terça-feira, 18 de agosto de 2015

Estado da Arte (5)

Um dos blogs que disponibiliza ao público informação sobre investigação arqueológica é Portuguese Enclosures (com relevo para as escavações em Perdigões), e que me foi indicado há uns tempos pela Amélia Saavedra. Daí trago um mapa interessante sobre a localização desses acercamentos em Portugal, como sejam fossos circulares ou cercas muradas: 
 A.C. Valera (2015), "Map of walled and ditched enclosures"
(muradas - quadrados vermelhos, fossos - círculos laranja)
É interessante, porque o mapa escolhido apresenta a cinzento a orografia, e facilmente se nota que, à excepção de um caso (perto de Aveiro), todos os outros pontos foram encontrados em altitude. Ou seja, estão sobre a mancha cinzenta, que julgo corresponder a 100 metros de altitude (ou mais). 
Especialmente significativo é o caso a sul do Tejo, já que dessas dezenas de acercamentos, nenhum foi encontrado na parte abaixo dos 100 metros, e vários situam-se na linha fronteira dessa altitude.

Por outro lado, encontrei no ano passado um mapa que tinha uma localização extensiva das cavernas com registos pré-históricos, a que adiciono também um mapa de altitude:


Cavernas com inscrições rupestres (em cima), e mapa com o relevo do terreno (em baixo).

Observação: O blog que tinha a imagem de cima desapareceu entretanto... de forma que o link não funciona, mas deixo-o conforme o encontrei. A imagem de baixo tem link operacional, mas não é o mapa orográfico que aqui usava habitualmente. Esse era shaded-relief.com, que subitamente também deixou de funcionar... Aliás é curioso que o Google Maps também incorporou uma faceta de relevo do terreno, mas foi simplesmente desactivada na nova versão. É bom que nos habituemos a que as "novas versões" podem ganhar tendência sistemática em serem piores que as anteriores, com o pretexto de "facilitarem a compreensão".  

Ou seja, o que notei então é que o mapa das cavernas com inscrições apontava também para uma localização em altitude, especialmente por falhar a zona mais baixa da Aquitânia francesa. Não consigo saber se o registo aponta sempre para valores acima de 100 metros, mas é natural que sim.

Por outro lado, também sabemos que já mencionámos Cosquer, uma caverna cuja entrada estava 37 metros abaixo do nível do mar... Parece portanto informação contraditória. Por um lado, temos um registo frequente de cavernas acima dos 100 metros, e por outro lado há excepções, abaixo até do nível actual do mar. Como conjugar a informação?

Bom, o caso das cavernas ainda que fosse uma dica, era isolado. Trago este assunto porque há muito que reparei que os registos arqueológicos são normalmente encontrados em altitude, afastados de zonas baixas. São encontrados próximo da costa quando essa costa é alta. Este novo caso de investigação dos acercamentos parece indiciar o mesmo fenómeno - a sua localização é em altitude.
Se ainda podemos argumentar que os vestígios humanos em cavernas estão mais ligados a altitude pela presença de formações montanhosas calcárias, já é mais estranho que isso ocorra também com acercamentos, que poderiam ser construídos em qualquer lugar.

Assim, após as Idades do Gelo, o degelo fazia naturalmente aumentar o nível do mar, e estas variações não são nada insignificantes... é admitido que a linha de costa na época glaciar se estendia bastante e até deixei nos comentários um possível mapa, com um contorno obtido por análise do Google Maps, baixando o nível do mar:
Possível contorno da costa com o nível do mar reduzido, em época Glaciar
(a linha branca corresponderia a uma eventual localização dos gelos permanentes).
Se repararmos no mapa, haveria nessa época glacial várias ilhas ao largo da costa portuguesa, e que hoje estão submersas, sendo denominadas "bancos", e poderá ser grande a sua riqueza arqueológica.
Ora o problema é que quando havia uma ligação à "terra firme" (designação antiga, interessante, para o continente), a fuga das populações com a subida da água, poderia ser feita... mas também poderia ocorrer que o refúgio não fosse suficientemente alto. Nesse caso, ainda que as populações se tivessem refugiado nuns montes com algumas centenas de metros, a invasão das águas começaria por tornar esse monte numa ilha, e com a subida progressiva, essa ilha seria submersa. 

Claro que alguns poderiam escapar, se usassem barcos, mas o problema colocar-se-ia quando o número de embarcações fosse ausente ou insuficiente, e a subida das águas fosse suficientemente rápida, a ponto de não permitir viagens suficientes para resgatar toda a população cercada. Ou seja, os que escapassem, saberiam que teriam afogado muita mágoa, em má água. Especialmente se isso tivesse ainda envolvido uma escolha entre "homens" e "animais", não exactamente como o pintado na Arca de Noé.

Há uma tradição sobre uma grande seca na Península Ibérica, em tempos "recentes". Bernardo Brito fala do assunto no Cap. 24 da sua Monarchia Lusitana -  De certa esterilidade que os autores contam, que aconteceu em Espanha neste tempo, e da verdadeira e menos duvidosa opinião que há nesta matéria. Essa seca teria levado a um enorme despovoamento da península, e isso poderá estar relacionado com um aumento de temperatura que teria não só causado uma grande seca, mas também ocasionado uma razoável subida das águas. Não é de excluir que os acercamentos (datados os mais antigos por volta de 3000-4000 a.C.) possam reflectir um tempo em que a temperatura aumentou, e com isso houve uma subida de águas muito significativa, uma escassez de recursos alimentares, e um aumento da conflitualidade entre as populações.

Como curiosidade, mencionamos ainda que uma subida da ordem de 100 metros seria suficiente para isolar a Península Ibérica, como ilha face ao restante continente europeu, ou seja, a figura da "jangada de pedra", se foi apenas figuração de Saramago, poderá ter tido um correspondente efectivo em tempos remotos.


Noutra Atlantis
O continente americano foi entendido durante vários séculos como a verdadeira Atlântida, para onde a navegação era condicionada ou proibida, até que se impôs a necessidade de manter o mito de uma Atlântida a meio do Oceano Atlântico.
Ora, no continente americano têm-se encontrado inúmeros registos de pinturas rupestres, especialmente no sudoeste dos EUA, e como há muitos fotógrafos que disponibilizam imagens, encontrei esta, com alguma semelhança com a da Lapa dos Gaviões, ou se quisermos, com o registo da Kanaga e Wolu, dos Dogon, que mostrámos no Estado da Arte (4):
 
Pintura rupestre americana (foto W. Harrell) e Lapa dos Gaviões (Portugal)

Mas não são apenas estas que são semelhantes. Há várias outras. Ficam aqui um link de fotos tiradas no White River Narrows - Archeological District ou aqui (sem menção do local). E também uma outra que mostra que há "talibãs" em várias partes do mundo, apostados em destruir registos passados:
Vandalismo presente sobre o rupestre antigo (foto de W. Harrell)
... e o problema será maior quando algumas das letras modernas disfarçarem traços ou letras antigas.  
Apenas como curiosidade, W. Harrell foi até descobrir o símbolo da Triple Marfel ... ou muito semelhante;
ou ainda o símbolo nuclear num possível escudo guerreiro!!

Acresce que o símbolo Kanaga dos Dogon aparece também na Colômbia, em conjunto com o símbolo do Indalo, da Almeria espanhola (de que falámos antes):
Indalo e Kanaga numa inscrição na Colômbia
(http://indalocodex.com/codigo-indalo/)
Estes são apenas alguns exemplos, há vários outros casos. No exemplo do Indalo já foi também sugerida uma semelhança com esta representação egípcia, da época de Ramsés:
Possível interpretação do Indalo em inscrições egípcias de Ramsés.
(http://leyendasyfabulas.com/el-indalo-simbolo-de-almeria/)
O que interessa notar é que mesmo que estejamos dispostos a aceitar um certo número de coincidências, e mostrámos algumas, haverá uma sistemática repetição de símbolos em paragens tão distintas como as europeias e americanas, e em que só os muito crentes pensarão apenas em coincidência, sem se interrogarem minimamente. Tendo vistas muito mais imagens do que as apresentadas aqui, o caso do Indalo e Kanaga parecem-me fazer parte dessa "lista de coincidências". Tratar isto como coincidência, está ao nível de considerar que é uma coincidência o sol nascer e se pôr todos os dias... e só um certo tipo de "cientistas" consegue tal redução absoluta.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Estado da Arte (4)

Alguns dos animais mais representado nas antigas pinturas rupestres europeias eram Bisontes (bison europaeus) e Auroques (bos primogenius), bovinos de espécies diferentes. Apesar da caça intensiva ter levado praticamente à sua extinção, na Antiguidade ainda existiam na Europa. Os últimos exemplares foram caçados durante a Idade Média, mas sob protecção real ainda permaneceram alguns na zona da Polónia. Tendo sido o último bisonte selvagem morto em 1921, usaram-se os existentes em cativeiro para evitar o fim da espécie, e sobrevivem hoje pequenas manadas de bisontes em vários países europeus. O auroque extinguiu-se por completo no Séc. XVII.

 
Wisent - bisonte europeu em reserva, e na cave de Altamira

O nome para o bisonte europeu é Wisent, curiosamente lendo-se Vizent, ou seja, extinto o animal nestas paragens, a palavra mais próxima que nos ficou em português é Vicente.

É sabido que, num certo compromisso da cristianização com o politeísmo popular, certos cultos antigos foram mantidos através da grande panóplia de santos admitidos pela Igreja. Conforme já aqui falámos, o "Caminho de Santiago" era um caminho de peregrinação celta, mantido pelos romanos.
O Caminho de Iano (ou Janus), passou depois em época de peregrinação romana a ser o Caminho de Iago (Iago ou Tiago, São Tiago, Santiago).
De forma semelhante, não me surpreenderia que o destaque dado a São Vicente pudesse estar ligado a um culto bem mais antigo, que remontaria a tempos de arte rupestre, onde se representavam os "vizentes", os bisontes (aliás a própria palavra "bisonte", se atendermos à habitual troca dos "b" e "v", não difere assim tanto, se a lermos como "vizonte", e como detalhe lateral lembramos que a pele mais procurada foi o "vison"... um nome estranho para pele de lontras).

Acresce que o nome "Auroque" parece ter também uma certa deturpação moderna, sendo ainda no Séc. XIX também escrito como "Urox", ver por exemplo:
(1) The Annals and Magazine of Natural History, Vol. 4, p. 236  - "On the existing and extinct animals of Scandinavia", by Prof. Nilsson of Lund.
Este "ur-ox" era entendido em inglês como uma concatenação de "Ox" (boi) com "Ur", o bovino que em latim se designava como "Urrus", e hoje chamado "auroque" (num certo desvio fonético do "Ox" para o "Oc", occitano...)
A característica principal dos auroques eram os seus grandes chifres, e será de questionar se os bois de raça mirandesa, maronesa ou barrosã, não serão suas versões domesticadas, mais próximas dos originais que os bois ou touros, que foram mantidas e apuradas ao longo de gerações:
 
Chaves - "Feira dos Santos" onde os bois são "reis da feira" (esq.), e "auroques" desenhados em Lascaux (dir.).
É claro que os bois serem o foco na "Feira dos Santos" de Chaves, não significa nada, tal como a etimologia é suficientemente especulativa. No entanto, sem querer abusar demasiado do assunto, notamos que o nome latim "Urrus" se associa directamente à nossa palavra "urros", e pode ser visto como um caso de onomatopeia... Aliás, talvez não seja acidental o uso da palavras infantil "turras", para designar o embate de cabeças, já que o combate entre estes animais se processaria com essas cabeçadas e com "urros".

Para terminar este tema, vou citar um texto do Séc. XIX:
Baal, Bel, Belus, Chronus, Moloch, Saturn, the same deity. Chronus derived from "horn", which was an emblem of power and dominion among the Eastern nations (...) Chronus must have been rendered by the Greeks "Koronus", and there was a place dedicated to him in the island of Cyprus, which was called "Koronis", and both these words are a transposition of "Kon-Orus", the "Lord Orus", or lux, vel ignis. (...)

Esta facilidade na etimologia deixa sempre muitas dúvidas... e só a usámos para notar que a associação entre "Cronus" e "cornos" é audível em português, mas não deixa de estar referenciada.
Já a relação com "Koronus" leva-nos também à palavra latina "Corona", ou seja "Coroa", e não deixa de ser interessante entender as cabeças coroadas como cabeças corneadas. Apesar de se referir a Lord Orus, o autor não estabelece ali nenhuma ligação ao Horus egípcio, talvez porque ao falcão faltaria o ornamento coroado.

Relaciona-se tudo isto pouco com o anterior texto Estado da Arte (3), mas como diria o guia timorense então citado, "it's a hairdresser"... ou seja um enfeite da cabeça!

Para esse efeito, especialmente significativas são as máscaras dos Dogon (povo do Mali):
Máscaras na tribo dos Dogon (imagem daqui)
A da esquerda chama-se Kanaga e a do centro será um Wolu (cf. aqui)
Se atendermos a estas imagens, e repararmos nalgumas das pinturas rupestres, que aqui coloquei anteriormente, por exemplo, a da Lapa dos Gaviões:
Pintura na Lapa dos Gaviões (esq.), e inscrição moderna dos Dogon (dir.) invocando a Kanaga.

... vemos que as enigmáticas figuras humanas cuja cabeça aparece enfeitada - a ponto de noutros casos se entenderem algumas imagens como "capacetes de astronautas", podem naturalmente dever-se a simples enfeites de máscaras rituais.

Algumas máscaras representavam directamente animais, outras nem tanto... por exemplo, o símbolo das tábuas em forma de "H" é abstracto e conhecido como Kanaga e fez parte das bandeiras do Senegal e Mali (este nome "Kanaga" pode ainda estar ligado ao rio Canagua, depois passado a rio Senegal).

Noutras paragens - Nova Guiné, Papua, vemos máscaras igualmente estranhas, e que uma vez desenhadas numa parede poderiam levar facilmente à suposição de se tratar doutra coisa, estando em moda, a associação a ET's.
Tribo da Papua em máscara ritual, Nova Guiné (imagem daqui)
...
Portanto, parece natural que o simbolismo que levava a fazerem-se máscaras com animais, ou outros símbolos menos óbvios, fosse transportado para a pintura ritual, para a pintura rupestre.
A parte mais estranha, que é agora moda remeter para extraterrestres, deve ser remetida para outros seres igualmente estranhos, os xamãs, magos, e sacerdotes, que exploraram essa faceta ritual. E se algumas das pinturas foram inspiradas em alucinações, em transes, conforme mencionado no documentário da BBC, esses rituais seriam uma parte do foco cultural, mas não seria o único foco.

Finalmente, o nome dos Dogon lembra-nos o Anedoto Dagon, de que já falámos (por exemplo, sobre as bolsas), e que sendo um Anedoto  (ou Anunaki), que aparecia aos babilónios sob a forma de peixe, tem uma filiação interessante na mitologia fenícia que o remete como irmão de Cronos (ver "Abertura de Sancho")... ou seja, o outro elemento de destaque nas máscaras Wolu, embelezadas com um par de chifres.
18-08-2014

domingo, 16 de agosto de 2015

O Carmo e a Trindade (2)

É bem sabido que a morte do Rei D. José correspondeu ao fim político do Marquês de Pombal.
Uma parte do clero rodeara a filha do rei, D. Maria I, e esta nunca teria perdoado ao Marquês a bárbara execução dos Távoras, procurando recompor a velha sociedade da destruição pombalina...
Desse período que se seguiu, encontrei um manuscrito "comemorativo" da morte do ditador (1782), extremamente satírico, revelando o sentimento odioso que uma parte da sociedade, especialmente a ligada à antiga nobreza, lhe dedicava:

Textos, predominantemente satíricos e jocosos, 
contra o Marquês de Pombal e a sua política.


São muitas páginas manuscritas, nem sempre de fácil transliteração, e escolhi este trecho satírico (o autor é desconhecido), por se incluir algumas críticas específicas e não o simples ataque pessoal - que faz o prazer dos cortesãos.
Ao Hiperbólico, Fantástico, Extravagante, Antidevoto, Antideista, Sebastião José de Carvalho,
Primeiro-Ministro, e Marquês do Pombal, D. Quixote dos Ministros do Estado, Sublime Engenheiro de Castelos de Vento, Legislador de vacatelas [bagatelas], Autor de Leis Enigmáticas, Inimitável criador de palavras gigantescas, Único descobridor da pedra filosofal, Defensor em voz, Destruidor na ré, Virtuoso nas palavras, Vicioso nas obras, Abundante de projecto, Falto de execuções, Restaurador quimérico das letras, Real perseguidor dos sábios, Protector aparente do comércio, Arruinador verdadeiro da lavoura, Povoador dos cárceres, Despovoador dos campos, Grande dentro, Pequeno fora, Richelieu na vingança, Mazarin na ambição, Nas virtudes, nem um nem outro, Agradecido por sistema, Ingrato por natureza, Digno para vizir de um príncipe maometano, Indigno par ministro de um príncipe cristão. 
O Povo Português, Sumamente agradecido à sua odiosa memóriaPelo haver governado com ceptro de ferro, Por ter armado uma parte dos seus cidadãos contra a outra parte, Por ter enriquecido o particular, empobrecendo o público, Por ter aniquilado a antiga nobreza, e levantando outra de nova invenção, Por ter acrescentado o número dos processos, como a censura multidão de informes leis, Por ter enriquecido a língua, com uma prodigiosa cópia de palavras exóticas, e insignificantes, Por outros muitos favores, que deve à sua liberal e prodigiosa mão, Mandou levantar este mausoléu, construído de ossos de inumeráveis homens vítimas do seu bárbaro, cruel e sanguinário génio, amassados com lágrimas: De tantas desamparadas viúvas, De tantas arruinadas donzelas, De tantos órfãos pupilos, Cujo servirá de memória indelével à posteridade, depois de fielmente se ter dado a execução, o seu bem justo, como abominável testamento e última vontade, bem conforme à sua depravada vida, por ele feito na forma seguinte (...)
Bom, e a sátira prossegue, não com muito sucesso humorístico ou literário, inventando um "Testamento secreto" que começava por
Sebastião 2º, isto é 2º carrasco, e primeiro Nero português. Monstro de todas as maldades, inimigo comum da Pátria (...)
Interessa aqui notar que, apesar de todo este rancor, raramente se encontra algo de objectivo que contrarie as versões oficiais e oficializadas. Ou seja, se procuramos elementos mais contundentes sobre a fabricação dos estragos do terramoto, a única coisa que se vê sistematicamente é o epíteto de "Nero".
Isto seria a forma mais simples de o ligar aos incêndios, que destruíram Lisboa depois do terramoto, mas não encontrámos nada de mais específico, nesse sentido. Para além disso, quando Camilo Castelo Branco reduziu o epíteto a "Nero da Trafaria", ligou-o mais ao episódio macabro do incêndio levado a cabo por Pina Manique, a mando do Marquês, contra os aldeões da Trafaria.

O facto do documento ser manuscrito e não impresso, parece um detalhe, mas normalmente mostra que os donos das Impressoras lisboetas não estariam tão disponíveis para certos trabalhos, neste caso contra a memória do Marquês.
Há imensos textos que nunca passaram a caracteres de impressora. Por acaso, não é o que acontece com esta parte, que é até citada numa tese de doutoramento da Georgia University (Belinda Sauter, 2005, pág. 44)... mas é o caso de muitas outras.
Apesar de haver muita mão de obra disponível, muita gente com muito tempo, com jeito e com pouco que fazer, estes textos permanecem na sua forma original... e já é uma "certa sorte" que a Biblioteca Nacional os tenha tirado do pó, e pelo menos os tenha digitalizado e lhes tenha dado acesso público (... sendo um mistério a razão que leva alguns a estar em "acesso privado").

Por outro lado, convém notar que se os adeptos da Igreja portuguesa tinham razões de satisfação com o afastamento do Marquês, passados 50 anos sofreriam um ataque ainda mais forte, aquando das revoluções liberais e extinção das ordens religiosas. Grande parte do espólio e documentação constante de grandes conventos foi abandonado ao vandalismo público, para depois ser comprado por coleccionadores privados, em boa parte, estrangeiros.

Conforme é dito no poema sarcástico, apareceram rapidamente duas aristocracias, algo semelhante ao que ocorreria depois com Napoleão. Uma aristocracia "imperial" saída da bonapartismo, e a antiga aristocracia real. A experiência maçónica com o Marquês foi depois repetida com Napoleão, praticamente nos mesmos termos, mas com as diferenças de dimensão dos personagens, dos estados, etc. Ambos tiveram uma rápida ascensão, grande propaganda, e uma rápida queda.
A própria experiência com o Marquês não era inovadora, pois o primeiro sucesso "revolucionário", no sentido de mudar a aristocracia, tinha ocorrido com Cromwell, na guerra civil inglesa.
O grande incêndio no terramoto de Lisboa tinha tido um precedente igualmente devastador no Grande Incêndio de Londres de 1666.

Curiosamente, em 1662, na sua chegada a Inglaterra, Catarina de Bragança foi acompanhada por Edward Montagu, 1º Conde de Sandwich, anterior embaixador em Portugal, que favoreceu o casamento com Charles II. Isto é apenas "curioso", porque já falámos aqui de Cook e de outro Sandwich, (descendente deste), a propósito da Inglaterra se ter afiambrado com o domínio do Pacífico, entre a América e a Ásia, por via do cozinhado de Sandwich com a viagem de Cook.

Ao mesmo tempo que Cook abria novo ovo de Colombo, e descobria praticamente tudo o que havia por descobrir, isto ainda em época do Marquês de Pombal, começava também a Revolução Americana, que levou à criação da primeira república moderna, por um punhado de maçons.

Pouco interessa hoje a planta quadriculada da Baixa de Lisboa do Marquês, é muito mais polémico o desenho de Washington. Curiosamente, Washington está praticamente à mesma latitude de Lisboa (digamos, a Casa Branca está à latitude de Alfarrobeira), e foi desenhada de raiz seguindo os planos de Pierre L'Enfant, por indicações de Washington e Jefferson (todos eles maçons).

Avenidas Novas
Esta propaganda sistemática à intervenção do Marquês em Lisboa, faz uma parte da população crer que esse planeamento incluía algumas das Avenidas Novas, até à zona da rotunda, pelo menos.
Porém, a sua influência foi apenas na Baixa Lisboeta, do Rossio até ao rio. Muitos empreiteiros em Portugal tiveram empreendimentos à escala pombalina (com maiores dificuldades burocráticas nas expropriações, do que certamente Pombal após o terramoto).

A grande expansão da cidade de Lisboa deu-se apenas quase 100 anos depois, no final do Séc. XIX com o planeamento do Eng. Ressano Garcia. Esse sim, definiu a estrutura arterial de circulação que Lisboa ainda tem hoje, e que depois seria complementada com intervenção semelhante do Eng. Duarte Pacheco (já com Salazar).

Planta de Lisboa em 1909 - um ano antes da implantação da República... os nomes eram outros!
Este mapa de 1909 mostra a Avenida Ressano Garcia... um reconhecimento por parte do regime monárquico, mas que haveria de chamar-se depois Avenida da República, no ano seguinte, e assim o nome de Ressano Garcia foi suprimido, bem como outras dezenas de alterações.

É interessante a pressa na mudança de nomes, logo em reunião no dia seguinte:
Quinta-feira, 6 de Outubro de 1910 - Alterações na toponímia da cidade de Lisboa
Em Reunião na Câmara Municipal de Lisboa, presidida por Anselmo Braamcamp Freire, Nunes Loureiro apresenta uma proposta aprovada por aclamação. A Avenida Ressano Garcia passou a denominar-se Avenida da República e a Rua António Maria de Avelar passou a designar-se Avenida Cinco de Outubro. Uma semana depois são feitas novas alterações: a Rua Bela da Rainha passa a denominar-se Rua da Prata; a Avenida D. Amélia passa a Avenida Almirante Reis; a Rua D. Carlos I passa a chamar-se Avenida das Cortes; a Rua d'el-Rei passa a Rua do Comércio; a Avenida José Luciano passa a denominar-se Avenida Elias Garcia; a praça D. Fernando passa a praça Afonso de Albuquerque; a Avenida Hintze Ribeiro passa a Avenida Miguel Bombarda; a rua da Princesa a Rua dos Fanqueiros; a praça do Príncipe Real passa a praça Rio de Janeiro; o Paço da Rainha passa a largo da Escola do Exército.
Mas como já tratei do assunto da instauração republicana, interessa apenas como curiosidade o regime republicano ter poupado à borracha personagens como o Duque de Saldanha, Fontes Pereira de Melo, ou os Duques de Ávila, de Loulé, entre tantos outros. Por exemplo, a Avenida José Luciano passar a Elias Garcia entende-se, pois foi o primeiro Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano... mas já se entende menos que a Rua Alfredo Keil tenha passado a Av. Júlio Dinis, até porque de Keil ficaria o hino nacional republicano. Se a Trindade passou a cervejaria, o Convento do Carmo manteve-se imperturbável nas suas altivas ruínas, 

O Marquês não foi o primeiro nem o último terraplanador de monumentos antigos. Da Muralha Fernandina, que circundou a cidade de Lisboa com 34 torres, não restou tijolo... apesar de muitas dessas torres terem resistido ao terramoto, algumas já tinham sido derrubadas antes, e uma boa parte foi derrubada depois. O que o terramoto não fez cair, outros abalos, de planeamento urbanístico, encarregaram-se do assunto... e não apenas por ordem do Marquês, já que várias foram demolidas no Séc. XIX. E, afinal, a estrutura mais provável de cair com um grande abalo - o Aqueduto das Águas Livres, foi uma das poucas grandes construções antigas a ser preservada.
Dessas antigas torres ficaram poucos nomes, associados às "portas", nomes que ainda assim ficaram na memória, e nas placas de algumas ruas, apesar dos nomes de ruas terem uma tendência natural.
É bastante ridículo, mas a generalidade dos nomes em ruas são de maçons. Parece que foi vendida uma certa promessa de eternidade, digamos uma menção "eterna"... pelo menos, até que seja revisto novo arruamento! Para clarificar ideias, pensemos nos nomes das ruas da cidade romana de Conimbriga, ou noutra cidade desaparecida, a uma simples distância "eterna" de dois milénios. O que lhes aconteceu? Este tipo de ilusões de destaque é de um gozo especial, de ridículo, como se cada maçã que comemos quisesse ser conhecida para a eternidade pela contribuição que deu para a alimentação da humanidade. Mas suponhamos, que sim, que cada registo individual ficava guardado no tempo. O que mostraria afinal, uma maçã limpa, ou uma maçã podre?

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O Carmo e a Trindade (1)

Tendo ir buscar a referência à História de S. Domingos, encontrei outro dos vários livros que vi no início de 2010 e que acabei por me esquecer de aqui mencionar. Trata-se de um "Atlas da Mocidade", de 1782, atribuído a José Anastácio da Costa e Sá.
Considerei mais significativo então a pequena nota do tradutor sobre o Terramoto de Lisboa de 1755. Passavam 27 anos sobre o "Grande Abalo" e portanto quem escrevia à época teria sido naturalmente testemunha ocular do evento.
Assim quando o autor francês fala sobre Lisboa (página 27...) diz:
Lisboa sobre o Tejo, Capital da Província da Estremadura, e de todo o Portugal. Um terramoto acontecido no 1 de Novembro de 1755 a arrasou inteiramente. 
o Tradutor apressa-se a esclarecer com uma nota de rodapé:
O Autor, mal informado do que aconteceu a esta capital no referido Terramoto, asseverou que ela ficara inteiramente arrasada, quando é certo que em mais de duas partes ficou em pé, e que somente o incêndio, que lhe sobreveio, abrasou, e consumiu os edifícios, tesouros, móveis, riquezas, preciosidades, alfaias, etc. ficando unicamente as paredes. Porém, de tudo o mais raro, que se perdeu, foi a grande Livraria de Sua Majestade - rara pelos manuscritos e originais da Antiguidade que conservava - perda sem dúvida lamentável para os sábios.

Faço aqui um mea culpa de não ter colocado este apontamento atempadamente... 
Já o deveria ter feito nas outras ocasiões em que falei sobre os Abalos do Marquês, mas a memória não funciona como um relógio, e as coisas aparecem por ordem de um tempo que está acima dos outros tempos. No entanto, quando transmito uma forte opinião não é apenas por uma suspeita ocasional baseada num certo detalhe, é por um acumular de informação, de várias fontes, umas mais presentes que outras.

O Terramoto de 1755 foi a maior farsa maçónica encenada nacionalmente!
Mais que isso, é trazida à cena repetidamente, com novos actores repetindo os mesmos disparates.
Note-se que o tradutor só fala do incêndio, em nenhuma ocasião menciona qualquer maremoto.
Porquê?
- Porque não houve nenhum maremoto em 1755. 

"Cair o Carmo e a Trindade" diz-se, por ironia, quando se receiam consequências graves de causas sem importância (ver aqui).

Foi isso que se passou - o Terramoto de 1755 passaria por "mais um terramoto de Lisboa", de uma grande lista, da qual se destaca sim, o Terramoto de 1531 que teve o propalado maremoto.
O mais significativo do Terramoto de 1755 seria a queda de parte dos Conventos do Carmo e da Trindade (aliás um ao lado do outro). Quem visitar Lisboa percebe até que a estrutura do Convento do Carmo não caiu... está ainda hoje de pé!

A consequência grave de cair o Carmo e a Trindade?
- O Terramoto de 1755 serviu como tiro de partida à terraplanagem maçónica.

Pegando numa planta comparativa feita em 1909, sobre os edifícios verdadeiramente afectados e a diferença entre Lisboa antes e depois do Terramoto de 1755, podemos centrar-nos na zona de demolição levada a cabo pelo Marquês.
Onde? - Na zona da "Baixa"!
Então, mas com o "suposto maremoto" não era natural reconstruir no "Alto"?
Foi isso que se passou em 1531 - pelo medo do maremoto, fez-se o "Bairro Alto"!
Planta comparativa : antes e depois de 1755  (Rev. Obras Públicas e Minas, 1909) - detalhe.
A castanho escuro - os edifícios "destruídos ou quasi-destruídos" - inclui-se aí Sé de Lisboa (nº96)!
A azul - edifícios que "em grande parte resistiram". A vermelho - edifícios que "resistiram".
A amarelo - a terraplanagem do Marquês após 1755, planta quadriculada da Baixa.
Linha vermelha - Planta quadriculada do Bairro Alto, feita após o Terramoto de 1531. 
Para termos uma ideia de como era Lisboa em 1650, basta reparar na
... e o que se passava é que a Baixa tinha até menos desordem urbanística do que se vê ainda hoje para os lados da Graça, do Castelo e de Alfama. O Marquês não inventou rigorosamente nada com a sua planta quadriculada, porque em 1531 o Bairro Alto já tinha sido feito com esse critério, numa zona até bem mais extensa, numa das colinas Lisboetas, e não em terreno quase plano. Basta ver que o facilitismo do Marquês nem sequer tocou na zona do Castelo e de Alfama... restando apenas a propaganda da sua construção urbanística, e esquecendo convenientemente que a destruição da Baixa não se deveu ao terramoto.

História Universal dos Terramotos
Como relato muito condicionado, pelo despotismo do Marquês e do rei D. José I, mas ainda assim como informação mais verosímil do verdadeiro impacto do Terramoto de 1755, convém ler uma obra publicada ainda em 1758:
que tem havido no mundo desde que há notícia desde a sua criação até ao século presente
de Joaquim José Moreira de Mendonça (1758)

que considera que o Terramoto de 1531 teria sido muito mais devastador.
Mendonça começa por confirmar que - "Tenho certeza por documentos autênticos que ainda depois daquele ano se erigiram todas as ruas do Bairro Alto, que ficam para fora das Portas de St. Catarina e Postigo de S. Roque (...)". E por comparação ao de 1755 contrapõe (pág. 55-56):
Nem obsta dizer-se vulgarmente que o Terramoto presente foi maior que o de 1531, por se verem arruinadas a Torre da Basílica de Stª Maria, e muitas igrejas, que naquele não caíram. A isto respondo que também neste ainda ficou sem ruína a outra Torre da mesma antiga Sé; e que as igrejas que caíram agora naquele tempo eram muito novas e ressentiram da mesma forma que ao presente sucedeu às duas Igrejas de S. Bento, à de Nª Srª das Necessidades, à do Menino Deus, à dos Paulistas e outras, com alguns palácios, e casas novas, que não padeceram ruína considerável.
Sobre o boato de grandes inundações em 1755 (pág. 116-117), apresenta a melhor explicação que encontrei para essa crença largamente difundida ainda hoje:
Havia muita gente buscado as margens do Tejo, por se livrarem dos edifícios, cheios de horror da vista das suas ruínas. Eis que de repente entra o mar pela barra com uma furiosa inundação de águas, que não fizeram igual estrago em Lisboa que em outras partes, pela distância que há de mais de duas léguas desta Cidade à foz do rio. Contudo, passando os seus antigos limites se lançou por cima de muitos edifícios e alagou o bairro de S. Paulo. Cresceu em todos os que haviam procurado as praias o espanto das águas, e o novo perigo se difundiu por toda a Cidade, e seus subúrbios, com uma voz vaga, que dizia que vinha o mar cobrindo tudo.
Aliás, o que se pode depreender da leitura do texto é que a propagação dos incêndios se deveu a sucessivos boatos que fizeram afastar as pessoas da cidade, deixando-a a saque de todas as pilhagens... depois atribuídas a criminosos que na oportunidade escapavam das prisões:
"Estas vozes se atribuíram depois a alguns homens malvados, que quiseram ver a Cidade desamparada para roubarem as casas do mais precioso. Causou este boato uma grande ruína, porque podendo-se nalgumas partes atalhar o fogo, correu este livremente destruindo tudo quanto o Terramoto havia perdoado(...)". 
Por exemplo, o Mendonça afirma ter conseguido evitar que o fogo atingisse o cartório de Lisboa, com o registo de propriedades, que estava a seu cargo, com pouca ajuda.

Avaliando em geral os estragos, e para além de fazer a natural referência ao Carmo e à Trindade - "ficaram reduzidos a cinzas os sumptuosos Conventos da Santíssima Trindade, de Nª Srª do Carmo, de S. Francisco, do Rosário dos Irlandeses, do Espírito Santo, de Nª Srª da Boahora (...)", volta a insistir na questão do fogo e não tanto do terramoto, colocando assim as coisas:
Depois de muitas reflexões feitas em várias ruas e bairros da Cidade, me parece que o fogo consumiu a terceira parte da Cidade, naquele sítio em que era mais populosa, por serem a maior parte das ruas estreitas, e as casas de quatro, cinco e seis andares de sobrados. Parece-me também que o Terramoto lançou por terra a décima parte das casas de Lisboa, deixou inabitáveis mais de duas partes das que ficaram em pé, ficando habitáveis somente ainda menos que uma terça parte das casas. A maior parte destas lhe foram precisos grandes reparos.
Sobre o maremoto... mais nada!
Para além de ficarmos a saber que na parte central de Lisboa haviam casas já com altura de 6 andares, o terramoto terá sido responsável pela queda de apenas 1/10 das habitações, mas por outro lado o incêndio teria afectado 1/3 das estruturas, especialmente na zona central, mais populosa... a zona da Baixa, que depois foi arrasada para a construção simbólica do Marquês.

Convém notar que este relato está cheio de deferências às virtudes do poder real, que acolhiam os desgraçados nas suas sumptuosas e luxuosas tendas montadas na "Ajuda". A obra foi autorizada, e por isso não seria um relato imparcial e objectivo... mas que ainda assim fez notar a total passividade com que a autoridade do Marquês deixou com que as pilhagens e os incêndios prosseguissem. A data é de 1758, o mesmo ano em que o nível de violência passa à fase seguinte, com a instauração do Processo dos Távoras, e com a sua execução em 1759.

Mais interessante é o folclore do registo "internacional" do Terramoto de 1755...
Mendonça começa por dizer que o terramoto a norte do Douro não teve registo de grandes danos, não deixa de referir a sua igual devastação no Sul de Espanha, em Huelva e Cadiz, inclusive fazendo referência a queda de parte do monte Gibraltar!

Mas não se ficando por Espanha, e poupando o norte ibérico, o estranho terramoto teria sido sentido em França, em La Rochelle, abrindo mesmo terras em Angouleme, tal como em Tanger (em Marrocos)! Teria sido ainda sentido na Suiça e em Itália, com alterações nas águas de Haia a cidades do Báltico, próximas de Berlim. Para se entender bem este "nível de destruição", é ainda juntado um episódio de Mequinez (Marrocos?) onde uma aldeia com 6 mil soldados a cavalo teriam sido "engolidos pela terra".

Compreende-se que tal relato pudesse ser comido como bom à época, mas é preciso entender que a devastação que se processou em 1755, foi muito selectiva nas catástrofes - um objectivo na zona de Cádis, em Espanha foi arrumar de vez com as Colunas de Hércules, que resistiam desde a Antiguidade.
Por isso terá sido muito mais uma acção humana combinada, com manos iluministas munidos de archotes para incêndios, muito empenhados na sua missão destruidora, mais activos numas partes do que noutras, isso parece claro.
O Marquês com tanto medo dos "maremotos", que teriam varrido "o Algarve e a Andaluzia", vai afinal mandar fundar de raiz uma Vila Real de Sto. António, assim mais sujeita a inundações do que qualquer outra vila. Quanto aos incêndios das aldeias da Trafaria ou de Monte Gordo, vemos como o Marquês entendia o seu papel iluminista mais na base da chama dos archotes.

É claro que estas contradições evidentes, eu poderia entendê-las como codificações inteligentes apenas para descodificação em épocas posteriores... mas não será bem assim.
Há muitas resoluções atabalhoadas, muitas pontas soltas, e o esforço de tapar uma ponta destapa outra. Podemos iludir uma criança, dizendo que errámos de propósito, e procurar explicar que esse erro serviria afinal uma lição... mas já será mais difícil enganar um adulto!

O terramoto e maremoto de 1531 foram praticamente suprimidos do conhecimento popular e académico durante o Séc. XIX (ver por exemplo "The 1531 Lisbon earthquake and tsunami", J. Miranda et al.), e só se voltaram a encontrar registos em 1909... ou seja, no ano de publicação da Planta de Lisboa, algo que desmascarava por completo a farsa do Marquês, afinal uma "revolução cultural" tão laboriosamente construída durante o século anterior. Como se sabe 1909 é também o ano que antecede a implantação da República em 1910... e passamos aí a nova lavagem de memória, ordenando-se a repetição do esquecimento do Terramoto de 1531.

Portanto, nunca vemos vontade de revelar coisas, muito pelo contrário, mesmo as muitas revelações mostradas são quase sempre como ousadia e despeito contra a credulidade popular. Parecem mais servir o propósito de evidenciar a imaturidade popular, servindo talvez isso como desculpa a mandantes adolescentes para a necessidade do seu domínio sobre uma massa populacional que vêm como infantil.
Não se trata apenas de exibicionismo da puberdade, o que move quem assim se move é o medo... mas sobre isso falaremos depois.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

dos Comentários (16) - Segundo João, Dom ou São?

Este apontamento segue do comentário de Maria da Fonte, que foca a morte de D. João II: 
Tal como o Mosteiro do Priorado do Sião na Batalha, onde o Rei Dom Duarte encheu de iniciais um Pórtico, para onde nunca ninguém olhou.
TÃ YA SEREI (Serei sempre Fiel) envolto na dupla aliança eterna do Priorado.
Tal como, na Igreja da Consolação em Elvas, tudo o que resta do Antigo Convento das Dominicanas, construído sobre o Templo de Madalena é uma Cúpula Piramidal decorada como O Taj Mahal, de base octogonal, por onde os raios de Sol iluminam o Túmulo do Leão, para onde todos olham sem ver.
A Viagem de Vasco da Gama à Índia, foi o regresso do Rei Dom João II, e o culminar de cinco séculos de Demanda dos Reis de Portugal.
O Rei não chegaria vivo a Portugal, e quando foi sepultado na Capela da Piedade do Mosteiro dos Dominicanos na Batalha, dizem os cronistas que o Corpo estava incorrupto, e que o Povo clamava Milagre e afirmava que o Rei era Santo.
______________

Como já referi na resposta ao comentário, foi faltando colocar aqui um texto.

Trata-se de um texto (que encontrei em 2010), incluído na imensa compilação de Frei Luís de Sousa (pseudónimo de Manuel Sousa Coutinho) intitulada "História de S. Domingos", em cinco volumes. 
Este excerto encontra-se no Volume 2, sobre o Convento da Batalha. 
Diz assim, na página 328, sobre D. João II:
(...) Falecendo na vila de Alvor no Algarve, em idade de 40 anos e alguns meses mais, foi enterrado na Sé Catedral de Silves. Ali começou a correr fama que a terra da sua sepultura era remédio contra doença de febres. Foram muitos os que acudiram a valer-se dela, e o sucesso foi tão provado, que o Bispo do Algarve mandou fazer inquirição pelo seu Vigário Geral com o Cónego Alvaro Fernandes por adjunto, pelo qual parecem justificados seis casos distintos de pessoas conhecidas que sararam com aquela terra, e algumas das testemunhas afirmam de muitas outras sem nome, que alcançaram saúde com o mesmo remédio. 
(...) Verificam-se estes testemunhos com o que escreve Damião de Goes, que sucedeu nas exéquias solenes, que el Rei D. Manuel lhe mandou fazer em sua trasladação quatro anos depois. Afirma este Cronista que andando na voz do povo que obrava Deus por ele alguns milagres, se publicara no sermão das exéquias, que quando fora desenterrado em Silves se achara a madeira do caixão queimada, e quase consumida da força da cal viva, com que o corpo fora coberto para se gastar brevemente, e assim a mortalha, e uma alcatifa; mas o corpo estava inteiro, limpo e são, e a cabeça, e rosto coberto de todo seu cabelo e barba, como quando vivia; e que espantando a vista em corpo mortal e corruptível, por se ver que não fora acompanhado de nenhum género de materiais aromáticos, nem ajudado de outros feitios, que preservam de corrupção; causara mais espanto em todos os presentes um cheiro suave que dele procedia. 
(...)  no ano de 1621, que isto vamos escrevendo, 125 anos que foi enterrado. Está seu corpo tão inteiro como no dia em que faleceu, sem lhe faltar mais que a ponta do nariz.
(...)  Informado el Rei D. Sebastião do que temos dito, quis ver esta maravilha. Mostrou-se-lhe que é fácil de ver como está sem moimento de pedra. Encheu-se o Rei moço de respeito com tal vista, e fez-lhe reverência como a Santo. Passou depois a curiosidades, e como quem tinha brios de valente, e sabia que o fora Santo, quis ver como lhe estava a espada na mão. Mandou-o levantar em pé, e meteu-lhe nela a sua própria, que no Convento [da Batalha] se guardava; e vendo-o nesta postura disse para o Duque de Aveiro D. Jorge, que o acompanhava, que beijasse a mão a seu bisavô; o que ele fez, beijando-a primeiro a quem lho mandava.  Acrescentou el Rei falando com o Duque, e com os olhos no defunto estas palavras: "Duque este foi o melhor oficial que houve de nosso ofício". E todas as vezes que sucedia falar nele noutras ocasiões, chamava-lhe o seu Rei. Ditoso, se o soubera imitar na prudência, como o quis imitar na valentia.
Túmulo de D. João II (Mosteiro da Batalha)
O que não será de excluir, na celebração popular posterior, é que não seja apenas Santo António comemorado como Santo. Por mero acaso, os outros dois santos que fazem parte dos festejos populares são São João e São Pedro: - João como D. João II, e Pedro como o Infante D. Pedro, seu avô. E esta associação só parecerá mais estranha a quem for alheio ao impacto que ambos os monarcas tiveram no povo... e talvez não só.
Digamos, como se uniria o símbolo do pelicano do Príncipe Perfeito, com o símbolo do camaroeiro da Princesa Perfeitíssima?
Símbolo do 18º grau da maçonaria:
Prince, of Knight Rose Croix Degree

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

dos Comentários (15) - Tempo de Tomar a Nuremberga

Observando um quadro de um homem, pintando por Van Oostsanen em 1518, reparamos que segura um pequeno objecto:
Retrato de J. Gerritz, por J. Van Oostsanen (1518) [daqui]
Esse objecto é visto em várias pinturas medievais e renascentistas, e foi bastante usado pela realeza à época da dinastia Tudor. Trata-se de um dispositivo com perfume, conhecido como "pomander", uma concatenação francesa de "pomme-de-ambre" (pomo de âmbar, mais laranja que maçã), que servia para se substituir aos maus cheiros de uma época em que cuidados de higiene não abundavam.

 
Occitane Vanilla Pomander (à esquerda), e simples pomander artesanal, feito de laranja com cravos (à direita)


Fez o José Manuel referência ao Pomander de Nuremberga, considerado o primeiro relógio (não fixo), construído por Peter Henlein em 1505 em Nuremberga.
Relógio Pomander de 1505, feito por Peter Henlein.
... ver o link ...
http://quillandpad.com/2014/12/15/the-worlds-oldest-watch-a-peter-henlein-mystery-from-1505-solved/
Antes de entrar em detalhes sobre este relógio, convirá notar que não se tratava de caso único, sendo conhecidos "Ovo de Nuremberga" e o "Melanchthon" - havendo uma página dedicada ao assunto
onde aparecem outros dois, com os nomes Qatar 1 e Qatar 2.
Isto interessa porque os perfumes vinham do Oriente, neste tipo de recepientes, para serem consumidos na Europa. Como já abordámos aqui a tradição árabe em produzir mecanismos:
nomeadamente os mecanismos de Al Muradi (Séc. X), que incluíam relógios complexos, e esquecendo por instantes o caso do mecanismo mais antigo de Antícitera (Séc. I)... poderemos suspeitar que estes Meca-nismos viessem inicialmente das paragens de Meca. 
Uns poderiam comprá-los como simples recipientes caros para perfumes, mas outros, num grupo mais restrito, teriam o faro mais apurado, e receberiam preciosos mecanismos de relojoaria. Sem inspecção mais cuidada, seriam semelhantes para o observador exterior. O fabrico deste pomander parece ser, no entanto, alemão, como veremos.

Vem isto a propósito da menção do José Manuel ao mecanismo do relógio do Convento de Cristo, em Tomar.., que serve de contraponto gigantesco, quando comparado com os relógios Pomander, sendo ambos atribuídos ao Séc. XVI.
Mecanismo de relógio no Convento de Cristo em Tomar (foto JM)
Os relógios associados às igrejas tinham esta grande dimensão, e de certa forma este não será muito diferente do relógio existente na Catedral de Salisbury... com a diferença de que este mecanismo faria mais sentido ser datado para o Séc. XIV e não XVI.


Microprecisão
Voltando ao pomander de Henlein, criado em 1505, o que acabou por se revelar surpreendente foi a sua inspecção ao microscópio! Se produzir peças para um relógio tão pequeno já é um prodígio na Renascença, mais surpreendente foram as inscrições encontradas nas suas peças, com as inicias PH remetidas ao criador Peter Henlein, mas com dimensões muito inferiores a 1 mm.

Comparado com um fósforo aparece a peça (1ª figura) onde foram encontradas inscrições PH (2ª figura)
Ver vídeo sobre o assunto aqui:
https://www.youtube.com/watch?t=68&v=Sivfd7jdn7U
Como se não bastasse, e a menos que consideremos um caso de pareidolia, de sugestão de face numa forma natural, diz-se que o microscópio revelou também rostos, entre os quais este:
Rosto encontrado ao microscópio, segundo o site Quill & Pad.
E assim, se já era questionável a capacidade de fazer uma inscrição numa peça com menos de 1mm de espessura, a presença de um rosto quase fotográfico, quando comparado com os toscos desenhos que decoravam a caixa, poderia requerer a presença de um "teórico dos deuses-astronautas" a falar de ETs, a menos que seja uma notável coincidência num caso de pareidolia.

No entanto, convém não esquecer o caso do minúsculo relógio encontrado num túmulo Ming fechado durante 400 anos, caso que já tinhamos referido:

... mas que assim se torna mais verosímil de cair na hipótese de construção do Séc. XVII, ao contrário do que se julgava possível.

Se o Ovo de Nuremberga tinha a surpresa lá dentro, só vem na linha de confirmar a ocultação sistemática de uma maior tecnologia a toda a população, e só acessível a um "clube restrito".
Ainda dentro dessa linha dos "ovos com surpresa", não tanto ao estilo dos "ovos Kinder", e mais ao estilo dos "ovos Fabergé", perceberemos como a Páscoa de uns foi razoavelmente diferente da Páscoa dos outros.
Não é preciso ir buscar nenhuns ET's para explicar isto, basta compreender a perversidade de certa natureza, mais ou menos humana, e admitir que a humanidade não acordou para a tecnologia só nos últimos 150 anos, quando decidiu passar das carroças para os foguetões. Esta capacidade esteve presente há muitos milénios, mas não foi dada como presente por via de um passado condicionador do futuro. O ligeiro detalhe que não estava escrito em nenhum ovo, é que os presentes do passado teriam essa conta passada escrita no futuro... e sobre isso, não haverá volta a dar-lhe, é pena.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Estado da Arte (3)


Prossigo a sequência do Estado da Arte com a observação de José Manuel acerca de um detalhe no vídeo de El Castillo, referente a losangos
Losangos na Caverna de El Castillo
... que, conforme notou, os losangos são também as formas encontradas na Caverna de Lena Hara, em Timor Leste. Basta para esse efeito lembrar a imagem que divulgou em 2011 no blog Portugalliae 
Losangos na Caverna de Lena Hara, em Timor Leste
Conforme o José Manuel fez questão de notar, o nome colonial de Tutuala, onde foram encontradas estas inscrições datadas entre 6 e 20 mil anos, era um sonante "Nova Sagres". Talvez o nome se devesse apenas à localização extrema, na ponta de Timor, oposta à outra Sagres... ou talvez não!


Melanésia... o outro lado da arte
Procurando um pouco mais acerca de pinturas rupestres em Timor, e para além dos petróglifos com caras humanas (com óculos?!) assinalados no Portugalliae, num blog 
há uma interessante colecção de imagens de um local adjacente a Lena Hara, chamado Ile Kere-Kere.
Para além de serem vistos barcos (recentes?) e mãos (antigas?) - que sou forçado a deixar "sem comentários", por não ter informação sobre possíveis datações...
 

... há uma estranha representação, que faria o gosto dos "teóricos dos deuses-astronautas":

Mas sobre esta estranha representação, cito directamente o autor do blog, que descreve o assunto com uma piada monumental:
I disgraced myself with this one by asking why a picture of a TV antenna has been included among the rock art. Maleve (one of the TImorese people with us) groaned and stared at me incredulously. “It’s a head-dress!” he said emphatically. 
Lá está... uma ilustrativa questão de contexto!
Enquanto o "homem branco" conjectura, pensa em ovnis, em antenas de TV, (ou fazendo auto-crítica ao meu texto anterior... pensa em mapas), o habitante inserido na cultura local vê ali um ornamento decorativo, uma espécie de chapéu.

Chapéus...
No entanto, focarei uma outra imagem que encontrei, que aparece apenas associada a Timor-Leste
"Pintura rupestre em Timor-Leste"
imagem do blog "asfolhasardem.wordpress.com" 
Porque, não se tratando de Bugs Bunny, estas imagens evidenciam duplas protuberâncias na cabeça - talvez a imitar chifres, e mais uma vez damos o salto - agora de Timor para Portugal e Espanha.

Uma das raras inscrições rupestres conhecidas em território português é a Lapa dos Gaviões, onde são representadas três figuras... eu diria semelhantes, na ornamentação da cabeça:
Lapa dos Gaviões - Portugal (daqui)
E como umas coisas vão dar a outras, há uma colecção impressionante de imagens rupestres, feita por um punhado de fotógrafos amadores, num repositório do flickr:https://www.flickr.com/groups/pinturasrupestres/pool/... e que por si daria para uma série de "estados de arte" interminável. Um outro igualmente interessante é este:https://www.flickr.com/groups/bestofruins/pool/

Mas, continuando, se a legenda fala numa existente interpretação como "bovídeo, rinoceronte e javali", nunca me tinha ocorrido pensar em ver as figuras como projecção horizontal... tudo bem, mas mesmo assim dificilmente conseguiria ali vislumbrar tais bichos.

Por isso, socorro-me da mais abundante expressão existente em Espanha, que parece não ter grandes dúvidas sobre a orientação das suas pinturas. Ou seja, mais concretamente falo do "Brujo", na Cueva de Los Letreros, que teve direito a uma escultura significativa para promoção turística:
Cueva de Los Letreros - "O Bruxo" - (ver aqui)
Esta imagem icónica está degradada (ver original), mas é possível ver claras representações noutras cenas, onde aparece com os característicos chifres, ou com o "chapéu correspondente":
Cueva de Los Letreros (de comarca de los velez)
Portanto, parece-me mais natural ver representações antropomórficas que evidenciam talvez bruxos, conforme sugerido pelos espanhóis, atendendo ainda por cima à proximidade geográfica... com Timor a questão é mais complicada.
E, por outro lado, pode complicar-se mais ainda se atendermos a que há semelhanças nestas cenas com as inscrições na Serra da Capivara, no Brasil, sendo que o bruxo parecia acompanhar-se de uma bolsa, e isso já foi abordado como uma questão de moda das Bolsas da Capivara, bolsas que podem ter antecedido as mais modernas, em que as flutuações do mercado nas Bolsas nos vai ao Bolso. 
Em contraponto, o bruxo apresenta ainda uma ou duas foices, algo mais comunista e menos capitalista, mas que devemos entender no contexto saturniano mais lato - ou seja, como a foice adamantina de Cronos, castradora de Urano.

Universalidade
Mais icónico ainda do que o bruxo, na zona da Cueva de Los Letreros, em Almeria (Andaluzia), o símbolo da região é o Indalo (entendido como Mensageiro dos Deuses, ou seja um Hermes... mas não das bolsas, ou ainda que sim, Hermes-Mercúrio era associado ao comércio). 
Este Indalo é uma representação que se diria logotipo moderno, próprio de uma qualquer empresa com ambições globais:
Indalo - Cueva de Los Letreros, Almeria (Espanha)

Em Almeria vendem-se porta-chaves com este ícone, mas há alguma imprecisão na cabeça, porque se repararmos bem, o disco não se une ao corpo, sugerindo ao mesmo tempo uma forma de olho, e não apenas um homem num certo abraço universal (ou talvez, simplesmente, a saltar à corda...).

Porém há um o ponto de universalidade, que se observa nas pinturas, que vai desde Timor, de toda a Melanésia, até à Europa, e não só... prolonga-se ao continente americano, não apenas no Brasil, mas a sítios tão remotos quanto a Cueva de Las Manos, na Patagónia Argentina, conforme já aqui tinhamos salientado... ou ainda mais, a ilhas chilenas do Estreito de Magalhães, como a Ilha de Madre Dios:
Ilha da Madre Dios - região do Estreito de Magalhães. (imagens)
Primeiro, a enorme caverna (vejam-se os homens na seta vermelha) onde foram encontradas.
Segundo, as pinturas nessa caverna, com o mesmo tipo de ilustrações e tinta.

A caverna, onde foram encontradas as inscrições rupestres da Ilha de Madre Dios, é gigantesca, a ponto de terem mesmo sido encontrados ossos de baleia numa plataforma a 30 metros de altura, acima do mar. Nessa caverna vemos as inscrições com o aspecto característico de quase todas as pinturas rupestres.

A questão é que quando temos estes símbolos enigmáticos, ou mãos pintadas na rocha, não estamos a falar de culturas sem qualquer ligação entre si. Há pontos comuns de uma parte à outra do globo, e são tão distantes no tempo quanto a competição para as mais antigas se coloca nos 40 mil anos, quer nas ilhas Celebes na Indonésia, quer na Espanha. 
Por muito que os actuais bruxos tentem menosprezar ou desligar umas e outras manifestações, considerá-las casualidades naturais, não há muito de natural na presença global de uma cultura antiga de bruxos ou xamãs, dos quais os actuais são herdeiros.

Seria natural a diferentes culturas aspergirem as suas mãos para as deixarem impressas na rocha?
Então e por que não deixar também os braços, os pés, ou outra parte do corpo?
A técnica e a representação era invariante, mas não havia nenhum traço unificador, passado de geração em geração? Percebemos que seja conveniente evitar esta "teoria global", porque ela sugere uma herança global, e este tipo de "conspiração" é facilmente metido na caixa de "teorias da conspiração"... mas o traço comum está aí, e só não o vê quem não quer que seja visto.