sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Colcha (2)

Continuamos pela cobertura da Colcha.
Um mapa de 1706 (de Ch. Cellarius) aponta designações romanas da região caucasiana, onde podemos ver - Colchi, Iberia, e Albania.

No mapa assinalei outras "atracções turísticas" no contexto, destacando as "Colunas de Alexandre".
Já aqui havíamos falado das Portas Cáspias, que se associam a portas ou muralhas de Alexandre Magno. Serviriam como uma espécie de Muralha da China ocidental, para evitar as incursões dos bárbaros - no caso chinês, os mongóis; no caso alexandrino, os Citas, entendidos como os míticos gigantes biblícos, Gog e Magog.

Outra curiosidade, é que a região caucasiana apresenta uma grande quantidade de nomes que encontramos noutras paragens, e não apenas neste mapa.
Podemos referir Qabala, um nome muito cabalístico para a antiga capital da Albânia caucasiana, ponto de passagem das chamadas "Rotas da Seda". 
Coraxi é um nome de rio assinalado no mapa, nome não distante de Corasan, vizinha região persa, ou talvez nome mais próximo de Carachi, cidade às margens do Indo (ainda mais a ocidente, no mapa, está nomeada Sindi).
A isto associa-se Ganja, cidade e rio caucasiano, cujo nome se assemelha ao Ganges, por um lado, e por outro Ganja é palavra do sânscrito que significa canabis. Talvez o termo granja ou granjear seja apropriado a esta cultura de grageas. Porém, o som local é mais Gança ou Gandza, sendo claro que no português a ligação do sânscrito de canabis é literalmente o popular termo Ganza, enquanto que na variante gansa iríamos para outras visões mitológicas de patos.

Sem esforço adicional, vemos nomes como Asturcani, Lazi, Harmorica, que nos lembram directamente as Astúrias, a Lácio e a gaulesa Armorica. Se juntarmos a estes nomes, as já referidas Iberia e Albania, vemos que pouco falta para termos no Cáucaso a maioria dos nomes antigos de diferentes regiões europeias. Acrescem ainda neste mapa os rios Serbi e Olonda, e noutros mapas não é difícil encontrar nomes também com sonoridade conhecida (Telavi, Baghdati, Java, Andi, Mousa, etc.)

Alanos e Lugus 
Um outro nome identificado no mapa é o dos Alanos. Tal como Vândalos e Suevos, foram um dos povos que se lembraram de invadir o Império Romano na mesma data, atravessando o Reno em 31 de Dezembro de 406. Uma notável coordenação de tribos tão distintas, aceite oficialmente a data no livro de Próspero da Aquitânia. Se Júlio César tinha estabelecido pelas Pontes do Reno, a fronteira do Império Romano, na noite de passagem de ano em 406, terá havido uma vontade de mudar de vida em povos de paragens distintas, rumando todos com o mesmo destino - a Hispania. 
Aponta-se a pressão dos Hunos como causa deste "saltar o Reno", já antes feito pelos Visigodos de Alarico. Isto justificaria o agrupamento naquele dia de tribos que iam da Germania dos Suevos ao Cáucaso dos Alanos, e que na sua rota ibérica iriam passar pelos visigodos instalados na Aquitânia, e dividir a Hispania entre si - Suevos a norte (Galiza e Cantábria), Alanos ao centro (da Lusitânia até à Catalunha), e Vândalos ao sul (na Andaluzia, que empresta o nome - Andalus ~ vAndalus). 

Convirá aqui lembrar que os Vândalos seriam originários do Sul da Polónia, de uma zona próxima da Galicia polaca-ucraniana, e a migração para paragens da Galiza, merece uma coincidência no nome, tal como o nome do povo Lugii identificados hoje aos Vândalos. Este nome Lugii parecendo declinação latina, não se deverá desligar de Lugh ou Lugus, divindade celta.
A tripla cabeça de Lugus, talvez por isso divindade 
associada a Mercúrio ou Hermes, Trimegisto.

Ora, o que se lê sobre a etimologia de Lugh é uma eventual ligação a uma raiz indo-europeia "leuk" (branco em grego), significando Luz
Por isso, é admitido que o nome Lusitania se ligue a Lugh, e não é incorrecto ligar também a Luz em Luz-itania, atendendo a que a raiz de Lugh seria Luz (aliás será mais uma questão de pronunciar bem o som "gh" como o "ch" do "z" final). Pela mesma razão em Andaluz temos o sufixo "luz", e poderá ser lido na razão de identificação entre Vândalos e Lugii, entendendo "van-da-luz" como um certo "vem-da-Lugii". Ou seja, indo por um caminho, ou por outro, parecem guiar-se por uma "Luz" comum.

Minho e Caminho a Caminha
Acresce a isto, o registado interesse de Augusto em fazer o "primeiro caminho da luz", na direcção de Lugus Augusta. Recuperando aqui um comentário de Bartolomeu Lança
Codex Calixtinus. Escrito em Cluny no sec XII, Bernard de Clairvaux (Clara Vallis), Cistercenses, foi a ordem de marcha para a iniciação do Calix.
A anterior mudança foi o Callix Ianus, iniciado por Augustus, um Príncipe ou um novo Eneas ou Rómulo, que funda um novo centro a partir do qual se repete a cosmogonia. O Sacramentum por vontade de Augusto é alcançar a convivência da paz entre Roma e os Indios do Ocidente.
... e sobre este Codex endereçado ao Caminho de Santiago, e atribuído ao Papa Calisto II, pode encontrar-se mais informação (aqui e aqui, por exemplo).

Ora, apesar de me afastar frequentemente da linha inicial do texto, estas diversas direcções vão aparecendo, umas atrás das outras, e dificilmente consigo escrever todas.
Não gostaria de deixar de notar que o "g" pode aparecer por vezes para denotar uma aspiração como num "h", e nesse sentido Lugus soaria Luhus, literalmente Luz (mantemos uma palavra semelhante "Lugar" que lida como "Luhar" mostra o Luar, um sítio onde há luz, um "Lume"; e "local" deve ser lido como "lucal" onde acresce o caminho da "cale", ou o branco da cal, que veremos).

Se esta parte é claramente especulativa, deixa de ser tanto, quando entendemos que o Callix Ianus de Augusto, tem as duas cabeças de Iano, ou Janus, numa representação semelhante à de Lugus. 
Porém, devemos reparar que relativamente a Lugh, falta uma cabeça...
Assim, adicionadas às duas cabeças de Iano, ficaria outra no Caminho de Iago - Sant'Iago, apóstolo decapitado, que passaria a ser a referência do novo Caminho...
Este "caminho" não seria exactamente no rio Minho, ainda que Caminha esteja na sua foz - e por manifesta coincidência, o Minho passa pela cidade de Lugo.
Lugo seria o fim do caminho Callix Ianus, mas continuando o caminho pelo Minho, para quem mais caminha, tinha Caminha. (Tal como depois, na nova compustura de Compostelo, muitos peregrinos continuavam até ao mar, até Finisterra).
Haveria mais a contar nesta Cale, ou neste Callix, de cálice, ou cale-se, mas passamos a outra parte.  

Tanas
O Tanas é a outra componente Luz-i-Tana. Porque, o sufixo "Tana" ou "tânia", aplicou-se a territórios ocidentais - Lusitânia, Mauritânia, Turdetânia, Aquitânia, Britânia.
Acontece que há uma outra divindade celta - a deusa Dana, ou Ana e a deusa fenícia Tano, ou Tanit.
Se Dana, na variante fonética Danu, se associa ao Danúbio, numa espécie de Danu-rio, é muito provável que na sua forma Ana, se associe ao Guadiana, na Antiguidade chamado apenas Ana.
Este assunto tem mais variantes associando Ana à Diana celebrada em Évora.

Assim, a palavra Lusitana parece-me poder ser ligada ao par de divindades celtas: Lugh e Dana, as mais importantes divindades do panteão antigo, a luz solar e a fertilidade da terra. E sem nenhuma pesquisa deste tipo, quem entende Lusitânia como "luz-terra", chega por caminho diferente a significado análogo.
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Cal
No mito de Jasão, aparecem os Calcotauros (Khalkotauroi), onde este prefixo "calco" é suposto referir-se à característica de serem de bronze, ainda que khalkos se refira primitivamente a cobre, sendo diferente do kolkhos referente à Cólquida.
Acontece, especialmente pelo lado latino, que este "calco" também referia pedras, e em particular ao calcário branco que servia para cal. 
Temos assim juntas várias peças para o caldo no caldeirão de onde saía a cal por via do calor.

Seguindo a observação de A. Meakin que nos sítios da Cítia a palavra cauca significaria branco, notamos a semelhança fonética com calca, especialmente numa pronúncia brasileira do português que dá sentido à noção de cal associada também ao branco. Por isso, para além da ligação de Cauca a Coca feita antes (sobre a cidade, e não tanto o pó branco), esta pintura de Cal ganha ainda sentido na própria designação Calaica, de Cale. Mais uma vez, podemos unir os caminhos dos calhaus, porque o branco do leite é em grego "Gala", e nota-se a ênfase no Caminho de Santiago designar a Via Láctea, marcando assim a direcção ocidental, da Cale Lactea, numa redundância em Galactea (Galáxia). O acordar para esse caminho solar, que à noite era pintado pelo branco da Via Láctea, era dado pelos galos.

Assim, parece-nos uma especulação interessante entender o Cáucaso também como Calcaso.
Desta forma, os Calcotauros tanto poderiam ser touros do Cáucaso, como touros brancos.
A noção de "Touro Branco" não é estranha à mitologia grega, pois o rapto de Europa por Zeus, é feito sob o disfarce de Zeus enquanto touro branco.
Rapto de Europa por Zeus, disfarçado de touro branco

Repara-se que se a Ibéria é conhecida pelos seus touros negros, fomos aqui encontrar a noção de touro branco associado à outra Ibéria, caucasiana, vizinha da Albania - designação que remete a albino, ou alvo, também com o significado de branco. A menção taurina pode não referir o animal, mas sim a cultura ou uma divindade taurina (Thor, Tur - Turdulos, Turdetanos), tendo em atenção que entre os mamíferos, homem e primatas se distinguem pela visão tricolor, ao contrário de outros mamíferos, essencialmente daltónicos, onde o touro é um caso conhecido.

Como se conjugam as diferentes pedras neste caldo?
O ponto principal será o calor, que permite a cal, mas que também esteve na primeira cerâmica e metalurgia, nomeadamente no cobre. Por isso, o mesmo calor levava à cal branca, no "calco" do calcário, e à produção de "calco", o cobre (em grego). Uma simples evolução do sentido comum das palavras, em grego o branco passou a estar associado à luz em "leuko", e o cobre/bronze associado ao calor em "khalko" (acresce que "kaió", som próximo do nosso "caiou", significa arder), poderá estar na origem do mito do touro de bronze, depois decorado condicentemente.

Portanto, a colcha de "Colchis" aparece aqui numa cobertura do cobre, do "Chalcos".
Convém ponderar sobre a evolução da nossa terminologia.
Há trinta anos atrás, "ver um rato" remeter-se-ia para o animal... hoje para o adereço de computador. No futuro, desconhecendo a época exacta do texto, a palavra "rato" poderá aparecer como ambígua - e até poderá servir para especular que já haviam "ratos" antes dos computadores.

Col
Ligada à gente da Cólquida, antes da Sarmácia, aparece no mapa a designação latina Colica Gens.
A declinação cólica deriva de cólon do grego kólon, e é diferente do kolkhos da Cólquida.

Parecendo um pouco lateral a este assunto, nota-se que este "cólon" pode ser uma tripa, ou um membro (observação que Manuel Rosa costuma fazer sobre Cristobal Cólon assinar com ":").
Sem grande esforço imaginativo, podemos ligar as tripas. Porque "cólon" aparece no sentido de membro de um texto, de um poema, onde o símbolo ":" (colon) serviria a cola, a ligação. Ora o nosso percurso de escrita, assemelha-se ao enrolar de uma tripa - limitado pelas margens, vai descendo, ziguezagueante. O sentido de "cola" como membro colado nota-se ainda o sufixo latino, por exemplo, "agrícola" cola com agricultura, "vinícola" cola com vinha,  "piscícola" cola com peixe... ou cola pelo menos com piscis.
Para além deste cólon intestinal, surge a "cola" como parte final, como cauda. Já mencionámos isto a propósito da Cola do Dragão, ou Draco-Cola, sendo símbolo da Ordem do Dragão a cauda que prendia ao pescoço. Esta ordem de cavalaria juntava, por exemplo, o Infante D. Pedro e Vlad III Dracula.
No sentido de membro, a palavra "colon" derivou em "colónia", uma parte territorial que se colava ao território original. Ter Colombo com uma missão de colono é mais um aspecto de ser Cólon de uma Ordem que poderia ir dos ovinos da Cólquida, no Tosão de Ouro, até ao Dragão da Cauca-Cola.

Finalmente, o cólon termina como uma postura vertical na forma de coluna. As colunas tanto podem ser encaradas como parte do texto, quando o sentido é de "cólon" membro, como podem exibir essa verticalidade... não deixando uma coluna de ser membro de uma estrutura arquitectónica maior, até mesmo quando aparece isolada.


Colunas de Alexandre
Não é muito fácil encontrar algo escrito sobre a localização destas Colunas de Alexandre, que definiam um limite ao "mundo civilizado". 
A única descrição que encontrei foi a de Don Juan Van Halen (um nome que parece brincadeira) no livro

Long before arriving at Tchamkhor is seen a column, at the foot of which is the Russian redoubt bearing that name, and forming a kind of square. Opposite to this place, and on a steep acclivity over which the road passes, are the remains of a bridge of three arches, against which rush the rapid waters of the river Tchamkhor.
The base of the column is fourteen feet square and of equal height, and the columnv itself is extremely lofty, and resembles, though built of brick, that of the Place Vendéme, at Paris. I ascended tothe top of it by an interior staircase, which, though in a very dilapidated state, shows that it has been several times repaired to serve as an observatory in time of war. On some of the stones of the entablature, on which there appears to have been an exterior gallery, are seen some Arabic inscriptions, Which seem to be of a more modern date than the column. Some persons are of opinion that it was built in the time of Pompey, and others in that of Alexander the Great. Be this as it may, the number of ruins that are scattered about this spot seem to establish the conjecture, that this column was once the ornament of a considerable city, now inhabited by a few Cossacks.
An Armenian merchant, whom we met at Tchamkhor, ‘sold to me for five roubles a silver medal bearing the profile of Alexander the Great, which he assured me had been found among the ruins of Tchamkhor. 
Procurei Tchamkhor sem sucesso, e os nomes Tíflis e Elizabethpol, passaram entretanto a Tbilissi e Ganja (de que já aqui falámos).

Algo que se poderia assemelhar a Colunas de Alexandre, naquela região, são as ruínas de grandes portas de entrada de Qabala, considerada a mais antiga cidade do Azerbeijão.

No entanto, haverá melhores candidatos. Atribuindo-se as colunas a Alexandre Magno, seria sempre de esperar algo de grandioso... tanto mais que se pretendiam comparar às de Hércules, no outro limite bárbaro. Porém, como a grandiosidade também torna o alvo mais visível, é natural que a principal razão para o desaparecimento sem rasto, pudesse ser justamente a pretensa grandiosidade.

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13.09.2014

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Colcha

Perto de Segóvia (Espanha), há uma povoação chamada Coca, que exibe o Castelo de Coca (Séc. XV)

há indicações actuais que dizem que esta Coca seria a romana Cauca, terra calaica onde teria nascido Teodósio I, Flavius Theodosius Augustus, o último imperador a reinar sobre todo o Império Romano, após derrotar Flavius Magnus Maximus

A este propósito disse Annete Meakin, falando sobre a Galiza:
Furthermore, we learn from the chronicle of Idatius, written in the fifth century, that the Roman Emperor Theodosius was born in the town of Cauca, in the province of Galicia. No one can say with certainty where the town of Cauca was situated, but it is thought to have been somewhere between Braga and the river Minho. Now the word cauca in the language of the ancient Scythians meant "white", and the name of the mountains of Georgia which divide Europe from Asia is "Caucasus", said to have been given to them on account of their peaks being eternally "white" with snow. So here we have at least one Asiatic Iberian name given to a town of Galicia, and we should in all probability find others were we to begin to search for them.
Portanto, ou a indicação de Idatius sobre o nascimento de Teodósio na Gallaecia era errónea, a ponto de cair em zona castelhana, ou temos uma passagem de Cauca a Coca.
Aqui ficamos à coca... e tal coisa surpreendeu menos, se atendermos ao nome do rio Cauca... um rio colombiano, onde não serão estranhas a plantações de coca. E como os espanhóis não foram muito imaginativos na sua colónia de Nova Granada, podemos ver que este rio colombiano atravessa os municípios de Cartago, Filadélfia e Palestina em Caldas, Santa Fé e Caucasia em Antioquia.

Bom, mas se passarmos à versão galaica, descrita por Meakin, encontramos a Gens Flavia.
Salientámos os nomes "Flavius" de Teodósio e Maximus, porque foi esta família de gente Flavia que dominou a sucessão imperial romana após Constantino (Flavius Valerius Aurelius Constantinus Augustus). Mas cedo houve Flávios (sabinos Titus Flavius) na sucessão imperial, começando com Vespasiano. Esta primeira dinastia Flávia terminou com a ascenção de Trajano (ou Traiano), de família hispânica, e o primeiro imperador não-romano.
Ora esta Gens Flavia tinha uma cidade bem nomeada na Gallaecia - Aquae Flaviae - Chaves.
Ponte de Trajano em Chaves

 Chaves fechadas e Chaves abertas, com o escudo sobre a ponte.

Assim, parece algo natural que o galaico Teodósio fosse minhoto ou transmontano, de perto de Chaves.
Afinal, se flama é chama, também flaviae daria chávie... de Chave e talvez Xavier em opção a Flávio.

Teodósio une o império romano após uma série de guerras civis, não apenas contra outro flávio, Maximus, conhecido em Gales como Macsen Wledig (que provavelmente devia ser lido Maxen Flevis). 
Esta ligação destes Flávios à Britannia fica mais clara quando Constantino é declarado imperador em York (Eburacum) em 306 após a morte do pai, Flávio Constâncio, imperador ocidental na tetrarquia imperial.

Após a morte de Teodósio, o império é de novo dividido, e ambos os imperadores são menores.
Pelo lado ocidental, Honório vê o império desfazer-se com a entrada das tribos godas, mas surpreende a aliança com os Suevos, que são autorizados a instalar-se, justamente na província Galaica em 409.
Assim, o exército imperial romano vai em máxima força socorrer Hemerico, rei suevo, contra o ataque conjunto de Alanos e Vandalos, na Batalha dos Montes Nervasos

Nos seus comentários sobre a Gália, Júlio César tinha definido os Suevos como a tribo germânica mais temível, invocando a descrição de outras tribos na fronteira do Reno que os temiam mais que aos romanos.
É nesse sentido que César decide investir numa notável jogada psicológica - decide construir uma ponte sobre o Reno, num espaço de poucos dias... porque considerou que seria pouco impressionante o exército romano atravessar por barcaças.
Esta incursão apanhou os Suevos que abandonaram povoações, que seriam depois incendiadas pelas tropas romanas. Feita a incursão sem oposição, César retirou-se e destruiu a ponte sobre o Reno. Mais tarde, voltou a construir e destruir outra, com o mesmo resultado. Um ponto claro que marcou a diferença romana foi a sua engenharia militar, capaz de produzir em poucas semanas, ou até dias, navios ou pontes, surpreendendo os opositores. César tentou conquistar a parte galaica por invasão naval de Brigantium (La Coruña) com navios rapidamente construídos em Gades (Cadiz)... mas mais uma vez houve uma retirada dos galegos, neste caso para as montanhas.

O rio Reno marcaria a fronteira germânica, que será violada com a entrada das tribos Visigodas de Alarico. É neste contexto que também Suevos, Vandalos e Alanos atravessaram o Reno, em direcção à Hispania.
A chegada dos, antes temidos, Suevos de Hemerico parecia ser nesta fase bem aceite pelos romanos, por comparação com Vândalos ou Alanos. Dá-se ainda o caso de uma migração britânica para o reino Suevo perante a chegada dos Anglos e Saxões, onde se forma uma Britonia na Galiza (que seria, de certa forma, um regressar às origens).

De que forma adicional podemos ver esta ligação hispânica e britânica?
Bom, o nome romano para a Escócia era Caledonia e para a Irlanda Hibernia.
O H foi acrescentado, tal como o chegou a ser acrescentado para Hiberia, em vez do grego Iberia.
Portanto, no que diz respeito à parte irlandesa, vemos que apenas um "n" fez a diferença entre Ibernia e Iberia. No que diz respeito à parte escocesa, se Calaico remete a Cale (o porto Cale), certamente que também Caledonia pode remeter ao mesmo porto Cale. Portanto, para além da declaração escocesa de Arbroath e dos foles nas suas gaitas, o nome Caledonia remete ao mesmo Porto.

Acresce um outro detalhe que retorna agora à Cauca, derive isso em cacau ou coca... 
Os três reinos metidos no Cáucaso - na zona da Georgia - eram a Cólquida, a Ibéria, e a Albânia.
Ora, estes nomes vão aparecer noutras paragens, como se de colónias se tratassem.
A Ibéria na península hispânica e a Albânia na península Ilírica, notando a já referida importância de Alba Longa em Roma, na península itálica.
Por outro lado na dualidade entre Irlanda e Grã-Bretanha, uma aparece como Ibernia e outra como Albion ou Albany, em registos posteriores, mas remetidos a tempos romanos.
Falta sempre a Colquida, Colchis... uma colcha para compor esta tríade - provavelmente porque a sua paragem era posicionada, na ordem, mais a ocidente - e mais a ocidente está apenas a América.

Na mitologia diluviana de Noé, que termina nas montanhas caucasianas, a primeira cidade é Saga Albina.
Esta saga albina poderá muito bem reportar a diferenciação albina, os alvos que foram alvos de racismo, e que depois acabaram por definir a tonalidade dominante.
A marginalização albina é um fenómeno que ainda hoje se verifica, e que poderá estar na origem da saga para ocidente, no rendilhado de uma colcha complicada.

Terminamos, citando Meakin de novo:
The Iberians of the Caucasus are believed to have established themselves on the banks of the Caucasian rivers as far back as 3000 B.C. They multiplied so fast, we are told, that four hundred years after their arrival numbers of them wandered forth to seek a new home. They hurried along the northern coast of Africa and entered Spain by what was then the Isthmus of Hercules.
acrescendo:
I have not had an opportunity of following the more recent anthropological studies of Señor Anton Ferrandez in connection with the subject of the first inhabitants of Spain, but in some of his lectures in the Athenaeum of Madrid he has propounded a theory that the two primitive races of Spain were that of the Cro-Magnon and that of the Celto-Slav. His conviction had been supported, moreover, by the recent discovery of prehistoric antiquities in Egypt analogous to those that have been found in Spain such as stone instruments, ornamental vases, and pictorial engravings upon rocks, representations of men and animals. In certain cases the signs discovered on Egyptian rocks have been found to be identical with those found in central Spain (Fuencaliente, Cueva di los Letreros, etc.) ; even the red colour with which some of them were engraved appeared to be the same. 
... acrescendo às referidas antiqualhas espanholas semelhantes às egípcias, acresce recentemente a indicação de ADN ibérico em faraós egípcios.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

dos Comentários (8) - 8 de Octávio

Segue-se uma concatenação de três comentários no texto "César, Kaisers e Czares", enviados por Bartolomeu Lança. É o oitavo desta série de textos trazidos "dos comentários", e que apropriadamente calha abordar o 8 de Octávio, para além do oitavo mês do calendário, onde ficou como Augustus.
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Julio César levou 7 anos a submeter a Gália aos seus exércitos. Na Lusitânia, Roma só conseguiu instalar o seu direito após 199 anos de guerra.
Os Lusitanos, não só deram 199 anos de batalha aos Romanos, foram sim durante muitos séculos desde Viriato, Sertório ou Púnico, o povo que provavelmente mais baixas causou a Roma. No Século V, Giserico Rei dos Vandalos (batizado em Lisboa, Cristão Ariano), depois de falhado o cerco de 10 anos para a conquista de Cartago, contratou uma Armada Lusitana para proteger o seu exército e deu-se uma batalha naval em Tunis, onde os Lusos defrontaram a maior Armada Romana alguma vez reunida, mais de 1000 navios em que aproximadamente 300.0000 soldados a compunham, os guerreiros Lusitanos usavam técnicas muitos avançadas de guerrilha e contra-guerrilha, como os lança-chamas e a vela latina (séculos antes dos Árabes) que lhes permitia virar o seus navios a 45º em apenas meio minuto enquanto um navio Romano levava meia hora para a mesma manobra, a batalha durou apenas um dia.
Neste episódio dos antigos, mais uma vez sobressai o 'disparate' do encontro de forças em números que sempre impressionam. Encontramos esta relação descrita em "Os Lusíadas" no canto oitavo: "Que os muitos, por ser poucos não temamos", que ipsis verbis está no listel da heráldica do grupo de Operações Não Convencionais do exército português, membro honorário da Ordem de Aviz, actualmente com sede em Lamego, conhecidos popularmente como 'Rangers'.
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Julio e Augusto, terão tido uma importância enorme nas reformas de Roma. De Augusto não só um mês tem o seu nome de imperador (após ser iniciado) como também o seu nome de nascimento familiar, Otavianus, o oitavo mês. Ora, antes destes dois personagens, Julho e Agosto eram Quintilus e Sextilus, Setembro era o sétimo mês, embora o calendário tivesse 12 meses o ano começava em Março, até estes dois homens, o calendário era proclamado pelos Reis Sabinos, depois deixou de assim ser, o poder mudou de centro.

Propondo que "as barreiras da Antiguidade" são simbólicas, estando ligadas ao percurso solar e ao complexo de Caronte [Caronte aparece na Divina Comédia e no tecto da Capela Sistina. É o barqueiro de Hades, o barqueiro do inferno]. Assim, sem dúvida alguma que foram as navegações do Reino de Portugal que mudaram o mundo, que deram Novos Mundos ao Mundo, as Américas foram o nascimento do Novo Homem, as Indias representaram a demanda espiritual, Jerusalém o destino celestial. Oriente, América, India, Jerusalém, não eram pontos cardeais ou locais no mapa (não será por acaso que se dizia e ainda se diz, que Cabral se enganou quando ia para a India, entre outras análises que fazemos de viés), o Sul não existia como referência...só apareceu com o Cruzeiro do Sul (é interessante estudar a figura estrelar que nos indica o Sul). Então, a concepção dos ciclos de nascimento, vida e morte, foi alterada, o Espírito Santo expandiu-se das estepes Mongóis aos quatro cantos do mundo, embora o culto tivesse sido iniciado pelos Cristãos Arianos, o Espírito Santo levou séculos até ser implementado e fez correr muito sangue para não ser 'descoberto'. O ser nasce e é registado pelo Estado, casa e é registado pelo Estado, morre e é registado pelo Estado, sendo que a sua Alma está ao cuidado da instituição religiosa durante toda a sua vida até mesmo depois da morte, mas o espírito não...uma revolução daquelas faraónicas! Portanto, o Templo é o espírito e não está subjugado a nenhum poder, seja ele estatal ou religioso.
A coroa do Sacro-Império Romano (com apenas um arco que fecha)

Foi o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Otto I, o primeiro a coroar uma criança com a coroa imperial (onde estava representado o corpo, a alma e o espírito, com quatro pontas, uma cruz com uma rosa embebida nessa mesma cruz, e uma pomba, respetivamente), no sec I. Esse acontecimento provocou uma onda de violência e intolerância que durou séculos. Um Rei, também ele Germânico, Frederico Barba Ruiva foi um dos maiores percursores e adeptos do culto, bisavô de Santa Isabel Rainha de Portugal que conjuntamente com El-Rey D Dinis semearam de vez o culto no Reino de Portugal de Aquém e Além Mar (mar também terá outro significado à época, não designando precisamente o mar feito de água que envolve as placas continentais). Os Cristãos Arianos não rejeitavam Deus, só que o seu culto indicava que não eram precisos intermediários para o divino, eles cultuavam na cama, na cozinha, nos rios, nos oceanos, nas florestas.
O último Império é regido por uma criança, sem mais Reis ou Bispos. Não é matéria, não é de barro nem de metal.
A carochina, que carinhosamente indicou, parece-me de facto, uma reforma das mais importantes para a humanidade, tudo feito e comunicado pela encriptação...tinha de ser assim, tal como outros falaram por parábolas, aos portugueses coube outra missão, descobrir, isto é, por a descoberto, revelar.

A palavra também pode ser um signo. Por isso, devemos olhar para além do que vemos ou lemos com o olhos.
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Octávio Augusto, o Oitavo Filho Sagrado.
Um 8 deitado tem outra 'carga'. Oito é o número de lados nas charolas Templárias (também está na cruz pátea), é o número de direcções nas escolas de kung fu, é o número de braços de Vixnu, o número de pontos cardeais, é o número de pétalas do lotus, é o número da palavra - o verbo, é o número da ressureição de Cristo, ou seja, do nascimento do novo homem.
Augusto foi o 1º Imperador Romano, terá sido por acaso?!?!?!

"Ou seja, o uso dos metais é necessariamente posterior a uma sedentarização. Porquê?"
Porque a sedentarização trouxe a casa e a cidade, portanto, a disputa pela terra, a guerra. Os nómadas não têm esse problema, toda a terra é deles (os Masai não roubam gado, todo o gado no mundo pertence-lhes).
A agricultura pode ser uma boa variável para a interrogação, mas quando observamos os povos que viviam do mar, como podemos atribuir a classificação de nomadismo ou sedentarismo?
Será que os desenhos das cavernas são da caça ou são um ritual?
Eram sobre o passado ou para o futuro?
A caverna era uma casa ou templo?
Lá por não se verem construções não quer dizer que elas não possa ter havido, tipo camas de rede com um sistema de peles à prova de água e frio. Do lyceu também não há vestígios e não há dúvidas que existiu.

Arianos.
Aries. O Carneiro. Genitivo. Primeiro signo do zodíaco, um dos tríplices dos signos do fogo, ligado a Marte, o primeiro mês no antigo calendário romano antes de Augusto. O símbolo do carneiro é um aparelho reprodutor feminino. 
Aries Y Ovaries... a gens do ovo.

Pai, mãe e filho. Sem estes três não há família e a espécie acaba.
Explicar isto a barbudos cuja preocupação era correr atrás dos coelhos, não devia ser 'pêra doce'. Ao mesmo tempo havia "outra chatice", quando ela ficava barriguda, ninguém podia ir para muito longe, quanto mais ser nómada. (agora tb não se pode, mas pronto, sempre há o benfica/sporting)
Na minha imaginação, foi ela que comandou isto, reduzindo de um enorme tempo de gestação (que era necessário para a cria vir com o chip completo) para os recentes 9 meses e assim o grupo podia dar seguimento à diáspora, mas depois veio outra dor de cabeça, a cria nasceu sem andar, sem falar e só passado um montão de luas ficava autónoma, então bora fazer uma casa e viver juntos, depois o grande problema mesmo - "como eu provo que a casa e a terra é minha por herança"? Bora casar!
Há quem acredite que determinadas condições sociais foram impostas por certas instituições, até pode ter sido, mas se não fossem essas condições, independentemente de onde vieram, não estaríamos aqui a ler-nos.
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Estes textos seguem de conversação informal, que pode ser seguida no link
e também aqui...

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

César, Kaisers e Czares

Poucos personagens tiveram uma influência tão marcante na História Mundial quanto Júlio César, a ponto do título máximo que se usou em nações germânicas (Kaiser) e eslavas (Czar ou Tsar) ser uma derivação directa e assumida do seu nome... para mais, usada em territórios externos ao domínio de Roma. 
A tentativa mais conhecida de imitar a designação imperial cesariana foi feita por Carlos Magno, mas o epíteto Carolus teve um sucesso reduzido, e apenas nalguns países eslavos (Kralj ou Krol como título de rei).

Júlio César chamava-se, tal como o pai e o avô, Gaius Julius Caesar, sendo que os Julius Caesar faziam assim parte da família patrícia Julia, a "gente Julia" ou "gens Julia". Esta gente Julia era latina do laço Lácio, que tinha a cidade de Alba Longa, conhecida pelo templo a Jupiter Latiaris (ou seja, Júpiter Latino). 
O prefixo "Ju" é comum a Júpiter (Ju-pater) e aos Jú-lia... 
Antes da completa identificação com os deuses gregos, o panteão principal romano tinha uma trindade arcaica - Jupiter, Marte e Quirino
Júpiter sendo deus dos céus, seria também um "deus da chuva", notando que Chove é foneticamente idêntico a Jove (nome alternativo de Jupiter).

Júlio César invocava ainda a sua ligação a Vénus, e no apogeu da sua fama acabou por se ver deificado na combinação de uma trindade a seu gosto - Venus Genetrix, Divus Iulius, e Clementia Caesaris, que o sucessor Octávio Augusto tratou de acomodar de forma interessante:
Divus Iulius, Divi filius, e Genius Augusti
... basicamente - "deus pai, deus filho, e geração augusta". Portanto, aproveitando o mito do pai adoptivo, manteve o "deus Júlio", acrescentou a noção de "deus filho" - que seria o próprio Octávio, e finalmente acrescentou uma terceira divindade dedicada à "gente Augusta", já que aqui o sentido de génio é ainda o da geração da gente, e não tanto o espiritual, da geração de ideias.

Factor decisivo para a consagração do estatuto divino de Júlio César foi o aparecimento de um dos cometas mais brilhantes da antiguidade, também denominado "Estrela de César", exactamente enquanto se procediam às exéquias após o seu assassinato em 44 a.C.
com Caesar Augusto, o filho, e o cometa, a estrela do pai, Divino Júlio.

O estatuto divino de Júlio César foi definitivamente consagrado quando em 40 a.C. Marco António se tornou flamen Divu Iulius, ou seja, primeiro sacerdote do culto a Júlio César. Por razões políticas, Octávio e Marco António procuravam ser protagonistas do mito de César, e alimentaram-no, apesar da rivalidade que terminaria com a morte de Marco António, Cleópatra e Cesarião (o seu filho com César).

O legado divino do par Júlio e Augusto acabou ainda por ficar inscrito nos meses que ainda hoje usamos - Julho e Agosto. Os restantes meses estão associados a outras divindades - Janeiro a Jano, Fevereiro a Febo, Março a Marte, Maio a Maia, Junho a Juno... e quanto a Abril foi considerado por Ovídio estar ligado a Vénus, na forma de Aphrodite, perdendo aqui o h, para um Aprilis. Há ainda a possibilidade funcional de significar um "Abrir do ano", já que 1 de Abril serviria esse propósito e a mudança é ainda hoje vista como o "dia da mentira".

De qualquer forma, ainda que Camões nos indique que os deuses "todos foram de fraca carne humana", apenas os casos de Júlio César e Augusto são os mais evidentes nesse processo. 
Por exemplo, os sete dias da semana eram associados aos 7 principais astros visíveis: 
- ao Sol (Sunday), à Lua (Monday, Lunes, Lundi), a Marte (Martes, Mardi), 
- a Mercúrio (Miercoles, Mercredi), a Jupiter-Jove... Thor (Jueves, Jeudi ... Thursday)
- a Vénus (Viernes), a Saturno (Saturday)

Na trindade de Augusto, a associação entre pai e filho é espiritual, já que Octávio era sobrinho-neto de Júlio César, e a afiliação foi feita por adopção para marcar o início da dinastia juliana, quebrando com a longa tradição republicana. 
À trindade acresce o aparecimento estelar do cometa, que foi considerado o mais brilhante da antiguidade, e que antecede em poucos anos o mito cristão da Estrela de Belém.

Há assim semelhanças que não são negligenciáveis, e acresce a persistência ibérica, e sobretudo portuguesa, em usar o calendário de Augusto, a Era Hispânica, ao invés do Anno Domini, algo que se manteve até 1422.

César e Octávio na Hispania
A Hispania parece ter insistido num calendário juliano de JC (Júlio César) ao invés de JC (Jesus Cristo), marcado por Augusto em declaração de 38 a.C. 
O estabelecimento oficial do Anno Domini foi promovido por Carlos Magno que marcou a sua sagração imperial para coincidir em 800 e apesar de ser depois considerado o nascimento de Cristo em 4 a.C., tal nunca afectou a data escolhida por Carlos Magno. 
Esta influência de Carlos Magno chegou tardiamente à Hispania porque os exércitos carolíngios tombaram em Roncesvalles, não concretizando a invasão.
Assim o anacronismo não foi desfeito pelas armas, mas sim por acordo posterior, que no caso português só chegou em 1422.

A influência de Júlio César na Hispania é conhecida em dois momentos, primeiro enquanto questor e pretor da República Romana, ainda antes das suas expedições na Gália, depois na perseguição aos filhos de Pompeu, que termina na Batalha de Munda. É reportada a ambição de César quando em Gades (Cadiz) comparou os seus pequenos feitos comparados com os de Alexandre Magno, ali celebrado.
A sua incursão pela Lusitania terá sido fulcral, tendo conseguido vitórias sobre os exércitos lusitanos que permitiram uma incursão romana até Lisboa e o estabelecimento de uma paz com as populações locais.
Assim aparecem três cidades portuguesas associadas a Júlio César:
- Pax Julia (Beja), Felicitas Julia (Lisboa), Liberalis Julia (Évora)
Isto indica que a sua progressão foi alcançada pela zona alentejana - onde a fortaleza de Juromenha também foi associada a Julio-mania. A partir dessa altura César aparece com uma riqueza surpreendente em ouro, que lhe permite conduzir legiões quase em nome pessoal... e tal pode ser entendido como fruto do Tagus Aureo.

Convém notar que a Hispania romana só incluiu toda a península ibérica com Augusto.
Mesmo após Viriato as regiões lusitanas e galegas continuaram fora do domínio romano. Seria apenas com Decimus Junius Brutus (avô do Brutus que também esfaqueou César), que haveria uma transposição do rio Lima, e uma entrada para além do esquecimento do Lethes. 
Mapa da evolução do estabelecimento romano na Ibéria, 
notando a última zona de resistência galaica.

Essa foi uma "entrada à Bruto", onde se reportaram suicídios colectivos em populações que evitavam a escravatura romana. As populações ibéricas resistiram sucessivamente contra a presença romana, aproveitando isso Sertório a ponto de unir o território contra Roma. 
Brutus (avô) foi denominado Calaicus porque a sua entrada além do Lima já era considerada em território Galaico. O termo Calaico viria de Cale, ou seja do Porto, conforme diz Annete Meakin no seu "Galicia, Switzerland of Spain":
Mela and others thought, on the other hand, that the term Calaicos was derived from the name of a town called Cale. Florez says that it is certain, from the writings of Sallust, that there once existed a town of the name of Cale to the north of the Duero, and that at the mouth of that river there was a Portus Cale, from which the name of Portugal is derived;
Algo muito diferente foi feito por Júlio César, que preservava os acordos de paz, a sua Pax Julia que depois passou a Pax Romana... aliás a escolha de Clementia Caesaris para divindade, estava relacionada com a postura de clemência que César pretendia ter perante os derrotados (não se parece aqui incluir o episódio do piratas que o raptaram e que ele depois mandou crucificar).
Nesse aspecto de apaziguamento é crucial a Lei Júlia de 90 a.C., introduzida por Lucius Julius Caesar, depois da Guerra Social que exigira um tratamento igual a todos os cidadãos da península italiana - algo que depois se iria estender a todo o Império Romano.
Assim, a estratégia de César na península foi integrar os novos territórios como iguais na pax romana, dando-lhes rapidamente o estatuto de municípios romanos. Em vez da confrontação há uma sedução, em vez de uma guerra constante com uma enorme potência militar, havia a hipótese de a integrar em igualdade com as restantes regiões... algo que acabou por reduzir a resistência.

A última resistência dos povos galaicos terminou com algumas vitórias locais em 39 a.C. de Octávio Augusto, que solidificou esse domínio a norte com algumas cidades agustinas que substituiriam a importância do porto Cale, nomeadamente Bracara Augusta, que foi sede de convento galaico, tal como Lugo e Astorga foram sedes de conventos. A Lusitania seria dominada por Emerita Augusta, que de "Emerita" passou simplesmente a "Mérida", tendo depois outros dois conventos (em Beja e Santarém).
Assim, a grande estratégia romana, que permitiu a uma única cidade, Roma, emergir num grande império estável acabou por ser a forma de integrar as suas conquistas numa política de igualdade com os restantes territórios, algo exigido na Guerra Social pelos aliados italianos de Roma, e que primeiro César e especialmente Augusto acabaram por implementar em larga escala, na sua Pax Augusta. Esse ideal de governação centralizado num poder quase divino do imperador que serve como garante de paz, acabou por ser modelo seguinte para os impérios de kaisers ou czares.
Foi sobre um Império Romano, pacificado por pai e filho adoptivo, que o cristianismo encontrou as vias de comunicação da sua expansão, sendo Roma e não Jerusalém o centro de onde continuaram a fluir as ordens divinas seguintes.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Alvo de Maia (Volume 0, e 1 nº1)

A publicação PDF dos textos do blog continua muito atrasada, porque é coisa que demora algum tempo e não é especialmente algo muito motivante.

Por agora coloco aqui os links para o Volume 0, ou seja os primeiros textos que escrevi em Dezembro de 2009. Fico com a sensação que demorei menos tempo a escrevê-los do que a compilá-los neste formato...

Quanto aos textos de 2010, espero colocá-los rapidamente, começando com os textos publicados entre Janeiro e Maio de 2010, que fazem o Volume 1.


Até agora, só o ano de 2011 está completo, com os seus 8 números, fica aqui o link para essoutros:


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Besouro

Pode ler-se, no Archivo Popular (de 6 de Agosto de 1842):
É por certo para lamentar, que não haja sido possível descobrir a chave para a inteligência dos hieróglifos, que acompanham estas exumações egípcias. Consta que os sábios do Egipto usavam de três métodos de comunicação, a epistolográfica ou vulgar; a hierática ou sagrada; e a hieroglífica ou misteriosa. Alguns antiquários nestes dois últimos séculos procuraram decifrar estes hieroglíficos, especialmente um literato francês, Champollion; mas depois de ter desperdiçado muitos anos em procurar desentranhar estes misticismos, morreu de enfado por não o poder conseguir. Outro francês pretendeu ultimamente ter encontrado uma chave para descobrir o sentido daqueles escritos por meio das iniciais de alguns nomes antigos da língua egípcia, porém é já certo que a sua descoberta reduz-se a algumas inscrições em que havia maior probabilidade de as decifrar, sendo em geral falhas de exactidão. A destruição da Biblioteca de Alexandria contribuiu sem dúvida para envolver nas trevas a literatura egípcia; e até os primeiros filósofos gregos e romanos, que viajaram naquele país, berço de todos os conhecimentos intelectuais, não nos comunicaram noticia alguma do estilo hieroglífico usado naquelas academias.
Ou seja, antes das Revoluções de 1848 que varreram a Europa, parecia haver um consenso de que não tinha sido possível decifrar a linguagem hieroglífica. O artigo refere explicitamente Champollion, que é considerado hoje como aquele que conseguiu decifrar os hieróglifos, usando a Pedra de Roseta:
A Pedra de Roseta, com inscrições hieroglíficas 
e uma provável tradução em grego, foi usada para decifração.

A pedra de Roseta ficou tão famosa que também serviu de nome a uma sonda espacial que foi anunciado agora ter atingido um cometa (ver artigo da Euronews)
(não se encontram imagens reais)

Sobre toda a filmografia e enredo das novelas espaciais uso normalmente o blog Odemaia, aqui deixo apenas a interrogação sobre Champollion, e o seu famoso decifrar dos hieróglifos. Em 1842, alguns anos após a sua morte, tal estava muito longe de ser minimamente reconhecido, como foi peremptoriamente afirmado no Archivo Popular (publicação muito credível à época).
Essa dúvida, sobre a validade das traduções dos hieróglifos e da escrita cuneiforme, já a tínhamos aqui levantado, sem conhecer este texto.
Este texto surgiu por mero acaso... pelo caso do momento. Como já não publicava aqui há algum tempo, e quis ligar ao caso BES, pensei no bes-ouro, ou seja no besouro. Há coisa de uma hora atrás procurei nestes textos do Séc. XIX se havia algo escrito sobre os besouros egípcios. Neste texto do Archivo Popular dizia-se então sobre a mumificação:
Algumas vezes pintavam sobre o peito um escaravelho, insecto que em suas ideias alegóricas significava regeneração; outras vezes um ídolo como símbolo da fé que o defunto havia professado.
A regeneração aparecia assim no ciclo solar. Desaparecia um Sol ao anoitecer e depois reaparecia ao amanhecer, movimento que era visto ser simulado nos Besouros se encarregavam de empurrar os dejectos em forma de pequenas bolas.
Mas, o mais interessante não eram os besouros, era a Roseta - e não a sonda que tinha feito notícia ontem por atingir um cometa - mas sim a pedra que afinal não tinha convencido ninguém sobre a decifração dos hieróglifos, nem o próprio Champollion.

Portanto, e como já afirmei aqui, continuo a usar como fontes passadas principais as traduções do latim e do grego, e não outras linguagens supostamente decifradas. Interpretações há muitas, e até eu sem perceber patavina de hieróglifos posso fazer uma e ser tão consistente com ela, como são os outros que usam e abusam de várias interpretações, ditas oficiais.

O outro ponto importante, bem frisado no Archivo Popular, é que apesar de romanos e gregos terem sido perfeitamente contemporâneos da civilização egípcia, nada restou que pudesse esclarecer a tradução. Só este facto por si seria suficientemente estranho para podermos ver o tipo de selecção cuidada do que foi permitido guardar da Antiguidade. Aparentemente, os escribas árabes e os monges europeus, tão entretidos no seu copismo, esqueceram-se de transportar esse conhecimento. Azar... ou parece que é azar, e há de facto quem tenha a chave e se entretenha a validar traduções aqui e ali, conforme aprouver à narrativa.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Cem anos

As razões para a 1ª Grande Guerra são normalmente ligadas ao assassinato do herdeiro do trono Austro-Húngaro, Franz Ferdinand(*) por um nacionalista sérvio, mas a guerra que se iria travar entre a Sérvia e a Áustria, em 28 de Julho de 1914, dificilmente teria consequências globais apenas por isso. 
Uns dias depois a Rússia, aliada Sérvia, declara guerra, a que responde a Alemanha, e em menos de uma semana, estão envolvidas a França e a Inglaterra, por alianças declaradas.

Encontrar uma causa ou dizer que se trata de uma soma de vários factores, é só parcialmente informativo.

A ideia de uma causa estruturada, e que basicamente se resume à disputa de hegemonia entre Alemanha e Inglaterra, é mal vista, e até nalguns casos, alargando-se o seu âmbito, passa por "teoria da conspiração". Prefere-se assim algo mais politicamente correcto - distribuir culpas por diversas causas, respeitando as razões dos vencedores fora de um plano hegemónico global de longa data e extensão até ao presente. 
No entanto, convém lembrar o nexo estabelecido por Engdahl em "A Century of War", que neste ponto aponta para o abastecimento petrolífero alemão, pela via férrea Berlim-Istambul-Bagdade.
A via começou a ser construída em 1903, e em 1904 a França e a Inglaterra estabeleciam a Cordiale Entente, como oposição ao crescimento alemão.

Assim, se podemos ver a crise começar na vontade independentista da Sérvia face à Áustria, com a chamada "Guerra dos Porcos"... um problema de tentativa de independência económica sérvia, apoiada pelos franceses (1906-08), a crise dos Balcãs seria apenas um dos vários pontos de tensão, tal como o foram as crises marroquinas, pelo apoio alemão à independência de Marrocos face à França.

Desde a vitória de Waterloo, em 1815, a França abdicara de combater a única potência de cariz global - a Inglaterra... mas da reunificação alemã-prussiana surgira outro pretendente a essa hegemonia mundial - a Alemanha de Bismarck, que infligira em 1870 uma pesada derrota à França.

A 1ª Guerra seria o conflito europeu global que sucedia quase 100 anos após o término do outro - levado por Napoleão. A diferença de posições é que a Alemanha que se substituía à França. Do outro lado, estavam ainda a Rússia e a Inglaterra, como aliadas... situação que se vai repetir na 2ª Guerra.

Portanto, o poderio inglês foi desafiado primeiro pela França de Napoleão, e cem anos depois pela Alemanha, em duas guerras mundiais. Ora, desde a Guerra dos Cem Anos que a França era rival de eleição da Inglaterra, e só perdeu esse estatuto com a derrota napoleónica, entrando-se num período de paz relativa, cimentada por vários tratados de partilha das colónias.

No entanto, este equilíbrio do Séc. XIX parecia algo instável, e foi desafiado no Séc. XX, com o renascer de movimentos nacionalistas. O nacionalismo foi sempre visto como a maior ameaça ao imperalismo. O imperialismo é uma conformação à pax imperial, e o nacionalismo é visto como motivação imediata para disputas territoriais, e um constante confronto das nações.
Porém, ou a pax imperial satisfaz as nações, ou estas irão gerar movimentos que a questionarão.

A 1ª Guerra Mundial é ainda a primeira guerra tecnológica, e isso é importante.
Ou seja, de alguma forma poderia ser questionado se um domínio maior da técnica criaria uma vantagem tal que esmagasse os adversários rapidamente. Antes as guerras viviam mais de estratégia com armas algo convencionais. 
É na 1ª Guerra Mundial que passam à acção todo o tipo de invenções:
- submarinos, aviões, tanques, guerra química, etc...
Curiosamente, se um lado aparecia com uma invenção, ela nunca era suficientemente decisiva, e o opositor tinha tempo de desenvolver algo semelhante, ou mais eficaz.

O tempo de interlúdio dos anos 1930 foi algo diferente, porque o secretismo nazi permitiu sofisticar o armamento, e aparecer logo em vantagem na Blitzkrieg da 2ª Guerra Mundial.

Assim, a 1ª Guerra Mundial é caracterizada por um estranho equilíbrio, que se saldava num número incontável de mortes, numa frente de batalha que mal mexia. O equilíbrio é tal que os EUA só entram na Guerra em Abril de 1917 para compensar a saída da Rússia em Março de 1917. Uma entrada antecipada dos EUA teria decidido o evento mais rapidamente, quando o afundamento do Lusitania em 1915 teria servido o pretexto, na morte de civis americanos.
Lusitania - afundado por um submarino alemão em 1915

Curiosamente, o Lusitania será ainda usado como pretexto de entrada em guerra pelos EUA, mas com dois anos de atraso...

No uso da guerra química, podemos ver uma característica típica dos beligerantes.
Havia tratados que impediam o uso de armas químicas, na forma de projéctil. A Alemanha para não ser acusada de quebrar o acordo, decide mesmo assim libertar químicos, mas aproveitando os ventos... 
A certa altura, quebrada a restrição dos químicos, já se enviavam mesmo os projécteis.
A atitude é muito diferente, porque no lado anglo-saxónico deu-se valor ao espírito da lei, enquanto o lado alemão foi-se à sua letra... isto é recorrente, em várias circunstâncias.

Interessa talvez mais notar que o grande resultado da 1ª Guerra Mundial foi ver que a tecnologia não seria exclusivo de uma parte, e não iria alterar tão dramaticamente o resultado do confronto.
Agora, é claro que após as duas Guerras Mundiais, a paz obtida foi ainda assim intermitente, mantêm-se questões insanáveis, prontas a servir de desculpa para novas aventuras. De um lado, porque não se quer ficar inferior, do outro lado porque não se quer perder a superioridade... e esse medo é o principal rastilho para criar razões de "ataques preventivos".

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(*)... que curiosamente, é também nome de banda.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Raio ou Corisco

Quando D. João II protesta ao Reis de Espanha, sobre a viagem de Colombo, diz que tais descobertas pertenciam aos seus "domínios da Guiné" e logo prepara Francisco de Almeida uma armada para ir às Caraíbas esclarecer o assunto... 
Podemos ver que a noção da palavra "Guiné" foi evoluindo, passando a circunscrever-se à zona do Golfo da Guiné (que provavelmente seria nome primeiro do Golfo do México, por analogia às paragens caribenhas a que D. João II se referia). 
Finalmente hoje há apenas três países que partilham o nome Guiné acrescido dos sufixos Bissau, Conacri, e Equatorial.

Não vou falar aqui da polémica política actual sobre a Guiné Equatorial e a CPLP.

No entanto, é interessante a informação que surgiu recentemente (desde 2006, altura em que a Guiné Equatorial pediu a adesão): 
- D. João II teria usado em 1493 o título de "Primeiro Senhor de Corisco".
Não encontro outra referência, a não ser a divulgação na internet, começada provavelmente na Wikipedia. Por isso, não sei se tal informação é verdadeira ou não... apesar de ter aspecto de ser.

Corisco é suposto aqui referir-se a uma das ilhas da Guiné Equatorial, próxima de São Tomé, e parece tão pouco importante, que seria improvável D. João II lhe querer dar destaque especial, face às múltiplas posses que acumulava. Assim, se Guiné tinha um sentido lato, Corisco é natural que se referisse a algo diferente da pequena ilha... por muito importante que viesse a ser aí o negócio de escravos feitos nas "razias" dos Bengas, e depois propósito de comércio da Companhia da Ilha do Corisco, fundada após a Restauração em 1648.

Por outro lado, "corisco" é uma designação alternativa para "raio, relâmpago", e se alguém se poderia designar como "Senhor do Corisco" era Zeus, pela sua capacidade divina.
Assim, é compreensível que tanto se queira reduzir o assunto à pequena ilha, descoberta por Fernando Pó, algumas décadas antes, como se poderá pensar que o título que D. João II usava poderia referir-se a maior ostentação... provavelmente de poder de fogo semelhante aos coriscos. 
É até natural que a ilha não tivesse esse nome, e por necessidade de associar o título a uma paragem, na habitual política de ilusionismo, optou-se por designar uma ilha pelo Corisco de D. João II... tal como a ilha do Princípe lhe está associada.

Por outro lado, será bom não esquecer que o Carro dos Deuses, já aqui mencionado a propósito do Alinhamento Piramidal, alinha-se com aquelas ilhas de Ano Bom, Fernando Pó, S. Tomé, etc.
Ora esse Carro de Deuses, mencionado na antiguidade, e associado ao vulcânico Monte dos Camarões, é também uma referência apropriada para Corisco. 
E, se interessam as coincidências nos Camarões, o símbolo do Camaroeiro foi usado por D. Leonor e D. João II, pois o Príncipe seu filho, Afonso, acabou envolto num camaroeiro, ao ser retirado morto da margem do rio Tejo, em Santarém.

Este Carrilhão dos Deuses dos Camarões, tem à sua frente o Golfo dos Mafras.
A opção de usar Carrilhão em vez de Carro é minha, mas Mafras e não Biafras é assim explicado:
Bight of Biafra será em todo este trabalho substituído por golfo dos Mafras. Fizemos um exame bastante rigoroso a tal respeito, e tivemos occasião de ler : golfo de Biafára, golfo de Biafra ou golfo de Biaffra, golfo dos Mafras, das Mafras ou Maffras. 
Que discordâncias ! 
A porção de mar que fica entre o cabo Lopo Gonçalves e o cabo Formoso deve chamar-se golfo dos Mafras. 
A porção de mar que fica entre o cabo Formoso e o cabo de S. Paulo tem o nome de golfo de Benim. 
Tal texto é de Manuel Ferreira Ribeiro, num Relatório de Serviço de Saúde Pública de S. Tomé e Príncipe de 1869, onde justifica a opção porque 
        "O distincto escriptor Alexandre de Castilho formou uma longa lista de nomes portuguezes que os estrangeiros alteraram ou substituíram por outros"

Aquela área da Guiné Equatorial esteve sob administração portuguesa, mas por via das sucessivas derrotas do Marquês de Pombal face aos espanhóis, quer na fronteira portuguesa, quer na fronteira brasileira, acabou por ser cedida ao reino de Espanha, tal como o Uruguai, no Tratado de St. Ildefonso de 1778, por troca com a ilha brasileira de St. Catarina. Assim, não deixa de ser curioso que a parte do Golfo dos Mafras seja perdida por via da política desastrosa do Marquês, quando tanto se pretende remeter as suas falhas para D. João V.

Do tempo da dúvida entre raio ou corisco, relativamente à designação de D. João II, vamos passando sucessivamente a tempos de "raios e coriscos", recentemente alimentados a petróleo, para uma combustão rápida.

Informação Adicional:
A designação "Primeiro Senhor do Corisco" tem a seguinte origem interessante do que pude apurar:

2002 (Fevereiro): Num artigo sobre a Ilha do Corisco, Fernando Garcia Gimeno, escreve a certa altura:
Fué don Juan II de Portugal "Señor de Guinea" , el primer Señor de Corisco, 
>por el año 1493, y el primer español Don Felipe II, que recibió informes de 

... ou seja, apenas diz que D. João II, Senhor da Guiné, foi o primeiro senhor de Corisco, assim como diz que foi depois Filipe II. Não diz que usa o título, apenas diz que tomou posse.

2005 (Março): Numa página aparentemente semi-oficial da Guiné Equatorial surge então algo diferente:
Hacia 1493, don Juan II de Portugal se proclamó 
como Señor de Guinea y el primer Señor de Corisco.
Certamente com origem no texto anterior, é dito agora que D. João II se proclamou Senhor de Corisco, o que altera bastante o significado anterior.

2006 (Abril): Na Wikipedia espanhola aparece esta mesma referência, que depois vai passar na tradução para a Wikipedia portuguesa.... e está feito o caminho de uns se repetirem aos outros.
Neste momento há até livros que já escrevem isso como factual, e quase sempre da mesma forma, respeitando algo do original (a data 1493, Senhor da Guiné, Senhor do Corisco).

Quando se chega a este ponto, de um facto surge um erro de interpretação e daí pode surgir toda uma lenda justificativa.

Uma boa parte da informação é habitualmente papagueada sem cuidado de confirmação.
E o problema é muito velho... quem conta um conto acrescenta um ponto!

Esta sequência que verifiquei não impede ainda assim que D. João II possa ter usado tal título, mas fica muito mais difícil de acreditar dado o registo histórico da internet guardado pelo Google.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

As estórias e a História dos vencedores

É habitual ver escrita uma frase batida, atribuída a Orwell:

A citação completa é esta, foi escrita no final da 2ª Guerra, e vale a pena ser lida na íntegra...
During part of 1941 and 1942, when the Luftwaffe was busy in Russia, the German radio regaled its home audience with stories of devastating air raids on London.  Now, we are aware that those raids did not happen.  But what use would our knowledge be if the Germans conquered Britain?  For the purpose of a future historian, did those raids happen, or didn't they?  The answer is:  If Hitler survives, they happened, and if he falls they didn't happen.  So with innumerable other events of the past ten or twenty years.  Is the Protocols of the Elders of Zion a genuine document?  Did Trotsky plot with the Nazis? How many German aeroplanes were shot down in the Battle of Britain?  Does Europe welcome the New Order?  In no case do you get one answer which is universally accepted because it is true: in each case you get a number of totally incompatible answers, one of which is finally adopted as the result of a physical struggle.  History is written by the winners. (...)
The really frightening thing about totalitarianism is not that it commits 'atrocities' but that it attacks the concept of objective truth; it claims to control the past as well as the future. 

Avanço dos tanques alemães para recuperar na batalha de Kursk, em Junho de 1943. 
A partir desta derrota, a Alemanha não pararia o avanço russo na frente oriental.  

Como citação é curiosa a sua atribuição a George Orwell, não havendo dúvida que a tenha escrito em 1944, numa altura em que os Aliados já se estariam a preparar para a sua história, com as vitórias decisivas do exército soviético, primeiro um ano antes, em Fevereiro de 1943, em Stalinegrado, e depois em Julho ao deter nova tentativa em Kursk.

Seria daquelas frases que se diria atribuída a algum pensador da antiguidade, a Cícero, a Sun Tzu, enfim... ninguém esperaria termos que esperar até ao Séc. XX para ver isto escrito. Temos um registo proverbial 
"dos fracos não reza a história" (ver p.ex. Brava Dança dos Heróis)
.. mas não é exactamente o mesmo.

Bom, isto vem a propósito de um comentário da Amélia Saavedra, a que respondi muito laconicamente com o outro lado: "a História será escrita pelos vencedores".

Ou seja, é claro que os vencedores ocasionais vão escrevendo "estórias"... a seu belo prazer, consoante os equilíbrios e os tratados que vincularam vencedores e vencidos. 
No entanto, há outro ponto... a verdadeira História essa só poderá ser contada pelos vencedores finais.
Os vencedores ocasionais precisam da ilusão, porque é necessária ao seu poder.

Assim, uma boa medida para ver a fragilidade de um poder é ver até que ponto ele se baseia nas mentiras e contradições mais disparatadas. A menos que consideremos que é natural uma sociedade humana permanecer indefinidamente envolta em ilusionismos, ou seja, algo dopada com artes circenses, ou senão, haverá sempre um ponto de ruptura em que essas mentiras têm que cair.

O único fiel desta balança é averiguar da consistência do discurso. Se é um discurso que procura ser honesto e verdadeiro, ou se é um manta de retalhos, mal justificada, onde as contradições podem existir porque houve tratados de paz que assim o impuseram... apenas porque os vencedores preferiam uma estória à História.
Enquanto verificarmos que os vencedores actuais insistem em manter-se no caminho das "estórias", então é porque estes não parecem ser os vencedores que vão escrever a História.
Porque, vencedores há muitos, mas História sem contradições, só haverá uma.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

In hoc signo vincis

Em 1546, dá-se o Segundo Cerco de Diu, quando era vice-rei D. João de Castro, e estava como governador da cidade, João de Mascarenhas. 
Jerónimo Corte Real, contemporâneo de Camões, vai escrever um épico a propósito deste cerco, assim como também irá decorar o texto com gravuras suas.
In hoc signo vinces  (por este sinal vencemos) 
Sucesso do 2º Cerco de Diu, 

Um dos factos mais interessantes deste cerco foi o papel guerreiro de um batalhão de mulheres, lideradas por Isabel Madeira. No Séc. XIX, encontrámos uma breve descrição do seu papel:
 Por este motivo se formou uma grande Companhia de Mulheres, para que unido um e outro esforço, masculino e feminino, pudesse mais fortemente resistir à fúria dos inimigos. Entre aquelas ficaram em memória os nomes de Grácia Rodrigues, Isabel Dias, Catharina Lopes, e Isabel Fernandes, governando a todas como Capitão Isabel Madeira. Estas, de tal sorte se houveram neste memorável cerco, que não só acudiam aos reparos dos muros e baluartes, senão que, ajudando aos mesmos Soldados, a elas se deveu o não ser rendida aquela Fortaleza. 
No referido cerco de Diu, deu uma mui distinta prova do seu valor Catharina Lopes. Foi o caso, que querendo ela rechaçar o orgulho de um combatente inimigo, que se tinha avançado aos muros, caiu deles abaixo juntamente com o Soldado. Quis este fartar a sua ira, empregando todas as suas forças para suprimir as da valorosa Matrona. Esta porém, depondo a fraqueza natural, se revestiu de um tão varonil espírito, que vindo com ele à luta, o derrubou em terra, e não tendo arma alguma com que o ferir, se valeu das que o próprio furor lhe ministrava (porque como lá disse um Poeta: Furor arma ministrat. Virgil.) E assim metendo-lhe os dedos nos olhos, lhos arrancou; e depois socorrida dos seus escapou à raiva dos inimigos, que já com mão alçada corriam a vingar o insulto cometido.   "Heroínas Portuguesas". O Recreio (jornal das famílias) nº8, 1842. 
Voltando ao texto épico de Jerónimo Corte Real, o assunto é colocado de forma algo simples...
Diu era uma fortaleza com pouco mais que um milhar de habitantes, e segundo as suas contas, a totalidade dos portugueses na Índia seria pouco superior a 5 milhares de indivíduos.

Frontispício do Sucesso do Segundo Cerco de Diu

Portanto, estas fortalezas em solo alheio, eram vistas como uma afronta aos poderes locais, desde os antigos marajás, xás, ou os cãs mógois. Acrescia a isso a presença de europeus doutras nações, colocados no conselho dos regentes locais. 

Neste caso, entra um renegado italiano, chamado Coge Çofar (ou Coge Sofar, Cogeçofar)... que teve direito a nome num prato de lulas (a gastronomia portuguesa guarda muita memória). A questão basicamente começa com a tentativa do Sultão de Gujarate, Mamude, de vingar a memória do avô, Bahadur, derrotado e morto em Diu. 
Diu tinha sido cedida pelo próprio Bahadur, dada a ajuda militar fornecida pelo vice-rei, Nuno da Cunha (filho de Tristão da Cunha), em 1535, pela ajuda em batalha contra o imperador Mogul de Deli.
Só que Bahadur arrependeu-se da oferta, e quis recuperar Diu... foi nessa tentativa que foi morto, e sucedeu-lhe o neto. Em 1538 Coge Çofar, senhor em Cambaia, tinha já convocado os turcos de Solimão Pachá (Suleiman Pasha) para um primeiro cerco, repelido por António Silveira.

Logo na altura do primeiro cerco de Diu, uma mulher tinha merecido destaque, da mesma revista:
Barbara Fernandes ostentou no cerco de Diu o maior valor, pois recebendo em seus braços a um filho morto, nem uma só lágrima derramou, mostrando a mesma, ou maior constância com a noticia da morte de outro, que também morrera no conflito. E enterrando a ambos, disse para os circunstantes: Não resta mais que morrer a mãe; e dito isto tomou armas, e com elas foi ajudar os combatentes, militando com tal distinção, que, a seu exemplo, os mesmos covardes obravam proezas singularíssimas. Vendo a necessidade que havia de Soldados, formou um luzido esquadrão de mulheres, com as quais fez acções tão ilustres, que nelas poucos a imitaram, nenhum a excedeu.
Sobre o primeiro cerco de Diu, defendido por António Silveira, há um livro

Em 1546, volta a ser Coge Çofar, com o sultão Mamude, o neto de Bahadur, que vai convocar diversas nações locais para o segundo cerco de Diu.

Para além de um extenso texto em verso heróico, Jerónimo Corte Real acrescenta 8 interessantes desenhos, que quase são uma primitiva tentativa ilustrativa do texto, conforme podemos ver de seguida: