domingo, 24 de janeiro de 2021

Carta Marina

Carta Marina é um mapa das regiões setentrionais - norte da Alemanha, Escandinávia, até à Islândia - feito por Olavo Magno (Olaus Magnus), arcebispo sueco exilado em Roma, em 1539.

É um mapa especialmente bem conhecido por conter imagens de "monstros marinhos", que seriam em boa parte resultado de adaptação às descrições de marinheiros, de baleias, orcas, cachalotes, etc. Tem diversos nomes de locais escandinavos, em que uma boa parte é de difícil relação com os actuais... em particular refere a existência de Tule (aqui Tile), separadamente da Islândia, e escrevendo que tinha 30 mil pessoas.

Tile e Fare - ilha Tule e ilhas Faroé. Desenho de uma baleia atacada por uma orca, e outros "monstros".

Não sendo a Islândia, a melhor hipótese que vejo é uma separação da maior das Hébridas, chamando Tule à ilha de Lewis e Harris, que é a maior ilha britânica (exceptuando a Irlanda e a Grã-Bretanha), que tem um gado razoavelmente típico, nalguns aspectos parecido com a vaca barrosã com franja:
 
Vaca da ilha Lewis e Harris (Escócia); e vaca barrosã (Minho).

No que diz respeito à Islândia, o mapa assinala a presença de uns túneis, em latim "criptoporticus", e de caves com ursos polares, bem como a visita de navios de várias proveniências, nomeadamente - de Hamburgo, que disparam contra um navio da Escócia; de Lübeck, que largam lastro, para escaparem de baleias; ou de ingleses que arrastam uma baleia com homens no seu dorso...


Quanto aos ursos polares, ainda houve quem tivesse a ideia de os acolher, mas rapidamente chegaram à conclusão que era menos perigoso matá-los:

Os ursos polares usam os glaciares, como forma de navegação (conforme se vê na ilustração), e vão aparecendo como uma ameaça, pois chegam esfomeados após viagem, normalmente da Gronelândia, e nesse aspecto os islandeses não estão com muita vontade ecológica de os acolher. Quem tiver opinião diferente, arrisca ser bem vindo ao estômago daqueles bichinhos fofos. 
Esta navegação dos ursos polares, associa-se a correntes de oeste para leste, junto ao círculo polar, que aparentemente traziam ainda bastante madeira (vinda do Canadá), à parte da Gronelândia (Grutlandie pars).

Sobre os "criptopórticos" serão provavelmente túneis de lava, e não construções humanas, ainda que à época isso não fosse claro. Alguém mencionou formações de lave desse tipo em Dimmuborgir:

Como curiosidade, vêem-se ainda alguns cavaleiros, e um músico encantador de cisnes... haverá talvez uma alusão a três menires, conforme os que existem em Callanish (ilha de Lewis e Harris, Escócia):
... no entanto, não qualquer encontrei referência a este tipo de formações megalíticas na Islândia.

Bom, não será bem assim... num blog TheUrbanPreHistorian, a propósito da Islândia, e de nada existir datado antes de Cristo, a que chama "Nothing BC", é dito assim:

There was no prehistory in Iceland. Nothing BC.
Yet when I recently visited for the first time, it became apparent to me that the landscape, both urban and rural, has a prehistoric quality to it.
This is an island that is defined by extremes of stone, and this has thrown up (in some cases literally) strange and beautiful arrangements of rocks. But not all of these megaliths are natural – there are standing stones, dolmen, stone circles too, commonplace in laybys, parks, street corners and on roadsides and pavements.

adicionando várias imagens, é interessante esta do centro de Reiquejavique, com dois menires:

... ou esta (re)construção "pagã" em Gridnavik (Reykjanes):
O autor do blog não tinha conseguido muito mais informação, e idem, idem, no meu caso.

No entanto, este tipo de estruturas megalíticas ia até às Orkney (Órcades), onde o assentamento em Broch of Gurness é anterior à era cristã e é um bastante importante monumento da Idade do Ferro (500 a.C.), não havendo propriamente nenhuma razão exclusiva para impedir que pudesse ter havido ocupação anterior, por navegações até à Islândia, a menos que fossem só autorizadas a ursos polares!

6 comentários:

  1. Catelo

    Ele foi considerado o fundador do Porto ou de Betanzos por autores antigos. Dizem que Catelo quando chegou aportou num local que chamou de Porto Catelo (posteriormente chamada de Portus Cale pelos romanos) e que mais tarde deu o nome a Portugal. Ao chegar começou a fundar povoações e cidades que estendeu até à Galiza. Mais tarde, Catelo escolheu uma pedra, que seria conhecida como a pedra fadada onde se sentava e fazia de tribunal, atendia em audiência os seus vassalos e julgava as causa do seu reino,que numa versão da lenda se chamou de Escocia, em homenagem a sua esposa Scota, noutros Galiza.

    Deste reino partiram muitos anos depois várias das invasões da Irlanda relatadas no Lebor Gabála Érenn.

    Na mitologia irlandesa e escocesa Catelo é o criador das línguas gaélicas, e antepassado dos gaélicos.

    Partólomo e Escotos

    Escotos (em irlandês antigo Scot, no moderno gaélico escocês Sgaothaich) era o nome genérico dado pelos romanos aos gaélicos da Scotia. Alguns deles, do nascente Reino de Dál Riata, onde hoje é o Ulster, estabeleceram-se em Argyll (Earra-Ghàidheal, East Gaels), onde criaram o Reino de Dalriada. Com o tempo o nome tornou-se aplicável a todos os povos das regiões que eles conquistaram, donde vêm as palavras modernas escocês e Escócia (em inglês Scotland). Acredita-se que os grupos gaélicos não se auto-denominavam escotos, exceto quando se referindo a si mesmos em latim.

    A pseudo-história medieval irlandesa explicava o nome traçando a descendência dos gaélicos de Scota, filha de um faraó egípcio.

    Partólomo
    O historiador Nênio no "Historia Brittonum" relata as várias migrações dos Escotos provenientes da Hispânia. A primeira liderada por Partólomo, a segunda por Nimech, a terceira por um soldado da Hispânia; a estas várias outras migrações se sucederam.
    Partólomo (em latim: Partholomus; Partholon ou Parthalán) é um personagem da história cristã irlandesa. Segundo a tradição, ele foi o líder do segundo grupo a se estabelecer na Scotia (hoje Irlanda), o Muintir Partholóin (pessoas de Partólomo). Eles chegam na ilha desabitada cerca de 300 anos após o Dilúvio de Noé e são responsáveis pela introdução da agricultura, da culinária, da fabricação de cerveja e da construção de edifícios. Depois de alguns anos, todos eles morrem de peste em uma única semana. Partólomo vem do nome bíblico Bartholomaeus ou Bartholomew , e ele pode ter sido emprestado de um personagem com esse nome que aparece nas histórias cristãs da São Jerônimo e Isidoro de Sevilha.

    Tirado da Wiki, o que sustem bem as origens ADN dos escoceses e irlandeses serem da Península Ibérica

    Cumprimentos
    José Manuel

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim, parte dessa informação, acerca da origem das tribos escocesas, via Hispania, já tinha sido referida aqui há oito anos:

      https://alvor-silves.blogspot.com/2012/12/conan-o-bretao.html

      (ver também os dois textos que se seguem nessa altura)

      Não tinha esses nomes de Partolomo (parece Bartolomeu) e Catelo, sendo que essa versão para Portus Catelo parece completamente desgarrada, provavelmente ligada a invenção posterior. Mas não sei...

      Obrigado.

      Eliminar
  2. Caro Alvor,

    Sobre Fare e Tile.
    A NOAA fornece acesso ao seu modelo de declinação magnetica, onde podemos estimar a declinação, direção das agulhas e localização dos polos desde a atualidade até ao ano de 1590.
    Aqui: https://maps.ngdc.noaa.gov/viewers/historical_declination/

    Porquê só até ao ano 1590? Desconheço.

    Nessa pagina, se arrastarmos o apontador cronologico a 1590 podemos ver que a declinação magnética obrigaria a uma deslocação do Norte Magnético 8 a 15º, dependendo onde se encontrava o observador, a ESTE do Norte "Verdadeiro".
    Isso resultaria em rodar uma carta atual, 8 a 15º para a esquerda de modo a poder comparar com uma carta em 1590, assumindo que ambas estavam na mesma projeção.

    Proponho esse ensaio, no Google Earth.

    Dará para ver a localização aproximada de "Tile & Fare" ou "FARE & TILE" (como aparece escrito), proximo da localização do arquipelago das ilhas FAROE, que em verdade não são 2 tal como demonstradas na carta de Olaus Magnus, mas que, embora o arquipelago seja composto por 18 ilhas, no inverno, e dada a proximidade entre elas, poderiam parecer como 2 grandes ilhas se o mar estivesse gelado entre elas, como Olaus o apresenta.

    Sobre a conjungação de FARE + TILE, apenas comento, que soa muito a Fartile, que num "latinismo italianisado?!" poderia ser traduzido como FARTO/ABUNDANTE em Português, ou referindo-se às ilhas, como FARTAS/ABUNDANTES em algo.

    Transpondo-me para 1539 consideraria que uma terra fertil em "pescado" poderia ser considerada "abundante" pois permitiria a ocupação e sobrevivencia prolongada.

    Olhando os dados económicos do arquipelago, o peixe ainda hoje se mantém como a principal exportação.

    Cumprimentos,
    Djorge


    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Djorge,
      a observação acerca da variação da declinação magnética é bastante pertinente, e houve com efeito uma considerável variação.
      Do que percebi, o que o Djorge sugere é que Fare + Tile fossem as actuais Faraoe, sendo Tile a correspondente a Suduroy, que é a ilha mais a sul dessas Faroe. Certo?

      Pois, eu fui mais levado pela separação das Hébridas, considerando as Exteriores como sendo Tile, ou Thule.

      Agora fala-se em Hébridas Interiores e Exteriores, mas a dimensão das Exteriores é mais compatível com a dimensão de Tile.
      Na Carta Marina, Tile aparece a uma distância similar entre as Faroe e as Orcadas (Orkney), e isso corresponde ao que se passa, se atendermos à distância que é colocada a Islândia.
      Além disso, Thule, era uma referência habitual em textos antigos, e não me custa supor que tivesse perdido esse nome para um pouco habitual "Lewis and Harris", apenas porque houve conveniência nisso.

      No entanto, sim, é também uma hipótese a considerar.
      Obrigado.

      Eliminar
    2. Fui ainda ver outra versão do mapa wm:https://www.wdl.org/pt/item/3037/view/1/1/

      De facto FARE é mesmo um conjunto de ilhas o que pode ser a descrição do arquipelago das ilhas Faroe.

      Cumprimentos,
      Djorge

      Eliminar