domingo, 3 de setembro de 2017

Hoje são campos onde foi Troya (2)

Volto a pegar na frase de Lavanha "hoje são campos onde foi Troya", para acrescentar uns detalhes acerca do assunto troiano, lendo o relato de Pausanias sobre a Grécia (escrito no Séc. II), onde há uma referência a Télefo, filho de Hércules, que é suficientemente estranha, porque o episódio apesar de ser largamente referenciado, não consta na Ilíada de Homero. Diz Pausanias acerca dos habitantes de Pérgamo: 
... and they claim that they are themselves Arcadians, being of those who crossed into Asia with Telephus. Of the wars that they have waged no account has been published to the world, except that they have accomplished three most notable achievements; the subjection of the coast region of Asia, the expulsion of the Gauls therefrom, and the exploit of Telephus against the followers of Agamemnon, at a time when the Greeks, after missing Troy, were plundering the Meian plain thinking it Trojan territory.
Pausanias: Description of Greece (Tradução de W. H. S. Jones & H. A. Ormerod). Londres, 1918

Ou seja, quando os gregos procuraram Tróia, simplesmente não sabiam onde ficava!

Pior, assolaram a costa turca, de Pérgamo à Mísia, sem encontrarem Tróia... quando afinal a cidade era vizinha de Pérgamo e da Mísia. 
Seria como dizer que alguém andava pela costa à procura de Tróia entre Lisboa e o Algarve, e escapava-lhe a península em frente a Setúbal.

Toda a situação geográfica, que se pretende passar, não faz qualquer sentido, até porque os gregos reúnem uma frota em Aulis, com navios que vêm de ilhas bem mais longínquas do que Tróia - basta reparar nos casos de Creta, do Chipre ou até da Ítaca de Ulisses.
Essa suposta reunião em Aulis ocorre duas vezes, pois na primeira partida, os navios são dispersos levando a expedição à Mísia, onde reina Télefo, que evita a invasão... No entanto, sendo ferido por Aquiles, um oráculo diz a Télefo que a ferida só "será curada pelo que feriu", o que leva Ulisses a concluir que o remédio é a própria lança de Aquiles. Só após esta cura, é que Teléfo indica o caminho para Tróia, e armada grega de 1200 navios parte de novo de Aulis... passados 8 anos! É neste ponto que ocorre o sacrifício de Ifigénia, com a finalidade de obter ventos favoráveis à expedição.
Como se o absurdo de terem estado ao lado de Tróia, não bastasse, voltam à Grécia para partirem de novo, e a expedição consiste numa viagem piscatória de 500 Km, que demoraria no máximo dois ou três dias. Todo o contexto da guerra de Tróia demora 10 anos! Mas como se o absurdo não chegasse, vemos que Tróia liderava uma força que juntava a Mísia, a Frígia, a Lídia, a Caria, a Lícia, etc... ou seja, uma cidade que lhes passara despercebida, mas que reunia praticamente o conjunto das forças da Ásia Menor.

Mesmo que sejamos tentados a desculpar artifícios poéticos, todo o enquadramento seria no mínimo inconsistente para merecer qualquer credibilidade e durabilidade... No entanto, os relatos da Guerra de Tróia, especialmente o de Homero, foram os mais persistentes para as gerações seguintes.

"Troikos Polemos" = "Guerra de Tróia"
Falando em gerações seguintes... não escapa isto à geração actual!
Uma geração que se viu confrontada com a "Polémica da Troika", tendo em atenção que, em grego, "Troikos Polemos" significa mesmo "Guerra de Tróia". 
Portanto, quando se abusou da definição russa de "troika" para um grupo de três, invocando cavalos, não ficam muitas dúvidas que os Cavalos da Troika, eram afinal Cavalos de Tróia. 
Até porque quando o presente dado pela UE era um empréstimo financeiro, que os estados tinham que pagar, mas que em nada os cidadãos iriam usufruir... sujeitando-se a maior controlo e maiores restrições sobre a sua qualidade de vida, dificilmente se conseguiria explicitá-lo de forma mais clara, e mais cínica... e só não foi de forma mais sínica, porque a China afastou-se o suficiente das oscilações monetárias, desagravando a polémica financeira europeia, e evitando o colapso dos seus principais clientes.

Bom, mas então o que se teria passado?
- Não me interessa propriamente a pretensa piada actual de mau gosto. Se esta foi uma repetição histórica em forma de farsa, já deixou as suas marcas em tragédias pessoais.

Interessa olhar para as escassas e contraditórias informações que restaram dos tempos antigos.
No final da Guerra de Tróia, se Micenas foi vencedora desse embate a uma escala global, ninguém notou muito. Nem Agamémnon teve tempo de celebrar, fulminado que foi por Clitemnestra. 
Aliás, pelo contrário, a civilização de Micenas, dos Hititas, dos Egípcios, foi assolada logo de seguida pela chamada vaga dos "Povos do Mar", que basicamente levou a um colapso das civilizações mediterrânicas.
Seguiu-se o que se considera ser um colapso civilizacional, que do ponto de vista histórico assinalou o fim da Idade do Bronze, e o caso grego assinala uma Idade das Trevas (basicamente entre os Séc. XIII a.C. e VIII a.C.), em certa medida semelhante a uma Idade Medieval na Antiguidade.

É no fim dessa idade de trevas que Homero formará a Ilíada e Odisseia, juntando acontecimentos com 500 anos de tradições orais, deturpadas pela mitologia. Os novos gregos já não são os homéricos Aqueus, aliás a Aqueia passaria a ser uma província vizinha à Arcádia, tal como a Ilida (Elis), onde se passariam a realizar os Jogos Olímpicos. Não deixará de ser curioso ficarem vizinhas províncias com nomes semelhantes a Aqueus (gregos) e a Ilíados (troianos).
Os novos gregos tomaram o nome de Helena, e até hoje autodenominam-se Helenos
A cultura helénica resultará da mitologia sobrevivente dessa Idade das Trevas.

Como Platão aponta, quando trata do assunto da Atlântida, o sacerdote egípcio Sonchis de Sais diz a Sólon que os gregos apareciam como crianças, sem memória do seu passado, nomeadamente das guerras com a potência atlântica, que subjugava os povos mediterrânicos. Os Egípcios sofreram com a invasão dos Povos do Mar, mas Ramsés III teria vencido duas batalhas, e Ramsés II tinha vencido os Hititas em Kadesh. O Egipto entrou em declínio, mas não de forma abrupta, como Micenas ou como os Hititas, e nesse sentido alguma memória teria permanecido.

É neste ponto que convém dar atenção à feroz crítica a Homero, feita por Dião Crisóstomo no Séc. II:
... onde basicamente, seguindo uma linha crítica a Homero, que se evidenciou depois de Platão, Dião vai argumentar o contrário do estabelecido - ou seja, que na Guerra de Tróia, os vencedores não foram os Gregos Micénicos, mas sim os Troianos

O que se pode ter passado, é que os gregos de Micenas provocaram estragos numa Tróia próxima, mas quando procuraram a Tróia mais distante, mexeram num vespeiro dominado por um poder atlântico. Há aliás referências ao envolvimento de Mémnon, rei de uma Etiópia que se situava numa África além dos Pilares de Hércules, e das próprias Amazonas (por Pentesileia), alinhando pelo lado de Tróia. Acresce que o registo egípcio dá conta que Helena teria ficado refugiada no Egipto e não em Tróia. No regresso de Tróia, não é apenas Ulisses que deambula perdido, quase todos os gregos têm dificuldade em retornar, e são poucos os que conseguem voltar com sucesso.

Nesta hipótese de Dião Crisóstomo, o Cavalo de Tróia seria uma invenção de Homero, e dir-se-ia mais que isso - a própria epopeia tendo como desfecho a vitória grega seria o verdadeiro trote troiano!
Os gregos cresceram celebrando a ideia de uma vitória que foi afinal uma completa derrota... 
Afinal, onde tinham ficado essas cidades micénicas? Todas foram completamente arrasadas nos anos seguintes, pelos "Povos do Mar". A cidade de Micenas, reencontrada por Schliemann no Séc. XIX, tinha sofrido um destino muito próximo daquele que fora reportado a Tróia - as muralhas e edifícios foram arrasados, e a cidade foi consumida por incêndio devastador. Assim como Micenas, todas as maiores cidades mediterrânicas, inclusive as hititas, sofreram um cenário de grande devastação... escapando apenas algumas cidades egípcias.

Neste caso, a hipótese que procurei (e encontrei sustentada por Dião Crisóstomo), é a de que a nova civilização grega, que cresceu ouvindo as histórias de Homero, após o Séc. VIII a.C., é uma civilização inventada num poder atlântico, talvez situado em paragens gaulesas, célticas, ibéricas, que cresceu na sombra de um cavalo troiano, que serviu para inverter a memória. Dando Tróia como destruída, não teriam esses troianos a perspectiva de ver os novos gregos rumar de novo a Ocidente com a finalidade de vingar os seus antepassados. O assunto ficava arrumado por uma vitória celebrada, mas inexistente. A forma de condicionar os gregos iria surgir de outra forma - pelo grande poder que os seus Oráculos, nomeadamente o de Delfos, iriam exercer sobre toda a civilização grega.

De uma forma, ou de outra, os novos gregos expandiram-se no Mediterrâneo, fazendo a Magna Grécia, mas não ousaram passar os Pilares de Hércules. A civilização grega, tal como o restante da civilização egípcia, iriam servir como tampão do progresso de outras civilizações - nomeadamente, os Assírios, Medos, Persas, e Babilónios. A ponte com o Ocidente, seria feita primeiro pelos Fenícios, e depois pelos Cartagineses, numa altura em que Roma começava a crescer. 
O ponto comum dos novos Gregos, Cartagineses, e Romanos - um novo sistema político que se iria impor durante os séculos seguintes - até Júlio César - o sistema político republicano. 
O barrete frígio do troiano Páris, amante de Helena, era o mesmo barrete republicano que foi servido às gerações seguintes, até ao século passado.

domingo, 27 de agosto de 2017

Âncoras (5) - Ancara, Angorá

Por vezes os novelos são tão intrincados trazem à memória coisas tão simples, como lembranças de infância, em que via a minha avó a tricotar, rendas (que não eram de altice, ou doutra chulice), e que me renderam apenas uma colcha, e sobretudo agradáveis memórias. 

A empresa Âncora já não existe, mas basicamente era a que fornecia todos os fios de tricotar, saindo da revolução industrial na cidade paroquial escocesa de Paisley (por via de George Clark), onde as instalações Anchor Mills já servem apenas como museu.
Esta memória teria relevo num blog de nostalgias, mas aqui o relevo diz respeito ao símbolo da cidade de Ancara, capital turca, que era expresso em moedas romanas antigas:
 
A representação de Ancara com o símbolo da âncora, em moedas romanas (imagens daqui, daqui e daqui).

Há assim uma ligação entre Ancara e Âncora.
Claro que poderíamos dizer que "âncora" e "ancara" são palavras muito parecidas, mas isso não seria nada mais do que simples especulação... e há bastante mais que isso!

Pausanias
Primeiro, é razoavelmente estranho associar uma âncora a uma cidade muito longe da costa, a 1000 metros de altitude face ao actual nível do mar. No entanto, há um registo lendário sobre o nome que justifica a âncora. É o geógrafo Pausanias que o refere, quando menciona a invasão gaulesa:
Este povo ocupou a terra na parte mais distante do rio Sangarius, capturando Ancyra, uma cidade dos Frígios, que Midas, filho de Górdio, tinha fundado em tempos antigos. E a âncora que Midas encontrou, até ao meu tempo [Séc. II], estava ainda no santuário de Zeus, bem como uma fonte, chamada Fonte de Midas, cuja água, dizem, Midas misturou com vinho para capturar Sileno.
Pausanias: Description of Greece (Tradução de W. H. S. Jones & H. A. Ormerod). Londres, 1918. 

Na tradução inglesa usa-se "Ancyra", outra escrita de Ancara, pois é usada a transliteração do upsilon em ípsilon, senão ficaria Ancura - quase idêntico à pronúncia de Âncora. Os tradutores colocam até uma nota de rodapé, afirmando "A legend invented to explain the name Ancyra, which means anchor". Por outro lado, a palavra grega tem um gama e deveria ler-se "agcura", que foneticamente continua quase igual a "âncora", e daí pode surgido a variante Angorá, adjectivo gentílico usado para dessa região turca. Em particular, gatos e cabras felpudas, angorás, cuja lã era apreciada em tempos vitorianos - levando à sua exportação para a Austrália, por exemplo. Poderia haver assim uma sugestão de ligação da marca Âncora à lã angorá, através do símbolo da âncora da cidade turca.

Âncora em altitude
Se Midas (ou quem quer que fosse) encontrou uma âncora em Ancara, o problema seria de saber como teria ido ali parar... ou seja, se fazia parte de uma construção para uma embarcação - e nesse caso não seria nada de muito estranho, que merecesse referência especial... ou se essa âncora fazia parte de um navio ali encalhado - bom, e nesse caso, a hipótese seria um dilúvio mundial. Ora, isso seria já algo digno de registo, que mereceria menção para a posterioridade, e daria um sentido profundo ao nome de Ancara.
É nessa hipótese que coloco este texto na sequência de outros textos sobre âncoras suíças, porque também na questão das âncoras encontradas em Basileia, o problema era semelhante... mas com menos de metade da altitude.
Há ainda um outro ponto... é que Ancara não está muito longe do Monte Ararat, a referência bíblica para o evento diluviano. Portanto, seja por razão histórica ou lendária, os eventos conjugam-se.

Galácia
Já falámos da invasão celta que Breno levou até às portas de Roma em 390 a.C. Essa mesma expansão celta teve um outro episódio significativo, com movimentações armadas que ameaçaram os gregos em 278 a.C., sob direcção de um outro Breno, tendo os gauleses sido derrotados nas Termópilas, antes de poderem saquear os tesouros gregos de Delfos.
Diversas expansões celtas entre o Séc. VI a.C. e o Séc. III a.C.

A pesada derrota celta, com a morte/suicídio de Breno, forçou os restantes a tentarem uma incursão pela Ásia Menor, cercando Bizâncio, e acabando por se fixar na região de Ancara, depois de terem sido convidados pelo rei Nicomedes da Bitínia e derrotados pelas tropas de Antíoco, numa história conturbada.
Interessa que um grande número de celtas, ou galátas, como eram também conhecidos pelos gregos, acabou por se instalar na região de Âncara, levando à definição de uma região que em tempos romanos - e ainda hoje - se chama Galácia (e que dá origem ao nome Galatasaray, como principal clube de Âncara).
É assim interessante que no centro da região turca, em torno de Ancara, se encontrasse um grupo de gauleses, que definiram um estado e identidade próprias, durante vários séculos.
Terão aderido ao culto da deusa Cíbele e de Átis, culto que era próprio da região vizinha da Frígia, e que foi adoptado pelos gregos e também pelos romanos. Os sacerdotes eram eunucos, denominados Galos (ou Galli) nome suficientemente ambíguo, mas que remeteria para também para os gauleses emigrados, que nas partes da Lídia, eram abstinentes de carne de porco (constando essa ideia de que teriam sido javalis e porcos, enviados por Zeus, a alimentarem-se dos restos humanos de Átis).

Bom, mas tirando os diversos detalhes, mais ou menos soltos, não deixa de ser curiosa esta ligação antiga entre a Gália e a Galácia... ao ponto de que as invasões turcas nunca parecem ter incomodado os franceses. De facto, entre França e Turquia basicamente houve sempre um "clima de paz", até à Primeira Guerra Mundial, onde a Turquia se teve que redefinir, para evitar a completa partilha do território pelos vencedores... mas já não com a capital em Istambul, mas sim em Ancara.
Assim, quando enquadramos a acção e documentação turca quinhentista, nomeadamente na cartografia, convirá não esquecer que pelo lado da Turquia aparecia também a França.


sábado, 26 de agosto de 2017

sábado, 12 de agosto de 2017

Pirâmide de crânios

No mundo quinhentista, um dos vários antecedentes que levaram a uma escalada de tensão entre turcos, árabes e cristãos, ocorreu em 1560, na ilha tunisina de Djerba, num episódio particularmente cruel e macabro. 
Expor corpos mortos, como forma de impor respeito ou terror, terá sido uma prática antiga, em particular medieval, onde desde esqueletos pendurados e cabeças espetadas em lanças, faziam parte de uma paisagem ameaçadora, com o intuito de manter a ordem... a ordem existente, claro está, pouco interessando outra. Mas, estas exibições macabras raramente durariam mais que alguns dias, meses ou anos.

Ora, pela sua duração - durante 320 anos (de 1561 até 1881) - a exibição de uma pirâmide empilhada com crânios de cristãos decapitados, conhecida como Borj er Rous ("Torre de Crânios"), foi talvez uma das mais longas exibições de impiedade, construída ao largo do castelo Borj el Kebir, à vista de todos os que passassem pela ilha de Djerba.

A pirâmide de crânios tinha 9 metros de altura, e teria sido erguida com um número que poderia atingir as 5000 vítimas - soldados invasores.
Estampa com a Pirâmide de Crânios, de soldados cristãos, mortos numa invasão falhada.

O macabro monumento só foi destruído pelos franceses, quando em 1881 a França invadiu a ilha, e a Tunísia ficou então como protectorado francês. As ossadas foram levadas para um cemitério cristão, e em substituição, os franceses ergueram um obelisco com dimensões semelhantes.

Foto com o Obelisco francês, que veio a substituir a Pirâmide de Crânios.

Antes disso, podemos ler um artigo relevante, na revista portuguesa Archivo Popular, que contava a história desta batalha em Djerba, e do destino funesto que ocorrera ao exército enviado por Filipe II, que pretendia recuperar o controlo da ilha, e de Tunis - antes conquistada pelo seu pai, Carlos V. 
Aquando do artigo (1840) o macabro monumento ainda se encontrava em exibição em Zerbi... (Zerbi ou Gerbi, foram outras formas de escrever Djerba):


Extractos da notícia do Archivo Popular em 1840 (nº3 pág. 22 , continuada no nº4 pág. 30)

Brevemente, a esquadra cristã tinha como almirante principal o genovês Giovanni Andrea Doria, incluía as forças do grão mestre maltês Jean de la Vallete (ver Santelmo), e o vice-rei espanhol da Sicília, Juan de La Cerda (ou Lacerda... em ambos os casos, "La Cerda" significa "A Porca", antigo nome dos duques de Medina-Sidónia). 
La Cerda, o vice-rei espanhol, ficara responsável pelo desembarque, onde contava com José de Savedra para o comando das tropas. De início, a população árabe foi apanhada desprevenida, as tropas cristãs lideradas por Savedra cometeram excessos, particularmente atrozes, e segundo o Archivo Popular, isso motivaria uma vingança desesperada (usando uma comparação notável com os índios norte-americanos). Acresceria ter sido uma vítima de Savedra a princesa Zobah, filha única do chefe árabe Yokdah, provavelmente um corsário, para aguçar a forma da vingança. 
Tendo sido eficazes os pedidos de ajuda árabes à armada turca, levaram à fuga do almirante Doria, e à fuga de La Cerda (que nem havia desembarcado), ficando os soldados cristãos liderados por Savedra à sorte do cerco da população, tendo sido todos decapitados, por ordens de Yokdah, que teria sido particularmente cruel com Savedra, colocando depois o seu crânio no topo da pirâmide.  

O crânio no topo da pirâmide, do comando da armada, não foi a cabeça que ficou no topo da pirâmide de caveiras. Filipe II não estava, Doria escapou, e La Cerda também, ficando apenas Savedra como crânio visível, já que a inteligência se guardou convenientemente nos bastidores.

Ao contrário de Carlos V, seu pai, Filipe II nunca ousou participar nas incursões à Tunísia. Em 1574, Tunis acabou por cair em domínio turco (até à conquista francesa), e o Mediterrâneo continuou a ser alvo dos diversos ataques da armada turca, por Turgut Reis, com ênfase em Malta, e os raides de corsários bérberes estendiam-se até ao Atlântico, do Algarve às costas da Irlanda e Islândia. Algo que praticamente só terminou com o domínio marítimo de ingleses e franceses no Séc. XIX.

Nesta expedição, conhecida como Batalha de Djerba a derrota cristã foi enorme, tendo perdido mais de 60 navios e uma estimativa de 14 000 homens.
O monumento vitorioso foi bastante macabro, e foi repetido pelos turcos, na concepção da Torre das Caveiras, aquando da primeira tentativa de revolta da Sérvia, em 1809... já que os rebeldes de Stefan Sindelic preferiram fazer-se explodir, do que serem empalados pelos turcos.
A ideia de que as civilizações muçulmanas, ou cristãs, têm na base uma filosofia religiosa que promove o respeito pela "pessoa humana", confirma-se... sempre que não há excepções, e as excepções ao respeito humano, foram quase sempre a regra. Para conveniência da reescrita histórica, esta pirâmide macabra é colocada como "obra de corsários, piratas", parecendo que durante 320 anos, nenhum poder islâmico teria capacidade de fazer o que os franceses fizeram - demolir!

Também aqui vemos como certas derrotas são convenientemente ocultadas, nos bastidores da história de Filipe II, e outras empresas mais francas e destemidas, como a de D. Sebastião, tiveram o badalo acusatório sempre a funcionar. Como se o Infante D. Henrique não tivesse sido levado também a empreender uma desastrosa aventura terrestre a Tanger, onde salvou a sua vida em troca da vida do seu irmão, o Infante D. Fernando. 
A cobardia, desonra e falta de carácter, parecem manter um lugar cimeiro na história mundial da falta de vergonha, mais preocupada com alguns fins alcançados, do que com a falta de princípios pelo meio. Enquanto os historiadores continuarem a ser piores que bobos da corte do despotismo vencedor, é certo que a moralidade reinante continuará pelas ruas da amargura.


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Viriato I, Apimano, Cesarão, Cancheno...

A lista de celebridades lusitanas contra o poder romano, normalmente só inclui um nome - Viriato.
No entanto, há várias referências a outros protagonistas, e em particular a dois Viriatos.

Viriato I
Este primeiro Viriato podemos vê-lo mencionado em [1], em 3 pontos distintos:

  • "Em Portugal houve dois Viriatos: um era Regulo, que passou com Annibal a Italia acompanhado de seus vassallos, como refere Silio Itálico lrv. 3, o outro foi mais conhecido, e destro na lança, que no cajado, como diz Camões, e segundo aííihna Justino liv. ult, não produziu Hespanha outro varão mais valeroso em muitos séculos do que Viriato."  (pg. 269)
  • (a propósito de Aníbal): "constavam suas tropas, além de africanos, de um grande número de Lusitana soldadesca, vetones, turdulos, e celtas, da qual era commandante Viriato I." (pg. 150)
  • "Escolhida pois Itália para theatro da guerra, principiou Anibal a assombrar os romanos; e sendo muitas, e repetidas as batalhas, em que os nossos occupavam sempre as testas dos exercitos, como lugares mais arriscados, vencendo os cônsules Cneyo Servilio, Cajo Flaminio, Lucio Emilio, e Cayo Terencio, nenhuma grangeou para a fama nome de maior permanência, que a chamada batalha de Canas; na qual depois do primeiro Viriato ter morto seis mil romanos, lhe tirou a vida o cônsul Paulo Emilio, cuja perda resarciram os nossos incitados da indignação, e vingança, chegando a escalar cincoenta mil soldados inimigos em recompensa de um só Viriato."  (pg. 150)  [Sil. Ital. lib. 10. Resond. lib. 3. de Antiquít.]

Apimano, Cesaron e Cancheno
  • "Entre os nossos capitães, que deixaram resplandecente nome na venerável duração da memória, foram Apimano, Cesaron, Chancheno, Viriato, e Sertório, cujas gloriosas proezas occupam até as historias dos que pertenderam diminuir-lhe a fama." (em [1])
  • "N’este governo (de Marco Manilio) floreceu um insigne capitão bracarense, chamado Apimano, a quem se seguio Cesaron, que ambos aterraram os romanos." (em [1], p.153)
  • "Os Lusitanos tendo escolhido para seu Capitão o esforcado Apimano, abismaram as Aguias Romanas, e puzeram essa perturbação a toda a Roma. Senhor das campanhas o nosso Capitão Apimano, imperiosos com o seu governo os Lusitanos ganhavam victorias, e fora ellas muitas Cidades. Por sua morte escolheram para successor de Apimano ao Lusitano Cesaron e o fizeram seu commandante com tanta fortuna, e gloria da Pátria , como susto e terror da mesma Roma. A passo largo buscava o Pretor Lucio Mumio ao nosso Cesaron , que encontrou erabaracado na passagem do Guadiana, e se valeo deste embaraço para o esperar em Villa-Viçosa, onde medidas valerosamente as armas, cedeo o valor Lusitano ao maior numero de forças Romanas, e quando os nossos fugiam, Cesaron para; inrísta a langa contra os tímidos, compóe-se logo hum esquadrão , os Lusitanos todos correm a buscar as suas bandeiras , e conseguem derrotar ínteíramente o Inimigo, com perda de maís de dez mil Romanos. Que valor! Que herocidade! "   (em [2])
  • "Triunfante entrou Cesaron por Lusitania , carregado dos despojos Romanos , quando em outro encontro nos desbaratou Mumio, e perdeu a vida Cesaron. Os Lusitanos elegeram logo por seu Capitão a Cancheno, Cidadão de Lisboa, que ganhou a Cidade de Cunisturgi, penetrando até Gibraltar, sem haver quem lhe impedisse o passo. As nossas tropas se dividiram, humas forao continuar a guerra na Andalusia, outras passaram a conquistar em África as Cidades Carthaginezas." (em [2])
  • Capítulo XXVI da Monarchia Lusytana de Bernardo de Brito: "De como os portugueses de Entre-Douro e Minho tomaram por seu capitão a um bracarense chamado Africano e das Guerras que fizeram aos Romanos"
  • Capítulo XXVI da Monarchia Lusytana de Bernardo de Brito: "Da guerra que os portugueses tornaram a tomar contra Roma, debaixo da Capitania de Cesaron, e da insigne victória que alcançaram do Pretor Lúcio Mumio."
  • "Victoriosos os Bracarenses e aliados, foram queimando tudo desde o Guadiana até ao Estreito de Gibraltar, sem dar perdão a morador, ou edifício, que pertencesse ao povo Romano; subiram pela Anduluzia tão felizes que os Vetões Portugueses da Extremadura juraram perder as vidas por defender as bandeiras do General Bracarense Africano; ganharam Cidades, e Presidios Romanos, em que deixaram novas guarnições; só lhes resistiam os Blastofenices, cercada a Cidade, e Apimano querendo dar exemplo ao exército no escalar os muros, foi o primeiro que subiu para montallos; porém os defensores que já se julgavam perdidos, querendo vender caras as vidas, mataram Apimano às lançadas; e o exército vendo-se sem Capitão, perdeu logo o costume de vencer, cada hum buscou a sua pátria, e cessou por algum tempo a guerra. Elegeram os Bracarenses, e aliados em lugar de Apimano outro Português valoroso, chamado Cesarão, este prevendo o despique dos Romanos compôs nosso exército entrou nas terras, que obedeciam a Roma, e foi tal o damno, e o roubo, que a toda a presla os vexados pediram ao Consul Quinto Fulvio Nobilior viesse socorrellos, e domar os povos de Celtiberia, e os Numantinos, de quem os Romanos sempre tiveram receyos bem fundados..."     (em [3]) 
  • "Vemos Apimano,  nome que a Historia nos transmittiu como de um esforçado  capitão, e com grandes talentos para a guerra, ser nomeado general d'aquelle povo : vêmol-o obrigar os povos vizinhos a insurgirem-se contra o poder de Roma, e reunirem-se às suas bandeiras : vêmol-os lançarem-se sobre os romanos e expulsarem-os das suas terras : vêmol-os, em fim, ousarem esperal-os novamente em campo, vencerem-os, e tomarem-lhes até o proprio arraial, onde acharam ricos despojos! A noticia d'esta derrota immediatamente se enviou de Roma novo Pretor que perdeu tambem a pri meira batalha que se aventurou a offerecer aos Lusitanos : e estes atravessaram o Guadiana, e fizeram tributario todo o paiz até o Estreito ! Depois de tantas derrotas, estes feitos de armas podem reputar-se maravilha". (em [4])
  • "Neste meio tempo Apimano morreu na escalada de Blatophenice; e este golpe fatal desvaneceu, em parte, as esperanças dos Lusitanos, que levantaram immediatamente o cerco para na patria fazerem as ultimas honras funebres ao seu general. -  Bem conheceu este povo as tençôes de Roma com aquelle reforço que mandou à Peninsula, sob as ordens de novos capitães, e por isso tractou quanto antes da sua defeza. Noméaram para general a Cessarão ou Cœsaras, que servira sob as Ordens de Apimano." (em [4])
Só depois deste trio: Apimano, Cesarão e Cancheno, é que sucede Viriato a reunir as tropas contra os romanos, e sendo quem teve mais exito, terá aniquilado a memória do primeiro Viriato. 
Estes três nomes desaparecem quase por completo na literatura do Séc. XX, mas reais ou lendários, fizeram parte da literatura ou historiografia portuguesa.

Referências:
[1] "Mappa de Portugal. Antigo e Moderno." de João Baptista de Castro (1700-75), edição de 1870 revista e acrescentada por Manuel Bernardes Branco.
[2] "Gabinete Histórico", de Cláudio da Conceição, edição de 1818 dedicada a D. João VI.
[3] "Academia dos humildes, e ignorantes", de Joaquim de Santa Rita (1762).
[4] "História de Portugal" de Francisco Araújo (1852)




sexta-feira, 4 de agosto de 2017

São Martinho e São Sebastião, de El Greco

A 4 de Agosto de 1578 deu-se a batalha de Alcácer Quibir, e o desaparecimento de D. Sebastião, com 24 anos de idade. Deixamos aqui dois dos seus retratos mais conhecidos, e depois uma representação de São Martinho, pelo pintor espanhol "El Greco", de origem grega.

 


Que o quadro de El Greco, realizado uns 20 anos depois de Alcácer-Quibir, na figura de S. Martinho me fez lembrar imediatamente as representações anteriores de D. Sebastião, pois isso não há nada a fazer, e que o tenha visto pela primeira vez exactamente neste dia (4 de Agosto), também não.

Adiante... porquê São Martinho?
Ora, acontece que Malyn Newitt no seu livro "Portugal in European and World History", diz na página 93, algo muito interessante, a propósito da "Armada Invencível" de Filipe II:
"The flagship of the Armada was the now veteran São Martinho, which had accompanied Dom Sebastião to Morocco and had already served three times as the flagship of Spanish armadas in the Atlantic."
Ou seja, existia um grande galeão português, de nome São Martinho, que teria acompanhado D. Sebastião na expedição de Alcácer-Quibir, e que encabeçava em 1588, dez anos depois, a frota comandada pelo Duque de Medina-Sidónia, no planeado ataque à Inglaterra. (Esta informação é razoavelmente diferente da que consta na Wikipedia, enfatizando que o galeão teria sido construído em 1580.)

Independentemente do resto, ficam algumas questões: 
- o que aconteceu aos galeões, naus, ou caravelas, que transportaram o exército de D. Sebastião a Marrocos? Aparentemente, de Tanger terão regressado a Portugal, sem uma boa parte do exército de D. Sebastião, que acabou preso em Marrocos; 
- quem teria dado a ordem de regresso, uma vez que o rei estaria "desaparecido em combate"?
- ou ainda, quem tinha ficado com o comando da força naval estacionada em Tanger? estaria excluída a opção de atacar navalmente Laracha, para proteger uma retirada? 

Doménikos Theotokópoulos, muito antes de ser catalogado como "El Greco", começou por pintar, assim que chegou a Toledo, em 1577, a figura de um São Sebastião algo confiante e indiferente às setas que lhe atravessavam o corpo:

Porém, no final da sua vida, entre 1610-14, irá fazer um outro retrato de São Sebastião, muito mais estilizado, e o qual chegou ao Séc. XX dividido em duas partes, tendo a parte de cima sido recortada. 

Não penso que tenha havido propriamente uma vontade de mutilar a parte superior, mas muito mais uma vontade de separar a parte superior da parte inferior. Para perceber a razão desta necessidade de separação, mostramos a parte inferior do quadro de S. Martinho e a parte inferior deste quadro:
... ora o que se veria em ambos os quadros seria a mesma paisagem - Toledo à distância, com as mesmas muralhas, arcos e pontes.

A inconveniência do assunto seria estabelecer a relação entre um e outro... entre um São Martinho, que tem uma figura de cavaleiro que - desde as feições, à armadura, à cor do cabelo, e jeito das mãos - se pode identificar com o retrato de D. Sebastião feito por Cristovão de Morais; e entre o outro, que sendo de São Sebastião, se identificaria naturalmente com o monarca sacrificado, pelo nome do santo.

Além de tudo o resto, a genialidade de El Greco parece evidente, mesmo na técnica... como se tivesse saltado uns séculos para antecipar o movimento modernista parisiense, onde Picasso viveu, e muito se terá inspirado nele. 
Que El Greco não poderia ignorar o drama de D. Sebastião, isso parecerá visível até para um cego, pois para um grego sob domínio veneziano e sob ameaça turca, que chega a Toledo no momento em que D. Sebastião vai desaparecer em África, combatendo a expansão turca, seria difícil considerar que em nada lhe interessava a matéria. 
Porém, por outro lado, trabalhando para Filipe II, já terá sido uma sorte ter resistido o quadro de São Martinho, facilmente argumentando que o modelo poderia ser um qualquer outro cavaleiro alourado, com armadura da época, e que não fosse D. Sebastião, montado no seu cavalo branco - até porque faltava o nevoeiro (... e mesmo assim a pintura original acabou nos EUA). 
Que outra associação mais directa levaria a que lhe "cortassem as pernas", parece ter acontecido literalmente com o segundo quadro de São Sebastião, dado exibir a mesma paisagem de Toledo, que esteve assim, com a parte das pernas separada do corpo.

Que o mendigo se encontra numa posição semelhante à reservada ao canídeo, no quadro de Cristovão Morais, e que o último São Sebastião terá afinal passado da posição de cavaleiro à posição de martírio, poderá ou não relacionar-se com o destino dos pretendentes sebastianistas, que acabaram condenados e mortos... sendo o Prisioneiro de Veneza mais credível que os outros.

Enfim, tudo poderá não passar de uma pequena série de coincidências... como também se pode encarar como uma série de coincidências - o sol nascer e pôr-se todos os dias. A diferença está na compreensão - num caso pode ficar-se dependente de rezas e sacrifícios para o sol ir renascendo, noutro tipo de compreensão isso tornou-se simplesmente ridículo...


Aditamento [5/08/2017]:
Donizetti, o grande compositor italiano do "Elixir do Amor", teve seu último sucesso na grande ópera "Dom Sebástien", cantada em francês e estreada em Paris em 1843, com base numa peça ficcionada de P. Foucher, com um grande sucesso teatral em 1839.

Dom Sebastien - ópera de Donizetti (em 1998, pela Orquestra de Bolonha).

Apesar do libreto ser inspirado no tema da sucessão do rei português, juntava num mesmo palco D. Sebastião, Camões, o Prior do Crato, e até uma princesa árabe, visando adicionar à história elementos exóticos e românticos.
Donizetti terá escrito a Mayr:
           «Neste momento estou a escrever uma nova ópera em cinco actos para Paris. É D. Sebastiano di Portogallo - você vai reconhecer a história da mal fadada expedição organizada pelo rei contra os mouros, a perda do seu exército e a sua morte que ainda hoje permanece misteriosa. O assunto resume-se a isto. Vai ainda incluir o grande poeta Camões - a inquisição que trabalha secretamente para tornar Portugal num escravo de Espanha - um pouco de tudo na realidade.»

Esta foi a última ópera das 75 escritas por Donizetti, que após isto foi entrando num estado de demência progressivo, levando à sua morte alguns anos depois.
Esta ópera é especialmente pouco conhecida em Portugal, onde não sei se alguma vez terá sido apresentada, apesar do grande sucesso que teve na sua estreia em Paris, há quase 175 anos.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Raczynski: Les arts en Portugal (1846)

Conde Atanazy Raczynski
Os condes Raczynski foram considerados uma das famílias mais influentes na Polónia, até pelas ligações que teriam aos Habsburgos, que dominavam o Império Austro-Húngaro. Como em toda a boa família aristocrata, um aspecto muito relevante é a sua capacidade serpentina, ou seja, a faculdade de se tornarem praticamente invertebrados, ou vertebrados altamente flexíveis, o que no caso significou colaborar com a ocupação prussiana da Polónia no Séc. XIX.

O conde Atanásio Raczynski serviu o consulado do governo prussiano em Portugal, durante 1842-48, e aproveitou a sua estadia nestas paragens bárbaras para relatar (em francês) o "estado da arte" em Portugal, num conjunto de 29 cartas compiladas sob o título "Les arts en Portugal".

O relato acaba por ser importante, porque só uns 20 anos antes é que Cirilo Machado, em 1823, tinha compilado sistematicamente um registo de pintores, gravadores, escultores e arquitectos que tinham trabalhado em Portugal, com o título: 


... sendo por isso considerado o primeiro historiador da arte portuguesa. 
Aliás Cirilo Machado nem sequer teria publicado a obra, foi por iniciativa do seu editor (da Impressora de Victorino Rodrigues da Silva), que a obra saiu sob a forma de livro, e viu a luz do dia.
Como estas coisas tendem a apagar-se de novo, porque afinal as sombras vivem do ocultar da luz, estive entretido a colocar estas menções na Wikipedia em português, onde praticamente não havia qualquer referência ao assunto. Mas quero destacar especialmente as palavras do editor ao publicar a obra de Cirilo Machado:
"Julgamos fazer à Pátria, e à Glória Nacional algum serviço publicando estas Memórias, que seu Autor recolheu com sumo trabalho, e que a sua modéstia, e natural encolhimento não ousou publicar em sua vida. Ninguém poderá duvidar que são muito escassas, e até inéditas as notícias de todos aqueles Artistas, que enobreceram a Nação por meio de suas Obras, quando os Vasaris, Rafaeis Sopranes, Rossis, Leonardos da Vinci, e Palominos se ocuparam em deixarem à posterioridade um monumento precioso, tem havido entre nós o mais ingrato silêncio, não perpetuando a memória de muitos Portugueses nelas insignes."
No entanto, como seria de esperar, o impacto desta obra foi reduzido, e só tive conhecimento dela notando o nome de Cirilo Machado como título da 27ª carta de Raczynski. Mesmo o relato de Raczynski, apesar de extensamente divulgado à época, teve um impacto europeu reduzido, e a arte portuguesa continuou como uma pequena nota de rodapé europeia, escrita em francês.

No entanto, Atanásio Raczynski vai começar por apresentar uma tradução de um texto notável de Francisco de Holanda, resultado da sua estadia em Roma, onde este teve a oportunidade de travar extensas conversas pessoais, acerca de pintura, com o famosíssimo Miguel Ângelo. Um livro com esses diálogos está disponível em português:

de Francisco de Holanda (1546)

É sobre esses diálogos que me interessa fazer uma pequena consideração, porque Francisco de Holanda diz o seguinte no prólogo:
Mas de uma coisa é infamada Espanha e Portugal, e esta é que em Espanha, nem em Portugal, não conhecem a pintura, nem fazem boa pintura, nem tem sua honra a pintura; e vindo eu de Itália há pouco tempo trazendo os olhos cheios da altura do seu merecimento e os ouvidos dos seus louvores, conhecendo nesta minha pátria a grande diferença com que esta nobre ciência é tratada, determinei-me bem, e como fez César ao passar do rio Rubicão, o qual era muito vedado com armas aos romanos, assim eu (se me é licito comparar, sendo pequeno, com homem, tamanho senhor) me ponho como verdadeiro cavaleiro, e defensor da alta princesa pintura, oferecido a todo o risco por defender o seu nome, com minhas poucas armas e possibilidade.
.........................
Isto é especialmente curioso, porque dificilmente vemos hoje que a Espanha tenha tido um problema de pintura (o mesmo não se passando em Portugal). Contudo, basta reparar que a sucessão de grandes vultos da pintura espanhola, de El Greco e Velasquez a Picasso, passando por Goya e tantos outros, toda essa sucessão é posterior ao reinado do imperador Carlos V, que aliás escolheu o italiano Ticiano como retratista.
À data em que escreve Francisco de Holanda (1546), Doménikos Theotokópoulos estava numa Creta ocupada por Veneza, tinha 4 anos, e estava ainda muito longe de se tornar conhecido como "El Greco". Portanto, a frase justifica-se por não terem ainda aparecido os primeiros grandes vultos da pintura espanhola.
Mas a frase de Holanda ainda surpreende, por revelar que o impacto de Nuno Gonçalves, ou mesmo Grão Vasco, entretanto falecidos, se tinha havido algum, teria sido puramente nacional, e muito circunscrito. Com efeito, nem o trabalho de Grão Vasco, desenvolvido especialmente em Viseu, teria merecido a fama cortesã lisboeta. Quando D. Manuel tomou posse do reinado, os Painéis de S. Vicente teriam desaparecido do olhar público, e provavelmente só terão sido brevemente desenterrados durante a posterior "reinação" de D. Sebastião. Como essa obra, tantas outras, inconvenientes às mitologias manuelina e bragantina, terão sido varridas para debaixo do tapete.

Finalmente, com a descoberta das pinturas rupestres em Altamira, e em tantas outras cavernas  e grutas espanholas, ficou bastante caricato ver-se escrito que, em Espanha, "não conhecem a pintura, nem fazem boa pintura". É claro que tal conhecimento antigo, pré-histórico, estaria afastado de Francisco de Holanda, e do comum cidadão renascentista, mas não estaria fora do conhecimento de alguns círculos próximos do poder de Roma, não se resumindo aí a uma academia de jogos florais.

Para terminar, ainda com uma referência a Raczynski, Joaquim de Vasconcelos que, em 1896, edita a obra ("Quatro diálogos da pintura antiga..."), diz o seguinte:
Finalmente, abonam a boa educação literária do Holanda, as precoces relações com André de Resende, uma celebridade peninsular, que tinha regressado em 1533 a Portugal com relações universais, europeias. A amizade entre os dois é anterior à saída do Holanda, que partiu aos 20 anos. Raczynski, que quasi nada sabia da história da Renascença literária em Portugal, e ainda menos da história dos humanistas portugueses, avaliou mal a posição do nosso pintor na corte e na sociedade do seu tempo, antes da viagem à Itália. Não percebeu como Holanda, educado nos paços de dois Infantes, e pensionista d’El-Rei, pôde entrar facilmente nas relações de Miguel Angelo, o qual sabia muito bem que atrás do Rei de Portugal estava seu omnipotente cunhado, o César [Carlos V]. Vittoria Colonna sabia-o igualmente; não ignorava que os Colonnas tinham parentes em Portugal, os Sás Colonnezes, uma numerosa e ilustre família. Não estava em Roma o Cardeal D. Miguel da Silva, amigo de Castiglione, e certamente da Marquesa, para lho lembrar?
............ 3/08/2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Monistichon, de Nicolau Coelho

Nicolau Coelho do Amaral escreveu em 1554 obras que antecedem a Monarquia Lusitana de Frei Bernardo de Brito, de que já aqui falámos. Em particular, escreveu em latim o curto manuscrito:

de Nicolau Coelho do Amaral

em que apresenta uma cronologia da Monarquia Lusitana muito semelhante à de Bernardo de Brito, que é mais extensa e detalhada.
Para os que acusam Bernardo de Brito de ter inventado Laimundo de Ortega e as suas antiguidades lusitanas - "De Antiquitatibus Lusitaniae", pode ver-se perfeitamente que o resultado seria praticamente o mesmo, que neste Monostichon de Nicolau Coelho, que não citou tal obra, e apresenta a mesma ordenação de eventos:

1. de Iobel sine Tubal; 2. de Ibero; 3. de Iubalda; 4. de Brigo; 5. de Tago;
6. de Beto; 7. de Geryone; 8. de tribus fratribus; 9. de Hispali; 10. de Hispan;
11. de Hercule; 12. de Hespero; 13. de Atlante; 14. de Sic Oro; 15. de Sicano;
16. de Sic Ano sine Sic Ulo; 17. de Luso; 18. de Sic Ulo alio; 19. de Testa; 20. de Romo;
21. de Palatoo; 22. de Caco; 23. de Erythreo; 24. de Gorgoris; 25. de Habide.

Aliás, desde a apresentação dos registos de Beroso por Ânio de Viterbo que as alterações da cronologia divulgada por Annio foram menores, e muitas das críticas vulgares podiam ser igualmente feitas aos portugueses e espanhóis que lhe deram algum crédito - e que incluem André Resende, João de Barros ou até Camões - sendo autores anteriores, e suficientemente distantes de uma visão ibericista filipina, que muitos argumentam estar na origem da propagação de tal mitologia.

Aliás podemos ver que os portugueses da época foram razoavelmente conservadores e cautelosos na adopção das histórias de Annio de Viterbo, e talvez o primeiro registo seguidor se tenha verificado por influência do historiador flamengo João Vaseu ou do espanhol Florián de Ocampo.

O nome do frei Nicolau Coelho do Amaral é hoje praticamente desconhecido, mas sendo o nome Nicolau Coelho associado a um navegador que acompanhou as viagens de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, muito elogiado nos Lusíadas, convém referir que Bernardo de Brito o tomava apenas como Nicolau Coelho, sem ver qualquer confusão de nome com o navegador secundário elogiado nos Lusíadas. A eventual importância deste frei Nicolau Coelho, é que teria sido o primeiro a assumir por completo a versão lendária da Monarquia Lusitana, uns vinte anos antes da publicação dos Lusíadas, já que André de Resende só o fizera muito parcialmente.

O que está em causa pode ser facilmente entendido, conforme já o disse antes.
A Bíblia no seu Velho Testamento apenas apresentava a versão judaica duma "história antiga", indo ao ponto de um detalhe excessivo, para um encadeamento de personagens menores, tribais. Referências a outros povos e culturas são praticamente inexistentes, sintoma de uma religião que professa apenas um "povo eleito por Deus". Num florescimento do cristianismo que aceitava o Velho Testamento, seria um incómodo negar a existência antiga de paragens que não tivessem tido contacto judaico. Os registos de Flávio Josefo e Eusébio de Cesareia apontavam para um sacerdote caldeu, de nome Beroso que, após a invasão de Alexandre Magno, teria escrito em grego (por volta de 290-280 a.C.) uma "História da Babilónia", a pedido de Antíoco. Essa versão ajustaria com o registo judaico seguido por Flávio Josefo, mas também ajustaria com outras narrativas.
Os manuscritos de Beroso estavam perdidos e só se conheciam as referências de outros, nomeadamente Sincelo no Séc. IX, que terá assim compilado uma história das dinastias egípcias. O texto de Laimundo de Ortega, sendo também do Séc. IX, poderia usar as mesmas referências, verdadeiras ou falsas.
Não parece ter grande significado saber se Ânio de Viterbo teve acesso a uma versão original ou falsificada de Beroso, já que o próprio registo de Beroso seria duvidoso. Convém notar que a história judaica tinha sido reescrita após a libertação dos judeus do cativeiro babilónico, por Ciro, e por isso não é de estranhar que tome tantos pontos comuns com outros registos babilónicos. Certamente que os babilónios não quiseram fazer dos judeus os protagonistas da sua história, e por isso a versão judaica, feita ao tempo de Ciro, seria convenientemente modificada.
Nem tão pouco seria claro que Beroso quisesse transmitir aos gregos uma versão independente dos acontecimentos, mas tão somente uma versão adaptada, semelhante à que os judeus teriam tido acesso. Numa perspectiva de que os vencedores reescrevem a história, qualquer ideia diferente teria pouco sucesso, e aparentemente Beroso terá tido bastante sucesso entre os gregos, ao ponto de lhe ter sido erguida uma estátua em Atenas.

O que parece ter bastante significado será o que se seguiu... num misto de adopção e crítica à divulgação de Beroso por Ânio de Viterbo. Primeiro, porque pretendeu-se resumir todas as conjecturas à cópia viterbense de Beroso, quando há múltiplas referências que não resultam daí. A crítica preguiçosa seguiria esse caminho fácil. Depois, porque se muitos são os nomes que parecem ser simples modificações convenientes para uma história fabricada, outros detalhes seriam completamente redundantes e injustificados.
Os principais detractores parecem esquecer é que se estas histórias particulares de cada nação foram banidas, como se tivessem peste, mas a história judaica não sofreu qualquer abalo.
O Velho Testamento, com as suas lendas e personagens, continuou a ser propalado como texto fundamental, especialmente entre protestantes, para além dos óbvios judeus. Mas não apenas no aspecto religioso explícito, como também no aspecto religioso-científico:

- Será perfeitamente aceitável ver alguém escrever "cidade do tempo do rei Salomão", ou "castelo do tempo do rei Artur", mas algo desgraçado alguém escrever "citânia do tempo do rei Brigo".

E a razão será simples... há mitologia politicamente correcta, e politicamente incorrecta! Apenas isso.

domingo, 25 de junho de 2017

A pinha na pinha

Uma outra tradição do S. João são os martelinhos, agora de plástico, com o sucesso da novidade introduzida nos anos 70, e que substituiu o uso mais antigo dos alhos-porros:
A enorme multidão que se junta no S. João, na cidade do Porto
e alhos-porros contra molhos de erva cidreira, à venda com manjericos.

A wikipedia remete o culto a tempos pagãos, associando-a a uma festa de fertilidade, onde o alho-porro tomaria o papel masculino e a erva cidreira o papel feminino, invocando mesmo uma antiga canção recolhida por J. Leite Vasconcelos (Revista Lusitana, Vol. 32-34, 1934), que dizia:
Até os moiros da Moirama festejam o S. João, 
com pandeiras e violas, com canas verdes na mão
... podendo informar que a tradição se teria mantido forte, mesmo durante a ocupação árabe.

Ora, procurando um significado para os "alhos-porros", vamos muito rapidamente discorrer sobre Baco, ou Dionísio, daí passar às vacas, às pinhas, ao santo Tirso, a Osíris, ao caduceu de Hermes, às representações dos Annunaki, com a sua árvore da vida, e à Cabala, passando pela glândula pineal.
A sequência, que assim parece resultar de alguém que não bate bem da pinha, já estava parcialmente feita, e o resto são outras junções naturais, que me agradam encontrar. Se são conexões mais ou menos forçadas, fica ao leitor de julgar, por si próprio.

i) Do alho-porro a Baco com o tirso
Começamos com uma representação do deus grego Dionísio, equivalente ao romano Baco:
O deus Dionísio exibindo o seu Thyrsus (imagem daqui)

Ora, esta imagem de Dionísio dá uma ligeira ideia de que o deus se preparava para ir também ao S. João do Porto, munido do seu alho-porro... mas não se trata bem de um alho-porro. 
O bastão era encimado por uma pinha, envolvido em hera e ramos de videira, tem um nome que não é alheio ao Porto - já que o nome desse bastão é Tirso, e perto do Porto encontra-se Santo Tirso (e mesmo que o nome da localidade seja remetido a um deus galaico, Turiaco, há quem tenha feito a natural associação).

Como Baco era um deus associado à sexualidade libertina, mesmo que as suas seguidoras sejam agora designadas de bacantes, parece fazer mais sentido popular que fossem chamadas pelo simples feminino de Baco, ou seja, Bacas... o que, fora da região do Porto, se lê "Vacas", que afinal é o nome ainda usado para mulheres menos contidas sexualmente.

Que o símbolo Tirso parece sugerir um elemento fálico, é opinião praticamente unânime, e que as bacantes usassem os tirsos como arma nos bacanais (festas em honra de Baco), parece bater certo com o bater da pinha na pinha dos moços, passando as pinhas no S. João a mais simpáticos alhos-porros evitando causar males à pinha. O comum uso da palavra pinha para cabeça encima bem com o assento desta na espinha.

Finalmente, outro elemento digno de nota é que nos rituais de Baco a representação do lado feminino se fazia em conjunto, com um cântaro... por um lado conveniente recipiente para o vinho do deus Baco, e por outro, uma representação associável ao útero feminino.
Um cântaro com duas esfinges e uma possível "árvore da vida" - (Museu do Louvre)

ii) A pinha de Osíris aos Annunaki
No caso dos bacanais, a pinha podia ainda ser envolta em mel, simulando a ejecção seminal, mas passando esses detalhes desnecessários, encontramos em Osíris, o deus egípcio, um bastão também encimado por uma pinha
 
... este bastão egípcio, ao ser enrolado por duas serpentes, não deixa de lembrar o caduceu dos deus greco-romano Hermes/Mercúrio, que se tornou um símbolo do comércio, e onde o uso da pinha foi substituído por um par de asas.

Por outro lado, nas representações de Annunaki (ou Anedotos), vemos o uso sistemático de uma pinha, mas aí sem encimar um bastão. O mesmo uso de uma pinha simples pode ser visto no Vaticano, em vestígios de tempos romanos, mesmo que o Papa não deixe de usar habitualmente um ceptro encimado parcialmente por uma pinha, de onde sai um Cristo crucificado:
 
A gigantesca Pinha de Bronze no Vaticano, e o ceptro papal com uma pequena pinha (img).

Em algumas representações dos Annunaki, para além do uso da pinha numa mão e de uma bolsa na outra, estes ladeiam uma estrutura que é encarada como representante de uma "árvore da vida":
Dois Annunaki ladeiam uma "árvore da vida" (imagem)

Repare-se na semelhança desta figura com a representada no cântaro (em cima), onde em vez dos Annunaki, apareciam duas Esfinges. A questão é que se a pinha pretendia representar o elemento masculino, então parece que a bolsa, tal como o cântaro, poderia ser usada para uma representação do lado feminino. 
O formato desta suposta "árvore da vida", com diversas ligações intrincadas, já foi associado a outro símbolo cabalístico, por exemplo usado pelo judeu espanhol Gikatilla, no seu Portaelucis (e cujo título também pode servir de anagrama para Portucaelis), ainda que aí o número de nodos tenha ficado fixo a 10 (e depois a 11).

Porém o que é mais interessante, é que tirando as ligações, o que vemos na imagem em cima, no centro, é uma possível representação de um Tirso.

Tanto mais que há outras imagens de Anedotos (ou Annunaki) que parecem mostrar isso mesmo:
Nesta imagem, em que os Anedotos aparecem disfarçados de peixe, e não com uma máscara de águia, ao centro, no lugar da "árvore da vida" vemos o que nos parece ser um Tirso.
Também pode ocorrer que neste caso se pretendesse figurar o tirso masculino, e na imagem anterior se pretendesse representar uma versão mais complicada do cântaro feminino.

iii) A pinha e a glândula pineal
Finalmente, outra relação que é apontada segue no caminho místico da "pinha" poder pretender significar um conhecimento profundo da "glândula pineal", nomeadamente com uma relação com dimensões superiores... ou como René Descartes chegou a pretender, estar ali uma ligação entre o corpo e a alma. Ou ainda, mais esotericamente, ver uma relação entre o olho de Osíris e a posição dessa glândula, enquanto "terceiro olho".
Neste caso é mais fácil seguir a versão científica. 
A glândula pineal liberta hormonas que regulam o sono, num período de cerca de um dia (circadiano), permitindo manter o ciclo do sono, independentemente da luz do dia. Inicialmente poderá ter funcionado como um olho primitivo dos vertebrados, mas a evolução dos vertebrados fez perder esse olho, mantendo em praticamente todos a glândula pineal, para uma regulação interna do sono.
Portanto, se a glândula pineal parece permitir o acesso a uma nova dimensão, ela ocorre através do nosso encontro diário com o mundo dos sonhos, e não é nenhum exclusivo humano, já que essa glândula existe praticamente em todos os outros vertebrados.
Neste caso a única relação visível com a pinha é o seu formato minúsculo lembrar uma pinha... e daí o nome que lhe foi dado.



quinta-feira, 22 de junho de 2017

O fogo - tradição junina e joanina

Lembro-me de em criança ver saltar as fogueiras de S. João.

Num texto que aqui escrevi há 4 anos sobre Fernão de Oliveira,  citei o manuscrito onde ele remetia para Vitrúvio e Diodoro Sículo, a especulação de que a linguagem teria tido como origem um grande fogo nos Pirinéus:
"(...) primeiro souberam falar os da nossa terra. Porque Vitrúvio diz no 2º livro dos seus Edifícios que, ajuntando-se os homens a um certo fogo, o qual por acerto com grande vento se acendeu em matos, e ali, conversando uns com os outros, souberam formar vozes e falar. E não dizendo ele onde foi esse fogo, conta Diodoro Siculo, no 6º livro da sua Biblioteca, que foi nos Montes Pirinéus (...)"
Gramática da Linguagem Portuguesa. Fernão de Oliveira (1536)

Sim, lembro-me de ver saltar as fogueiras de S. João. Creio que nunca saltei, porque enquanto criança era um bocado "flor-de-estufa", e o fogo assustava-me o suficiente para me afastar dele.
festa junina terá passado a festa joanina por razão do condicionamento católico que varreu toda a Europa durante a Idade Média. 
Ou seja, como é sabido, as festas do solstício, que assinalavam a entrada do Verão foram reprimidas, e a população encontrou nova forma de comemoração... usando o pretexto do nascimento de S. João Baptista. De acordo com o Evangelho de S. Lucas, o primo de Jesus teria nascido 6 meses antes, o que dava um jeito providencial. Assim, se o Natal entrava na comemoração do solstício de Inverno, o S. João entrava na comemoração do solstício de Verão. 
Por isso, as comemorações juninas, de Juno, de Junho, passaram a comemorações joaninas, de S. João... especialmente conhecido pelo baptismo - pela água! Apesar da pequena contradição, de usar o "fogo pagão" para celebrar S. João que proclamara o uso da "água purificadora", a Igreja tinha a sapiência suficiente para não forçar demasiado a quebra das velhas tradições.
Tinha pelo menos mais tolerância do que as multas até 5000 euros, passadas agora a quem decidir levantar uma lanterna de Kongming, afinal o mesmo balão de S. João que no ano passado o primeiro-ministro e o presidente da república ajudaram a lançar no Porto. Se repetirem a graça este ano, os dois máximos representantes do estado, ajudam à festa, oferecendo uma multa aos foliões. 
Um pouco na linha sarcástica das companhias de seguros, que todos os anos nos dizem que temos o "vencimento" do "prémio" do seguro. Alguém se poderá queixar da falta de sentido de humor desta sociedade?

Ora, o baptismo foi pensado como necessário porque o nascimento encerrava um "pecado original", coisa notável que Santo Agostinho, no "brilho" do seu intelecto pantanoso, argumentara ser transmitido hereditariamente desde Adão e Eva, e que para salvação da alma impura, desobediente às instruções de Deus sobre a Árvore do Conhecimento, fariam o ignoto ser encharcado com água benta pela cabeça. 
Praxe a que não escapou Deus, pois o próprio Jesus foi baptizado pelo primo, permitindo assim salvar-se do pecado original, ou seja da desobediência hereditária contra si mesmo. Isto se alguém quiser dar sentido às diversas narrativas religiosas que primam pela completa ausência de nexo.
Mas, a população ao invés de comemorar a data com um banho purificador, preferiu manter o fogo.

Fogo que, no desenrolar do politicamente correcto, tende a tornar-se num espécime em vias de extinção, e não admiraria que, no espaço de algumas décadas, as crianças só o venham a vislumbrar por acidente, por proibição de fósforos, isqueiros, etc...

No entanto, na história da humanidade, sempre foi dado ao fogo um papel marcante. Teriam as fogueiras servido para afastar animais perigosos, para manter quentes os abrigos em tempos frios, especialmente na Idade do Gelo, teria também o fogo sido usado para a cozinha, inclusive para fundir e cozinhar novos materiais metálicos, e tendo até o fogo sido associado à criação da linguagem, conforme citava Fernão de Oliveira, o seu papel foi marcante na História. 
Os Pirinéus estavam naturalmente associados ao fogo pelo nome, já que o prefixo "Pyro" significava fogo em grego, mas com a transliteração do upsilon em "u" e não em "y", isso remeteria a palavra grega para "Puro". A pureza do fogo constou de diversas religiões, como nos rituais de druidas, no zoroastrismo, ou até na inquisição cristã. 
Como o fogo apenas se propaga com matéria combustível, que é matéria orgânica, o fogo é posterior ao aparecimento da vida, e de certa maneira reduz as diversas combinações do carbono a carbonizações, de onde apenas restam resíduos carbónicos, as cinzas. Assim, se o carbono nas suas combinações orgânicas permitiu uma multiplicidade de formas, o fogo permitia destruir todas, e pela destruição renovar a criação.

O fogo florestal não apresenta nenhuma novidade para sociedades que se habituaram a conviver com ele durante milénios, tirando as vantagens e desvantagens. A única novidade da sua imprevisibilidade relativa é a sistemática e desavergonhada incompetência que procura usar isso como justificação da sua incúria.