terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Descoberto e Encoberto (1)

Passam agora 10 anos sobre a publicação do primeiro material na internet, na altura no knol da Google. Houve muita coisa que simplesmente não publiquei, ou acabou por ficar esquecida. 
Raramente repito a publicação de textos, mas vou pegar num PDF resumo publicado há quase dez anos e fazer quatro postais.

Para quem já leu será uma repetição, mas é sempre interessante ir revisitando o que foi escrito antes, mesmo se em alguns detalhes (poucos) já não voltássemos a escrever o mesmo, ou da mesma forma.


O Encoberto e o Descoberto
Aspectos da História dos Descobrimentos

(versão de apresentação baseada na Tese de Alvor-Silves) 

[30 de Janeiro de 2010]

Introdução
Sempre me pareceram inverosímeis as descrições das navegações portuguesas com grandes delongas, que mais demorariam a chegar ao ponto anterior de descoberta, do que a descobrir novas terras. Todo esse processo é descrito de forma razoavelmente coerente, invocando medos, erros, e tantos outros perigos que dificultariam a progressão das descobertas portuguesas, até 1495, ano da morte de Dom João II. Depois, subitamente no reinado de D. Manuel, e num espaço de 3 anos, os portugueses descobrem e cartografam paragens tão distintas quanto a Índia (1498), Brasil (1500) e Gronelândia (1500).
Até aqui estamos apenas naquela suspeição subjacente, mas sem outros dados, apenas levamos connosco a nossa dúvida sobre o conhecimento português no Tratado de Tordesilhas, sobre a identidade de Colombo, etc. Porém, ao juntar diversas fontes será possível formar uma outra estória igualmente, ou até mais coerente. Aquilo que D. Manuel fez poderá ter sido apenas a decisão política de declarar explorações prévias, por todo o globo, reivindicando rapidamente o hemisfério que lhe era atribuído pelo Tratado de Tordesilhas.
Aqui é apenas apresentada uma parte que concerna a cartografia e descrições de viagens.
Sobre este assunto, poderá enviar o seu comentário para o email: alvorsilves@gmail.com

Encoberto
"o Encoberto" enquanto oposto "ao Descoberto"

Colombo pôs a descoberto a América à Europa. No entanto, des-cobrir não teria o mesmo significado que lhe damos hoje. Quando Colombo chegou, foi por onde os portugueses tinham carreiras regulares... esse foi o perigo da sua viagem – efectuá-la sem ser Descoberto no caminho pelos Portugueses! Mesmo assim não conseguiu... as rotas estavam bem controladas!

1. Mapas - sem erros, mas com segredos
Examinando a Carta Portulana de Pedro Reinel de 1484-85, conforme figura em baixo, imediatamente reconhecemos parte da Europa e África!
No entanto, ao rodar esse mapa, notamos outras semelhanças:

Será coincidência esta semelhança com a costa mexicana que a linha artificial permite?
Pedro Nunes avisa-nos sobre outras informações nas cartas de marear:
"O outro género de informações é dos que notaram algumas alturas. Mas isto somente fizeram, nos lugares que estavam num mesmo paralelo, e isto também aproveitava pouco. O terceiro género é o dos mareantes: os quais diz que não sabiam mais que as distâncias dos lugares, que a eles lhes parecia estarem norte-sul donde partiam; e os que estavam leste-oeste sabiam muito mal porque isto era outrossim muito incerto (...)"
Pedro Nunes - Tratado em Defensam da Carta de Marear (1537)
(publicado depois de Carlos V de Espanha mandar queimar todas as Cartas Náuticas)

A capacidade náutica portuguesa poderá ter sido menosprezada.
A coincidência da representação com a Costa Mexicana não significa nada por si só. Com a rotação
de norte-sul para leste-oeste, há coisas que parecem estar mal na coincidência com a costa mexicana... mas, para melhorar teriamos que retirar a Península Ibérica, tirar o contorno de Tunis, etc... e isso não faria sentido!

Assim, há bandeiras que podem servir para delimitar a zona de validade do contorno, para além de permitir uma datação... a bandeira moura em Espanha permite datar o mapa como anterior a 1492 - seguramente, e até como anterior a 1485 - data da conquista de Marbella (1485 é aliás a datação constante dos Arquivos de Bordéus, onde foi encontrada).

A múltipla informação nos mapas não deve ser encarada apenas como decorativa, ou fruto de erro, deve ser compreendida. A informação nos mapas, não é apenas a que está a descoberto... há tanto, ou muito mais que está encoberto, e que já na época era tomado por erro - é aliás isso que Pedro Nunes tenta explicar!

Havendo tal secretismo, como foi possível a Pedro Nunes passar informação, sob olhares inquisitores minuciosos? - Primeiro é notado que os textos mais sensíveis são em português, depois Pedro Nunes tem a protecção do esclarecido Infante D. Luís, irmão de D. João III, mas mais tarde acabará por ter mesmo que sair da Corte e de Lisboa! Regressa, num pequeno período áureo, sob protecção de Dom Sebastião e, já velho, morre em 1578, logo após a partida de Dom Sebastião (ver "Batalha de Alcazar na Barbária" denominação para a Batalha de Alcácer-Quibir, numa peça teatral anónima inglesa, atribuída a George Peele).

Convém notar que o escrutínio inquisitório não seria necessariamente religioso, a maioria das inquirições não proibiam textos com referências pagãs, como acontece nos Lusíadas, mas muito mais procuravam evitar revelar informações de estado, em obras científicas ou artísticas.

Há outros mapas interessantes na Torre do Tombo. Por exemplo na Biblioteca Nacional Digital é possível encontrar mapas do Livro de Marinharia, atribuídos a João de Lisboa, a quem são reportadas viagens até 1506, e morte em 1525. Pelas designações constantes dos vários mapas, é de colocar a hipótese desses mapas terem sido realizados entre 1520 e 1525.

Iremos analisar alguns desses mapas.

 (1) Representação polar semi-clássica
Nesta representação planar do globo há um quadrante vazio, na parte superior... havendo claras indicações para a união nos 270º restantes. Notamos que há nomes repetidos que coincidem de ambos os lados (p.ex. Japão).
Ignorando o quadrante vazio, este globo é muito próximo do que conhecemos hoje!

Ora, de acordo com as datações oficiais, haverá uma inconsistência ou há uma nova coincidência.
Se João de Lisboa morre em 1525, como o Japão só foi oficialmente descoberto em 1543, ou há um bom palpite, um problema de datação do mapa e do autor, ou há um conhecimento prévio à descoberta oficial. Não há apenas coincidência na representação do Japão, toda a costa americana aparece bem definida, exceptuando as partes polares do Canadá e Alasca.
Fica por justificar o espaço em branco de 90º, que só torna mais difícil executar o mapa. Talvez esse detalhe queira significar que ainda ficava por marcar no globo 1/4 do restante conhecimento...

E qual seria o conhecimento que já se tinha à época?
Deixamos Pedro Nunes falar por nós, pois não saberíamos fazer melhor.
Começa o Tratado em Defesa da Carta de Marear assim:
Eu fiz senhor tempo há um pequeno tratado sobre certas dúvidas que trouxe Martim Afonso de Sousa, quando veio do Brasil. (...)
Mas queira Deus suceder-me isto de sorte, que não seja necessário outro comento a este comento.
Não já para Vossa Alteza [Infante Luís] a quem é tudo claro e tão notório (...)
Não há dúvida que as navegações deste reino, de 100 anos a esta parte são as maiores, mais maravilhosas, de mais altas e discretas conjecturas que as de nenhuma outra gente no mundo.
Os Portugueses ousaram cometer o grande mar Oceano. Entraram por ele sem nenhum receio. Descobriram novas ilhas, novas terras, novos mares, novos povos e o que mais é novo céu e novas estrelas.
E perderam-lhe tanto o medo que nem há grande quentura da torrada zona, nem o descompassado frio da extrema parte do sul, com que os antigos escritores nos ameaçavam lhes poder estorvar, que, perdendo a estrela norte e tornando-a a cobrar, descobrindo e passando o temeroso Cabo da Boa Esperança, o mar de Ethiopia, de Arabia, de Persia, puderam chegar à India. Passaram o rio Ganges tão nomeado, a grande Trapobana, e as ilhas mais orientais. Tiraram-nos muitas ignorâncias e amostraram-nos ser a terra maior que o mar, e haver aí Antípodas, que até os Santos duvidaram, e não  há região, que nem por quente nem por fria se deixe de habitar. E que num mesmo clima e igual
distância da equinocial: há homens brancos e pretos e de muitas diferentes qualidades.
E fizeram o mar tão chão que não há hoje quem ouse dizer que achasse novamente alguma pequena ilha, alguns baixos, ou se quer algum penedo, que por nossas navegações não seja já descoberto.
Ora manifesto é que estes descobrimentos de coisas, não se fizeram indo acertar, mas partiam os nossos mareantes muito ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geometria, que são coisas que os cosmógrafos hão-de andar apercebidos, segundo diz Ptolomeu no primeiro livro da sua Geografia. Levavam cartas mui particularmente rumadas e não já as que os antigos usavam, que não tinham mais figurados que doze ventos e navegam sem agulha.
(in Tratado em Defensam da Carta de Marear, 1537)
... a transcrição foi baseada na Revista de Engenharia Militar – 1911 (F. M. Esteves Pereira) 

Foram destacadas algumas passagens:
  • (i) Passados muitos anos... "Deus deu-nos a sorte" do comento ter resistido até hoje! Mesmo assim note-se que Pedro Nunes não escreve livremente e, como já referimos, está sob escrutínio inquisitório. O Infante Luís só o protegerá até onde possível, e será difícil saber quem teria controlo sobre o problema... por um lado o Rei Dom João III, mas também o imperador Carlos V, e toda uma política internacional
  • (ii) Dificilmente se poderá dizer que há um descompassado frio na extrema parte sul de África, mas o mesmo não se poderá dizer da extrema parte sul da América... onde está o Cabo Horn.
  • (iii) Depois, Pedro Nunes, em 1537, reclama um descobrimento absoluto... de toda a Terra, antes desconhecida. Estamos em 1537... e de facto, não é fácil encontrar "grandes descobridores" nomeados e honrados por isso no Séc. XVI. A questão colocou-se principalmente depois... Os territórios não explicitamente declarados, seriam considerados "encobertos", e assim poderiam ser "descobertos". Demorou algum tempo... Seguindo os registos até Cook, no final do séc. XVIII ainda havia territórios por descobrir, e devemos excluir as viagens polares, já no séc. XIX. Terá demorado 300 anos a declarar o que de acordo com Pedro Nunes (... nem me atreveria a tanto!), teria sido explorado pelos portugueses em 100 anos. Não havendo razões para não acreditar em Pedro Nunes, essa memória essa perdeu-se... e é preciso reencontrá-la, para definir novo caminho na História.
  • (iv) Finalmente, Pedro Nunes desmistifica a ideia propagandeada de que se descobriam coisas acidentalmente. Não houve descobertas acidentais! Menciona mesmo cartas da antiguidade que teriam ajudado na exploração dos novos territórios. 
Estranhamente, este tratado nunca teve divulgação adequada.
Foi publicado oficialmente numa Revista Militar de 1911... mas até hoje não parece ter tido a divulgação merecida, ao contrário da restante obra de Pedro Nunes. Para além disso, a figura de Pedro Nunes não parece ter merecido o devido reconhecimento internacional.

(2) Representação da América Central
Ainda, no Livro de Marinharia, encontramos outro mapa interessante. 

Este mapa da América Central é antigo, ao ponto de assinalar possessões nacionais, com bandeiras em castelos na Colômbia e no Perú, junto à zona atribuída ao Império Inca!
A marcação parece ainda mais estranha, pois não há qualquer registo de contactos com essas civilizações.
No entanto, se acreditarmos na afirmação de Pedro Nunes – se em 1537 os portugueses tinham descoberto todas as ilhas ou penedos na Terra – então seria natural existirem contactos muito antigos com as civilizações incas, aztecas e maias.
Para dar crédito a esta Tese, teremos que admitir uma versão bastante diferente dos descobrimentos portugueses. Para isso, começamos com uma referência que aponta para viagens ainda anteriores, ainda antes da independência portuguesa.

Tratado da Ilhas Novas (Francisco de Souza, 1570)
Num pequeno tempo de luzes, sob reinado de D. Sebastião, apareceu um Tratado escrito por Francisco de Souza, que pode ser encontrado aqui (foi publicado nos Açores, em 1877).

Coloco aqui um extracto do texto de 1570 (com alguns sublinhados):
No tempo que se perderam as Espanhas, que reinava El-Rei Dom Rodrigo, que vai para quatro centos annos[1] que com as sêcas se despovoaram as gentes, e pereceram com a grande esterilidade e da entrada dos Mouros, como mais largamente se trata nas Escripturas antigas, por a qual causa do Porto de Portugal os mareantes e homens Fidalgos tendo noticia que para o Ponente havia terra que até então não fora descoberta, sómente pelas informações dos antigos e dos Espiritos tinham d'ella informação, determinarão de se embarcarem em sete náos com toda sua familia, e de hirem correndo ao Ponente confiados na misericordia de Nosso Senhor navegarão; e pela altura do Porto que está em 41 gráos correrão tanto que forão por barla-vento das Ilhas dos Açores, que inda não erão descobertas, e forão aportar na Ilha de S. Francisco que está pela dita altura, onde dizem as informações que tenho, que foram n'ella dar: e eu por rasão da nevegação acho ser sua derrota assim; queira Nosso Senhor permittir se descubra esta Ilha como atraz fica dito onde ella demora; e por irem em sete náos disem as informações que cada capitão com sua náo, tanto que aportarão, se repartirão cada um em sua parte da Ilha, e os antigos lhe chamão a esta Ilha as sete Cidades; mas outros por via de França lhe chamão a Ilha de S. Francisco, o qual, por quem é, queira rogar a nosso Senhor dêmos com ella para valermos á salvação da gente que n'ella está, pois procede de Christãos: e achei mais que é terra de boa habitação por ser grande e de muito proveito; e por rasão da virtude dos climas acho está situada no 5.o clima, que dado que seja mais frio que as Ilhas dos Açores não o é tanto como França, Inglaterra, porque é Ilha do mar a que o mar aquenta, e mais, que nas faces do sul é habitavel os dois terços d'ella debaixo de boas zonas.
[1] - Nota: Há um aparente erro na datação da invasão árabe,
mas que é reforçada pela citação do Rei Visigodo D. Rodrigo,
e é aparente pois annos (escrito com dois "n") pode referir 2 anos.

Este extracto do texto revela-nos um relato quinhentista da ida, no séc VIII, de Portugueses/Galegos para o Canadá... até mesmo antes da invasão moura (ou seja, uma migração sueva/visigoda antes de 711). Essa população foi depois reencontrada, no tempo da expansão portuguesa e depois voltou a ser abandonada por causa dos tratados internacionais e da nova ordem mundial. O pedido feito a Dom Sebastião é de reencontrar esta gente, que estaria para ficar sob domínio francês ou inglês... de facto, o rei reclama o território, e provavelmente granjeia novas inimizades (Jacques Cartier já havia desembarcado no Canadá em 1534, e os franceses reclamaram esse território... os ingleses haviam aportado simbolicamente em 1498, no Labrador, com G. Cabotto).
A denominada Ilha de S. Francisco, ou das Sete Cidades, poderia ser a Ilha da Terra Nova. Essa terra seria habitada por cristãos. Este segredo ficou por isso durante gerações e gerações, tal como provavelmente já poderia acontecer antes (antes... no período obscuro do Reino Suevo, mesmo antes no tempo dos romanos, no tempo do porto cale do rio d’ouro).

Observação: Convém notar que este texto tem outras menções que se podem considerar hoje em dia bizarras, como a presença de uma “Ilha de Santa Cruz dos Reis Magos” a 65 ou 70 léguas a oeste da Madeira. Há menções a Santa Cruz noutros mapas, onde pode associar-se a uma possível referência ao Brasil, conforme veremos na carta “Pedro Reinel a fez”.

Assim, o registo de navegações atlânticas na antiguidade, mencionado por vezes nas navegações fenícias de Hanno, pela rota do cabo Arsinário (arsinário ~ de cor dourada, cabo identificado ao actual Cabo Verde), é verosímel, bem como navegações costeiras que não se resumiam a contornar a Europa. Mais facilmente, as navegações costeiras acompanhariam a costa africana, e não serão de estranhar as referências que Duarte Pacheco Pereira faz (no Esmeraldo de Situ Orbis) a essas navegações de contorno da costa africana, atribuídas ao fenício Hanno e ao grego Eudoxo.

São Jorge da Mina
Encontram-se dois registos para a Mina.
Por um lado temos o Castelo de São Jorge da Mina, e por outro lado temos a Fortaleza da Mina.
A Fortaleza da Mina seria em África, mas poderia servir de entreposto, para um correspondente comercial na América, na Colômbia, à mesma latitude. Seria aí o Castelo de São Jorge da Mina, assinalado no mapa do Livro de Marinharia?
Esta hipótese poderá parecer estranha, mas a sua negação também tem alguns problemas.
Para além de múltiplas interrogações, que parecem tornar pouco consistente a chegada do ouro por comércio em África, a que se torna mais evidente é a decadência desse abastecimento aurífero, após o reinado de D. Manuel. O início do período de ouro espanhol é quase simultâneo com o fim do período de ouro português, quando aparentemente as descobertas declaradas teriam sido disjuntas.

Coloca-se uma hipótese do Tratado de Tordesilhas ter uma cláusula de transição, que só favoreceu Dom Manuel, até 1520... Nesta hipótese os portugueses abandonariam as suas possessões no hemisfério ocidental aos espanhóis, já preparados para reivindicar os territórios nessa data. Todo este secretismo ibérico e quebra de anteriores acordos secretos europeus acabaria por legitimar as figuras de corsários de outras potências europeias (por exemplo, ingleses e franceses).

Nota sobre a Carta de Reinel
É ainda importante notar que na Carta “Pedro Reinel me fez”, a linha artificial, que foi usada para mostrar a semelhança com a Costa Mexicana, permite também fazer um prolongamento da Costa Africana, começando na Feitoria da Mina e terminando no Rio Zaire. É esse prolongamento por simples translação que associa a carta às descobertas de Diogo Cão, até ao Congo, ficando bem situada na datação 1484-85. No entanto, essa associação parece perder também algum sentido ao colocar bandeiras “mouras” em território próximo do Congo.
Convém referir que é possível fazer muitas associações com simples pedaços de curvas. Por isso, não deixo de referir uma outra reconstrução, usando o contorno delimitado pelas bandeiras que vão de Ceuta a Tunis.

Com isto, não se pretende mostrar que Pedro Reinel pretenderia usar as semelhanças de contorno até à exaustão. Não deixa de ser notável a semelhança neste caso.
Muito pelo contrário, o excesso destas coincidências, e possíveis associações, permite não só a especulação num sentido, mas torna mais fácil usar especulação como argumento no sentido conservador. Por isso, o foco da semelhança de contornos foi primeiramente restrito à associação de rodar o mapa, já que tal é mencionado por Pedro Nunes, no seu Tratado (ou até na obra setecentista de António José da Silva, “Guerras de Alecrim e Manjerona”).
A associação habitual, prolongando só o contorno para completar a costa africana da Mina até ao Congo, parece também arbitrária, ainda que ela faça todo o sentido.

domingo, 1 de dezembro de 2019

dos Comentários (58) Ninigret e Newport

Em novo comentário de José Manuel Oliveira é referido o Forte Ninigret, a que se juntam na mesma região de Rhode Island, as estruturas Newport Tower ou Dighton Rock.

Como creio que nunca falei aqui destes assuntos, é ocasião de o fazer.

(1) Dighton Rock

O grande calhau estava no meio do rio Tauton, antes de ser levado para o museu.
É claro que se notam inscrições de origem humana, mas dificilmente se consegue concluir alguma coisa sobre o que lá está escrito, a menos que a pessoa esteja munida de grande fé. Durante algum tempo, as inscrições estiveram mesmo marcadas a tinta, o que pré-condicionava a leitura.
O assunto foi ligado à presença de Miguel e Gaspar Corte Real, por Edmund Delabarre em 1912.
Há outras interpretações que vão desde inscrições índias, fenícias, nórdicas, ou até chinesas...
Um grande entusiasta da teoria da origem portuguesa das inscrições foi o médico Manuel Luciano da Silva, que também foi promotor do museu que contém a pedra.

Há quem considere muito relevante este achado, e deu-se grande importância ao assunto.
A principal razão da sua fama é que dali não se vai concluir coisa alguma, o que é excelente para quem quer deixar tudo como está, deixando algum espaço de mistério aos curiosos. Podem se perder anos e anos a discutir sobre o que está, esteve, ou poderia ter estado escrito.
Como se entenderá, nunca mencionei o assunto, porque nada dou por ele...

A chamada Newport Tower é uma peculiar construção antiga, que foi ficando como monumento de Newport. As suas origens eram antigas, descrita em 1741 como um antigo moinho.
Também Edmund Delabarre e depois Luciano da Silva consideraram que este era mais um monumento de origem portuguesa, nomeadamente referindo-se as semelhanças da estrutura à charola do Convento de Tomar.
Ora acontece que existe um moinho inglês em Chesterton, que data de 1632 e é bastante semelhante na estrutura à Torre de Newport.
  
Torre de Newport. Moinho de Chesterton. Charola do Convento de Tomar. 

As semelhanças são de tal forma grandes, que a partir do momento em que vi o moinho inglês, deixei de pensar noutra hipótese.
Poderá argumentar-se que o material usado num caso e noutro são bastante diferentes, podendo aí haver semelhanças com algumas construções portuguesas feitas de xisto, mas nem há construções portuguesas semelhantes à torre de Newport (com possível excepção da charola de Tomar).

Qualquer comparação minimamente objectiva dará uma clara vantagem à teoria do moinho inglês.
Não quer isto dizer que seja uma conclusão definitiva, mas também sobre este assunto passei a dar pouca atenção à hipótese de se ter tratado de uma construção portuguesa.

Ainda em Rhode Island, Charlestown, foram feitas escavações sobre a existência de um forte. A área poderia ter sido habitada pela população indígena, mas depois nota-se uma clara  presença europeia.
A hipótese de ter sido presença portuguesa, é abordada no site (indicado por J.M. Oliveira):
In 1812 a large study was conducted by archaeologist H.H. Wilde and he found many artifacts of Dutch origin. The Dutch in the 1500s were based in New York and could have built a trading post here but there is another intriguing possibility.
Archaeologist William Goodwin, excavating at the fort, found a piece of blue pottery with the letter “R” on it. Some experts believe this might have been the logo belonging to two Portuguese brothers, the explorers Gaspar and Miguel Corte-Real.
In 1500, King Manuel of Portugal encouraged Gasper Corte-Real, the younger brother, to search for lands in America for which he would be granted extended rights. Unfortunately, Gasper disappeared in 1501 while on his voyage. A year later Gasper’s older brother, Miguel Corte-Real, set out to search for his missing brother but he also disappeared.
Fort Ninigret’s mystery deepened in 1921 when an ancient cannon and rusted sword were discovered not far from Fort Ninigret. Along with the cannon several skeletons were also discovered, at least one of which was headless. The cannon identifies as a “cão” meaning dog and was only made by the Portuguese and dated from the 1500s. The sword was of Spanish origin and dated to the late 1400s.
De facto, a semelhança entre o canhão encontrado e os canhões portugueses é grande:
Canhão encontrado em Charlestown (esquerda) e canhão no Museu da Marinha (direita).

Acresce que não haveria razão para um canhão antigo (séc. XVI) ser encontrado em escavações do tempo da presença holandesa ou inglesa (séc. XVII). A espada sendo considerada portuguesa, pode ter tido fabrico espanhol.

Assim, o caso do Forte Ninigret e do canhão encontrado na sua proximidade, é substancialmente diferente dos casos da Torre de Newport e da Pedra de Dighton. Neste caso existe uma possibilidade assinalável de ser um registo português na América do Norte.

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Comentário resposta de José Manuel Oliveira (3.12.2019):
A Torre de Newport com os seus oito arcos e um nicho interior, sem janelas para o exterior, lembra algo idêntico feito em Portugal, as análises à argamassa das pedras prova ser anterior à ocupação inglesa (1500+- 50 anos), fica por se saber quem a construiu, mas que não serve para moinho isso está provado, e é bem diferente da Chesterton que tem seis arcos e várias janelas.
Esse Chesterton com seis arcos, certamente não foi construído para ser um moinho, ambos têm aspeto de miradouros, para mim foram o início dum templo religioso do género de Tomar, ou dum forte militar que não acabaram,
Dighton Rock esteve centenas de anos dentro de água, as inscrições foram quase apagadas pela subida das águas, o que é que hoje pode lá ver claramente? pouco ou nada, mas na época de Delabarre era clara a gravura de: MIGUEL CORTEREAL v[oluntate] DEI hic DUX IND[iorum] 1511, para mim não será uma prova cabal da presença portuguesa na América do Norte, há outras melhores…

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

dos Comentários (57) Lisboa em Nova Iorque

Num comentário ao texto Livro de Fortalezas nas Índias, José Manuel Oliveira (remetendo para livro de Manuel Mira) trouxe um interessante e bizarro erro num mapa de Nova Iorque, à época holandesa nomeada Nova Amesterdão.
O mapa nada tinha a ver com Nova Iorque, era sim um mapa de Lisboa, com os nomes mudados.

Vejamos o mapa de Nowel Amsterdam en L'Amerique, de Gérard Jollain (1672).

Com efeito, à excepção dos barcos, e das legendas, todo o desenho é igual ao mapa de Georg Brun, incluído na compilação Civitates orbis terrarum (5º volume) terminada em 1617.


Como os ingleses conquistaram a cidade em 1664, o mapa feito em 1672 já deveria ter o nome Nova Iorque, pois o nome da cidade foi mudado imediatamente. Além disso designações como "Chateau Nassau" podem referir-se a fortificações nomeadas pelos holandeses, ex: Fort Nassau (norte e sul).
Mais estranha é a referência a um "Quebec"... ou Bikerque.

O erro de colocar o mapa de Lisboa no lugar de Nova Iorque, é demasiado grotesco.
Não parece ser um mero descuido, ou uma propositada preguiça de cópia - se assim fosse, qual o interesse em mudar o desenho dos barcos, colocando até um a disparar?

Porquê confundir com Lisboa, especificamente?
Não havendo outra informação, voltamos ao assunto do Livro de Fortalezas nas Índias, ou seja, que não é de excluir que Nova Iorque, ou antes Nova Amesterdão, tivesse sido uma primitiva colónia portuguesa, com um forte semelhante ao de Diu, instalado em Manhattan.

sábado, 23 de novembro de 2019

Ser humano. Ser anjo.

Agios é uma palavra grega que significa "santo", e que é foneticamente próxima de "anjos", ainda que essa seja suposta derivar de "angelos" (mensageiro). Quando se viaja pela Grécia, há cidades e vilas que invocam um nome santo, tal como Agios NikolaosAgia Pelagia, ou Agia Marina em Creta.

Creta (2004) - Agia Pelagia - igreja perto do Museu El Greco em Fodele.

A palavra grega αγία deve ler-se como "a guia", e não como "águia", nem como "agia".
No entanto, quer o significado de "a guia", enquanto ser que guia, ou de "águia", enquanto ser alado, ajustam-se bem à palavra grega.

Este tema surge por uma razão histórica simples e principal.
A razão da existência humana, além do aspecto animalesco. A razão da alma além do corpo.

Podemos pegar numa matilha de lobos e traçar a sua história por gerações.
Haverá uma linhagem real, de chefia da alcateia, podemos enumerar quem foram os seus lobos alfa e os beta, durante dezenas ou centenas de anos... mas qual seria o propósito disso?
Qual seria o propósito de fazer a árvore genealógica de uma alcateia de lobos?
- Nenhum, a menos de estudo genético.

Se listarmos a sucessão de reis ou chefes de uma nação, também o interesse é reduzido ou nulo, se não entendermos um propósito, alguma linha condutora. Se essa linha condutora se resumir a enaltecer algum maior domínio territorial, ou anos de melhor abundância para a população, então veremos que os objectivos dessa nação se resumem praticamente a uma feliz sobrevivência, tal como a alcateia de lobos.

Como os lobos não se preocupam em demasia com os aspectos políticos, de igual distribuição da riqueza alimentar, e conseguem sem problemas ter uma alcateia funcional, sem lobos mendicantes, não vemos propriamente qual seria o propósito não animalesco numa sociedade humana.

Com efeito, até ao advento dos primeiros aspectos culturais, a sociedade humana teria pouco de útil a transmitir. A sua brutalidade só seria maior, por uma falha natural de colocar um limite à ambição territorial, um limite à vontade de mandar e especialmente um limite à vontade de obedecer.

O advento da sociedade moderna, baseada numa lógica de "feliz sobrevivência", em que o maior objectivo dos seus líderes parece ser não ter qualquer outro objectivo, que não seja esse - o bem estar económico, foi de certa forma iludido com uma sociedade baseada no avanço científico.
O avanço científico foi sempre entendido como útil pelas nações como uma forma de supremacia tecnológica, até ao ponto em que começou a ser globalmente partilhado. Na forma de supremacia técnica, não serviria outro propósito que não fosse a "sobrevivência dos mais aptos", e de novo voltaríamos ao aspecto animalesco.
A grande diferença na partilha do conhecimento foi estabelecer um outro inimigo - a ignorância.
Nesse aspecto, a ignorância da outra tribo deixaria de ser um bem (na competição animalesca), para passar a ser um mal (numa competição global contra a ignorância). Isto será um visão cândida, e é melhor encarar que a partilha de conhecimento será sempre estimulada por aqueles que não revelam a sua parte. Este ponto mesmo sendo preocupante é indiferente, porque as vantagens de partilha acabaram por ficar de sobremaneira evidenciadas, independentemente da intenção.

Anjos
Que o moto principal da existência humana será a compreensão do universo, é um ponto que já abordei (ver Princípio Antrópico, por exemplo). Outra questão seria saber se isso implicaria uma necessidade de sofrimento, conforme discutido em texto anterior. Como uma parte do sofrimento passa pela ligação ao corpo, pode-se colocar a questão:
- Necessita a inteligência de suporte físico?

Não há nada de físico que se possa ligar directamente à inteligência, ainda que seja por demais evidente que a inteligência é suposto estar ligada a ligações neuronais no cérebro. Isso é manifestamente insuficiente porque as noções que desenvolvemos ultrapassam a finitude do corpo, começando pela própria noção de finitude que só existe por oposição à infinitude. Se a nossa inteligência se reduzisse à finitude do corpo, não poderia aí estar a noção de infinitude.

As noções abstractas que desenvolvemos são partilhadas praticamente por todos os humanos, e só podem ter origem inversa. Desenvolvemos números tão grandes que ultrapassam todos os grãos de areia do universo físico, ou mesmo todos os átomos, electrões ou protões, a origem desses números não tem qualquer correspondente físico... ultrapassam toda a física. Isso só pode ser justificado porque o universo (mas não o físico) terminou uma parte da sua formação dando origem a uma quantidade de invariantes que nós assimilámos enquanto palavras.

A junção dessas palavras seria possível de forma gratuita, e não há parece haver nada que impeça o desenvolvimento de ideias além da sua existência física... aliás a isso chamamos imaginação. E há uma grande diferença entre o mundo antes e depois da imaginação, porque há uma grande diferença entre as criações artísticas e a realidade.

O grande problema seria apenas um... não haveria diferença entre realidade e ficção.

Suponhamos assim que os primeiros seres existentes teriam sido anjos, capazes de pensamentos, de juntar e formar novas ideias, mas sem qualquer realidade para definirem quais ideias seriam válidas e quais ideias seriam inválidas.
Não teriam qualquer condicionante, porque nada daria mais valor a uma ideia do que a outra.
Um anjo poderia dizer formar a mais brilhante ideia e o outro poderia juntar palavras numa frase sem sentido. Um anjo poderia dizer que 3 e 1 são o mesmo, o outro poderia dizer que entre 3 e 1 há o 2.
Como nada haveria para confrontar as ideias, todas as frases teriam o mesmo valor.
No tédio angelical, os anjos mais populares poderiam ser os diabretes que mais seguidores arranjavam para verem os seus disparates.

Sem qualquer critério, como poderia ser desenvolvido nesse universo uma verdade?
Como poderia ser percebido que ideias seriam correctas ou incorrectas? Tudo não passaria de um jogo de popularidade, de canções de escárnio e maldizer, sem qualquer possibilidade de se atingirem verdades fundamentais.
Porém sendo esses anjos inteligentes, haveria um pequeno problema que os afligiria... da mesma forma que tinham aparecido do nada, poderiam desvanecer-se no nada? Mesmo sem corpo, ou qualquer substrato que os condicionasse, não poderiam garantir que não iriam desaparecer...

Assim, tornar-se-ia quase indispensável para o universo, ou mesmo para os próprios anjos, definirem uma situação bem diferente... um pequeno jogo em que o entendimento do mundo envolvente fosse decisivo. Nesse jogo os anjos poderiam continuar a dizer o que quisessem, poderiam mentir, se assim desejassem, poderiam até ignorar a realidade, mas isso pagar-se-ia caro... com a vida.
Bom, mas os anjos não poderiam morrer. Certo, mas a questão é que nasciam para este mundo sem saberem desse pequeno detalhe. E haveria uma condicionante presente - o desaparecimento do mundo físico. Sob essa ameaça bem real, constatada diariamente pelo desaparecimento de muitos outros, poderiam ainda assim concluir da sua imortalidade?

Portanto, a questão é que no mundo dos sonhos tudo é possível, e é indiferente que faça muito ou pouco sentido... tem um sentido próprio. Agora será esta realidade o sonho que permite concluir sobre os outros sonhos? Será este o universo que não permite a existência de multiversos, onde o ser e o não ser podem ocorrer em simultâneo.

Se assim fosse, mesmo quem estivesse fora de jogo seria tentado a jogar... só que haveria um pequeno problema, a consistência desta realidade iria levar ao desaparecimento da realidade dos anjos. A sua intervenção neste mundo seria medida apenas pela probabilidade ou improbabilidade de certas coisas ocorrerem. Para ganharem existência real, esses anjos teriam que morrer no seu mundo para renascerem neste, sem nada saberem do anterior. Para todos os efeitos é como se nunca tivessem existido, e não se distinguiriam de qualquer um acabado de nascer.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Livro de fortalezas nas Índias

Um livro que contém um registo razoavelmente extenso de fortalezas portuguesas na Índia, bem como de algumas outras regiões é:

António Bocarro (1635)

Interessou-me o caso particular da fortaleza de Diu, porque tem uma disposição muito parecida com a que teria a fortaleza de Nova Iorque em Manhattan, conforme desenhada pelos holandeses em 1660:

Mapa de 1660 de Nova Amsterdão (Nova Iorque, Manhattan) com forte e muralha de Wall Street (à direita).

Mapa de Diu (na Índia) também com forte e uma muralha à direita.

Plano actual de Diu (Google Maps) onde a amarelo está destacada a muralha (ainda existente).

As semelhanças são muito evidentes.
O tipo de fortaleza que encontramos no mapa holandês poderia ser bem uma fortaleza portuguesa, que simplesmente teria sido abandonada ou perdida para os holandeses, durante o período de ocupação espanhola. Há diversos fortes portugueses do mesmo tipo, e a delimitação por uma muralha exterior, separando a ilha em duas partes, parece ser exactamente a mesma solução que os portugueses seguiram em Diu.

O continente norte-americano ficou praticamente por colonizar até à chegada dos ingleses, holandeses, e franceses. Não se conhecem registos de fortalezas portuguesas ou espanholas naquelas paragens, exceptuando alguns fortes espanhóis na Florida. Se não fossem os portugueses, pelo menos os espanhóis teriam tido oportunidade para colonizar aquela região, e não o quiseram fazer além da Florida. Porém, é quase certo que a principal razão seria o resto de uma presença portuguesa naquelas paragens, tendo ficado semi-abandonada de ligação ao reino. O nome latino de Nova Iorque corresponder a Nova Eboraca (York seria Eboraca em latim) seria um sinal interessante para especular numa certa colónia "Nova Évora", mas tal nome nunca parece ter constado dos nossos registos coloniais.   

O aproveitamento que os holandeses fizeram das fortalezas portuguesas por si conquistadas, é extenso e claro. Ainda hoje ocorrem casos em que se fala do "forte holandês", quando se tratou de um "forte português" conquistado pelos holandeses. Ainda que os holandeses depois pudessem naturalmente fazer alguns melhoramentos, o projecto e execução inicial era quase sistematicamente português.

É naturalmente especulativo, e até talvez gratuito (dada a escassez de indícios), pensar que poderia já existir uma estrutura militar portuguesa na ilha de Manhattan, tal como tantas outras que existiam ao longo dos oceanos Atlântico (Brasil e África) ou Índico (África, Índia, Indochina). 
Dada a "facilidade" que os portugueses tiveram em erguer uma enorme quantidade destas fortalezas, graças à experiência adquirida em Marrocos (onde as tinham que erguer sob ameaça inimiga constante), também nada impede, e parece-me até razoavelmente provável que os portugueses tivessem fortificado alguma parte da costa norte-americana, até à Terra Nova.

Deixamos 5 imagens de outras fortalezas portuguesas, das 42 constantes no livro de Bocarro, que evidenciam a variedade de estruturas defensivas usadas:


Fortaleza de São Caetano de Sofala (Moçambique) - ver fortalezas.org

Fortaleza de São Sebastião (ilha de Moçambique) - ver fortalezas.org

Fortaleza de Mombaça (Quénia) - ver fortalezas.org

Fortaleza de Curiate (Omã) - ver fortalezas.org

Fortaleza de Mascate (Omã) - ver fortalezas.org

sábado, 19 de outubro de 2019

Ser humano. Ser o mano.

Horror
O grito. Edvard Munch (1893)
Se há coisa a que os seres humanos nunca foram poupados, foi à presença real ou imaginada do pior dos horrores. Diria mais, a literatura, a arte em geral, encheu-se de tragédias, e de descrições, numa perspectiva de "tanto quanto pior melhor". 

Um quadro simples, como o grito de Munch, conseguiu um efeito icónico, perturbador para a maioria dos espectadores. Podemos ir mais atrás, aos quadros de Hieronymus Bosch, que são também suficientemente desconcertantes e complexos, mas que estão fora da realidade do observador. Normalmente a situação mais perturbadora leva o espectador para uma realidade que não o coloca apenas no campo da ficção.

A principal questão é a de perceber a "convocatória de horror", com que somos confrontados, convidados a assistir, a sofrer, em primeira pessoa ou em pessoa alheia, trazendo para nós sentimentos de que poderíamos bem prescindir.

Ser humano
O ser humano apareceu num contexto extremamente violento, onde a natureza já exercia toda a espécie de experiências nefastas aos animais que tinha criado. Não foi o homem que criou o horror. Nasceu dele e cresceu convivendo diariamente com ele.
Não poderia ser doutra forma, sejamos claros. Se a matéria era aglomerada, praticamente do nada, de um ovo, para se constituir como ser vivo, enquanto aglomerado natural, não faria sentido uma lei natural que inviabilizasse a sua destruição, a sua remissão às partes que formavam o todo.
Em muitos casos isso era e é literalmente assim, a presa entra dentro do sistema digestivo do predador, e sai já reduzida a estrume, matéria pronta a entrar noutro ciclo de vida. A natureza não esteve preocupada em anular a dor da presa, assim como forçava o predador a esse jogo, sob pena da lancinante dor da fome, antevisão do seu próprio desfalecimento.

Energia
A lógica algo sinistra da vida está relacionada com esse imposto pago a cada instante de tempo.
As partículas não podem decidir mover-se de um lado para o outro, sem pagar o imposto energético.
No caso de serem partículas inanimadas, qualquer movimento seu resulta de energia transmitida por outra fonte. As partículas animadas, por moto próprio, são animais (aliás, como o nome indica).
Um grão de areia pode voar levado pelo vento, pode ser arrastado pela água, mas todos esses movimentos não têm origem em si, são resultado da dinâmica de fluidos, na maior parte das vezes definida pela energia do Sol, ou pela conversão da energia da Terra (por exemplo, a energia potencial gravítica). Quando pequenas partículas tentam rumar contra essa corrente, por iniciativa própria, são animais, desde as mais pequenas amebas, até às maiores baleias.
Cada vez que manifestam a sua vida, pagam esse seu movimento em energia.

Como a lei universal é de conservação de energia, se algum animal quer gastar energia, tem que ir tirá-la algures... Ora, praticamente a única fonte gratuita de energia é o Sol, e o aproveitamento directo dessa energia é feito pelas plantas na fotossíntese. Animais movidos por fotossíntese foi coisa que não vingou, provavelmente por insuficiência energética, e assim os primeiros animais foram herbívoros, retirando energia das plantas. Até aqui a coisa não era muito atroz, porque as plantas eram desprovidas de sistema nervoso... o problema começou quando a natureza decidiu avançar para a crueldade seguinte, permitindo que uns animais fossem predadores de outros, especialmente dos herbívoros. A natureza já tinha exercido a sua crueldade com as plantas, através de secas e outros mimos, mas passa a outro nível com os herbívoros, chegando ao nível do sarcasmo quando condena uma tartaruga à morte por impossibilidade de se virar sobre si mesma.

Propósito
Isto tudo poderia ocorrer sem qualquer propósito, e essa é a versão oficializada da ciência maçónica, mas nos bastidores vai correndo outra ciência, sem pecadilhos religiosos, de uma religião que é anti-religiosa. Já aqui falámos do Princípio Antrópico, e essa é praticamente a única resposta a esta questão. Mais concretamente, quando a natureza introduz os seres vivos e os animais vai cumprir os passos necessários para o "conheça-se a si mesmo" universal. Desde a primeira existência de olhos, ou melhor, desde o primeiro instante em que os animais tiveram sentidos, assimilaram dentro de si uma parte exterior. Com os primeiros animais, o universo ganhava pela primeira vez seres que interpretavam uma parte do universo onde estavam. Admitindo que esses animais eram herbívoros, o seu conjunto iria interpretar ou codificar o mundo exterior. Com o cérebro herbívoro, o mundo terrestre poderia ser todo visto e previsto, nas suas leis mais básicas. Os herbívoros, sujeitos às maiores atrocidades, poderiam ir sobrevivendo num mundo quase caótico, restando os que melhor o entendessem. No entanto, sem inimigos acima de si, não teriam que se entender a si mesmos.

Quando a natureza define predadores e presas, não está apenas a ser cruel... ou a arranjar alternativas para o sucesso energético. Nessa altura, as presas têm que prever os predadores, e vice-versa. O cérebro de um herbívoro deixa de estar apenas preocupado com os seus locais de pasto, uma tarefa simples, quando comparada com o prever da acção dos predadores que lhe ameaçam a vida.
Desenvolvendo-se essa capacidade de previsão dos outros, isso tanto ocorre para a presa, no sentido de escapar ao predador, como para este, no sentido de apanhar a presa.
Em breve, o conjunto dos animais tanto conseguem entender minimamente os fenómenos físicos, como conseguem prever-se uns aos outros, entre os pares presa-predador. Mas como estas entidades são diferentes, ou seja, as espécies predadoras não caçam animais da mesma espécie, estes animais não estavam pressionados para se entenderem a si mesmos.

É com os primatas, e especialmente com os humanos, que o sucesso da espécie torna os humanos como potenciais predadores de humanos. Não se tratou apenas do canibalismo, que também ocorreu, os homens passaram à função de predadores de si mesmos, quando levaram as disputas territoriais e sexuais ao nível letal, o que raramente acontecia com os restantes animais.

Ser o mano
Nessa altura, quando o maior inimigo do homem é o próprio homem, a espécie tem que se conhecer a si mesmo. O maior propósito universal estava quase alcançado... não era apenas importante ao universo entender o funcionamento de uma parte, era especialmente importante entender-se a si mesmo. Se a espécie era resultado da natureza, para além de entender a outra natureza, teria que se entender a si mesma. Poderia dispensar isso, se não houvesse uma pressão, e essa pressão foi o horror, na nova forma que os humanos o trouxeram. Nas dilacerações que os humanos foram fazendo uns aos outros, foram sempre juntando novas ideias de horror, como forma de temor, como forma de se impor como potência perante os outros.
Os humanos criaram novos animais, muito mais temíveis, que tudo o existente anteriormente.
Esses novos animais eram as sociedades, que de famílias passaram a tribos, e de tribos a nações.
Se os homens eram mortais, essas sociedades poderiam não o ser, enquanto o legado cultural fosse preservado.
Até aqui funcionaria a lógica dos grupos, dos manos, mas não dos humanos.
Um homem teria que entender outro homem, mais do que isso teria que entender os grupos humanos, as sociedades aí desenvolvidas, etc. Ainda assim, cada homem estava dispensado de se entender a si mesmo. Entendia o outro como inimigo, poderia entendê-lo como mano, como companheiro, mas não surgia nenhuma pressão para se conhecer a si mesmo.

Creio que a pressão para se conhecer a si mesmo só resultou quando se percebeu que o problema não estava nos outros, estava no próprio. Para esse efeito, vejo um chefe tenebroso, que depois de se ver livre de todos os inimigos, começou a inventar novos inimigos, nos mais próximos, ao ponto de tendo o controlo sobre todos, seria forçado a perceber que os novos inimigos resultavam da sua paranóia. Esta reflexão pode nem ter partido de si, pode ter partido de algum conselheiro, que arriscaria ser o próximo na lista.
Esta constatação será motivo pelo qual a inscrição "conhece-te a ti mesmo" aparecia em destaque no Templo de Delfos, mas já resultaria de tempos mais remotos, muito anteriores a Zaratustra. Basicamente seria com esse início da verdadeira consciência do eu que a filosofia teria despontado para começar a abordar o problema fulcral.

O problema fulcral é simples, ainda que esteja enredado numa teia de preconceitos.
Como poderia o universo existir, se não desenvolvesse em si uma consciência autónoma, capaz de o observar e entender? - Conforme já disse aqui múltiplas vezes, não seriam os calhaus, as árvores, os burros ou os ursos, a entenderem a sua existência. Só os homens têm essa capacidade, a capacidade de reflexão e auto-reflexão, de definir mini-universos em si mesmos. O universo precisou de uma inteligência autónoma para se reflectir em si mesmo.
Tudo o que existe, existe por uma razão. A razão de tudo não pode ser exterior ao universo, sob pena de o universo não incluir tudo o que existe, e contrariar a sua própria definição. Também não será nenhuma parte do universo a conter essa razão, sob pena de se identificar com ele. Mas ainda que a razão completa esteja fora de alcance, podemos saber o suficiente para compreender o assunto na sua generalidade, e mais do que isso, não nos interessarmos pelos detalhes, e sabendo porquê.

Concluindo, o horror foi uma prenda do processo, e tendo existido antes, não tem razão para agora desaparecer por si. Pode deixar de ter utilidade prática, como teve antes, e levar para caminhos que já trilhámos. Interessa saber que a existência teórica do horror não é apagável, mas será opção própria entender onde isso leva - normalmente a lado nenhum..

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

De Re Militari (1/3)

Pareceu-me interessante considerar aqui a simples tradução do livro De Re Militari, de Flavius Vegetius, ou Vegécio, contemporâneo do Imperador Graciano (fim do séc. IV). É apenas a tradução do 1º livro, baseada numa outra tradução para o inglês de 1767, constante em Digital Attic, podendo encontrar-se uma versão em latim em The Latin Library para confrontação, o que raramente fiz.

Faço ainda referência às iconografias constantes na tradução alemã da obra (feita em 1529):
Vier Bücher der Ritterschafft de Heinrich Steyner
Não se referindo necessariamente ao texto, ou pelo menos não a partes conhecidas dele, é constatado que também outros tradutores do Renascimento, quando faziam a tradução do texto de Vegécio, colocavam a presença de armas e tecnologias que seriam mais contemporâneas.

São vários os casos, mas talvez destacando dois, escolha o colchão de ar, e fatos submarinos.
 
O colchão de ar é uma invenção de origem pouco conhecida, mas representa uma solução simples que poderia ser efectivamente usada desde a remota antiguidade, e também permitiria um simples dispositivo para flutuar na água.
No que diz respeito ao uso material submarino, encontram-se referências em diversos textos medievais, ainda mais antigos, que remetem até para uma história do interesse de Alexandre Magno na exploração submarina, revelando que muitos dos interesses ou invenções, pensadas modernas, tinham já origem em tempos remotos.

Segue a tradução do texto, fazendo notar logo a parte inicial, em que o Vegécio questiona como tinham sido os romanos capazes de suplantar os restantes povos, nomeadamente, o número de gauleses, a estatura dos alemães e a força física dos hispânicos, etc... concluindo ele ter sido a disciplina do exército. Isto não deixa de ser expectável e curioso.
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Prefácio ao Livro 1

Ao Imperador Valentiniano


É costume dos autores oferecer aos seus príncipes os frutos de seus estudos em belas cartas, a partir de uma convicção de que nenhum trabalho pode ser publicado com propriedade, se não tive os auspícios do imperador, e que o conhecimento de um príncipe deve ser mais geral e mais importante, pois sua influência é sentida com tanta intensidade por todos os seus súbditos. 
Temos muitos exemplos da recepção favorável que Augusto e seus ilustres sucessores conferiram sobre os trabalhos que lhes foram apresentados; e esse encorajamento do Soberano fez as ciências florescerem. A consideração da indulgência superior de Vossa Majestade por tentativas desse tipo me levou a seguir esse exemplo e quase me esqueci da minha própria incapacidade quando comparado com os escritores antigos. 
Uma vantagem, no entanto, deduzo da natureza deste trabalho, pois ele não requer elegância de expressão ou extraordinária parcela de génio, mas apenas grande cuidado e fidelidade em colectar e explicar, para uso público, as instruções e observações de nossos antigos historiadores de assuntos militares, ou aqueles que escreveram expressamente a respeito deles.
Meu objectivo neste tratado é exibir nalguma ordem os costumes e usos peculiares dos antigos na escolha e disciplina dos seus novos recrutas. Também não pretendo oferecer este trabalho a Sua Majestade, partindo da suposição de que não conhece todas as partes de seu conteúdo; mas sim que pode ver que as mesmas disposições e regulamentos salutares que sua própria sabedoria solicita que estabeleça para a felicidade do Império, foram anteriormente observados pelos seus fundadores; e que Vossa Majestade possa encontrar com facilidade nesta descrição o que for mais útil num assunto tão necessário e importante.
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Livro 1: A selecção e o treino de novos recrutas


I - A DISCIPLINA ROMANA - A CAUSA DA SUA GRANDEZA
A vitória na guerra não depende inteiramente de números ou mera coragem; só a habilidade e a disciplina garantirão isso. Descobrimos que os romanos não deveram a conquista do mundo a outra causa senão ao treino militar contínuo, observância exacta da disciplina em seus campos e cultivo atento das outras artes da guerra. 
- Sem isto, que chance teria o número de exércitos romanos contra as multidões dos gauleses?
- Ou com que sucesso seu tamanho pequeno teria se oposto à estatura prodigiosa dos alemães?
- Os hispânicos superaram-nos não apenas em números, mas em força física.
- Sempre fomos inferiores aos africanos em riqueza e desiguais a eles em engano e estratagema.
- E os gregos, indiscutivelmente, eram muito superiores a nós em habilidade em artes e em todos os tipos de conhecimento.

Mas, a todas essas vantagens, os romanos opunham o cuidado incomum na escolha dos seus recrutas e no seu treino militar. Eles entenderam completamente a importância de fortalecê-los pela prática contínua e de treiná-los para todas as manobras que possam acontecer na linha e na acção. 
Nem eram menos rigorosos em punir a ociosidade e a preguiça. 
A coragem de um soldado é aumentada pelo conhecimento de sua profissão, e ele só quer uma oportunidade de executar o que está convencido de que lhe foi ensinado perfeitamente. Um punhado de homens, empenhados na guerra, persegue a vitória certa, enquanto pelo contrário numerosos exércitos de tropas rudes e indisciplinadas são apenas multidões de homens arrastadas para o matadouro.

II - A SELECÇÃO DE RECRUTAS
Para tratar este assunto com algum método, primeiro examinaremos quais províncias ou nações que devem ser preferidas para suprir os exércitos com recrutas. É certo que todo país produz homens corajosos e homens cobardes; mas é igualmente certo que algumas nações são naturalmente mais guerreiras do que outras, e que a coragem, assim como a força do corpo, depende muito da influência dos diferentes climas.

A seguir, examinaremos se a cidade ou o país produz os melhores e mais capazes soldados. 
Imagino que ninguém possa duvidar que os camponeses sejam os mais aptos a portar armas, pois desde a infância foram expostos a todos os tipos de clima e foram submetidos ao trabalho mais árduo.   Eles são capazes de suportar maior calor do sol, não estão familiarizados com o uso de banhos e são estranhos a outros luxos da vida. São simples, satisfeitos com pouco, apegados a todos os tipos de fadiga, e preparados de alguma forma para uma vida militar pelo emprego contínuo em seu trabalho no país, no manuseio da pá, cavando trincheiras e carregando fardos. 

Em casos de necessidade, no entanto, às vezes somos obrigados a recrutar nas cidades. 
E esses homens, assim que se alistavam, deveriam ser ensinados a trabalhar em trincheiras, a marchar em fileiras, a carregar cargas pesadas e a suportar o sol e a poeira. Suas refeições devem ser grosseiras e moderadas; eles devem estar acostumados a dormir algumas vezes ao ar livre e outras vezes em tendas. Depois disso, eles devem ser instruídos no uso das suas armas. E se alguma longa expedição estiver planeada, elas devem acampar o mais longe possível das tentações da cidade. 
Com estas precauções, as suas mentes e corpos estarão adequadamente preparados para o serviço.

Percebo que, nas primeiras eras da República, os romanos sempre erguiam seus exércitos na própria cidade, mas isso foi numa época em que não havia prazeres nem luxos para seduzi-los. O Tibre era então o único banho, e nadando refrescavam-se após exercícios e fadigas no campo. Naqueles dias, o mesmo homem era soldado e camponês, mas um camponês que, quando surgia a ocasião, deixava de lado as suas ferramentas e empunhava a espada. 
A verdade disso é confirmada pelo exemplo de Quintius Cincinnatus, que estava atrás do arado quando lhe foram oferecer o cargo de ditador. A força principal de nossos exércitos, então, deve ser recrutada no campo. Pois é certo que quanto menos estiver um homem familiarizado com os doces da vida, menos razões ele tem para ter medo da morte.


III - A IDADE ADEQUADA PARA RECRUTAS
Se seguirmos a prática antiga, o momento adequado para alistar jovens no exército é a sua entrada na era da puberdade. Nesse momento, instruções de todos os tipos são absorvidas mais rapidamente e imprimem mais duradoura na mente. Além disso, os indispensáveis ​​exercícios militares de corrida e salto devem ser adquiridos antes que os membros sejam muito rígidos pela idade. Pois é a actividade, aprimorada pela prática contínua, que forma o soldado útil e bom.
Antigamente, dizia Sallustius, os jovens romanos logo que tinham idade para portar armas, eram treinados da maneira mais rigorosa em seus campos para todas as fatigas e exercícios de guerra. Pois é certamente melhor que um soldado, perfeitamente disciplinado, repita através da emulação, que ainda não tenha chegado a uma idade adequada para a acção, do que ter a mortificação de saber que é passado.
Também é necessário um tempo suficiente para sua instrução nos diferentes ramos do serviço. Não é fácil treinar um arqueiro a cavalo ou a pé, ou formar o soldado legionário em todas as partes da arte, ensiná-lo a não deixar o seu posto, a manter fileiras, apontar apropriadamente e lançar os seus mísseis  com força, cavar trincheiras, plantar paliçadas, como administrar o seu escudo, olhar os golpes do inimigo e como desviar um golpe com destreza. Um soldado, perfeito na sua profissão, longe de mostrar qualquer temor em se envolver, estará ansioso por uma oportunidade de se evidenciar.


IV - O SEU TAMANHO
Achámos os antigos muito afeiçoados a conseguir os homens mais altos que podiam para o serviço, uma vez que o padrão para a cavalaria das alas e para a infantaria das primeiras coortes legionárias era fixado em seis pés, ou pelo menos cinco pés e dez polegadas. Estes requisitos poderiam ser facilmente mantidos naqueles tempos em que esses números seguiam a profissão das armas e antes de ser moda para a flor da juventude romana se dedicar aos assuntos civis do estado. 
Mas quando a necessidade exige, a altura de um homem não deve ser considerada tanto quanto sua força; e por isso temos a autoridade de Homero, que nos diz que a deficiência de estatura em Tideu foi amplamente compensada por seu vigor e coragem.


V - SINAIS DE QUALIDADES DESEJÁVEIS
Quem supervisionar os novos recrutas deve ser particularmente cuidadoso ao examinar as características de seus rostos, olhos e aparência de seus membros, para permitir que formem um julgamento verdadeiro e escolham os que têm maior probabilidade de serem bons soldados. 
Pois a experiência nos garante que há nos homens, bem como nos cavalos e nos cães, certos sinais pelos quais suas virtudes podem ser descobertas. O jovem soldado, portanto, deve ter um olho vivo, deve manter a cabeça erecta, o peito largo, os ombros musculosos, os dedos longos, os braços fortes, a cintura pequena, a forma fácil, as pernas e os pés mais nervosos que carnudos. Quando todas essas marcas são encontradas num recruta, um pouco de altura pode ser dispensado, uma vez que é muito mais importante que um soldado seja forte do que alto.


sábado, 12 de outubro de 2019

dos Comentários (56) continente americano

Houve antes outros comentários sobre a presença portuguesa no Canadá, de DJorge, nomeadamente:

e para além das referências abordadas noutros postais, começando com o Tratado das Ilhas Novas de Francisco de Souza (1570), fica aqui nova contribuição de IRF, com 4 comentários encadeados, e um subsequente comentário-resposta de José Manuel Oliveira.

Acerca da efectiva descoberta do continente americano por Colombo - é certo que nas duas primeiras viagens apenas visitou as Antilhas, e seria apenas em 1498 que visitou a Venezuela, mais propriamente o continente americano. 

Conforme já aqui referi, se chegar a Timor (ou chegar à Papua - Nova Guiné) não deu crédito de chegar à Austrália, muito menos dariam as Antilhas para o continente americano.

Acontece que para além da chegada à Índia, 1498 é ainda o ano em que Duarte Pacheco Pereira afirma ter estado na América a mando de D. Manuel. Fica assim em dúvida saber se essa viagem foi anterior ou posterior à chegada de Colombo à Venezuela em 1 de Agosto de 1498, mas parece que a viagem de Pacheco Pereira poderá ter ido muito mais além, de 70ºN a 28ºS (ou seja, do Canadá à Argentina), conforme as latitudes por si reportadas.

Este confronto levou à pretensa nomeação da América por via de Vespúcio, que afirmou ter chegado ao continente numa viagem de 1497-98 que não lhe é reconhecida, mas que foi suficiente para Waldseemuller lhe creditar a nomeação.

Para o que interessa, Colombo afirmou fazer a viagem à Venezuela para verificar se D. João II tinha razão e se existia ali mesmo uma parte continental. Claro que o rei português não teria outros navegadores para fazê-lo e morreu à espera que Colombo tomasse a iniciativa. Enfim, isto é tudo tão absurdo que nem percebo como os historiadores podem contar esta história sem corar de vergonha pelo ridículo do disparate.

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Quatro comentários de IRF:

Portanto, isto é referente à presença Portuguesa no Canadá, na zona do "Canadá Atlântico", Terra Nova, Nova Escócia, quiçá Nova Brunswick e no impossívelmente frio Labrador:

Encontrei isto numa das minhas pesquisas nas internetes:
De certo conhece melhor que eu as viagens de Álvares Fagundes, aparentemente datadas do primeiro quartel do século XVI, que tem sido mais ou menos homenageado pelo governo da província Canadiana de Nova Escócia como "mais ou menos o descobridor":

Enfim... conhece também que os Vikings lá estiveram por essas bandas, embora não tão a Sul.
Conhece o "reconhecimento" feito por Giovanni Caboto para os Ingleses em 1497 e as intromissões dos Franceses por Cartier (*) à volta de 1530...

Mas mais importante: Conhece o facto que os Portugueses já tinham descoberto essa zona antes de Colombo chegar às Bahamas em 1492, ter descoberto um bocadinho continental da Venezuela em 1498, que tendo em conta as dimensões das ilhas de Cuba e Hispaníola, certamente não lhe permitia saber com certeza que era "a Terra Firme" do continente Americano, e que finalmente encontrou a América Central em 1502 quando foi ordenado a passar daquilo que pensava ser o Japão para a tão almejada Índia.

Ora aqui ficam os mapas da wikipedia que parecem ser muito bons a explicar o percurso de Colombo, tendo em conta tudo o que até aqui tenho lido, que admito não ter sido assim tanto... aqui vai:
1492

1493 

1498

1502

Pelo que se levanta em mim esta interrogação que gostaria realmente de ver respondida:

Quando é que os Espanhóis descobriram realmente a América?

Outra pergunta que se levanta é... dada a presença Portuguesa na América desde meados do século XV, que nos parece ser clara, terão os Portugueses mesmo reivindicado os seus territórios? Terão povoado com Portugueses esse território? 
Terão deixado sinais e deixado a marcas na sua toponomia local? 
A resposta varia entre o sim e o mais ou menos sim ou parece que sim ou provávelmente sim. 
Mas isso não basta.

Ao ler o "Descoberta do Brasil" - e de certeza sabe a que me refiro apesar de não me lembrar do nome do autor agora - parece-me claro que o Rei D. João II, o Príncipe Perfeito, em 1480 e tal ofereceu em mercê ou feudo ou o que o valha, parte do que hoje é o Canadá a D. Fernão Ulmo, "governador" da Ilha Terceira (ou Madeira?). Seria interessante encontrar o documento em questão. Mais "emocionante" foi ler que tal documento afirmava que o Rei de Portugal estava disposto a ir para a guerra com Fernão Ulmo caso pusessem em questão a autoridade deste, e portanto da coroa Portuguesa.

Também nesse livro encontrei vários escritos, desde Colombo a Las Casas, que afirmavam já ter estado os Portugueses na América. Bem como indícios de que Colombo vai para a América - ou as Bahamas de hoje - seguindo exactamente relatos e rotas Portuguesas...

O mais chocante é contar, parece-me, nos registos históricos, por intermédio de Colombo e Las Casas, a brutal e clara asserção de que quando chegaram a Cuba, os nativos afirmaram-lhes que já tinham tido contacto com outros "Homens brancos e barbudos como nós"... e não há muitos anos!

Acresce também aquilo que é sabido por todos nós, que apesar das viagenzinhas de Caboto pelos Ingleses e Cartier (*) pelos Franceses nunca a Terra Nova ou o Nordeste da América do Norte - a parte mais próxima à Europa Ocidental - foi colonizada ou realmente reivindicada por outras potências.

Porquê?
Porque parece que havia o reconhecimento, senão claro pelo menos táctico, que essa zona correspondia ao Reino de Portugal, tal como a Gronelândia ou a a Islândia correspondiam aos Reinos da Noruega/Dinamarca.

Eram terras que já tinham dono. Um dono Cristão. E por Cristão quero dizer Católico. Pelo que seria interessante dar uma olhadela ao quê que o Vaticano teria a dizer... (Tordesilhas e mais especialmente aquele tratado que o precede que diz que os Portugueses têm direito ás terras não Cristãs que descobrirem e conquistarem são claros...)

Nunca os Franceses ou Ingleses ou quaisquer potências reivindicaram a sério aquelas terras até 1580, quando, dois anos após a morte de D. Sebastião, a coroa Portuguesa passa para a Coroa dos Habsburgo Espanhóis. E é como se Portugal deixasse de existir e a América do Norte Portuguesa se torna "fair game" para todas as potências Ocidentais, geralmente em guerra com o Império "Castelhano-Germânico" de Carlos V.

Será que os Portugueses povoarem aquela área nos séculos XV e XVI?

Voltemos a João Fagundes e ao Tratado das Ilhas Novas e Descobrimento Delas e Outras Cousas, escrito (aparentemente) pelo Capitão Donatário da Ilha da Madeira (posso estar enganado) Francisco de Souza por volta de 1570 (?).
Que diz algo como: Alguns nobres se juntaram em Viana do Castelo, tendo informação da Terra Nova dos Bacalhaus, que estavam determinados a povoá-la e que receberam licença do Rei para tal...
Quantas vezes isso aconteceu?
Não continua o tal escrito com algo como: Achando aquela terra muito fria, foram descendo até que se instalaram noutra e ainda hoje lá estão porque foram encontrados à pouco pois já se tinha perdido o contacto com eles, e estão no Cabo Bretão?

Não havia umas famílias nobres do Minho que tinham no seu registo que alguns partiram para a América do Norte em finais do séc. XV / inícios do XVI?

Que podemos nós saber do povoamento Português nessa zona, se é que realmente foi povoado? E toponomia? E sinais? Portugal Cove, etc...

E agora vou ser ainda mais bruto, que o tempo escasseia cada vez mais:

Aparentemente João Álvares Fagundes foi o descobridor da Nova Escócia.
Álvares Fagundes parece ter descoberto a "Baía de Fundy", entre outras zonas daquela parte do mundo. A wikipedia diz que as ainda hoje Francesas ilhas de Saint Pierre et Miquelon à beira da Terra Nova foram descobertas por Fagundes e chamadas de "Ilhas das Onze Mil Virgens".

Álvares Fagundes, parece ter chegado inclusive ao fim da Baía de Fundy*, entre a Nova Escócia e Nova Brunswick, províncias do Canadá actual.

Atentemos para o nome da área mais ou menos pantanosas e mais ou menos pontuada por uma extrema variabilidade das marés.
Chamam-se hoje "Tantramar Marshes", ou Pântanos de Tantramar. Que nome esquisito para a língua Inglesa... Fui ver a explicação:
      A Wikipedia diz que o nome derive do francês do tempo da colonização Francesa da Acádia: "Tintamarre", falam de cenas inglesas como "din" e "racket" e depois explicam que "Tintamarre" é em referência às barulhentas aves, provavelmente gansos e patos, que habitam a zona.

Pois como é que o Inglês toma "Tantramar" desde "Tintamarre"?
Como é que o Marrrrrrre francês passa par um simples mar Inglês? 
Como é que o Tinta passa para Tantra, como aparece o r???

Já, se imaginarmos por ventura que aquela zona era de povoação Portuguesa e se chamava "Entre Mar" poderia facilmente passar para o Inglês "Antremar".
Repare-se na perfeita terminação da palavra em Inglês e em Português nas pronúncias das duas línguas:
"Entre Mar" vs "Tantramar" e o aberrante Francês "Tintamarre" que não só tem uma terminação bastante diferente como lhe falta o som tr.
O T no início derivaria da expressão The Entre Mar. Que deveria ficar algo como Dantramar mas que por algum motivo passou a T.
Entre Mar (o Inglês diria) "Antramar" e acrescentaria o som d/t do "the" Dantramar/Tantramar.

Que mais motivos tempos para acreditar na origem Portuguesa do nome do povoado?

É que a zona em questão, os Pântanos (Marshes) de Tantramar, ou de Entre Mar ou de Entre-O-Mar que seria dito em Inglês como qualquer coisa como "The" Antr-a-Mar...

É que essa zona fica mesmo no fim da Baía de Fundy, entre a Nova Escócia e Nova Brunsiwick, e do lado Norte tem um ístmo de terra que faz a ligação da Nova Escócia ao Continente Americano.
Istmo esse que chega a ter apenas 25 Kms de largura.

A Zona de Entre Mar está mesmo Entre o Mar!!! 
A Sul da cidade de Moncton em Nova Burnswick, no Canadá!

E digo-lhe mais! Apresento-lhe Samuel de Champlain, fundador da cidade do Quebec, que andou por essas terram a partir de 1600, tendo feito "29 viagens até ao Canadá", de acordo com a Wikipedia, ao serviço do Rei de França, sendo considerado "o Pai Fundador" da Nova França - e do actual Quebeque.
É de ter em atenção que ele aparentemente era um Francês nascido à volta de La Rochelle, portanto, na costa Atlântica. No Sul (relativo) da costa Atlântica Francesa...
E parece ter começado no mar da seguinte forma:

    1º Começou no mar com a família à volta de 1598 a transportar tropas Espanholas da Holanda para Cádiz, no Reino de Filipe II de Espanha e I de Portugal. Portanto, quando Portugal estava sob domínio Espanhol, ele fazia o transporte das nossas tropas ao longo do Atlântico...

    2º Infiltra-se lá com um Espanhol do mar por volta de 1598 e vai para o México e as Antilhas...

    3º Depois de compilar informações sob os afazeres dos Espanhóis pelas Américas, oferece-as em livro ao Rei de França e ganha sob o Monarca grande ascendente. A compilação oferecida por Samuel de Champlain ao Rei de França tinha o seguinte título:

Breve Discurso das Coisas Mui Notáveis que Samuel Champlain de Brouage Reconheceu nas Índias Ocidentais Nas Viagens Que Fez de 1599 a 1601 E Como Assim É (Tradução minha, mui livre).

E boom! Com isto faz-se dono e senhor do que viria a ser Nova França, Fundador do Quebeque, com todo o apoio do Rei.
É também de notar que a wikipedia diz que isto foi escrito à volta de 1600 mas só foi "publicado" - isto é, só foi tornado público - em 1870.

Acontece que, voltado ao Pântano de Entre-Mar, que à guarda da entrada nessa região pantanosa, na fronteira onde a terra se extende, a Baía de Fundy acaba e o Pântano de "Entre Mar" começa... temos a Baía de Advocate. Que é guardada pela cidade ou vila de Advocate Harbour.

Dizem os locais que quando em 1607 chegou Samuel de Champlain àquela zona, repito, 1607, apontou nos seus escritos o seguinte comentário:

"Encontrei por ali uma cruz muito velha, toda coberta de musgo, e quase toda já apodrecida".

Samuel de Champlain é oficialmente o primeiro Europeu e o primeiro Cristão a estar naquela zona.
Há quem diga que Álvaro Fagundes deixou lá um cruzeiro que nunca foi encontrado e que provavelmente seria este.

Será que o Marsh de Tantramar ou Tintamarre era afinal o Pântano de Entre o Mar e que Fagundes deixou lá um cruzeiro e uma povoação?

Mui, mui interessante...

P.S. - Sobre João de Álvares Fagundes e seus descendentes diz isto a wikipedia em Português:
"(João Álvares Fagundes) a documentação veio revelar que casou apenas uma vez, com Leonor Dias (Boto), sepultada a 24 de Agosto de 1538 na Misericórdia de Viana do Castelo, e deixou duas filhas, D. Violante, que foi sua herdeira universal e casou com o fidalgo João de Souza de Magalhães, cujo filho sucedeu nos direitos do descobrimento da Terra Nova, que em 1589 vendeu a D. Filipe I por 2.000 cruzados"

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Comentário-resposta de José Manuel Oliveira

Caro IRF, Canada foi uma próspera colónia portuguesa até D. Sebastião querer ser imperador e se ter virado para a porcaria da África, ou melhor, nisto já aqui por mim escrito:

O Continente Americano não esteve encoberto, foi "contido" para evitar o esvaziamento da Europa, e até que a saída marítima da armada do Islão do Mediterrâneo para o Atlântico fosse controlada pela cristandade, não foi permitida sua colonização.

Pode-se perguntar então porque não se colonizou antes do surgimento do Islão, a resposta seria longa e fora do assunto, mas o fator climático tem sido menosprezado pela historiografia, que não incorpora a Paleoclimatologia, Arqueologia e estudos das migrações pelo mapeamento do ADN das populações. O Gulf Stream no Atlântico Norte foi alterado várias vezes o que impediu viagens transatlânticas durante muito tempo, mas facilitou outras no Atlântico Sul.

Mas o que continua encoberto é o que motivou as viagens marítimas e expedições terrestres dos portugueses? Uns dizem que foi para expandir a cristandade, outros que foi por os lucros comerciais das especiarias, outros dizem que foi para encontrarem um Reino perdido, e aí aflora-se o encoberto que é a "Rota Marítima do Megalítico pelos portugueses nos Re descobrimentos".

Os portugueses procuravam, ou melhor os seus comanditários como o Infante D. Henrique e D. João II, que programaram a procura do que restou das civilizações depois da glaciação dá 12.000 anos, que sabiam serem mais avançadas que as deles medievais: "Sete Cidades", pois os portugueses deviam ter registos das suas localizações, porque num curto espaço de tempo foram a todas suas ruínas, e em todos os Continentes! Etiópia, Canárias, duas na Índia, uma no Tibete várias na América do Sul, foram os primeiros a oficialmente a contactar o Império Inca há documentos coevos sobre isto, no Vanuatu do Pacífico (Pedro Fernandes de Queirós) desembarcaram nas Ilhas artificiais Megalíticas do Pacifico! 
Deram o nome de "Ilha de Pescadores" onde estão os Megalíticos submersos da zona do Japão, até o Vasco da Gama com tanto sitio para desembarcar foi faze-lo na única zona da Índia que tem Megalíticos "Neolíticos" iguais as Antas portuguesas! E agora venho a saber dum Viçente Pegado que foi o primeiro europeu a relatar sobre o Império Monomotapa / "Grande Zimbabwe" que parece ser na origem uma civilização avançada megalítica! Não esquecendo o Brasil que por si é o berço da humanidade ou um dos Éden ainda encoberto pela vegetação, donde vão surgir do que dar um ataque cardíaco a muita gente do establishment.

Os portugueses da época dos descobrimentos visitaram todos os locais megalíticos, terão encontrado o que procuravam?

Cpts.

Onde ver mais das minhas “investigações”;
Recordo que o primeiro carteiro real da Nova - França era um português... Pedro da Silva e teve 14 filhos! terá o topónimo Fatima algo a ver com os portugueses? no meu blog

Portugal Cove-St. Philip's
é uma das mais antigas povoações do novo mundo. Supõe-se que terá sido fundada quando no século XVI Gaspar Corte-Real Mestre de uma embarcação de pesca, chegou às margens da região, para enterrar dois pescadores que haviam falecido na viagem desde Lisboa. Acredita-se então que desde essa data estes pescadores fundaram uma nova localidade, para servir de abrigo e apoio à pesca e secagem do Bacalhau que depois seria enviado para Portugal” in wiki

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