segunda-feira, 9 de março de 2020

Cara ou corona?

Estando instalado um certo "estado de sítio" devido ao corona-vírus, convém lembrar algumas coisas.

1) Que este caso lembra uma das situações catastróficas previstas há muito. 
Enquanto bicho de tamanho médio, o Homem acaba por ser vítima impotente de fenómenos muito grandes ou muito pequenos. De entre os fenómenos apocalípticos, a possibilidade de colisão com um grande corpo celeste, foi um medo alimentado, e a possibilidade de propagação descontrolada de uma doença letal, vinda da mais pequena bactéria ou vírus, era outro dos medos clássicos.

2) Medo clássico, porque existe desde o tempo em que a Peste Negra dizimou milhões de almas na Europa (ou na Eurásia). Questiona-se, aliás, se uma predisposição para o Renascimento não terá resultado de uma Europa em crise de valores cristãos, após as mortes ocorridas entre 1347-51, altura em que ocorreu o pico do número de mortes.

Excerto do quadro de Pieter Bruegel (~ 1562) "o triunfo da morte".

A questão principal é que nas últimas décadas ocorreu uma mudança de comportamento social, que até aqui não tinha encontrado pretexto para se afirmar, para se implantar.
Com efeito, com a rápida implantação da internet e do telemóvel como meios cruciais de informação e de actividade social, não seria difícil de antever que a sociedade se foi preparando para um caso de isolamento, ao ponto de este não ser visto como uma pena temível.

Uma boa parte das interacções ocorre através dessas "redes sociais", chegando ao ponto de termos pessoas reunidas prescindindo de comunicar entre si, no espaço físico, porque estão mais interessadas na comunicação no espaço virtual. Uma boa parte dos trabalhos terciários pode ser feita isoladamente num ambiente ligado à internet, já que existe ainda esse acesso a lojas virtuais. Mas para além de supermercados ou livrarias virtuais, a própria alimentação, que já conhecia a pizza motorizada, recentemente alargou-se o espectro, com a chamada "uber eats".

Fez-se assim um mundo que estava praticamente pronto para um certo isolamento, não ao ponto de "surrogates", mas já com algum grau de independência da necessidade de deslocamento.
Seria possível passar da sociedade do Séc. XX, que inventou o turismo de massas, e apresentou o transporte pessoal como forma comum de deslocamento, para uma nova sociedade em que o deslocamento é desnecessário? 

Na prática, no final deste processo viral, ficará claro que as escolas podem ser substituídas por ensino à distância, que uma parte significativa da população poderá trabalhar em casa, que não é preciso que as pessoas se desloquem a centros comerciais, e que as compras podem ser trazidas até si, etc...

O que ficará claro é que numa situação de pandemia ainda mais perigosa, que se poderá colocar, seria melhor ter uma organização social mais localizada e menos alargada. O perigo de propagação não seria apenas de um qualquer vírus, mas tanto mais de uma qualquer ideia. Cidadãos mais circunscritos e limitados no seu raio de acção, são cidadãos cujas acções, mesmo descontroladas, podem ser contidas e tratadas no "foco da doença".

Ou seja, o que esta pandemia de gripe deixará claro é que o contacto cara a cara passará a acto perigoso face à mais saudável interacção no verso e reverso, coroa a coroa, com a distância assegurada pelos filtros sanitários adequados.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Sal-Gema & Ossa

Perto de Loulé há uma mina de sal-gema agora aberta à visita turística:


A mina com 50 anos, atinge os 230 metros de profundidade, está abaixo do nível do mar, sendo ainda mais estranho ter 45 Km de extensão de túneis. Normalmente não são associadas coisas desta dimensão a Portugal, e muito menos com o intuito de ir buscar sal-gema. Pela minha parte, conhecia bem o caso de Rio Maior, mas desconhecia este jazigo em Loulé.

De entre as fotografias agora reveladas, apareceu a seguinte escultura de mãe e filho:
Escultura em alto-relevo num corredor da mina (ANIET)

Terá que pensar-se que ao longo destes 50 anos algum mineiro, mais artístico, terá acabado por sinalizar na rocha escavada uma imagem a que depois terá dado a forma vista. Não é uma forma muito perfeita, nem imperfeita, mas não seria o resultado expectável numa mina de sal-gema.
Não sei mais sobre o assunto, simplesmente achei curioso.

Achei curioso, porque quando se exploram minas, poderá acontecer sempre aparecer um desenho ou uma escultura que já lá estava, mas que por força do contexto, foi certamente divertimento posterior.
Veja-se por exemplo, o caso de Maastricht, de que já falámos.
Neste caso, nem sequer há direito a dúvidas, porque todos os túneis serão artificiais e recentes, mas o mesmo já não se poderá dizer de situações mais ambíguas...

Vénus e Cúpido foram sempre imagens emblemáticas da antiga mitologia nacional, e como não parece que as figuras tenham sido cobertas com roupa puritana, será de excluir a vertente católica do menino e madona.

Lembra-me este assunto a descrição na Crónica dos Eremitas da Serra de Ossa, onde Frei Henrique de Santo António fala da grande quantidade de cavernas desse local, que estaria na origem dos anacoretas primordiais.
(...) refugiando-se como em castelo seguro, e fortaleza inexpugnável, nas brenhas, e grutas da Serra de Ossa; cuja suposição é verdadeira, e igualmente recebida dos Historiadores, e muito conforme às notícias dos nossos cartórios e às verdades das nossas tradições.
Refere ainda a possibilidade de aí se ter refugiado Viriato...
(...) onde não há monte, nem serra, em que se possa esconder, nem fortificar uma companhia de soldados, quanto mais um tão numeroso exército, como trazia Viriato, com que pelejou, e venceu todo o poder dos Romanos, que governava Plaucio, sendo a Serra de Ossa em tudo acomodada ao intento, e onde se divisam ainda hoje os alojamentos, que fez Viriato no monte de S. Gens, e aparecem os vestígios, que são tão grandes, e capazes, que dentro deles se podia alojar um exército de mais de quarenta mil homens, com toda a sua bagagem
Mas, talvez mais característico, seja o relato da destruição arqueológica:
(...) e fraldas desta serra, cujos sítios conservam ainda hoje os nomes das ditas Antas. Dentro da cerca do nosso Convento da Serra esteve um, que eu ainda alcancei, tão grande, que o Reitor, que era então do dito convento, mandou contra o meu voto derrubar para se aproveitar muita da pedra, que tinha, ficando aí de presente a cova, donde se tiraram as pedras, e juntamente sinal das cinzas, e carvões de fogo, com que se faziam os sacrifícios; e da outra, que estava fora da cerca, persevera uma porta da mesma cerca, que se chama a Porta da Anta.
E finalmente, ligando à questão de Vénus e Cupido:
De mais disto sabemos, que à vista do templo de Vénus estava num cerro alto fundado o templo de Cupido tão visitado, e venerado dos antigos Lusitanos, com o nome de Endovélico, que hoje se lê em algumas pedras daquele tempo; e consta, que  este templo de Cupido, que fundou Maarbal pelos anos 340 antes da vinda de Cristo, esteve no outeiro da Vila de Terena, que fica junto da Serra de Ossa, e à vista da Serra de S. Gens. O ídolo era de prata, tinha os olhos cerrados, um coração na boca e asas nos pés. (...) 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Navios encalhados em desertos

Uma situação razoavelmente estranha será encontrar navios encalhados em terra, longe do mar.
Imagem emblemática dessa temática, será a do filme "Encontros imediatos do 3º grau", de Spielberg (1977), em que o Cotopaxi (navio perdido em 1925 no Triângulo das Bermudas) seria encontrado no meio do Deserto de Gobi (China/Mongólia).

Com efeito, há poucos dias, surgiu a notícia de que o Cotopaxi teria sido agora encontrado no fundo do mar, na área do Triângulo das Bermudas:


Bom Jesus 1533
Vem este assunto também na sequência de ter sido encontrada a carga do navio Bom Jesus em 2016, na Namíbia, e da controvérsia (sinalizada nos comentários de J. Ribeiro e J. M. Oliveira) do governo português, de António Costa, ter prescindido por completo desse tesouro, entregando tudo à Namíbia.
Tesouro do navio Bom Jesus incluía moedas de ouro no valor de 13 milhões de dólares,
foi doado pelo governo português à Namíbia (FOX-News).
(Moeda de Fernando e Isabel, reis católicos) 

O navio está declarado no livro de Lisuarte de Abreu, no ano 1533, como tendo sido capitaneado por D. Francisco de Noronha, e ter-se-ia perdido na viagem da Armada para a Índia.
Livro de Lisuarte de Abreu - em baixo "dom fcº denoronha q se perdeo"

Conforme se pode ler no artigo da Fox-News ("500 year-old shipwreck loaded with gold found in Namibian desert"), apesar do navio pertencer a Portugal, o governo socialista prescindiu de todos os direitos:
And in this case the ship belonged to the King of Portugal, making it a ship of state – with the ship and its entire contents belonging to Portugal.  The Portuguese government, however, very generously waived that right, allowing Namibia to keep the lot.”
Para além do desprezo e facilidade com que o governo socialista prescinde de toda a recordação do navio português ali perdido, como se houvesse peçonha no nosso passado, há mais curiosidades.

Uma delas é que o navio foi encontrado por mineiros da De Beers, a conhecida companhia holandesa de diamantes que explorava a zona de Oranjemunde. Ou seja, este navio foi já encontrado enterrado no deserto, ainda que perto da costa, onde terá encalhado. 
Esta situação faz ainda lembrar o caso das Âncoras Suiças, aqui abordado.

Eduard Bohlen
Mas podemos ainda encontrar na Namíbia um outro caso, de um navio mais recente, que avançou  400 metros para o interior. Trata-se do navio Eduard Bohlen, que naufragou em 1909 e ao fim de cem anos, houve um movimento de terras que o teria puxado para o interior do continente africano.
O navio Eduard Bohlen (1909) no deserto da Namíbia.

USS Wateree, Marjorie Glen
Um caso mais invulgar é o do navio USS Wateree, de 1863, que estava ao largo do Peru, perto da cidade de Arica, actualmente no Chile, quando um maremoto o terá levado também 410 metros para o interior do deserto chileno (antes peruano).
 
Resto do USS Wateree no deserto chileno (à esquerda). Resto do Marjorie Glen (à direita).

Ainda na América do Sul, um outro caso conhecido é o Marjorie Glen, que em 1911 encalhou na Argentina, em Rio Gallegos. Avançou em terra, e actualmente está afastado alguns metros da costa:

Mar Aral
Uma situação invulgar aconteceu com o progressivo desaparecimento do Mar de Aral. Os barcos e navios que aí se encontravam passaram a formar um cemitério de navios

Desaparecimento do Mar de Aral - cemitério de navios.

Este caso, poderia ainda ter ocorrido noutros lagos, rios, ou extensões de terra que foram assoreadas, e será um dos mais frequentes de "navios em desertos"...

Colorado
Há ainda uma história, que ficou como lenda, acerca de um possível navio no deserto do Colorado, conforme se encontra registado na wikipedia: Lost ship in the desert. Ver também DesertUSA, onde se pode ler
Implausible as it sounds, the wreck of an ocean-going ship 100 miles or more inland from either the Pacific or the Gulf of California, the story has persisted for centuries in reports from Indian peoples, Spanish explorers, prospectors, migrants and treasure hunters.
Haverá mais casos, mais ou menos vulgares, mais ou menos explicáveis, em que navios aparecem fora do seu habitat natural, por exemplo, arruinados no meio de um deserto.
Se estes casos aconteceram num passado recente, também seria natural que tais vestígios fossem encontrados em passado mais remoto. No entanto foi informação que se perdeu...

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Leão da Estrela, Lagarto da Penha.

Por mero acaso, encontrei um certo "Leão da Estrela", bicho exposto enjaulado em 1873, que era descrito como estando a fazer furor nas atenções dos lisboetas.
Achei interessante a coincidência do nome com o nome do filme de 1947 de Arthur Duarte, protagonizado por António Silva, onde aí a referência ao leão se tomava por ser adepto do Sporting.
Passados 75 anos entre uma coisa e outra, não me parece ser acidental a escolha do nome.

A referência e ilustração está num Diário Ilustrado de 1873
onde é aí dito que este leão exposto já fazia esquecer o Lagarto da Penha.
Não deixa de ser curioso juntarem-se aqui os dois animais associados ao mesmo clube, e também é interessante o redactor se queixar : "N'este nosso tempo de estatísticas a propósito de seja o que for...", talvez sem imaginar que esse tempo de "estatísticas avulsas" estava a começar, para durar mais 150 anos, com fôlego para outros tantos.

O leão da Estrela, era assim um bicho em exposição, que nem seria talvez o primeiro. Há um Largo do Leão, em Arroios, que está referenciado assim desde 1817 (o que obsta a teoria de Castilho que associava o nome a uma cervejaria posterior). A razão para muitos deste topónimos perdeu-se, ou não quis ser encontrada...

Quanto ao Lagarto da Penha de França, há agora até um painel feito pela autarquia a lembrá-lo,
mas a lenda vai uns séculos mais atrás, aparentemente a um voto de um sobrevivente de Alcácer Quibir, António Simões, santeiro que aí morava, e atribui a sua salvação a uma Nª Srª da Penha, tomando a iniciativa de aí construir ícone e lugar de culto. Uma ligação a França, no contexto de Alcácer Quibir, será estranha ou nem por isso?
Archivo Pittoresco (Vol.6, 1863) - Igreja e convento de Nª Srª da Penha de França

Interessa, que a certa altura começou a falar-se do Lagarto da Penha, que dizem ter sido um jacaré esverdeado, de que se guardara o corpo, que se perdeu depois do Terramoto de 1755.

O escritor Francisco Xavier de Oliveira, mais conhecido como Cavaleiro de Oliveira, no seu livro impresso em Amesterdão em 1741, «Cartas familiares, historicas, politicas e criticas. Discursos sérios e jocosos.», dedicados à condessa do Vimioso, dá conta desse Lagarto da Penha. 

Primeiro, na carta 10, de Março de 1736, quando refere: 
"Informar da Cidade de Vienna a quem vive nella, he o mesmo que 
mostrar o Lagarto da Penha a quem ja o vio."

Porém mais estranha é a sua carta 49, que só se pode inserir como "Discurso jocoso", ainda que ele argumente da sua seriedade, ao mesmo tempo que dá conta em Lisboa, de uma família de Gigantes, e quatro animais gigantes, sendo um deles o Lagarto da Penha de França:

Carta XLIX

À Senhora Condeça de Brille, a respeito dos Gigantes.
Exaqui huma materia sobre a qual se podem faser grandes discursos, por assentarem em huma qualidade de gente que pode com tudo.
Perguntais-me se houve no mundo Gigantes?
Digo-vos que não somente os houve porem que ainda os ha.
Na Cidade de Lisboa, que he a minha Patria como sabeis, estabeleceo-se huma familia delles que consta de marido, molher, e filho.
Não sey verdadeyramente da onde são naturaes, porem quanto a mim forão todos tres formados naquella Cidade, e ignorando os annos em que nascèrão, e outras circunstancias que deyxo à parte, he certo que os conheci naquella Corte desde que me entendo, e que os amey tanto emquanto me entendi mal, que nao deyxey de os ver nas poucas occasioens que aparecião em publico, que era huma vez cada anno em dia certo, rasão porque he constante esta verdade a muitos Estrangeyros, havendo aqui dous Alemaens que ja me me disserão que os virão, e tambem me parece que disserão que lhe tinhão fallado do que nao duvidey, porque se os Gigantes ainda que Portugueses fallao alguma Língoa hade ser precisamente a Tudesca.
Quando sahi de Lisboa em 1734, havia ja alguns annos que os não tinha visto, porem sabia que se conservavão, e creyo que ainda hoje existem, nao sahindo das suas casas por se acharem muito velhos, e muito acabados. Cada hum delles teria pouco mais ou menos vinte e quatro pes de comprimento, e lembra-me que erão muito bem parecidos, principalmente a Senhora Gigante, a qual deve tanto à memoria da minha meninice que a conservo retratada na minha lembrança presentemente. Cada hum delles no dia em que havião de passear por certas ruas da Corte que lhe estavao determinadas, engolia hum homem pella parte inferior, e sem este sustento nao era possivel que dessem hum so passo. A Gigante sem embargo de ser muito mais delicada do que os dous Gigantes, metia em si hum homem dos mais robustos, com a mesma facilidade com que nos metemos na nossa boca huma aseytona de Italia, ou huma passa de Alicante.
Crede o que vos digo, porque segurando-vos que sou testemunha de vista de todas estas cousas, bem sabeis que não sou costumado a mentir, nem a enganar pessoa alguma, e muito menos as da vossa concideração.
Na especie de animaes tambem ha Gigantes em Portugal, e entre outros que não nomeyo por serem muy conhecidos, vos fallarey de quatro que vi muitas veses em diversas occasioens na mesma Corte de Lísboa, que he onde existem os mayores.
O primeyro chama-se Lagarto; mora na Penha de França, e por querer huma vez comer hum homem o prenderão com huma cadeya de ferro ao lugar em que se acha. Conserva-se pendurado ha muitos annos sem comer, nem beber, nem andar, sendo de todos os Gigantes o que he visto dos Nacionaes, e dos Estrangeyros em todos os dias se elles em todos os dias o querem ver. Eu o vi muitos annos em todos os Sabbados, e juro-vos que foi diligencia a que não sabia faltar se algum impedimento muy legitimo me não embaraçava.
O segundo chama-se Drago, porem o vulgo para lhe agigantar tambem o nome lho acrescenta chamando-lhe Adrago. Esquece-me onde mora, porem he certo que assistio sempre na Corte, onde passeava em publico huma vez no anno no mez de Mayo, ou de Junho, e sahindo logo depois a tomar os ares duas legoas fora de Lisboa se recolhia outra vez a sua casa. Em cada huma destas occasioens que sahia, metia no corpo dez ou dose homens, condição sem a qual era impossivel que se arrastra-se. Cuidareis à vista do que vos digo que fomos Povos barbaros, e tyranos, que obrigamos por força a que sejão estes homens engolidos pellos Gigantes. Não Senhora, não ha tal.
Haveis de saber que estes taes homens não são violentados ao suplicio, porem que elles mesmos se oferecem por seu gosto tendo-se por ditosos os que sao preferidos para o sofrer, sendo certo que se os ditos Gigantes necessitassem de mayor sustento que nunca em Lisboa faltarião homens da qualidade, e do genio de lho darem à custa, e a pesar dos seus proprios corpos. Direis que fomos injustos no consentimento que damos a este desatino. Digo-vos que não, porque a ley que o permite he muito justa, dispondo este uso em prova do grande animo, e valor dos homens inclinados a semelhantes acçoens', com o exemplo das quaes, e de outras semelhantes que vos não refiro, se multiplição em tal forma os homens desta inclinação, que ha muitas Praças em Lisboa cheyas delles, expostos com toda a resolução para sustentarem qualquer Gigante que apareça, e que se queyra servir do seu prestimo, socedendo ja algumas veses que jogarão as pancadas huns com outros querendo cada hum delles alcançar o primeyro lugar.
Sey que tudo isto vos hade parecer impossivel, porem empenho a minha palavra, e digo-vos que he verdade. Este dito Gigante tinha tantas varas de comprido, e outras tantas de largo, e essa porque não quero mentir, era pouco mais ou menos a medida da sua notavel grandesa. Humas veses se lhe descobrião vinte pes, outras veses menos, e outras veses mais: com todos elles andava com muita pausa, e com muito vagar a respeito da sua corpulencia, que o obrigava a descançar diversas veses no pequeno passeyo que o obrigavão a faser.
Ouvi diser que este Gigante se fisera em pedaços algumas veses, e que se tornara a formar, porem he cousa que nunca vi, e se a creyo he porque assim me foi dita por muixtos homens verdadeyros, e dignos de se que presenciarão o caso. Segura-se-me agora que se desfez de todo, e sem remedio o dito Gigante, porem espero que ainda quando isso seja certo, dure a sua memoria em muitos annos, da mesma forma que se conservou o seu corpo em alguns Seculos.
O terceyro Gigante he do genero femenino, e chama-se Serpe. Não sey que parentesco tinha com os Alfayates, ou com os Çapateyros, porem sey que elles cuidavão do seu trato dando-lhe os vestidos, e os çapatos com que havia de aparecer nas funções publicas, que erão as mesmas que fasia o Drago. Morava a dita Serpe debayxo de hum Arco que fica pouco afima da Padaria, e senão morava alli dalli he que sahia, sendo eu testemunha de a ver compor naquelle lugar alguns annos, cousa que se executava com muita descompostura, vestindo-se, e despindo-se no meyo da rua à vista de todo o mundo com grande assistencia de rapases, e tambem de alguns homens a que chamamos barbados. Como a vi algumas veses nua, posso-vos diser que não tinha mais do que os ossos, pois que sobre elles nem pelle tinha. Ainda que magra era da mesma grandesa do Drago, o qual em materia de gordura lhe não excedia, porque alguns rapases do meu conhecimento que o virão despido me segurarão que parecia huma figura de pãos secos armados no ar.
A Serpe para poder andar engolia o mesmo numero de homens, marchava tambem sobre vinte, ou vinte e quatro pes, porem huma vez que estava vestida era de si mesmo muy composta, e raramente os mostrava sendo muy grave no seu passeyo.
Esta Gigante era bastantemente fermosa, porem quando se ria, a modo das molheres que querem mostrár os bons dentes que tem, descompunha tanto a boca que se desfeava inteyramente, e fasia medo a todo o mundo. Não sey se vive, po emquanto à sua memoria ha de ser tão duravel como a do Drago.
Tenho minhas lembranças de ouvir diser, que esses dous Gigantes produsirão humas certas filhas chamadas Tourinhas, de que tenho pouca lembrança, e ainda que as vi algumas veses como me parecerão mais monstros do que Gigantes, julgo que não tem aqui lugar a sua noticia; e como não estou certo em que as ditas Tourinhas fossem verdadeyramente filhas da Serpe, fallo nesta materia em duvida sem intenção de levantar testemunhos, nem de perder o credito a quem quer que seja, e muito menos a Serpe a quem todos fazião muitas mesuras, e a quem eu sempre tive tanto respeito como a todas as mais creaturas do genero femenino, importando-me pouco a curiosidade de que fação ou não fação filhos, sabendo que essa he a sua obrigação, e sabendo que neste mundo cada hum he para aquillo para que nasceo.
O quarto Gigante animal Portuguez, he hum Bogio marítimo, que nasceo, que se conserva, e que vivira ainda muitos annos entre as agoas que o Rio Tejo mistura com os do Mar a que se chama largo, e que achey por experiencia propria que era igualmente comprido. Chama-se o Bogio da Barra. De todos os Gigantes de que tenho fallado este he o mayor, o mais bem posto e o mais bem formado.
Estima-se tanto que se lhe da sempre por Governador huma pessoa de grande destinção. He Bichinho a que mil homens não farão o papo quando elle os comesse, porem elle em lugar de se sustentar com homens os sustenta a elles, e os defende, alimentando-se somente de polvora, e de ballas de todo o calibre, que sendo hum gasto muito grande se faz por conta da Fasenda Real. Tem tido diversas pelejas com outra qualidade de Gigantes marinhos que intentarão entrar no seu dominio, mas sem efeito, tendo ele mostrado em todas as occasoens que he o mais forte.
Defende-se às pedradas, e às pelotadas, e tendo muitas bocas que continuamente estão cheyas, em se offerecendo inimigo à vista começa a vomitar por todas ellas fogo, e ballas em tanta quantidade, com tanto ruido, e com tanto estrago dos contrarios, que parece sem mais, nem menos que descarrega ao mesmo tempo immensidade de peças de artelharia. Huma vez que elle estava neste exercicio perguntou hum Estrangeyro em Lisboa, de que procedia o grande ruido que se ouvia? Disserão-lhe que era o Bogio que estava soprando.
Sopra com o bichinho, respondeo o Estrangeyro, e tem este animal alguma Bogia com quem faça criação, perguntou ao mesmo tempo?
Disendo-se-lhe que não, porque he a verdade, exclamou assim o Estrangeiro:
Oh pena! Grande bem seria para este Reyno que se descobrisse huma Bogia com quem este animal Gigante podesse faser propagação, porque he certo que com ela faria o Reyno de Portugal respeito a todos os do Mundo.
Todos os Navios que sahem, e que entrão no Porto de Lisboa lhe fasem grandes cortesias, e reverencias, e se algum intenta passar para fora, ou para dentro sem sua vontade, e sem sua licença pode-se contar por perdido, porque o Bogio em hum abrir, e fechar de olhos o pode derrotar inteyraménte, e mesmo meter no fundo se quiser. Prouvera a Deos que ele destroçasse aquelle em que eu sahi de Lisboa, e que isso me obrigasse a ficar para sempre na querida Patria, que sustentando tantos, e taes Gigantes he sempre mais bella terra do que as outras em que tenho encontrado com tantos, e com taes Demonios, semelhantes àquelles de que vos tenho feito bastantes queyxas:
À vista do referido parece-me que podeis mostrar que ha Gigantes, aos mesmos que duvidão de que os houvesse, e supondo que tenho satisfeito assim à ordem que me mandastes, acabo a Carta com pressa para hir satisfaser promptamente outra ordem, que agora recebi para, me achar pelas tres horas em Gupemdorf. Ja me entendeis, basta, e a Deos que vos guarde por muitos annos.
Vosso, e nosso.
Vienna de Austria, 30 de Novembro de 1736.
F. X. D. O.


A forma de entender esta carta que foi publicada em Amesterdão, apenas parece ser a de um sentido figurado, jocoso, onde talvez tenha visto como "gigantes" as companhias de soldados, nomeadamente as que protegiam o Forte do Bugio.
Mais tarde, e a propósito do Terramoto de 1755, publicou o 
Discours pathétique au sujet des calamités présentes, arrivées en Portugal
e o Cavaleiro de Oliveira viu-se perseguido pela inquisição e nunca mais regressou a Portugal, tendo sido punido em imagem.

__________________________
Nota de J. Ribeiro (03.02.2020):
Relativamente à semelhança deste registo do "Lagarto da Penha", João Ribeiro fez referência a um de outros casos que aparecem documentados nas lendas populares sob a designação de "Sardão":


Lembrando a ligação ao antigo culto à serpente destas paragens sob o nome de Ofiússa:



segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A questão dos qu'estão (3)

Qual o nosso papel nesta peça?
... ou dito de outra forma, qual é o sentido da vida?

Numa perspectiva hedonista, que tem sido dominante no último século, o objectivo humano será alcançar uma certa "felicidade", mal definida. Como assim visa o auto-prazer, trata-se quase de uma motivação erótica, aplicada ao indivíduo, ou menos egocentricamente, à humanidade. 
A perspectiva hedonista, que se associa a um materialismo, é quase um desejo orgásmico, semelhante ao das criaturas que perecem imediatamente depois de se reproduzirem (p.ex. o polvo)... no entanto, sem estar ligado ao aspecto de uma reprodução sem limites, a perspectiva hedonista só encontra sentido na ausência de sentido da existência, um certo nihilismo.

Numa perspectiva mais religiosa, o papel humano está intrincadamente ligado à divindade, e no caso católico, à salvação no julgamento divino, conduzindo a um paraíso, em vez de purgatório, ou pior um irremediável inferno. Escondido, está o mesmo objectivo final, de chegar a uma felicidade eterna, como se fosse um regresso à infância, com um Pai protector a zelar pela brincadeira no recreio (aliás praticamente só é garantida entrada directa no paraíso a inocentes criancinhas).
 

Ora, acontece que é nulo o interesse universal em definir seres felizes, ou satisfeitos consigo mesmo.

Aqui, voltamos ao princípio antrópico. Há necessidade lógica de um universo formado conter a explicação da sua existência em si mesmo... porque não há mais parte nenhuma onde ela possa estar.

Para haver existência é preciso "olhos" que vejam o existente. 
Mas aqui é preciso perceber o que são estes "olhos"... não se trata de fazer uma reprodução do já existente. Aliás para esse efeito, desde logo a natureza teve sempre réplicas perfeitas, começando pelo processo de mitose, na divisão celular. 
Quando o que vê é igual ao que é visto, ambos vêem o mesmo, ou seja, nada... 
Os "olhos" de que aqui falamos trazem uma interpretação inteligente.
Só quando conseguimos classificar o que vemos a alguma forma abstracta, quanto mais não seja pelo número, só aí lhe estamos a dar existência. 
Porquê?, porque noções abstractas, como os números, são eternas, intemporais e universais, quando identificamos algo a essa noção abstracta será como dar-lhe uma "benção eterna", neste caso a benção da existência, que também é representada pelo número 1, na sua individualidade.

Há imensas coisas que não conseguimos individualizar... esse tem sido um progresso constante de conhecimento. Individualizar não é sempre dissecar no específico, é muito mais vezes agrupar numa categoria, tipo ou conjunto. Só quando conseguimos reconhecer uma unidade em coisas distintas é que lhe conseguimos dar existência, por vezes através de uma palavra simplificadora. Por exemplo, as ondas de rádio terão sido algo completamente imperceptível ao olhar humano, que estava apenas sintonizado para captar a luz visível. Quando se conseguiu juntar todas as ondas electromagnéticas numa única teoria da luz, de Maxwell, os olhos foram mais longe, e pouco depois entrámos nesta era de telecomunicações.

Assim, percebemos que há um interesse universal subjacente à nossa existência.
No entanto, para granjearmos existência a outrém, precisamos de assegurar a nossa existência, e só foi conseguido quando o primeiro hominídeo reflectiu sobre si mesmo. Quando? Não sei, mas aparentemente antes do "conhece-te a ti mesmo" ser afixado no Templo de Delfos.

Para vermos que não estamos sozinhos nesta matéria, basta reparar que procurar a verdade pode ser tortuoso, mas sabê-la, ou pelo menos encontrar um nexo nas coisas, é recompensador e satisfatório.
Haverá quem procure afastar-se da realidade, com ou sem alucinogénios, mas isso traz um preço pesado associado. As situações absurdas podem ser trágicas, mas é também inerente aos humanos rirem-se do absurdo... não tanto por ocorrer, mas por se darem conta da impossibilidade, ou da improbabilidade, associada.

Acresce que, ainda que a sociedade reprima o humor negro, ou de certa forma uma capacidade de transformar dor em prazer, coisas vistas como tendências sado-masoquistas, há um capacidade de entendimento que vai além do expectável na nossa natureza, que normalmente será vista como absurda... mas também é aquilo que nos permite contornar situações quase incontornáveis.

Assim, e respondendo à questão inicial, o nosso papel é o de espectadores, que inevitavelmente são chamados a ser actores, porque não há distinção entre o palco e a plateia. A dor é normalmente o que nos chama ao palco, mas em qualquer circunstância, é possível distanciarmo-nos o suficiente de nós mesmos, para vermos o nosso personagem apenas como mais um elemento da peça. Fazendo isso, despindo todo o pesado contexto envolvente, é mais fácil relativizar ou inverter as coisas.

No entanto, ainda que nos saibamos espectadores, temos um papel único... que é ser críticos da peça em cena. Convém não esquecer que o objectivo supremo, e inalcançável, será o entendimento dentro do próprio universo. Nesse aspecto somos elementos importantes para discernir esse nexo. Podemos dizer que a apreciação de cada um é igualmente importante, mas isso seria o mesmo do que considerar que a apreciação crítica de um trabalho complexo não depende do conhecimento que se tem sobre o assunto em causa. 

Podemos assim ver o papel da humanidade como testemunha da obra criadora do universo, visando uma melhor compreensão da sua perfeição. Ao fazê-lo, dominará cada vez melhor as suas peças, e poderá contornar limites antes impostos naturalmente, em direcção a um mundo mais moldado à sua medida, e menos à sua condição nata. Sempre que o fizer afastando-se da realidade envolvente, da visão de si mesmo e dos outros, estará trilhando um purgatório, cujo inferno é o absoluto isolamento. Digamos que temos direito ao recreio, se aprendermos a criá-lo e partilhá-lo em conjunto.
Por inevitabilidade, uma espécie inteligente está condenada a isso, só não é claro que seja a nossa.

domingo, 26 de janeiro de 2020

dos Comentários (59) - Tradição e Tradução.

O principal deste postal será recuperar uma questão antiga sobre "outra inteligência", ou de que forma nos seria inteligível uma inteligência estranha (por exemplo, alienígena, ou extraterrestre).

Desde já, dois comentários que se inserem na tradição e património nacional:
  • José Manuel de Oliveira comenta o tesouro da nau Bom Jesus, com link para programa da RTP (2016). Trata-se de um tesouro que está em museu na Namíbia, e pelo qual o estado português manifestou pouco ou nenhum interesse. Inclui-se aí um astrolábio notável:
  • Amélia Saavedra menciona o romance de Fernando Campos, "A sala das perguntas", onde a propósito de uma ficção sobre Damião de Góis, atribui autoria do poema Adeste Fideles. 
  • Aqui convirá dizer que, como as primeiras pautas surgem numa notação musical antiga, não é de excluir que a composição pudesse ter origem mesmo no Séc. XVI.  Com efeito há um livro de 1780 (15 anos antes do hino ter sido tocado na embaixada de Portugal em Londres), em que Coghlan solicita subscrição para imprimir a música:
  • É neste tipo de pautas musicais, com origem em Guido de Arezzo, que foram escritas as músicas medievais, e análise de maior detalhe, na simbologia, permitiria até estabelecer uma data mais concreta para este tipo de partitura, que já estava ausente dos compositores europeus do Séc. XVIII (vejam-se as partituras de Bach, ou de Handel)
  • Segue-se então o texto de 2018, e que surge a propósito de outro comentário de José Manuel que se relaciona com o assunto da existência de inteligência ou entendimento diferente do humano. Na altura o texto ia com este título mas com o nº 36 "dos comentários".

_______________________________________________________
....................... 26 de Março de 2018 (draft) .......................

Numa conversa/discussão que decorreu há mais de um ano, e que o João Ribeiro encontrou de novo, deixei uma questão pendente:
- Poderá haver um tipo de inteligência diferente da nossa? 
Ou seja, a encontrarmos outra inteligência, com outra linguagem, haveria sempre uma tradução possível? 

Tinha pensado em fazer um postal sobre o assunto, mas acabei por me esquecer.
É uma boa altura de escrever mais qualquer coisa sobre isso.

Começo por remeter a uma questão de diferença entre duas palavras, mas transfiro o que tinha escrito sobre a sílaba "tra" para outro post, porque este não era aqui o propósito.

Tradução e Tradição
Começando com "tradução", mesmo do latim temos "trans"+"ducere" que significa "através" da "condução". Mas este sufixo "dução" refere-se mais a um "ducto", a um canal, estrada, ou passagem, por onde se conduzia. Neste caso, o ducto é o canal de comunicação, e numa tradução somos conduzidos por um canal que liga uma língua a outra.
No caso de "tradição", é remetido a "trans"+"dare", mas parece-me etimologia latina enviesada considerar o "dar", havendo "dictionem" que significa "dicção", que remete ao simples "dizer". Assim, tradição é uma passagem do que é dito, e a uma boa dicção vê-se sílaba a sílaba...

Há uma substancial diferença.
No caso da tradição é procurada uma passagem literal, muitas vezes procurando manter letra a letra, através dos tempos, e numa tradução é procurada uma passagem de ideias semelhantes, em línguas diferentes.

Os sons que ouvimos produzidos por outros animais, e que servem de comunicação entre si, são pouco significantes para nós. Ou seja, se foi possível comunicar com qualquer tribo humana, e por mais remotamente perdida que esta estivesse, foi possível encontrar tradutores para ser feita a passagem de ideias, no caso de animais essa tarefa ficou bastante mais complicada.
Com efeito, na maioria dos casos, o esforço para a tradução foi quase sempre feito no sentido dos outros aprenderem a nossa língua. Os indígenas nascidos com outra língua, aprendiam uma das línguas ocidentais, e serviam depois como tradutores.
Mas isso implica vontade e capacidade de aprender uma língua, algo que foi conseguido com os nativos face às línguas das potências colonizadoras, e só em casos raríssimos vemos qualquer vontade dos ocidentais em aprender uma língua tribal. Talvez a situação idealizada para entender linguagem de animais terá sido no romance de Tarzan, onde o pequeno fora criado pelos Mangani, uma espécie ficcionada, entre chimpanzés e gorilas.

A linguagem visa o entendimento... (... e não o desentendimento! )
O propósito da linguagem é uma comunicação, onde o receptor entende a mensagem do emissor.
Se o emissor se arma ao pingarelho, e usa terminologia que sabe que o receptor não entende, não visa a comunicação, nem o entendimento com ele.

Caso não se definissem noções semelhantes, o entendimento seria impossível, cada um teria a sua linguagem própria, ou antes, nem sequer faria sentido haver linguagem, porque não haveria interessados na comunicação.

O desentendimento é o ponto de partida, porque cada um de nós vê um universo completamente diferente. Como se fosse preciso testar o caso, a natureza coloca-nos a situação de gémeos, em que o ponto de partida é o mesmo, mas que pequenas circunstâncias fazem desviar para uma evolução que pode ser completamente diferente.
......................................................................

Não me recordo porque razão não continuei o texto, mas para além de eventual falta de tempo, ou de oportunidade, é também possível que o texto não tenha fluído com argumentos mais decisivos.

O ponto seguro, do qual parti, para afirmar que não haverá inteligência significativamente diferente da nossa, está na própria forma da linguagem, que está muito pouco, ou quase nada, relacionada com a nossa particularidade animal. É claro que "ouvir" se baseia nos ouvidos, "cheirar" no nariz, "ver" nos olhos, etc... mas até na forma como essas palavras são usadas figuradamente, nem sempre estão ligadas aos nossos sentidos.

Emerge o problema da origem da linguagem, ou melhor de palavras universais, que se aplicam a situações muito superiores, muito abstractas, e que só ligeiramente dizem respeito à nossa vida na Terra. Por isso, o mais natural, será considerar que havendo inteligências noutras paragens, essas linguagens teriam chegado pelo menos ao mesmo tipo de noções abstractas que temos, já que não há nenhuma razão para serem exclusividade nossa.
Por exemplo, a noção de quantidade é universal, mesmo em propriedades, de que não duvidamos. Sabemos que se vinte maçãs cabem numa caixa, então dezanove dessas maçãs também cabem lá.
Não é possível a nenhuma entidade violar este princípio.
Até podemos duvidar disso, quando as vinte maçãs estavam colocadas de forma optimal, e depois é difícil até colocar dezanove... No entanto, sabendo que a maior foi possível, não podemos duvidar que a mais pequena também seja. Ora, isto não está escrito na natureza em parte alguma. É uma propriedade matemática de que não duvidamos, que foi induzida pelas noções abstractas que adquirimos.

Por isso, podem existir noções que ainda não adquirimos, mas é certo que muitas das que adquirimos são universais, e partilhadas por todos os seres inteligentes. Quanto à linguagem de seres menos inteligentes, muito vai sendo feito no sentido de procurar o seu nexo, sendo exemplos interessantes os casos de biólogos que foram viver no meio de animais (por exemplo, gorilas), e começaram a perceber os comportamentos, e assim a linguagem dessa comunidade, não se esperando aí grandes noções abstractas, por insuficiência dos próprios.



segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A questão dos qu'estão (2)

Não ocorrendo nada de forma acidental, haverá alguma forma de controlo? Ou seja, coloca-se a interrogação sobre a existência de alguma entidade que presida a um eventual controlo.

A questão tem diversos níveis, começando pelo mais simples, à escala humana - ou seja, se existe ou existiu uma elite que foi controlando a deriva humana, de forma mais ou menos acidental ou propositada - até chegar ao ponto da escala sobre-humana, que ora coloca a evolução animal como planeamento extraterrestre conspirativo, ora leva a conceitos teológicos de criação divina.

Em reflexão relativa à imagem do postal anterior, deixo aqui o Homem no outro lado do espelho.
Porquê? Porque, seja sobre impotência ou máxima potência, toda a discussão é feita entre homens, ou ainda, no seu aspecto mais profundo, por cada homem na reflexão em si mesmo.

Limitações ilimitadas
Um argumento típico é o de que não podemos reflectir em aspectos sobre-humanos, porque está para além das nossas capacidades. Parecendo fazer todo o sentido, cai numa contradição prática, pois podemos, por exemplo, trabalhar com números que excedem largamente os átomos, ou partículas, do universo físico. Ou seja, trabalhamos facilmente com noções estão muito acima da escala material admitida pela Física.
Segundo contas recentes, o número de átomos no universo físico observável andará pelos 1082 átomos, estimativa por alto, sendo um número de 82 dígitos, o que não é nada...
Basta notar que o número de dígitos de Pi está com o recorde de cálculo em 31 biliões de dígitos, e há mais de trezentos anos, em 1706, Machin calculou à mão 100 dígitos de Pi. Convém notar que para calcular o perímetro do universo com um erro inferior ao tamanho de um electrão, bastaria usar Pi com "apenas" 40 dígitos (isto indo pelo dogma da velocidade máxima da luz e da suposta idade do universo em menos de 15 milhares de milhões de anos).
Isto apenas para exemplificar que podemos trabalhar com noções muito acima de qualquer correspondente material conhecido. Podemos manipulá-las com certeza matemática.

Por isso, é incorrecto argumentar sobre a incapacidade de reflectir sobre coisas que nos transcendem.
Não é por não tocarmos no Sol que não existe toda uma teoria astrofísica que assume compreender os seus processos físicos. Não podendo entrar na cabeça de outro, não deixamos de procurar antever o pensamento alheio. Qualquer pensamento humano é uma especulação baseada nos sucessos e insucessos da nossa experiência de vida. Se há coisa que o caracteriza é não lhe conhecermos limitações, podendo insistir na falsidade, como se tratasse de uma indiscutível verdade.

Portanto, antes de reflectir sobre a divindade, esclarece-se que nada o impede, excepto parar de ler.

Aspecto teológico.
Qualquer entidade, incluindo a divindade, está confinada ao seu próprio universo.
Claro que se assume que o universo divino transcenderá o universo material, mas não pode deixar de ser uma qualquer estrutura.
Pode uma entidade divina controlar tudo o que se passou ou vai passar no seu universo?
Sim, mas nesse caso terá que se identificar ao seu próprio universo.
Até aqui parece estar tudo na paz eclesiástica, dizendo que Deus se identifica ao universo.
Porém, estando tudo contido em Si, do princípio ao fim, não poderia exercer qualquer acção, porque nada há para ser alterado, impedido, ou efectuado.

Romantizando o assunto, a suprema concretização divina seria definir o que iria acontecer, de entre tudo o que poderia acontecer. Alcançado esse objectivo supremo, não restaria qualquer espaço de acção, e sem possibilidade de acção a divindade morreria. O legado deixado, seria este universo, o único viável, para habitarmos. Seria esse o fim divino? Não, se reencarnasse sem memória, em cada ser inteligente... e daí o legado habitual, em que todos os humanos se vêem como pequenos deuses.
Esta versão romantizada é história, mas corresponderia a um sacrifício muito diferente de perecer humanamente, mantendo a vida divina. Neste caso, corresponderia a perecer propositadamente com a finalidade única de tornar possível a existência universal.
É história, porque é dispensável, e o legado, o universo, formar-se com ou sem protagonista criador é folclore facultativo. Não teria outra viabilidade, porque nem a inexistência era viável.

Noutra tendência, é argumentado que cada homem tem livre-arbítrio para escolher o seu percurso. A divindade sabe o que acontece se a escolha for uma, ou outra, mas não sabe o que o homem escolhe.
Estando viva, não se distinguiria de nós - há coisas que sabemos e outras que não sabemos.
Além disso, sabendo que nós iremos escolher o que escolhemos, qual a necessidade de sequer considerar as outras hipóteses? Não ocorrendo, são apenas ficção ou arte.
Aliás, falar do livre arbítrio humano seria pensar que algo poderia ser acidental... ora, sobre isso já falámos (no postal anterior). 
A hipótese reconfortante é que, estando definido o desenvolvimento do princípio ao fim, ficaremos sempre sob os auspícios da herança de um universo eternamente viável.

Aspecto humano.
É indiferente saber se temos competidores humanóides na inteligência, já que na prática é admitido que essa inteligência seria semelhante, e manifesta-se também entre nós, entre aqueles que são mais capazes que outros.
É ainda indiferente saber se existiu uma civilização alienígena que nos criou em tubo de ensaio, porque as nossas dúvidas de criação passariam a ser as dúvidas sobre a criação dos criadores.

Interessa saber se no meio da noite pré-histórica emergiu alguma tribo capaz de exercer um controlo superior sobre os restantes.
Quando? - Para esse efeito ser notado, o controlo de que estou a falar deixou de ser o controlo das tribos vizinhas, ou melhor, alargou-se, com a sucessiva conquista das tribos vizinhas.
Por isso, estamos a falar de um tempo de escassez, em que a sobrevivência passava por uma luta de territórios. Os territórios mais populosos, mais sujeitos a variações de alimento, e de certa forma confinados por razões geográficas - ou seja, ilhas razoavelmente grandes - teriam sido palco do desenvolvimento hostil de humanos extremamente competitivos.

Nesse aspecto convém notar que a estrutura tribal sempre contou com um chefe, mas fez ainda aparecer sacerdotes ou xamãs, algo que não seria a priori natural de ocorrer em diferentes paragens remotas, e com pouco contacto entre si. Uma hipótese é que estes xamãs seriam um ponto de contacto que formaria uma primitiva sociedade secreta, reguladora da civilização humana.
Sem esse controlo superior, o que aconteceria por medo do exterior, seria uma radicalização das disputas, até ao ponto de apenas sobreviver um povo. Como isso não ocorreu, e foram-se mantendo diversos povos, em estados civilizacionais bastantes diferentes, isso é indicador que pode ter existido desde cedo uma estrutura reguladora do poder. Essencial é que teria que ser secreta, sob pena de se tornar visível para a população, e assim passar a ser um alvo a dizimar, nas lutas de poder, para além dos alvos visíveis, que seriam os chefes tribais.

Uma parte fulcral da sociedade medieval europeia era exercida não apenas pelo poder secular dos reis, mas também por um outro poder centralizador, colocado no papa, detentor do poder temporal. Este terá sido um dos aspectos mais visíveis da presença de uma fonte diferente de poder, que era exercido não pelas armas de ferro, mas sim pelos jogos políticos realizados através da Igreja.
Parece-me bastante crível que sempre tenha estado presente esse poder, sempre de forma algo submersa e secreta, e que mesmo na Idade Média tenha sido suficientemente secreto para poder estar acima do alvo visível que era a Igreja, ocultando-se nos seus meandros... tal como provavelmente hoje se ocultará no meio de meandros financeiros.



domingo, 12 de janeiro de 2020

A questão dos qu'estão (1)

Há duas perspectivas que se opõem relativamente à compreensão das coisas:
- Nada é acidental (holismo);
- Tudo é acidental (nihilismo).
Em que ficamos?
Essa é uma questão, e não vou seguir aqui a "via do meio", a minha resposta é a primeira.

Este pretende ser o primeiro texto de uma espécie de auto-entrevista.
Não irei tentar ficar pela objectividade, e darei a minha opinião actual, interesse ou não.

Para despoluir a informação com que fomos crescendo, e que nos foi fazendo acreditar em uma coisa ou noutra, procurarei justificar não apenas a minha opinião, mas também argumentar sobre outras que sei serem veiculadas.

Começo por este assunto, porque houve aqui uma grande inversão de mentalidades, que começou no Séc. XIX, e foi fazendo caldo cultural dominante no Séc. XX, e ainda hoje.

Imagem de imagens (daqui) - sobressaindo o Homem da criação (de Miguel Ângelo). 

A inversão ocorreu devido a uma eventual necessidade política de ir impondo um ateísmo militante, contra a filosofia religiosa que existia anteriormente.
O palco principal dos acontecimentos foi a Europa, com o desfalecimento completo do poder papal e com a ascensão meteórica da maçonaria e da sua máquina financeira, mas foi imposto praticamente sobre todas as religiões, mantendo um foco de resistência cultural no Islão.

A posição ateísta chegou assim ao ponto extremo do nihilismo, o que seria natural, pois sendo o Homem um acidente evolutivo, não se encontraria algo que tivesse um significado transcendente. Não havia razão superior para a sua existência ou para o significado dos seus pensamentos... 

A visão darwinista, do acaso evolutivo, beneficiaria um propósito sádico, que igualaria os homens aos demais animais (algo muito em voga actualmente). O propósito não é sádico quando se pretende que o tratamento animal seja semelhante ao humano, mas será quando isso implicar que o tratamento humano seja semelhante ao animal. O nihilismo encerra uma bomba moral letal, porque em última análise só advoga a moral enquanto esta vencer a imoralidade.

Pelo outro lado, quando se advoga que nada é acidental, a questão é sempre colocada no sentido teológico de uma entidade criadora. Ou seja, as pessoas acreditando em deuses remetem a razão das coisas a essas divindades.
Acresce que isso é visto modernamente como um pseudo-problema psicológico, em que o Homem seria uma criança órfã e sozinha, quando se via sem a protecção de uma divindade paternal. 
Nesse contexto, o ateísmo chega a considerar que essa procura de nexos transcendentes revela que ainda não se atingiu a maturidade adulta. De certa forma, foi pensado que "a morte de Deus" seria um luto que se teria que fazer como "um luto paterno" chegada a humanidade a um estádio adulto.

Não apenas isto... esta conversa da treta alarga-se, e é dito que as "teorias da conspiração" são uma necessidade holística, de horror ao acaso, ao que é acidental. Ou seja, seria uma versão moderna do "horror ao vazio" medieval. 
Mais uma conversa de psico-treta, que será sem dúvida útil de alimentar por todos os conspiradores.
Se o pessoal começar a acreditar que há algo estranho, e não acreditar nas patranhas como coincidências, então arrisca ser candidato ao diagnóstico de um problema psicológico, e o assunto fica resolvido de outra forma.

Não há nada "acidental"
Neste assunto não considero que seja opinião pessoal, tem mesmo que ser assim.
Porquê?
Escrevo aqui A, sem nenhuma razão aparente. Haveria imensas possibilidades para o texto, mas decidi escrever isto. Só muito parcialmente tenho um efectivo controlo sobre tudo o que faço. Há coisas que faço, que não sendo completamente acidentais, em grande parte são.
Em cima poderia ter escrito B em vez de A? Não!
É claro que é só chegar ali e mudar, mas a questão não é essa.

Se tivesse escrito B, teria ido parar a um universo diferente deste.
Alguns físicos dirão que isso seria perfeitamente possível, porque haverá "multiversos" e não apenas um "universo", e nós estamos neste... por acaso. Podem dizer isso ou estar calados, porque apenas poderemos ter informação de um único universo, de forma que tudo o resto é ficção.
Também podem dizer que será por razão das nossas escolhas... e isso já faz mais sentido, mas mesmo assim não faz nenhum, porque só temos noção do eu que ficou neste universo, por isso o restante será só um exercício inútil, bom para filmes da ficção.

Conclui-se assim que estamos num único universo e não há outros (ou é indiferente se existirem).
Agora, podemos pensar que quando os dados rolam numa mesa de um casino e sai 3+4, isso foi completamente acidental, e poderia ter saído 1+6, ou outra combinação.
Mas não é pelo facto de não conseguirmos perceber porque caiu 3+4 e não 1+6 que isso se torna num facto "acidental" ou "aleatório".
Seria aleatório se existissem ambos os universos - um em que os dados deram 3+4 e outro em que os dados deram 1+6. No entanto, como só há um universo e é nesse universo que estamos, o sair 3+4 foi um facto, e sair 1+6 ou outro, seria apenas uma das 36 possibilidades. Na prática, podemos ver a questão como aleatória, mas na realidade saiu aquele valor e não poderia ter saído outro.

Então, qual a razão de as coisas acontecerem de uma maneira e não de outra?
A primeira resposta é dada com outra pergunta:
- Quem quer estar num universo em que consegue prever tudo?
Já referi, e insisto, que a previsibilidade leva à ausência de imprevisibilidade, e a sede de imprevisibilidade é algo que garanto que ninguém vai querer passar.
O conhecimento de tudo, de tudo o que nos é exterior, seria quase equivalente a sermos fechados para sempre num quarto pintado de branco. Poderia ter o aspecto paradisíaco de uma ilha encantada cheia de pessoas que nos idolatravam, mas a partir do momento em que a atitude dos intervenientes passasse a ser previsível e repetida, o lindo colorido passaria a ter uma só cor - a cor de um eterno enfado, ou aborrecimento.

Isso responde parcialmente à questão.
Se ao lançar certos dados, antevíssemos que o planeta poderia colapsar, alguém os lançaria?
Por estranho que pareça, a resposta é sim... e diversas reacções em cadeia foram lançadas em experiências atómicas ou nucleares no Séc. XX.
O controlo da experiência, ou seja de que a reacção em cadeia e a explosão vai terminar, ocorre normalmente por falta de material para prosseguir. Mas os cuidados devidos, estiveram muito longe de ser acautelados. Ainda hoje em dia se fazem experiências com matéria, anti-matéria, e tentativas de criação de micro-buracos negros, como se estivéssemos a dar kalashnikovs às crianças no Natal.

Será sorte que as coisas não tenham saído fora de controlo?
Ou vendo a questão de outra forma... sabendo-se que certa experiência arrasaria o planeta, alguma vez ela poderia ocorrer?

Não é preciso ver a questão internamente... basta reparar no que aconteceu em 1994 com o cometa Shoemaker-Levy 9, que colidiu com estrondo contra Júpiter:
Parte do Shoemaker-Levy colide contra Júpiter em 1994 
À direita, igualmente brilhante, está Io, satélite de Júpiter.

Faltam-nos neste caso aquelas imagens espectaculares da NASA, que estaria distraída, e por isso temos apenas más imagens da colisão. O cometa tinha sido capturado pela órbita de Júpiter e por isso era alvo de bastante atenção, mesmo assim, estas são as melhores imagens da colisão (havendo outras, coloridas com mais ou menos arte)

Uma situação de colisão terrestre com um objecto da dimensão do Shoemaker-Levy, seria um evento catastrófico de aniquilação praticamente total.
Portanto, se isto fosse uma questão de jogar aos dados, a vida na Terra, e em particular o Homem, têm tido uma grande sorte ao jogo...

É isto "sorte"?
Se desaparecesse qualquer suporte para vida inteligente... ou seja, neste caso, se a humanidade desaparecesse e não fosse substituída por outra vida inteligente, quem poderia afirmar da existência do universo? - Ninguém.
O problema do universo é que é preciso existir vida inteligente para o universo existir.
Não são as pedras, os calhaus, as rochas, as árvores, ou o rato do campo que deambulam filosoficamente sobre a existência do universo, sobre o seu início ou o seu fim.
Por isso, o custo de existência, foi gerar vida inteligente.

Significa isso que antes de existir o Homem, não existia universo?
Se a vida inteligente não viesse a ser um produto do universo, então não existiria.
É preciso abandonar o conceito de causalidade, que é cego temporalmente, vendo apenas na direcção do passado para o futuro.
A causalidade não vem apenas do passado, vem do futuro.
O passado não pode determinar um mundo sem futuro, que cesse de existir!
Somos testemunhas de um universo que existe hoje, independentemente do que se passará amanhã.
Esse amanhã não pode anular o tempo passado. O término definitivo da vida inteligente significaria isso - que nunca no tempo futuro haveria possibilidade de testemunhar existência alguma, mas isso não apaga de nenhuma forma que este passado tenha existido.

O problema é todo esse - um universo desde que exista não pode desaparecer definitivamente, sob pena de contradição da sua existência.
É nesse sentido que acredito que, ao contrário do que nos é dado a pensar, todo o passado é arrastado para o futuro. Ou seja, que entre nós está todo o testemunho dos tempos passados. Obviamente que não seremos capazes de fazer essa arqueologia do passado, mas avançando cientificamente, poderemos fazê-lo cada vez melhor.
Simplesmente, não acredito que o tempo sirva de lixeira para destruir o passado.


domingo, 5 de janeiro de 2020

Alvo de Maia - volume 10

Está feita a acta de 2019.
Um PDF de 365 páginas para juntar aos anteriores, fazendo agora um total de 3668 páginas.


Alvo de Maia - Volume 10 (2019)

Agradecendo as contribuições de José Manuel de Oliveira, João Ribeiro, David Jorge e IRF.

Todos os volumes estão disponíveis em

sábado, 4 de janeiro de 2020

A imprensa em 2020 - aquém e além

A informação sempre foi uma componente principal de qualquer forma de poder.
A forma como é distribuída e manipulada pode ter um efeito crucial na acção alheia. As ideias são usadas como meio simples de aquisição e imposição de vontades, com propósito díspar do original.

Pertencemos às gerações que sobrevalorizaram o poder da imprensa centralizada, por jornais. rádio e televisão, enquanto forma quase única de informação fidedigna. O sistema foi de certa forma poderoso e teve o seu apogeu no final do Séc. XX. 
Porém, com a entrada do Séc. XXI e o aparecimento das "redes sociais", poderá questionar-se a evolução do sistema informativo... em que aplicações como Facebook, Twitter, Youtube, Whatsapp, Instagram, ou mais recentemente o Tik Tok, começaram a definir outros interesses e outras direcções.

Facebook, Instagram, Youtube, TikTok,
Twitter, Google+ (desaparecido), Blogger, Whatsapp,
Televisão, Rádio, Jornais

Há alguma diferença?
Claro que há alguma, mas... para o que interessa, não haverá nenhuma diferença.

Os mais jovens entretêm-se com a moda... o Tik Tok estará agora mais na moda do que o Instagram, e dizem que o Facebook é só para velhos. Enquanto isto, cria-se a ideia nos petizes de que a informação é mais dirigida aos seus interesses... sendo claro que os seus interesses são assim dirigidos.
Aparecem os típicos fantasmas - o Tik Tok tem propriedade chinesa, e haverá quem alerte para o perigo da China querer monitorizar as preferências da juventude ocidental (claro que se forem os EUA não parece haver problema).

Ora, convém notar que todo este mundo informativo tem um aspecto real e um aspecto imaginado.
Real, porque por estes canais passam efectivamente importantes factos ocorridos. 
Imaginado, porque a nossa capacidade de distinguir a realidade da ficção será cada vez mais ténue.

Mais importante que isso, tem o aspecto dirigido, de forma mais ou menos subtil com aquilo a que se chamam agora os influencers - ou seja, a malta gira que vai colocando a palhaçada de que o circo necessita para sobreviver.

É assustador ver que a geração mais nova está de tal forma dirigida que parece praticamente incapaz de procurar, por sua iniciativa, o que quer que seja... Tendo praticamente acesso a tudo com um simples clique, os cliques que fazem são os cliques da moda na partilha pelos amigos.

Controlo da informação
Se poderíamos considerar que os meios de comunicação tradicionais - televisão, rádio e jornais, estavam fortemente condicionados na sua liberdade pelo controlo estatal - que restringiu o número de canais ou jornais existentes... a ideia de permitir acesso global em diversas plataformas foi uma pseudo-abertura. Para captar a atenção das pessoas seriam necessários os processos clássicos de publicidade. Mas o principal instrumento de controlo foi o próprio convencimento da população de que poderia escolher apenas o que lhe "interessava".

Como sabem hoje os jovens das notícias? 
Por exemplo, o assassinato do general iraniano pelos drones americanos (ocorrido ontem), terá sido recebido em grande medida através de notícias que chegaram via Tik Tok, Instagram, ou Facebook.
Para os grandes agentes de informação ou desinformação internacional é razoavelmente indiferente se o jovem vê televisão na sala com os pais, ou no telemóvel enquanto conversa com os amigos. 
Interessa apenas dar destaque ao assunto.
Não são os grupos de amigos que definem os tópicos de conversa, exceptuando as conversas de café que ocorrem nas redes sociais, e que antes ocorriam mesmo nos cafés.

A actualidade, os focos de interesse, vão continuar a ser dirigidos como foram antes. Ou seja, através das grandes organizações noticiosas que definem o que é ou não é para ser noticiado. Já era assim com os jornais de grande tiragem, com as rádios ou televisões nacionais, e não vai ser diferente com a existência das novas plataformas de comunicação.
A maior crítica virá como já era hábito através da sátira. Se no tempo anterior ao 25 de Abril havia tímidas críticas por via dos espectáculos de revista do Parque Mayer, no tempo posterior são raros os casos de crítica satírica que se consigam manter de forma mais ou menos contínua.
O controlo da informação continuou de boa saúde.

Aquém
A novidade que a sociedade judaico-maçónica nos foi trazendo, e terá sido uma revolução de costumes e procedimentos, foi um controlo de informação que não passava por atacar e hostilizar quem procurava manifestar-se contra o sistema. A dissidência foi aceite e os fogos reais passaram a fogos verbais, sendo a receita consumida pela sociedade sem perdas consideráveis para a classe dominante, e com um incomensurável rendimento de maior produtividade.
Assim, a partir dos séculos XVIII e XIX os jornais foram-se tornando num instrumento crucial de controlo de opinião, permitindo ao mesmo tempo uma explosão de ideias. No Séc. XX o papel dos jornais, das rádios, do cinema e depois das televisões, acabou por ser tão importante que basicamente as acções militares já não poderiam ser desencadeadas sem se pensar na guerra da informação. 

No entanto, durante o Séc. XX vemos uma ideia absolutista, uma certa ideia de verdade universal, que conviria ser preservada e transmitida pelos órgãos de informação. A imprensa internacional foi sendo estabelecida e solidificada de forma a aquecer ou arrefecer ânimos da opinião pública, mas sempre com a preocupação do público na verdade.

Além
Aquilo que passámos a ver neste início do Séc. XXI foi a introdução da ideia relativista de verdade, em que a verdade pode interessar ou não... O jovem não sente necessidade de ler jornais ou assistir ao telejornal, porque tudo vai bem no país das maravilhas. Segue apenas os seus interesses mundanos, e eventualmente poderá interessar-se por algum tema da moda - "alterações climáticas", "migração dos refugiados", ou "terrorismo internacional". Há já grupos bem definidos para orientar a opinião nestes assuntos, e se no final de contas restarem 5% dos jovens que tem interesses mais complicados, pois com essa percentagem o sistema aguentaria bem, e aguenta ainda melhor porque nem esses números se verificam. 

Assim, ao contrário do que se poderia iludir, se a internet permite uma certa liberdade de agremiar conjuntos de pessoas com ideias comuns, as redes sociais acabam apenas por ser uma forma de alienação da realidade, sempre controladas a um nível superior, que as torna ineficazes ou incapazes de revelarem qualquer alternativa. Certamente que se poderá usar os exemplos da primavera árabe, ou dos protestos de Hong Kong, para mostrar como as redes sociais podem ser eficazes... mas nesse caso estamos a falar concretamente de movimentos dirigidos pelo exterior, provável ou certamente por via da CIA ou MI6.

Na prática e até que a temperatura se torne insuportável, a cozedura em lume brando não provoca a mesma reacção de repulsa do que a ebulição.