quarta-feira, 10 de março de 2021

King Kongo (1)

Na literatura inglesa, rei do Congo é designado "King of Kongo". Estas eram as suas armas reais, onde se lê Rei de Mani Cõgo:


D. João II sempre se orgulhou de ter conseguido a conversão do primeiro rei do Congo à religião cristã, baptizado em 1491, e que adoptou o mesmo nome, João.
A partir daí todos os reis do Congo usaram nomes portugueses, até hoje.
Franceses, belgas, etc, usam por vezes um nome indígena, para evitarem ter que explicar que os reis do Congo prezavam a sua ligação a Portugal, e o nome português. Mesmo outras casas dinásticas que governaram o Congo usaram o símbolo das Quinas, como a Casa de Coulo (em francês, inglês Kwilu):
D. Álvaro I, rei do Congo em 1568.

De certa forma, os reis do Congo mantinham um controlo sobre os locais, e dominavam o comércio de escravos. Para evitarem que fossem os seus a serem usados como escravos, fariam guerra às tribos vizinhas, e vendiam os prisioneiros aos negreiros portugueses. 
O problema começou logo com D. João I do Congo, que assim que morreu D. João II, abandonou a religião católica. Os portugueses apostaram na sucessão, e quando este morreu em 1506, provocaram uma guerra cívil, apoiando D. Afonso I, o irmão que iria garantir que o Congo seria sempre católico, e até com embaixador em Roma.
O rei D. Afonso I protestou contra o comércio de escravos, que ia já além do seu controlo, e começava a haver transacção com pessoas livres, vendidas como escravos. Apesar de estar sujeito às "ordenações manuelinas", perante tal lista diz-se que ironizou, perguntando ao embaixador português, Rui de Aguiar:
  • Qual é então a punição por pôr um pé no chão?
Este reino do Congo foi varrido da memória nacional, mesmo que todos os seus reis continuassem a usar nomes portugueses. Os portugueses estavam de certa forma confortáveis com o controlo que Francisco de Almeida propusera na Índia - sempre que o governante começasse a ter ideias próprias, era mudado, por golpe palaciano ou efectiva disputa com irmãos mais obedientes.
Claro que Francisco de Almeida não imaginaria que 500 anos depois Portugal seria sujeito ao mesmo, quando cedesse a sua independência (por exemplo, a Bruxelas, ou ainda antes ao FMI).

Indo directamente ao assunto.
Com o crescimento do Império Alemão, Bismarck começou a fazer birra pelo facto de não estar a calhar nada à Alemanha como potência colonial, e promoveu a Conferência de Berlim (1884-85), que foi especialmente apadrinhada pelo rei Leopoldo II da Bélgica, visando ficar com o Congo, em nome de uma "sociedade internacional", de que por acaso era dono. Da rainha Victoria de Inglaterra, sua prima, Leopoldo recebeu o turista Stanley, muito promovido (ainda hoje), por ter andado a mapear uma África que os portugueses conheciam há séculos...

Nestas coisas, os facínoras movem-se sempre pelo "progresso da humanidade civilizada". 
Usaram ideais anti-racistas, quando queriam efectivamente dominar outras "raças", argumentando que existia escravatura em África, nos territórios islâmicos e sob controlo indígena... o facto desse comércio de escravatura existir umas décadas antes, promovido pelos próprios, não interessava nada.
Não usaram ideais libertadores, porque a contrario iam efectivamente colonizar, isso só seria usado depois da 2ª Guerra Mundial. 
Não usaram ideais de uma cândida verdura, porque iam efectivamente explorar a selva, e porque as agendas do clima, LGBT, etc... eram coisa para ficarem de molho, para cozinhar agora.

No Congo, que Leopoldo tanto queria, havia um problema:

King Kongo, D. Pedro V:

Sejamos claros, nesta conversa toda, que sabemos ser conversa para crianças numa loja de doces, havia um reino que era cristão, que tinha uma história muito mais antiga que a da Bélgica (que nem sequer tinha um século), que nunca se recusara a usar costumes europeus, que não apreciava o uso de escravos, e onde não era propriamente fácil usar de qualquer argumentação LGBT (liberdade, garantia, bonomia, e trabalho), para chegar lá e cortar como se não existisse...

O que é que isso interessou? Nada!
O rei do Congo teve que ficar sob o protectorado português de Angola, e o resto do território, foi para belgas e franceses. 

Portugal estava numa posição complicada, porque se via ameaçado por todos os lados, e só encontrou como aliado a Inglaterra, para evitar que o Congo entrasse por metade de Angola. Depois pagou isso, porque a Inglaterra achou que a ambição de Portugal ligar Angola a Moçambique, era demasiada.

O rio Congo seria um rio internacional, e através dele, Leopoldo teria acesso ao mar.
Leopoldo depois pode explicar os seus ideais progressistas ao reinar sobre o Congo, a escravatura passou a chamar-se trabalho (forçado), e outros requintes de civilização, ou seja, atrocidades, com estimativas que variam entre 1 e 15 milhões de mortos. Vivam os ideais progressistas!

Para percebermos como Portugal é que era uma nação racista, que espezinhava os negros, ao contrário das outras sofisticadas e progressistas nações europeias, veja-se esta pequena diferença, em que Rafael Bordalo Pinheiro apresenta a rainha do Congo, D. Amália, dando um sermão ao emissário que a iria representar na conferência:


Bordalo Pinheiro, que dedica uma série de números ao assunto, comenta:
  • A rainha do Congo, D. Amalia, que é incontestavelmente a pessoa mais interessada na questão que se está discutindo na conferencia de Berlm, acaba de investir de poderes de accessor pratico em aquela conferencia ao popular Zé Augusto que vae encarregado de pregar sobre a morte do Congo o mesmo sermão de lagrimas que costuma pregar por occasião do enterro do bacalhau.
Irei dedicar mais uns números a este assunto, porque isto tem pano para mangas...

Por isso, quando ouvimos a malta da nossa praça falar de "racismo" em Portugal, convém fazer notar que os únicos a invocar a questão racial são na esmagadora maioria auto-denominados "anti-racistas".
Também nenhum careca gosta de ser chamado "careca", e não é por isso que vou classificar comentários como carequistas, ou fazer a apologia do anti-carequismo
A maioria dos "anti-racistas" são brancos que querem chamar "pretos" a quem não pertencer ao seu clube de ignorantes. Ou seja, querem ser racistas à sua maneira. Como a maioria, estão-se totalmente a borrifar para os negros, mas usam esse pretexto para censurar pessoas e opiniões, como qualquer inquisidor medieval.
Na quase totalidade, desconhecem os contornos manipulatórios onde são usados como marionetas.
Já agora, quero ver aparecer o primeiro anti-racista militante, que mencionou, ou sequer conhecia os reis do Congo com nome português.
Haja paciência, porque falta paciência para tanta estupidez militante...

sábado, 6 de março de 2021

Fernão de Magalhães (5) a chegada a Guam

Em 6 de Março de 1521, há 500 anos, Magalhães avista Guam, e encontra de novo indígenas, o povo Chamorro, os primeiros após os patagões, e ter atravessado o Pacífico desde o fim de Novembro de 1520. Terá antes avistado ilhas a que chamou São Paulo e Tubarões, mas estas foram as primeiras habitadas que viu depois de sair do Estreito de Magalhães.

Magalhães chamou-lhe Ilha das Velas Latinas, porque os chamorros apareceram em barcos com velas latinas, mas o nome que passou foi ilha dos ladrões, devido à descrição contada por Pigaffeta, onde se notava que aos nativos lhes faltava a noção de propriedade individual.

Uma das peculiares construções existentes em Guam são os chamados "latte" ou seja, "menires com chapéu", a que já tinhamos feito referência nas Lendas da Micronésia, e que nessa particularidade do chapéu, parecem ter alguma conexão com com os moais da ilha da Páscoa. Porém faltou-lhes um rosto e o mesmo tipo de publicidade...

 
As chamadas construções "latte" da ilha de Guam

Guam é actualmente um território sob controlo dos EUA, ou seja é na prática uma das várias colónias americanas, sendo a mais famosa Porto Rico, que não tem direito ao estatuto de estado, e cuja maior parte saiu de anexações feitas aos espanhóis na Guerra Hispano-Americana (1898), onde perderam as Filipinas, Guam, Cuba e Porto Rico. Até 1959, nem o Havai, nem o Alasca, eram estados americanos, e portanto também funcionavam como colónias.

Estas construções latte são consideradas que poderiam funcionar como pilares para suster o chão de uma habitação, como se pode ver neste exemplo em Guam (Umatac, 1937):
... em que as colunas servem para colocar a habitação a uma razoável altura do solo (impedindo a entrada de animais).
A baía jacente a esta povoação Umatac, tem a rocha de Fouha (ou Fua): 
... um megalito natural, onde se centra o mito de criação chamorro, de que já demos conta

Como os mitos costumam gostar de unir coisas, é também tradição local ter sido aqui que Magalhães aportou após ter atravessado o Pacífico.

Há o Guam Discovery Day, mas nem consegui saber se este ano foi comemorado... em Portugal, é certo que fez um bonito blogue Magalhaes500.pt, onde me parece que se o 500 serve para indicar alguma coisa deverá ser o dinheiro dispendido (em milhares de euros), só para benesses e comendas para uma comissão inútil.
Para meu espanto, creio que este é o único site que se foi lembrando de comemorar estes 500 anos.

Conforme já se foi percebendo, Magalhães foi completamente esquecido e este pequenos apontamentos nem sequer servem jornais, quanto mais telejornais, mais preocupados com a compra de computadores "Magalhães" (de onde virá o nome?) para as escolas, por causa da "pandemia".

Não, não se trata de uma pandemia, estamos mesmo no meio de um pandemónio.

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Nota (07/03/2021). Links para os textos anteriores a este respeito:

sexta-feira, 5 de março de 2021

Costas de Portugal


Há costas e costas...

Por alguma razão, temos dois significados:
  • as costas da zona costeira
  • as costas do corpo humano 
e isto é particular da língua portuguesa! 

Se há uma certa ligação latina no termo "costa", que é aplicada à zona costeira, depois no que diz respeito às costas do corpo humano, mesmo os espanhóis usam "espalda", os italianos "spalla, schiena", os franceses "dos", os ingleses "back"... ou seja não há propriamente uma tentativa de ligar a costa às costas!
No entanto, essa primitiva ligação às costas ficou-lhes nas costas... por exemplo, quando se referem a costela, os espanhóis dizem "costilla, chuleta", os italianos dizem "costola", os franceses dizem "côte", e só os ingleses vão buscar "rib". O mesmo se passa com "costoletas", onde espanhóis, italianos e franceses também vão usar termos semelhantes e só em inglês é diferente (o alemão usa também "kotelet", talvez por influência francesa).

Portanto, parece-me que há alguma evidência que o termo "costas" aplicado às "costas" tem um sentido mais antigo, já que as línguas derivadas vão buscar a essa designação primeira, para as variantes de costelas e costeletas, mas só o português manteve a ligação à costas do corpo humano. 
Porquê?

Creio que é mais ou menos claro olhando para o mapa onde se fala português, e que se pode estender bem até à Galiza, e olhando para o aspecto das costas, neste caso ilustrei com a espinha, que está virada para a frente, mas poderia ser igualmente feito com o perfil das costas de alguém, nesse caso virado de costas para o mar.

Acontece que aparece muitas vezes, com um significado algo arbitrário, ligado a um esoterismo rosacruxiano, a comparação que Fernando Pessoa invocou, dizendo que Portugal era o rosto da Europa:
A Europa jaz, posta nos cotovelos 
(...)
O rosto com que fita é Portugal.

Noutros casos aparece como cabeça, e talvez o caso mais conhecido é este mapa atribuído a Heinrich Bunting (Séc. XVI) "Europa Prima Pars Terrae in Forma Virginis":



Quando escrevi os textos Tarso e depois Carpo, fiz notar que as designações não pareciam surgir literalmente do "pé para a mão", e que havia uma possível associação das partes geográficas às particularidades do corpo humano. 

Neste caso, isto parece ainda mais evidente no caso das Costas, já que o perfil da costa portuguesa, aparece como se fossem as costas de uma figura humana. Em particular a espinha iria corresponde à região entre Tejo e Douro, que foi onde se decidiram instalar os Turdúlos Velhos, o povo mais antigo de que há menção em Portugal. Essa seriam as costas que levariam até um sacro na Roca, e que terminavam sem cabeça na Cale, a Gaia do Porto. A cabeça seria o correspondente Minho... ou noutra versão mais antiga, o corte da cabeça seria feito pelo Minho para a Galiza, e não pelo Douro.

Isto é apenas uma observação fortuita, que não significa nada de especial, excepto que este exemplo junta-se a dezenas de outros que fui aqui mencionando, que parecem mostrar que a língua portuguesa poderá preceder as restantes, ditas de origem "latina"... ´

domingo, 28 de fevereiro de 2021

A África começa nos Pirinéus (4)

Quando em 1492 os reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, decretam a expulsão dos judeus do território espanhol, há uma audiência que foi depois registada em diversos quadros.

Escolhemos aqui parte do quadro de Emilio Sala (1889), que ilustra o momento em que Torquemada, Inquisidor-Mor, atira um crucifixo para a frente do judeu... Abravanel oferecera 30 mil ducados para que Fernando evitasse o édito de expulsão, e Torquemada comparou isso à oferta a Judas para trair Cristo...


Curiosamente, Torquemada seria filho de cristãos-novos, os pais seriam judeus, e até o mais famoso inquisidor seria de origem judaica. Porque, em questão de fama, os créditos não vão para mãos alheias.

Abravanel poderia ter a hipótese facilitada por ter nascido em Lisboa, mas D. João II procurava-o, por ter sido associado à conspiração dos Bragança contra si, e assim seria dos poucos judeus para quem Portugal também não era fuga possível. Acabou por sair para Monopoli e depois para Veneza.

Consta que terá argumentado que os judeus sefarditas estavam na Península Ibérica desde o tempo em que fugiram ou foram deixados por Nabucodonosor, e portanto estes judeus não poderiam ser associados à morte de Jesus Cristo, porque nunca tinham estado fora da Hispania.
Saiu também em 1988 um texto chamado "Édito de resposta de Isaac Abravanel", que pode ser encontrado aqui (ou aqui), que é normalmente encarado como obra de ficção, mas é ilustrativo do problema subjacente, seja original ou ficção recente. O texto coloca esta profecia na boca de Abravanel:

No curso do tempo, o outrora grande nome da Espanha se tornará um provérbio murmurado entre as nações: Espanha, a pobre e ignorante; Espanha, a nação que tanto prometia e todavia terminou tão pequena.
E então um dia a Espanha se questionará: o que nos sucedeu? Por que somos motivo de riso entre as nações? E os espanhóis daqueles dias olharão em seu passado e se perguntarão por quê isso veio a acontecer. E aqueles que são honestos apontarão para este dia e para estes tempos quando a sua queda como nação começou. E como causa de sua ruína serão mostrados ninguém mais além de seus reverenciados soberanos católicos, Fernando e Isabel, conquistadores dos mouros, que expulsaram os judeus, fundaram a Inquisição, e destruíram a mente investigadora na Espanha.

A decadência de Espanha (e Portugal), tem sido muito associada a esta vontade de vingança dos judeus contra esta expulsão. Não será sem razão, mas terá sido largamente exagerado o papel judaico, per se, quando comparamos o que se passou com a Holanda, que perdeu naturalmente o seu império, ou com a Alemanha, que se reergueu numa década ou duas, após a derrota nazi..

Porém, uma vontade ignorante foi levada para França e satélites, por momentos elevada aos píncaros, especialmente após a derrota de Espanha na Guerra dos Trinta Anos. 
A partir de Vestfália, os reinos ibéricos passaram a ser desconsiderados do primeiro plano mundial, servindo especialmente para alianças nas disputas entre França e Inglaterra.

Rafael Bordalo Pinheiro caracterizava assim a ignorância francesa, vista de Lisboa, pela luneta da publicação "António Maria":

O QUE OS FRANCEZES PENSAM A NOSSO RESPEITO 








Para evitar que desprovidos de massa cinzenta, manipulados como criancinhas numa loja de doces, fossem sussurrar loas encomendadas por massons da loja sucursal francesa, sobre um eventual racismo, ou preconceito racial, de Rafael Bordalo Pinheiro, face à cultura africana, creio que ele próprio escolheu representar-se como negro, deixando branco apenas o seu gato.
Esses franceses eram os mesmos negreiros que exerciam um colonialismo deveras racista, em nome da liberdade, igualdade e fraternidade, e que acusando os outros de imoralidade, acabam por ser os únicos que mantêm colonialismo ultramarino, em pior grau que ingleses e americanos.
Claro que tudo isso escapa aos olhos de lince da mediocridade nacional, patrocinada por lobbies externos, como génios e enfants terribles, reconhecidos por meia dúzia de prémios da treta, obtidos convenientemente fora de portas.

Até no futebol, clubes rivais percebem que elogios dos concorrentes feitos aos seus, são para serem ignorados ou desconfiados, e só na intelectualidade de idiotas é que vale o paradigma da esperteza ser nitidamente burra, mas muito politicamente correcta, tendo em vista interesses externos.

Mas, esquecendo quem faz por não merecer memória, e voltando ao assunto judaico, é ilustrativo o artigo de Norman Roth (The Historian, volume 55, 1995), que começa assim:

Ou seja, Norman Roth afirma que a Hispania serviu como casa para os judeus, durante mais tempo do que qualquer outro sítio, incluindo a própria Palestina! Não estabelece a data de chegada dos judeus, mas garante que já estariam cá pelo Séc. III, e convirá não esquecer que Bernardo de Brito diz sobre a presença fenícia:
  • Cap. 28: Das guerras que houve em Lusitania, entre os Celtas e Turdulos, e da vinda a Espanha de Nabucodonosor.
  • Cap. 29: De como a gente Portuguesa, que foi em socorro de Cadiz, tomou as armas contra os Fenícios, por lhes negarem o soldo.
A presença fenícia e depois cartaginesa no sul da Hispania está sobejamente atestada, de Cartagena a Cádis. Cádis funcionaria pelo menos como um último porto "mediterrânico", para a nação comercial fenícia e cartaginesa.
Portanto, é indubitável que uma presença de povos de paragens ou origens fenícias se estabeleceu na Hispania, e será redutor pensar que aqui não se incluiria a variante que se chamaria hebraica, como atestado de proveniência. 

Não há propriamente nenhum outro registo de grande migração judaica para outras paragens, durante o Império Romano. Porque razão viriam os judeus, não cristãos, a se estabelecerem aqui, se não houvesse uma ligação mais ancestral, que os acolhesse? Ao contrário de cristãos ou árabes, os judeus não procuravam converter gentios, não tinham espírito missionário, porque só o seu povo seria escolhido.

Curiosamente, em 139 a.C., poucos anos após Cartago ser arrasada, o pretor romano Cipião Hispano, dá uma ordem de expulsão de todos os astrólogos Judeus e Caldeus, que estavam em Roma, devido às más influências que lançavam nos bastidores. Se esse lado dos Cipiãos foi hostil, houve outros, os Gracos que, como vimos, trouxeram ideias revolucionárias para Roma, na mesma altura, levando a um século de alguma instabilidade de social. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Restauro e a Rês Tauro

Os irmãos Bordalo Pinheiro foram bastante influentes no final do Séc. XIX, e Columbano que foi quem atestou a autenticidade dos Painéis de S. Vicente, após 1882, e não deixou de o fazer notar.

Não sei até que ponto Columbano foi influenciado, ou quis influenciar a partir daí.

O ponto de partida é este tecto que está no Hotel Olissipo Lapa Palace, antigo palácio do conde de Valenças. Esse tecto é uma parte que se compõe com mais 7 painéis.
Só conheço 5 deles, os outros 2 estão em colecção privada. Mesmo assim, encontrar este tecto, já não foi assim tão fácil:


Creio que o tecto representa quem toca a música, e de certa forma o pano/véu é um pouco levantado.
O tema é supostamente a "dança"... porque seria para enfeitar o salão de baile. 
Os 5 restantes painéis "Cenas de Baile" foram alvo de licitação em 2014, começando em 500 mil euros, mas não tiveram comprador. Não faço ideia como estão as coisas, nem me interessa. Interessava-me mais conhecer os 2 painéis, de que não conheço sequer uma fotografia, e parece que ninguém quis saber.

Acerca dos 5 painéis de "Cenas de Baile", parece-me que não podem ser dissociados dos 6 painéis que Columbano pintou para a ala dos Passos Perdidos, na Assembleia da República:

(clicar para aumentar)

Na lengalenga artística, Columbano pintou os 5 painéis de "Cenas de Baile" para este efeito e passo a citar o que está no site do leiloeiro:

O conjunto de painéis é descrito pormenorizadamente na obra de Fialho de Almeida, "Os Gatos": Columbano Bordallo acaba de mostrar a meia dúzia de íntimos, no seu atelier no pateo Martel, trabalhos de decoração executados por encomenda do conde de Valenças, para a sala de baile do mesmo senhor. 
A pintura é a óleo, e consta de um tecto que não podemos vêr, e foi pintado in situ, e de sete panneaux de cerca de tres metros d'alto e de largura diferente, que serão aplicados ás molduras d'estuque do salão de baile a que se destinam. 
O primeiro panno é consagrado á dança de hoje: um par adolescente avança com dengosidade fin-de-siècle 
O retábulo segundo é a dança no Imperio. Ha um rapaz de perfil, expressão flagrante dos estoiradinhos d'esse tempo, calça colante, meia de seda, casaca de gola altíssima, bicorne, e bofes de renda em grandes folhos. A figurinha da mulher é deliciosa, com o vestido de corpinho curto, os braços descobertos, e o decote quasi horizontal, descobrindo peito e hombros sem provocação. 
Terceiro panno, em pleno Luiz XV. É um momento de gavota, surprehendido: o par avança num torneio de corpos gracil'
Quarto retábulo, Luis XIV. O costume de homem, severo, casaca azul e cabelleira d'anneis, canhões e bofes de renda, tricorne na mão esquerda, e o collete de grandes abas, cahindo, vermelho, até lhe encobrir as coxas de paralta. A figureta da mulher poisa a tres quartos, voltando de leve as costas a quem olha, e é a mesma anemia morena, o mesmo typo afusado e decadente das outras, com frescuras que lhe vem dos poucos anos, e nunca do circular sadio do bom sangue. 
Finalmente o último trabalho da decoração é uma grande tela onde está pintada uma quadrilha, de que o espectador apercebe oito ou nove figuras. (20 de Janeiro de 1891)

Creio que não.
Creio que Columbano estava a pensar no Marquês de Pombal, na suposta cena de baile ao estilo "Luís XIV", e para esse efeito comparem-se as figuras dos círculos amarelos.
Quanto ao "Grupo em Festa", comparem-se as figuras com círculos verdes, ou seja, parece-se retratar o Duque de Saldanha. Compare-se ainda a senhora na figura central com retratos de D. Maria II:
... e se outra coisa não chamar a atenção, pois o penteado é uma cópia quase exacta.
Quanto, ao sujeito com o círculo roxo, pode ser associado ao que está representado nos Passos Perdidos como sendo Manuel Borges Carneiro, e que foi um dos supostos heróis da revolução liberal de 1820.
Haverá certamente outras possibilidades de associação, mas estas pareceram-me mais evidentes.

Por isso, como é óbvio, quando em 1891 Columbano Bordalo Pinheiro fez a encomenda para o conde de Valenças, não esteve com explicações sobre o que queria fazer, é natural que tenha dito aquilo que o leiloeiro diz, por via de Fialho de Almeida, e que seria o que o Conde de Valenças queria ouvir, mas a questão é sempre a mesma, e repetir-se-à:

- Quer V. Exª  ver, ou fechar os olhos?

Mesmo no que diz respeito aos 6 painéis dos Passos Perdidos, que têm uma sequência (mais ou menos) óbvia definida pelas nuvens, ou temporalmente, pela escolha dos figurantes. A própria escolha de personagens e do seu enquadramento, vestes, ou pose (vejam-se D. Dinis e D. João II), tem muito que se lhe diga.
Se Columbano usou aí 6 painéis, como número igual aos de S. Vicente, pois é uma escolha coincidente mas mais dúbia, já que não consigo vislumbrar uma relação interpretativa semelhante, mesmo admitindo que uma estátua de liberdade faça ali figura de santo para calhaus. Mas o que Columbano deixou nos Passos Perdidos, mostra bem que o ambiente fúnebre dos painéis de S. Vicente era ainda sentido naquela evocação das glórias libertárias, parlamentares, para lamentares.

Mas "Cenas de Baile" é mais ilustrativo para o olhar, com a cena no tecto do Hotel Lapa Palace a mostrar que há quem tem esteja por cima do pano, do véu que cobre a situação, à volta de uma arena, em que servimos de rês, de touro, aguardando a corneta do inteligente para sairmos à praça enfurecidos.
Depois virá cada cavaleiro espetar-nos uma farpa, e para a faiena ser boa, o bicho tem que ser bravo, mas é claro que quem será sempre aplaudido será o cavaleiro. A rês só serve para testar a valentia do boi montado a cavalo. Quando o bicho é mesmo bravo, usam-se umas vacas para o recolher aos curros.

Camões e as Tágides (por Columbano, 1894)

Restaurar ou rês-taurear?
A Restauração, que se diz ser de independência, ou outra, mesmo alimentar, serve para encher a mente da rês, ou o seu estômago, de matéria que sirva para avaliar o peso do animal quando vai para a arena. 

Da mesma forma que já disse que chapéus há muitos e barretes também... pois é altura de dizer:
- Painéis há muitos!
O problema é que ninguém os quer ver... porque no fundo ninguém está em interessado em ver, está sim interessado em olhar para onde lhe apontam o olhar, não para ver, mas apenas para ser visto.
Pelo que a questão, colocada aos que estão no meio da grande arena, se resume a isto:

Quer V. Exª  ver... ou que o vejam?

sábado, 20 de fevereiro de 2021

O "António Maria" (1883) vaccinas

Já aqui falámos da publicação "António Maria" que Rafael Bordalo Pinheiro foi alimentando no final do Séc. XIX. 

No ano de 1883 houve uma ameaça de cólera sobre a Europa, que Bordalo Pinheiro caracterizou assim:


O Cholera (a cólera). A vaccina da Europa.
(i) Aparece um frasco dizendo Ganges/Cholera.
(ii) John Bull (a típica representação da Inglaterra) injecta uma vacina na jovem representando a Europa (nas vestes tem escrito Portugal, Hespanha, França, Itália).
(iii) Mercúrio/Hermes (deus dos mercadores e não da medicina), agarra o pulso da jovem, senta-se em cima de uma pedra que tem escrito £ 1000 000 000 000 (um certo montante em libras esterlinas). Nessa pedra está o caduceu hermético, que por vezes se confunde com o símbolo da medicina, mas que na realidade é o símbolo dos mercadores, tendo duas serpentes em concorrência.

Será preciso maior tradução? Estaria Bordalo Pinheiro a sugerir que John Bull tinha trazido cólera do Ganges, da Índia, onde era potência colonizadora para a Europa, para depois ter um pretexto para vacinar e assim pedir um montante exorbitante por isso? 
É claro que não, Bordalo Pinheiro era um sujeito sério. Não iria convencer as pessoas de uma teoria da conspiração!
Mas vejamos o que diz Bordalo Pinheiro sobre o pânico mediático que se instalou em Lisboa:


Ao que parece os jornais não falavam noutra coisa (onde é que já vimos isto), e começavam queixas de insalubridade de vizinhos contra vizinhos, dos pés à cabeça...

Os bairros de Lisboa faziam reclamações de água corrente (vinda do rio Alviela, ver Aqueduto do Alviela) ao primeiro-ministro, então Fontes Pereira de Melo:


Quanto ao delegado de saúde, o equivalente à DGS, não lhe ficava atrás nas recomendações.
Bordalo Pinheiro caricaturiza-se em cima de um fio de telégrafo, com as andorinhas, porque, segundo o dito delegado (possivelmente Rodrigues de apelido), as habitações mais elevadas eram mais seguras enquanto o micróbio estivesse de olho neles (daí o micróbio com a luneta):


E a última caricatura, que termina o incrível longo período de (adivinhe-se) 2 semanas, em que fala do assunto, termina com um eventual "Cordão Sanitário do Algarve":

Bom, eram outros tempos, e Costa não é Fontes.
A cólera já se sabe, comparada com a Covid... digamos, não tem comparação!
Cordão sanitário do Algarve? Mas onde é que já se ouviria falar de tal coisa?

(SIC, 19 de Junho de 2020)

Qual era a razão do pânico? Dizia a SIC:
«Festa ilegal em Faro. Há já 69 casos de Covid-19 confirmados.»

"Festa ilegal"... toda esta designação necessita de um manual de tortura como auxiliar de leitura, porque em nenhuma época, todos os habitantes de um país foram proibidos de se juntar para festejar, estivessem sob ameaça de peste negra, de malária, cólera, ou tuberculose. 

Sim, espante-se o mundo, não é a primeira vez que está sob ameaça de doenças perigosas, mas é talvez a primeira vez em que a reacção à doença provocará muito mais mortos do que a própria doença.

Não apenas isso, é a primeira vez que uma doença domina a agenda mediática mundial, ou nacional, por mais do que um ano... e como se morre de Covid? Como se morre de pneumonia. E não morreu mais gente no mundo com a Covid, do que morria antes, conforme se pode ver neste gráfico (com base em dados da ONU, ainda que se tenha que notar que "o impacto da Covid não foi tido em conta"... com tudo o que isso significa, ou seja, que desde 2020 há dificuldade em contabilizar mortos).

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

dos Comentários (75) setas egípcias

Resultado de um comentário de Djorge sobre uma questão aqui deixada em 2017, 

  • Ouvi..... que um arqueólogo (espanhol, se não me falha a memória) que costumava fazer explorações no Egipto, encontrou pontas de setas egípcias no Gerês.

Djorge deixou o link para um catalogo do Museu Nacional de Arqueologia:

Antiguidades Egípcias  (1993, Luís Manuel Araújo)


O catálogo começa com esta fotografia histórica de António Beato de 1869, inserida numa expedição onde segue também Eça de Queirós, mas vai concentrar-se numa expedição ao Egipto onde a Rainha D. Amélia se deslocou com os dois príncipes em 1903.
Aliás há uma fotografia da rainha com a comitiva junto às pirâmides de Gizé:
A rainha está ao centro, em posição mais elevada, sentada num dromedário (e para quem não experimentou... andar de dromedário, não é algo que seja um brinquedo para as costas). Noutra fotografia aparecem os príncipes D. Luís Filipe, o mais velho, que será assassinado com o pai em 1908, e o futuro D. Manuel II:

Leite de Vasconcelos que dirigiu o Museu de Arqueologia, decidiu comprar em 1909 uma série de objectos egípcios, a que se juntaram outros apresados a um navio alemão na 1ª Guerra Mundial, e que depois da intenção de devolução portuguesa, ficaram doados pela Alemanha... não sei bem se o Egipto teve alguma palavra no assunto, mas como sabemos, no contexto colonial parece que isso não interessava para nada. 

Conforme Breno explicou aos Romanos, antes de Roma ser grande... "Vae Victis", que é como quem diz - "Ai dos vencidos!"... porque o pagamento de dívidas dos vencidos, seja em prata, ouro ou couro, é sempre feito nas balanças dos vencedores, para satisfazer os seus balanços. 

Roma aprendeu bem essa lição, quando um século depois obrigou Cartago a uma dívida que apenas serviu para retardar algumas décadas a sua aniquilação completa. 
Poderia Roma continuar a explorar uma fonte fácil, de trabalho quase gratuito, para alimentar a sua riqueza, deixando Cartago sobreviver num permanente endividamento?... 
Poder, poderia, mas não o fez, pois conforme Catão sempre alertava, deixar Cartago renascer teria o perigo inevitável de voltar a ter um general cartaginês como Aníbal a ameaçar Roma.

Assim, como resultado de Cartago ter pago a dívida durante 50 anos, o que poderia dizer o governo cartaginês aos seus concidadãos? 
- Desculpem lá qualquer coisinha, mas vamos ter que continuar a pagar, durante os próximos 50 anos?
- Mas, não pagámos a dívida toda? Qual é o problema afinal?
- O problema é que se não continuarmos a pagar somos aniquilados...
Ora aqui, a malta rasgava as vestes e partia para batalha, como fizeram, tendo os cartagineses acabado mortos ou escravizados para o resto da sua vida. Da sua cidade, cultura e língua, terá restado... zero! 

Haveria alternativa? Sim, uma muito engraçada.
O governo cartaginês iria falar ao Senado Romano e dizia-lhes:
- Percebemos qual é o vosso problema, mas deixem-nos sobreviver... prometemos educar os nossos petizes de forma a que eles vos admirem e nunca vos hostilizem.
- Então e como vão convencer os vossos concidadãos a trabalharem sempre para nosso proveito?
- Inventaremos corrupções internas, que delapidem o nosso tesouro, que irá directamente para vós!
- Isso é capaz de fazer algum sentido. Mas o vosso problema é que os vossos filhos não são parvos.
- Deixaremos que uma certa elite romana se instale em Cartago, e será essa que irá definir que os melhores cargos vão para os piores de nós... o povo, desconhecendo a história, permanecerá iludido que o problema está nas suas elites, incapazes de se gerirem sem corrupção e degradação.
- Mas isso já foi tentado?
A esta pergunta, os cartagineses não iriam responder, mas portugueses e espanhóis, desde há quase quatro séculos, sabem bem como a receita funciona!
Por isso, quando vem uma vacina de Roma, há que convencer o povo a baixar as calças?...

Adiante.
O que Djorge fez notar e muito bem, foi esse problema caótico de organização, que os portugueses nunca são capazes de resolver... e passo a citá-lo:
  • Típico da desorganização mediterrânica, aparentemente existem pontas de setas agrupadas em caixas que não se sabe ao certo de onde vieram, como transcrevo (página 61): "Quais são exactamente os 22 amuletos entrados em 1903 (!) por depósito do "Exmo Sr. J. J. Judice"? Onde estão ao certo as seis pontas de seta trazidas por Leite de Vasconcelos do Egipto em 1909, misturadas com os milhares de pontas que o Museu possui?"
Olhando para as 400 páginas do catálogo, houve algumas fotografias que não deixaram de me causar alguma admiração, dada a sua proveniência egípcia... mas só vi as pontas de seta naquela citação e não em nenhuma fotografia.

Os objectos que me parecem oferecer alguma dúvida sobre a sua proveniência, estando normalmente indicado "proveniência desconhecida", são estes, entre outros:





É claro que no Egipto houve vários períodos, desde o Império Antigo até à época helenista, após a invasão de Alexandre Magno, a época romana, ou ainda posterior, já cristã copta, antes da invasão árabe.

De qualquer forma deixo aqui este registo de objectos, que me pareceram um pouco fora daquilo a que estamos habituados a associar às colecções egípcias. Mesmo sendo encontrados no Egipto, não deixam de ser algo invulgares ao nosso preconceito sobre a cultura egípcia, e não deixa de ficar a hipótese que no meio da confusão típica nos registos nacionais simplesmente as coisas estejam mal etiquetadas... e ali pelos mármores esteja um graffiti feito às escondidas por um filho de algum empregado do museu!!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Peças dos Painéis de S. Vicente (6)

Muito se poderia ainda dizer sobre os Painéis de S. Vicente que voltaram às notícias recentemente:

(Publico, 9 de Fevereiro de 2021)

faço este postal apenas para dizer que se considerei o assunto como importante, ao ponto de definir o nome deste blog, esse assunto está para mim abordado e enterrado. Aliás deixo um PDF com o que escrevi sobre o assunto, em 2009, 2013 e 2018:

PDF (60 páginas) na Plataforma Mega:


O último apontamento que juntei em 2018 tem justamente uma nota adicional sobre o restauro onde foi decidido torcer o nariz à rainha D. Leonor. 

É preciso clarificar uma coisa - qualquer restauro redunda num certo crime histórico.

Dado um original antigo, o que há a fazer é guardá-lo e não tocar em coisa alguma. No máximo, podem fazer inspecções que não destruam o original.
Claro que não falo em destruições claras como o restauro do Ecce Homo feito em Espanha em 2012 por uma paroquiana. Aliás, os espanhóis parecem gostar de restauros grotescos (como o do astronauta colocado na catedral de Salamanca), que alimentam o turismo. Por muito pequena que pareça a intervenção, o uso de substâncias, que parecem hoje inofensivas, poderá prejudicar técnicas posteriores de inspecção, mesmo que o aspecto seja mantido (... e como vimos nos Painéis não foi). 

No entanto, dado o estado a que isto chegou, neste momento a confiança entre o original, e uma cópia substituída pelo original, é uma confiança muito pequena.

De qualquer forma aproveito para fazer duas observações acerca das radiografias que vieram a Público:

1º) Acerca da "ausência de rede" na radiografia 



Na imagem supostamente radiografada, a rede desaparece por completo, e nem sequer há vestígio do cordame mais espesso nem dos discos. As feições parecem-me bastante alteradas, e isso não se explica apenas pelo raio X, que depende da frequência/intensidade usada. Uma coisa parece manter-se, ou seja, o nariz torcido da rainha, que em fotografia antes do restauro anterior não existia. Isso também não é determinante, pois podia ser resultado de um restauro ainda anterior. Aparentemente também não vejo grande razão para a cara de Dona Beatriz estar mais escura na pretensa radiografia, do que as restantes... Em suma, tudo isto apenas junta informação inconsistente, quando não há mais explicações, pelo que se pode dizer tudo e o seu contrário.

2º) Tra la spica

Nesta imagem que associei ao Infante D. Pedro, disse algures que estaria à espera de ver ali mais uma espiga do que uma espada. Não é isso que a suposta radiografia revela (nem eu esperaria outra coisa), e por isso aqui teria que comer as palavras que proferi. Só que olhando para a cabeça radiografada e para a imagem, percebe-se que uma cara pouco tem a ver com a outra em termos de proporções, medidas pixel a pixel, dando 7% mais alto na radiografada do que na fotografada, o que não é pouco... pois vê-se a olho que uma cabeça é mais longa que a outra (o que não acontece, sempre, noutros casos).

Conclusão:
Poderia dizer que estamos em presença de obras diferentes, em que a radiografada é cópia da outra, e depois o resto são efeitos da treta, tipo photoshop para inventar degradações... mas isso seria levantar suspeitas sobre quem fabricou as imagens, e não há informações para isso. Há apenas inconsistências, que podem ter imensas explicações, cheias de conteúdo vazio.

Fica de parabéns o Clemente Baeta, já na lista dos autores nomeados pelo Público. A sua obra está elencada nos diversos supositórios sobre cada imagem, o que não é nada que me surpreenda, e ele bem saberá que esta constatação não encerra nenhum elogio. 

Este assunto tem carácter algo pessoal, que me é difícil de esquecer, e por isso será difícil mudar de opinião. Uma coisa foi deduzir uma hipótese consistente em 2009, e mesmo que fosse com algum cuidado, também não foi nada de exagerado, conforme coloquei noutras coisas, essas sim mais críticas.
Outra coisa, é saber em 2013 do "Manuscrito do Rio", o único documento do Séc. XVI que fala da obra, que confirmava exactamente o que tinha escrito, e quem estava representado como santo era o filho morto de D. João II. Quando se tem uma confirmação desse tipo, se já antes não via muitas possibilidades de mudar de opinião, menos ficaram. Menos ainda ficam, quando vejo que nos 38 supositórios elencados pelo Público, nenhum considera a hipótese mais óbvia.

Termino com as mesmas palavras que deixei há oito anos, e há dois anos e meio atrás:

  • É tempo de voltar a fechar a tampa do caixão e dar nova paz a este assunto.
  • Apenas reflecte o conceito de normalidade vigente, isto é, não vi gente!

domingo, 7 de fevereiro de 2021

A África começa nos Pirinéus (3)

Os dois textos em Janeiro introduziram o assunto pelo princípio. Mas as coisas ficam muito mais claras, indo ao fim... ou pelo menos a um fim intermédio.

Os judeus pediram e apoiaram a invasão árabe em 711
Não será assunto surpreendente, mas evita-se falar no assunto - os judeus preferiam o convívio com os árabes do que com os cristãos visigodos:

Um judeu jogando xadrez com árabe (em Livro dos jogos, de Alfonso X, 1283, já mencionado)

Cito aqui o vídeo que é baseado no livro de 2008 de E. Michael Jones:

Jews for Jesus versus Jews against Jesus; Christians versus Jews; Christians versus Judaizers. This book is the story of such contests played out over 2000 turbulent years. In his most ambitious work yet, Dr. E. Michael Jones provides a breathtaking and controversial tour of history from the Gospels to Julian the Apostate to the Hussites to the French Revolution to Neoconservatism and the End of History.

e o vídeo que faz uma menção ao assunto e ao livro encontra-se aqui:

History of the Jews in Spain - Daniel Walker Backup  (Excerpt - Mirror)

São bastantes claras e relevantes as seguintes menções:
  • In 694, the 17th Council of Toledo proclaimed "the impious Jews dwelling within the frontiers of our Kingdom ... have entered into a plot with those other Hebrews in regions beyond the seas, in order that they might act as one against the Christian race ... through their crimes, they would not only throw the Church into confusion, but, indeed, by their attempted tyranny, have essayed to bring ruin to the Fatherland and to all the population.''' 
  • In 852, the Anales Bertinianos described the loss of Barcelona because the Jews "played the traitor," allowing the Moors to capture it. As a result, "nearly all the Christians" were "killed; the city [was] devastated," and the Jews "retire[d] unpunished.'' The Jews "defined themselves as the antithesis of Christianity" and conspired with Christendom's enemies. Although they prospered under the Visigoths in Spain, they nevertheless conspired with Arabs in Africa to overthrow the Visigothic monarchy. At the beginning of the 8th Century, they used their contacts with African Jews to prepare the invasion of the Mohammedan Berbers across the straits of Gibraltar. 
  • When the Mohammedans conquered Spain, the Jews flourished, achieving one of the most sophisticated cultures in Europe. The Jews excelled in medicine and helped in bringing Aristotle to Europe. But the flower of Sephardic culture drew its economic substance from unsavory roots. The Sephardic Jews grew rich on slaves and usury. 
Ou seja, menos de 20 anos antes da invasão, o Concílio de Toledo já avisava acerca de uma "teoria da conspiração" (porque não podia ser vista como coisa diferente), que juntava os judeus que viviam sob domínio visigodo e os judeus que viviam no Norte de África, para actuarem todos como um, com os árabes, a uma só voz, no sentido da invasão da Península Ibérica.

É aqui dado o exemplo de uma traição judaica na queda de Barcelona, mas o mais significativo é que de facto os judeus nunca tiveram problemas no convívio com as comunidades árabes, e conforme é dito floresceram mais com os árabes, tornando o reino de Córdova-Granada num exemplo de progresso na Europa Medieval.

De acordo com esta referência, o plano de invasão árabe comandado por Tarique, e que culminou na vitória na Batalha de Guadalete, não foi uma simples invasão sem apoio coordenado entre os judeus do lado visigodo e os judeus do lado africano.
Também dificilmente seria de outra forma, a entrada sem par de uma força expedicionária, que pouca ou nenhuma resistência foi encontrando, conseguindo em pouco tempo estender o seu domínio por uma grande parte da Espanha.

Convém aqui ser moderado nas pretensões da incursão árabe, que sendo quase total pelo lado costeiro, não se terá atrevido às conquistas mais difíceis, nas montanhas asturianas. Não há registo de presença árabe no distrito de Bragança, por exemplo... "o domínio dos árabes no distrito de Bragança foi por assim dizer nulo ..."  (O Archeólogo português, Volumes 12-13, 1907).

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Nota complementar (08.02.2021):
Neste vídeo, correspondente a uma versão judaica:



é praticamente assumida esta versão colaboracionista, entre os judeus sefarditas (ou seja, que viviam sob domínio visigodo) e os árabes invasores, mas é recusada a ideia de que houve um pedido prévio para a invasão. 
Ou seja, os judeus reconhecem que foi graças à sua colaboração com as forças  árabes invasoras que foi permitido que estas continuassem por todo o território hispânico, deixando as cidades conquistadas com uma pequena guarnição, porque aí contavam com a colaboração judia, para manterem as cidades sob controlo islâmico.
A diferença não é na prática muito grande, e poderia ficar a dúvida entre saber se os árabes arriscaram toda uma estratégia de invasão sem terem isso assegurado a priori... 

Isto chega quase a ser ridículo, porque isto corresponde a ter empregados que, perante um assalto vão colaborar com os assaltantes, no sucesso da invasão, mas parecem achar tudo bem, apenas porque supostamente não foram eles que chamaram os assaltantes... por muito menos que isso, já Portugal pediu desculpa pela expulsão dos judeus. 
Com este reconhecimento de culpa, pode-se perguntar - que sentido faz pedir desculpa a culpados?

Mas vamos continuar com a história, porque isto não me parece ter sido tão simples quanto nos querem apresentar!

sábado, 30 de janeiro de 2021

dos Comentários (74) pedras cortadas

Em comentário de José Manuel Oliveira, foram sinalizadas duas formações rochosas interessantes.

Al Naslaa
Começo pela pedra em Al Naslaa, fracturada, havendo um bom apontamento em magnusmundi.com:
Al Naslaa Rock (ver Google Maps)

O problema como se verá, é que o enorme megalito apresenta uma fractura quase perfeita, dir-se-ia feita a laser, remetendo a questão logo de seguida, para quem a poderia ter feito?

Além disso, esta pedra tem um desenho invulgar, de data desconhecida, talvez com milhares de anos, e outras inscrições mais recentes. Mas podemos focar-nos no desenho do cavalo, que parece ser conduzido por um homem armado com uma espada, que tem inscrição (em língua desconhecida):

Ora corresponderá esta formação rochosa a um trabalho humano?
Apesar de considerar que em muitos casos se pretende iludir formações naturais, quando é mais natural que se tratem de formações humanas, neste caso parece-me o oposto. 

Para esse efeito, fui encontrar no Google Maps esta fotografia em pose, do verso da pedra:


Acontece que se nota uma outra camada também vertical, que apresenta alguma cisão, e poderá vir a cair. Portanto, se esta segunda camada é natural, a falha vertical perfeita também aparenta que o possa ser. Olhando noutras rochas da mesma zona, vêem-se mais pedras fracturadas na vertical, mas sem a falha tão exposta. 
Sendo assim uma estranha formação antiga, nada mais natural que alguém surpreendido com a formação tivesse aproveitado a superfície lisa frontal, para deixar aí algum graffiti rupestre que parece ser bastante antigo (podendo remontar a mais de dois milhares de anos).

Aproveito para deixar aqui outra formação natural conhecida, que é a Split Apple Rock (ou ainda  chamada Tokangawha) na Nova Zelândia, onde tudo indica ter havido uma origem natural na fractura da grande pedra redonda:
... ou um pouco mais perto, a 15 Km de Chaves, temos a chamada Pedra Bolideira:
... sendo talvez a mais conhecida, devido a ligação à passagem bíblica do Monte Horeb, no Sinai:

No entanto, o que me parece ser mais interessante, na pedra de Al Naslaa, é mesmo a inclusão rupestre, não havendo aí dúvida que se trata de inclusão humana antiga, talvez assinalando algum mito de que a pedra teria sido cortada pela espada do cavaleiro...

Hegra (Mada'in Salih)
Outra formação sinalizada por José Manuel Oliveira, e aqui não oferece dúvidas de ter sido cortada por mãos humanas, são as rochas esculpidas de Hegra, na Arábia Saudita, que são muito semelhantes às de Petra, na Jordânia, mas menos conhecidas que estas, sendo ambas remetidas à cultura Nabateia, que depois foi englobada no Império Romano:
Hegra - vestígios da cultura Nabateia na Arábia Saudita.
(31.01.2021) 
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Nota adicional (31.01.2021):
J. M. Oliveira faz ainda referência a um punhal de cristal, encontrado num Tolos de Montelirio, na província de Sevilha, a que se atribui mais de 5 mil anos, ou seja, c. 3000 a.C.

Mesmo sendo originário de rocha vítrea, como quartzo, o conjunto funerário tinha ainda pontas de setas cristalinas, algumas presas de elefante em marfim, e um ovo de avestruz, não sendo muito claro que tal fauna existisse na península ibérica naquela altura, podendo por isso suspeitar-se de algum comércio com paragens africanas no Neolítico ibérico.

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Nota suplementar (01.02.2021)
Carlos Figueiredo em comentário anexo, aponta o site Arabian Rock Art Heritage, em particular para o rochedo de Al Naslaa:
que tem excelentes fotografias das gravuras no deserto, permitindo zooms de grande qualidade.
Além disso faz referência à língua Safaítica, que era usada por populações nómadas no deserto, acrescentando:
  • Nesta página da Wikipedia é possível ver a lista de caracteres e vários correspondem exactamente ao que se pode ver inscrito no rochedo.