicialmente julgou-se que seria possível passar esta fase da forma habitual... deixar a coisa transmitir-se e no final, contar os mortos. Provavelmente as contas não seriam muito diferentes, só que o procedimento habitual, que seria deixar o pessoal morrer naturalmente pelas complicações das pneumonias... foi dificultado pela monotorização do vírus, que tinha um nome, era identificável, e estava sob escrutínio da comunidade. Ainda há uma semana Inglaterra e Estados Unidos estavam convictos de deixar o vírus à vontade, mas foram forçados a ceder, pois seria evidente a saturação dos sistemas de saúde.

Entramos na fase da lavagem de Pilatos, em que os governos vão ser condenados a recuperar a economia, ao passo que os mercados financeiros vão lavar as mãos, para depois cobrarem a preço de ouro a encenação em curso de que a fabricação de euros e dólares tem suporte financeiro.

Entretanto, os cidadãos vão ficando numa prisão domiciliária ridícula, onde o simples passear é crime, e onde até parece que os carros são também transmissores de vírus... 
A vantagem do assunto é que a situação foi de tal forma exagerada que nem se dá espaço aos outros vírus para seguirem o seu caminho. Este distanciamento não bloqueia apenas o corona-vírus, vai bloquear toda a contaminação, e no final de contas, o que podemos ter a mais de mortes por um vírus, irá compensar o que temos a menos pelos outros... 

Com as habituais continhas de jerico, que prevêem um pico do vírus para 14 de Abril, ou seja aproximadamente 45 dias depois do início, podemos prever o seguinte:
Ou seja, que amanhã, 23 de Março haverá ~ 2010 casos, depois 2500, 3080, 3750, etc... chegando a aproximadamente 8 500 casos no final deste mês. Se o sistema aguentar, é natural que o governo não pense passar dos 25 mil casos, com umas 300 mortes associadas. 
Ao contrário do caso italiano, a curva portuguesa progride de forma bonitinha, previsível durante toda esta semana, podendo pensar-se até em manipulação de dados.

O que parece claro é que quando nos livrarmos do vírus, teremos que lidar com os outros agentes parasitas do sistema, e daqui até lá, convém que ponham açaimes nos hitlerzinhos de serviço, porque senão ainda haverá chatices menos higiénicas do que o simples lavar de mãos.

Ao cuidado da direcção da saúde, ficam recomendações de 1819 (Annaes das sciencias, das artes e das letras, Volumes 3-4, pág.134):
Provas da efficacia das fumigações acidas.
Pringle já em 1750 tinha conhecido a propriedade anti-contagiosa dos acidos mineraes, e em 1758 o Dr. Johnstone se serviu com grande vantagem dos vapores do acido muriatico, corrigindo o contagio de uma febre summamente maligna, que dois annos antes tinha reinado em Kidderminster. M. Guyton-Morveau, em 1773 , purificou em Dijon, por meio das fumigações de acido muriatico, a igreja de St. Estevão infectada por miasmas procedidos dos carneiros da igreja, e na qual se tinham em vão tentado as fumigações de vinagre, a detonação do nitro, os perfumes, etc. A mesma experiencia foi pouco depois repetida com a mesma felicidade nas prisões da mesma cidade: em 1780 a Academia das Sciencias de Paris, depois de ouvida huma commissão dos seus membros, deu uma plena approvação às fumigações de acido muriatico, porém apesar desta decisão, e de instrucções e admoestações inseridas em diversas obras e espalhadas com profusão, ficou tão util practica em esquecimento por espaço de doze annos, até que em 1792 se manifestou um contagio com grande violencia nos hospitaes militares do interior da França, custando a vida a muitos enfermeiros e medicos : as fumigações de acido muriatico puseram logo um termo á doença nos hospitais de St. Cyr, de Franciade e do Gros Caillou em Paris, e posteriormente nos dos departamentos de Saône e Loire e da Costa de Ouro. No lazareto de Marselha em 1804 se impediu a introducção da febre amarella, que então reinava em Cadiz, Malaga, e Liorne, apezar dos navios que destes portos chegavam diariamente. Mr. Desgenettes, primeiro medico dos exercitos, declarou em uma carta dirigida ao secretario da classe das sciencias physicas do Instituto de França, que depois que nas enfermarias do hospital militar de Parts se faziam as fumigações com o gaz acido muriatico oxygenado, tinham cessado de se pegar as febres contagiosas que os doentes alli traziam de fora, aos que já estavam no hospital e aos enfermeiros, como dantes acontecia. O mesmo experimentaram o D. Masuyer, professor de medecina na Faculdade de Strasburgo, e antigo medico dos exercitos, os Doctores Schall e Hessert, que no seu Tratado da Febre Miliar declarão a efficacia superior e incontestavel desta fumigação, e o D. Neurohr, medico de Bergzabern.
Bom, e é claro que estas recomendações são apenas dirigidas aos responsáveis pela DGS, actuais e anteriores, já que se espera, como habitual, uma maior inteligência da população em geral.

sábado, 14 de março de 2020

dos Comentários (61) pan-demos

Em resposta-comentário, José Manuel Oliveira sinalizou um detalhe importante, relacionado com a existência de «fundos pandémicos»:
WALL STREET ESTÁ POR TRÁS DO ATRASO EM DECLARAR A EPIDEMIA DE CORONAVÍRUS UMA "PANDEMIA"?
(…) Em particular, a OMS determina se uma pandemia atende a critérios que canalizariam dinheiro dos investidores para o PFE, e não para seus próprios bolsos, o que ocorreria se nenhuma pandemia fosse informada no momento em que as obrigações expirassem - próximo Julho.
(…) Em 2017,o Banco Mundial emitiu US $ 425 milhões em títulos pandémicos e a venda de títulos estava com excesso de 200%, "os investidores estão ansiosos para pôr as mãos nos altos rendimentos oferecidos", informaram os relatórios. Os prémios que os portadores de títulos receberam até agora foram amplamente financiados pelos governos do Japão e da Alemanha, que também são os principais países que financiam a OMS, atrás dos Estados Unidos e Reino Unido. Segundo alguns relatos, a maioria dos detentores de títulos são empresas e indivíduos sediados na Europa.
Alguns analistas argumentaram que esses títulos de pandemia nunca foram destinados a ajudar os países de baixa renda atingidos pela pandemia, mas para enriquecer os investidores em Wall Street. Por exemplo, o previsor económico americano Martin Armstrong chamou essas obrigações de Pandemia do Banco Mundial.
 [tradução Google]

wikistrike.com (29.Fev.2020)

Corona-vírus visto em microscópio electrónico.

É sabido que desde a aliança Reagan-Thatcher (ou ainda, Wall Street - City), foi solto um monstro de especulação financeira, que tinha sido mais ou menos adormecido após o crash da bolsa em 1929. 
Se a pretensa "ida à Lua" em 69 já tinha sido um "must" em termos do delírio público, o facilitismo de Nixon e Kissinger nos acordos com os árabes da OPEP, e com chineses, permitiram a imposição do dólar como moeda-ouro, abriram a globalização, e deram fundos intermináveis para o outro delírio - a "guerra das estrelas", ridícula competição que virtualmente terá arruinado a economia da União Soviética.
Se o plano poderá ter sido estourar com o Bloco de Leste, o problema é que estando solto o monstro da especulação financeira, ninguém teve capacidade de voltar a limitar e regular as loucuras dos mercados financeiros... nem mesmo após o crash de 2008.

Chegamos assim a um Séc. XXI em que praticamente tudo é negociado em bolsa, até a simples temperatura atmosférica, com grandes implicações no "clima" dos mercados.
Não sabia, mas fiquei agora a saber, que as próprias pandemias eram negociadas em bolsa. Não interessa saber que tinham o honroso propósito de financiar países subdesenvolvidos, quando atingidos pela pandemia. Interessa saber que geravam rendimentos significativos que atraíam investidores para mais um "esquema pirâmide", um esquema Ponzi. 

Assim, o atraso na declaração de pandemia poderá ter servido para libertar investidores seleccionados dos activos tóxicos, perante o crescendo da epidemia. É essa a hipótese levantada no artigo citado pelo José Manuel.

No entanto, e numa altura em que haverá alimento para múltiplas teorias da conspiração, surgiu uma outra, relacionada com o projecto de identificação digital ID2020, que consiste em usar vacinas para uma identificação digital dos indivíduos. A partir deste pressuposto, surge uma teoria que basicamente junta tudo...

We are moving towards a totalitarian state of the world. This is part of Agenda ID2020 – and these steps to be implemented now – prepared since long, including by the coronavirus computer simulation at Johns Hopkins in Baltimore on 18 October 2019, sponsored by the WEF and the Bill and Melinda Gates Foundation.
Bill Gates, one of the chief advocates of vaccinations for everybody, especially in Africa – is also a huge advocate of population reduction. Population reduction is among the goals of the elite within the WEF, the Rockefellers, Rothschilds, Morgens – and a few more. The objective: fewer people (a small elite) can live longer and better with the reduced and limited resources Mother Earth is generously offering.
This had openly been propagated already in the 1960s and 70s by Henry Kissinger, Foreign Secretary in de Nixon Administration, a co-engineer of the Vietnam war, and main responsible for the semi-clandestine bombing of Cambodia, a genocide of millions of unarmed Cambodian civilians. Along with the CIA-Kissinger engineered coup on 9/11, 1973, in Chile, killing the democratically elected Salvador Allende and putting the military dictator Pinochet in power, Kissinger has committed war crimes. Today, he is a spokesman (so to speak) for Rockefeller and their  “Bilderberger Society”.

Sem mais, não será útil acreditar nestas "teorias da conspiração", mas é ainda menos útil ignorá-las.
A "Agenda ID2020", ainda que pouco falada, estava aí, da mesma forma que as Pandemias estavam colocadas como activos em bolsa.  Haverá outras teorias, como a implantação do 5G e os possíveis perigos de usar comunicações em frequência mais alta... no entanto convém notar que a comunicação 5G usa ondas com comprimento de onda superior a 1 milímetro, enquanto a luz visível tem frequência muito superior, e um comprimento de onda quase da dimensão dos vírus. 
Aliás, o que é natural é que os vírus se dêem muito mal com frequências ultravioleta... e com a praia, mas isso também acontece com as células.

No balanço entre considerarmos este surto de corona-vírus como sendo um descuido natural, um descuido ou um plano humano maquiavélico, haverá que balançar os seguintes factores:
  • A OMS desvalorizou o surto, e não recomendou a interrupção de viagens para as zonas onde o surto irrompia, começando pela China, e continuando com a Itália.
  • Não houve nenhum controlo em aeroportos, procurando controlar pessoas que vinham das zonas infectadas. Isso só começou a acontecer em Março, e ainda não está em vigor com a urgência e diligência necessária.
  • A OMS, a UE, e de um modo geral, os diversos governos, deixaram acabar os stocks de máscaras, luvas, álcool, ou gel desinfectante... ao contrário do que aconteceu na Gripe A. Esses stocks ainda não foram repostos, apesar de se saber da sua falta há meses. Culpar um pânico inicial de cidadãos alarmados, é ridículo... seria uma excelente oportunidade de negócio. Dizer que as máscaras "fariam pior" e não protegiam do vírus, é o mesmo que dizer que os médicos e enfermeiros estariam dispensados de usá-las. 
  • As organizações nacionais de saúde, sujeitas da OMS, atrasaram os planos de protecção, e dir-se-iam dispostas a aceitar a sua propagação, como se fosse um normal vírus da gripe. Convém lembrar que o encerramento de instalações foi mais uma decisão política, pressionada por directores de faculdades e universidades, do que uma recomendação dessas organizações.
  • Não se devem ignorar os fait-divers, como seja a existência do Event 201 em Outubro de 2019, como sejam estes fundos de investimento Pandémicos, como seja esta Agenda ID2020.
  • Outro fait-divers é o Mercado de Wuhan, tido como origem do surto, estar apenas a 20 Km do Laboratório de Virologia P4 da China (Portugal só tem um laboratório P3 - o Instituto Ricardo Jorge, e a Espanha também não tem nenhum P4). Este laboratório tinha estado envolvido, meses antes, numa questiúncula de coronavírus que lhe teriam chegado do Canadá.
  • Da conjuntura económica que irá resultar deste surto, surge um colapso económico mas também grandes oportunidades financeiras - de comprar empresas por tuta-e-meia. 
  • Outra evidência que resultará do shut-down da actividade económica é que a maioria da actividade económica existente é completamente artificial e redundante. Ficará claro que apenas um número pequeno de empregos é verdadeiramente necessário, e de entre esses só uma parte ainda mais pequena necessita de ser realizado fora de casa.
  • Este será o primeiro teste de funcionamento de uma sociedade funcionando à distância, centrada em casa própria. Uma sociedade para o Séc. XXI com características medievais, nomeadamente na limitação do deslocamento físico, na ausência de propriedade real e na completa dependência de um funcionamento central para sobrevivência individual.
Pelo outro lado:
  • A interrupção de viagens para os países afectados poderia levar a mal-entendidos diplomáticos. A OMS já tinha lançado alertas alarmistas sem grande razão - caso da Gripe A.
  • O vírus seria entendido como uma mera gripe em 90% dos casos, e os casos restantes estariam dentro do que se aceitariam como baixas expectáveis devido a uma gripe "mais complicada".
  • Inevitavelmente, o mais natural é que toda a população esteja sujeita a ser infectada pelo vírus, pelo que as medidas de contenção são infrutíferas.
  • Só depois do colapso do sistema de saúde italiano, devido ao número de casos que exigia suporte respiratório, é que se percebeu que os restantes sistemas de saúde também iriam colapsar. Só então se tentou conter de forma séria a propagação, que estava descontrolada.
  • As coincidências são coincidências, e o que surgiu depois deve aparecer como consequência e não como causa.

Entre estas perspectivas não é preciso rejeitar umas e escolher outras.
Até que haja mais informação, têm ambas a devida possibilidade teórica.
Simplesmente, há já algumas coisas que são mais credíveis que outras...

terça-feira, 10 de março de 2020

dos Comentários (60) é-vento 201

Em comentário ao último postal, IRF sinalizou um evento que decorreu em 18 de Outubro de 2019, dois meses antes de ser sinalizado o primeiro caso da epidemia na China:

Event 201 - A Global Pandemic Exercise

Este EVENT 201 foi organizado pela Universidade Johns Hopkins de Baltimore.
Qual foi o tema do colóquio?

A propagação letal de um corona-vírus na população mundial... algo que ocorreria 2 meses depois, na China (e não no Brasil, como foi suposto neste vídeo):

Portanto, para quem gosta de acreditar em coincidências, tratou-se de mais uma coincidência.
Haverá quem diga que este tipo de exercícios de antecipação é considerado há muito tempo, e que a preocupação com pandemias é permanente.
Mas, curiosamente, também acertou no vírus escolhido, um novo corona-vírus, e numa taxa de mortalidade, à volta dos 5%.
No entanto, nunca tal exercício tinha sido promovido, incluindo ainda o aspecto financeiro, a que se juntava a participação do World Economic Forum, e a fundação de Bill Gates, alguém que há muito mostrava preocupação pelo assunto, mais do que a sofrera com os vírus informáticos.

Convém referir que a Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, é a escola de saúde pública de referência mundial, com foco em epidemias. O nome de Michael Bloomberg aparece devido a doações próximas de 3 biliões de dólares. Enfim, um pouco mais do que o meio bilião investido em vão na sua participação na corrida presidencial, iniciada surpreendentemente em Novembro de 2019 para terminar na Super-Tuesday de 3 de Março, com a derrota nas primárias democratas.

É claro que estes exercícios de antecipação são louváveis, e nada há contra a sua realização, e o facto de estarem próximos da realidade, significa que sinalizavam um problema real.
Tudo isso é assim simples e natural, mas não se deve esquecer que a coincidência existe.

Um artigo na revista Axios ilustra o episódio, e a sua coincidência.

Porquê "Evento 201"?
Bom, segundo os próprios, porque haveria uma média de 200 eventos epidémicos anualmente, com os quais conseguimos conviver... o problema estaria num novo evento, então chamado Evento 201.

Convém aqui lembrar um Evento 2001, não propriamente aquele que ceifou três mil vidas em Nova Iorque, mas antes disso... houve uma simulação de "guerra de germes" chamada Dark Winter.
Essa simulação foi feita em 15 de Maio de 2001, considerando uma guerra biológica levada a cabo por uma organização, então meio desconhecida, chamada Al Qaeda.
Segundo esse estudo, os terroristas atingiriam milhões de mortos antes da vacina ser encontrada.

Além disso, o foco não será o número 201, mas sim o 21.
Reforçando o que foi dito no postal anterior, a mudança para o Séc. XXI, ainda que não seja um invento, transforma-se no e-vento que sopra.

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Nota adicional (11.03.2020)
Incluo aqui parte do comentário e links trazidos por IRF, a este propósito:

O surto do corona começou em Wuhan, província de Hubei, China.
Curiosamente, Wuhan era o local onde estava situado o único laboratório Chinês de segurança máxima (BSL-4?) que lidava exactamente com agentes biológicos, armas biológicas, e estirpes de corona vírus, bem como a mutação e engenharia genética de vírus deste tipo.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Cara ou corona?

Estando instalado um certo "estado de sítio" devido ao corona-vírus, convém lembrar algumas coisas.

1) Que este caso lembra uma das situações catastróficas previstas há muito. 
Enquanto bicho de tamanho médio, o Homem acaba por ser vítima impotente de fenómenos muito grandes ou muito pequenos. De entre os fenómenos apocalípticos, a possibilidade de colisão com um grande corpo celeste, foi um medo alimentado, e a possibilidade de propagação descontrolada de uma doença letal, vinda da mais pequena bactéria ou vírus, era outro dos medos clássicos.

2) Medo clássico, porque existe desde o tempo em que a Peste Negra dizimou milhões de almas na Europa (ou na Eurásia). Questiona-se, aliás, se uma predisposição para o Renascimento não terá resultado de uma Europa em crise de valores cristãos, após as mortes ocorridas entre 1347-51, altura em que ocorreu o pico do número de mortes.

Excerto do quadro de Pieter Bruegel (~ 1562) "o triunfo da morte".

A questão principal é que nas últimas décadas ocorreu uma mudança de comportamento social, que até aqui não tinha encontrado pretexto para se afirmar, para se implantar.
Com efeito, com a rápida implantação da internet e do telemóvel como meios cruciais de informação e de actividade social, não seria difícil de antever que a sociedade se foi preparando para um caso de isolamento, ao ponto de este não ser visto como uma pena temível.

Uma boa parte das interacções ocorre através dessas "redes sociais", chegando ao ponto de termos pessoas reunidas prescindindo de comunicar entre si, no espaço físico, porque estão mais interessadas na comunicação no espaço virtual. Uma boa parte dos trabalhos terciários pode ser feita isoladamente num ambiente ligado à internet, já que existe ainda esse acesso a lojas virtuais. Mas para além de supermercados ou livrarias virtuais, a própria alimentação, que já conhecia a pizza motorizada, recentemente alargou-se o espectro, com a chamada "uber eats".

Fez-se assim um mundo que estava praticamente pronto para um certo isolamento, não ao ponto de "surrogates", mas já com algum grau de independência da necessidade de deslocamento.
Seria possível passar da sociedade do Séc. XX, que inventou o turismo de massas, e apresentou o transporte pessoal como forma comum de deslocamento, para uma nova sociedade em que o deslocamento é desnecessário? 

Na prática, no final deste processo viral, ficará claro que as escolas podem ser substituídas por ensino à distância, que uma parte significativa da população poderá trabalhar em casa, que não é preciso que as pessoas se desloquem a centros comerciais, e que as compras podem ser trazidas até si, etc...

O que ficará claro é que numa situação de pandemia ainda mais perigosa, que se poderá colocar, seria melhor ter uma organização social mais localizada e menos alargada. O perigo de propagação não seria apenas de um qualquer vírus, mas tanto mais de uma qualquer ideia. Cidadãos mais circunscritos e limitados no seu raio de acção, são cidadãos cujas acções, mesmo descontroladas, podem ser contidas e tratadas no "foco da doença".

Ou seja, o que esta pandemia de gripe deixará claro é que o contacto cara a cara passará a acto perigoso face à mais saudável interacção no verso e reverso, coroa a coroa, com a distância assegurada pelos filtros sanitários adequados.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Sal-Gema & Ossa

Perto de Loulé há uma mina de sal-gema agora aberta à visita turística:


A mina com 50 anos, atinge os 230 metros de profundidade, está abaixo do nível do mar, sendo ainda mais estranho ter 45 Km de extensão de túneis. Normalmente não são associadas coisas desta dimensão a Portugal, e muito menos com o intuito de ir buscar sal-gema. Pela minha parte, conhecia bem o caso de Rio Maior, mas desconhecia este jazigo em Loulé.

De entre as fotografias agora reveladas, apareceu a seguinte escultura de mãe e filho:
Escultura em alto-relevo num corredor da mina (ANIET)

Terá que pensar-se que ao longo destes 50 anos algum mineiro, mais artístico, terá acabado por sinalizar na rocha escavada uma imagem a que depois terá dado a forma vista. Não é uma forma muito perfeita, nem imperfeita, mas não seria o resultado expectável numa mina de sal-gema.
Não sei mais sobre o assunto, simplesmente achei curioso.

Achei curioso, porque quando se exploram minas, poderá acontecer sempre aparecer um desenho ou uma escultura que já lá estava, mas que por força do contexto, foi certamente divertimento posterior.
Veja-se por exemplo, o caso de Maastricht, de que já falámos.
Neste caso, nem sequer há direito a dúvidas, porque todos os túneis serão artificiais e recentes, mas o mesmo já não se poderá dizer de situações mais ambíguas...

Vénus e Cúpido foram sempre imagens emblemáticas da antiga mitologia nacional, e como não parece que as figuras tenham sido cobertas com roupa puritana, será de excluir a vertente católica do menino e madona.

Lembra-me este assunto a descrição na Crónica dos Eremitas da Serra de Ossa, onde Frei Henrique de Santo António fala da grande quantidade de cavernas desse local, que estaria na origem dos anacoretas primordiais.
(...) refugiando-se como em castelo seguro, e fortaleza inexpugnável, nas brenhas, e grutas da Serra de Ossa; cuja suposição é verdadeira, e igualmente recebida dos Historiadores, e muito conforme às notícias dos nossos cartórios e às verdades das nossas tradições.
Refere ainda a possibilidade de aí se ter refugiado Viriato...
(...) onde não há monte, nem serra, em que se possa esconder, nem fortificar uma companhia de soldados, quanto mais um tão numeroso exército, como trazia Viriato, com que pelejou, e venceu todo o poder dos Romanos, que governava Plaucio, sendo a Serra de Ossa em tudo acomodada ao intento, e onde se divisam ainda hoje os alojamentos, que fez Viriato no monte de S. Gens, e aparecem os vestígios, que são tão grandes, e capazes, que dentro deles se podia alojar um exército de mais de quarenta mil homens, com toda a sua bagagem
Mas, talvez mais característico, seja o relato da destruição arqueológica:
(...) e fraldas desta serra, cujos sítios conservam ainda hoje os nomes das ditas Antas. Dentro da cerca do nosso Convento da Serra esteve um, que eu ainda alcancei, tão grande, que o Reitor, que era então do dito convento, mandou contra o meu voto derrubar para se aproveitar muita da pedra, que tinha, ficando aí de presente a cova, donde se tiraram as pedras, e juntamente sinal das cinzas, e carvões de fogo, com que se faziam os sacrifícios; e da outra, que estava fora da cerca, persevera uma porta da mesma cerca, que se chama a Porta da Anta.
E finalmente, ligando à questão de Vénus e Cupido:
De mais disto sabemos, que à vista do templo de Vénus estava num cerro alto fundado o templo de Cupido tão visitado, e venerado dos antigos Lusitanos, com o nome de Endovélico, que hoje se lê em algumas pedras daquele tempo; e consta, que  este templo de Cupido, que fundou Maarbal pelos anos 340 antes da vinda de Cristo, esteve no outeiro da Vila de Terena, que fica junto da Serra de Ossa, e à vista da Serra de S. Gens. O ídolo era de prata, tinha os olhos cerrados, um coração na boca e asas nos pés. (...) 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Navios encalhados em desertos

Uma situação razoavelmente estranha será encontrar navios encalhados em terra, longe do mar.
Imagem emblemática dessa temática, será a do filme "Encontros imediatos do 3º grau", de Spielberg (1977), em que o Cotopaxi (navio perdido em 1925 no Triângulo das Bermudas) seria encontrado no meio do Deserto de Gobi (China/Mongólia).

Com efeito, há poucos dias, surgiu a notícia de que o Cotopaxi teria sido agora encontrado no fundo do mar, na área do Triângulo das Bermudas:


Bom Jesus 1533
Vem este assunto também na sequência de ter sido encontrada a carga do navio Bom Jesus em 2016, na Namíbia, e da controvérsia (sinalizada nos comentários de J. Ribeiro e J. M. Oliveira) do governo português, de António Costa, ter prescindido por completo desse tesouro, entregando tudo à Namíbia.
Tesouro do navio Bom Jesus incluía moedas de ouro no valor de 13 milhões de dólares,
foi doado pelo governo português à Namíbia (FOX-News).
(Moeda de Fernando e Isabel, reis católicos) 

O navio está declarado no livro de Lisuarte de Abreu, no ano 1533, como tendo sido capitaneado por D. Francisco de Noronha, e ter-se-ia perdido na viagem da Armada para a Índia.
Livro de Lisuarte de Abreu - em baixo "dom fcº denoronha q se perdeo"

Conforme se pode ler no artigo da Fox-News ("500 year-old shipwreck loaded with gold found in Namibian desert"), apesar do navio pertencer a Portugal, o governo socialista prescindiu de todos os direitos:
And in this case the ship belonged to the King of Portugal, making it a ship of state – with the ship and its entire contents belonging to Portugal.  The Portuguese government, however, very generously waived that right, allowing Namibia to keep the lot.”
Para além do desprezo e facilidade com que o governo socialista prescinde de toda a recordação do navio português ali perdido, como se houvesse peçonha no nosso passado, há mais curiosidades.

Uma delas é que o navio foi encontrado por mineiros da De Beers, a conhecida companhia holandesa de diamantes que explorava a zona de Oranjemunde. Ou seja, este navio foi já encontrado enterrado no deserto, ainda que perto da costa, onde terá encalhado. 
Esta situação faz ainda lembrar o caso das Âncoras Suiças, aqui abordado.

Eduard Bohlen
Mas podemos ainda encontrar na Namíbia um outro caso, de um navio mais recente, que avançou  400 metros para o interior. Trata-se do navio Eduard Bohlen, que naufragou em 1909 e ao fim de cem anos, houve um movimento de terras que o teria puxado para o interior do continente africano.
O navio Eduard Bohlen (1909) no deserto da Namíbia.

USS Wateree, Marjorie Glen
Um caso mais invulgar é o do navio USS Wateree, de 1863, que estava ao largo do Peru, perto da cidade de Arica, actualmente no Chile, quando um maremoto o terá levado também 410 metros para o interior do deserto chileno (antes peruano).
 
Resto do USS Wateree no deserto chileno (à esquerda). Resto do Marjorie Glen (à direita).

Ainda na América do Sul, um outro caso conhecido é o Marjorie Glen, que em 1911 encalhou na Argentina, em Rio Gallegos. Avançou em terra, e actualmente está afastado alguns metros da costa:

Mar Aral
Uma situação invulgar aconteceu com o progressivo desaparecimento do Mar de Aral. Os barcos e navios que aí se encontravam passaram a formar um cemitério de navios

Desaparecimento do Mar de Aral - cemitério de navios.

Este caso, poderia ainda ter ocorrido noutros lagos, rios, ou extensões de terra que foram assoreadas, e será um dos mais frequentes de "navios em desertos"...

Colorado
Há ainda uma história, que ficou como lenda, acerca de um possível navio no deserto do Colorado, conforme se encontra registado na wikipedia: Lost ship in the desert. Ver também DesertUSA, onde se pode ler
Implausible as it sounds, the wreck of an ocean-going ship 100 miles or more inland from either the Pacific or the Gulf of California, the story has persisted for centuries in reports from Indian peoples, Spanish explorers, prospectors, migrants and treasure hunters.
Haverá mais casos, mais ou menos vulgares, mais ou menos explicáveis, em que navios aparecem fora do seu habitat natural, por exemplo, arruinados no meio de um deserto.
Se estes casos aconteceram num passado recente, também seria natural que tais vestígios fossem encontrados em passado mais remoto. No entanto foi informação que se perdeu...

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Leão da Estrela, Lagarto da Penha.

Por mero acaso, encontrei um certo "Leão da Estrela", bicho exposto enjaulado em 1873, que era descrito como estando a fazer furor nas atenções dos lisboetas.
Achei interessante a coincidência do nome com o nome do filme de 1947 de Arthur Duarte, protagonizado por António Silva, onde aí a referência ao leão se tomava por ser adepto do Sporting.
Passados 75 anos entre uma coisa e outra, não me parece ser acidental a escolha do nome.

A referência e ilustração está num Diário Ilustrado de 1873
onde é aí dito que este leão exposto já fazia esquecer o Lagarto da Penha.
Não deixa de ser curioso juntarem-se aqui os dois animais associados ao mesmo clube, e também é interessante o redactor se queixar : "N'este nosso tempo de estatísticas a propósito de seja o que for...", talvez sem imaginar que esse tempo de "estatísticas avulsas" estava a começar, para durar mais 150 anos, com fôlego para outros tantos.

O leão da Estrela, era assim um bicho em exposição, que nem seria talvez o primeiro. Há um Largo do Leão, em Arroios, que está referenciado assim desde 1817 (o que obsta a teoria de Castilho que associava o nome a uma cervejaria posterior). A razão para muitos deste topónimos perdeu-se, ou não quis ser encontrada...

Quanto ao Lagarto da Penha de França, há agora até um painel feito pela autarquia a lembrá-lo,
mas a lenda vai uns séculos mais atrás, aparentemente a um voto de um sobrevivente de Alcácer Quibir, António Simões, santeiro que aí morava, e atribui a sua salvação a uma Nª Srª da Penha, tomando a iniciativa de aí construir ícone e lugar de culto. Uma ligação a França, no contexto de Alcácer Quibir, será estranha ou nem por isso?
Archivo Pittoresco (Vol.6, 1863) - Igreja e convento de Nª Srª da Penha de França

Interessa, que a certa altura começou a falar-se do Lagarto da Penha, que dizem ter sido um jacaré esverdeado, de que se guardara o corpo, que se perdeu depois do Terramoto de 1755.

O escritor Francisco Xavier de Oliveira, mais conhecido como Cavaleiro de Oliveira, no seu livro impresso em Amesterdão em 1741, «Cartas familiares, historicas, politicas e criticas. Discursos sérios e jocosos.», dedicados à condessa do Vimioso, dá conta desse Lagarto da Penha. 

Primeiro, na carta 10, de Março de 1736, quando refere: 
"Informar da Cidade de Vienna a quem vive nella, he o mesmo que 
mostrar o Lagarto da Penha a quem ja o vio."

Porém mais estranha é a sua carta 49, que só se pode inserir como "Discurso jocoso", ainda que ele argumente da sua seriedade, ao mesmo tempo que dá conta em Lisboa, de uma família de Gigantes, e quatro animais gigantes, sendo um deles o Lagarto da Penha de França:

Carta XLIX

À Senhora Condeça de Brille, a respeito dos Gigantes.
Exaqui huma materia sobre a qual se podem faser grandes discursos, por assentarem em huma qualidade de gente que pode com tudo.
Perguntais-me se houve no mundo Gigantes?
Digo-vos que não somente os houve porem que ainda os ha.
Na Cidade de Lisboa, que he a minha Patria como sabeis, estabeleceo-se huma familia delles que consta de marido, molher, e filho.
Não sey verdadeyramente da onde são naturaes, porem quanto a mim forão todos tres formados naquella Cidade, e ignorando os annos em que nascèrão, e outras circunstancias que deyxo à parte, he certo que os conheci naquella Corte desde que me entendo, e que os amey tanto emquanto me entendi mal, que nao deyxey de os ver nas poucas occasioens que aparecião em publico, que era huma vez cada anno em dia certo, rasão porque he constante esta verdade a muitos Estrangeyros, havendo aqui dous Alemaens que ja me me disserão que os virão, e tambem me parece que disserão que lhe tinhão fallado do que nao duvidey, porque se os Gigantes ainda que Portugueses fallao alguma Língoa hade ser precisamente a Tudesca.
Quando sahi de Lisboa em 1734, havia ja alguns annos que os não tinha visto, porem sabia que se conservavão, e creyo que ainda hoje existem, nao sahindo das suas casas por se acharem muito velhos, e muito acabados. Cada hum delles teria pouco mais ou menos vinte e quatro pes de comprimento, e lembra-me que erão muito bem parecidos, principalmente a Senhora Gigante, a qual deve tanto à memoria da minha meninice que a conservo retratada na minha lembrança presentemente. Cada hum delles no dia em que havião de passear por certas ruas da Corte que lhe estavao determinadas, engolia hum homem pella parte inferior, e sem este sustento nao era possivel que dessem hum so passo. A Gigante sem embargo de ser muito mais delicada do que os dous Gigantes, metia em si hum homem dos mais robustos, com a mesma facilidade com que nos metemos na nossa boca huma aseytona de Italia, ou huma passa de Alicante.
Crede o que vos digo, porque segurando-vos que sou testemunha de vista de todas estas cousas, bem sabeis que não sou costumado a mentir, nem a enganar pessoa alguma, e muito menos as da vossa concideração.
Na especie de animaes tambem ha Gigantes em Portugal, e entre outros que não nomeyo por serem muy conhecidos, vos fallarey de quatro que vi muitas veses em diversas occasioens na mesma Corte de Lísboa, que he onde existem os mayores.
O primeyro chama-se Lagarto; mora na Penha de França, e por querer huma vez comer hum homem o prenderão com huma cadeya de ferro ao lugar em que se acha. Conserva-se pendurado ha muitos annos sem comer, nem beber, nem andar, sendo de todos os Gigantes o que he visto dos Nacionaes, e dos Estrangeyros em todos os dias se elles em todos os dias o querem ver. Eu o vi muitos annos em todos os Sabbados, e juro-vos que foi diligencia a que não sabia faltar se algum impedimento muy legitimo me não embaraçava.
O segundo chama-se Drago, porem o vulgo para lhe agigantar tambem o nome lho acrescenta chamando-lhe Adrago. Esquece-me onde mora, porem he certo que assistio sempre na Corte, onde passeava em publico huma vez no anno no mez de Mayo, ou de Junho, e sahindo logo depois a tomar os ares duas legoas fora de Lisboa se recolhia outra vez a sua casa. Em cada huma destas occasioens que sahia, metia no corpo dez ou dose homens, condição sem a qual era impossivel que se arrastra-se. Cuidareis à vista do que vos digo que fomos Povos barbaros, e tyranos, que obrigamos por força a que sejão estes homens engolidos pellos Gigantes. Não Senhora, não ha tal.
Haveis de saber que estes taes homens não são violentados ao suplicio, porem que elles mesmos se oferecem por seu gosto tendo-se por ditosos os que sao preferidos para o sofrer, sendo certo que se os ditos Gigantes necessitassem de mayor sustento que nunca em Lisboa faltarião homens da qualidade, e do genio de lho darem à custa, e a pesar dos seus proprios corpos. Direis que fomos injustos no consentimento que damos a este desatino. Digo-vos que não, porque a ley que o permite he muito justa, dispondo este uso em prova do grande animo, e valor dos homens inclinados a semelhantes acçoens', com o exemplo das quaes, e de outras semelhantes que vos não refiro, se multiplição em tal forma os homens desta inclinação, que ha muitas Praças em Lisboa cheyas delles, expostos com toda a resolução para sustentarem qualquer Gigante que apareça, e que se queyra servir do seu prestimo, socedendo ja algumas veses que jogarão as pancadas huns com outros querendo cada hum delles alcançar o primeyro lugar.
Sey que tudo isto vos hade parecer impossivel, porem empenho a minha palavra, e digo-vos que he verdade. Este dito Gigante tinha tantas varas de comprido, e outras tantas de largo, e essa porque não quero mentir, era pouco mais ou menos a medida da sua notavel grandesa. Humas veses se lhe descobrião vinte pes, outras veses menos, e outras veses mais: com todos elles andava com muita pausa, e com muito vagar a respeito da sua corpulencia, que o obrigava a descançar diversas veses no pequeno passeyo que o obrigavão a faser.
Ouvi diser que este Gigante se fisera em pedaços algumas veses, e que se tornara a formar, porem he cousa que nunca vi, e se a creyo he porque assim me foi dita por muixtos homens verdadeyros, e dignos de se que presenciarão o caso. Segura-se-me agora que se desfez de todo, e sem remedio o dito Gigante, porem espero que ainda quando isso seja certo, dure a sua memoria em muitos annos, da mesma forma que se conservou o seu corpo em alguns Seculos.
O terceyro Gigante he do genero femenino, e chama-se Serpe. Não sey que parentesco tinha com os Alfayates, ou com os Çapateyros, porem sey que elles cuidavão do seu trato dando-lhe os vestidos, e os çapatos com que havia de aparecer nas funções publicas, que erão as mesmas que fasia o Drago. Morava a dita Serpe debayxo de hum Arco que fica pouco afima da Padaria, e senão morava alli dalli he que sahia, sendo eu testemunha de a ver compor naquelle lugar alguns annos, cousa que se executava com muita descompostura, vestindo-se, e despindo-se no meyo da rua à vista de todo o mundo com grande assistencia de rapases, e tambem de alguns homens a que chamamos barbados. Como a vi algumas veses nua, posso-vos diser que não tinha mais do que os ossos, pois que sobre elles nem pelle tinha. Ainda que magra era da mesma grandesa do Drago, o qual em materia de gordura lhe não excedia, porque alguns rapases do meu conhecimento que o virão despido me segurarão que parecia huma figura de pãos secos armados no ar.
A Serpe para poder andar engolia o mesmo numero de homens, marchava tambem sobre vinte, ou vinte e quatro pes, porem huma vez que estava vestida era de si mesmo muy composta, e raramente os mostrava sendo muy grave no seu passeyo.
Esta Gigante era bastantemente fermosa, porem quando se ria, a modo das molheres que querem mostrár os bons dentes que tem, descompunha tanto a boca que se desfeava inteyramente, e fasia medo a todo o mundo. Não sey se vive, po emquanto à sua memoria ha de ser tão duravel como a do Drago.
Tenho minhas lembranças de ouvir diser, que esses dous Gigantes produsirão humas certas filhas chamadas Tourinhas, de que tenho pouca lembrança, e ainda que as vi algumas veses como me parecerão mais monstros do que Gigantes, julgo que não tem aqui lugar a sua noticia; e como não estou certo em que as ditas Tourinhas fossem verdadeyramente filhas da Serpe, fallo nesta materia em duvida sem intenção de levantar testemunhos, nem de perder o credito a quem quer que seja, e muito menos a Serpe a quem todos fazião muitas mesuras, e a quem eu sempre tive tanto respeito como a todas as mais creaturas do genero femenino, importando-me pouco a curiosidade de que fação ou não fação filhos, sabendo que essa he a sua obrigação, e sabendo que neste mundo cada hum he para aquillo para que nasceo.
O quarto Gigante animal Portuguez, he hum Bogio marítimo, que nasceo, que se conserva, e que vivira ainda muitos annos entre as agoas que o Rio Tejo mistura com os do Mar a que se chama largo, e que achey por experiencia propria que era igualmente comprido. Chama-se o Bogio da Barra. De todos os Gigantes de que tenho fallado este he o mayor, o mais bem posto e o mais bem formado.
Estima-se tanto que se lhe da sempre por Governador huma pessoa de grande destinção. He Bichinho a que mil homens não farão o papo quando elle os comesse, porem elle em lugar de se sustentar com homens os sustenta a elles, e os defende, alimentando-se somente de polvora, e de ballas de todo o calibre, que sendo hum gasto muito grande se faz por conta da Fasenda Real. Tem tido diversas pelejas com outra qualidade de Gigantes marinhos que intentarão entrar no seu dominio, mas sem efeito, tendo ele mostrado em todas as occasoens que he o mais forte.
Defende-se às pedradas, e às pelotadas, e tendo muitas bocas que continuamente estão cheyas, em se offerecendo inimigo à vista começa a vomitar por todas ellas fogo, e ballas em tanta quantidade, com tanto ruido, e com tanto estrago dos contrarios, que parece sem mais, nem menos que descarrega ao mesmo tempo immensidade de peças de artelharia. Huma vez que elle estava neste exercicio perguntou hum Estrangeyro em Lisboa, de que procedia o grande ruido que se ouvia? Disserão-lhe que era o Bogio que estava soprando.
Sopra com o bichinho, respondeo o Estrangeyro, e tem este animal alguma Bogia com quem faça criação, perguntou ao mesmo tempo?
Disendo-se-lhe que não, porque he a verdade, exclamou assim o Estrangeiro:
Oh pena! Grande bem seria para este Reyno que se descobrisse huma Bogia com quem este animal Gigante podesse faser propagação, porque he certo que com ela faria o Reyno de Portugal respeito a todos os do Mundo.
Todos os Navios que sahem, e que entrão no Porto de Lisboa lhe fasem grandes cortesias, e reverencias, e se algum intenta passar para fora, ou para dentro sem sua vontade, e sem sua licença pode-se contar por perdido, porque o Bogio em hum abrir, e fechar de olhos o pode derrotar inteyraménte, e mesmo meter no fundo se quiser. Prouvera a Deos que ele destroçasse aquelle em que eu sahi de Lisboa, e que isso me obrigasse a ficar para sempre na querida Patria, que sustentando tantos, e taes Gigantes he sempre mais bella terra do que as outras em que tenho encontrado com tantos, e com taes Demonios, semelhantes àquelles de que vos tenho feito bastantes queyxas:
À vista do referido parece-me que podeis mostrar que ha Gigantes, aos mesmos que duvidão de que os houvesse, e supondo que tenho satisfeito assim à ordem que me mandastes, acabo a Carta com pressa para hir satisfaser promptamente outra ordem, que agora recebi para, me achar pelas tres horas em Gupemdorf. Ja me entendeis, basta, e a Deos que vos guarde por muitos annos.
Vosso, e nosso.
Vienna de Austria, 30 de Novembro de 1736.
F. X. D. O.


A forma de entender esta carta que foi publicada em Amesterdão, apenas parece ser a de um sentido figurado, jocoso, onde talvez tenha visto como "gigantes" as companhias de soldados, nomeadamente as que protegiam o Forte do Bugio.
Mais tarde, e a propósito do Terramoto de 1755, publicou o 
Discours pathétique au sujet des calamités présentes, arrivées en Portugal
e o Cavaleiro de Oliveira viu-se perseguido pela inquisição e nunca mais regressou a Portugal, tendo sido punido em imagem.

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Nota de J. Ribeiro (03.02.2020):
Relativamente à semelhança deste registo do "Lagarto da Penha", João Ribeiro fez referência a um de outros casos que aparecem documentados nas lendas populares sob a designação de "Sardão":


Lembrando a ligação ao antigo culto à serpente destas paragens sob o nome de Ofiússa:



segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A questão dos qu'estão (3)

Qual o nosso papel nesta peça?
... ou dito de outra forma, qual é o sentido da vida?

Numa perspectiva hedonista, que tem sido dominante no último século, o objectivo humano será alcançar uma certa "felicidade", mal definida. Como assim visa o auto-prazer, trata-se quase de uma motivação erótica, aplicada ao indivíduo, ou menos egocentricamente, à humanidade. 
A perspectiva hedonista, que se associa a um materialismo, é quase um desejo orgásmico, semelhante ao das criaturas que perecem imediatamente depois de se reproduzirem (p.ex. o polvo)... no entanto, sem estar ligado ao aspecto de uma reprodução sem limites, a perspectiva hedonista só encontra sentido na ausência de sentido da existência, um certo nihilismo.

Numa perspectiva mais religiosa, o papel humano está intrincadamente ligado à divindade, e no caso católico, à salvação no julgamento divino, conduzindo a um paraíso, em vez de purgatório, ou pior um irremediável inferno. Escondido, está o mesmo objectivo final, de chegar a uma felicidade eterna, como se fosse um regresso à infância, com um Pai protector a zelar pela brincadeira no recreio (aliás praticamente só é garantida entrada directa no paraíso a inocentes criancinhas).
 

Ora, acontece que é nulo o interesse universal em definir seres felizes, ou satisfeitos consigo mesmo.

Aqui, voltamos ao princípio antrópico. Há necessidade lógica de um universo formado conter a explicação da sua existência em si mesmo... porque não há mais parte nenhuma onde ela possa estar.

Para haver existência é preciso "olhos" que vejam o existente. 
Mas aqui é preciso perceber o que são estes "olhos"... não se trata de fazer uma reprodução do já existente. Aliás para esse efeito, desde logo a natureza teve sempre réplicas perfeitas, começando pelo processo de mitose, na divisão celular. 
Quando o que vê é igual ao que é visto, ambos vêem o mesmo, ou seja, nada... 
Os "olhos" de que aqui falamos trazem uma interpretação inteligente.
Só quando conseguimos classificar o que vemos a alguma forma abstracta, quanto mais não seja pelo número, só aí lhe estamos a dar existência. 
Porquê?, porque noções abstractas, como os números, são eternas, intemporais e universais, quando identificamos algo a essa noção abstracta será como dar-lhe uma "benção eterna", neste caso a benção da existência, que também é representada pelo número 1, na sua individualidade.

Há imensas coisas que não conseguimos individualizar... esse tem sido um progresso constante de conhecimento. Individualizar não é sempre dissecar no específico, é muito mais vezes agrupar numa categoria, tipo ou conjunto. Só quando conseguimos reconhecer uma unidade em coisas distintas é que lhe conseguimos dar existência, por vezes através de uma palavra simplificadora. Por exemplo, as ondas de rádio terão sido algo completamente imperceptível ao olhar humano, que estava apenas sintonizado para captar a luz visível. Quando se conseguiu juntar todas as ondas electromagnéticas numa única teoria da luz, de Maxwell, os olhos foram mais longe, e pouco depois entrámos nesta era de telecomunicações.

Assim, percebemos que há um interesse universal subjacente à nossa existência.
No entanto, para granjearmos existência a outrém, precisamos de assegurar a nossa existência, e só foi conseguido quando o primeiro hominídeo reflectiu sobre si mesmo. Quando? Não sei, mas aparentemente antes do "conhece-te a ti mesmo" ser afixado no Templo de Delfos.

Para vermos que não estamos sozinhos nesta matéria, basta reparar que procurar a verdade pode ser tortuoso, mas sabê-la, ou pelo menos encontrar um nexo nas coisas, é recompensador e satisfatório.
Haverá quem procure afastar-se da realidade, com ou sem alucinogénios, mas isso traz um preço pesado associado. As situações absurdas podem ser trágicas, mas é também inerente aos humanos rirem-se do absurdo... não tanto por ocorrer, mas por se darem conta da impossibilidade, ou da improbabilidade, associada.

Acresce que, ainda que a sociedade reprima o humor negro, ou de certa forma uma capacidade de transformar dor em prazer, coisas vistas como tendências sado-masoquistas, há um capacidade de entendimento que vai além do expectável na nossa natureza, que normalmente será vista como absurda... mas também é aquilo que nos permite contornar situações quase incontornáveis.

Assim, e respondendo à questão inicial, o nosso papel é o de espectadores, que inevitavelmente são chamados a ser actores, porque não há distinção entre o palco e a plateia. A dor é normalmente o que nos chama ao palco, mas em qualquer circunstância, é possível distanciarmo-nos o suficiente de nós mesmos, para vermos o nosso personagem apenas como mais um elemento da peça. Fazendo isso, despindo todo o pesado contexto envolvente, é mais fácil relativizar ou inverter as coisas.

No entanto, ainda que nos saibamos espectadores, temos um papel único... que é ser críticos da peça em cena. Convém não esquecer que o objectivo supremo, e inalcançável, será o entendimento dentro do próprio universo. Nesse aspecto somos elementos importantes para discernir esse nexo. Podemos dizer que a apreciação de cada um é igualmente importante, mas isso seria o mesmo do que considerar que a apreciação crítica de um trabalho complexo não depende do conhecimento que se tem sobre o assunto em causa. 

Podemos assim ver o papel da humanidade como testemunha da obra criadora do universo, visando uma melhor compreensão da sua perfeição. Ao fazê-lo, dominará cada vez melhor as suas peças, e poderá contornar limites antes impostos naturalmente, em direcção a um mundo mais moldado à sua medida, e menos à sua condição nata. Sempre que o fizer afastando-se da realidade envolvente, da visão de si mesmo e dos outros, estará trilhando um purgatório, cujo inferno é o absoluto isolamento. Digamos que temos direito ao recreio, se aprendermos a criá-lo e partilhá-lo em conjunto.
Por inevitabilidade, uma espécie inteligente está condenada a isso, só não é claro que seja a nossa.

domingo, 26 de janeiro de 2020

dos Comentários (59) - Tradição e Tradução.

O principal deste postal será recuperar uma questão antiga sobre "outra inteligência", ou de que forma nos seria inteligível uma inteligência estranha (por exemplo, alienígena, ou extraterrestre).

Desde já, dois comentários que se inserem na tradição e património nacional:
  • José Manuel de Oliveira comenta o tesouro da nau Bom Jesus, com link para programa da RTP (2016). Trata-se de um tesouro que está em museu na Namíbia, e pelo qual o estado português manifestou pouco ou nenhum interesse. Inclui-se aí um astrolábio notável:
  • Amélia Saavedra menciona o romance de Fernando Campos, "A sala das perguntas", onde a propósito de uma ficção sobre Damião de Góis, atribui autoria do poema Adeste Fideles. 
  • Aqui convirá dizer que, como as primeiras pautas surgem numa notação musical antiga, não é de excluir que a composição pudesse ter origem mesmo no Séc. XVI.  Com efeito há um livro de 1780 (15 anos antes do hino ter sido tocado na embaixada de Portugal em Londres), em que Coghlan solicita subscrição para imprimir a música:
  • É neste tipo de pautas musicais, com origem em Guido de Arezzo, que foram escritas as músicas medievais, e análise de maior detalhe, na simbologia, permitiria até estabelecer uma data mais concreta para este tipo de partitura, que já estava ausente dos compositores europeus do Séc. XVIII (vejam-se as partituras de Bach, ou de Handel)
  • Segue-se então o texto de 2018, e que surge a propósito de outro comentário de José Manuel que se relaciona com o assunto da existência de inteligência ou entendimento diferente do humano. Na altura o texto ia com este título mas com o nº 36 "dos comentários".

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....................... 26 de Março de 2018 (draft) .......................

Numa conversa/discussão que decorreu há mais de um ano, e que o João Ribeiro encontrou de novo, deixei uma questão pendente:
- Poderá haver um tipo de inteligência diferente da nossa? 
Ou seja, a encontrarmos outra inteligência, com outra linguagem, haveria sempre uma tradução possível? 

Tinha pensado em fazer um postal sobre o assunto, mas acabei por me esquecer.
É uma boa altura de escrever mais qualquer coisa sobre isso.

Começo por remeter a uma questão de diferença entre duas palavras, mas transfiro o que tinha escrito sobre a sílaba "tra" para outro post, porque este não era aqui o propósito.

Tradução e Tradição
Começando com "tradução", mesmo do latim temos "trans"+"ducere" que significa "através" da "condução". Mas este sufixo "dução" refere-se mais a um "ducto", a um canal, estrada, ou passagem, por onde se conduzia. Neste caso, o ducto é o canal de comunicação, e numa tradução somos conduzidos por um canal que liga uma língua a outra.
No caso de "tradição", é remetido a "trans"+"dare", mas parece-me etimologia latina enviesada considerar o "dar", havendo "dictionem" que significa "dicção", que remete ao simples "dizer". Assim, tradição é uma passagem do que é dito, e a uma boa dicção vê-se sílaba a sílaba...

Há uma substancial diferença.
No caso da tradição é procurada uma passagem literal, muitas vezes procurando manter letra a letra, através dos tempos, e numa tradução é procurada uma passagem de ideias semelhantes, em línguas diferentes.

Os sons que ouvimos produzidos por outros animais, e que servem de comunicação entre si, são pouco significantes para nós. Ou seja, se foi possível comunicar com qualquer tribo humana, e por mais remotamente perdida que esta estivesse, foi possível encontrar tradutores para ser feita a passagem de ideias, no caso de animais essa tarefa ficou bastante mais complicada.
Com efeito, na maioria dos casos, o esforço para a tradução foi quase sempre feito no sentido dos outros aprenderem a nossa língua. Os indígenas nascidos com outra língua, aprendiam uma das línguas ocidentais, e serviam depois como tradutores.
Mas isso implica vontade e capacidade de aprender uma língua, algo que foi conseguido com os nativos face às línguas das potências colonizadoras, e só em casos raríssimos vemos qualquer vontade dos ocidentais em aprender uma língua tribal. Talvez a situação idealizada para entender linguagem de animais terá sido no romance de Tarzan, onde o pequeno fora criado pelos Mangani, uma espécie ficcionada, entre chimpanzés e gorilas.

A linguagem visa o entendimento... (... e não o desentendimento! )
O propósito da linguagem é uma comunicação, onde o receptor entende a mensagem do emissor.
Se o emissor se arma ao pingarelho, e usa terminologia que sabe que o receptor não entende, não visa a comunicação, nem o entendimento com ele.

Caso não se definissem noções semelhantes, o entendimento seria impossível, cada um teria a sua linguagem própria, ou antes, nem sequer faria sentido haver linguagem, porque não haveria interessados na comunicação.

O desentendimento é o ponto de partida, porque cada um de nós vê um universo completamente diferente. Como se fosse preciso testar o caso, a natureza coloca-nos a situação de gémeos, em que o ponto de partida é o mesmo, mas que pequenas circunstâncias fazem desviar para uma evolução que pode ser completamente diferente.
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Não me recordo porque razão não continuei o texto, mas para além de eventual falta de tempo, ou de oportunidade, é também possível que o texto não tenha fluído com argumentos mais decisivos.

O ponto seguro, do qual parti, para afirmar que não haverá inteligência significativamente diferente da nossa, está na própria forma da linguagem, que está muito pouco, ou quase nada, relacionada com a nossa particularidade animal. É claro que "ouvir" se baseia nos ouvidos, "cheirar" no nariz, "ver" nos olhos, etc... mas até na forma como essas palavras são usadas figuradamente, nem sempre estão ligadas aos nossos sentidos.

Emerge o problema da origem da linguagem, ou melhor de palavras universais, que se aplicam a situações muito superiores, muito abstractas, e que só ligeiramente dizem respeito à nossa vida na Terra. Por isso, o mais natural, será considerar que havendo inteligências noutras paragens, essas linguagens teriam chegado pelo menos ao mesmo tipo de noções abstractas que temos, já que não há nenhuma razão para serem exclusividade nossa.
Por exemplo, a noção de quantidade é universal, mesmo em propriedades, de que não duvidamos. Sabemos que se vinte maçãs cabem numa caixa, então dezanove dessas maçãs também cabem lá.
Não é possível a nenhuma entidade violar este princípio.
Até podemos duvidar disso, quando as vinte maçãs estavam colocadas de forma optimal, e depois é difícil até colocar dezanove... No entanto, sabendo que a maior foi possível, não podemos duvidar que a mais pequena também seja. Ora, isto não está escrito na natureza em parte alguma. É uma propriedade matemática de que não duvidamos, que foi induzida pelas noções abstractas que adquirimos.

Por isso, podem existir noções que ainda não adquirimos, mas é certo que muitas das que adquirimos são universais, e partilhadas por todos os seres inteligentes. Quanto à linguagem de seres menos inteligentes, muito vai sendo feito no sentido de procurar o seu nexo, sendo exemplos interessantes os casos de biólogos que foram viver no meio de animais (por exemplo, gorilas), e começaram a perceber os comportamentos, e assim a linguagem dessa comunidade, não se esperando aí grandes noções abstractas, por insuficiência dos próprios.