domingo, 28 de fevereiro de 2021

A África começa nos Pirinéus (4)

Quando em 1492 os reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, decretam a expulsão dos judeus do território espanhol, há uma audiência que foi depois registada em diversos quadros.

Escolhemos aqui parte do quadro de Emilio Sala (1889), que ilustra o momento em que Torquemada, Inquisidor-Mor, atira um crucifixo para a frente do judeu... Abravanel oferecera 30 mil ducados para que Fernando evitasse o édito de expulsão, e Torquemada comparou isso à oferta a Judas para trair Cristo...


Curiosamente, Torquemada seria filho de cristãos-novos, os pais seriam judeus, e até o mais famoso inquisidor seria de origem judaica. Porque, em questão de fama, os créditos não vão para mãos alheias.

Abravanel poderia ter a hipótese facilitada por ter nascido em Lisboa, mas D. João II procurava-o, por ter sido associado à conspiração dos Bragança contra si, e assim seria dos poucos judeus para quem Portugal também não era fuga possível. Acabou por sair para Monopoli e depois para Veneza.

Consta que terá argumentado que os judeus sefarditas estavam na Península Ibérica desde o tempo em que fugiram ou foram deixados por Nabucodonosor, e portanto estes judeus não poderiam ser associados à morte de Jesus Cristo, porque nunca tinham estado fora da Hispania.
Saiu também em 1988 um texto chamado "Édito de resposta de Isaac Abravanel", que pode ser encontrado aqui (ou aqui), que é normalmente encarado como obra de ficção, mas é ilustrativo do problema subjacente, seja original ou ficção recente. O texto coloca esta profecia na boca de Abravanel:

No curso do tempo, o outrora grande nome da Espanha se tornará um provérbio murmurado entre as nações: Espanha, a pobre e ignorante; Espanha, a nação que tanto prometia e todavia terminou tão pequena.
E então um dia a Espanha se questionará: o que nos sucedeu? Por que somos motivo de riso entre as nações? E os espanhóis daqueles dias olharão em seu passado e se perguntarão por quê isso veio a acontecer. E aqueles que são honestos apontarão para este dia e para estes tempos quando a sua queda como nação começou. E como causa de sua ruína serão mostrados ninguém mais além de seus reverenciados soberanos católicos, Fernando e Isabel, conquistadores dos mouros, que expulsaram os judeus, fundaram a Inquisição, e destruíram a mente investigadora na Espanha.

A decadência de Espanha (e Portugal), tem sido muito associada a esta vontade de vingança dos judeus contra esta expulsão. Não será sem razão, mas terá sido largamente exagerado o papel judaico, per se, quando comparamos o que se passou com a Holanda, que perdeu naturalmente o seu império, ou com a Alemanha, que se reergueu numa década ou duas, após a derrota nazi..

Porém, uma vontade ignorante foi levada para França e satélites, por momentos elevada aos píncaros, especialmente após a derrota de Espanha na Guerra dos Trinta Anos. 
A partir de Vestfália, os reinos ibéricos passaram a ser desconsiderados do primeiro plano mundial, servindo especialmente para alianças nas disputas entre França e Inglaterra.

Rafael Bordalo Pinheiro caracterizava assim a ignorância francesa, vista de Lisboa, pela luneta da publicação "António Maria":

O QUE OS FRANCEZES PENSAM A NOSSO RESPEITO 








Para evitar que desprovidos de massa cinzenta, manipulados como criancinhas numa loja de doces, fossem sussurrar loas encomendadas por massons da loja sucursal francesa, sobre um eventual racismo, ou preconceito racial, de Rafael Bordalo Pinheiro, face à cultura africana, creio que ele próprio escolheu representar-se como negro, deixando branco apenas o seu gato.
Esses franceses eram os mesmos negreiros que exerciam um colonialismo deveras racista, em nome da liberdade, igualdade e fraternidade, e que acusando os outros de imoralidade, acabam por ser os únicos que mantêm colonialismo ultramarino, em pior grau que ingleses e americanos.
Claro que tudo isso escapa aos olhos de lince da mediocridade nacional, patrocinada por lobbies externos, como génios e enfants terribles, reconhecidos por meia dúzia de prémios da treta, obtidos convenientemente fora de portas.

Até no futebol, clubes rivais percebem que elogios dos concorrentes feitos aos seus, são para serem ignorados ou desconfiados, e só na intelectualidade de idiotas é que vale o paradigma da esperteza ser nitidamente burra, mas muito politicamente correcta, tendo em vista interesses externos.

Mas, esquecendo quem faz por não merecer memória, e voltando ao assunto judaico, é ilustrativo o artigo de Norman Roth (The Historian, volume 55, 1995), que começa assim:

Ou seja, Norman Roth afirma que a Hispania serviu como casa para os judeus, durante mais tempo do que qualquer outro sítio, incluindo a própria Palestina! Não estabelece a data de chegada dos judeus, mas garante que já estariam cá pelo Séc. III, e convirá não esquecer que Bernardo de Brito diz sobre a presença fenícia:
  • Cap. 28: Das guerras que houve em Lusitania, entre os Celtas e Turdulos, e da vinda a Espanha de Nabucodonosor.
  • Cap. 29: De como a gente Portuguesa, que foi em socorro de Cadiz, tomou as armas contra os Fenícios, por lhes negarem o soldo.
A presença fenícia e depois cartaginesa no sul da Hispania está sobejamente atestada, de Cartagena a Cádis. Cádis funcionaria pelo menos como um último porto "mediterrânico", para a nação comercial fenícia e cartaginesa.
Portanto, é indubitável que uma presença de povos de paragens ou origens fenícias se estabeleceu na Hispania, e será redutor pensar que aqui não se incluiria a variante que se chamaria hebraica, como atestado de proveniência. 

Não há propriamente nenhum outro registo de grande migração judaica para outras paragens, durante o Império Romano. Porque razão viriam os judeus, não cristãos, a se estabelecerem aqui, se não houvesse uma ligação mais ancestral, que os acolhesse? Ao contrário de cristãos ou árabes, os judeus não procuravam converter gentios, não tinham espírito missionário, porque só o seu povo seria escolhido.

Curiosamente, em 139 a.C., poucos anos após Cartago ser arrasada, o pretor romano Cipião Hispano, dá uma ordem de expulsão de todos os astrólogos Judeus e Caldeus, que estavam em Roma, devido às más influências que lançavam nos bastidores. Se esse lado dos Cipiãos foi hostil, houve outros, os Gracos que, como vimos, trouxeram ideias revolucionárias para Roma, na mesma altura, levando a um século de alguma instabilidade de social. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Restauro e a Rês Tauro

Os irmãos Bordalo Pinheiro foram bastante influentes no final do Séc. XIX, e Columbano que foi quem atestou a autenticidade dos Painéis de S. Vicente, após 1882, e não deixou de o fazer notar.

Não sei até que ponto Columbano foi influenciado, ou quis influenciar a partir daí.

O ponto de partida é este tecto que está no Hotel Olissipo Lapa Palace, antigo palácio do conde de Valenças. Esse tecto é uma parte que se compõe com mais 7 painéis.
Só conheço 5 deles, os outros 2 estão em colecção privada. Mesmo assim, encontrar este tecto, já não foi assim tão fácil:


Creio que o tecto representa quem toca a música, e de certa forma o pano/véu é um pouco levantado.
O tema é supostamente a "dança"... porque seria para enfeitar o salão de baile. 
Os 5 restantes painéis "Cenas de Baile" foram alvo de licitação em 2014, começando em 500 mil euros, mas não tiveram comprador. Não faço ideia como estão as coisas, nem me interessa. Interessava-me mais conhecer os 2 painéis, de que não conheço sequer uma fotografia, e parece que ninguém quis saber.

Acerca dos 5 painéis de "Cenas de Baile", parece-me que não podem ser dissociados dos 6 painéis que Columbano pintou para a ala dos Passos Perdidos, na Assembleia da República:

(clicar para aumentar)

Na lengalenga artística, Columbano pintou os 5 painéis de "Cenas de Baile" para este efeito e passo a citar o que está no site do leiloeiro:

O conjunto de painéis é descrito pormenorizadamente na obra de Fialho de Almeida, "Os Gatos": Columbano Bordallo acaba de mostrar a meia dúzia de íntimos, no seu atelier no pateo Martel, trabalhos de decoração executados por encomenda do conde de Valenças, para a sala de baile do mesmo senhor. 
A pintura é a óleo, e consta de um tecto que não podemos vêr, e foi pintado in situ, e de sete panneaux de cerca de tres metros d'alto e de largura diferente, que serão aplicados ás molduras d'estuque do salão de baile a que se destinam. 
O primeiro panno é consagrado á dança de hoje: um par adolescente avança com dengosidade fin-de-siècle 
O retábulo segundo é a dança no Imperio. Ha um rapaz de perfil, expressão flagrante dos estoiradinhos d'esse tempo, calça colante, meia de seda, casaca de gola altíssima, bicorne, e bofes de renda em grandes folhos. A figurinha da mulher é deliciosa, com o vestido de corpinho curto, os braços descobertos, e o decote quasi horizontal, descobrindo peito e hombros sem provocação. 
Terceiro panno, em pleno Luiz XV. É um momento de gavota, surprehendido: o par avança num torneio de corpos gracil'
Quarto retábulo, Luis XIV. O costume de homem, severo, casaca azul e cabelleira d'anneis, canhões e bofes de renda, tricorne na mão esquerda, e o collete de grandes abas, cahindo, vermelho, até lhe encobrir as coxas de paralta. A figureta da mulher poisa a tres quartos, voltando de leve as costas a quem olha, e é a mesma anemia morena, o mesmo typo afusado e decadente das outras, com frescuras que lhe vem dos poucos anos, e nunca do circular sadio do bom sangue. 
Finalmente o último trabalho da decoração é uma grande tela onde está pintada uma quadrilha, de que o espectador apercebe oito ou nove figuras. (20 de Janeiro de 1891)

Creio que não.
Creio que Columbano estava a pensar no Marquês de Pombal, na suposta cena de baile ao estilo "Luís XIV", e para esse efeito comparem-se as figuras dos círculos amarelos.
Quanto ao "Grupo em Festa", comparem-se as figuras com círculos verdes, ou seja, parece-se retratar o Duque de Saldanha. Compare-se ainda a senhora na figura central com retratos de D. Maria II:
... e se outra coisa não chamar a atenção, pois o penteado é uma cópia quase exacta.
Quanto, ao sujeito com o círculo roxo, pode ser associado ao que está representado nos Passos Perdidos como sendo Manuel Borges Carneiro, e que foi um dos supostos heróis da revolução liberal de 1820.
Haverá certamente outras possibilidades de associação, mas estas pareceram-me mais evidentes.

Por isso, como é óbvio, quando em 1891 Columbano Bordalo Pinheiro fez a encomenda para o conde de Valenças, não esteve com explicações sobre o que queria fazer, é natural que tenha dito aquilo que o leiloeiro diz, por via de Fialho de Almeida, e que seria o que o Conde de Valenças queria ouvir, mas a questão é sempre a mesma, e repetir-se-à:

- Quer V. Exª  ver, ou fechar os olhos?

Mesmo no que diz respeito aos 6 painéis dos Passos Perdidos, que têm uma sequência (mais ou menos) óbvia definida pelas nuvens, ou temporalmente, pela escolha dos figurantes. A própria escolha de personagens e do seu enquadramento, vestes, ou pose (vejam-se D. Dinis e D. João II), tem muito que se lhe diga.
Se Columbano usou aí 6 painéis, como número igual aos de S. Vicente, pois é uma escolha coincidente mas mais dúbia, já que não consigo vislumbrar uma relação interpretativa semelhante, mesmo admitindo que uma estátua de liberdade faça ali figura de santo para calhaus. Mas o que Columbano deixou nos Passos Perdidos, mostra bem que o ambiente fúnebre dos painéis de S. Vicente era ainda sentido naquela evocação das glórias libertárias, parlamentares, para lamentares.

Mas "Cenas de Baile" é mais ilustrativo para o olhar, com a cena no tecto do Hotel Lapa Palace a mostrar que há quem tem esteja por cima do pano, do véu que cobre a situação, à volta de uma arena, em que servimos de rês, de touro, aguardando a corneta do inteligente para sairmos à praça enfurecidos.
Depois virá cada cavaleiro espetar-nos uma farpa, e para a faiena ser boa, o bicho tem que ser bravo, mas é claro que quem será sempre aplaudido será o cavaleiro. A rês só serve para testar a valentia do boi montado a cavalo. Quando o bicho é mesmo bravo, usam-se umas vacas para o recolher aos curros.

Camões e as Tágides (por Columbano, 1894)

Restaurar ou rês-taurear?
A Restauração, que se diz ser de independência, ou outra, mesmo alimentar, serve para encher a mente da rês, ou o seu estômago, de matéria que sirva para avaliar o peso do animal quando vai para a arena. 

Da mesma forma que já disse que chapéus há muitos e barretes também... pois é altura de dizer:
- Painéis há muitos!
O problema é que ninguém os quer ver... porque no fundo ninguém está em interessado em ver, está sim interessado em olhar para onde lhe apontam o olhar, não para ver, mas apenas para ser visto.
Pelo que a questão, colocada aos que estão no meio da grande arena, se resume a isto:

Quer V. Exª  ver... ou que o vejam?

sábado, 20 de fevereiro de 2021

O "António Maria" (1883) vaccinas

Já aqui falámos da publicação "António Maria" que Rafael Bordalo Pinheiro foi alimentando no final do Séc. XIX. 

No ano de 1883 houve uma ameaça de cólera sobre a Europa, que Bordalo Pinheiro caracterizou assim:


O Cholera (a cólera). A vaccina da Europa.
(i) Aparece um frasco dizendo Ganges/Cholera.
(ii) John Bull (a típica representação da Inglaterra) injecta uma vacina na jovem representando a Europa (nas vestes tem escrito Portugal, Hespanha, França, Itália).
(iii) Mercúrio/Hermes (deus dos mercadores e não da medicina), agarra o pulso da jovem, senta-se em cima de uma pedra que tem escrito £ 1000 000 000 000 (um certo montante em libras esterlinas). Nessa pedra está o caduceu hermético, que por vezes se confunde com o símbolo da medicina, mas que na realidade é o símbolo dos mercadores, tendo duas serpentes em concorrência.

Será preciso maior tradução? Estaria Bordalo Pinheiro a sugerir que John Bull tinha trazido cólera do Ganges, da Índia, onde era potência colonizadora para a Europa, para depois ter um pretexto para vacinar e assim pedir um montante exorbitante por isso? 
É claro que não, Bordalo Pinheiro era um sujeito sério. Não iria convencer as pessoas de uma teoria da conspiração!
Mas vejamos o que diz Bordalo Pinheiro sobre o pânico mediático que se instalou em Lisboa:


Ao que parece os jornais não falavam noutra coisa (onde é que já vimos isto), e começavam queixas de insalubridade de vizinhos contra vizinhos, dos pés à cabeça...

Os bairros de Lisboa faziam reclamações de água corrente (vinda do rio Alviela, ver Aqueduto do Alviela) ao primeiro-ministro, então Fontes Pereira de Melo:


Quanto ao delegado de saúde, o equivalente à DGS, não lhe ficava atrás nas recomendações.
Bordalo Pinheiro caricaturiza-se em cima de um fio de telégrafo, com as andorinhas, porque, segundo o dito delegado (possivelmente Rodrigues de apelido), as habitações mais elevadas eram mais seguras enquanto o micróbio estivesse de olho neles (daí o micróbio com a luneta):


E a última caricatura, que termina o incrível longo período de (adivinhe-se) 2 semanas, em que fala do assunto, termina com um eventual "Cordão Sanitário do Algarve":

Bom, eram outros tempos, e Costa não é Fontes.
A cólera já se sabe, comparada com a Covid... digamos, não tem comparação!
Cordão sanitário do Algarve? Mas onde é que já se ouviria falar de tal coisa?

(SIC, 19 de Junho de 2020)

Qual era a razão do pânico? Dizia a SIC:
«Festa ilegal em Faro. Há já 69 casos de Covid-19 confirmados.»

"Festa ilegal"... toda esta designação necessita de um manual de tortura como auxiliar de leitura, porque em nenhuma época, todos os habitantes de um país foram proibidos de se juntar para festejar, estivessem sob ameaça de peste negra, de malária, cólera, ou tuberculose. 

Sim, espante-se o mundo, não é a primeira vez que está sob ameaça de doenças perigosas, mas é talvez a primeira vez em que a reacção à doença provocará muito mais mortos do que a própria doença.

Não apenas isso, é a primeira vez que uma doença domina a agenda mediática mundial, ou nacional, por mais do que um ano... e como se morre de Covid? Como se morre de pneumonia. E não morreu mais gente no mundo com a Covid, do que morria antes, conforme se pode ver neste gráfico (com base em dados da ONU, ainda que se tenha que notar que "o impacto da Covid não foi tido em conta"... com tudo o que isso significa, ou seja, que desde 2020 há dificuldade em contabilizar mortos).

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

dos Comentários (75) setas egípcias

Resultado de um comentário de Djorge sobre uma questão aqui deixada em 2017, 

  • Ouvi..... que um arqueólogo (espanhol, se não me falha a memória) que costumava fazer explorações no Egipto, encontrou pontas de setas egípcias no Gerês.

Djorge deixou o link para um catalogo do Museu Nacional de Arqueologia:

Antiguidades Egípcias  (1993, Luís Manuel Araújo)


O catálogo começa com esta fotografia histórica de António Beato de 1869, inserida numa expedição onde segue também Eça de Queirós, mas vai concentrar-se numa expedição ao Egipto onde a Rainha D. Amélia se deslocou com os dois príncipes em 1903.
Aliás há uma fotografia da rainha com a comitiva junto às pirâmides de Gizé:
A rainha está ao centro, em posição mais elevada, sentada num dromedário (e para quem não experimentou... andar de dromedário, não é algo que seja um brinquedo para as costas). Noutra fotografia aparecem os príncipes D. Luís Filipe, o mais velho, que será assassinado com o pai em 1908, e o futuro D. Manuel II:

Leite de Vasconcelos que dirigiu o Museu de Arqueologia, decidiu comprar em 1909 uma série de objectos egípcios, a que se juntaram outros apresados a um navio alemão na 1ª Guerra Mundial, e que depois da intenção de devolução portuguesa, ficaram doados pela Alemanha... não sei bem se o Egipto teve alguma palavra no assunto, mas como sabemos, no contexto colonial parece que isso não interessava para nada. 

Conforme Breno explicou aos Romanos, antes de Roma ser grande... "Vae Victis", que é como quem diz - "Ai dos vencidos!"... porque o pagamento de dívidas dos vencidos, seja em prata, ouro ou couro, é sempre feito nas balanças dos vencedores, para satisfazer os seus balanços. 

Roma aprendeu bem essa lição, quando um século depois obrigou Cartago a uma dívida que apenas serviu para retardar algumas décadas a sua aniquilação completa. 
Poderia Roma continuar a explorar uma fonte fácil, de trabalho quase gratuito, para alimentar a sua riqueza, deixando Cartago sobreviver num permanente endividamento?... 
Poder, poderia, mas não o fez, pois conforme Catão sempre alertava, deixar Cartago renascer teria o perigo inevitável de voltar a ter um general cartaginês como Aníbal a ameaçar Roma.

Assim, como resultado de Cartago ter pago a dívida durante 50 anos, o que poderia dizer o governo cartaginês aos seus concidadãos? 
- Desculpem lá qualquer coisinha, mas vamos ter que continuar a pagar, durante os próximos 50 anos?
- Mas, não pagámos a dívida toda? Qual é o problema afinal?
- O problema é que se não continuarmos a pagar somos aniquilados...
Ora aqui, a malta rasgava as vestes e partia para batalha, como fizeram, tendo os cartagineses acabado mortos ou escravizados para o resto da sua vida. Da sua cidade, cultura e língua, terá restado... zero! 

Haveria alternativa? Sim, uma muito engraçada.
O governo cartaginês iria falar ao Senado Romano e dizia-lhes:
- Percebemos qual é o vosso problema, mas deixem-nos sobreviver... prometemos educar os nossos petizes de forma a que eles vos admirem e nunca vos hostilizem.
- Então e como vão convencer os vossos concidadãos a trabalharem sempre para nosso proveito?
- Inventaremos corrupções internas, que delapidem o nosso tesouro, que irá directamente para vós!
- Isso é capaz de fazer algum sentido. Mas o vosso problema é que os vossos filhos não são parvos.
- Deixaremos que uma certa elite romana se instale em Cartago, e será essa que irá definir que os melhores cargos vão para os piores de nós... o povo, desconhecendo a história, permanecerá iludido que o problema está nas suas elites, incapazes de se gerirem sem corrupção e degradação.
- Mas isso já foi tentado?
A esta pergunta, os cartagineses não iriam responder, mas portugueses e espanhóis, desde há quase quatro séculos, sabem bem como a receita funciona!
Por isso, quando vem uma vacina de Roma, há que convencer o povo a baixar as calças?...

Adiante.
O que Djorge fez notar e muito bem, foi esse problema caótico de organização, que os portugueses nunca são capazes de resolver... e passo a citá-lo:
  • Típico da desorganização mediterrânica, aparentemente existem pontas de setas agrupadas em caixas que não se sabe ao certo de onde vieram, como transcrevo (página 61): "Quais são exactamente os 22 amuletos entrados em 1903 (!) por depósito do "Exmo Sr. J. J. Judice"? Onde estão ao certo as seis pontas de seta trazidas por Leite de Vasconcelos do Egipto em 1909, misturadas com os milhares de pontas que o Museu possui?"
Olhando para as 400 páginas do catálogo, houve algumas fotografias que não deixaram de me causar alguma admiração, dada a sua proveniência egípcia... mas só vi as pontas de seta naquela citação e não em nenhuma fotografia.

Os objectos que me parecem oferecer alguma dúvida sobre a sua proveniência, estando normalmente indicado "proveniência desconhecida", são estes, entre outros:





É claro que no Egipto houve vários períodos, desde o Império Antigo até à época helenista, após a invasão de Alexandre Magno, a época romana, ou ainda posterior, já cristã copta, antes da invasão árabe.

De qualquer forma deixo aqui este registo de objectos, que me pareceram um pouco fora daquilo a que estamos habituados a associar às colecções egípcias. Mesmo sendo encontrados no Egipto, não deixam de ser algo invulgares ao nosso preconceito sobre a cultura egípcia, e não deixa de ficar a hipótese que no meio da confusão típica nos registos nacionais simplesmente as coisas estejam mal etiquetadas... e ali pelos mármores esteja um graffiti feito às escondidas por um filho de algum empregado do museu!!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Peças dos Painéis de S. Vicente (6)

Muito se poderia ainda dizer sobre os Painéis de S. Vicente que voltaram às notícias recentemente:

(Publico, 9 de Fevereiro de 2021)

faço este postal apenas para dizer que se considerei o assunto como importante, ao ponto de definir o nome deste blog, esse assunto está para mim abordado e enterrado. Aliás deixo um PDF com o que escrevi sobre o assunto, em 2009, 2013 e 2018:

PDF (60 páginas) na Plataforma Mega:


O último apontamento que juntei em 2018 tem justamente uma nota adicional sobre o restauro onde foi decidido torcer o nariz à rainha D. Leonor. 

É preciso clarificar uma coisa - qualquer restauro redunda num certo crime histórico.

Dado um original antigo, o que há a fazer é guardá-lo e não tocar em coisa alguma. No máximo, podem fazer inspecções que não destruam o original.
Claro que não falo em destruições claras como o restauro do Ecce Homo feito em Espanha em 2012 por uma paroquiana. Aliás, os espanhóis parecem gostar de restauros grotescos (como o do astronauta colocado na catedral de Salamanca), que alimentam o turismo. Por muito pequena que pareça a intervenção, o uso de substâncias, que parecem hoje inofensivas, poderá prejudicar técnicas posteriores de inspecção, mesmo que o aspecto seja mantido (... e como vimos nos Painéis não foi). 

No entanto, dado o estado a que isto chegou, neste momento a confiança entre o original, e uma cópia substituída pelo original, é uma confiança muito pequena.

De qualquer forma aproveito para fazer duas observações acerca das radiografias que vieram a Público:

1º) Acerca da "ausência de rede" na radiografia 



Na imagem supostamente radiografada, a rede desaparece por completo, e nem sequer há vestígio do cordame mais espesso nem dos discos. As feições parecem-me bastante alteradas, e isso não se explica apenas pelo raio X, que depende da frequência/intensidade usada. Uma coisa parece manter-se, ou seja, o nariz torcido da rainha, que em fotografia antes do restauro anterior não existia. Isso também não é determinante, pois podia ser resultado de um restauro ainda anterior. Aparentemente também não vejo grande razão para a cara de Dona Beatriz estar mais escura na pretensa radiografia, do que as restantes... Em suma, tudo isto apenas junta informação inconsistente, quando não há mais explicações, pelo que se pode dizer tudo e o seu contrário.

2º) Tra la spica

Nesta imagem que associei ao Infante D. Pedro, disse algures que estaria à espera de ver ali mais uma espiga do que uma espada. Não é isso que a suposta radiografia revela (nem eu esperaria outra coisa), e por isso aqui teria que comer as palavras que proferi. Só que olhando para a cabeça radiografada e para a imagem, percebe-se que uma cara pouco tem a ver com a outra em termos de proporções, medidas pixel a pixel, dando 7% mais alto na radiografada do que na fotografada, o que não é pouco... pois vê-se a olho que uma cabeça é mais longa que a outra (o que não acontece, sempre, noutros casos).

Conclusão:
Poderia dizer que estamos em presença de obras diferentes, em que a radiografada é cópia da outra, e depois o resto são efeitos da treta, tipo photoshop para inventar degradações... mas isso seria levantar suspeitas sobre quem fabricou as imagens, e não há informações para isso. Há apenas inconsistências, que podem ter imensas explicações, cheias de conteúdo vazio.

Fica de parabéns o Clemente Baeta, já na lista dos autores nomeados pelo Público. A sua obra está elencada nos diversos supositórios sobre cada imagem, o que não é nada que me surpreenda, e ele bem saberá que esta constatação não encerra nenhum elogio. 

Este assunto tem carácter algo pessoal, que me é difícil de esquecer, e por isso será difícil mudar de opinião. Uma coisa foi deduzir uma hipótese consistente em 2009, e mesmo que fosse com algum cuidado, também não foi nada de exagerado, conforme coloquei noutras coisas, essas sim mais críticas.
Outra coisa, é saber em 2013 do "Manuscrito do Rio", o único documento do Séc. XVI que fala da obra, que confirmava exactamente o que tinha escrito, e quem estava representado como santo era o filho morto de D. João II. Quando se tem uma confirmação desse tipo, se já antes não via muitas possibilidades de mudar de opinião, menos ficaram. Menos ainda ficam, quando vejo que nos 38 supositórios elencados pelo Público, nenhum considera a hipótese mais óbvia.

Termino com as mesmas palavras que deixei há oito anos, e há dois anos e meio atrás:

  • É tempo de voltar a fechar a tampa do caixão e dar nova paz a este assunto.
  • Apenas reflecte o conceito de normalidade vigente, isto é, não vi gente!

domingo, 7 de fevereiro de 2021

A África começa nos Pirinéus (3)

Os dois textos em Janeiro introduziram o assunto pelo princípio. Mas as coisas ficam muito mais claras, indo ao fim... ou pelo menos a um fim intermédio.

Os judeus pediram e apoiaram a invasão árabe em 711
Não será assunto surpreendente, mas evita-se falar no assunto - os judeus preferiam o convívio com os árabes do que com os cristãos visigodos:

Um judeu jogando xadrez com árabe (em Livro dos jogos, de Alfonso X, 1283, já mencionado)

Cito aqui o vídeo que é baseado no livro de 2008 de E. Michael Jones:

Jews for Jesus versus Jews against Jesus; Christians versus Jews; Christians versus Judaizers. This book is the story of such contests played out over 2000 turbulent years. In his most ambitious work yet, Dr. E. Michael Jones provides a breathtaking and controversial tour of history from the Gospels to Julian the Apostate to the Hussites to the French Revolution to Neoconservatism and the End of History.

e o vídeo que faz uma menção ao assunto e ao livro encontra-se aqui:

History of the Jews in Spain - Daniel Walker Backup  (Excerpt - Mirror)

São bastantes claras e relevantes as seguintes menções:
  • In 694, the 17th Council of Toledo proclaimed "the impious Jews dwelling within the frontiers of our Kingdom ... have entered into a plot with those other Hebrews in regions beyond the seas, in order that they might act as one against the Christian race ... through their crimes, they would not only throw the Church into confusion, but, indeed, by their attempted tyranny, have essayed to bring ruin to the Fatherland and to all the population.''' 
  • In 852, the Anales Bertinianos described the loss of Barcelona because the Jews "played the traitor," allowing the Moors to capture it. As a result, "nearly all the Christians" were "killed; the city [was] devastated," and the Jews "retire[d] unpunished.'' The Jews "defined themselves as the antithesis of Christianity" and conspired with Christendom's enemies. Although they prospered under the Visigoths in Spain, they nevertheless conspired with Arabs in Africa to overthrow the Visigothic monarchy. At the beginning of the 8th Century, they used their contacts with African Jews to prepare the invasion of the Mohammedan Berbers across the straits of Gibraltar. 
  • When the Mohammedans conquered Spain, the Jews flourished, achieving one of the most sophisticated cultures in Europe. The Jews excelled in medicine and helped in bringing Aristotle to Europe. But the flower of Sephardic culture drew its economic substance from unsavory roots. The Sephardic Jews grew rich on slaves and usury. 
Ou seja, menos de 20 anos antes da invasão, o Concílio de Toledo já avisava acerca de uma "teoria da conspiração" (porque não podia ser vista como coisa diferente), que juntava os judeus que viviam sob domínio visigodo e os judeus que viviam no Norte de África, para actuarem todos como um, com os árabes, a uma só voz, no sentido da invasão da Península Ibérica.

É aqui dado o exemplo de uma traição judaica na queda de Barcelona, mas o mais significativo é que de facto os judeus nunca tiveram problemas no convívio com as comunidades árabes, e conforme é dito floresceram mais com os árabes, tornando o reino de Córdova-Granada num exemplo de progresso na Europa Medieval.

De acordo com esta referência, o plano de invasão árabe comandado por Tarique, e que culminou na vitória na Batalha de Guadalete, não foi uma simples invasão sem apoio coordenado entre os judeus do lado visigodo e os judeus do lado africano.
Também dificilmente seria de outra forma, a entrada sem par de uma força expedicionária, que pouca ou nenhuma resistência foi encontrando, conseguindo em pouco tempo estender o seu domínio por uma grande parte da Espanha.

Convém aqui ser moderado nas pretensões da incursão árabe, que sendo quase total pelo lado costeiro, não se terá atrevido às conquistas mais difíceis, nas montanhas asturianas. Não há registo de presença árabe no distrito de Bragança, por exemplo... "o domínio dos árabes no distrito de Bragança foi por assim dizer nulo ..."  (O Archeólogo português, Volumes 12-13, 1907).

______________________
Nota complementar (08.02.2021):
Neste vídeo, correspondente a uma versão judaica:



é praticamente assumida esta versão colaboracionista, entre os judeus sefarditas (ou seja, que viviam sob domínio visigodo) e os árabes invasores, mas é recusada a ideia de que houve um pedido prévio para a invasão. 
Ou seja, os judeus reconhecem que foi graças à sua colaboração com as forças  árabes invasoras que foi permitido que estas continuassem por todo o território hispânico, deixando as cidades conquistadas com uma pequena guarnição, porque aí contavam com a colaboração judia, para manterem as cidades sob controlo islâmico.
A diferença não é na prática muito grande, e poderia ficar a dúvida entre saber se os árabes arriscaram toda uma estratégia de invasão sem terem isso assegurado a priori... 

Isto chega quase a ser ridículo, porque isto corresponde a ter empregados que, perante um assalto vão colaborar com os assaltantes, no sucesso da invasão, mas parecem achar tudo bem, apenas porque supostamente não foram eles que chamaram os assaltantes... por muito menos que isso, já Portugal pediu desculpa pela expulsão dos judeus. 
Com este reconhecimento de culpa, pode-se perguntar - que sentido faz pedir desculpa a culpados?

Mas vamos continuar com a história, porque isto não me parece ter sido tão simples quanto nos querem apresentar!

sábado, 30 de janeiro de 2021

dos Comentários (74) pedras cortadas

Em comentário de José Manuel Oliveira, foram sinalizadas duas formações rochosas interessantes.

Al Naslaa
Começo pela pedra em Al Naslaa, fracturada, havendo um bom apontamento em magnusmundi.com:
Al Naslaa Rock (ver Google Maps)

O problema como se verá, é que o enorme megalito apresenta uma fractura quase perfeita, dir-se-ia feita a laser, remetendo a questão logo de seguida, para quem a poderia ter feito?

Além disso, esta pedra tem um desenho invulgar, de data desconhecida, talvez com milhares de anos, e outras inscrições mais recentes. Mas podemos focar-nos no desenho do cavalo, que parece ser conduzido por um homem armado com uma espada, que tem inscrição (em língua desconhecida):

Ora corresponderá esta formação rochosa a um trabalho humano?
Apesar de considerar que em muitos casos se pretende iludir formações naturais, quando é mais natural que se tratem de formações humanas, neste caso parece-me o oposto. 

Para esse efeito, fui encontrar no Google Maps esta fotografia em pose, do verso da pedra:


Acontece que se nota uma outra camada também vertical, que apresenta alguma cisão, e poderá vir a cair. Portanto, se esta segunda camada é natural, a falha vertical perfeita também aparenta que o possa ser. Olhando noutras rochas da mesma zona, vêem-se mais pedras fracturadas na vertical, mas sem a falha tão exposta. 
Sendo assim uma estranha formação antiga, nada mais natural que alguém surpreendido com a formação tivesse aproveitado a superfície lisa frontal, para deixar aí algum graffiti rupestre que parece ser bastante antigo (podendo remontar a mais de dois milhares de anos).

Aproveito para deixar aqui outra formação natural conhecida, que é a Split Apple Rock (ou ainda  chamada Tokangawha) na Nova Zelândia, onde tudo indica ter havido uma origem natural na fractura da grande pedra redonda:
... ou um pouco mais perto, a 15 Km de Chaves, temos a chamada Pedra Bolideira:
... sendo talvez a mais conhecida, devido a ligação à passagem bíblica do Monte Horeb, no Sinai:

No entanto, o que me parece ser mais interessante, na pedra de Al Naslaa, é mesmo a inclusão rupestre, não havendo aí dúvida que se trata de inclusão humana antiga, talvez assinalando algum mito de que a pedra teria sido cortada pela espada do cavaleiro...

Hegra (Mada'in Salih)
Outra formação sinalizada por José Manuel Oliveira, e aqui não oferece dúvidas de ter sido cortada por mãos humanas, são as rochas esculpidas de Hegra, na Arábia Saudita, que são muito semelhantes às de Petra, na Jordânia, mas menos conhecidas que estas, sendo ambas remetidas à cultura Nabateia, que depois foi englobada no Império Romano:
Hegra - vestígios da cultura Nabateia na Arábia Saudita.
(31.01.2021) 
_____________
Nota adicional (31.01.2021):
J. M. Oliveira faz ainda referência a um punhal de cristal, encontrado num Tolos de Montelirio, na província de Sevilha, a que se atribui mais de 5 mil anos, ou seja, c. 3000 a.C.

Mesmo sendo originário de rocha vítrea, como quartzo, o conjunto funerário tinha ainda pontas de setas cristalinas, algumas presas de elefante em marfim, e um ovo de avestruz, não sendo muito claro que tal fauna existisse na península ibérica naquela altura, podendo por isso suspeitar-se de algum comércio com paragens africanas no Neolítico ibérico.

________________________
Nota suplementar (01.02.2021)
Carlos Figueiredo em comentário anexo, aponta o site Arabian Rock Art Heritage, em particular para o rochedo de Al Naslaa:
que tem excelentes fotografias das gravuras no deserto, permitindo zooms de grande qualidade.
Além disso faz referência à língua Safaítica, que era usada por populações nómadas no deserto, acrescentando:
  • Nesta página da Wikipedia é possível ver a lista de caracteres e vários correspondem exactamente ao que se pode ver inscrito no rochedo.

domingo, 24 de janeiro de 2021

Carta Marina

Carta Marina é um mapa das regiões setentrionais - norte da Alemanha, Escandinávia, até à Islândia - feito por Olavo Magno (Olaus Magnus), arcebispo sueco exilado em Roma, em 1539.

É um mapa especialmente bem conhecido por conter imagens de "monstros marinhos", que seriam em boa parte resultado de adaptação às descrições de marinheiros, de baleias, orcas, cachalotes, etc. Tem diversos nomes de locais escandinavos, em que uma boa parte é de difícil relação com os actuais... em particular refere a existência de Tule (aqui Tile), separadamente da Islândia, e escrevendo que tinha 30 mil pessoas.

Tile e Fare - ilha Tule e ilhas Faroé. Desenho de uma baleia atacada por uma orca, e outros "monstros".

Não sendo a Islândia, a melhor hipótese que vejo é uma separação da maior das Hébridas, chamando Tule à ilha de Lewis e Harris, que é a maior ilha britânica (exceptuando a Irlanda e a Grã-Bretanha), que tem um gado razoavelmente típico, nalguns aspectos parecido com a vaca barrosã com franja:
 
Vaca da ilha Lewis e Harris (Escócia); e vaca barrosã (Minho).

No que diz respeito à Islândia, o mapa assinala a presença de uns túneis, em latim "criptoporticus", e de caves com ursos polares, bem como a visita de navios de várias proveniências, nomeadamente - de Hamburgo, que disparam contra um navio da Escócia; de Lübeck, que largam lastro, para escaparem de baleias; ou de ingleses que arrastam uma baleia com homens no seu dorso...


Quanto aos ursos polares, ainda houve quem tivesse a ideia de os acolher, mas rapidamente chegaram à conclusão que era menos perigoso matá-los:

Os ursos polares usam os glaciares, como forma de navegação (conforme se vê na ilustração), e vão aparecendo como uma ameaça, pois chegam esfomeados após viagem, normalmente da Gronelândia, e nesse aspecto os islandeses não estão com muita vontade ecológica de os acolher. Quem tiver opinião diferente, arrisca ser bem vindo ao estômago daqueles bichinhos fofos. 
Esta navegação dos ursos polares, associa-se a correntes de oeste para leste, junto ao círculo polar, que aparentemente traziam ainda bastante madeira (vinda do Canadá), à parte da Gronelândia (Grutlandie pars).

Sobre os "criptopórticos" serão provavelmente túneis de lava, e não construções humanas, ainda que à época isso não fosse claro. Alguém mencionou formações de lave desse tipo em Dimmuborgir:

Como curiosidade, vêem-se ainda alguns cavaleiros, e um músico encantador de cisnes... haverá talvez uma alusão a três menires, conforme os que existem em Callanish (ilha de Lewis e Harris, Escócia):
... no entanto, não qualquer encontrei referência a este tipo de formações megalíticas na Islândia.

Bom, não será bem assim... num blog TheUrbanPreHistorian, a propósito da Islândia, e de nada existir datado antes de Cristo, a que chama "Nothing BC", é dito assim:

There was no prehistory in Iceland. Nothing BC.
Yet when I recently visited for the first time, it became apparent to me that the landscape, both urban and rural, has a prehistoric quality to it.
This is an island that is defined by extremes of stone, and this has thrown up (in some cases literally) strange and beautiful arrangements of rocks. But not all of these megaliths are natural – there are standing stones, dolmen, stone circles too, commonplace in laybys, parks, street corners and on roadsides and pavements.

adicionando várias imagens, é interessante esta do centro de Reiquejavique, com dois menires:

... ou esta (re)construção "pagã" em Gridnavik (Reykjanes):
O autor do blog não tinha conseguido muito mais informação, e idem, idem, no meu caso.

No entanto, este tipo de estruturas megalíticas ia até às Orkney (Órcades), onde o assentamento em Broch of Gurness é anterior à era cristã e é um bastante importante monumento da Idade do Ferro (500 a.C.), não havendo propriamente nenhuma razão exclusiva para impedir que pudesse ter havido ocupação anterior, por navegações até à Islândia, a menos que fossem só autorizadas a ursos polares!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

A África começa nos Pirinéus (2)

Os cartagineses desapareceram de cena por volta de 150 a.C., e será de suspeitar que houvesse um resto de cultura fenícia no Médio Oriente, pelo menos implantada entre o sul da Síria e o norte de Israel, incluindo aí o actual Líbano, a localização predominante da cultura fenícia. Mas convém notar que um resto de cultura cartaginesa tinha ainda espaço na Ibéria, em Gades, ou seja Cadiz, entre tartessos e cónios. Essa parte irá sucumbir também com o avanço romano, especialmente após o assassinato do lusitano Viriato, e eventualmente com a sua cumplicidade, na eliminação cónia.

As viagens cartagineses, fenícias e dos tartessos, além dos pilares de Hércules, podem ter sido quebradas, e isso gerou um problema comercial em todo o Mediterrâneo, porque era através deles que se processava uma boa parte do comércio em grande escala na Antiguidade. 

Os romanos não substituíram logo esse papel, e houve diversos problemas sociais, resultantes de uma desigual distribuição da propriedade, e de um crescimento de Roma. Menos de 15 anos depois da queda de Cartago, as desigualdades sociais começaram a fazer-se sentir, levando a uma Lex Sempronia Agraria, ou seja, uma tentativa de Reforma Agrária dos irmãos tribunos Tibério e Caio Graco, que acabaram ambos assassinados... 

Tibério e Caio Graco

Os Gracos eram plebeus ricos, consta que educados por mestres gregos, e tinham como mãe Cornélia Africana, ou seja, a filha de Cipião Africano, que derrotara Aníbal em Zama. Portanto, se o pai Graco era de ascendência plebeia, a mãe era da fina flor patrícia, libertadora do perigo do general cartaginês Aníbal (... ainda hoje se ouve em Itália "Hannibal ante portas", para referir um perigo iminente).

Tibério Graco, portanto neto de Cipião Africano, consta ter sido o primeiro a escalar as muralhas de Cartago, no cerco consumado levado a cabo pelo seu cunhado, Cipião Emiliano. Tibério esteve depois na Hispania, e conseguiu uma rápida fama com a formação do partido Popular, defendendo claramente os plebeus, tal como depois aconteceu com o seu irmão, após a sua morte, ambos mortos por inimigos do Senado. Foi esse aliás um destino habitual dos membros do partido Popular - começou com os Gracos, e terminou com César. Os membros do partido Optimal, aristocrático, usavam de métodos mais tradicionais.

Portanto, a Roma vencedora de Cartago, viu-se a braços com sucessivas guerras civis, e de escravos, durante um século, praticamente até à ascensão de Augusto, curiosamente com intervenientes pelo lado hispânico, entre os quais Sertório foi protagonista, ao decretar a Hispania independente. 

Mas nestes conflitos entre Mário e Sula, e depois entre César e Pompeu, apareceram as revoltas de escravos na Sicília, que fora província cartaginesa, e a principal razão da guerra com Roma. Uma dessas revoltas, bastante bem sucedida, foi a de Spartacus, que a ameaçou Roma como só Aníbal o havia feito.

Qual a razão de tanta instabilidade política e social no espaço de um século?
Em minha opinião, há aqui uma possível ligação à aniquilação de Cartago que, deixando de ser um interveniente activo, passou a actuar nos bastidores, apoiando peças especialmente bem escolhidas no xadrez romano, num império que começava a atingir grandes proporções.

De um controlo comercial do mundo antigo, que ia da Fenícia à Hispania, em 146 a.C., os que restaram em Cartago foram vendidos como escravos, mas certamente que muitos outros fugiram e tentaram organizar-se.

Conforme já referimos, é nessa altura, com Judas Macabeu, que se começa a falar dos judeus, ao ganharem alguma autonomia na região abaixo das paragens fenícias, numa cidadezinha, então pouco ou nada falada, chamada Jerusalém. Até aí, Heródoto não os refere, ainda que haja outras tentativas de identificação, e para a maioria dos historiadores antigos, anteriores a 150 a.C., é como se os judeus não existissem. 

A construção do templo de Salomão, que é assumido ser o segundo (mas não há registo do primeiro), é feita por Herodes, um rei efectivamente vassalo do poder romano. Ora, o que se passa é que na mesma região original dos fenícios, vai aparecer um povo com as apetências comerciais que tinham os fenícios, e que passam a identificar-se como judeus. Através do cristianismo, atingem uma dimensão subversiva que se espalha por todo o império romano.

Toda a história sem registos ou fontes histórias concretas, passa por mitológica, à excepção do velho testamento judaico... há quase uma tentativa forçada de fazer aparecer esse registo, mas tirando as partes que se encontram nos textos mesopotâmicos de Gilgamesh, o resto parece basear-se em pouco mais do que uma novela familiar.

A parte mais importante da sucessão do velho império egípcio vai efectivar-se com o romance de César e Cleópatra, que marca também a passagem da República Romana ao Império Romano. As disputas deixam de ser ideológicas, e passam a ser efectivamente disputas de poder, para decidir a sucessão do imperador... e são terminadas assim que se declara um imperador, ou em casos mais complicados, se faz uma divisão de poder entre Ocidente e Oriente.

(continua)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

A África começa nos Pirinéus (1)

Os portuenses gostam de provocar, chamando "mouro" a todos e tudo o que vem abaixo do Douro, incluindo até Gaia, por uma questão de coerência geográfica.
No Séc. XIX houve uma moda, de um certo pedantismo norte-europeu, argumentando que a parte espanhola tinha muito mais de africana ou oriental, do que de europeia. Por exemplo, em 1816, ainda na ressaca da estrondosa derrota napoleónica, Dominique Dufour du Pradt, embaixador de Napoleão, escreve o seguinte (Mémoires historiques sur la révolution d'Espagne, pág. 168):

C’est une erreur dela géographie que d’avoir attribué l’Espagne à l’Europe; elle appartient à l’Afrique: sang, mœurs, langage, manière de vivre et de combattre; en Espagne tout est africain.

Poderíamos argumentar pela bestialidade xenófoba do embaixador, mas na prática isto corresponde a um problema de autocentrismo, que define o referencial como sendo o seu, e tudo o resto como irrelevante. Para Dufour du Pradt, a Espanha não era Europa, porque não entendia o comportamento espanhol de se estarem a borrifar para os franceses.
Propósito bastante diverso tiveram de um modo geral os portugueses, onde sempre se viu uma abertura e tentativa de entender os indígenas (neste caso os franceses), ao ponto em que mesmo cá se pensa que os indígenas (franceses, ingleses, alemães) têm algum ascendente sobre uma terra que os viu sair das cavernas. Definir Espanha como parte de África, nem seria ofensivo, seria uma benção, porque nada há pior do que estar atracado a um continente que persiste em afundar-se no seu auto-deslumbramento central.

Fenícios e Judeus
Isto é apenas um detalhe marginal, mas que resulta parcialmente do problema seguinte:

  • (i) Chegou-nos a notícia de uma certa população que polvilhava o Mediterrâneo, que eram chamados fenícios e que depois deram origem aos cartagineses. Certo, mas onde estão os seus descendentes?
  • (ii) Chegou-nos um povo, hebreu ou judeu, vizinho dos fenícios. Certo, mas onde está o seu antigo registo arqueológico?

Ou seja, temos uma população fenícia ou cartaginesa, que desaparece da história, por volta de 150 a.C., praticamente ao mesmo tempo que começam a existir os primeiros registos de judeus.
  • Como se conjugam as coisas?
A queda do Império Cartaginês (por Turner, 1817) - os romanos terraplanam Cartago (146 a.C.).

  • Em 164 a.C. Judas Macabeu, dá o primeiro sinal de vida dos judeus, ao derrotar o exército Seleucida na conquista de uma cidade então algo desconhecida, chamada Jerusalém.
  • Em 146 a.C. Cipião Emiliano, neto adoptivo de Cipião Africano, arrasa e terraplana Cartago.

Estes dois acontecimentos podem explicar parcialmente o problema, se lhe juntarmos o cerco de Tiro, em 334-332 a.C., por Alexandre Magno, que arruinou o poderio Fenício:

Para atacar a ilha de Tiro, Alexandre construiu um pontão ligando ao continente (essa ligação é hoje efectiva).

Alexandre Magno terá sido implacável, reduzindo os 30 mil habitantes de Tiro à escravatura.
Sucederam-se mais de dois séculos sob o domínio seleucida, ou seja a dinastia greco-macedónia, iniciada por Seleuco, general de Alexandre Magno, até à invasão romana por Pompeu em 63 a.C.

Os habitantes de Tiro, os Tírios, eram conhecidos pela púrpura tíria, mas com deturpação fonética a região é conhecida como Síria, em vez de Tíria. Com efeito, a transcrição do grego Tiro seria Túro, podendo questionar-se alguma relação com o Touro, da deusa Astarte, a Vénus fenícia que para os etruscos se chamava Turan.

Durante o domínio seleucida, com capital em Antióquia, pouco se terá ouvido falar dos fenícios, de Tiro, Sidon ou Biblos, até porque, por outro lado, a colónia de Cartago continuava a prosperar, e prosperou até começar a 1ª Guerra Púnica com os Romanos em 265 a.C., tendo ficado o império cartaginês reduzido à sua envolvente no final da 2ª Guerra Púnica, depois da derrota de Aníbal face a Cipião em 202 a.C. em Zama (Xama, ou Jama).

Será aqui que as coisas se começam a complicar para fenícios e cartagineses, quando sob insistência de Catão, a sua frase final... além disso, Cartago deve ser destruída, tomou vias de facto em 146 a.C. 

Como as colónias cartaginesas de Espanha já estavam todas em mãos romanas, não houve aparente lugar de fuga para a civilização fenícia e cartaginesa.

Bom, e digamos que o problema não foi apenas esse. 
Mesmo o grande Egipto, com uma tradição milenar, que tinha sabido incorporar a invasão de Alexandre numa versão ptolomaica, deu poucos sinais de vida após o domínio romano. Ainda que a biblioteca de Alexandria tenha mantido a sua fama, esta foi sendo perdida, desde o incêndio no tempo de César até ao episódio que levou à morte de Hipátia.

Em suma, as duas grandes civilizações africanas, Egipto e Cartago, praticamente perderam a sua importância no curso do império romano.

Quem lhes sucedeu? 
- Uma hipótese muito provável é que tenham sido judeus e árabes a tomarem conta dessa herança.

(continua)