quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Lendas da Micronésia

Por acaso encontrei o livro "Micronesian Legends" que reúne alguns interessantes mitos do "micro" arquipélago que se estende por um largo território no Oceano Pacífico.
"Micronesian Legends" (2002) - B. Flood, B. E. Strong, W. Flood 
Micronésia

O livro começa com uma referência ao "Suicide Cliff" na ilha de Saipan, cujo nome se deve ao que aí aconteceu no final da 2ª Guerra Mundial, e que pela sua importância vale o comentário.

Já se sabe que "vale tudo em tempo de guerra", mas foi sendo criada a ideia de que os ocidentais estavam imunes a actos atrozes, por contraponto com a brutalidade alheia, neste caso japonesa.
Tudo isto faz parte de jogos mentais, nomeadamente para acirrar vontades contra um determinado alvo, declarado inimigo. Há pessoas mais moderadas que outras, mas em tempos de convocar histeria, as moderações foram sempre desaconselhadas e até mal vistas. 

Assim, após Pearl Harbor, nos EUA criou-se rapidamente a ideia do "monstro japonês", que seria combatido com tudo o que havia à disposição - chegando depois ao ponto do uso da bomba atómica, que arrumou a questão. No entretanto, mais de 100 mil americanos de ascendência japonesa foram detidos em campos de concentração, espalhados pelo país. A histeria tinha sido lançada.

Na revista Life, em 22 de Maio de 1944, a publicação chegava ao ponto de fotografar uma rapariga ao lado de um crânio japonês, que lhe tinha sido enviado pelo namorado: 

"Arizona war worker writes her Navy boyfriend 
a thank-you-note for the Jap skull he sent her"

Quem invoca monstruosidades tem depois que lidar com as suas consequências.
O Japão passou a argumentar racismo e que os americanos os viam sem qualquer respeito, exibindo os seus cadáveres como exibiam troféus de caça. A ideia que as cabeças japonesas iriam servir de pisa-papéis ou cinzeiros decorativos nos EUA fez o seu caminho no Japão, e será menos de estranhar que não faltassem voluntários para actos kamikaze

A publicidade de ser preferível morrer a render-se terá sido aproveitada pelos generais japoneses para acirrar as tropas e a população para um combate total de "vida ou morte", algo que não era estranho à própria cultura japonesa.
Um extremo aconteceu na ilha de Saipan, quando o exército americano ainda achava útil publicitar uma violência extrema sobre os japoneses, impondo uma visão de terror ao inimigo. Era assim ideia clara, não apenas para os militares, mas também para as suas famílias na ilha, que era melhor o suicídio do que renderem-se aos americanos. 
Na conquista de Saipan terão morrido 55 mil pessoas, mas só no "Suicide Cliff" contam-se milhares de mortes devidas a suicídio para evitar que "os demónios americanos violassem ou devorassem mulheres e crianças", conforme informava a propaganda japonesa.


Suicide Cliff em Saipan

Passado pouco mais de um ano e estavam os demónios americanos a tomar conta de todo o Japão, sem constar que tivessem devorado ninguém (já não se poderá dizer o mesmo de violações)... 
Com a graciosidade do Plano Marshall na Europa, e similar na Ásia, os EUA enviaram mais de 15 milhões de toneladas de comida para a Europa e Japão, entre 1945 e 46. O plano afinal não era comer os japoneses, era dar-lhes de comer. 

Questionamos, que impetuosos cavaleiros, finda a batalha, têm ainda necessidade de eliminar os cavalos dos seus inimigos? 

Continua a haver uma estranha crença que a informação recebida está desligada de intenções do emissor. Neste caso aqui descrito vemos como uma propositada deficiência informativa foi usada acriticamente. Poderiam as mulheres japonesas de Saipan, antes de se sacrificarem com os filhos, terem duvidado ou criticado a informação veiculada pelos oficiais do seu imperador? (... ou, de que forma tratamos hoje criticamente a informação veiculada?).

Mito da Criação (dos Chamorro - ilhas Marianas)
Este mito coloca dois irmãos primordiais, Puntan e a sua irmã Fua (ou Fu'una), nascidos sem pai nem mãe. Puntan seria omnipotente, mas sentiu que iria morrer, pelo que pediu à irmã que colocasse os seus olhos como Sol e Lua, o seu peito como Céu, as sobrancelhas como arco-íris, e as suas costas como Terra... e assim foi o Mundo criado.

Quando a irmã contemplou a beleza da terra criada pelas ordens do irmão, decidiu que seria povoada por pessoas, feitas à semelhança dos dois. Para melhor fazer isto, definiu-se como rocha no sul de Guam (Fouha Bay), e decidiu que parte dessa rocha seria a pedra de onde nasceriam todas as pessoas. Depois ordenou que essa pedra se dividisse em múltiplas pedras, a que deu vida, e que depois formaram todas as raças de homens que se disseminaram pelo mundo.
Fouha Point, perto de Umatac em Guam

Interessa aqui uma certa semelhança com o mito grego que envolve Úrano e Gaia.
Há um outro mito que invoca um problema ecológico de sustentabilidade e partilha de ajuda.

Mito chamorro das mulheres de Guam
Não restava nada para comer, e as crianças choravam famintas.
As barrigas vazias doíam e já chupavam o interior das espinhas de peixe que restavam.
As nuvens não traziam água, e os ventos traziam apenas pó.
Uma velha mulher, a maga-haga, dizia "os espíritos estão zangados...".
Não havia respeito, perdera-se o respeito pela terra, pelo mar, de onde tudo tiravam sem nada dar em retorno. A punição era consequência do egoísmo.
Mas veio nova punição, e o solo tremeu. Algo começava a comer a terra da ilha.
Pediam perdão aos antigos, mas sabiam que não iriam ser perdoados pelos ante (espíritos ancestrais) se não mudassem os seus hábitos egoístas.
O chefe soprou no Grande Búzio. Era sinal de perigo iminente e os homens reuniram-se com lanças, para matar quem estava a comer a terra. Enquanto os homens discutiam o que fazer, as mulheres ouviam e esperavam. 
Até que uma criança gritou "monstro" - era um enorme peixe-papagaio, maior que uma baleia, um atuhong, que abriu a sua enorme boca, com dentes maiores que uma cabeça humana, e começou a comer os recifes. Os homens fugiram com medo. 
Como podiam capturar um peixe tão grande? - Uma simples dentada e perderiam as suas cabeças! 
No pavilhão de tecelagem as mulheres reuniram-se, esperando, cantando e pensando, ao mesmo tempo que iam tecendo. Como poderiam apaziguar os espíritos?
O Grande Búzio ouviu-se de novo. Os homens compareceram na costa, meteram-se em canoas à vela, seguindo o caminho do monstro.
Enquanto isso, as mulheres esperavam, sempre tecendo, tecendo fitas com folhas, ao mesmo tempo que teceram pensamentos, durante toda a noite. Quando o Sol se levantou na linha do horizonte, procuraram sinais dos maridos. Não viram os pequenos triângulos das velas, crescer cada vez mais, trazendo os seus homens de volta. 
Mas não mais esqueceram o que viram! De um dos túneis subterrâneos entre as baías de Agana e Pago, o gigante atuhong nadou para a lagoa, começando a comer a ilha. Todo o dia a terra tremeu, enquanto ele a comia. O monstro estava a destruir o recife e a terra, pensando apenas na sua gula, tal como antes o povo da ilha tinha pensado apenas em si. Em breve não restaria terra entre Agana e Pago, e depois não haveria ilha, não ficaria nada!

"Para casa, para casa antes que o monstro devore a ilha!", gritaram as mulheres.
Em breve as velas dos maridos apareceram no horizonte, e quando eles saltaram das canoas, elas pediram para os ajudar a matá-lo, antes que voltasse para o túnel subterrâneo.
Os homens riram-se... "As mulheres não sabem caçar. Só sabem tecer e cantar! De que nos vale isso?"
Dirigiram-se ao monstro, com redes e armas. Bastou ao monstro sacudir a cauda, e os corpos dos homens partiram-se contra o recife e contra as rochas da ilha. Com os dentes rompeu as redes e foi de novo para o túnel. As mulheres quiseram ajudar a consertar as redes, mas os homens riram de novo, dizendo que nem a força do chefe, o maga'lahi, era suficiente contra o monstro.
A mais sábia das mulheres, a maga'haga, abanou a cabeça. Esperou que os homens saíssem e convocou as mulheres para uma fonte em Agana, onde iriam refrescar o coração e o pensamento, pedindo ajuda aos maranan uchan - os crânios dos seus antepassados.
Porém quando chegaram a Agana, viram cascas de limão a flutuar na água. Só as mulheres de Pago usavam aroma de limão no cabelo. Isso significava que havia já uma abertura, um túnel entre os pontos opostos da ilha, que o monstro tinha comido por baixo da terra. 
Então perceberam qual o sacrifício que teriam que fazer, iriam sacrificar a sua beleza.  
A maga'haga iria cortar-lhes o cabelo, e com ele iriam fazer uma nova rede. As suas cabeças estavam mais leves, e sentiram-se livres do peso que pendia sobre as suas cabeças e corações.
Quando a luz das estrelas começou a dar lugar à luz da manhã, a rede tecida estava pronta.
Iriam esperar que o monstro atuhong saísse do túnel e atirariam a rede de cabelo. Acreditavam que a coragem de todas tinha ficado unida na rede. Quando o monstro saíu rodeou as mulheres, com as mandíbulas abertas, quando as mulheres deitaram a rede, começando a puxar. O monstro tentou morder a rede, mas a rede não cedeu, e as mulheres tentavam puxar o monstro para terra, gritando, encorajando-se umas às outras. 
Os homens ouviram os gritos, e foram em auxílio com as lanças. Em breve o monstro estava morto.
Com a ajuda de todos foi morto e puxado para terra, onde foi cozinhado com cascas de coco, servindo de repasto e acabando finalmente com a fome que os atormentava.
A chuva voltou a cair. A seca e a fome tinham acabado. A ilha tinha sido salva, mas iriam passar aquela história aos filhos, e aos filhos dos filhos, lembrando-os de que era preciso manter o respeito, pela ilha e entre si.
____________

Este conto é muito interessante, e de certa forma ilustra uma cultura tribal que procurava incutir valores e ensinamentos nos mais novos, sensibilizando-os para uma convivência racional entre si - neste caso não desprezando o valor da ajuda das mulheres, e para os perigos a que estavam sujeitos se desperdiçassem ou abusassem do que a ilha lhes dava. 
Não deixa ainda de ser interessante a semelhança do nome "ante" para os antepassados, ou ainda do nome "maga'lahi" para o chefe! Por coincidência, ou por influência, tem uma pronúncia demasiado próxima de Magalhães para que não seja notado. 

Fernão de Magalhães desembarcou na ilha de Guam em 6 de Março de 1521, após meses navegando o Oceano Pacífico, havendo um monumento a comemorar esse desembarque
É claro que a tripulação entrou na ilha para reabastecimento e tirou o que quis. Os chamorros de Guam devolveram a gentileza, entrando nos barcos e roubando o que encontraram em cima do convés! 
Magalhães terá usado o nome "ilha das velas latinas" (pelas velas triangulares), mas Pigafetta baptizou-a "ilha dos ladrões", nome que manteve nos mapas antigos, entendendo-se certamente que a propriedade do que estava em Guam era património universal, enquanto o que estava nos barcos era património privado. 
Como a questão da posse é sempre muito engraçada, Guam ficou possessão espanhola até que foi perdida para os EUA em 1898, sendo ocupada pelos japoneses de 1941 a 44, regressando à posse dos EUA numa das sangrentas batalhas do Pacífico, que redundou em 20 mil mortos (90% dos quais eram japoneses).

Mito do ensino da navegação (ilhas Carolinas)
Há muito tempo atrás este conhecimento era desconhecido - mesmo para os ilhéus!
Apenas conseguiam navegar curtas distâncias, e os que tentavam navegar sem este conhecimento nunca regressavam...
Contudo, um pássaro, o maçarico, sabia de navegação!
Este pássaro voava de ilha em ilha, no meio do vazio oceânico, para comer.
Ora, a sua comida favorita eram humanos... não era muito grande, mas era muito faminto!
Depois de comer todos os homens, todas as mulheres e todas as crianças numa ilha, continuava com fome, com muita fome!
Viajava assim pelas ilhas da Micronésia, e toda a ilha que visitava era uma nova refeição... pelo que em breve as ilhas estavam quase despovoadas.
O maçarico procurou então Pulap, uma ilha que não conseguia encontrar.

Nessa ilha vivia uma pequena rapariga com o seu avô pescador. Viviam muito felizes, porque o avô tinha protegido a ilha com uma nuvem bwabwa que a tornava invisível aos olhos do maçarico!
Mas certo dia o maçarico acabou por aterrar perto, e decidiu investigar o que estava abaixo daquelas nuvens, encontrando finalmente a ilha Pulap.
"Comida fresca", pensou o pássaro, e foi logo encontrar a pequena rapariga, que lhe disse:
- Quer comer ou beber algo?
- Claro que sim... e despacha-te! - respondeu, imediatamente.
A rapariga foi a correr ao encontro do avô, avisando-o da chegada do visitante. O avô disse:
- Esse pássaro come pessoas. Não o podemos aborrecer!
O avô preparou então comida e bebida especiais para o maçarico, que a rapariga levou.
O pássaro olhou para os cocos, com peixe e inhame, e queixou-se que aquilo apenas serviria de aperitivo... mas cansado da viagem, adormeceu, pensando que de seguida comeria a rapariga.
Porém, quando acordou, encontrou de novo os cocos cheios de comida.
Comeu rapidamente e procurou a rapariga, mas quando se voltou encontrou de novo tudo cheio, como que por magia. Por mais que o maçarico comesse, tudo se enchia de novo magicamente.
O pássaro finalmente ficou satisfeito.

Chamou a rapariga e disse-lhe:
- Minha menina, tu alimentaste-me bem, e em troca quero dar-te um presente! Vou ensinar-te o segredo da navegação com vela entre as ilhas!
A rapariga era boa aluna, e explicou ao avô tudo o que o pássaro lhe ensinava.
Ao fim de algum tempo, aprendeu tudo o que o pássaro lhe podia ensinar.
Era tempo do maçarico deixar Pulap, pois estava com vontade de comer pessoas de novo!
Mas o avô deu então instruções à neta, no sentido de lhe dar toda a comida que pudesse.
O pássaro foi acumulou tanta comida num cesto, que levantou vôo com dificuldade, porque apesar de ser muito ganancioso e muito faminto, não era muito grande.
Ora, isso levou a que o pássaro acabasse por ceder ao peso da carga, embatendo no oceano.
Ali, o pássaro acabou por perecer, tendo ficado, como marca no local, um recife e ilhas.
Foi assim que a rapariga e o avô passaram a saber navegar entre as ilhas, e a ilha de Pulap foi honrada como sendo o primeiro sítio onde a navegação foi aprendida.
_________

De certa forma, os ilhéus da Micronésia acabaram por conhecer todo o tipo de maçaricos, que os visitaram ou colonizaram, durante os últimos séculos... Não sei se estão ainda a alimentar o bicho ganancioso, à espera de aprenderem com ele, ou não. Parece claro é que no processo de colonização, o maior ponto comum com os maçaricos era mesmo a ganância... e uma fome insaciável de poder.

Há bastante mais histórias, mas estas são ilustrativas.
Apesar de serem apenas pequenas ilhas, a Micronésia não deixa de surpreender pela arqueologia.

Por exemplo, temos:
  • A misteriosa Nan Madol (recentemente na UNESCO WHL) foi uma cidade ou centro cerimonial e político de uma dinastia reinante na Micronésia (Séc. VIII a XII). As ruínas exibem ainda particularidades que a fizeram ser chamada "Veneza do Pacífico".

12 comentários:

  1. Ahhh também tinha reparado na semelhança do "ante".
    Chamo atenção para um pequeno detalhe insignificante. Onde diz "Ali, o peixe acabou por perecer, tendo ficado, como marca no local, um recife e ilhas." deve se ler pássaro. Para mim essa é a verdadeira sabedoria;o equilíbrio de viver em harmonia com a natureza e com o próximo. Pelo que conhecemos da natureza humana o atingir essa sabedoria é uma utopia. Cumpts. JR

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    1. Tem razão. Foi um lapso da minha parte que já corrigi. Obrigado!

      Quanto à utopia, digamos que a natureza obrigou a que os animais não pudessem ser pacíficos, a partir do momento em que incluiu uns na dieta de outros, ou ainda antes, quando definiu uma competição para acasalamento e comida.

      Ainda que o caso humano tenha contornos mais complexos, encontra nas restrições ao acasalamento e à comida, a origem da maior parte dos dramas animais.
      É claro, a natureza foi ainda mais cruel, dando vida com o pressuposto da morte... e programada, caso escapasse a todas as outras formas.

      Mesmo o desejo de poder, resulta de um desejo de ... impressionar o conjuge, sendo que nalguns casos, há um casamento com a comunidade.
      Aí não basta ser admirado ou desejado por um, mas sim por muitos. As comunidades têm muito de amantes, porque tão depressa elevam o seu ás ao píncaro, como são capazes de o esmagar se duvidarem da sua fidelidade.
      Há ainda o caso dos amantes do saber, ditos filósofos ou agora "cientistas", que na esmagadora maioria amam muito mais o reconhecimento da comunidade.

      Esse caso de amar ideias, e não a sua posse, é uma particularidade muito humana e já está suficientemente desligada do aspecto animal e material.
      Incluiria até a religião, se esta não se resumisse normalmente a uma ímplicita troca comercial de favores por obediência e devoção a divindades.

      Isto para dizer que as causas de desequilíbrio não são perversão humana, são uma herança natural... da natureza e da nossa condição animal. A vontade de combater esse desiquilíbrio natural é que já é uma vontade humana, que tem origem na religião, e em particular no cristianismo.

      Abç

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  2. Obrigado pela resposta.

    Eu nunca percebi muito bem até onde vai o "natural". Se somos como somos foi criação da natureza e assim tudo o que fazemos é natural? O plástico e o aço não são feitos de materiais naturais fabricados através de processos artificiais inventados pela inteligência que a natureza nos facultou? Tudo é natural portanto. Deus é apenas uma designação nossa para personificar a natureza? E o universo cabe dentro da natureza ou a natureza cabe dentro do universo. Não sei.

    Cumprimentos

    JR

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    1. É uma boa questão, que normalmente é descartada, podendo as coisas ser igualadas ou diferenciadas a gosto.

      A Wikipedia tem uma definição mais ou menos comum:

      Nature, in the broadest sense, is the natural, physical, or material world or universe. "Nature" can refer to the phenomena of the physical world, and also to life in general. The study of nature is a large, if not the only, part of science. Although humans are part of nature, human activity is often understood as a separate category from other natural phenomena.

      Quando falo em natureza ligo directamente à parte material, onde se podem inferir "leis", as chamadas "leis da natureza".
      As "leis da natureza" não fazem parte da natureza, são ideias, interpretação nossa, e fazem parte de algo mais largo que contém ideias abstractas, e o pensamento humano.
      É a isso que chamo universo (normalmente os cientistas chamam universo à concepção astrofísica que engloba toda a matéria).

      Os cientistas, normalmente de veia positivista, consideram que uma coisa se identifica à outra - porque todo o pensamento seria explicável por interacções neuronais, etc.
      Já expliquei aqui que tal concepção é curta, e as noções abstractas transcendem (em muito) tudo isso.

      Talvez volte a falar disso no OdeMaia, para explicar qual a é a "essência da vida", coisa que já planeio fazer há vários anos... mas acabo sempre por achar que não vale a pena chatear-me!
      Como tenho uns dias descansado, talvez o faça agora.

      Que Deus se identifica à natureza, ou melhor ao universo, é a concepção de Espinosa.

      Para o que interessa à discussão, a distinção que fiz foi no sentido de distinguir a parte natural que está ligada ao "corpo", da parte humana que está ligada ao "espírito". Talvez assim fique mais claro.

      Abç

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  3. Pois, a promiscuidade entre os termos é enorme.

    Penso de forma oposta. Quando satisfeitas as necessidades básicas e naturais o utópico seria atingível e daí vemos tubarões a nadar em aquários com peixes que se fosse noutra situação serviriam de refeição. Uma vez que mantém o tubarão bem alimentado este não ataca os peixes. Com o homem é diferente porque mesmo com as necessidades básicas e naturais satisfeitas deseja sempre mais. Viver em harmonia com a natureza não significa que não exista predadores e presas, isso desiquilibraria a própria natureza mas nós precisamente por razões de espírito humano abusamos dos nossos recursos naturais ao ponto de desiquilibrarmos o meio ambiente. Olhe não sei somos um poço de contradições. Fico a aguardar o tal posto.

    Cumpts

    JR

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    1. Sim, mas repare no que escreveu:
      "Os tubarões nadam em aquários com peixes que se fosse noutra situação serviriam de refeição"... se estiverem alimentados, ou seja, se forem "artificialmente" alimentados por humanos.
      A natureza não lhes dá a hipótese de sobreviver sem liquidarem outros.
      Nesse caso são os humanos que matam os peixes que lhes servem como refeição, apenas para deixarem os outros em paz. É claro que os aquários teriam outro tipo de freguesia se os tratadores não assegurassem essa "paz".

      Sim, há um desejo incessante humano, mesmo asseguradas as necessidades naturais.
      Isso não é um defeito, porque os humanos adquiriram um tipo de fome diferente.
      Ou seja, a priori, não se satisfazem com menos do que tudo.
      Só por conformação se vão habituando a ser mais comedidos.
      O ego humano tem boca para engolir o universo inteiro, mas não tem cabeça suficiente para perceber que, depois desse gole, nada mais teria para comer.

      Abç

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  4. Bom dia,

    O aquário serviu apenas para reduzir o universo de exemplos. Em qualquer ambiente livre os animais de barriga cheia não caçam só por que sim e mesmo assim referi que essa caça tem de existir para manter a balança natural equilibrada. A partir desta premissa é que na minha perspectiva é precisamente o espírito humano ao superar as suas necessidades básicas por mera ganância que desiquilibra a balança e impede a tal "utopia". Acho que assim me expliquei melhor. No entanto eu percebo o que quis transmitir. A capacidade de perceber o "erro" e a tentativa de o emendar é uma característica só nossa.

    Até daqui a uma semana. Vou para as banda da verdadeira egitania.

    Cumpts

    JR

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    1. Bom dia,

      https://www.youtube.com/watch?v=2F4TPRVA4Dk

      Não poderia faltar...

      Cumpts,

      JR

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    2. Em troca:
      https://alvor-silves.blogspot.com/2010/10/egitania.html

      Não tive ainda ocasião de visitar Idanha, mas aquela porta lateral triangular na igreja, com a esfera armilar parece-me bastante estranha.

      É curioso que Egitânia também foi nome associado à Guarda, e ainda que haja quem refira o rei visigodo Egica, estou claramente mais sintonizado para a versão de JHS que reportava ao nome romano Igaeditanorum, mas não faço ideia se vinha de algum culto antigo a uma divindade de nome "Igaeda" depois "Santo Igaedo".

      Abç

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    3. Penso que foi noutro programa do JHS mas também em Idanha que este explica melhor a questão do porquê chamarem egitanienses aos habitantes da Guarda. A razão prende-se exactamente pela deslocação do Bispo e diocese da Egitânia para a Guarda e este ter mantido sempre essa mesma denominação. Foi por isso que no outro comentário lhe disse que iria para as bandas da "verdadeira" Egitânia em contraposição à "falsa" que seria a Guarda. Visitei Idanha-a-Velha no ano passado, neste fui a Monsanto e a Penha Garcia. Toda aquela zona é lindíssima e a paisagem agreste de serras, penedos, bosques, remetem-me para um sentimento de pertença, de origem. Tenho adorado todo o Portugal que visitei mas a zona interior das beiras tem algo de primitivo, original e inicial que me toca sempre muito.

      Ab

      JR

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    4. Sim, eu vi, é neste programa. É algo que tem sentido.
      Na ponte de Alcântara estão mencionadas os diversos povos da área, com destaque para os Igeditanos. Esse nome designaria os beirões, e é natural que a sua cidade principal tenha passado para a Guarda por altura da reconquista, o que de certa maneira era o equivalente, na época, a ter a sede do bispado.
      Parece-me que pode ser o mesmo tipo de situação que ocorreu com Porto-Cale, em que o nome da cidade de Porto-Gaia reunia a designação para os habitantes do condado Portucalense. Também tivemos isso com a Bética que estava associada a Betis (Sevilha).
      É claro que estas coisas têm múltiplas nuances (há quem ainda defenda que a verdadeira Egitânia era a Guarda), e não perdi ainda o tempo suficiente para investigar a possível origem dos nomes, até porque não há elementos disponíveis suficientes, e não creio que tenha havido apenas uma razão comum de origem.

      Abç

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