terça-feira, 1 de julho de 2014

Monarchia Lusitana de Bernardo Brito (1)

No campo do que é hoje chamado "História Alternativa", Bernardo de Brito, monge cisterciense escreveu em 1597, o primeiro volume da "Monarchia Lusitana" dedicada a Filipe II de Espanha, então rei de Portugal. 
Pelo teor algo fantasioso, a obra foi sofrendo várias críticas externas, principalmente francesas, até à sua exclusão completa de consideração ou até menção após o Séc. XIX, com Alexandre Herculano.

De qualquer forma, desde 1597 até 1750, poderia considerar-se a obra de referência, a "História Oficial" de Portugal.

Figura inscrita na capa da Monarchia Lusitana (1597)

Bernardo de Brito tem o cuidado de justificar a maioria das suas afirmações, remetendo para autores da Antiguidade. Por isso, a obra é sustentada, e tem esse valor. Por outro lado, há todo um misticismo religioso associado a registos históricos, que foi sendo alvo de crítica severa com a ascensão Iluminista. 
O domínio ibérico nos descobrimentos levou a uma procura pouco objectiva de registos. Foi pretendido uma elevação da história ibérica a níveis míticos, especialmente nos tempos filipinos, e surgiram assim versões iberocêntricas, que davam um relevo maior ao papel da Hispania na história mundial.

Com a expulsão pombalina dos jesuítas, era já quase insustentável manter tal História de Portugal, enredada em registos fabulosos. Passaram a vigorar versões afrancesadas, em que os autores, em contraponto, basicamente reduziam a história nacional a pouco mais que zero.
Tal situação agravou-se no liberalismo com a dissolução das ordens monásticas.
Para evitar uma total secundarização da história nacional, Alexandre Herculano tomou uma decisão que seria muito aplaudida - tomou a seu cargo expurgar todo o conteúdo místico anterior, e começar a história portuguesa com o nascimento de Afonso Henriques. 
A história anterior, escrita por estes monges fervorosos, seria remetida ao esquecimento - nem sequer lhe era dado o estatuto de lenda. Seriam apenas mentiras... e como mentiras, seriam apagadas.

Ora, essa decisão de Alexandre Herculano pode ser compreendida pela necessidade à época de trazer objectividade ao registo histórico, mas foi uma completa lapidação da própria história.
Porquê?
Porque não há forma de apagar uma história que fez história durante pelo menos 150 anos, e por outro lado, esqueceu que o esforço dos monges ia beber a historiadores clássicos, que para outros registos eram ainda usados e considerados credíveis.
Assim, a censura do absurdo foi também ela absurda... pela simples vontade de "não contaminar os espíritos das gentes".
Por mais que uma vez se tem visto que é pior a emenda que o soneto... e o registo de Bernardo de Brito foi história oficial, tal como o passou a ser o registo de Alexandre Herculano.
Ocultar uns, para dar relevo a outros, é mera censura simplista. 
O que se deve fazer é mostrar as versões, e criticá-las à luz da razão.
Se têm falhas, então elas devem ser tornadas evidentes - quais são e por que razão são erradas.

Se o registo de Bernardo de Brito me parece algo fantasioso, podendo ir beber a fontes de mentiras, também noutros pontos pode mostrar que ainda hoje permanecem muitas fontes de mentiras, convenientes aos vendedores das ilusões dos tempos modernos.

Segue o índice dos primeiros capítulos da Monarchia Lusitana, cujos títulos são de alguma forma auto-explicativos.

Primeiro Livro
  • Cap. 1: Da criação do mundo e do que nele sucedeu até à morte do nosso primeiro pai Adão.
  • Cap. 2: Do nascimento do patriarca Noé e do dilúvio geral, com as mais coisas que houve no mundo até à divisão das gentes.
  • Cap. 3: De como as gentes de dividiram por várias partes do mundo e como Tubal, neto de Noé, veio povoar nosso Reino de Lusitania, e fundou nele a povoação de Setúbal.
  • Cap. 4: De Ibero, filho de Tubal, e do tempo que reinou em Lusitania, e nas mais partes de Espanha.
  • Cap. 5: Do reino de Jubalda em Espanha e do que se fez neste tempo em Lusitania.
  • Cap. 6: Do rei Brigo, Senhor de Espanha, e do particular amor que teve aos Lusitanos.
  • Cap. 7: De Tago, quinto rei de Espanha, e do que em seu tempo fizeram nossos Lusitanos.
  • Cap. 8: Do rei Beto, sexto rei de Espanha, e do que sucedeu em seu tempo em Lusitania.
  • Cap. 9: De como o tirano Gerião se apoderou do Reino de Espanha, e do que em Lusitania sucedeu até à sua morte.
  • Cap. 10: De como os filhos de Gerião reinaram em Espanha, e da vinda de Hércules Líbico contra eles, e como o mais que se passou até sua morte.
  • Cap. 11: De Hispalo e Hispano, reis de Espanha, e do que sucedeu no tempo de seu reinado em Espanha.
  • Cap. 12: Do tempo em que Hércules reinou em Espanha, e dos favores que sempre fez aos Lusitanos.
  • Cap. 13: Do tempo em que na Espanha reinaram Hespero e Atlante Italo, das guerras que entre si tiveram, e da fundação de Roma, feita por gente Lusitana.
  • Cap. 14: Do tempo em que reinaram em Lusitania Sic Oro (Sicoro), filho de Atlante Italo, e seu neto Sic Ano (Sicrano), com algumas coisas particulares, que em seu tempo sucederam.
  • Cap. 15: Do reino de Sic Celeo (Siceleu) e de Luso em Espanha, e de como esta parte Ocidental se começou a chamar Lusitania, como muitas outras particularidades acerca desta matéria.
  • Cap. 16: De como Sic Ulo (Siculo) começou a governar o reino de Lusitania, e das coisas que lhe sucederam, durando seu Império, dentro e fora de Espanha.
  • Cap. 17: Do que sucedeu em Lusitania, reinando Testa nas outras partes de Espanha, com a relação de certa gente estrangeira, que passou nestas partes.
  • Cap. 18: Do que sucedeu em Lusitania, reinando em Andaluzia um rei chamado Romo, e da vinda de Baco à Espanha, com outras particularidades a este propósito.
  • Cap. 19: De Licínio, capitão dos Lusitanos, e das batalhas que teve com Palato, rei da Andaluzia, até que Hércules Grego chegou a Espanha, com favor do qual Licínio ficou vencido, e Palato seguro em seu reino.
  • Cap. 20: Do rei Eritreu, senhor de Espanha, do que em seu tempo fez a gente Lusitana com alguma opiniões acerca da Ilha Erytreia.
  • Cap. 21: De Gorgoris, rei de Lusitania, do que em seu tempo sucedeu neste reino, com algumas coisas particulares, que os autores referem deste tempo.
  • Cap. 22: Da vinda de Ulisses a Portugal, e da fundação da famosa cidade de Lisboa, feita por este capitão, com algumas coisas a este propósito.
  • Cap. 23: Como Abidis começou de reinar em Lusitania, e nas mais partes de Espanha, e das coisas que sucederam em seu reinado.
  • Cap. 24: De certa esterilidade que os autores contam, que aconteceu em Espanha neste tempo, e da verdadeira e menos duvidosa opinião que há nesta matéria.
  • Cap. 25: De várias coisas, que sucederam em Lusitania, depois desta esterilidadade acabada, principalmente da vinda de Homero a estas partes, e dos Franceses Celtas, que povoaram muita parte do nosso reino.
  • Cap. 26: Da vinda de muitas nações estrangeiras a Espanha, e das terras, que em Portugal se povoaram com a vinda delas e dos Franceses Celtas.
  • Cap. 27: Das guerras e descontos, que a gente de Andaluzia teve com os Fenícios, que viviam em Cadiz, e como os Lusitanos foram em socorro dos Espanhois.
  • Cap. 28: Das guerras que houve em Lusitania, entre os Celtas e Turdulos, e da vinda a Espanha de Nabucodonosor.
  • Cap. 29: De como a gente Portuguesa, que foi em socorro de Cadiz, tomou as armas contra os Fenícios, por lhes negarem o soldo.
  • Cap. 30: De como os Turdulos, que viviam na costa marítima de Portugal, se estenderam pelo sertão contra o nascente, e da origem dos povos Transcudanos.
Cronologia da Monarchia Lusitana, por Bernardo de Brito
  • 3962 a.C. - Criação
  • 2306 a.C. - Diluvio
  • 2161 a.C. - Tubal - 2009 a.C. 
  • 2009 a.C. - Ibero - 1970 a.C. 
  • 1970 a.C. - Jubalda - 1906 a.C. 
  • 1906 a.C. - Brigo - 1855 a.C. 
  • 1855 a.C. - Tago - 1825 a.C. 
  • 1825 a.C. - Beto - 1795 a.C. 
  • 1794 a.C. - Gerião - 1760 a.C. - Jupiter Osíris
  • 1760 a.C. - 3 Lomínios - 1718 a.C. - Hercules Lybico
  • 1718 a.C. - Hispalo, Hispano - 1669 a.C.
  • 1669 a.C. - Hercules Lybico - 1628 a.C.
  • 1628 a.C. - Sic Oro - 1584 a.C.
  • 1584 a.C. - Sic Ano - 1553 a.C.
  • 1553 a.C. - Sic Celeo - 1509 a.C.
  • 1509 a.C. - Luso - 1476 a.C.
  • 1475 a.C. - Sic Ulo - 1415 a.C.
  • (1415 a.C. - Testa - 1344 a.C. - Romo - 1311 a.C.)
  • 1332 a.C. - Baco, Lísias - 1309 a.C.
  • 1309 a.C. - Licínio vs. Palatuo - 1239 a.C. - Hercules Grego
  • 1239 a.C. - Eritreio - 1179 a.C.
  • 1156 a.C. - Gorgoris - 1079 a.C.
  • 1079 a.C. - Abidis
  • - - fuga pela seca e esterilidade na Hispania - -
  • 999 a.C. - entrada dos Celtas franceses no Alentejo
  • 932 a.C. - gregos de Rodes em Roda (Andaluzia)
  • 923 a.C. - grande incêndio dos Pirinéus
  • 752 a.C. - exploração dos Fenícios das minas de ouro e prata
  • 604 a.C. - nova chegada de gregos
  • 589 a.C. - vinda de Nabucodonosor a Espanha
Que crédito dar à Monarchia Lusitana?
Em 1493, Annio de Viterbo disse ter encontrado em Viterbo manuscritos que se julgavam perdidos, nomeadamente um registo do caldeu Beroso, que explicaria grande parte da história que faltava.
As suspeitas sobre a autenticidade dos registos de Viterbo começaram a ser questionadas nas décadas seguintes, e o próprio Bernardo de Brito em várias passagens lhe retira algum crédito, mas não o deixa de mencionar. Mas, só quase um século mais tarde é que Scaliger declara a completa falsificação da obra de Viterbo.
Entretanto, já ilustres académicos tinham compilado as suas histórias com os dados de Viterbo, nomeadamente o espanhol Floriano de Ocampo ou João Vaseo. Aparentemente a receita de Viterbo agradava em vários aspectos... a toponímia - nomes de rios, cidades, terras, ligava-se directamente a antigos reis. Não só, fazia-se uma ligação entre várias lendas, antes desconexas. Por exemplo, Jupiter e Osiris seriam o mesmo personagem, Hercules e Horus também, etc...

Mostrando-se falso esse registo, a obra de Bernardo de Brito ficaria como uma ficção desprovida de sentido, poderia ser apenas uma ficção literária... só que Bernardo de Brito vai mais longe.
Descobre, nos arquivos do Mosteiro de Alcobaça, uma crónica de Laimundo Ortega, monge do Séc. X.
É essa crónica que Bernardo de Brito vai seguir principalmente... e nalguns aspectos pareceria coincidir com o tal registo falso de Beroso.
O que acontece de seguida? 
- Já no Séc. XVIII é questionado que essa obra de Laimundo seja autêntica, e portanto, mais uma vez, perante novas acusações de falsificação, a Monarchia Lusitana sofre novo ataque.

Parece-me bastante provável que, quer Viterbo, quer Bernardo de Brito, tenham encontrado documentos antigos, provavelmente feitos no Séc. XI ou XII, que visavam criar essa história mirabolante unificadora. 
No fundo, havia necessidade disso.
Sendo a Bíblia a única referência, e dando apenas conta da história judaica, faltavam registos que não fossem apenas gregos ou romanos. Se não existiam, podem bem ter sido inventados, com maior ou menor inspiração em factos conhecidos, para satisfazer uma história das restantes paragens europeias.

Assim, se Bernardo de Brito pode ter bebido em fontes impuras, também é verdade que não segue apenas estas duas fontes. Segue centenas de autores antigos, muitos dos quais os clássicos, a partir dos quais se organizou toda a história greco-romana. 
O que acontece é que de Plínio, Estrabão, Heródoto, e outros, apenas se tem tirado o que se considera ser "politicamente correcto", e à sua maneira, a história oficial foi fazendo a sua censura, escolhendo o que interessava e não interessava. 
Nesse aspecto, a obra de Bernardo de Brito junta múltiplas fontes, numa ficção que ele considerou ser consistente, à luz do pensamento católico vigente, e com base numa extensa documentação de suporte.

Não é menos do que uma história mítica de Artur, Merlin, Lancelote, Parseval, e tantos outros personagens que, sendo míticos, não deixaram de ser apresentados a público como tal. Foram igualmente resultado de obras de monges do Séc. XII, como Geoffrey de Monmouth, e a sua relação com eventos reais ou míticos não foi prejudicada pela divulgação.
Porém, a censura às obras ibéricas teria um objectivo de evitar estabelecer o mesmo aspecto mítico, que ilude populações, e não era já conveniente que os reinos ibéricos tivessem ideias de grandezas perdidas... muito menos que competissem no tempo com a Bíblia e a família judaica.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Mau tempo no Canal das Histórias

O History Channel decidiu promover uma charada, numa mistura de Wells e Welles.
Digamos, entre a "Guerra dos Mundos" de H. G. Wells (1898) e a "Guerra dos Mundos" de Orson Welles (1938).

Well, Wells, Welles.
Chamaram-lhe a "Grande Guerra Marciana", e segundo a descrição que apresentam:
No seu 100º aniversário, "A Grande Guerra Marciana" narra a história de acontecimentos catastróficos e horrores inimagináveis de 1913-17, quando a Humanidade teve de lutar contra uma invasão de selvagens alienígenas. Com fortes e detalhados paralelismos à Primeira Guerra Mundial, a Grande Guerra Marciana funde ficção científica com uma realidade factual histórica muito específica, para explorar as tragédias do mundo real e horror único da Primeira Guerra Mundial.
Numa suposta comemoração da 1ª Guerra Mundial (1914-18),
 aparece a charada dos 100(!!) anos da Guerra Marciana (1913-17).

O enredo escolhido da história é praticamente irrelevante.
O que interessa?
Interessa que há licença para brincar com as histórias... mas nem sempre!

Implicitamente, poderíamos considerar que os alemães foram aqui retratados como "selvagens alienígenas", já que tudo se passa na clássica frente de batalha em França, com aliados de um lado... e pois, al-iens ou al-emães, do outro lado. 
Que engraçado!
Antes de ficarmos deslumbrados com tal imaginação, vejamos por que razão não foi escolhida a 2ª Guerra Mundial? 
Ah! Já sabemos, é ainda crime duvidar do "holocausto judeu"... e portanto, os produtores podem brincar com a 1ª Guerra, porque os milhões de mortos aí não se importam, mas já se for com a memória das vítimas judaicas... Ui, ui, ui! Com isso, não se brinca.
Pois, o mau gosto é selectivo.

É claro que a realização foi razoavelmente cuidada, e com a técnica actual podem fazer-se boas inclusões realistas em cenários antigos. Tal coisa dá ainda para alimentar um público que o History Channel tem procurado cativar - o público obcecado por conspirações extra-terrestres.
Porquê? Porque segue na linha de que poderiam então ser usadas novas tecnologias capturadas aos marcianos, algo que é habitualmente invocado para justificar avanços tecnológicos mais recentes.
Enfim, só faltou dizer que as aparições de Fátima foram a última palavra dos marcianos antes de se irem embora.

Tudo o que se segue é um perfeito disparate, sem mais comentários.

Porquê? Porque a invasão em causa veio de Vénus e não de Marte.
Esse é o engano sistemático que tem causado o controlo dos homens. Sim, porque o controlo é feito através das mulheres. A primeira forma religiosa era no feminino, com grandes deusas, que os homens aprenderam a adorar. Com o controlo no feminino, a sociedade passou a ser matriarcal... e assim as sociedades que se desenvolveram mais rapidamente foram essas. Numa variante, desenvolveram-se poderosas Amazonas que, quando necessário, competiam na violência com os homens. É conhecido o caso da Rainha Tomiris que exige a cabeça de Ciro.
A rainha amazona Tomiris recebe a cabeça de Ciro, o Grande.

Ciro tinha acabado de "devolver" os escravos judeus às paragens israelitas, onde se iriam encontrar com outros escravos deslocados, os hebreus. Ora, este poder hierárquico no feminino teve sempre grande importância nos bastidores. Os reis eram facilmente seduzidos por belas moçoilas, e acabavam por ser muito influenciáveis. Convém não esquecer o caso da Guerra de Tróia, tudo por causa de Helena.
Em termos de ardis, intrigas, esquemas, e arte de sedução, ninguém igualava as cortesãs... e os homens são fáceis presas perante a beleza feminina. 

É claro que tinha sido fácil às mulheres tomarem conta da sociedade, porque basicamente eram elas que definiam a escolha reprodutiva, e a educação das crianças. Desde o momento em que o líder não tinha que ser escolhido como o mais valoroso em combate, tudo se resumia a saber quantos obedeciam a quem... mais importante do que o poder físico, era o poder mental.
Só que isto não era um ponto consensual entre todas as mulheres, e muitas acabaram por ter pena dos homens serem tratados como bonecos. Assim, houve uma divisão entre as mulheres... umas decidiram tentar desenvolver uma sociedade aceitando o domínio masculino, e outras foram desenvolver uma sociedade com domínio no feminino. No entanto, estas últimas, mais poderosas, nunca deixariam que a a sociedade masculina as ameaçasse, e trataram de inventar esquemas de controlo. Usariam os homens mais cegos ao seu poder para criar uma civilização evoluída, e perturbariam a masculina com incessantes guerras. Para isso bastaria colocar umas "irmãs" nas cortes, em sacrifício de causa.

À distância, em paragens americanas, as Amazonas controlariam os destinos do velho mundo, vendo à distância se alguma civilização no masculino seria capaz de evoluir ao ponto de respeitá-las como iguais. Algo difícil, como se calcula... Como elas bem sabiam, desde o momento em que foram adoradas como deusas de fertilidade, a religião seria a maneira mais fácil de controlar o assunto, e colocarem enormes exércitos a lutar por si. Por outro lado, os homens começaram a exigir uma abstinência sexual para efeitos religiosos. Assim, as grandes religiões começaram a evitar as mulheres na sua hierarquia. Porém, a grande diferença tecnológica já estava marcada com milénios de distância.

É fácil perceber que o valor do ouro e das pedras preciosas, não foi decidido por nenhum homem voluntariamente. Um homem pouco liga a essas coisas, sem ser pelo seu efeito na troca. Quem definiu esse valor foram obviamente as mulheres, que não resistem aos adornos.
A filosofia, o budismo e o cristianismo, é claro, marcou uma grande inflexão. As mulheres começaram a ver nos homens alguma sensibilidade, para além dos trogloditas que tinham que suportar, e isso começou a baralhar as contas. A sociedade medieval no masculino estagnara, mas seria mais pela interferência externa, que levara os religiosos a definirem restrições cada vez maiores no comportamento perante "forças sobrenaturais".

A porta dos descobrimentos vai ser aberta por influência de duas mulheres, do lado espanhol Isabel, a Católica, e do lado português, por Dona Leonor, ou ainda mais, pela tia e mãe, D. Beatriz, também mãe de D. Manuel. Começa o culto alargado no feminino, a Nossa Senhora.
Porém, a sociedade no masculino continua a inspirar pouca confiança, e a concessão é muito limitada, só alguns territórios são cedidos à exploração, porque interessa apagar vestígios anteriores. Até que se ganhe maior confiança, guarda-se ainda o reduto australiano. Importa mesmo haver uma mulher a comandar os destinos seguintes, e a Rainha Isabel inglesa, servirá essa tarefa. Outros factos começam a ganhar relevo, porque uma maior liberdade na sociedade masculina permitia criações não antes vistas na sociedade amazona. Assim, subitamente, há duas tendências - a tendência inquisitorial de restringir a sua divulgação, mas também uma tendência de permitir abertura, para novas criações. Não conviria é que se continuasse a passar nos estados ibéricos, que entretanto já sabiam demais, e tinham que ser mantidos sob controlo estrito. A transferência será cuidadosamente feita por Luísa de Gusmão, que casa a filha Catarina com o rei inglês. Começa por essa via o desenvolvimento do poder inglês, por via das suas lojas... maçónicas, mas é bem sabido que as mulheres adoram lojas.
Passa a haver até novas máquinas voadoras, e isso dá uma segurança não apenas terrestre, às amazonas mais cépticas... sempre hipnotisadas pelo planeta Vénus. Assim, feita a limpeza principal, quando chega ao tempo da Rainha Vitória, é dada permissão às lojas maçónicas, e aos sempre fiéis judeus, para o conhecimento total do globo terrestre. É claro que já tinha sido conhecido pelos portugueses, mas Sebastião, com a sua permanente recusa em aceitar a tentação no feminino, tinha estragado tudo.

Ainda assim, a sociedade masculina, apesar de evidenciar criatividade suplementar, continuava com o obstinado poder dos homens sobre as mulheres. As tentativas de emancipação eram pouco claras. Foi isso que levou pois à 1ª Guerra Mundial, que pode ser vista como uma guerra entre Marte e Vénus. A vitória foi venusiana, no sentido em que se seguiram os "anos loucos", em que as mulheres se viam finalmente emancipadas na sociedade masculina. Porém, era óbvio que o bichinho do poder masculino estava ainda latente, na forma da reprodução preferenciada - uma forma amazona de seleccionar os rebentos. A 2ª Guerra Mundial foi já mais brutal, porque se tratou de uma dissidência entre facções amazonas. Uma das quais já considerava que bastava manter os homens seduzidos, numa grande ilusão, enquanto outra pretendia controlar todo o processo reprodutivo, como na velha sociedade matriarcal.

Pronto, é mais ou menos assim a história amazónica, e se algum homem achar que faz mais sentido do que a história da grande guerra marciana, prepare-se para ter problemas em casa - afinal os homens são todos iguais!
Agora coloca-se a decisão sobre ir a Marte, que é uma espécie de "ir amar-te" sob signo de Vênus, que é como quem diz "vê-nos", ou "vê nus".

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Ré vista (3)

(009) Os mapas Theatrum Mundi conferiram à época mais uma confirmação da ocultação propositada e consciente. Neste caso, o que era perfeitamente claro dos mapas era o conhecimento do Estreito de Bering, muito antes de Bering sequer ter nascido. Já era evidente dos mapas de João de Lisboa, mas quer o mapa de Lavanha-Teixeira, quer o mapa de Ortelius deixavam claro o nome desse estreito:

Como novidade ao assunto, citamos o notável ensaio de Sebastião Francisco de Mendo Trigozo:
Memórias da Literatura Portugueza - Academia Real das Sciencias (1814) Tomo VIII pág. 305

Trigozo, ao contrário de outros vai tentar sustentar cautelosamente uma posição menos oficial. Numa tentativa de salvar o corpo e a alma, não quer deixar de referir o seguinte (pág. 325):
Se déssemos crédito a alguns Authores, seriam os Portuguezes os que achassem esta nova Pedra Filosofal, do caminho às Índias pelo Norte da América(1), em que tanto trabalharam até nossos dias as Nações Marítimas da Europa (...)
... assim, para salvar o corpo não dá o crédito, mas para salvaguardar a alma deixa a nota de rodapé:
(1) Referiremos (ainda que sem lhe dar credito) o que dizem dois modernos Escritores a respeito deste nosso pretendido descobrimento. He o primeiro o Duque de Almodovar em a Historia Politica de los Establecimentos Ultramarinos de las Naciones Europeas Tom. IV. pag. 584, onde conta que Lourenço Ferrer Maldonado, Hespanhol de origem, se embarcara em 1588 no Porto de Lisboa, em hum navio de que era Piloto João Martins, natural do Algarve; e dirigindo o seu rumo pelo Nordeste á Terra do Lavrador, passando o Estreito de Davis, desembocou pelos 75 gráos de Latitude em o Mar glacial: depois navegando ao Oeste quarta de Sudueste, se achou em o Estreito de Anian, que dista de Hespanha 1750 legoas, segundo a sua derrota, e desembocou no Mar do Sul pelos 60º. Na ida atravessou o Estreito em Fevereiro, e saiho da sua boca em Março, pelo que padeceo muitíssimo frio, e escuridade: vio grande quantidade de gelo em as margens, porém nunca achou o mar gelado. Na sua volta, que foi em Junho e Julho, teve sempre muito bom tempo, e desde que cortou o Circulo Artico em os 66° 30' até que o tornou a cortar no meio do Estreito de Lavrador , jamais lhe desappareceo o Sol do Orisonte, e sempre sentio bastante calma. O Author que dá esta noticia, diz que se conserva o Roteiro manuscrito donde ella foi extrahida, escrito mui circunstanciadamente, com as correspondentes relações das correntes, marés, e sondas, com as vistas das Costas da Ásia, e dos rumos, e Costas da America &c.
O segundo lugar he tirado de Debrosses na sua Historia da Navegação às Terras Austraes Tom. I, pag. 73. Tratando da passagem da Índia á Europa pelos mares do Norte: 
« Não he fora de propósito (diz elle) accrescentar .... o contheudo n' huma Carta escrita a hum Ministro d' huma Corte, que tomava informações sobre hum semelhante facto. Os novos descobrimentos (diz a Carta) que eu fiz sobre a passagem á China pelo Norte da Europa , e de que me pedis a relação, vem a ser, de que hum navio chamado o Padre Eterno, commandado pelo Capitão David Melguer, Portuguez, partio do Japão a 14 de Março de 1660; e navegando ao longo da Costa da Tartaria, correo ao Norte até 84º de latitude; donde continuou a viajem entre Spitzeberg, e a velha Groenlândia, e passando pelo Oeste da Escossia e da Irlanda, chegou á Cidade do Porto; aonde hum Marinheiro do Havre de Grace diz ter visto haverá 28 annos este Navio o Padre Eterno, e o Capitão Melguer que morreo neste tempo, e cujo enterro o Marinheiro prezenceou. Já fiz escrever para Portugal a fim de obter, se for possível, o Jornal desta navegação. &c. »
Trigozo refugia-se em Almodovar e Debrosses, autores estrangeiros, e assim não deixa de relatar os pormenores de duas viagens.
- viagem de Ferrer Maldonado e João Martins, em 1588, que fazem a Passagem Noroeste.
- viagem de David Melgueiro, no navio Padre Eterno, que em 1660 faz a Passagem Nordeste.

Estes relatos apenas se acrescentam à evidência dos mapas Theatrum Mundi, que tinham já os contornos dessas Passagens bem evidenciados... muito para além do que depois vieram a apresentar os mapas fantasiosos do século seguinte, e até à viagem de Cook. A preocupação teatral fantasiosa nos Theatrum Mundi era só o hemisfério sul, da parte australiana, então proibida.
A parte das passagens árcticas, noroeste e nordeste, foi só causada pela mudança climática que congelou os mares e anulou a repetição da proeza até ao Séc. XX.

Esta não é a primeira vez que falo de Melgueiro, é claro, mas creio que o nome do navio e a data exacta não tinha sido referenciada. Quanto à viagem de Ferrer Maldonado creio ser a primeira vez que aqui é mencionada (ver por exemplo: uma pequena biografia canadiana ou a menção na wiki-espanhola Paso del Noroeste). A existência de documentação detalhada não redundou em nada, pois o relato do historiador espanhol, o Duque de Almodovar, em 1788, foi só tomado a sério à época, e passadas umas décadas foi decidido serem tudo falsificações... Quando se está sob alçada de uma Quádrupla Aliança as opiniões tendem a ser muito unânimes. Nem é preciso o efeito de prebendas e ameaças, basta cuidar que as vozes sejam isoladas para parecerem malucas face ao consenso. 

Lendo estes textos antigos e as caixas dos comentários, acabo por notar que aqueles primeiros meses foram de facto significativos, pois basicamente andei nos anos seguintes a relatar as mesmas conclusões que já estavam ali presentes, e de alguma forma esquecidas. Um caso bem visível é já estar neste texto a observação de que o golfo da Califórnia era chamado Mar Vermelho.

(010) Bom, mas tudo isto é quase redundante face à prova brutal do Teatro nos Descobrimentos

Não vou negar que depois da afirmação de Pedro Nunes de 1538, clamando a total descoberta, até dos penedos e bancos de areia, ficava a curiosidade de saber como seria um mapa dessa altura, com toda a informação. Não teria resistido nenhum?
Pois bem, por momentos pensei que poderia ser aquele. Aquele que estava exposto no Museu da Marinha, à vista de todos, mas em que a simples menção "Executado pelo pessoal técnico do Museu da Marinha. Maio de 1970" destruía a convicção de ser o original.

Assim, havia só uma frágil convicção, de "poder ser"...
Essa convicção passou a ser muito maior quando os "pinguins" desenhados na Gronelândia faziam sentido, dada a extinção das "grandes alcas". Portanto, não era só toda a consistência do mapa relativa às inscrições, bandeiras, e tudo o resto... até a colocação aparentemente errada dos pinguins estava certa. E estava tão certa que depois foi ocultada no Museu da Marinha, pintando-lhe um iceberg por cima. 
Ainda assim, era claramente insuficiente como prova... apenas aumentava a convicção.
A prova final surgiu da forma mais estranha - autêntica obra do Caos.
Um simples quadradinho num artigo de Steve Strong sobre aborígenes
mapa antigo no artigo de Steve Strong
... e como não me falhou a memória visual, constatei que aquele mapa da Austrália já o tinha visto - era o mapa do Museu da Marinha. Não tinha inscrições, tal como acontecia estranhamente no caso do mapa do museu, estava descolorido, e mal se viam os cangurus. Ora como tinha Steve Strong aquele mapa? Ainda hoje não sei, que não me respondeu... nem sei se chegou a ler a pergunta.
É irrelevante. 
Interessa só que apesar de idênticos ao olhar, um não sai do outro por simples descoloração ou por efeitos automáticos tipo Photoshop. Para algo desse género ficaria assim:
alteração "photoshop" do mapa do museu da Marinha
... ou parecido.
Qual é a grande diferença?
A grande diferença está no facto de uma parte da costa estar mais carregada que outra, e todo o mapa não tem equilíbrios resultantes de algo automático. Se era para dar um efeito antigo, bastava fazer isso. A única outra hipótese seria andar a escurecer manualmente todo o mapa, salientando umas partes e outras não... basicamente a pintá-lo de novo. 
Qual o interesse de fazer isso casualmente, a partir de um mapa recente do Museu da Marinha? Nenhum!
Não. Tem aspecto antigo, porque vem de um mapa antigo.
Há um limite para acreditar em coincidências. 
Depois das suspeitas anteriores, já existentes, passados 3 anos estava ali a prova, irrefutável.
Claro que é irrefutável para mim. 
Outros podem ser iludidos no que quiserem, porque há inúmeras histórias sempre prontas para inventar. A imaginação desta malta já se viu que entra em acção facilmente. Só que o Caos que dá é o Caos que tira... e nesse processo de dar e tirar, só a racionalidade fica. Senão, é só o Caos que impera.

Depois desta prova, o assunto das descobertas fica arrumado até à época de D. Sebastião, circa 1570, que é a datação muito provável do mapa. 
Obrigado a Marcelo Caetano ou ao responsável pelo atrevimento, pela coragem de 1970... pode parecer pouco, mas a guerra do ultramar poderia ser muito mais que uma obstinação por terras. Poderia ser uma luta pela verdade, em nome das gerações seguintes.



sábado, 14 de junho de 2014

Porque sim

Dicionários
Quando temos um dicionário podemos fazer o teste de seguir as definições.
Uma palavra é descrita por outras, vamos à procura das outras, e reparamos logo que nada está definido... é tudo um novelo circular, porque não se pretende assumir que há noções base, indiscutíveis.

Por exemplo, seguindo um dicionário online:
    Tempo: Série ininterrupta e eterna de instantes.
    Instante: O mais pequeno espaço apreciável de tempo.

Vemos que tempo remete para instante, e depois instante remete para tempo.
Isto irritava-me na adolescência, e cheguei a pegar numas tantas noções base e começar a definir todas as palavras a partir dessas noções base.
Hoje já não me irrita, porque vejo esta dança mal definida, e algo primitiva, como uma forma de conhecimento que não se pretende fechada. Não me irrita que "instante" esteja mal definido, porque percebo o que o autor quis dizer.
Na realidade há uma série de palavras que aprendemos e que dispensariam qualquer dicionário, mas há também muita ambiguidade no uso das palavras e não é pior procurar ligá-las a outras.

Ex-isto
Ex-isto aponta para fora disto...
O conhecimento que temos assenta assim sobre palavras, que são noções que temos seguras, que ficaram tão seguras quanto o respirar. Sabemos o que significam para nós, e julgamos que o seu significado não será diferente, ou muito diferente, para os outros. 
Porém isto nem sempre é assim... e por vezes em conversas mais profundas somos confrontados com dúvidas que pensávamos nem existirem. Aconteceu-me com uma pessoa bastante inteligente, com a devida formação académica, que sinceramente disse não saber definir o que era "existir".

Ora, ninguém está à espera de ter que explicar o que é "existir"...
Neste simples exemplo cai a ideia de se fazer um dicionário a partir de noções indiscutíveis... porque todas as noções são discutíveis, quando saem do ambiente corriqueiro.
Qual era a dúvida?
A dúvida surgiu porque em contraponto à evidência científica, que basicamente afirma só a existência ligada ao mundo físico, eu argumentei que as palavras tinham existência para além da matéria física. Ia acrescentando que a matéria física pode ser destruída, mas as palavras não... ninguém pode aniquilar a noção associada a uma palavra. Assim, as palavras têm uma existência para além da matéria.
Ora, como essa é uma existência que normalmente é desconsiderada, mas que é inegável, a pessoa em causa ficou algo baralhada, e teve que refazer conceitos, começando pela existência. 
Nisso apanhou-me de surpresa, porque não estava à espera de ter que explicar essa noção fundamental.

A existência física está ligada ao contexto físico, e no contexto físico as coisas aparecem e desaparecem.
Quando aparecem assinalamos a sua existência, até constatarmos o seu desaparecimento... tudo isto é feito através dos sentidos. Como a ciência só admite a informação vinda pelos sentidos, para a ciência a existência é essa ligação à presença física adquirida pelos sentidos. Esse é o olho que só vê para fora...

Visão Interna
Falta admitir o olho que vê para dentro.
O olho que vê para dentro é recusado pela ciência... porque a ciência recusa o pensamento
Tenta remetê-lo a umas ligações cerebrais por neurónios... mas, na melhor das hipóteses, isso seria sempre o pensamento dos outros, e nunca o pensamento do próprio. Portanto é até ridícula nessa pretensão.

É verdade... a ciência usa o pensamento, mas recusa a sua existência.
A observação dos neurónios não mostra nenhum pensamento.
Já se conseguem fazer telecomandos "guiados pelo pensamento", pelos impulsos eléctricos dos neurónios.
Isso leva ao erro de se pensar que se está a ler o pensamento... não está! 
Não há nenhuma diferença entre isso e a pessoa pegar no telecomando e carregar no botão. A diferença é usar os dedos ou não. Fisicamente, os neurónios justificam a associação entre uma disposição e os dedos, tal como podem justificar outra associação similar que evite os dedos, se tiverem outra interface. 
Tudo o resto são pretensões ignotas que resultam de manias e megalomanias.

O olho que vê para dentro, para o qual a ciência persiste em ser cega, é o olho directo ao nosso pensamento sem passar pelo cérebro ou os seus neurónios. É o olho puramente filosófico.
É nessa visão interior que encontramos as palavras (associadas a noções intemporais).
Nesse mundo interior o que vemos ou deixamos de ver não precisa de sentidos, é determinado pela visão do nosso pensamento no instante e pela memória.
Ou seja, é um mundo onde também desaparecem coisas, pelo esquecimento. A existência não é assim garantida ad eternum no pensamento individual. 
Para o pensamento a ciência disponível é a da manipulação... ou seja, levar as pessoas a associarem certas ideias a outras. Levar a pessoa a associar o Pai Natal à Coca-Cola, Einstein a inteligência, ou algo semelhante, que vai do mero marketing comercial ao marketing político.
O resto é demasiado caótico, porque o pensamento são é saudavelmente caótico.
O que não é atitude sã é transformar qualquer pensamento caótico em acção.
O que não é atitude sã é não procurar perceber a razão pela qual pensamos assim e não assado...
Toda a manipulação de domesticar o pensamento - de evitar "maus pensamentos", tão frequente na moral religiosa, resulta dessa incapacidade de distinguir a vontade de dar um chuto da acção concretizada de dar o chuto. É uma castração inútil evitar o pensamento, porque ele é latente e imprevisível. O que é útil é aceitar o pensamento e perceber as consequências da sua concretização... mas isso implica uma visão interior alargada e não um simples transporte da visão exterior para o interior.

Regras internas
O nosso mundo interior tem regras, tal como tem o exterior.
Pretende-se que não, porque se considera que o pensamento pode fantasiar o que quiser, sem consequências. Não é assim. 
Nós não somos bons com os outros, porque gostamos deles... nada disso.
Podemos pegar num pão, abri-lo com uma faca e comê-lo.
Muito bem... substitua-se a palavra "pão" por "coelho" ou por "homem" na frase anterior e veremos o desconforto a aumentar. Porquê? Porque há uma identificação connosco que é cada vez maior.
Somos bons com os outros, porque gostamos de nós. 
Repugna-nos a identificação numa situação semelhante.
Ora, essa identificação é imediata quando vemos os outros como semelhantes.
Se não o fizermos, então estamos a isolar-nos, se ninguém for semelhante a nós, estamos a condenar-nos à eterna solidão.
Esse confronto pode ser escondido, por recusa de pensamento, mas o pensamento é imprevisível, e essas associações são automáticas, pela sua lógica, quer queiramos, quer não. Não há como evitar isso... porque essas são as regras da nossa faculdade de pensamento. É frequente vermos registo de ditadores que começam a isolar-se, por verem todos como inimigos, quando o maior inimigo é o próprio - porque vê nos outros uma imagem de si. É desse inimigo, que é o próprio, que nunca se libertará, se não se curar.

O máximo simbolismo da omnipotência cristã está na sobranceria de partilhar tudo o que sabe, porque não quer estar em vantagem, quer estar em igualdade de circunstâncias... simplesmente porque não teme o outro, não vê no outro um inimigo, não quer estar em posição de domínio, porque isso apenas o isolaria. É como um adulto que sobrevive numa ilha com crianças... se não conseguisse que as crianças crescessem, iria ter que reencontrar harmonia com os outros, comportando-se como uma criança. A compreensão adulta teria que a guardar para si, ou ficaria na ilusão de que as crianças o entendiam.

Que estão
Uma questão é como um espaço em branco, que falta preencher.
Tanto podemos questionar escrevendo "O que é aquilo?" ou escrevendo "Aquilo é ____".
O espaço em branco deixado para a resposta implica a pergunta.

Para se fazer uma pergunta devemos antes de mais saber se temos consistência para a resposta.
Por exemplo, podemos questionar como funciona um computador.
Agora, que tipo de resposta queremos? Uma completa, que nos permita fazer uma máquina, ou uma resposta vaga que nos remeta para coisas que conhecemos.
A atitude é completamente diferente. 
O sujeito que explica o funcionamento de fio a pavio estará normalmente a perder o seu tempo ao entrar em detalhes, porque quem indaga quer outra resposta, ajustada ao que quer saber. Para esse efeito, uma resposta vaga e imprecisa seria muito mais útil para o receptor.
No entanto, prosseguindo na curiosidade, uma mitologia própria é definida para processos que não se entendem, nem se querem entender. Depois, pode até achar que descobriu coisas novas, que tanto podem ser afinal coisas banais que não quis ouvir logo, como podem ser ideias falsas, como até podem mesmo ser ideias novas. 
Simplesmente a disposição para a comunicação padece de diversos males.
Um dos males é o emissor e receptor falarem de coisas diferentes, parecendo que estão a falar da mesma coisa, porque os contextos e propósitos são diferentes. Uns falam de alhos, e os outros entendem bugalhos.
Por isso, é bom que antes de se questionar se perceba qual seria a resposta que pretendem obter, para o seu conhecimento.

Há assim questões que são colocadas falsamente, porque não pretendem e até ignoram respostas.
Pretendem simplesmente continuar a colocar perguntas... porque sim.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Ré vista (2)

(005) Durante o período de Janeiro a Abril de 2010 devo ter lido mais obras literárias antigas do que julguei possível. Não estava muito interessado em escrever nessa altura, estava muito mais ocupado a ler o suficiente para colar de novo as peças históricas.
A carta enviada por Angelo Poliziano a D. João II, bem como a resposta, foi muito importante para ter uma ideia independente, de como era entendida a figura do rei português no Renascimento italiano.
Angelo Poliziano (1454-94)

Por um lado, a percepção de um rei estrangeiro ao italiano Poliziano, por ele colocado acima de Alexandre Magno, Júlio César, Átila, ou até de Hércules. Por outro lado, pela estória feita história, será ainda uma figura quase desconhecida do protagonismo mundial. A carta tem o lado subjectivo de se propor a um trabalho, ao trabalho que Camões, 80 anos depois, teve que fazer em circunstâncias muito mais difíceis. Camões já pouco podia mencionar em nome de D. João II, o rei que o então já famoso humanista Poliziano queria cantar para a eternidade. Quando Poliziano refere:

                                             Então haveria eu também de absolver de toda a suspeita de falsidade o grande Platão e os annaes seculares do Egipto, que, sem prestarem crédito, fizeram menção d'esse Oceano por ti subjugado com poderosos exércitos.

... parece bastante claro a referir-se à referência de Platão tirada dos anais egípcios sobre a existência da Atlântida, ou melhor da América enquanto fronteira do Oceano Atlântico, a tal "ilha" cujas dimensões se reportavam ao conjunto da África e Ásia. Sobre a subjugação que D. João II terá feito no Oceano Atlàntico é difícil encontrar registos, a menos que nos reportemos à já mencionada presença islâmica na América.

Ambos os correspondentes vão morrer envenenados, e de alguma forma, a resposta de D. João II transmite bem a Poliziano esse perigo funesto.

(006) A questão do Tejo Mahalay, mais conhecido hoje como Taj Mahal aparece no texto seguinte, que começa por abordar a bandeira de quinas em Jerusalem, no Livro de Marinharia.
Foram duas hipóteses lançadas, tendo em conta o domínio completo que Portugal detinha sobre o Índico no Séc. XVI. Não procurei, nem encontrei, mais informação sobre estas possibilidades.
Sobre o Taj Mahal a questão é um mero detalhe da menção "Tejo Mahalay" e da construção de tão imponente monumento num subcontinente indiano sob controlo português, que certamente não se alheavam do Império Mogol sediado na nova Agra.

Mais enigmático é a bandeira portuguesa, a quina com cinco bezantes, estar colocada em Jerusalém em 1514 (ou anos seguintes).
Para nexo suplementar relevam os 3 bezantes de Bolonha (Boulogne), de onde sairiam os irmãos Bulhão, primeiros reis de Jerusalem, e cujo outro irmão Guilherme seria o avô de Afonso Henriques, segundo as investigações de Damião de Goes.
Todos estes irmãos seriam filhos de Eustácio II, Conde de Bolonha, que acompanha em 1066 o ataque bem sucedido do Duque da Normandia, Guilherme I.
Escudos de quinas em Hastings, e a admitida ilustração de Eustácio II,
completando a inscrição apagada de EVSTACIVS que segura uma bandeira 
talvez com uma quina (4 bezantes tem, o bezante central apagado é duvidoso)

O episódio de Hastings em 1066, que forma a base da monarquia inglesa posterior, é interessante.
Primeiro, é um problema de sucessão de Eduardo o Confessor, que gera uma disputa entre 3 candidatos ao trono vacante:
- Guilherme da Normandia,
- Haroldo Godwinson, Conde de Wessex
- Harald Hardrada, Rei da Noruega, aliado de Tostig Godwinson

Segundo a Tapeçaria de Bayeux, que ilustra a pretensão normanda (e é atribuída a Matilde, mulher de Guilherme), o rei Eduardo teria encarregue Haroldo de passar a coroa a Gulherme, seu primo. Numa certa desventura, Haroldo acaba capturado, liberto por resgate pago por Guilherme que o convida a uma investida contra um certo Conan II, então duque da Bretanha, de que sai vencedor.
Lembramos que desde o primeiro Conan, havia uma ligação entre as Bretanhas, e Guilherme terá tratado de afastar a Grã-Bretanha da pretensão bretã. Porém, do lado nórdico ainda aparecia Harald, rei da Noruega a reclamar o trono.
Quando Haroldo regressa e o rei Eduardo morre, é investido como rei pela nobreza Anglo-Saxónica, e a tapeçaria não deixa de colocar o Cometa Halley, que aparece em 1066, como prelúdio dos eventos seguintes.
O já rei Haroldo vê-se confrontado com duas invasões.
De um lado o seu irmão Tostig alia-se ao rei norueguês Harald e desembarcam em Inglaterra, quase ao mesmo tempo que Guilherme desembarca, vindo da Normandia.
Haroldo é vencedor em Stamford Bridge (conhecida no futebol por ser nome do Estádio do Chelsea), parando a invasão do rei norueguês Harald, que é aí morto, tal como o irmão Tostig.
Quadro moderno da Batalha de Stamford Bridge (25/09/1066).
Vitória de Haroldo sobre o rei norueguês.

Haroldo acorre então para Hastings, tentando parar a invasão de Guilherme. Nas ilustrações de Bayeux, ao contrário da cavalaria de Guilherme, o exército de Haroldo irá então lutar apeado.
Em 14 de Outubro, menos de um mês depois de Stamford Bridge, dá-se a Batalha de Hastings, onde os normandos de Guilherme saem vencedores, e Haroldo é morto.
Batalha de Hastings (14/10/1066)
Haroldo é morto por Guilherme da Normandia

A vitória de Guilherme não será imediata, a instalação de uma corte afrancesada encontrará muita resistência britânica. Os normandos provinham da concessão da Normandia a piratas vikings liderados por Rolão. Assim, a Inglaterra manteria a sua ligação a uma corte de origem viking com os normandos, depois de um longo período de domínio de invasões de anglos e saxões que se perdem na mitologia do Rei Artur, de um domínio original bretão.

Este apontamento é interessante porque mostra a importância que tinham aqueles terrenos no Canal da Mancha, da Normandia, de Bayeux, Bolonha, Brabante, Bulhão, etc.
Quando as tropas inglesas desembarcam na Normandia no dia D, há 70 anos, em Junho de 1944, é visto como um regresso para libertar a Normandia natal de Guilherme, a quem remonta a monarquia inglesa.
Aliás, até ao Séc. XIII a Normandia continuava a fazer parte dos domínios dos reis ingleses, situação que levou aos problemas da Guerra dos 100 anos, já que a troca da Normandia com a Guiana (na Aquitânia francesa) não resolvia essa velha ligação normanda à França.

A participação de Eustácio II, conde de Bolonha, ao lado de Guilherme, ganha especial relevo quando são os seus filhos, e muitos nobres da Normandia, que irão estabelecer o Reino de Jerusalém.
Entre 1066 e 1099, nesses 33 anos, a Normandia aparece na invasão da Inglaterra e da Terra Santa.
Segundo Damião de Góis, o próprio Conde D. Henrique seria neto de Eustácio II, pelo que a primeira dinastia seria Bolonhesa e não Borgonhesa.
Esta ligação à Bolonha francesa seria depois indiscutível com Afonso III, o Bolonhês, que é Conde de Bolonha por casamento com outra Matilde. Afonso III irá depor o irmão Sancho II e terminar a conquista do Algarve. 

A quina, com o número de bezantes em 5 ficou só definitivo com D. João II, e inscrições anteriores mostravam escudos até com maior número de bezantes. O número de bezantes fixado para Bolonha passou a 3, mas também variou, e podemos ver nas ilustrações de Bayeux cavaleiros com maior número de bezantes nos seus escudos.

A única informação nova, face ao já exposto antes, será assim a associação de Eustácio II a esses escudos com bezantes, provavelmente 5, que irão definir também o símbolo português. O filho, Godofredo de Bulhão, primeiro regente de Jerusalém, será associado também ao número cinco, com o símbolo de cinco cruzes.

(007) Ainda nas paragens do Mar do Norte, temos o texto Navegações Islandesas que retrata os relatos das navegações vikings que teriam chegado à América. É o conhecido período de expansão viking, que leva Rolão à Normandia como duque em 911, mas também Eric, o Ruivo, à Gronelândia em 982, e o depois o seu filho Leif Ericson à América.
Convirá referir que até ao Séc. XIII a cristinização da Escandinávia era escassa, e portanto um dos objectivos da Igreja foi também inserir a ameaça viking no quadro aristocrático europeu... de forma semelhante ao que tinha sido feito nas invasões bárbaras.
Os piratas vikings passaram a normandos, e esses normandos serviam as Cruzadas. De inimigos em raides mortais contra mosteiros e populações, os vikings iriam ser inseridos na sociedade e aristocracia europeia pela "porta grande".
O que começou na Normandia prosseguiu com a cristianização da Escandinávia.
Stavekirke Borgund - Séc. XII - Primeiras igrejas na Noruega

Um dos aspectos curiosos na Tapeçaria de Bayeux é ilustrar o irmão de Guilherme, o Bispo Odo na sua vertente militar, com uma maça a incentivar os cavaleiros.
Essa vertente de monges militares, que tem em 1066 com Odo o seu primeiro registo visível, terá depois sequência nas Cruzadas com toda uma lista de Ordens militares de monges guerreiros.

(008) Sobre o texto Tagus Aureo é importante a citação de Juvenal, e de outros autores romanos, acerca da riqueza do Tejo enquanto fonte interminável de ouro!
Aparentemente seria algo que rivalizaria com as míticas lendas de Midas e Creso, ligadas ao minúsculo rio Pactolus, na Lídia (Turquia).
É ainda feito aqui um primeiro avanço sobre as associações à mitologia que remeterá a Ulisses de Olissipo, mas mais a Calipso, pelo nome Calipos dado ao Sado.
A associação pelos nomes serve apenas como pista e não é nenhum tipo de prova.
O que é uma prova de bom-senso é que Ulisses não iria ficar perdido no Mediterrâneo, e portanto a sua viagem foi muito além do circuito clássico. Encarar Tróia como vizinha à Grécia também não faz qualquer sentido. Ítaca estava mais longe de Micenas do que Tróia... o cerco de 10 anos que tinha afastado os gregos da pátria seria ridículo com uma Tróia ali ao lado na Turquia.
Há limites para o ridículo... e Homero não era certamente ridículo.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Computus

A marcação do tempo não é a história dos relógios.
O registo temporal começou por ser um registo da alternância entre dia e noite, seguindo-se a observação das fases lunares, e só depois do calendário solar.

Computo foi uma palavra associada ao cálculo pascal. 
A Páscoa é definida no primeiro domingo após a primeira lua cheia da Primavera. A marcação da data pascal era o cálculo mais importante a realizar na Idade Média, pois dele dependiam as outras festividades (nomeadamente a Ascenção de Jesus, comemorada 40 dias após a Páscoa, a uma Quinta-feira, chamada Quinta-feira de Espiga, ou seja, foi ontem...).
Capela da Ascenção - Jerusalém - Monte das Oliveiras

Nem sempre foi consensual a marcação da Páscoa, até porque referia a tradição judaica do mês Abib (ou Nissan ~ Abril) e por outro lado a execução de Jesus. Mesmo sendo consensual a definição, implicava observações astronómicas correctas, e as diferenças entre calendários lunares e solares complicavam os cálculos.

Putare
Computar, tal como imputar, reputar e disputar... têm atribuída origem latina a putare.
Ora, o verbo Putar, apesar da sua sonoridade inconveniente, correspondia a pensar, supor ou calcular.

"Não percebes puto" será uma maneira engraçada de dizer que não se entende "puto" como "penso".
várias teorias acerca das palavras puto e puta, e foi interessante ver doutra parte essa confirmação de "Puta" enquanto divindade associada à agricultura. 
Não há que ter pruridos induzidos por falsa cultura inibidora, que remeteu nomes de divindades para conotações sexuais puritanas. Puta é um apelido comum na Roménia, e na minha opinião é equivalente a Maia, Cíbele ou Vénus, enquanto deusas da Terra. 

Ficou claro no texto Puto de Vénus, que Puto era uma forma de Cupido. Associada ao Puto estaria obviamente no feminino, Puta, ou seja Vénus... (e "vê nus" ou "vê-nos", são alternativas).
Isto nada tem de estranho, atendendo a que os cultos de Dionísio e Cíbele promoviam orgias, e portanto as sacerdotisas do culto da divindade Puta podiam perfeitamente ser chamadas putas. Não tem que ser verdade, mas seria consistente. Por exemplo, a palavra "deputado" remeteria ao verbo "putare", de pensar, calcular, ou a um sacerdote eunuco de Puta?
Depois, a própria palavra puta não se refere só à conduta sexual, refere-se ainda hoje a um certo calculismo, a uma certa forma de ludibriar e tirar vantagem de situações por meios imorais. Por exemplo, é natural que essa facilidade sexual pudesse servir estratégias do culto.

Assim, o calculismo, tanto poderia servir para designar uma inocente computação numérica, como poderia ser posto ao serviço de outras computações, com cálculos de poder. Convém notar que as sociedades matriarcais não se impuseram pela força... já que a força física dos homens suplantaria a das mulheres sem dificuldade. 
Porém, a partir de certa altura, deixou de ser a força física a determinar a liderança social. Assim, uma sociedade matriarcal poderia ter sido imposta com computação, calculismo. Adquirida essa força mental, seria possível ao lado feminino manter um ascendente sobre a parte masculina... não tanto como amazonas guerreiras, mas como simples cultura sacerdotal. A manifestação de uma divindade masculina, um Puto, apenas como uma criança, como um cúpido destinado ao amor idealizado, pode reflectir uma rejeição ao lado violento do homem adulto, e apenas um afecto maternal ao homem criança, algo natural nessa religião mais antiga... já que, a mitologia feminina proclama: "os homens são todos iguais", e não se reportando aqui aos ideais da Revolução Francesa.

Tempo e Frequência
Bom, mas voltando ao Tempo, e esquecendo a parte de Cronos, porque já não estamos sob o signo de Touro, e também não falando do Tempo atmosférico, associado a Zeus, interessa distinguir o Tempo no movimento e na mudança.

Do ponto de vista da percepção individual, o movimento não tem que ser associado a uma mudança. Isto pode parecer estranho, mas não é a visão de algo a mexer que induz a noção temporal. A noção de mudança é feita por auxílio da memória. Resulta de saber onde estava antes e esteve depois. O movimento é apenas uma percepção vaga do fluxo que leva de um sítio ao outro... e se o movimento for suficientemente rápido, nem o vemos. A percepção visual está ajustada para décimos de segundo, e por isso com um filme a rodar a 25 imagens por segundo, não notamos diferença face à realidade. 

Hertz (Hz) é a unidade por segundo, a frequência da alteração.
O nome deriva do físico alemão Heinrich Hertz.
1 Hz é a frequência do batimento cardíaco normal, e Herz em alemão significa "coração".
Portanto, nada mais coincidente do que ter Hertz associado ao Herz!

Podemos ainda notar que o prefixo "fre" (f+re) em frequência invoca repetição noutros casos, especialmente em "freguês", mas também em "frenético", "frenesim", etc...

Interessa que se a repetição visual for superior a 25 Hz, pouco notamos visualmente (a maioria dos ecrans usa uma repetição entre 50 a 100 Hz, para conforto visual).
Curiosamente, quando termina a capacidade visual na frequência, surge a capacidade auditiva.
Ou seja, a audição humana varia entre 20 Hz e 20 000 Hz, mas não se manifesta pelo detalhe, manifesta-se por considerar essas alterações como som, ruído ou música.

Isto é importante, porque é um sinal do propósito da limitação das nossas capacidades.
Alterações superiores a 25 Hz no campo visual seriam só úteis num mundo com um caos de eventos superior ao que temos. Não estamos nesse acordo de realidade. 
Acordo vem do coração, e o nosso acordar é espelhado na frequência do batimento cardíaco. 
Quando alguém é forçado a mais de 120 batimentos por minuto, ou seja a mais de 2 Hz, ou até a 3 Hz, está prestes a sair do acordo, porque o seu coração não aguenta. Essa situação remeteria-o para outro acordo, para um mundo caótico que não é o seu... porque neste não tem 2 ou 3 Herz (corações).

Portanto, a percepção que temos da ordem visual vai no limite até aos 25 Hz. Para frequências superiores, o ouvido permite mostrar-nos que, ou se manifestam harmonicamente, em simples repetições, e funcionam como música, ou são entendidas como ruído do caos. É inútil uma deriva insana para aumento de capacidade. Ainda que as capacidades aumentem, não são ilimitadas, e acima da capacidade fica o desconhecido, para além de não evitarem o ruído. 
Do caos só podemos entender a música, a ordem, e devemos filtrar o ruído, a desordem.
Não podemos fechar a porta ao caos, porque precisamos da música na novidade entendível, mas devemos filtrá-la da poluição ruidosa, irracional.

Sem mudança não há tempo
Não haver qualquer mudança significa um congelamento... até dos relógios. 
Sem mudança, não há tempo, mas o tempo é medido pela ordem na mudança. Os relógios registam mudanças repetitivas e essas servem como referencial para as outras mudanças. 
Se todas as mudanças fossem caóticas, e nada se repetisse, também não encontraríamos relógios.

O coração é um referencial temporal no corpo relativamente à alimentação celular pela injecção de oxigénio no sangue, tal como o Sol é um referencial temporal na Terra relativamente à alimentação de cada ser. Neste sentido mais lato, o Sol funciona como coração da Terra. 
O segundo para o corpo humano é o dia para a Terra.
Assim, um dia tem 86400 segundos, e essa é a diferença proporcional entre o ciclo de alimentação celular humano regulado pelo coração, e o ciclo de alimentação animal regulado pelo Sol. Deste ponto de vista, a humanidade, com menos de 100 mil anos, é um bebé terrestre, por respeito ao ciclo biológico regulado pelo Sol.

Os animais não precisam de qualquer medida temporal, sem ser o relógio do estômago, muito ligado ao ciclo solar. A outra coordenação temporal que têm resulta de sincronização visual ou instintiva. Não precisam de relógios para marcar encontros para atacar uma presa...
A necessidade dos relógios proveio de uma necessidade humana de coordenação para além do tempo solar que regulava a percepção biológica. Passado o aspecto animal, o homem começou a definir outros ciclos temporais para coordenar acções. Devagar, horas seriam suficientes para apontar encontros, depois passou-se a espremer cada vez mais o tempo, os minutos passaram a contar, e mais recentemente, na época televisiva, até os segundos contam.
Quando o homem passou a contar os segundos, estamos a atingir o limite definido pelo coração, pelo acordo... e já não é possível espremer mais, sem entrar no caos! 

Depois, e mais importante, apesar do frenesim frenético, a mudança é cada vez menor.
O aumento da percepção leva-nos a entender coisas diferentes como iguais, e por diferentes formas parece que há uma máquina social ditada por um realejo que entrou em paranóia repetitiva e apenas produz repetições humanas, arriscando os homens a passar a realejos, para que o realejo principal justifique o seu bom funcionamento.

Os filtros que tínhamos naturalmente, que nos davam uma percepção limitada, para evitar o confronto com o caos, passaram a ser vistos como limitações. Na ânsia de conhecer mais, mais, mas sem orientação nem nexo, estaremos a mergulhar na aproximação caótica, mas já sem filtros que nos digam que informação é relevante e qual é simples ruído. Será como o sujeito que quer ouvir melhor, mas não percebe que ouvir o cantar da cigarra a quilómetros implica ouvir toda a bicharada a centenas de metros. Sem filtros próprios para decidir o que é relevante escutar, o que é informação relevante e o que é ruído, esta deriva é completamente caótica, aleatoriamente arbitrária, e parece promovida por esse próprio caos. As nossas limitações não parecem ser casuais e devem ser entendidas, para além da óbvia constatação científica. As normais limitações físicas não nos trouxeram a um inferno, foi a vontade de as superar que foi criando também situações infernais.

Tempo dos Jerónimos
Aproveito este texto, para um apontamento sobre os relógios que se podem ver nas ilustrações da Bíblia dos Jerónimos, conforme sinalizado pelo José Manuel. Como se poderá entender, o tempo que se marcava aqui pareceria correr a um ritmo mais lento...



Relógios de Pesos na Bíblia dos Jerónimos (feita em Florença, Séc. XV).

Tratam-se de relógios de pesos, que ainda não tinham pêndulo (usavam o foliot). O uso do pêndulo para sincronizar a cadência do relógio é atribuído a Galileu ou a Huyghens, já no Séc. XVII. É curioso ver também uma ampulheta, e notar que a esses relógios faltava o ponteiro dos minutos...

No Séc. XV, Filipe o Belo, Duque de Borgonha, casado com Isabel, filha de D. João I, para além de ter criado a Ordem do Tosão de Ouro, de que já falámos várias vezes, também teve aquele que é considerado como o relógio de corda mais antigo do mundo:

Se os relógios começaram a fazer parte da vida medieval, foi já no seu final que começaram a ver-se nas cidades os relógios em igrejas. O mais antigo que funciona será o de Salsbury (1386), mas mesmo antes Dante se referia ao bater do relógio (na obra Paraíso).
Só por algum prurido religioso com a herança islâmica ibérica, é que também será menos conhecida a notável obra de Al Muradi, que produziu para além de relógios, outras invenções mecânicas. O seu livro:
foi recuperado e algumas das invenções recriadas com o patrocínio, não da Andaluzia natal, mas sim do emir do Qatar.
Relógio com 3 personagens (Al Muradi)

Estamos a falar de uma obra datada pelo Séc. X, o que não deve ser considerado estranho, porque já sabemos do mecanismo de Anticitera, do Séc. I a.C. que seria mais complexo como relógio, ao incluir efemérides planetárias. Al Muradi fez ainda um mecanismo robótico, com personagens animados mecanicamente numa cena com donzelas, víboras e um criado. 
Meca parecia inspirar Mecanismos, e é também reportado um relógio com um mecanismo robotizado, que terá sido enviado a um rei francês medieval.

Ainda nessa tradição do conhecimento islâmico tem sido finalmente reconhecido que a lei de refracção da luz, atribuída a Snell e a Descartes, no Séc. XVI, estava já num manuscrito de Ibn Sahl escrito no Séc. X em Bagdad.

Outras informações, de carácter teológico, de Avicena e Averróis, apesar de serem de pensadores de religião diferente, chegaram rapidamente a influenciar os aristotélicos pensadores cristãos da Europa... e por isso seria muito estranho que relógios e outros mecanismos não fossem do conhecimento medieval dos mosteiros. Creio que o ambiente do Nome da Rosa de Umberto Eco revela todo o cuidado em manter secretos conhecimentos que abalassem a sociedade medieval. 
Quando a Caixa de Pandora foi aberta, após a Guerra dos 30 anos, houve então lugar às "reinvenções da roda"... os coches já podiam circular, e tudo parecia novo como se tivesse sido descoberto pela primeira vez. Podia até ser pela primeira vez para o próprio, mas claramente que se tratavam apenas de redescobertas, como tinha sido a redescoberta da América por Colombo.

Ainda hoje as comunidades continuam fechadas dentro dos seus conhecimentos. Um explorador que é bem conhecido no mundo islâmico - Ibn Battuta, que efectuou um périplo semelhante ao de Marco Polo, permanece quase desconhecido no mundo ocidental.
Os registos não se cruzam, as culturas continuam de costas voltadas, chineses, árabes e ocidentais todos têm histórias disjuntas, que parece não haver interesse em unir.
Convém manter a população crente numa história, e não pensar que foi enganada durante séculos.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Santelmo (2) - a nossa Malta

Este texto resulta muito do elmo neste retrato de Manuel Pinto da Fonseca:

O elmo é aqui colocado em comparação com o Elmo atribuído a D. Sebastião, que foi objecto de um outro texto Santelmo... até em sinalização de um forte de Santo Elmo em La Valleta, Malta, e seguia-se a um outro texto sobre Valetas e Gozo de Malta.

Lendo esse texto, a relação que coloquei do Elmo a Santelmo... foi, no mínimo, um bocadinho forçada pelo nome e pelo facto dos Hospitalários se terem refugiado em Malta após a conquista otomana de Rodes. A oferta tinha sido de Carlos V, e um Elmo de D. Sebastião era também de Carlos V.
Havia alguma relação, mas seria mais uma relação discursiva, que permitia ligar temas.

Ora, entretanto, Manuel Pinto da Fonseca, o 68º Grande Mestre da Ordem de Malta, entre 1741 e 1773, fez o favor de se fazer pintar em trajos anacrónicos, com armadura e elmo próprios do Séc. XVI.
É fácil ver que o elmo apresentado sobre o seu estandarte é quase idêntico ao que Rainer Dahenhardt afirma ser o elmo usado por D. Sebastião em Alcácer Quibir.
O elmo repousa sobre crescentes lunares mouros, em número de cinco no estandarte, correspondentes a 5 turcos que Manuel Pinto da Fonseca teria quinado sozinho... 
A cidade maltesa de Qormi, que usa o nome Città Pinto, por referência ao português, tem como símbolo esse brasão pessoal - a quina de crescentes.

Como sabemos nestas coisas, Pinto ter-se feito pintar assim é só mais uma de muitas "coincidências", mas dá algum jeito à relação entre Malta e o Elmo, que é colocado no meio dos crescentes quinados.

Albergue Espanhol
Com o lançamento das Cruzadas em 1095, as ordenações monásticas passaram ao seu aspecto militar, tendo-se destacado a Ordem dos Hospitalários e a Ordem dos Templários nas proezas militares na Palestina. Se a Ordem dos Templários foi extinta, tendo tido a evolução para Ordem de Cristo em Portugal, e outras possíveis evoluções maçónicas... a Ordem dos Hospitalários foi evoluindo basicamente pela posição da sua sede. 
A sucessiva expulsão dos Reinos de Jerusalém na Palestina, começada por Saladino, levou a Ordem em 1284 para Chipre, depois em 1305 para Rodes, e finalmente em 1521 para Malta, pela concessão de Carlos V, que mencionámos. Deixou de ter solo próprio quando Napoleão aí desembarca em 1798.
Apesar da Ordem ainda existir formalmente num edifício do Vaticano, e ser bem distintiva a Cruz de Malta, podemos dizer que o motto hospitalar inicial acabou por ser congregado na Cruz Vermelha Internacional, fundada por Dunant, em Genebra, 1863, e que no ano seguinte aí definiu a primeira Convenção de Genebra de 1864.

Como a Ordem congregava cavaleiros de diferentes nacionalidades, tinha uma divisão linguística... por "Langues", e havia diversos albergues - uma denominação apropriada ao motto assistencial. 
Em Malta, o Albergue de Castela incluía Castela, Leão e Portugal... mas não Aragão, que tinha outro edifício. Portanto, a aplicar-se o termo Albergue Espanhol, vemos que houve uma pequena troca prática sobre independências de Aragão e Portugal no contexto Espanhol da Malta.
Albergue de Castela - reedificado por Pinto da Fonseca
era albergue castelhano e português e é actual Residência do Primeiro Ministro Maltês.

Em 1768, tal como o Marquês de Pombal expulsara os Jesuítas, também Pinto da Fonseca expulsava os Jesuítas de Malta. A ordem era papal, e a coordenação da execução era sincronizada. 
Tem o pormenor curioso de envolver a dissolução dos Jesuítas em França por imputação de dividas do jesuíta Antoine La Vallette. Assim, se um hospitalário Valette dava nome à maltesa La Valeta, outro Valette tirava de Malta e de França os jesuítas. Portanto, é caso para dizer que os Valetes deram cartas à Malta.

Finalmente, Pinto da Fonseca acolhe Cagliostro na Ordem de Malta, e, após a sua expulsão, Cagliostro irá encontrar-se numa série de iniciativas místicas, terá fundado várias lojas maçónicas (segundo Camilo Castelo Branco), e participa no caso do colar de diamantes que abalará Maria Antonieta, e na sequência de 1789, determinará o fim da Monarquia Francesa. 

Outros portugueses na Ordem de Malta
A lista dos Grão-Mestres da Ordem dos Hospitalários e depois de Malta, pode ser vista aqui.
Tem como portugueses: 
Fernando Afonso (1202-06), filho bastardo de Afonso Henriques.
- Luis Mendes de Vasconcelos (1622-23), anterior governador de Angola, ao tempo filipino.
- Antonio Manuel de Vilhena (1722-36), que funda Floriana em Malta.
- Manuel Pinto da Fonseca (1741-73), de que aqui falámos.

Vilhena também terá deixado uma marca importante em Malta (não em Gozo), criando uma cidade com o nome Floriana, também conhecida como Borgo Vilhena. 
Ora é interessante haver duas versões consistentes sobre a origem do nome Floriana... uma diz que o nome vem do arquitecto italiano Floriani, a outra remete para o pai de Vilhena ser o Conde de Vila Flor. Provavelmente os dois acontecimentos coincidem bem, admitindo que Vilhena pretendesse imortalizar o nome do arquitecto que escolhera... e que o nome Borgo Vilhena seja então homenagem do arquitecto ao patrono!

Do ponto de vista português interessa notar principalmente os 50 anos com Grão-Mestre luso, de 1722 a 1773, com uma interrupção de 5 anos. Atendendo à importância que esta Ordem Hospitalária sempre teve no seio da cúria do Vaticano, e ao período em questão - que vai da ascensão e declínio de D. João V, ao desastre de D. José I, não é de negligenciar este "reinado" em paralelo, do Marquês de Pombal e de Pinto da Fonseca, com algumas afinidades políticas, nomeadamente na expulsão jesuíta e simpatia com a maçonaria. 
E se sobre a expulsão jesuíta poderíamos remeter a ordem papal, nunca é muito claro nestas relações de poder quem o exerce de facto, basta afinal remeter para uma "teoria de conspiração" que circulou sobre a "demissão" de Bento XVI:
Cavaleiros da Ordem Malta despedem Bento XVI,  hipótese deste artigo:

Esta "teoria da conspiração" tem apenas o "problema seguinte" - da eleição seguinte sairia Francisco, um jesuíta, e portanto parece pouco consistente com outros passados da Malta. De qualquer forma, fica o registo.