quarta-feira, 29 de novembro de 2017

do Sótão (3) «Abreojos de Ortélio»

Continuamos com outro texto, que ficou como rascunho em 22 de Julho de 2011, ou seja, no dia seguinte à publicação do texto «O cozinheiro e o sanduíche», e portanto só se entende melhor, lendo-o primeiro.
Aliás, «o cozinheiro e o sanduíche» é um dos textos que mais marcou este blog, e por isso na resposta ao único comentário que teve, refiro: 
Por isso este post é pouco sobre a descoberta da Austrália... - é muito mais sobre as Ilhas Abrolhos!
Ora, a observação neste rascunho era muito mais sobre o detalhe. Num mapa de 1570 apareciam no Pacífico ilhas chamadas "Abreojo", numa localização não longe da Austrália, e portanto o nome existia em ilhas "australianas" (e não apenas no Brasil), antes de serem redescobertas por Houtman, 50 anos mais tarde. O texto tinha vários outros apontamentos de detalhe sobre os mapas de Ortélio, mas como já não era esse o assunto que mais me ocupava, acabei por não lhe dar importância.

_____________________ 22/07/2011 ____________________

Na sequência do texto anterior, sobre o arquipélago Houtman Abrolhos, e analisando o mapa Typus Orbis Terrarum de Ortélio (1570) encontramos um arquipélago Abreojos no Pacífico, conforme assinalamos:
não está junto à Australia, porque ela não aparece. Como os restantes mapas da época, assinalam uma Nova Guiné mal definida, um grande continente Austral - que neste caso Ortelius associa a Magalhães, pelo lado ocidental do mapa, e a Marco Polo pelo lado oriental, onde aparece Java Minor.

Merece alguma atenção todo o retrato asiático, especialmente a parte da Ásia setentrional, onde identifica já uma Nova Zemla (não como ilha), e a parte junto ao Cáspio, aqui chamado Bachu.

Após os Urais, há alguns nomes de cidades desconhecidos, como Wiliki, Marmorea, Obea, Calami, Cossin, Naiman, Turfon, Taingim, Mongul, e até Cattigara, entre outras.
Haveria bastante a dizer sobre vários casos, mas resumimos a Naiman - tida como tribo mongol, a Turfon com fonética de turfa, a Taingim que se confunde com Tianjin, enquanto é feita uma distinção entre China, Cathaio e Mongol. Ou seja, Cathaio aparece numa zona a norte da China, ou coreana, onde coloca ainda Cattigara, tida como cidade ao sul. 
O mapa parece impreciso para algumas dúvidas legítimas, mas é razoavelmente correcto a colocar os cursos de água, nomeadamente o Rio Obi - que é bem identificado.
Fica ainda evidente uma extensão apreciável do Mar Cáspio (que se uniria ao Mar Aral), que não estaria longe de Samarcanda, na rota da Seda, e capital do império de Tamerlão. A zona do Turquistão ou Corasan (Khorasan) era o coração das relações entre Oriente e Ocidente, que da China e India passavam à Pérsia. Aqui o Cáspio já está reduzido a uma dimensão mais pequena, mas os cursos de água permitem ver como um aumento do nível do mar permitiria ligar o Cáspio ao mar setentrional. Ainda hoje, o registo de povoações importantes permite prever a extensão desse mar antigo.
Vemos ainda que no Mar Negro a foz do Danúbio está bastante recuada, podendo suspeitar-se que o Bucur na lenda de Bucareste fosse mesmo pescador. Conforme já assinalámos, apesar de Bucareste ter resistido até Constantino, a língua latina prevaleceu... com algumas diferenças - Mare não significa Mar, mas sim "principal". Política draconiana para evitar confusões de toponímia com um mar que se ia reduzindo... 
Relativamente a este mapa, acrescentamos apenas que Ortelius coloca Troia onde Schliemann a vai procurar depois.

Portugal, por Ortélio
Falando em Troia, Ortélio tem um mapa particular de Portugal, que aqui mostramos a parte da província de Antre-Tejo e Guadiana (uma designação mesopotâmica tal como Entre-Douro-e-Minho).
O rio Sado era chamado Rio Palma, ligando assim a uma Palmela (que não está representada), podemos ver que Melides, em vez de lagoa teria uma grande entrada marítima pelo "Lago de pera", onde do outro lado de Sines apareciam várias ilhas do Pessegueiro, e não apenas um ilhéu. Há vários detalhes, mas nota-se também aqui o avanço actual da linha costeira.

Esse avanço costeiro aparece aqui como mais evidente na zona da Estremadura, especialmente na foz do Mondego.
O mapa pode prestar-se a algumas confusões, pois o recúo marítimo parece estar aqui exagerado, talvez por erro no traço. 
Não deixa de ser interessante aparecer uma "Nova Lisboa" junto a Peniche e Atouguia, e uma "Anilu" na zona de Torres Vedras(?).... as interpretações estrangeiras levam a algumas estranhas trocas, e vemos aqui a Ericeira enquanto "Ciriceira".

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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

do Sótão (2) «Main Facts (3)»

Continuando a retirar as coisas do sótão, em 28 de Junho de 2011, outro texto sem publicação.
Seria o 3º texto em inglês em que compilava diversos aspectos reunidos em "10 Main Facts"...
Depois, simplesmente desisti dessa ideia.

Entre Maio e Julho de 2011 foram aqui publicados 54 textos, e portanto digamos que não faltou sobre o que escrever, à média de quase um texto por dia... algo bastante extenuante por si só. O problema principal é que os temas surgiam encadeados uns nos outros. Ao procurar algo sobre um assunto, surgiam pistas para outro, ou para vários... e o processo parecia não ter fim!
Ora, se isso dava cada vez mais confiança, não tinha nenhum correspondente prático. Era inútil estar a convencer quem já estava convencido, e a ideia de escrever em inglês, procurando leitores de outras nacionalidades, também simplesmente nunca redundou em nada. 

Que sentido fazia reunir 10, 100 ou 1000 factos significativos para ponderação, se os leitores mantinham essencialmente as ideias com que aqui chegavam? 
Porque, todo o material esteve, ao longo de vários anos, disponível a centenas ou até milhares de leitores, mas nunca saiu daqui... Nem serviu de discussão noutros fóruns, onde o levei, nem mereceu mais do que um ou dois links. Ou se saiu, foi como curiosidade rápida, e os leitores regressaram ao ponto de partida, de onde, com efeito, nunca tinham saído, nem nunca quiseram sair. A minha curta passagem pelo facebook, apenas serviu para reforçar essa convicção, de absoluta inutilidade.

Portanto, se tinha desistido da ideia de outra divulgação, logo no início, fiquei completamente convencido que mesmo esta divulgação aqui não serviria para nada, exceptuando o reconforto pessoal de que não seria por minha responsabilidade que as coisas se mantinham oclusas, sem a devida discussão. Ainda é essa a perspectiva que mantenho! 
Até porque, no final de contas, a reflexão pessoal a que fui motivado, acabou por me mostrar frutos exóticos, que nem pensei existirem, quanto mais serem possíveis de alcançar! De tal forma, que agora caberá à opinião alheia fazer o percurso de onde saí há muito... ou então, manter-se perdida, e querer fazer perder os outros nos múltiplos becos, de onde não sairá. Adiante, segue o texto:

___________________ 28/06/2011 ___________________


--------- PART 3 --------


It has been a while since I planned to write this third part... in fact I should have changed the title from "10 main facts" to "100 main facts" and counting...

To the sixth item in the list I considered the following choices:

6.1) Internal Earth - a hot Mantle that contradicts thermodynamics
--- How does the mantle maintains its temperature of more than 2000ºC for millions of years, like if there was a void contact with the crust?
--- Since when? Well, since millions of years were needed to justify the Evolution Theory.

6.2) Alladin story
Egyptian lamps burned without consumption of any material, as Raphael Bluteau stated in the 18th century? 
How does this relate to the Bagdad battery
And how does this relate to the Swiss city of Lucerne? 
Through the Giant human bones sent to Platter in 1577? 
... or through the Anchors and Ships found in Swiss mines in 1460?
Through the Antikythera mechanism or through the records of steam boats in Barcelona in 1543?
Through our Genie being kept hidden in the Lamp?... which is also called Lucerne!

6.3) Climate changes
This not seem a novelty, but: 
- Was in Roman times, the Artic Circle positioned around 80º and not at 67º? When did it start to freeze, such that the Roman soldiers stop wearing battle skirts?


- With a higher level of the sea, a different landscape that would justify ancient lands, and the voyage of Jason?
Well, in ancient times, almost everyone considered the Caspian to be a Sea not a Lake, with a connection to the Ocean in the North... this was a main natural boundary between Asia and Europe. Did this Sea connection basically disapeared at the time the Huns menaced Rome?
You know, if it was called Sea... that meant to be a Sea, not a lake!

The evidences of an higher Sea Level are everywhere... an example at Thermopylae:
Europe was an island...

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Neste caso, o texto parecia ainda seguir para um ponto «7. Australia and the Dieppe Maps», mas não concluí nada desse resumo, e o texto manteve-se em rascunho, como o apresento agora.

sábado, 25 de novembro de 2017

do Sótão (1) «António Galvão»

Particularidade de quem tem espaço, é que não gere bem o lixo. Por razão disso, sempre me custou mandar coisas fora, era mais fácil mandá-las para um dos quartos do sótão... com aquela ideia de que "mais tarde poderiam ser úteis". É assim que se junta uma quantidade imensa de lixo, ou mais simpaticamente... de "velharias".

Vou tirar deste sótão um rascunho de 30/07/2010... portanto com mais de sete anos. 
Versava sobre António Galvão, e não deixei de fazer vários textos sobre ele (o primeiro dos quais, uns 4 meses mais tarde). Sempre foi uma presença habitual aqui, porque é um dos personagens históricos mais interessantes, e mais esquecidos, da época dos descobrimentos. 
No início de 2016, fiz mesmo uma transcrição da primeira parte da sua obra sobre os "descobrimentos", e que foi obra de referência para os ingleses.


____________________ 30/07/2010 ___________________

É complicado falar desse herói português, que foi António Galvão, capitão de Maluco (Molucas)... e que defendeu a fortaleza com 130 homens contra um ataque simultâneo e coordenado de todos os reis locais. Francisco de Sousa Tavares, no prólogo que faz do seu livro, dedicado ao Duque de Aveiro, após a morte de António Galvão, em 1557, exclama assim:
"Oh! Grande fraqueza da nossa natureza humana, que vindo ele a Portugal, com grande confiança, pelo que tinha feito havia de ser mais favorecido, e honrado, que se trouxera cem mil cruzados, se achou muito enganado, porque nele não achou outro favor, ou honra, senão o dos pobres miseráveis, quero dizer o do Hospital: onde o tiveram 17 anos, até que nele morreu (...)"
Fica claro que Sousa Tavares relata já o ambiente cortesão que beneficiava dos prodígios de indivíduos como Galvão, que incautos na sua honestidade, eram vítimas fáceis dos ardis. O isolamento e internamento hospitalar, de que eram alvo estes elementos incómodos, talvez tenha levado à designação "maluco", com um outro significado para este Capitão de Maluco.
Sousa Tavares continua mais à frente, de forma surpreendente:
"Não querendo tomar por remédio o que tomava aquele Grão Turco Zizimo, filho do Grão Mahamede, que tomou Constantinopla, e morreu em Roma, que se embebedava por se não alembrar do grande Estado que perdera. Nem o que muitos dos seus amigos lhe davam, dizendo, que se pusesse fora do Reino, que doutra maneira não teria vida? Ao qual respondia, que nesta parte mais queria ser comparado ao grande Timócles Ateniense, que ao excelente Romano Curiolano. O que é um grande exemplo de lealdade Portugueza, posto que não sei como o diga: porque também o é, que dos leais estão cheios os Hospitais."
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O texto seria suposto continuar com uma referência aos três personagens invocados:
(i) - o turco Zizimo, (ii) - o ateniense Temístocles, (iii) e o romano Coroliano.
... e os links para a Wikipedia permitem compreender a história de cada uma dessas figuras.

Interessava que, segundo Sousa Tavares, Galvão evitou entrar num processo de degradação alcoólica, como acontecera com Zízimo, um sucessor do sultão Mehmet II, que conquistara Constantinopla.
Zizimo perdeu a guerra de sucessão, e foi forçado ao exílio em Roma, sendo acolhido como refugiado pelos cavaleiros hospitalários.
Galvão também não seria homem de se exilar, e trair o país ao serviço de um potência inimiga, como teria feito o romano Coroliano, que se exilou junto aos volscos, e depois comandou essas forças contra Roma. Ao contrário, conclui que, tal como Temístocles, Galvão preferiria morrer, a trair a pátria portugesa, revelando segredos ou participando nalguma empresa militar. Ao contrário de Fernão de Magalhães, e outros, Galvão não se foi oferecer a outros reinos, para obter o reconhecimento que lhe era devido. Aceitou estoicamente o seu fado...

sábado, 11 de novembro de 2017

dos Comentários (31) ... se bastião e tal e anos

Dois comentários recentes, relacionam D. Sebastião e italianos.
O título joga com a homofonia de "... e tal, e anos", ainda que prefira "... e tal ia" como referência a Itália.
A questão de Sebastião ser bastião, pois também entronca aqui.

(i) Começamos com a observação no comentário sobre a Vista de Alcântara, que pode surpreender com a presença de italianos na Batalha de Alcântara de 1580, batalha que decidiu a derrota de D. António, Prior do Crato, e a vitória do Duque de Alba, com a consequente posterior coroação de Filipe II como rei português.
Na figura seguinte vemos o mapa aumentado, sublinhando as referências a Portugueses, Italianos e Tudescos, estando ainda referidos espanhóis:

Ora, conforme referi na resposta a esse comentário, também Italianos e Tudescos estiveram inseridos em terços do exército de D. Sebastião, na Batalha de Alcácer Quibir, dois anos antes, em 1578 (ver aqui). Isto não deixa de ser curioso, já que se a um tempo estavam dispostos a lutar pelos portugueses, dois anos passados, as mesmas nacionalidades estavam a lutar contra os portugueses... ou pelo menos, visando a submissão portuguesa a rei externo.

(ii) Seguimos para o segundo comentário, de Gualdim, sobre um projecto de Cenotáfio para D. Sebastião, executado em 1578 por Mario Cartaro, que foi gravador e cartógrafo italiano.

Na inscrição refere-se que o cenotáfio teria como destino a Basílica Farnesiana da Sociedade de Jesus, em Roma. Convirá lembrar que D. Sebastião terá sido um dos primeiros príncipes a receber formação jesuíta.
O cenotáfio, que não é um sepúlcro, é somente um monumento de lembrança a alguém que está sepultado noutro local, é especialmente interessante por conter 3 pelicanos, um símbolo associado a D. João II. O epíteto "farnesiano" refere-se certamente aos Farnese, uma família nobre italiana, que teve Paulo III eleito como Papa.

Acontece que Rainúncio, Duque de Parma, pelo lado paterno, era trisneto do papa Paulo III, e pelo lado materno, era neto do Infante Duarte, filho de D. Manuel.
um pretendente à sucessão de D. Sebastião

Rainúncio Farnese, não era apenas um candidato ao trono português, foi considerado o pretendente mais legítimo de acordo com as regras de sucessão, na morte do seu tio-avô, o Cardeal D. Henrique. Seria visto como mais legítimo do que a sua tia, Catarina de Bragança, já que esta seria irmã mais nova da sua mãe. O problema é que o pai tinha sido súbdito do rei espanhol, o que tornou a sua pretensão muito frágil.
De qualquer forma, podemos assim a estar a ver uma movimentação antecipada de Rainúncio Farnese, para se posicionar numa eventual sucessão, ao encomendar um cenotáfio a D. Sebastião.

domingo, 5 de novembro de 2017

Quando a constituição espanhola se sobrepõe à portuguesa...

A constituição espanhola sobrepõe-se à portuguesa, quando órgãos políticos portugueses, começando pela Presidência da República, ou pelo Governo, por via do inqualificável ministro socretino, Augusto Santos Silva, abordam o problema catalão como um problema interno de Espanha... e nesse sentido cumprem o nº1 do Artigo 7º da Constituição Portuguesa - que proclama a "não ingerência nos assuntos internos de outros Estados", mas aparatosamente esquecem o seu nº 3 que diz explicitamente algo incómodo:

"Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão."

Esta pequena observação foi feita pelo Bloco de Esquerda, para fazer notar que essa deveria ser a posição do Estado português. 
Algo verdadeiramente curioso, já que os órgãos portugueses se preocupam mais com o respeito das leis espanholas, do que com o respeito das leis portuguesas, que assim exigem, através da Constituição, ao direito dos catalães à autodeterminação e independência. Tanto mais grave é, quando são o Presidente da República e o Governo, os porta-vozes descarados de uma lei fundamental que legitima o seu poder, mas que fizeram gala descarada de não cumprir, apenas para aparecer na fotografia em boas relações com "nuestros hermanos".

Tanto pior, quando o estado espanhol, invocando uma lei anti-secessão, toma em vias de facto, penas de prisão pesadíssimas para os infractores, que ameaçaram a sua unidade territorial. Basicamente estão acusados de crimes muito menores do que estariam D. João IV e os restantes conjurados, quando se quiseram ver livres de uma lei que os obrigava a combater na Guerra dos Trinta Anos.

Protesto para a libertação dos presos políticos catalães. (img)

Na politiquice do facto consumado, e carneirismo aceitante, Carles Puigdemont aparece como um fugitivo da justiça, e sem comandar um exército capaz de se opor à força do estado espanhol, até poderá ser ridicularizado como uma figura impotente, mas nenhum dos seus críticos perspicazes teve uma ameaça real de 30 anos de prisão... meramente por executar o resultado de escrutínios eleitorais.

Tratam-se obviamente de presos políticos, e a Espanha, que só tolerou a independência portuguesa pela resistência das armas, continua presa no seu autismo despótico, num percurso de intolerância, que sempre caracterizou a sua história. Só os ignorantes podem afirmar que a Catalunha não tem um percurso histórico com diversas insurreições contra Castela. Esta é apenas mais uma, e não é muito diferente do que foi feito pelos independentistas em 2014, sem as consequências que Madrid quer agora tornar exemplo... como se obrigar alguém a ser espanhol à força, fosse algo "democrático".

Será tão "democrático", quanto foi a China inserir o Tibete como sua província... mas também toda a gente já se esqueceu de que Lassa reclamou a independência, e muitos foram os governos ocidentais que apoiaram essa vontade... até que as relações económicas crescentes com a China desaconselharam a insistência ocidental nessa autodeterminação, e o assunto é hoje em dia esquecido, para benefício das contas comerciais. O problema foi exorcizado para debaixo do tapete, dando ao Dalai Lama um exílio dourado em paragens americanas.

Revolta de 1959 em Lassa (Tibete) contra o poder chinês, efectivo desde 1950 (img)

Puigdemont não será um Dalai Lama, e mais facilmente se procurará fazer dele uma figura risível, para gáudio da espanholada, inclusive da muita espanholada que passa por ser portuguesa. No entanto, mesmo que a Espanha consiga os seus intentos de esmagar a independência catalã pela força, ou pelo ardil de condicionar próximas eleições, não resolverá nenhum problema, e apenas adiará a resolução duma vontade, que voltará a não ser esquecida pelas gerações vindouras... por muito que a Espanha procure reprimir, ou até invadir a Catalunha com residentes de outra províncias.

A escolha de Bruxelas, para fuga de Puigdemont, não terás sido apenas por se tratar da capital da UE, ou de haver uma vontade secessionista entre flamengos e valões. A Flandres belga conheceu durante séculos o domínio de rei espanhol, e só em 1714, no mesmo ano em que caiu Barcelona para Filipe V, é que a Flandres se livrou de um domínio real hereditário, com capital em Madrid. 
Portanto, é simbolicamente um apelo a um país que poderia também estar ainda sob domínio espanhol, mas em que as circunstâncias geográficas, permitiram depois um desfecho bem diferente, que não foi conseguido pelos catalães.

Passada uma semana, em que estive fora do país, foi sem surpresa que vi Portugal de novo ignorando os seus problemas estruturais (como os incêndios) e entretido em pequenos nadas, que tanto consomem os grandes nadas, que ocupam o vazio nacional.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O mapa em 27.10.2017

Em termos de auto-proclamadas independências e dependências, o novo mapa ibérico passou a ser:

Não é todos os dias que se pretende alterar o mapa ibérico, e a data foi escolhida nos números.

Sim, Espanha não reconhece a soberania inglesa sobre Gibraltar, nem reconhece a independência catalã. Desde hoje, Espanha perderia a fronteira com Andorra... e perderia mais o sentido do nome Espanha, que resultou da união entre os reinos de Castela e Aragão. O nome Espanha é directa importação do romano Hispania, um nome que via a Península Ibérica como um território íntegro e uno, conforme Filipe II, III e IV, nos apresentaram durante 60 anos.
O Presidente de Portugal, quando defende o respeito pela unidade de Espanha, apresenta uma engraçada ironia em si mesmo, já que Portugal se define justamente como território em oposição à unidade de Espanha, enquanto herdeira da unidade da Hispania romana.

Madrid irá aplicar o agora famoso artigo 155 da constituição espanhola a uma região autónoma, que já não existe... pois internamente passou a existir uma República da Catalunha, onde Filipe VI não é rei. Madrid pretende organizar eleições regionais na Catalunha, mas provavelmente o governo catalão irá organizar novas eleições para eleger o presidente da República da Catalunha, que interinamente será Puigdemont.
A legalidade espanhola não é aplicável a outro estado, e a Catalunha passará a usar as suas leis internas, ignorando as leis espanholas, tal como Portugal, ou qualquer outro estado independente, o faz. Em breve irá apresentar a constituição catalã a votação popular.

Rajoy arrisca fazer o papel de Gorbachov, ou pior... se usar força, de Milosevic, quando Belgrado foi lutando contra a dissolução da Jugoslávia em diversos estados independentes, levando a uma guerra balcânica bastante sangrenta.
Na altura, também os países externos avançaram cuidadosamente no reconhecimento de governos e independências, porque anteviam sérios problemas, que vieram a manifestar-se em guerras, muito em particular porque a comunidade internacional demorou a definir posições definitivas unânimes. Também em cada um desses novos países existia uma forte comunidade de origem externa - no caso dos países bálticos, uma forte comunidade russa, que estava contra a independência... mas aí, visando a fragilidade de Moscovo, não houve hesitação em apoiar Lituânia, Letónia ou Estónia.

O que parece inevitável é que a única solução para Madrid evitar Barcelona como uma capital independente, serão prisões, com o uso de força policial ou militar... já que não se antevê mudança no resultado, se houvessem novas eleições regionais, ainda para mais, impostas por Espanha.
A manutenção da situação anterior, que tem tantos defensores, inclusive todos os governos do mundo, deixa forçosamente na gaveta todas as auto-determinações dos povos, mesmo que tenham língua ou cultura diferente, e uma motivação histórica bem identificada, com diversas tentativas de independência. Para Guterres, que tanto perorou pela auto-determinação de Timor-Leste, será uma experiência interessante, enquanto secretário-geral da ONU.

Aguardemos agora, para vermos como Madrid pretenderá impôr a sua legalidade em território alheio, para vermos se o F. C. Barcelona continua a jogar na Copa del Rey, para vermos se Barcelona começa a estabelecer os órgãos de soberania próprios, que começam em nova legislação, nova polícia, nova economia financeira, com ou sem Euro, etc... os tempos afiguram-se complicados, não apenas em Barcelona e Madrid, mas também em Bruxelas, enquanto Londres sai da derrocada da UE, que se pode avizinhar em consequência.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Entre Tancos e Punhete

João Bautista de Castro, refere no seu "Mappa de Portugal, Antigo e Moderno" (Volume III, de 1763) que:
"Entre Tancos e Punhete passa o rio Zêzere que tem barca sempre de verão e de inverno."

Em 1836, com a vitória de D. Maria II nas guerras liberais, a notável vila de Punhete muda de nome, ao que consta a pedido dos habitantes, por ordem da rainha e Passos Manuel, pugnando como novo nome "Constância". Aliás João Bautista de Castro ainda acrescenta sobre o rio Zêzere.
Vai finalmente acabar em Punhete, mergulhando-se no Tejo com tanto impeto , que na distancia de mil e quinhentos passos ainda conserva a mesma cor azul , e sabor doce das suas águas, como bem advertem Resende, e outros.

Em 2003, quando as "armas de destruição em massa" estavam no ponto, a ferver, com suspeitas de que Saddam quisesse volatilizar o mundo com uma panela de pressão (panela ironicamente epitetada como "arma de destruição em massa", no atentado da maratona de Boston em 2013), havia quem estivesse a favor da invasão do Iraque (por exemplo, Pacheco Pereira), mas também havia quem estivesse contra...
Um desses comentadores era Azeredo Lopes, de que podemos ainda ler uma entrevista ao Público (31/03/2003):

... e este título resulta desta afirmação que Azeredo Lopes, agora Ministro da Defesa, fez à época:
«É enfim o que chamo de forma um pouco irónica uma espécie de intervenção baseada na bola de cristal. Isto é, os EUA decidiram, pela sua análise, que algures no futuro, não sabem quando, é inevitável que o regime iraquiano venha a conspirar contra o Ocidente e a servir-se ou transmitir as suas armas de destruição em massa a grupos que depois vão exercer acções contra o Ocidente. »
Independentemente de outros canhões que Saddam Hussein pudesse querer apontar aos céus, com o seu Projecto Babilónia, baseado num projecto HARP (e não HAARP) de Gerald Bull, só quem se cegue, seguia credulamente a manipulação da CIA, que permitiu a G. W. Bush invadir o Iraque, e a Durão Barroso, passar de garçon do chá nos Açores, para garçon de Bruxelas, seguindo a máxima - "que se segue, quem se cegue".

Como não soube de nenhuma conversão de Azeredo Lopes ao completo "ceguidismo", foi surpresa ser chamado pela geringonça para Ministro da Defesa, mas digamos que já não será surpresa que se pretenda arranjar uma panela de pressão, para que saia.
Essa pressão foi mais veemente com o roubo de armas em Tancos, ocorrido em 27 de Junho, quando a polícia se apressou a concluir, na semana seguinte, que as armas estariam já fora do país. Essa previsão sofreu uma pequena dificuldade na narrativa idealizada, quando na semana passada, em 18 de Outubro, as armas apareceram num terreno da Chamusca, não muito longe de Tancos.
Como o desaparecimento ocorre no rescaldo do incêndio em Pedrogão a 18 de Junho, e o aparecimento poucos dias depois dos incêndios de 15 de Outubro, ainda por cima na Chamusca, concelho que tinha reeleito Paulo Queimado como autarca, surgiram comentários sobre o humor negro da "coincidência" funesta.


No entanto, as armas surgiram por denúncia anónima, e não por investigação policial, que as já dera como perdidas no estrangeiro. Portanto, um completo sucesso policial, como se vê, enquanto o ministro padeceu do gozo cortês de ter admitido, por absurdo, que as armas nem tivessem sido roubadas.


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Luto e Luta nacional

A repetição da completa desprotecção civil perante os múltiplos incêndios que ocorreram, de novo, no passado domingo (com um número actual de 42 vítimas mortais), deixa uma pergunta no ar de Portugal - qual a confiança de milhões de portugueses, que não moram em centros de grandes cidades?
As imagens que vimos, mesmo em pequenas cidades como Tondela, Gouveia, ou Oliveira do Hospital, são de uma sujeição e impotência, perante grandes incêndios que as cercam e lançam fagulhas incendiárias para as suas casas. Um pequeno pinhal, um jardim, que antes eram locais aprazíveis, passam a ser vistos como rastilho para a propagação de incêndios, e ninguém se sentirá bem nestes dias, com uma moradia que confronta com árvores.

Serve para epíteto simbólico declarar "luto nacional", para o bem estar do politicamente correcto, que dança com mudanças de ministério, enquanto o magistério de uma "luta nacional" tende a repousar.

Interessam aqui as palavras, porque independentemente da pseudo-origem no latim de "luctus" ou "luctare", as palavras "luta" e "luto" indiciam mais que uma mudança de género. Escreveu-se lucta e lucto, usando uma latinização da língua, mas isso sinaliza apenas que o prefixo "luc" pode ser relacionado com "luz" como em tantas outras palavras.
luto é assim simbolizado com o negro, da ausência de luz.
luta, ao contrário, é a presença de luz.
Independentemente, do significado que outros encontrem para si, as palavras têm para mim um significado ancestral que procuro encontrar nas suas sílabas. Tão simples quanto em "ardeu" que ligo à simples conjugação de ar-deu, pois o fogo não arde sem ar que lhe . O verbo não é ar-dar, mas a má conjugação posterior não fez perder todo o sentido original. Ou, como a têmpera do aço, que tem paralelo no têmpero do que asso. E o que assem só vem de um acen-der inicial, mas também aí temos indicação do que ficou do nosso passado - as cinzas do que serviu p/assado.
É neste contexto que luto significa lu-tu, com quem diz "a luz em ti", e os outros vestem negro, enquanto luta significa lu-tá, como quem diz a "luz está"... colocando a luz como razão da luta, e assim o negro simboliza a morte de alguém que personificava a luz do combate.
Essa luz seria como um luar da Lua, e escusando os latinistas de serviço, não seria apenas a luz da noite, do lume, que alumiava. E dizemos a-lu-miar e não uivar, pois haveria outros cães e gatos de serviço.
A Lusitania claro, seria pátria dessa luz, e mátria das trevas da sua ausência, não me querendo mais alargar nesta poesia especulativa.
Interessa que luto é o interlúdio da luta que se segue... sendo claro que se segue quem se cegue, pois um seguidismo é um ceguidismo, que vê o sossego numa pronúncia do sou-cego, procurando afinal uma bengala alheia, em boa gala alheia.

Surge este texto para uma observação muito simples.
A evolução dos incêndios em Portugal, desde o tempo de Salazar, pode ser facilmente vista no seguinte gráfico, que vai desde 1943 até 1979, onde fica evidente um aumento súbito a partir de 1974.
Fonte: Grandes incêndios florestais na década de 60... (ver artigo de F. F. Leite, J. B. Gonçalves, L. Lourenço)

A interpretação do gráfico, mesmo que relativizada pelos dados disponíveis, não deixa grande margem de dúvida num aspecto - a partir de 1974, e com grandes picos em 1975 e 1978, o número de incêndios em Portugal subiu de forma drástica, chegando a ser 10 vezes superior, mas... pior que isso, tornou-se numa circunstância quase crónica. Não encontrei gráficos juntos, mas podemos ver o aspecto desde 1980 até aos nossos dias, com grandes picos em 2003 e 2005:

Que se saiba, em 1975 não houve mudanças climáticas, não houve abandono do interior, não houve uma plantação súbita de eucaliptos, não terá havido nenhuma das muitas razões que são usadas para oferecer aos seguidores televisivos dos comentários nacionais de serviço.
Houve sim, uma mudança de poder político, e em 1975 não havia apenas incêndios e falta de coordenação para os combater, havia bombas em sedes partidárias, e um clima contido quase de guerra civil em preparação.
Para quem nunca experimentou acender um churrasco, não é assim tão fácil fazer fogo sem ajuda de combustíveis e carvão, mesmo que o dia esteja quente. Tenho muitas dúvidas que 500 coincidências fortuitas, mesmo de agricultores irresponsáveis, consigam pôr o país em chamas... e apenas a norte do Tejo.

Do que me lembro, e olhando brevemente para o segundo gráfico, não será muito difícil estabelecer relações entre os picos de incêndios e o clima político eleitoral... sendo que os anos mais suaves se encontraram depois da governação Sócrates, e não foi certamente por virtude do SIRESP, nem por abrandamento das alterações climáticas. Se alguma relação fizer sentido, foi justamente no fim da semana passada que se deu a acusação do processo "Marquês" (outro nome do "Nero da Trafaria"), ou o conhecimento do Relatório de Pedrogão. Foi após isso que deflagraram estes incêndios, com mais de 500 focos em todo o país.

Mas essa coincidência não é mais nem menos importante, interessa que o problema incendiário está instalado desde a "revolução dos cravos", e é um problema que já tinha tido expressão antes, no tempo de Salazar, mas que tinha sido contido, e em nada era semelhante ao que se seguiu depois.
Diz-se que o Estado falhou... mas este Estado com 43 anos habituou-se a viver com um estado de coisas em que os incêndios são vistos como "normais", e que na necessidade de culpa, para evitar a desculpa, os culpados são os cidadãos.

Aquando da revolução republicana, a maçonaria também fez uso da carbonária, e de vários actos terroristas, com múltiplas bombas e pequenas revoluções constantes em Lisboa, que ocorreram até ao Estado Novo. Uma vez utilizada a arma, era difícil desactivá-la, e pior que isso... nem parecia interessar pô-la de lado.

Por isso, este é um problema de regime... que poderá nem ter a ver com este regime, e que pode até ser contra este regime pós-74, especialmente quando certos assuntos de bastidores são trazidos para a praça pública. Mas, uma coisa parece clara... enquanto o problema dos incendiários não for visto como um terrorismo global instalado no país, continuaremos a entreter-nos com razões fantasiosas ou científicas, para anualmente metade da área ardida na Europa pertencer a Portugal.
Neste ano as coisas foram longe demais... Junho teria sido suficiente para perceber isso, mas quatro meses depois, vemos que nem sequer se pode contar com contenção e o mínimo de bom senso, por parte de gente que julga poder escapar do seu inferno causando um inferno aos outros. As chamas já chamaram demasiadas vítimas, e agora chamam pelos culpados, com um foco que não sairá das suas cabeças.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Outubro de 1917

Comemoram-se brevemente 100 anos de dois eventos distintos:
- a última "Aparição de Fátima" a 13 de Outubro;
- a Revolução de Outubro bolchevique (7 de Novembro, porém 25 de Outubro na Rússia).

Os eventos foram agrupados num "segredo" da Irmã Lúcia, quando em 1929 revelou que o fim do comunismo e a devoção da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, seria o segundo segredo. 
O primeiro segredo revelado, que consistia no fim "próximo" da 1ª Guerra Mundial, teve o pronúncio adiado por mais de um ano, e milhões de mortes.

Independentemente do tempo de Verão ter sido marcado por furacões de nível 5, que foram baptizados Maria e Irma (e não Irmã), o ambiente ficou especialmente caótico com as novas tendências de Outono, na Catalunha.

Os segredos da Cova de Iria dificilmente se podem considerar como surpreendentes, ou até como minimamente cumpridos, quando comparados com as revelações constantes dos chamados "Protocolos de Sião", esses muito mais assertivos quanto ao passado e depois quanto ao futuro que se avizinhava, conforme referia Julius Evola nos anos 1930. Digamos que uma vidência que falha o final da 1ª Guerra, nem sequer menciona a 2ª Guerra, a Guerra Civil Espanhola (onde Lúcia estava), ou as catástrofes nucleares de Hiroshima e Nagasaki, focaria um atentado a João Paulo II, esquecendo a morte suspeita de João Paulo I.

Como é habitual neste tipo de fenómenos de "massas", o foco é temporário, condicionado pelos interesses e vontades particulares dos "peregrinos", e tendem a desaparecer subitamente, conforme aconteceu com os santuários de Delfos, Delos, Dodona ou Eleusis, mesmo que tivessem resistido por um milénio.
As sucessivas falhas de previsão ou concretização dos pedidos, nunca são um factor minimamente relevante para o descrédito, porque a sustentação do fenómeno não assenta em nada de verificável, mas tão somente assenta numa esperança infindável, que encontra lugar nos mais pequenos indícios como sinais orientadores. Fátima terá histórias individuais de pequenos "milagres", com a probabilidade natural, e que abafam a inexistência de qualquer história concreta de grande milagre, decorrido um século.

Com 30 anos passados sobre a Perestroika e Glasnost, e sobre o declínio da doutrina ortodoxa comunista, já poucos se lembram da angústia permanente da ameaça de um conflito nuclear, que tornaria ridícula qualquer comparação actual... tendo a Coreia do Norte como ameaça.
Os media tentaram desde logo capitalizar novos conflitos como causas de instabilidade mundial - como no caso da 1ª Guerra do Golfo, em 1991, que serviu para assustar os viciados no susto, e teve os efeitos dramáticos concentrados nas populações do Kuwait e Iraque, como previsível. A Guerra da Bósnia, com perto de 100 mil mortos, foi um conflito europeu bem mais caótico, mas não foi usado pelos media para instaurar o mesmo tipo de medo "globalizado". Isso só viria a ser feito com a ameaça "terrorista", dado ter sido implantada com efeitos dramáticos nos centros ocidentais. Mas, à excepção do estranho caso do 11 de Setembro (onde a Torre 7 foi demolida pela BBC antes de ter caído), o número de vítimas e actos terroristas depois de 2001 será bem inferior aos que ocorreram nas décadas de 1970 e 80... quando não havia nenhum controlo especial nos aeroportos, nem nenhum medo global instalado pelos media. Nessa altura, convém lembrá-lo, o risco de terrorismo era encarado como um risco de voo, tal como o seria uma falha mecânica... e nessa conta, o número de vítimas causadas por falhas humanas ou acidentes de voo continuou a ser muito superior ao causado por qualquer acção de grupos terroristas.

Se o comunismo não tivesse desaparecido do seu protagonismo político, seria previsível que os media estivessem desde já a reportar os 100 anos da revolução bolchevique, mas assim mal se ouve falar do assunto... e como as comemorações dos 100 anos de Fátima ocorreram no 13 de Maio, para este 13 de Outubro fica a atenção muito mais reduzida, como é habitual (... talvez à excepção da associação com a passagem do asteróide 2012 T4C, prevista para este 12 de Outubro).

Interessa ainda que passam ainda 100 anos sobre a  Declaração de Balfour, de que falámos também referindo o apoio que Lenine teria recebido pelos alemães e austríacos, para financiar a revolução bolchevique e assim colocar a Rússia fora da 1ª Guerra Mundial...

Essa declaração escrita em Outubro de 1917, antecederia a Batalha de Jerusalém e a entrada britânica na cidade em Dezembro, findo o poder otomano de 400 anos, e retomando a entrada como novos cruzados, após o abandono em 1187 por Balian de Ibelin para Saladino, e depois em 1244 por Frederico II, que a havia reconquistado antes, no contexto da 6ª Cruzada.
(Selo de Balian de Ibelin)


terça-feira, 3 de outubro de 2017

De 11/9 a 9/11, em 300 anos, esquecida a conquista de Madrid

Filipe não será o melhor nome de rei espanhol, no que diz respeito a portugueses e catalães!
Até porque antes do actual Filipe VI, houve Filipe V...

11 de Setembro (11/9) 
Em 11/9/1714, as forças de Filipe V venceram Carlos III e Barcelona caiu.
Desde essa altura o 11 de Setembro é dia nacional da Catalunha.

9 de Novembro (9/11)
Em 9/11/2014, passados 300 anos, a Catalunha, com Artur Mas, realizou a primeira consulta referendária para uma independência, onde obteve similares resultados aos expressos agora no 1-o (o referendo neste domingo passado). Ou seja, há três anos, obteve 80% de votos sim-sim (havia 2 perguntas) com uma participação de 2,305 milhões de votantes. 
Em percentagem, subiu agora para 90% na vontade independentista, subida que muito deve à desastrosa política de Rajoy. Mas fiando-nos nestes resultados, pouco mudou, e pouco tenderá a mudar. Uma parte maioritária da Catalunha quer ser independente...

9/11 era domingo em 2014, mas a escolha da data invertida face ao 11/9, não terá sido acidental, e diz muito do simbolismo nestes pequenos actos, quando então se comemoravam 300 anos. O inverter da data, seria um bom augúrio, para inversão do passado, passados 3 séculos... mas o efeito foi pouco notado, por comparação com a publicidade que a actuação de Rajoy agora deu ao 1-o. Dir-se-ia que o galego Rajoy parece estar a trabalhar bem para a independência da Catalunha.

Filipe - Carlos (bis)
Bom, nesta disputa estão ainda Filipe VI pela monarquia e Carles Puigdemont pela república...
Uns 300 anos antes estavam Filipe V e Carlos III, monarcas de origem francesa e austríaca.
3 séculos, mas de novo um antagonismo entre Filipes e Carlos.
Filipe V, sendo neto de Luís XIV de França, foi o primeiro monarca da Dinastia Bourbon espanhola, porque foi o vencedor da Guerra de Sucessão (1702-14) contra Carlos III (Arquiduque e Imperador Carlos VI da Áustria).

Filipe de Bourbon era o herdeiro nomeado, mas uma boa parte das potências externas não acharam boa ideia que a Casa Bourbon acumulasse os tronos francês e espanhol... apoiando assim o arquiduque austríaco, Carlos. Carlos começou por desembarcar em Portugal, mas depois fixou-se em Barcelona, até ser derrotado. Os catalães apreciaram a escolha, e lutaram até que Barcelona caísse.

A conquista de Madrid por António Luís de Sousa em 1706
No decurso das hostilidades, em que Portugal, tal como Inglaterra, estavam do lado de Carlos III, o Marquês das Minas, António Luís de Sousa, teve a pequena ousadia de pegar num exército de cerca de 15 mil portugueses e 5 mil anglo-holandeses, seguir em direcção de Salamanca, e numa série de vitórias, só parou com a conquista de Madrid, em Junho de 1706.

Conquista de Madrid - 1706 (de João Vieira Borges)

Foi uma pequena ocupação, mas suficiente para que Carlos III tivesse  tempo de sair de Barcelona e ir a Madrid reclamar o trono... No entanto, a população castelhana já preferia Filipe V, Carlos III foi aclamado, mas mal recebido, e em Outubro de 1706, perante contra-ofensivas e derrotas dos aliados, o exército português foi forçado a retirar estrategicamente de Madrid.

Estranhamente, esta conquista única da capital espanhola, por um exército que era praticamente português, e com comando português, não consta de ser conhecida, e muito menos ensinada aos nossos petizes. Tanto mais que terá sido a única vez que os portugueses entraram como força invasora numa capital europeia... e convém notar que, se do outro lado o exército espanhol se dividia, o exército francês do rei sol, Luís XIV, era comandado pelo experiente Duque de Berwick, que com reforços, acabou por vencer a contenda, que colocou os Bourbon no poder - até hoje, com ligeiras interrupções republicanas.
Filipe VI é assim o herdeiro directo da dinastia que ficou com o nome espanholado "Borbón", e sendo essa dinastia de tão má lembrança à Catalunha, na altura apoiante de dinastia oposta, pedir lealdade no sentido monárquico, parece uma deslembrança com pouco sentido histórico, e especialmente com pouco sentido político, quando os catalães, ainda que sem outra opção, votaram por uma república.

Barcelona 1929 - 1992
Os únicos jogos olímpicos realizados em Espanha não foram realizados em Madrid. Espanha uniu-se para receber os jogos em Barcelona, em 1992, onde foi construída uma vila olímpica... com duas torres gémeas a encabeçar. Já antes, na Exposição Internacional de 1929, foi construída a Praça de Espanha, também com duas torres, feitas ao modelo de Veneza.
1992 - Barcelona - torres gémeas

1929 - Barcelona - torres gémeas "venezianas"

O campanário de S. Marcos com mais do dobro da altura (98 metros) foi a inspiração para as duas torres venezianas, de 47 metros em Barcelona, na Praça de Espanha. Construídas em 29 foram talvez um dos primeiros exemplos de torres gémeas, depois repetido em 92, com duas torres mais modernas (agora uma como hotel, e outra de escritórios Mapfre)... numa altura em que já se repetiam torres gémeas em diversas cidades do mundo - nomeadamente em Nova Iorque.

Para uma cidade que comemora o 11 de Setembro como dia nacional, não deixa de ser curioso...

Aproximando-se o nosso 5 de Outubro, reparamos que aí comemoramos simultaneamente a instauração da independência e a proclamação da república - ou seja, a resposta ao referendo catalão nas suas duas vertentes - independência e república.


Nota (5/10/2017):
Relativamente à incursão portuguesa e inglesa em território espanhol, não deixa de ser significativo que foi no final da Guerra de Sucessão que Filipe V aceitou conceder Gibraltar à Inglaterra, a título definitivo, no Tratado de Utrecht de 1713. Isto tem a relevância actual da Espanha ter insistido na devolução do rochedo, no contexto das negociações em curso da UE com UK, dado o Brexit.
Ou seja, exigiram o rochedo, para completar o território espanhol na península, mas ficaram a braços com uma eventual independência da Catalunha. A coincidência dos acontecimentos não deixará de ser ponderada em Madrid.
Entretanto, o único território semi-independente com língua oficial catalã continua a ser Andorra.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Um paralelo de Barcelos a Barcelona

Que os nomes "Barcelos" e "Barcelona" são parecidos... pois isso não é novidade para ninguém, já que basta serem pronunciados para se constatar a semelhança. 
Que a sua origem é, em ambos os casos, remetida a "barcas" - ou à família cartaginesa Barca (de Aníbal), ou a simples embarcações, pois também não é difícil de encontrar. 
Que haja qualquer relação entre uma coisa e outra, pois sempre parece ter sido desconsiderado, ou até alvo de zombaria... mesmo que se admitam origens similares para os nomes.

No entanto, parece coisa singular que, para além da semelhança do nome, o registo de latitude das cidades seja também muito próximo:

Paralelos - Barcelos: 41.5º N, Barcelona: 41.4º N

A diferença entre os paralelos é pouco mais que 0.1º (1 décimo de grau ~ 11 Km).
Este facto é normalmente ignorado nas "etimologias", até porque quem faz linguística, normalmente não liga à geografia.

Há outras cidades de relevo nas proximidades desse paralelo que vai de Barcelos a Barcelona, nomeadamente - Braga, Zamora ou Tordesilhas. 
Sobre Braga, também teve o seu nome pretensamente associado aos cartagineses Barcas (na hipótese que Barca tivesse passado a Braca e depois a Braga). No entanto, não há registo de que os cartagineses tivessem estado em latitudes tão a norte, quanto o Rio Cávado, e portanto a essas hipóteses nunca foi dada grande credibilidade.

Numa situação normal, estas duas coincidências - nome e latitude semelhantes, são insuficientes para o assunto merecer tratamento num texto deste blog, e ainda que tivesse procurado, não encontrei uma terceira ligação clara entre Barcelos e Barcelona. Digamos que, com três ou mais coincidências, podemos suspeitar que não se trata de coincidência... mas neste caso, nem o galo de Barcelos ajudou.

O terceiro ponto surge apenas da actualidade, de Barcelona viver um momento conturbado, em que se tenta livrar do jugo de Madrid. Por aqui, podemos ver que as coisas têm mais pontos comuns... mesmo que sejam mais vagos.
O título de Duque de Bragança foi dado a Afonso, Conde de Barcelos, filho bastardo de D. João I, pelo matrimónio com a filha de Nuno Alváres Pereira, que era então o Conde de Barcelos, numa altura em que não havia ducados, e aquele condado era considerado o mais importante. O título de Conde ou Duque de Barcelos ficou desde essa data ligado à Casa de Bragança (Bragança está um pouco mais a norte, a 41.8ºN, tal como Valladolid, a 41.7ºN).

Acontece que em 1 de Dezembro de 1640, quando o Duque de Bragança, que era também Duque de Barcelos, decidiu proclamar a restauração da independência portuguesa, passavam quase 6 meses do início da Revolta Catalã, ocorrida em 7 de Junho de 1640. Por isso, quando encontramos um catalão é habitual que nos diga que os portugueses devem a sua independência à revolta catalã... já que durante o período de 1640-59, foram quase vinte anos - em que o principal foco de Madrid era recuperar o controlo de Barcelona. A Guerra de Restauração foi mais acentuada e dura após 1659, e até 1668, já sob reinado de D. Afonso VI, pois só aí a Espanha se concentrou na recuperação de Portugal, que tinha tido quase 20 anos, proporcionados pelos catalães, para recuperar um grande exército, e um grande líder - o Marquês de Marialva - capaz de derrotar o experimentado exército espanhol da Guerra dos Trinta Anos, em sucessivas batalhas, de Elvas a Montes Claros.

Portanto, não deixa de ser curioso que a regência dos Duques de Bragança e Barcelos, tenha resultado da revolta em Barcelona, em muito orquestrada pela casa Medina-Sidónia, da rainha Luísa Guzman, mulher de D. João IV. Quanto mais não fosse por outra razão, esta seria suficiente para calar desbocados nacionais, que clamam contra a independência catalã, invocando legalidade, como se a legalidade não fosse mais do que uma construção de legos, feita à medida da criançada.

Acrescem como curiosidades, o paralelo de Barcelos a Barcelona, não só passar por Zamora, cidade onde se celebrou o tratado de independência de Portugal em 1143; mas também passar por Tordesilhas, cidade onde se celebrou o tratado em 1494 com Isabel e Fernando - o último rei de Aragão, já que foi o seu casamento com Isabel que determinou a união de Castela com Aragão, em 1492-93, e a constituição da Espanha, em especial após Carlos V.
Tanto mais é curioso que a cidade de Toro também fica pelo mesmo paralelo 41.5ºN, e foi aí que Fernando de Aragão derrotou D. Afonso V, que pretendia reclamar Castela para Joana (sua sobrinha) contra Isabel de Castela. Digamos que o sucesso de Fernando de Aragão ao assegurar a pretensão da mulher ao trono de Castela, acabou por comprometer afinal o reino de Aragão, quando a capital se manteve em Toledo e depois Madrid.

Portanto, apesar de entre Barcelos e Barcelona existir apenas a coincidência do nome e da localização, surgem nesse paralelo cidades com tratados marcantes - Zamora, para a independência de Portugal, e Tordesilhas (ou Toro), que formalizam já a união espanhola, e o fim do reino independente de Aragão. E como se isto não fosse suficiente, a ascenção ao trono português dos Condes/Duques de Barcelos, deveu muito à revolta em Barcelona.

Como observação final, será conveniente lembrar que depois de 1640, a França se aliou a Espanha, em 1659 para derrotar a Catalunha, e obter uma parte - o condado do Rossilhão. Como tal, não é de esperar que a Catalunha consiga simpatia do lado francês, já que se seguiriam questões sobre esse território catalão em França (que também tem parte do território basco). 
Acresce que o Reino de Aragão se estendia pela região de Valencia, dominando as ilhas Baleares, e mesmo o Reino de Nápoles e Sicília... e pelo lado italiano, também não se espera nenhuma simpatia com o movimento catalão, já que a Itália é uma manta de retalhos, com os seus próprios problemas. A Inglaterra querendo manter Gibraltar, tentará trocar o seu apoio a Madrid por mais um prolongado silêncio sobre essa questão.
Ou seja, a Catalunha vê os mais diversos interesses reunirem-se contra si, e não tendo conseguido a simpatia de nenhuma potência externa, dificilmente conseguirá mais do que uma nova negociação sobre a sua autonomia. No entanto, ouvindo a língua com o sotaque catalão, perguntamo-nos se o único enxerto que não pertencia à nossa península, não é mesmo o enxerto com pronúncia castelhana... 

domingo, 17 de setembro de 2017

536 - um ano sem verão?

Tem sido considerado que no ano 536 (e seguintes) ocorreram uma série de problemas climáticos, que levaram à designação "eventos de clima extremo em 535-536" (segundo a wikipedia).
A principal referência será o historiador bizantino Procópio, que referia que os raios de luz do Sol não aqueciam, parecia a luz lunar, fraca como a luz num eclipse. Há ainda referências a anais irlandeses, ou chineses, onde se refere a ocorrência de neve no Verão.
Procurei informação sobre este assunto em Bernardo de Brito, um dos raros historiadores que comenta o período suevo na história da península, mas não encontrei nenhuma menção ao evento climático singular. Isto não é significativo, até porque sobre o período suevo as informações são tão escassas, que pode ser natural uma ausência a essa referência. 
Sobre as razões desta possível mudança climática, vão desde erupções vulcânicas, que incluem o Cracatoa, até possíveis quedas de meteoros, ou impactos de pequenos cometas... mostrando que quando faltam outras explicações, os historiadores convencionais se parecem muito com "teóricos da conspiração".

É comum considerar-se que durante o período romano, a temperatura era em geral mais amena do que seria hoje, tendo baixado consideravelmente no Séc. V e VI, voltando a subir no Séc. X até ao Séc. XV, caindo de novo até ao Séc. XX.
Isto está por exemplo confirmado num estudo feito em anéis de árvores, no Oeste americano, publicado na revista Nature em 2016:
Gráfico relacionado com as secas entre 800 e 2000 d.C., confirmando informação anterior.  
Estes períodos medievais de maior temperatura são associados a "secas" ou "mega-secas", que se teriam prolongado por dois períodos de 2 séculos. Na prática, isto corresponderá também a uma altura em que a maior temperatura teria aumentado o degelo e o nível do mar, o suficiente para ter permitido navegações em locais extremos - Passagem Noroeste e Passagem Nordeste, feitas muito provavelmente pelos portugueses, e que seriam de certa forma navegações irrepetíveis nos séculos seguintes, dada a descida de temperatura e consequente maior abundância de gelo. Este assunto já foi de certa forma abordado num texto anterior.

Bernardo de Brito refere que após Gorgoris e Abidis, no final do período dos reis míticos lusitanos, a Península Ibérica terá sofrido um período de grandes secas, que podem ter levado ao abandono das populações, que podem ter migrado para norte (nalguns casos podem ter emigrado mesmo para as Ilhas Britânicas, conforme consta nos registos escoceses), e isto também poderá ter dado origem à ideia de um período de invasão de cobras, ou serpentes, no nosso território.

Convém notar, no entanto, que o período mais decisivo em termos de "alterações climáticas", terá ocorrido no final da Idade do Gelo... quando de uma situação em que os gelos perenes se situavam no Sul de França, passaram subitamente para paragens escandinavas. As populações que estavam habituadas a subsistir num tipo de clima mais frio, podem ter acompanhado a migração para paragens situadas bem mais a norte, evitando temperaturas mais "escaldantes". 

Também será natural que as denominadas "invasões bárbaras", que ocorreram no final do Império Romano, pudessem ter como fenómeno adicional de motivação - para uma migração para sul, o decréscimo de temperatura que se veio a verificar nos Séc. V e VI. Há toda uma história de populações que se relaciona directamente com fenómenos climáticos, que ao provocarem destruições de colheitas, impeliam a deslocação de populações... anteriormente conformadas a viver noutros espaços, outrora agradáveis.

Da mesma forma, os holandeses, que durante os últimos 500 anos se entretiveram a conquistar terra ao mar, através de grandes diques, podem sentir agora, mais que outros, uma ameaça latente no clima, como ameaça nefasta ao seu território, se voltarmos a entrar num período de algum aumento da temperatura... como seria expectável.