A nau São Paulo teve um fim que está descrito no 1º volume da História Trágico-Marítima - encalhou junto a Sumatra. Neste caso temos um retrato bastante bom do que se terá passado em 1560-61.
Esta nau fazia parte da armada do capitão Jorge de Sousa, reunida a 25 de Abril de 1560, para a carreira da Índia, e que tinha a seguinte composição:
Esta enumeração é feita na sequência de uma troca de comentários com David Jorge e João Ribeiro, tendo ficado algo surpreendido de não encontrar online um simples registo burocrático dos navios e capitães que fizeram a Carreira da Índia. O historiador Luís de Albuquerque fez ainda em 1985 uma edição com os dados constantes na "Relação das Naus e Armadas da Índia", um manuscrito que está na British Library (Códice Add. 20902). Curiosamente numa relação deste livro, as naus que fizeram a viagem da Índia foram São Rafael (Vasco da Gama), São Gabriel (Paulo da Gama), São Miguel (Nicolau Coelho) e outra, de Gonçalo Nunes não estava nomeada, sendo o nome restante a "Bérrio". A troca do nome das naus pelos comandantes, pelo infortúnio da S. Rafael, ou o uso dos 3 arcanjos principais pode ser uma razão desta alteração na relação.
As ilustrações seguintes são retiradas do livro de Lisuarte de Abreu (com agradecimento a David Jorge).
Rui de Melo da Câmara tinha regressado da Índia na mesma nau S. Paulo em 1559, e partia de novo para a Índia. O relato constante na História Trágico-Marítima (páginas 351-479) será de um passageiro, Henrique Dias, criado do Prior do Crato, e é bastante pormenorizado. Não sei se seria "companheiro", no sentido de pertencer a alguma companhia (havia dois padres da Companhia de Jesus), mas todo o seu queixume, ao longo do texto, parece sinal de se revelar um "grande chato".
Ao fim de menos de uma semana avistavam as Canárias. O piloto António Dias seria novo na Carreira da Índia, e acabaram por se perder dos outros navios.
No entanto, o avanço inicial que levaram acabaram por o perder numa procura de ventos e tentativas de evitar os baixos de Santa Ana.
Acabaram por chegar ao Brasil a 27 de Agosto, onde ficaram 44 dias a "invernar", para regressarem ao caminho da Índia, procurando manter a orientação do paralelo 37ºS, onde estavam as ilhas Tristão da Cunha (no texto é dito estarem a 36ºS), e assim evitarem o paralelo 35ºS do Cabo da Boa Esperança. A ideia do piloto seria acertar com a longitude do Ceilão, ou do Cabo Camorim, vogando a Leste nos 37ºS e depois subir na direcção Sul-Norte. Falharam o plano, a derrota foi diferente da rota, e acabaram em Sumatra.
É essa desventura que nos interessa, porque essa ideia de cruzar o Índico, evitando a costa, seria usada depois pelos holandeses, como novidade sua, chamada Rota de Brouwer, onde navegavam directamente para Sumatra, ou acabavam por naufragar imprudentemente na Austrália, como aconteceu com o navio Batavia, encalhado nos Abrolhos australianos.
Manoel Pimentel, cosmógrafo-mor de D. João V, na sua "Arte de navegar" explica como fazer a viagem de África para Timor dessa forma, avisando que as correntes eram complicadas, e se não houvesse cuidado poderiam sucumbir aos baixos Trial (que vitimaram o navio Trial).
Outro ponto de referência nessa navegação eram justamente as ilhas Amsterdam e São Paulo.
Ora, procurando a ilha São Paulo, na página inglesa da wikipedia, refere-se a sua descoberta pela nau São Paulo (e com alguma pesquisa no histórico, entendi que a referência seria um livro de Fina d'Armada, historiadora entretanto falecida em 2014).
Com efeito, temos o relato de Henrique Dias que é bastante exaustivo e elucidativo:
- nau Castelo, comandada pelo capitão, dom Jorge de Sousa;
- nau Rainha, comandada por Jorge de Macedo;
- nau S. Vicente, comandada por Vasco Lourenço de Barbuda;
- nau S. Paulo, comandada por Rui de Melo da Câmara;
- galeão Drago, comandado por Lourenço de Carvalho;
- galeão Cedro, comandado por Francisco Figueira de Azevedo.
Esta enumeração é feita na sequência de uma troca de comentários com David Jorge e João Ribeiro, tendo ficado algo surpreendido de não encontrar online um simples registo burocrático dos navios e capitães que fizeram a Carreira da Índia. O historiador Luís de Albuquerque fez ainda em 1985 uma edição com os dados constantes na "Relação das Naus e Armadas da Índia", um manuscrito que está na British Library (Códice Add. 20902). Curiosamente numa relação deste livro, as naus que fizeram a viagem da Índia foram São Rafael (Vasco da Gama), São Gabriel (Paulo da Gama), São Miguel (Nicolau Coelho) e outra, de Gonçalo Nunes não estava nomeada, sendo o nome restante a "Bérrio". A troca do nome das naus pelos comandantes, pelo infortúnio da S. Rafael, ou o uso dos 3 arcanjos principais pode ser uma razão desta alteração na relação.
As ilustrações seguintes são retiradas do livro de Lisuarte de Abreu (com agradecimento a David Jorge).
A nau S. Paulo comandada por Rui de Melo da Câmara
Ao fim de menos de uma semana avistavam as Canárias. O piloto António Dias seria novo na Carreira da Índia, e acabaram por se perder dos outros navios.
No entanto, o avanço inicial que levaram acabaram por o perder numa procura de ventos e tentativas de evitar os baixos de Santa Ana.
Acabaram por chegar ao Brasil a 27 de Agosto, onde ficaram 44 dias a "invernar", para regressarem ao caminho da Índia, procurando manter a orientação do paralelo 37ºS, onde estavam as ilhas Tristão da Cunha (no texto é dito estarem a 36ºS), e assim evitarem o paralelo 35ºS do Cabo da Boa Esperança. A ideia do piloto seria acertar com a longitude do Ceilão, ou do Cabo Camorim, vogando a Leste nos 37ºS e depois subir na direcção Sul-Norte. Falharam o plano, a derrota foi diferente da rota, e acabaram em Sumatra.
Rota pretendida por António Dias, piloto da nau São Paulo (a negro),
e a sua derrota (a vermelho), ou seja a rota alterada, que os lançou em Sumatra.
É essa desventura que nos interessa, porque essa ideia de cruzar o Índico, evitando a costa, seria usada depois pelos holandeses, como novidade sua, chamada Rota de Brouwer, onde navegavam directamente para Sumatra, ou acabavam por naufragar imprudentemente na Austrália, como aconteceu com o navio Batavia, encalhado nos Abrolhos australianos.
Manoel Pimentel, cosmógrafo-mor de D. João V, na sua "Arte de navegar" explica como fazer a viagem de África para Timor dessa forma, avisando que as correntes eram complicadas, e se não houvesse cuidado poderiam sucumbir aos baixos Trial (que vitimaram o navio Trial).
Outro ponto de referência nessa navegação eram justamente as ilhas Amsterdam e São Paulo.
Ora, procurando a ilha São Paulo, na página inglesa da wikipedia, refere-se a sua descoberta pela nau São Paulo (e com alguma pesquisa no histórico, entendi que a referência seria um livro de Fina d'Armada, historiadora entretanto falecida em 2014).
A ilha de São Paulo (actualmente sob domínio francês) foi descoberta pela nau São Paulo em 15 de Dezembro de 1560.
Com efeito, temos o relato de Henrique Dias que é bastante exaustivo e elucidativo:
Um Domingo, quinze de Dezembro, havendo um mês, que virámos a terra do Cabo de Boa Esperança, no quarto da Alva, em querendo romper a manhã, que saiu aliás formosa e clara, vimos huma ilha três ou quatro léguas de nós por nossa proa; e saindo o Sol com seus dourados e resplandecentes raios, muito para alegrar todo o coração humano, e coisa mortal, a fomos descobrindo; seria ao parecer e juizo de todos de cinco ou seis léguas; foi por certo coisa muito para ver, e dar contentamento aos olhos, ver a Nau em popa com todas as velas, vento fresco, quanto ella podia sofrer, sobre a Ilha, coisa muito para pintar, como alguns fizeram; o dia claro, sereno, e mui quieto, toda a gente a bordo, dando todos muitas graças a Deus com muitas lágrimas; a Missa, e Pregação, que o Padre fez sobre isso, por descobrirmos terra nova, e Ilha nunca vista de outros olhos mortais, senão dos nossos, em mares tão remotos, e nunca navegados de nenhuma gente do mundo, metida tanto na grandeza do mar, e centro dele, que a mais vizinha terra firme, que tinhamos, era o Cabo do Comorim, de que estavamos Nordeste-Sudoeste mil e tantas léguas dele ao mar, tendo já diminuído boa parte do caminho, por que antes vinhamos.
Foi esta a mais formosa terra, e uma das bem postas Ilhas, que no mar se podem ver, mui alta, e bem assentada da banda do Sueste; vindo fazendo um valle abaixo e sombrio da banda do Nordeste, que parecia cheio de arvoredo, e ter nela parte bom surgidouro; no mais alto dela redonda e chã: por cima da banda do Sueste tinha um pico ou muro redondo muito formoso, e bem posto e talhado, que parecia um castelo feito à mão: está Norte e Sul com a Ilha dos Romeiros, e com a das Sete Irmãs, e Nornordeste e Susudoeste com toda a outra terra firme. Ficámos a barlavento da Ilha, e assim fomos correndo em redor; é toda limpa, sem nenhuma restinga, nem baixo; somente um ilhéu, que tem pegado com terra da banda do Sudeste; ao redor dela achámos muitos Lobos marinhos; e depois que a passámos, muitas camadas de umas ervas muito grandes, como as de Cama de Bretão, e de uma folha muito mais larga, que de uma mão travessa, e assim outras ervas, que traziam em si pegadas umas frutas redondas brancas, do tamanho de ameixas.
Estava esta Ilha em trinta e sete graus, e três quartos da banda do Sul; em esta altura foi posta, e arrumada em todas as cartas, e quarteirões, que na Nau iam. Sobre o pôr do nome houve muitos debates e diferenças, por quererem os Soldados, que se denominasse deles a Ilha dos Soldados, por um a ver primeiro que todos no quarto da Alva; e o Capitão querer que tivesse seu nome, dizendo ser assim costume às Ilhas novamente debaixo de suas Capitanias descobertas tomarem seus apelidos dos Capitães; o que o Piloto desejoso de glória e louvor não consentiu, nem teve conta com nada, senão depois de arrumada nas cartas em sua altura, lhe pôs seu nome, chamando-lhe a Ilha de António Dias; dizendo-lhe alguns, que bem entendiam, que aos baixos somente se davam, e tinham os nomes dos Pilotos; mas ele determinou brevemente esta questão de maneira, que com o mesmo vento, e governando ao rumo costumado deixámos à ré a Ilha, e a perdemos de vista antes do meio dia.
A descrição e a localização coincidem o suficiente - Henrique Dias dá 37º45'S, mas a ilha está a 38º43'S, simplesmente também já havia um grau de erro na latitude de Tristão da Cunha, e devemos ter em atenção que estas medições de latitude no mar estavam longe de ser muito exactas.
Haveriam mais algumas coisas a dizer sobre este texto, mas talvez o mais notável é a posição de ascenção do piloto face ao capitão, insistindo em nomear a ilha com o seu próprio nome, António Dias. Ou talvez não fosse este o António Dias que deveria figurar como descobridor da ilha, mas interessaria manter o nome. O nome que acabou por permanecer foi o da Nau, provavelmente porque alguns mapas passaram a referir esta ilha, sem saber dos detalhes contados pelo passageiro.
Nota-se ainda que o piloto insistiu no rumo que levaria à descoberta da ilha, provavelmente porque teria outro conhecimento dela. No entanto, estavam errados face à posição da ilha, que está no mesmo meridiano do Cabo Comorim, e por isso deveriam tomar então o rumo Sul-Norte e não o rumo Sudoeste-Nordeste, que veio a levá-los até Sumatra.
Poupando a leitura da má sorte, do naufrágio e dos sobreviventes, está também ilustrado o desfecho da Nau São Paulo no livro de Lisuarte de Abreu - "a nau São Paulo perdeu-se na ilha de Sumatra (Çamatra)", já em 1561.
A nau S. Paulo naufraga junto a Sumatra, "ficando muitos sobreviventes com fados diferentes".
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25/09/2018










































