quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Véus (2)

Um dos principais problemas da humanidade, e que não vejo sinalizado em parte alguma, é o da posse de pessoas por ideias. Normalmente as pessoas vêem-se como proprietários de ideias e não se dão conta de como podem ficar escravas delas... ou pior, sabem disso, mas acham que a ideia vale a pena, e fazem sacrifícios por ela.

Há uma frase que tem sido repetida, atribuída a muitos, e que parece remeter-se a Sófocles:
- Pode-se matar um homem, mas não uma ideia.
Esta frase era-me simpática, revelando uma potência intemporal das ideias.
No entanto, este percurso que aqui fui fazendo, permitiu-me ser confrontado contra ideias que normalmente dava como boas, e não despendia tempo de reflexão com elas. Ora, uma das coisas que foi para mim clara desde o início é que não reivindicaria posse das muitas ideias que fui deixando, mantendo o estatuto de anonimato, para o melhor e para o pior. E se inicialmente isso teve razões mais estratégicas do que racionais, com o tempo apercebi-me de toda uma racionalidade subjacente - a relação de posse que se estabelece entre a pessoa e a ideia.

As pessoas julgam que beneficiam das suas convicções, e identificam-se com as ideias que adoptam.
A grande força disso é a partilha, o comungar da mesma ideia, como uma mais valia fraterna nas relações humanas.  
Esse processo levou à formação dos maiores monstros que acompanharam o Homem no domínio da Terra. Ao "Homem singular" sucedeu a par o "grupo de homens", um corpo normalmente formado por pastores e rebanhos, onde a cabeça está num pastor e o corpo é disperso pelo rebanho, não faltando, é claro, fiéis ajudantes caninos.
A estrutura imitou de tal maneira a formação de corpos biológicos, que as organizações adoptaram um mimetismo nas designações - "órgãos sociais", "corpos sociais", "membros", etc...

A sociedade apareceu assim com uma dupla faceta - o corpo social dava todas as vantagens de partilha de recursos, mas a estrutura de "grupo humano" passou a ser o maior predador contra o "homem individual".
Comparando o número de vítimas no confronto individual entre homens, com o número de vítimas resultante de acções de grupos humanos, sabemos que os monstros que dilaceraram milhões de vidas sem grande dano psicológico interno foram os "grupos humanos", um corpo em que a estrutura armada se apresenta normalmente na forma de exército. Quanto mais valor se dá à letra da lei, mais facilmente ficam essas estruturas desprovidas de humanidade, passando a funcionar como máquinas autónomas.

Esses exércitos movem-se de acordo com ideias, com pilares partilhados pelos vários membros, e para além dessas ideias usarem homens como rebanhos para a sua causa, têm pretensões de imortalidade. Assim, seja movidos por ideias religiosas, em nome de um deus, seja movidos por ideias de justiça, de verdade, de vingança, de família, de povo, de nação, de filosofia, ou quaisquer outras, criam-se dinâmicas de grupos, que não visam a eternidade do homem individual, mas sim do uso de homens em nome de ideias abstractas.
Curiosamente, os homens satisfazem-se nessa dinâmica de grupo, e aceitam bem o papel de verem o seu nome emparelhado com grandes ideias. O culto do indivíduo, enquanto promotor de ideias, foi bem patente durante a ascensão comunista, quando Lenine, Marx ou Mao serviam mesmo um corpo de ideias. O herói vivo pode ser um problema para a dinâmica de grupo, já que o indivíduo pode decepcionar a idealização que une o grupo em torno dele, mas o herói morto permitia toda a ambiguidade que satisfazia imprecisões, para os adeptos de uma certa continuidade ou de outra.

Por isso, se há ideia que tomo como boa, é a ideia de não ficar preso a nenhuma ideia. 
Adopto as ideias pela sua validade intemporal, em que não precisam de adeptos para se imporem. Não tenho nenhuma pretensão missionária, e não sirvo de corpo à disposição de nenhuma ideia. As boas ideias não precisam de mim para se imporem, mas não deixo de as acarinhar e admirar pela sua força abnegada natural. 
Sirvo essas ideias pelo simples facto de dizer, a quem quiser ouvir, que elas me servem, e porquê.
Não precisam de mais nada... se são boas, intemporais, não precisam que ninguém mude, porque quem não mudar, simplesmente está a lutar contra monstros eternos, de implantação global. Não se impõem antes de tempo, esperam que todas as idiotices façam o seu percurso suicida ou inconsequente, e aguardam que haja mentes capazes de as albergar. Essas ideias não fazem sentido antes do seu tempo próprio, que é o tempo de evolução individual de cada elemento em sociedade.

Assim, se há uma palavra que contém a principal ideia que me satisfaz, é compreensão.
Inicialmente podemos ser aliciados pela ideia de verdade, mas seria ilógico não compreender a falsidade, porque uma acompanhou a outra. Por que razão foi dado espaço de existência e tempo de proliferação às falsidades, a ponto de esconderem tanto a verdade passada? 

Portanto, estando aqui a transcrever um texto que faz uma feroz crítica à maçonaria, não é meu objectivo partilhar esse sentimento. Simplesmente deixo aqui o texto para que suscite uma compreensão da sua existência, olhando-o por uma perspectiva pretendida antagónica.

O autor do texto creio que procurava desmotivar os iniciados mações e os curiosos, naquela lógica do rebanho, em que um pastor procura evitar que ovelhas saiam do seu rebanho, indo na direcção do rebanho vizinho. A lógica de uma "vitória" pela imposição do número de adeptos, pela exibição do seu poder, ou das suas armas e tecnologia, foi simplesmente sobrevalorizada. Há um momento, em que tudo isso deixa simplesmente de ter mais sentido do que o de simples jogo inconsequente, e de mau gosto...

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O Véu Levantado ou o Maçonismo Desmascarado

CAPÍTULO I. 
Origem da Franc-Maçonaria, 

Os Pedreiros-Livres quanto maior mistério têm feito de sua origem, tanto mais se tem procurado descobri-la. Cada um tem pretendido ter a este respeito seu segredo, e contudo ele é conhecido de poucas pessoas. Todos os discursos que têm feito os Oradores nas lojas sobre a origem, e os progressos desta Arte Real da Maçonaria, ou não dizem nada, ou tendem só a desvairar os curiosos. 
Os livros impressos, assim em verso, como em prosa, substituem a Maçonaria Real à Maçonaria Moral e confundindo a origem de uma com a da outra, enganam continuamente os leitores pouco atentos. Os verdadeiros Mações, no sentido da Franc-Maçonaria, edificam templos para a virtude, e masmorras para os vícios; mas nunca levantaram algum monumento público; contudo, para darem um ar antigo, que lhes atraia respeitos, os Mações se associam a todos aqueles, que se distinguiram na antiguidade por alguma obra memorável, tais como Hiram, Adoniram, Solomão, Noé, Adão; alguns não temem elevar-se mesmo até Deus, e tomá-lo por Mestre da sua Arte, da qual ele deu lições formando a maravilhosa abóbada dos Céus. 

Eles não podiam ir buscar mais alto a sua origem, e se estivesse a seu alcance poderem dar-nos dela uma história seguida desde o principio do mundo até hoje, sem dúvida, que a sociedade dos Pedreiros-Livres seria o corpo mais respeitável, e mais nobre que tem havido no mundo; ao qual não seria possível recusar o primeiro lugar, nem contradizer suas máximas. 
Mas infelizmente não estão todos de acordo sobre uma tão bela origem, e por lisonjeira que ela seja para o corpo inteiro, e para cada individuo em particular, são obrigados, por falta de memórias autênticas, a aproximá-la aos nossos tempos, dos quais ela não está muito distante, se damos crédito à verdade da história. 

Alguns Pedreiros- Livres pretendem fixar seus primeiros princípios nos tempos das Cruzadas, quando os Europeus reedificaram as Cidades, que eles mesmos, ou os Sarracenos tinham destruído. Mas por total resposta podemos lembrar a estes senhores que, por sua própria confissão, a palavra Pedreiro não deve tomar-se no seu sentido próprio, mas em um sentido simbólico e figurado, e por conseguinte com significação inteiramente diferente daquela, que eles querem ligar-lhe. Além disso, como provarão eles, que a sociedade dos Pedreiros de que são membros, é quem reedificou as cidades da Palestina? quem lhes transmitiu as memórias sobre que estão apoiadas suas pretensões? Em parte nenhuma da história vemos, que os Pedreiros-Livres de hoje tenham empreendido um trabalho tão útil, como glorioso. 

É verdade que os Pedreiros-Livres de Inglaterra datam sua origem do ano 924, e por conseguinte de um tempo anterior ao das Cruzadas, de que ainda se não tratava; mas isto acaso prova que a sociedade dos Pedreiros- Livres existisse nesta época? 
Não sem dúvida; porque então seguir-se-ia, que aquela sociedade teria tomado sua origem na França, sendo certo que os mesmos Franceses convém que ela começou em Inglaterra. 

Os Pedreiros que Adelstan, filho do grande Alfredo mandou vir da França para Inglaterra, não eram com efeito Pedreiros-Livres, mas simples arquitectos, e oficiais de pedreiro, dos quais ele formou um corpo, a que deu Estatutos, e destinou lugares para suas assembleias. 

É verdade que os Pedreiros-Livres de Inglaterra se formaram ad instar dos pedreiros daquele reino; que eles se deram, ou elegeram Guardiães e Aprendizes, Serventes, Mesters, Companheiros, Arquitectos, que eles indicaram assembleias; que se formaram em associações; que eles se ligaram por meio de juramentos: mas são eles por isso Pedreiros-Livres? 
Não; eles não são mais que uns macacos, que os imitam; e a semelhança de suas corporações não prova de modo algum a semelhança de sua origem. 

Mas poder-se-à dizer: eles têm, como os Pedreiros-Livres aventais, esquadrias, prumos, estampas de desenho, martelos, trolhas, e compassos; isto é verdade; mas os pedreiros levantam edifícios, e templos à imitação dos cidadãos: pelo contrário os Pedreiros-Livres só os querem derrubar, e destruir. Se dizem que se ocupam em levantar templos à virtude, e fazer masmorras para os vícios, tudo isto deve entender-se em um sentido moral: e não quer dizer outra cousa, senão que os Pedreiros-Livres se lisonjeiam de estabelecer a virtude sobre as ruínas do vicio. Eles não são por conseguinte Pedreiros propriamente ditos, segundo o sentido natural do nome, que eles se atribuem. Mas não é aqui a ocasião de examinar, se os Pedreiros- Livres tem por objecto fazer os homens mais virtuosos; nós reservamos este exame para outro lugar. 
Alguns daqueles que sustentam que a sociedade Pedreiral teve seu nascimento em Inglaterra, não remontam mais alto que até Cromwel; e o Autor do livro intitulado «Os Pedreiros Livres esmagados» ou a«Ordem dos Pedreiros-Livres traída» é deste sentimento. 
«O seu fim, diz ele, era edificar um novo edifício, isto é reformar o género humano, exterminando os Reis, e os poderosos, de que aquele usurpador era flagelo. Ora, para este dar a seus partidistas uma ideia sensível dos desígnios deles, lhes propôs o restabelecimento do Templo de Salomão.
Este Templo tinha sido edificado pela ordem, que Deus fez intimar a este Príncipe, Era o santuário da Religião, era o lugar especialmente consagrado a estas augustas cerimónias; era para esplendor deste Templo que aquele sábio Monarca tinha estabelecido tantos ministros encarregados do asseio, e embelecimento dele. Em fim, depois de muitos anos de glória e magnificência, vem um exército formidável, que arrasa este ilustre monumento. O povo que nele rendia suas homenagens à Divindade, é carregado de ferros, e conduzido à Babilónia, donde, depois do cativeiro mais rigoroso, se vê retirado pela mão de seu Deus. Um Príncipe idólatra, escolhido para ser o instrumento da clemência divina, permite a este povo desgraçado não reedificar o Templo no seu primeiro esplendor, mas também aproveitar-se dos meios, que ele lhe fornece, para o bom sucesso da obra.
Ora, é debaixo desta alegoria que os Pedreiros-Livres encontram a exacta semelhança de sua sociedade. Este Templo, dizem eles, considerado em seu primeiro lustre, é a figura do estado primitivo do homem ao sair do nada, Esta religião, estas cerimónias, que nela se praticavam, não são outra cousa, senão aquela lei comum, que está gravada em todos os corações, e acham o seu principio nas ideias de equidade, e de caridade, a que os homens estão obrigados entre si. A destruição deste Templo, e a escravidão daqueles adoradores, são o orgulho e a ambição que introduziram a dependência entre os homens. Os Assírios, aquele exército bárbaro e cruel, são os Reis, os Príncipes, os Magistrados , cujo poder tem feito encurvar tantos desgraçados, que eles tem oprimido: em fim, aquele povo escolhido, encarregado de reedificar aquele Templo magnífico, são os Pedreiros- Livres que devem restituir ao Universo a sua primeira beleza. 
Estou bem persuadido que os Pedreiros-Livres têm podido discorrer desta maneira, e ainda com maior extravagância; porque se julgam feitos para reformar o género humano: mas eu não convirei tao facilmente que a Seita dos Pedreiros-Livres deve sua origem a Cromwel, nem que este grande protector da Inglaterra tivesse o projecto de fundar uma nova Religião, e fazer-se seu chefe. Os que melhor o tem conhecido nunca lhe atribuíram tais sentimentos. Politico profundo, limitou sua ambição a usar bem da autoridade, e do poder, que tinha sabido reunir em sua pessoa. Pareceu zombar da religião pela destreza, com que fez mover, segundo suas vistas, os diferentes sectários que então dividiam a Inglaterra por meio de suas opiniões. Nunca adoptou alguma delas por gosto nem de boa fé, e é uma injustiça imputar-se-lhe o ter querido formar um sistema de irreligião, ou traçar o plano dos Pedreiros-Livres.

Podemos assegurar que bem longe de ser certo que Cromwel quisesse fundar a sociedade Maçónica está demonstrado que não é na Inglaterra que ela teve seu nascimento. Os que tem discorrido mais justamente sobre sua origem a fazem vir do Norte. Com efeito dos países Setentrionais é que ela passou para o meio dia, e que se espalhou depois por todos os países do mundo habitado.

(continua)
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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Véus

Nalguns textos seguintes irei transcrever uma obra sobre a maçonaria que apareceu em 1822, ou seja em plena época das lutas liberais.
Não me interessa especialmente o caso da maçonaria, interessa-me mais enquanto forma mais visível de estabelecimento de algum controlo ou poder global.

O dominó
O jogo do dominó sempre me pareceu pouco interessante, mas começa por ter o interesse no seu nome, cujo acento no "ó" serve apenas um mero disfarce. Da mesma forma é menos interessante a alegoria das peças de dominó que caiem umas após as outras, tocando na inicial. O jogo do dominó não consiste nisso, isso é apenas um subproduto do que se faz com as peças de dominó.
O seu nome na tradução literal deveria ser domínio.

Uma página sobre a etimologia da palavra dominó dá-nos uma pista interessante:
from French domino (1771), perhaps (on comparison of the black tiles of the game) from the meaning "hood with a cloak worn by canons or priests" (1690s), from Latin dominus "lord, master" (see domain), but the connection is not clear. Klein thinks it might be directly from dominus, "because he who has first disposed his pieces becomes 'the master.' " Metaphoric use in geopolitics is from April 1954, first used by U.S. President Eisenhower in a "New York Times" piece, in reference to what happens when you set up a row of dominos and knock the first one down.
A referência sublinhada é de Ernest Klein (A Comprehensive Etymological Dictionary of the English Language. Elsevier, 1971), e a menção é importante.
Com efeito, quem primeiro conseguiu colocar todas as suas peças no jogo, encaixando nas peças dos outros, tornou-se senhor do tabuleiro.

Do registo histórico que nos foi instruído, vemos poucas ocasiões em que houve um poder que se conseguiu encaixar nas peças adversárias, passando a senhorear todos os acontecimentos como peças num jogo.

Um poder com registo de aspirações globais terá sido o do Império Romano, e forma como emerge é quase tão enigmática como quando submerge numa "invasão bárbara". Não vou antes na história, ao poder egípcio ou mesopotâmico, porque os registos são ainda mais vagos. No entanto, é na tradição judaica da aliança fenícia entre Salomão e Hirão, que a maçonaria vai colocar as suas pedras fundacionais, buscando uma tradição dos cavaleiros do Templo de Salomão, os Templários.

Em vários momentos poderiam ter sido evitadas as invasões bárbaras que levaram ao sucumbir da estrutura de poder dos Romanos. Acresce que só a parte ocidental do império sucumbiu, e se tivesse havido qualquer vontade de Roma restaurar o velho império, bastaria conjugar esforços com os exércitos de Constantinopla.
Roma quis cair propositadamente, e não quis voltar a reunir a parte ocidental com a oriental.
Os cristãos foram acusados de terem levado à ruína romana, e Santo Agostinho, ao tentar contestar esta tese propalada no seu tempo, dá-lhe sentido. 
Santo Agostinho morrerá mesmo no cerco de Hipona, enquanto o Conde Bonifácio e Flávio Aécio disputavam o poder de Roma, trocando favores da imperatriz regente Gala Placídia, ao mesmo tempo que convocavam para as suas causas os exércitos de vândalos (Bonifácio) ou de hunos (Aécio).

Há vários indícios que apontam para uma propositada mudança de sociedade, tendo em vista o modelo cristão medieval que iria permanecer durante um milénio. Roma iria subsistir como capital do mundo ocidental, com exércitos de bispos e padres, conselheiros imprescindíveis dos monarcas bárbaros. A população via arruinada a vida nas antigas cidades romanas, que caíram sem comércio numa rápida degradação. Restava à população o regresso à vida campesina, em terras que não eram suas, e onde trabalhariam como servos... numa versão em que a escravatura era imposta pela fome e não pela espada. 
O processo não foi imediato, teve a idealização e construção de um inimigo sarraceno, que concentrou as preocupações de Constantinopla a oriente... após Justiniano não mais os imperadores bizantinos ousaram grandes incursões a ocidente.
A situação é de tal forma caricata que quando Constantino estabeleceu o cristianismo como religião oficial romana, a escolha de Bizâncio para nova capital faz tanto sentido, quanto não ter optado pela escolha natural que seria... Jerusalém!
As duas formas de cristianismo - católico e ortodoxo, resultaram exclusivamente desses dois focos de poder terem por base a divisão do império entre ocidente (Roma) e oriente (Constantinopla).

A imposição do modelo medieval no seu esplendor só foi conseguida com Carlos Magno, ou seja, praticamente 4 séculos depois do início da sua idealização. Só a partir daí se consolidou o processo de apagamento da memória, da conversão de todas as tradições e registos pagãos, fechando a Europa num esquema de reis e príncipes dependentes da obediência directa a Roma. 
Toda a documentação oficial continuava a ser escrita em latim, como se fosse essa a língua de Cristo... enquanto o latim desaparecia por completo da fala e dos ouvidos, mesmo em Roma - não sendo de forma alguma banido, quando até as missas eram recitadas em latim.
O único registo algo singular era o da corte inglesa, normanda, que usava o francês, preservando a sua raiz recente, e esquecendo a sua origem normanda... de paragens vikings. Os restantes regentes bárbaros usavam a língua das populações - que não se tinha perdido, nem durante o domínio romano.

Este poder romano só começou a ter real contestação após as Cruzadas. O mundo medieval que se fechara na Europa ocidental, voltaria a abrir-se, em especial com a inclusão dos escandinavos, dos vikings, como reinos cristãos.
A aniquilação dos cátaros, e a extinção formal dos Templários, foram alguns dos exemplos de como se iria preparar uma mudança de mentalidades na Europa, liderada nos bastidores pela comunidade judaica. Pouco a pouco, o comércio voltou a ganhar importância, e cada vez mais no final da época medieval. Seria através do poder do dinheiro, enquanto sangue do comércio, que se iria processar a grande mudança que levaria ao fim da Idade Média. A existência de papas e anti-papas, especialmente com os papas de Avinhão, começou a colocar em causa a ordem de Roma.
Foi após a instabilidade dos antipapas, que surgiram sucessivamente autorizações papais para "descobrir", e a Europa fechada nos campos, começou a reviver o comércio nas cidades, abrindo-se ao mundo. 
O ponto final que selou a mudança do poder de Roma deu-se com a contestação luterana, e a contra-reforma católica, que terminou com a derrota do poder papal na Guerra dos Trinta Anos.
É a partir daí que se começa a definir uma nova ordem mundial, pelos tratados entre nações, sem intermediação papal. O novo poder complexifica-se com o comércio liderado pelas Companhias das Índias, e o modelo de sociedade medieval representado por D. Quixote, depressa desaparecerá. 
Passado o milénio medieval, o comércio irá impor-se de novo, e as grandes cidades vão retomar o esplendor passado.
É neste contexto pós-Guerra dos Trinta Anos, quando o poder papal está em declínio, mas não perdeu o seu dominó, que a maçonaria irá definir-se numa forma de religião alternativa, com os seus próprios segredos, contestando o poder aristocrático. 
O aparente vazio de poder global, concentrado durante quase dois milénios em Roma, irá estabelecer-se na Grande Loja Maçónica de Londres, numa altura em que a nossa princesa D. Catarina é prometida para o restauro do poder monárquico inglês de Charles II, finda a experiência de Cromwell.

Segue a introdução da obra que irei transcrever.


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O Véu Levantado ou o Maçonismo Desmascarado,

isto é
o ímpio e execrando sistema dos Pedreiros-Livres
conspirados contra a Religião Católica e contra o trono dos soberanos.


Obra traduzida do Francês para instrução dos Portugueses: acrescida com um Apêndice que contém os sinais e senhas dos Pedreiros-Livres, e a constituição Maçónica em Portugal.


Impressão Liberal

LISBOA,
ANNO 1822
Rua Formosa Nº42.

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INTRODUÇÃO


Ainda que muitos Autores têm tentado dar-nos uma história da Franc-maçonaria, podemos dizer que ninguém até agora nos tem instruído perfeitamente do verdadeiro estado desta execranda sociedade.


Tudo é mistério, tudo emblema e segredo desta Arte Real e o verdadeiro segredo escapa no meio dos segredos simulados de que se acham envolvidas todas as suas ridículas cerimónias. Há poucos mações em estado de descobrirem nelas a verdade, ainda que se lhes assegure que só se acha na loja e que está escondida aos olhos dos profanos. Com tudo uma vez que hoje, mais que nunca, é interessante aos mações e aos que o não são, mas que infelizmente o podem vir a ser, o saberem em que consiste esta Ordem, e o fim para que ela foi estabelecida, nós vamos examinar o mistério de sua origem, de suas cerimónias, o seu fim, e as obrigações que contraem os que nela entram; da união destas coisas é que nós esperamos fazer sair uma grande luz, mais interessante, e mais luminosa do que aquela que brilha aos olhos pasmados de um jovem mação. Uma só toca e deslumbra os olhos de seu corpo; a outra pelo contrário ilustrará sua alma, e lhe descobrirá um projecto sinistro, e a consumação da iniquidade a mais condenável em seus ímpios projectos e a mais perigosa, que até hoje se tem manifestado ao mundo desde a origem do Cristianismo.


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sábado, 5 de dezembro de 2015

Spes mea in uno

Sempre que nos propomos a fazer algo, temos que ter consciência do erro associado. 
Ou incorporamos esse erro como matéria presente na estrutura que apresentamos, ou estamos a entrar numa ilusão. É possível disfarçar o erro, fazendo passá-lo por propositado... Quanto menos literal, ou menos objectivo, for um texto que escrevemos, mais fácil será iludir erros como propósitos. Acresce que, de forma algo surpreendente, os erros tendem a acomodar-se numa complexificação, podendo levar outros a pensar que não é erro, é conhecimento mais profundo que não alcançam! Muito depende do crédito acumulado, e da disposição para alimentar farsas convenientes, coisa frequente na retórica política.

Num texto com mais de 5 anos, denominado Magos, apresentei uma imagem que disse ser do "Livro dos 3 Místicos"... e não o referi como "Livro 3 dos Místicos". Ora, há uma diferença entre uma coisa e outra! O texto tinha ali o propósito de ler "3 místicos" como 3 reis magos, e portanto para um conhecedor poderia ser uma barbaridade confundir isso com o terceiro livro de "místicos"... palavra que no contexto significaria terceiro livro de "miscelâneas" ou "misto"!
Nada mais simples do que dizer que "sabia disso", e que a associação era propositada para forçar a ligação aos três reis magos. Porque, ainda que a palavra "místico" tenha ali o significado de "miscelânea", também não perde o significado de misticismo, ilustrado pelas iluminuras.
Nada mais simples, mas longe da verdade, porque desconhecia esse significado da palavra "místico" para se associar a uma mistura... e nem encontro tal raiz num dicionário etimológico - nem pela via de místico (mysticus), nem de misto, mistura (mixtus, miscere) ou miscelânea (miscella, miscere), ou mesmo em mistério (mysterium). Depois, faz sentido... a mistura é confusão, que nos traz muito do que é misticismo. A raiz comum na palavra não aparenta sair do latim, e este duplo significado associando mistério a misto, parece ser exclusividade nacional de origem primeva.

Quanto ao Livro 3 de Místicos, parece assim ter muito pouco de místico, e ser muito mais de misto, numa mistura de registos de doações feitas a D. Afonso de Bragança. Portanto, foi claramente um erro da minha parte ao forçar uma eventual associação a magos, ou a três reis magos. De qualquer forma, esse erro de título em nada afectou o texto... que por virtude de falar na Fortaleza dos Reis Magos na cidade brasileira de Natal, se tornou no texto mais visitado (provavelmente por culpa duma má indexação da pesquisa Google à época). A designação oficial para este livro é: Terceiro dos místicos. Leitura del Rey Dom Eduarte e del Rey Dom Afonso o Quinto e del Rey Dom Joham segundo.

Há 6 livros de "Místicos", aparentemente pouco interessantes, e que fazem parte duma compilação maior, denominada "Leitura Nova", que foi feita à época de D. Manuel e depois D. João III. Uma boa parte desses livros têm iluminuras muito interessantes, e pouco conhecidas.
No Livro 2 dos Padroados podemos ver uma iluminara também com duas esferas armilares, mas dizendo agora:

SPES MEA IN UNO


Essa inscrição em latim é pouco frequente, quando comparada com outra muitíssimo semelhante:
 "Spes mea in Deo est", 
que consta como divisa do 32º grau da maçonaria, significando "a minha esperança está em Deus".
Aqui, a referência "Spes mea in uno" poderá significar "a minha esperança no uno...", referindo-se talvez à unidade da Santíssima Trindade.

Entretanto, encontrei um interessante livro de 1822:
que servirá num próximo texto para mostrar uma certa ligação entre lemas já existentes, e lemas depois adoptados pela maçonaria, quando esta foi formalizada como tal.


Aditamento (06/12/2015):
Por lapso, esqueci-me de incluir o principal propósito deste texto que seria comentar a menção no Livro 2 dos Místicos sobre uma doação ao Infante D. Fernando, irmão de D. Afonso V, tio de D. João II, e pai de D. Manuel. Logo no início pode ler-se

Ao Infante Dom Fernando, doação das doze Ilhas S(sul) da Ilha de Santiago, 
e da outra de São Filipe e da Ilha das Mayas e outras...

Excerto do Livro 2 de Místicos de 1511
(antiga doação ao Infante D. Fernando, Duque de Viseu)
A única questão a este propósito tem a ver com o número e o nome das ilhas.
A referência a 12 ilhas a sul da ilha de Santiago, é no mínimo "mística"...

Se quisermos alinhar numa versão politicamente correcta desta doação, as ilhas mencionadas seriam as do arquipélago de Cabo Verde - a de Santiago, a do Maio, e a do Fogo, entendendo que Mayas se referia à do Maio, e que a de São Filipe seria a do Fogo. Mas, a observação é que o arquipélago de Cabo Verde tem na conta 10 ilhas, e a de Santiago é uma das que está mais a sul... não fazendo por isso nenhum sentido falar em 12 ilhas a sul, muito menos numa transcrição feita em 1511.

Portanto, o que temos aqui é um registo anacrónico, correspondente a outras paragens.
A ilha das Maias era uma das ilhas míticas que apareciam nos mapas, associada a paragens das Antilhas, ou Caraíbas, junto a paragens mexicanas dos Maias. Até porque o nome "ilha do Fogo" estava presente desde o mapa de Reinel de 1485, e não fazia chamar-lhe "São Filipe"... e ainda nesse contexto, o nome de "ilha de Santiago" seria colocado em paragens não caboverdianas.

O registo no livro 2 dos Místicos continua com atribuição ao Infante D. Fernando (pela parte de D. Afonso V, certamente), de uma ilha que "Gonçalo Fernandes houve vista vindo das pescarias do Rio do Ouro", bem como das ilhas de Jesus Cristo e da Graciosa, normalmente ligadas aos Açores (a ilha de Jesus Cristo seria a ilha Terceira).

Portanto, o que vemos aqui é uma das várias ocasiões onde podemos encontrar manifestas inconsistências com o registo oficializado dos descobrimentos.
Convém dizer que há pouca documentação interna que fale dos descobrimentos.
A passagem de D. João II para D. Manuel foi uma ocasião de desaparecimento completo de documentação, só ao nível do que depois seria o desaparecimento por ocasião do abalo de 1755. Os cronistas como João de Barros ou Damião de Góis queixavam-se do desaparecimento ainda no seu tempo.
Assim, quando se fala em "Leitura Nova" para esta documentação de D. Manuel, estamos ao nível de uma "revolução cultural" que eliminou vestígios do passado nacional (uma das coisas notadas é que o registo de doações ignora as iniciais feitas no Brasil).

Portanto, o que ocorre aqui parece ser um acto singular, porque tendo que suprimir viagens a paragens americanas, anteriores ao Tratado de Tordesilhas, o rei D. Manuel não quis apagar do registo as doações que tinham sido feitas a seu pai, ao infante D. Fernando, e foi este registo que parece que ficou, disfarçado com mudanças de nomes em ilhas caboverdianas. Ou seja, o que parece claro é que D. Afonso V tinha já feito doações ao seu irmão, em paragens americanas, ou pelo menos incertas...


domingo, 29 de novembro de 2015

Climas do Atlas Miller

De entre os mapas do Atlas Miller, as duas folhas que seriam destinadas ao Oceano Pacífico (mas que são entendidas referir-se à Baía de Bengala, o que é algo ridículo por não coincidir com outro mapa que tem a Baía de Bengala), estavam decoradas de forma fantástica, com um grifo de um lado, um dragão do outro, várias cidades, um contorno de costa completamente irreal, uma embarcação com a cruz de Cristo, e várias outras com o crescente islâmico.

Um dos mapas no Atlas Miller (1519), de Pedro Reinel, Jorge Reinel, ou Lopo Homem.
Às inscrições de cidades cujas letras se podem entender como Maniole, Candiu, Ardua, Xiaz Regio, Meceazes, Cundala Regio, Macaela, Cobari, Zacata, Gala Regio, Corinta, Molor Regio, Bei Regio, referindo-se certamente a locais de mapas ptolomaicos, que não interessa aqui recuperar exactamente, juntam-se outras igualmente estranhas de rios. Uns desapareceram de menção, outros ganharam forma posterior aproveitando a nomenclatura antiga. Aproximadamente esses nomes são Soba, Catabeda, Tocosanus, Sadus, Temala, Phasius, Arabs, In, Palanda, Chriso, Saenus, Vindius, Chaberus, Soana, Tynu, CanaPor exemplo, o rio Chaberus era associado ao Ganges, e outras associações podem ser vistas em bibliografia adequada, como o Dicionário de Geografia Grega e Romana, de William Smith

Notavam-se ainda possessões com a bandeira portuguesa, numas ilhas ou arquipélagos de nomes perdidos Parloco, Mocalor e Batuca (há uma referência a este assunto num texto de L. F. Thomaz de 1995 - The Image of the Archipelago...) Uma outra bandeira estava ligada aos "Chiis" (chineses, à época denominados "chins" - talvez se devendo ler "quins").

Bom, não é bem o tema do Atlas Miller, que foi da atenção cuidada de Alfredo Pinheiro Marques, conforme mencionei antes, que me traz directamente a este texto.

Na altura (há seis anos) achei curiosa a forma da escrita, separando de forma algo exótica as palavras, e num caso pode ler-se apenas LIMA PR  IM  V. Rapidamente percebi que se tratava de CLIMA PRIMUM, o primeiro clima, acima do Equador... mas o "C" estava ausente, a menos que fosse entendido como o "C" do crescente azul. E isto era curioso, porque me pareceu que o nome da cidade Lima no Perú pudesse resultar duma confusão num mapa enigmático deste género, suprimindo o "C" em "CLIMA". A história toponímica contada para Lima é completamente diferente, mas também esquece que os mapas portugueses de João de Lisboa atestam uma história muito distinta para a colonização. 

Claro que esta mudança de Clima para Lima é quase tão especulativa quanto as mudanças de clima que se inventam nos dias que correm, mas não tão mal fundamentada.

Agora, o que interessa mesmo é que há uns minutos fiz uma pesquisa para um dos rios que se encontrava no Atlas Miller. Procurei "Palanda" e ao fim de algumas tentativas fui-me deparar com esta proeza geológica nos Andes, resultante certamente de muitas alterações de clima.

O sagrado monte Mandango - "the sleeping Inca guards over Vilcabamba" (Equador).

Portanto, existe mesmo um rio Palanda no Perú-Equador, cujo nome passa a rio Maya-Chinchipe, saindo das vizinhanças de Lima vai parar a um dos afluentes do Amazonas, o rio Marañon.

A formação geológica, o Mandango, com ângulos bem cortados, coloca em dúvida sobre se será completamente natural, apresentando ainda cumes algo piramidais. Parece pouco conhecido, quando comparado com outras atracções locais (há uma outra Vilcabamba no Perú que foi uma das cidades perdidas de Manco Tupac, mas muito menos conhecida que Machu-Pichu).

sábado, 21 de novembro de 2015

Seguindo os pés de Barros (4)

Finalizando a transcrição das origens toponímicas segundo João de Barros:
continuamos de S, terminando em Z.

Optei por não fazer comentários, sob pena de não terminar esta transcrição... onde procurei minimizar erros de interpretação do texto, sendo também para mim claro que Barros comete vários erros, mas não se parece incomodar demasiado com isso. Há sempre duas posturas - as dos que nada fazem, e por isso limitam-se a criticar o que é feito, e os que procuram fazer alguma coisa, sabendo-se sujeitos às falhas de ignorância própria e sobretudo alheia.

Deixo apenas o exemplo de Vila Real, supostamente associada ao santuário de Panóias, algo que João de Barros esclarece, por ter tido acesso ao foral de D. Dinis, que fundará a cidade.

É suposto encontrarem-se inscrições em latim em Panóias, num sítio antes chamado Valnogeiros... porém Barros é claro sobre o assunto:
« (...) aí estão em pedra letras antiquíssimas, antes dos Romanos, que se não podem ler.»

Ora, conforme se pode ver há em Panóias muitas letras latinas que se identificam bem, e até remetem a um certo Calpurnius Rufinus como autor do texto em latim. Segundo a Wikipedia terá havido um pequeno problema com as inscrições no Séc. XIX (e Barros, não podia prever que passariam a ser legíveis passados 3 séculos). Por isso, houve quem tivesse esculpido o restauro... diz-se que apenas numa das inscrições, mas os novos escultores não contariam com este manuscrito, não publicado, de João de Barros. 

Ou seja, o que se poderá ler hoje em Panóias será provavelmente uma falsificação do Séc. XIX, esculpida por cima do que estava escrito antes (e que "não se conseguia ler" - segundo Barros), simulando assim um texto conveniente em latim. Dessa maneira poderia-se remeter a inscrição para tempos romanos, e não anteriores. Calpurnius há muitos, Rufinus menos, talvez o mais conhecido seja o tradutor Tirano Rufino.

Portanto, João de Barros neste, e noutros pequenos apontamentos, mostra como se tem caminhado com pés de barro na propositada negação ou destruição do património nacional.
Haverá desculpas?... Há sempre! A retórica serve a confusão, e quando não há escapatória, passa a afirmar-se um propósito secreto ou místico, para iludir como controlo superior o que foi afinal um simples e mero descuido. 

___________________

S
Sancta Maria del Puerto - vila do Reino de Galliza chamava-se Iria Flavia como diz Volaterrano e Siculo.

Silves - cidade do Reyno do Algarve, parece que lhe chama Ptolomeo Ossonoba.

Salamanca - cidade conhecida, alguns querem dizer que se chamava Sentica, mas Ptolomeo chama-lhe Salmantica e Sentica é Ledesma.

Segovia - cidade no Reyno de Lião, chamavam.lhe Serguntia, ou Secobriga como diz Volaterrano. Antonino a chama Secovia.

Serra Morena - chamava-se Mons Marianus, e Saltus Castalonencis [Castulonencis]

Simancas - chamava-lhe o Itinerário Septimanca.

Sevilha - chamava-se Hispalis do nome do Rey Hispalo que afundou [a fundou]. E os mouros lhe puseram o nome Sevilha, os quais a tiveram por muito tempo, até que lha tomou El Rey D. Fernando, chamado o Sancto.

Soria - cidade na província Terraconense se chamava Numantia como diz Fr. Antonio Venero [Alonso Venero] no Enchiridion fol.42 

Segura - vila na mesma parte chamava-se Guadamor como diz Annio.

Santiago de Galliza - cidade muito conhecida chamava-se antes Compostela quasi te??res Composita, porque despois ali achou o corpo do glorioso apóstolo Sanctiago se fez aquela povoação, que então era piquena e lhe chamaram assi, mas Volaterrano diz que está onde se chamava Flavium Brigentium, e tudo pode ser.

Segre - rio. Chamava-se Sicoris.

Setubel [Setúbal] - vila da Lusitania, diz Anio de temporibus cap. 4º, que foi edificada por Tubal neto de Noé, primeiro Rey de Espanha e dele tem o nome.

Santarem - vila na Lusitania conhecida, tem este nome pouco há desde que a tomámos aos Mouros haverá 400 anos. E dizem que se lhe pôs de Sancta Eiria que aí jaz. E os Mouros lhe chamaram Quibir Castro, que quis dizer Castelo Grande onde eles muito tempo moraram. Os Romanos lhe chamavam Scalabis segundo diz o Itinerário Imo [Ilustríssimo ?]. E antes que fosse tomada aos Mouros se chamava Sanctarem porque Sancta Eiria foi muito antes que os Mouros tomacem [tomassem]  Espanha, dequem o lugar tomou o nome. Aly Julium Praesidium.

Sintra - vila conhecida, seis léguas de Lisboa pelo norte está onde Ptolomeu chama Monte da Lua.

Salobrenha - chamava-se Salobrina, segundo Annio.

T
Tunes - cidade de África a que os Mouros puseram este nome, chamava-se Cartago, Ptolomeo diz que antes disto se chamou Adrumetum [Hadrumetum].

Tarifa - vila na Baetica, uns dizem que se chamava Carteia, outros Barbisola, e Lucio lhe chama Belon. Ptolomeo parece que lhe chama [...] .

Tejo - rio de Lusitania, chamou-se Tagus do nome de um rei muito antigo de Espanha, mas segundo Barroso se chamava Orma, Tagorma.

Tui - cidade de Galliza, junto do Minho, chamavam-lhe Tude e os moradores Tudenses, Imo Tyde [Ilustríssimo Tyde ?] a Tydeo Diomedes e assim se escreve nos livros antigos.

Talaveira  [Talavera ?]- chamava-se Talabrica, assim como Lacobriga, Mirobriga  [ ... ??? ]

Torrijos - vila na Lusitania, diz Siculo que se chamava Turris Julia.

Tortosa - chamava-se Dertosa.

Tangere [Tanger] - cidade em África no Reino de Marrocos, diz Antonio de Nebrija, que se chamava Tigis, e outros dizem Tagosta, mas esta é Targa, pátria Augustini, porem o mais certo é que se chama Hippona do que S. Agostinho se chamou Bispo Hipponen.

Tarragona - diz Annio que Tubal neto de Noé que foi o primeiro rei de Espanha lhe pôs este nome, por ser província de muito gado e que os    chamam ao ajuntamento de gado Tarracona.

Toledo - cidade chamava-se Toletum, e tão bem Carpetana, et Carpetani Populi assim o diz Antonio de Nebrija.

Traslos montes [Trás os Montes] - comarca, não sei qula foi o primeiro que lhe pôs este nome, parece moderno porque está na parte de Galliza, e chama-se assim porque está acima dos Montes do Marão, e Gires [Gerês] que partem esta comarca dantre Douro e Minho.

Trusilho [Trujillo] - vila de Castella, Turris Julia.

Tordesilhas - vila chama-lhe o Siculo Turris Silana.

Touro [Toro]- cidade chamava-se Sarabis como diz Antonio Venero [Alonso Venero ?].

Tamega - rio dantre Douro e Minho, chamavam-lhe antigamente Tamaca, aos do redores Tamacanos.

Tentuguil [Tentugal] - segundo quer o Itinerário chamava-se Eminio porque está dez mil passos de Cuimbra, como ele diz, e por ali caminhavam de Cuimbra para o Porto.

Torres Vedras - vila na Lusitania, quer dizer velhas a diferença de novas, porque os godos chamavam por velho vetro, assim como Ponte Vedra, Monvedro, alguns querem dizer que se chamava Turduli veteres, porque a província aonde está assim se chamava, como diz Ptolomeo, e Plinio, e Strabo, o selo que esta vila tem diz Sigilum oppidi de Turribus Veteribus["Selo da cidade de Torres Velhas"]

U (V)
Ubeda - vila na Espanha Tarraconense. Antonio de Nebrija cuida ser Almeria, o que não parece porque Volaterrano lhe chama Abdera e Siculo diz que parece aquilo a que César nos Comentários chama Ulla.

Verga - chamava-se Brigetium

Urgel - em Aragão, diz Volaterrano que se chamava Urecsa, mas Siculo lhe chama Ilergetum.

Vouga - rio da Lusitania, chamava-lhe Ptolomeo Vaccus, ou Vagus

Vilebe - em Catalunia chamava-se Vicus Aquarius.

Vaena [Baena]  - cidade na Baetica chamava-se Julia Regia, como dizem Siculo, e Volaterrano. e o que viram aí em pedras antigas escritas.

Valhedollid [Valhadolide] - todos concordam que se chamava Pincia. Vallis oletana a Junioribus dici solet.

Vila Nova de Cerveira - junto ao Minho ao sul, chamavam-lhe Cervaria.

Viseu - chamava-se Visontium na Lusitania. Volaterrano.

Viscaia [Biscaia] - (olim) Celtiberia, Viscainha: Celtiber.

Viana - vila de Portugal na foz do Lima, parece que lhe chama o Itinerário Salaniana, mas Florião do Campo não lhe muda o nome em estoutra história verisimil [verosímil], dizendo que a edificaram os Franceses de Viana de França.

Villa Real - em Portugal é nome moderno que lhe pôs El Rei D. Dinis que a fundou entre dois rios e por isso dizem alguns que se há-de chamar Rial, mas eu vi o foral de sua fundação que lhe chama Villa Real, sabia-se. Chamar aquela terra Panoias de umas antigualhas que estão dali uma légua onde chamam Valnogeiros, e aí estão em pedra letras antiquíssimas, antes dos Romanos, que se não podem ler. 

Valensa [Valença] - retém o seu nome antigo, e é edifício dos Gallos que a edificaram â imitação de Valença de França, como Diana e Baiona.

X
Xires dilla fronteira [Xerez de la Frontera]  - se chamou Munda. Siculo.

Xativa - no Reino de Aragão, se chamava Setabis, como diz Annio.

Z
Zamor - cidade de África, chamava-se Assamor como diz Florião do Campo,.

domingo, 8 de novembro de 2015

Seguindo os pés de Barros (3)

Continuamos a sequência de origens toponímicas feita por João de Barros:

agora segue da letra M até R (apenas com uma entrada nessa letra).
___________________

M
Minho - rio mui conhecido que parte agora o Reino da Galliza do de Portugal, chamão-lhe todos Minius.

Mértola - vila de Lusitania, chamou-se Julia Mirtilis.

Mondego - rio que passa por Cuimbra, todos lhe chamam Munda, mete-se no mar em Buarcos. Junto deste rio havia uma cidade chamada Munda, que não sabemos hoje onde é. Strabo [Estrabão] no livro 3 de Situ Orbis lhe chama Muliades, donde parece que vem Mondego e não de Munda. Mondego inter montes dego id est curvo, porque donde nasce, que é na Serra da Estrella, sempre corre antre montes e serras muito altas até cerca de Cuimbra, e eu o vi com olhos indo para a cidade da Guarda.

Malegoa [Málaga] - dizia Aretro que se chamava Salduba, mas Ptolomeo lhe chama Malica

Murcia - na Baetica diz Aretro que se chamava Murgis.

Marquena [??] - vila na Boetica, diz o Siculo que se chamava Ategua, da qual fala César nos Comentários.

Mantagis [?? montargil] - castelo na Lusitania chamava-se Magna Calabria segundo o diz Siculo.

Montayo  [? Moncayo] - em Galiza chamou-se Mons Caci, porque nela morou Caco, que Hércules matou.

Moura - vila na Lusitania, Morum.

Monviedro [Murviedro] - diz Antonio de Guevarra por longos argumentos que se chamava Saguntum, onde Annibal teve cercada a gente daquela vila, e lhe resistiram animosamente, sem nunca se lhe quererem dar, e estiveram muito tempo cercados donde saiu o adágio da fome saguntina, e agora lhe chamam Monvedro que significa monte velho ou muro velho, alguns tiveram que Saguntum fosse Çamora [Zamora] mas esta é a verdade que todos têm.

Medina - é vocábulo arávico [arábico], e quer dizer vila ou cidade, e tem o acento na última syllaba, e por este nome ser comum o puseram os Mouros a muitos lugares assim como a Medina del Campo de Rio Seco, Sidonia, Celi, e deste modo os Gregos põem este vocábulo polis, que quer dizer cidade, com adição de outro nome, assim como Constantinopolis, Heliopolis, Andinopolis, e assim os Alemãis põem o vocábulo Burg, que quer dizer cidade, vila ou castelo, tirado do Grego Pyrgos [torre], assim como Lucemburg, Friburg, Braudeburg. De maneira que Medina é nome comum que se conhece pelo adjunto, e estas medinas de Castela tinham outros nomes antigos, e estes lhe puseram os Mouros e ainda em este Reyno há lugares chamados Almedina, assim como em Cuimbra a porta dalMedina que quer dizer porta daVila, do que chamam os Mouros a uma enfermidade dos pés como bichos, como nascem no Brazil, uma meden que quer dizer vea servil, a qual os Gregos chamam crasanculum que quer dizer serpentina.

Mancha de Aragão - se chamava Espartaria.

Munhecar [Almuñecar] - na Bética, chamava-se Munda, segundo Annio.

Moos [Mós] - vila detrás dos montes [de Trás os Montes] entre Freixo e Atune, tem um muro muito forte e antigo, e na porta da vila uma pedra com duas mós, e por isto se chama assim.

Monção - vila antiga de Portugal junto do Minho, tão bem parece que de Caco lhe ficou aquele nome, posto que o não vi escrito.

Malega [Málaga- vila na Andaluzia, do muito melg'o [melgaço] nela, um se chamava melaria, outros lhe chamavam Meraria, mas Antonio chama-lhe Malica, e parece que Meraria deve ser outra, Anio chama-lhe Salduba.

Madrid - chamava-se Mantua Carpentanea segundo Siculo.

Marialva - alguns dizem que se chamava Mary arua que é "Campos de Mário", vila é na Lusitania conhecida, e tem ali pedras antigas onde vi letreiros que dizem Marius. E uma era muito grande, a par de uma casa feita de pedras, todas que tomam toda a largura da parede.

N

Nóbrega - vila em Portugal, ou Castelo duas léguas de Bragua [Braga]  chamava-se Juliobriga, como diz Antonio e é dos edifícios de Brigo Rey.

Nemon [??? - vila na Lusitania sobre o Douro, vinte léguas do mar, parece que lhe chama Ptolomeu Nemobriga e é povoação alta, forte, e antiga segundo dos edifícios parece.

Neva [Neiva]  - Castelo. O rio chamava-se Nebis.

Navara [Navarra - Reino, chamava-se Celtiberia, e os povos Celtiberos, ou Celtas.

Oviedo - cidade na parte de Terracona chamava-se Teva segundo Volaterrano e Siculo.

Oria - cidade, Orium.

Oropisa - era Orospeda : Annio.

Osuna - chamava-lhe Ursaona.

Osma - diz Ptolomeu que se chamava Villuca, mas Siculo lhe chama Uxunia e diz que assim o sente Plinio.

Orense - cidade em Galliza junto do Rio Minho, chamava-se Auriense na Chancelaria de Roma, e diz Siculo que se chamava Olvea, outros dizem que se chamava Ansiloquia de um grego que a fundou, e os Romanos lhe chamaram Aqua Calida, por as caldas que tem, e agora Orense, do ouro que nela se cava, os Godos lhe chamaram Ounes.

P

Pombal - vila na Lusitania sete léguas de Coimbra, para o poente tem Castelo em monte alto, e pela conta do Itinerário parece que se chamava Celium, porque por ali faz o caminho para Braga e não por o Rabaçal.

Pamplona - cidade de Navarra chamou-se Pompeleia quasi cidade de Pompeio, porque ele a edificou, segundo Volaterrano.

Palencia - chamava-se Palancia.

Ponte de Lima - vila de antre Douro & Minho, chamava-lhe Ptolomeu Forum Limicum, e os moradores dali chamavam-se Limici. Mas o Itinerário parece que lhe chamava Limia, este nome parece que se lhe pôs por ela estar junto daquella ponte no Rio Lima que é mui grande, e sumptuosa das maiores de Espanha.

Portugal - é nome moderno que se não escreve pelos antigos como já disse, e tomou novo nome do Porto e de Gaia, de quem este nome pôs primeiro há muitas opiniões como direi.

Ponte Vedra - vila de Galiza chamava-lhe o Itinerário Ponte Venis.

Povoa de Vazi [Póvoa de Varzim- vila do termo de Barcellos parece que lhe chama Ptolomeu Volubriga, posto que ele errou o sítio de Galliza e dos rios dela. Parece edifício de Barcino, capitão de Cartago.

Pinhel - vila na Lusitania, parece que lhe chama Ptolomeu Pinetum.

R

Rosis - vila de Aragão, chamava-se Roda.


domingo, 1 de novembro de 2015

O Carmo e a Trindade (3)

Passam hoje 260 anos sobre o Abalo do Marquês...
A poucas centenas de metros do Carmo ou da Trindade, em pleno Bairro Alto, podemos ler
NESTA CASA NASCEU AOS 13 DE MAIO DE 1699
SEBASTIÃO JOSÉ DE CARVALHO E MELO
MARQUEZ DE POMBAL
A QUEM A CIDADE DE LISBOA DEVEU A SUA
REEDIFICAÇÃO DEPOIS DO TERREMOTO DE 1755
CONSAGRANDO POR ESTE FACTO A SUA MEMÓRIA
* A VEREAÇÃO DE 1923 * 

O que se diria aos senhores vereadores de 1923 ?

PARA UMA CASA ANTERIOR A 1699, 
RESISTIU MUITO BEM AO DEVASTADOR TERRAMOTO !!!

Não é fácil perceber se foi só ingenuidade, fidelidade canina, ou mera incompetência, que levou os vereadores lisboetas de 1923 a apontar intacto o berço do herói maçon e republicano. 

O leitor pode apressar-se aqui a procurar uma justificação, esquecendo-se que não lhe compete dar nenhuma justificação. Isto acontece demasiadas vezes. O próprio em vez de interrogar, procura ser ele a justificar.
Ora, deixemos as coisas nos seus devidos lugares. 
É ou não é estranho ter uma casa intacta de 1699 apresentada como berço do leãozinho, se em 1755 é suposto ocorrer um terramoto que deita tudo abaixo?
Se é estranho, quem deveria ter reparado deveria ser Afonso Costa e os seus vereadores lisboetas de 1923. 
Se os vereadores não acharam necessidade de qualquer referência a não se tratar da casa original, é porque muito naturalmente tinham indicações de ser mesmo a casa original... que foi pouco ou nada atingida pelo terramoto e incêndios.
Porquê? Porque era a casa berço do Marquês? 
Não, porque simplesmente pouco ou nada aconteceu à grande maioria das casas do Bairro Alto.


Investigação de Pinho Leal
Consultando a obra de Portugal Antigo e Moderno, de Augusto Pinho Leal, a paróquia de Santa Catarina tinha 1800 fogos antes do abalo, e 1778 depois dele... de onde se deduz que só dois edifícios desapareceram nessa paróquia. Não devemos assim estranhar que a casa do Marquês não tivesse caído.

Pinho Leal apresenta números muito precisos, provavelmente resultantes dos registos das paróquias a que teve acesso. Assim, dá-nos um retrato muito claro do antes e depois de 1755, sendo perfeitamente claro que a cidade foi afectada de forma muito desigual, e que isso nunca seria consequência do terramoto, e só se pode ter ficado a dever aos incêndios.

Antes do Terramoto de 1755 tinha Lisboa:
 39 609 fogos
158 400 habitantes

e por consequência do sismo ou abalo ficou com
 30 694 fogos
122 700 habitantes

ou seja, perdeu 8 915 habitações e 35 700 habitantes, por consequência do Abalo do Marquês.
É uma proporção de perda de 22% em casas e habitantes.

Mas vejamos o registo pelas 41 freguesias/paróquias, que Lisboa tinha antes do abalo.

01. St. Basílica Patriarcal - De 500 passou a 400 fogos.
02. Santissimo Sacramento - De 613 passou a 180 fogos.
03. São Bartolomeu - De 140 passou a 50 fogos.
04. Santa Engrácia - De 1400 passou a 1262 fogos.
05. Nª Srª Mártires - De 1600 passou a 6 fogos.
06. Santa Isabel - De 2600 passou a 2415 fogos.
07. Santa Maria Maior - De 896 passou a 150 fogos.
08. Santa Marinha - De 300 passou a 165 fogos.
09. Santa Justa - De 1940 passou a 361 fogos.
10. O Salvador - De 266 passou a 300 fogos.
11. Nª Srª das Mercês - De 900 passou a 807 fogos.
12. Stª Cruz do Castelo - De 322 passou a 315 fogos.
13. Santos o Velho - De 1787 passou a 1835 fogos.
14. S. Vicente de Fora - De 600 passou a 552 fogos.
15. S. Thiago - De 120 passou a 60 fogos.
16. Nª Srª da Ajuda - De 600 passou a 2123 fogos.
17. Stº André - De 140 passou a 260 fogos.
18. S. Jorge - De 58 passou a 72 fogos.
19. S. Pedro de Alfama - De 248 passou a 1500 fogos.
20. S. Christovão - De 420 passou a 236 fogos.
21. S. José - De 5000 passou a 6000 fogos.
22. S. Mamede - De 207 passou a 25 fogos.
23. S. Paulo - De 1000 passou a 980 fogos.
24. Stº Estevão - De 1000 passou a 960 fogos.
25. S. Martinho - De 30 passou a 50 fogos.
26. S. Sebastião da Pedreira - De 900 passou a 862 fogos.
27. Nª Srª Conceição - De 900 passou a 84 fogos.
28. Nª Srª Pena - De 1400 passou a 1300 fogos.
29. Stª Catarina - De 1800 passou a 1778 fogos.
30. Nª Srª Socorro - De 900 passou a 830 fogos.
31. S. Thomé - De 300 passou a 250 fogos.
32. S. Nicolau - De 2308 passou a 575 fogos.
33. Stª. Maria Magdalena - De 800 passou a 4 fogos.
34. S. Lourenço - De 150 passou a 143 fogos.
35. S. Miguel - De 870 passou a 666 fogos.
36. S. João da Praça - De 500 passou a 10 fogos.
37. S. Julião - De 1960 passou a 30 fogos.
38. Anjos - De 2140 passou a 2117 fogos.
39. Nª Srª da Encarnação - De 2000 passou a 972 fogos.
40. Nª Srª do Loreto - freguesia de todos os italianos.
41. Chagas de Jesus - freguesia dos navegantes da carreira de Índia e Brasil.

Diz Pinho Leal sobre as freguesias que aumentaram de população (a verde, por oposição às mais afectadas, a vermelho):
Note-se que as freguezias que augmentaram de população depois do terramoto, é porque, dos bairros que mais sofreram, ficando ruas inteiras completamente destruídas e desertas, se mudaram os seus habitantes para os outros, a que o terramoto tinha causado menos destruições.
Como podemos ver houve bairros arrasados enquanto os vizinhos passavam incólumes. A palavra fogos é aqui apropriada, porque o problema terão sido apenas os incêndios.
Nomeadamente, vemos como Alfama se aguentou e recebeu população migrante de outros bairros destruídos (não foi apenas a Ajuda que serviu como zona de refúgio).
Vemos ainda como o bairro de S. Paulo, que teria sido mais afectado pela subida de águas do Tejo, como referia Joaquim José Mendonça, teria afinal perdido apenas 20 habitações.

Um relato completamente inconsistente com toda a enfabulação pseudo-científica que se foi construindo em torno de um acontecimento falsificado em quase todos os detalhes.

Para corolário glorioso da pseudo-ciência dos terramotos e maremotos inventados, fica-nos a sólida casa de berço do Marquês, e a sua simbólica data de nascimento - o 13 de Maio, que já aqui tínhamos referido a propósito da dificuldade em erguer a sua estátua em 1917 na grande rotunda lisboeta:
A 1ª pedra foi colocada por duas vezes, em 15 de Agosto de 1917 e novamente a 13 de Maio de 1926. Só oito anos depois a estátua era colocada sobre o fuste (12 de Dezembro de 1933) e inaugurada em 1934.

sábado, 17 de outubro de 2015

Seguindo os pés de Barros (2)

Prosseguimos a sequência de origens toponímicas de João de Barros, iniciada aqui:


sobre o qual poderíamos fazer várias considerações intermédias, mas que preferimos deixar como encontramos, dando para já só um especial destaque à justificação singular para o nome de Lisboa:

Lisboa << Olisippo << Olos + Hippo = Tudo + Cavalos

ou seja, Barros adopta a teoria de que Lisboa resultaria do grego para significar "tudo cavalos", recordando a lenda regional das éguas que acasalavam com o vento.
____________________________________________
G
Gaya [Gaia] - Castelo junto do Douro no cabo da Lusitania uma légua do mar, alguns dizem que o edificou Gaio César e que lhe pôs aquele nome. Mas o Itinerário lhe chama Calém, donde o Reino tomou o seu nome e não dos Gallos, e daí se chamam Portugueses e não Portugaleses.

Gadix [Cadiz] - cidade no reino de Granada, chama-lhe Plínio Axim.

Guadiana -  Rio notável que parte a Bética da Lusitania, chamava-se antigamente Anas, e outros lhe chamavam Anabis, e os mouros lhe puseram este nome porque Guadem em arábico quer dizer água, e a misturaram com Ana, que tinha primeiro.

Gibraltar - chama-lhe Volaterrano e António, Calpe, e tão bem se chamou Eraclia. E os mouros lhe puseram este nome assim como a Gibraleon, porque Gibra em arábico significa altura, no que está este lugar.  

Guarda - cidade em Portugal se chamou Egitania, que é nome gótico d'el rey Egita, godo que a fundou. E teria eu que os mouros lhe puseram este nome porque é lugar mui forte. No letreiro da ponte de Alcântara está este nome da Guarda com sua ortografia, cuido que lhe chama Elitania, Eletaneum. Erasmo na colecção dos apotemas lhe chama Ciania, e Valerio Max. lhe chama Ciania.

Guadalquibir [Guadalquivir] - Rio na província Baetica que corre por Sevilha e se mete no mar chamava-se antigamente Baetis e Tartessus, mas os mouros desde que tomaram a Espanha lhe puseram este nome, porque como este rio seja o maior de Espanha, chamaram-lhe Guadalquibir que quer dizer em seu arábico dizer Rio grande ou Água grande.

Granada - cidade na Baetica chamava-se Sengilia como diz Marco Aretro, outros lhe chamam Liber, e dela parece que fala o Concílio Ilibertino que nela se fez, que está no volume dos Concílios Ilibertinos, e ainda agora tem uma parte que chamam d'Elvira, que os godos assim nomeavam. Depois os mouros lhe puseram este nome por ser cidade excelente, e boa, e cheia, como o Romão a que os latinos chamam malum punicum, e eles granada. Outros dizem que lhe chamam Granada pelos muitos romeiros da qual é tão abastada, que as tapadas herdades são delas.

Giro [Girona] - na cidade do Reino de Aragão chamava-se pelos romanos Gerunda

Guadalaiarra [Guadalajara] - vila junto ao rio Turia, os mouros mudaram este nome à vila, e ao rio, porque Jarra quer na sua língua arábica dizer pedra, e porque aquele rio tem muitas pedras lhe chamaram assim, daqui fica em Castela. E em algumas terras e lugares de Portugal chamarem hoje aos seixos e pedras redondas guijarrões.

Galliza [Galiza] - chamava-se antes Callacia e Callecia e não com G, como dizem os letreiros de Braga onde era o Consistório de Galiza.

Grijó -  mosteiro três léguas do Porto ao sul, chamava-se Igrejoula em tempo dos Godos, que devia ser pequena cousa, depois cresceu a devoção, e viu-se acrescentar em muita renda e corruptamente lhe chamam agora assim.

Guimarais [Guimarães] - diz Florião do Campo que se chamava Araduca, e posto que o não afirme, pode ser pela ara de Nerva que está daí a uma légua, que direi em seu lugar.

J 
Jeras [Geraz do Minho] - é um vale muito fresco que está junto do Castelo de Lanhoso ao qual Ptolomeu chama Jerabriga, e daqui veio chamar-se agora aquele vale Jeraz.

Jaem [Jaén] - cidade em Terragona, chamava-se Xerez como Aretro diz, mas Siculo e outros lhe chamam Monteza, e os mouros lhe puseram este nome porque Jaem em arábico quer dizer abundância de riquezas.

L
Longroiva - castelo na Lusitania a par do rio Douro, vinte léguas do Porto, chamava-lhe Ptolomeu Langrobriga, e neste lugar parece que o assenta.

Lisboa - sita na Lusitania junto do Tejo, chamava-se Olissippo, como dizem Plinio & todos, e outros lhe chamaram Ulixia, porque dizem que Ulixes [Ulisses] a edificou, e agora corruptamente lhe chamamos Lisboa, e assim lhe chamavam os mouros até que lha tomámos. Mas parece ser falso dizerem que se chamava Ulixea de Ulixes, porque se assim fora, disseram Ulixipo ou Ulixea e não Olissippo, mas a verdade é que se chamou Olisippo com O e um L e um I latino e um S e dois PP e chamou-se assim como diz Valla por ser abastada de cavalos, porque olos em grego quer dizer toda, e hippos cavalos, porque há tantas éguas e cavalos junto do Tejo na Ribeira de que nasceu fama entre os escritores antigos que concebiam as éguas do vento junto deste Rio, donde ainda até agora chamam a certas éguas Zébias quasi concebidas do vento Zéfiro, e por esta cópia de cavalos lhe foi posto este nome, que quer dizer toda de cavalos. Nós, corrompendo o nome lho mudámos em Lixboa por nossa linguagem, por ser terra tão boa, e nos apartamos do nome antigo Grego, e creio eu que os mouros lho começaram a mudar, porque já quando lha tomamos se chamava assim. Mas outros nomes gregos temos de entre nós (?) assim como tio, miolo, trepesa, artisa, tostão, cara.

Lima - Rio de antre Douro e Minho, chamava-lhe Ptolomeu, Plínio, e Strabon, Limius, alguns lhe chamaram Lethes, como direi mais adiante.

Lião [Léon] - cidade em Terragona, chamava-se Legio Germanica, donde todo o reino tomou o nome que se chama Leão.

Lugo - cidade em Galiza, chamou-se Lucus Augusti, e a gente lucenses, segundo Volaterrano.

Leyria [Leiria] - cidade na Lusitania chama-lhe Ptolomeu Leria. Tomou este nome de uma mulher que a senhoreou, que se chamava assim.

Lexa - cidade de Granada chamou-se Losta como diz o Siculo.

Lamego - cidade na Lusitania, junto ao Douro, quinze léguas do mar segundo a descrição de Ptolomeu parece que lhe chama Lacobriga, porque ele põe dois lugares quase de um nome, Langobriga e Lacobriga. E o primeiro é Longrovia e este é Lamego, e desde que houve Reis em Portugal, sempre lhe chamam assim, e alguns forais velhos de latim lhe chamaram Lameco, mudando o G em C quasi tudo é uma coisa.

Lanhoso - é castelo em alto entre Douro e Minho e duas léguas de Braga, ao qual segundo já disse, chamava Ptolomeu Jerabriga, e parece-me que está na terra antigamente chamada dos escritores Bibali, e que é a que chamavam Bivalium por serem dois vales muito frescos e viçosos.

Lerida - cidade em Aragão chamava-se Ilerda como todos dizem, e os povos Ilergetes.

Lagos - vila do Algarve, chamava-se Lacobriga, e os povos daquela parte Lagobritas. Plu[tarco] in vita Sertorii.



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Adeste Fideles de Dom João IV

A memória nacional tem sido tão delapidada, que quando for toda perdida será considerado um mistério falar-se português no Brasil, em Angola, Moçambique, ou noutras partes, sendo claro que em Portugal é um incómodo leccionar em português, e em muitas universidades os mestrados têm já o inglês como língua oficial.

Vem isto a propósito de um tema religioso clássico "Adeste Fideles", que apesar de ser cantado em latim e não em português, terá sido escrito por D. João IV, na sua vertente menos conhecida, a vertente de compositor musical. Apareceu na Inglaterra muito depois, onde ficou conhecido como "Hino Português", embora não haja hoje praticamente nenhum português que disso saiba, e vá passando por um dos vários temas natalícios, interpretado por uma panóplia de cantores.

Escolho aqui a versão de Andrea Bocelli, não tanto por ilustrar a cegueira a que nos condenaram, mas porque a música é sublime e este tenor italiano tem aqui uma interpretação capaz de provocar arrepios na espinha, e transmutar qualquer corpo frágil em espírito forte, contra as legiões de esbirros traidores que nos desgovernaram.


Adeste, fideles, læti triumphantes.
Venite, venite in Bethlehem.
Natum videte Regem angelorum.
Venite, adoremus, Venite, adoremus, Venite, adoremus Dominum.
En grege relicto humiles ad cunas,
Vocati pastores approperant,
Et nos ovanti gradu festinemus.
Venite, adoremus, Venite, adoremus, Venite, adoremus Dominum.
Æterni Parentis splendorem æternum,
Velatum sub carne videbimus,
Deum infantem pannis involutum.
Venite, adoremus, Venite, adoremus, Venite, adoremus Dominum.
Pro nobis egenum et fœno cubantem
Piis foveamus amplexibus ;
Sic nos amantem quis non redamaret ?
Venite, adoremus, Venite, adoremus, Venite, adoremus Dominum.

Que se traduz mais ou menos assim:
Acorram fiéis, alegres e triunfantes. Venham, venham, a Belém. Nascido, vejam o Rei dos Anjos. Venham, adoremos. Venham, adoremos. Venham, adoremos o Senhor. Doceis à voz celeste os camponeses deixam o seu terço, e apressam-se a visitar o seu humilde berço. E nós também, havemos de lhe levar nossos passos. Venham, adoremos. Venham, adoremos. Venham, adoremos o Senhor. Aquele que é o esplendor eterno do Pai, por trás do véu da carne mortal, veremos um Deus menino embrulhado em linho. Venham, adoremos. Venham, adoremos. Venham, adoremos o Senhor. Abracemos piamente esse Deus, por nós na pobreza gerado e no feno deitado. Quando ele assim nos ama, como não o amaremos nós? Venham, adoremos. Venham, adoremos. Venham, adoremos o Senhor.

Já há bastante tempo tinha aqui referido o compositor Filipe da Madre Deus:
mas desconhecia a faceta de rei músico associada a D. João IV, que ao que consta seria também intérprete versátil em todos os instrumentos.
He [D. João VI] had inherited the predilection of the Portuguese royal family of Bragança for sacred music: his ancestor, João IV was credited with playing all musical instruments and with composing the Christmas carol "Adestes fideles". Nourished by generations of royal patronage, the church music in Portugal at the time of Dom João VI regency was "the best in Europe". 
in Neil Macaulay (1986) Dom Pedro: The struggle for liberty in Brazil and Portugal
E se a música sacra era considerada a melhor na Europa, mesmo no tempo de D. João VI, vemos como muito se foi acumulando na perda.

Neste caso, sobre o tema "Adeste Fideles", a autoria só foi remetida a D. João IV porque, por manifesto inconveniente, a mesma partitura foi encontrada no palácio de Vila Viçosa, entre velharias desse período, o que veio colocar em causa a versão da história que dava John Francis Wade como compositor do "Hino Português" em 1743, ou ainda outra que apontava Gluck como candidato.
No entanto, estes inconvenientes de se encontrarem originais anteriores à cópia, são apenas um detalhe na atribuição da autoria, já que a omissão da descoberta se encarrega habitualmente de destruir por completo a memória de uns em benefício do património dos outros.
Aqui, também não é difícil de ligar todo o espólio musical perdido ao incêndio do Sismo de 1755, chama tal que consumiu os registos, neste caso mesmo o de Vila Viçosa, onde não ardeu no papel, mas ardeu na memória.

Ver também: