quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Descobrimentos em diversos anos e tempos (8)

Neste ponto, Galvão faz referência a "homens com esporões nos artelhos como galos", e com este tipo de descrições, é habitual ao leitor pensar em exageros, histórias inventadas, etc. Não vou colocar aqui nenhuma imagem, porque podem ser perturbadoras, mas para quem tiver dúvidas de que há coisas piores, e que a natureza é brutal com certas pessoas, fica aqui "Epidermodysplasia verruciformis", o seu nome técnico (mais vulgarmente "tree man" é usado para designar a perturbação em que pés e mãos podem crescer como raízes de árvores).

Também podemos perguntar qual o espanto de Galvão com uma "erva" que seguia o movimento do Sol, não conheceria Galvão o girassol?... A questão é que tais plantas não eram conhecidas na Europa. O girassol terá chegado da América no Séc. XVI, e neste caso não sabemos exactamente a que planta ele se refere.

Para além dos diversos detalhes, mais relacionados com a exploração castelhana, que encontra algumas inconsistência em termos de latitudes, talvez o pormenor mais delicioso é Galvão citar Alexandre Magno a propósito das mulheres persas dizendo "as persianas eram a dor dos olhos"... ora é curioso depois ser usado o termo "persianas" para o dispositivo que evita a incidência directa do sol, protegendo os olhos contra a dor.

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DESCOBRIMENTOS 
em diversos anos & tempos, 
& quem foram os primeiros que navegaram.
por António Galvão (1563)

continuação de (7)  e  (6) (5) (4) (3) (2) (1)
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A Ilha de Guape em que está nossa Fortaleza, q se agora chama Ternate, é das mais altas coisas que no Mundo se sabe, deita fogo pelo mais alto, coisa tão espantosa que se não sabe lá falar em outra. Alguns príncipes mouros, e nobres portugueses de altos pensamentos, cometeram por vezes ver isto, mas nunca lá chegaram: pelo que se fazia ainda mór conta, o que António Galvão ouvindo, determinou cometê-lo, quis Deus, e Nossa Senhora que lhe deu cima, e da coisa que se mais espantou desta jornada, foi por uma ribeira tão frigidíssima, que não havia pessoa que pudesse ter a mão nela , nem metê-la na boca: parece que proveu a natureza ali esta frialdade, como em outras aguas a imensa quentura: sendo isto debaixo da Linha, onde continuadamente o Sol reverbera.

Ilha de Ternate com o vulcão Gamalama em erupção em 2016.

Há nestas ilhas de Maluco homens com esporões nos artelhos como galos, disse-me el rey de Tidore que na ilha da Batachina os havia com rabos, e nas Dãboino [de Amboino] um bode que deitava leite por uns peitos que entre os companhões tinha. Há lá galinhas pequenas que debaixo da terra, mais de braça e meia, põem ovos maiores que patas; há muitas de carne pretas, e porcos com cornos, e papagaios mui chocarreiros a que chamam Noris. Há uma ribeira de água tão quente que se pela tudo nela, e cria peixes. Há caranguejos dos matos mui saborosos, e tão forçosos das bocas que quebram o ferro de uma azagaia. Há outros no mar velosos, e pequenos, que quem os come em proviso morre. Há umas ostras a que chamam Bras, que tem tamanhas conchas, que baptizam nelas. Há no mar pedra viva que nasce, e cria como peixe, e faz cal muito boa, e se a tiram fora, e esta até que morre nunca mais arde. Há uma árvore que como o Sol se põe enfloresce; e cai-lhe como nasce. Há aí fruta que dizem que como uma prenhe a come logo move. Há uma erva que segue o Sol de maneira que sempre anda com ele, e é coisa de admiração vê-la.

No ano de 511 no mês de Janeiro tornou Afonso dalbuquerque [de Albuquerque] de Malaca para Goa, e se perdeu a nau em que ele ia, e outras se partiram de sua companhia, e Simão dandrade [de Andrade], e alguns Portugueses foram ter às ilhas de Maldiva, que são muitas, e cheias de palmeiras, e rasas com a água, aqui o retiveram até saberem que o Governador era vindo. Eles foram os primeiros Portugueses que aquelas ilhas viram, nas quais dizem que se criam cocos debaixo de água, que são mui proveitosas contra toda a peçonha.

Neste ano de 512 partiu de Castela Ioam de Soliz [João Dias de Solis], natural de Lebrixa, piloto mor d'el rey dom Fernando, com sua licença foi descobrir a Costa do Brasil, levou a derrota dos Pições [irmãos Pinzon]. Tomou o Cabo de Santo Agostinho, seguiu sua via contra o meio-dia, costeando a ribeira e terra, légua por légua, e em xxxv [35] graus de altura achou um rio, a que os Brasis chamam Paranagaco, que quer dizer grande água, viu nelas mostras de prata, e assım lhe pôs nome Rio da Prata, e dizem ainda que foi mais adiante por lhe parecer bem a terra. Tornando a Espanha, deu de tudo a el rey dom Fernando conta, e pediu-lhe aquela governança. El rey lhe fez mercê dela, armou em Lepe três navios, e no ano de 515 e mês de Setembro tornou a este reino, onde o mataram; estes Solizes, Pições foram grandes descobridores naquelas partes, até gastarem nisso vida e fazenda.

Neste mesmo ano de 512, Ioam pouso de Liã [Juan Ponce de Léon] que foi governador da ilha de S. Ioã, armou dois navios, e foi buscar a ilha Boihuca, onde diziam os da terra que estava uma fonte que sua água tornava os velhos moços; e andou em sua busca seis meses com assaz trabalho sem achar dela nova nem que visse tal coisa; entrou em Bemini, e descobriu aquela ponta de terra firme, que está em vinte e cinco graus da parte do Norte, dia de Páscoa Florida, e por isso lhe pôs o tal nome, e por lhe parecer que acharia nela ouro, prata, e grande riqueza, a pediu a el rey dom Fernando, que foi causa de sua morte, e dano, como muitos na tal empresa tem recebido.

No ano de 513, tendo Vasco nunez de Valboa [Balboa] nova do mar do Sul, determinou passar a ele, com quanto lhe punham medo da gente da terra, por onde havia de fazer este caminho, mas ele como era esforçado e belicoso, com esses soldados que tinha que eram duzentos e noventa, determinou de se pôr neste perigo, e partiu de Doriem donde estava o primeiro de Setembro levando alguns índios da terra por guia, atravessou toda a terra, ora por paz, ora por guerra, e em um certo senhorio que se chama Careca acharam negros cativos de cabeça revolta, que nunca até então se viram, nem se sabe outros até agora em todas aquelas partes da Nova Espanha, Castela do ouro, e Peru. Houve vista Valboa do mar do Sul a vinte cinco dias do mês, chegou a ele dia de S. Miguel, e por isso pôs aquele golfam tal nome, embarcou-se em certas barcas contra vontade de Chipe, que era senhor daquela costa, que lhe rogava que o não fizesse por ser perigosa, mas ele quis saber o que era, e dizer que o navegara. Tornou-se assaz contente, com muito ouro, prata, aljofre que se lá pescava, por onde el rey dom Fernando lhe fez mercê e honra.

Neste ano, e mês de Fevereiro partiu Afonso Dalbuquerque [de Albuquerque] da cidade de Goa para Adé [Adém], e estreito de Meca, com vinte velas. Chegados àquela cidade, deram-lhe combate e passados adiante entraram o estreito, e dizem que viram no céu uma Cruz a que todos adoraram, e na ilha de Camaram invernaram. Este foi o primeiro capitão Português que deu informação daquele mar e do da Pérsia, coisas pelo mundo tão celebradas.

No ano de 1514 e mês de Maio, partiu de sam Lucas de Barramedo Pedraires davilla [Pedro Arias Dávila] por mandado del rey dom Fernando quarto governador de Castella douro, que assim puseram nome a esta província do Dariem, Cartagena, Suraba, e aquela terra que novamente se conquistava, descobria e senhoreava, levou sua mulher dona Isabel sete naus, mil e quinhentos homens nelas, assim  fez el rey a Vasco Nunez de Valboa, adiantado do mar do Sul, e de toda aquela banda.

Na entrada do ano de 515 mandou o Governador Pedraires davilla a Gaspar de Morales com cento e cinquenta homens ao Golfam de S. Miguel buscar a ilha de Tararequi, Chiapi, e Tumugoa, Caliquas amigos de Valboa, lhe deram muitas canoas que são barcos de remo, com que pasaram à ilha das Pérolas, o senhor dela lhe defendeu a desembarcação, mas Chiapi e Tumaco os concertaram de maneira que o capitão da ilha os levou a sua casa, e lhe fez bem gasalhado, e tomou água de baptismo, pôs-se nome Pedraires como o Governador, e lhe deu para ele um cesto de pérolas que pesara cem marcos, em que entrava algumas delas como avelãs, e tinham vinte e cinco, e vinte e seis, e trinta quilates, e deu-se por esta mil e duzentos castelhanos. Esta ilha de Taraqueri está em cinco graus de altura da parte do Norte.

[poderá referir-se ao Arquipélago das Pérolas, mas estas ilhas estão a 8ºN]

Neste mesmo ano de 515 e mês de Março, mandou o Governador descobrir terra a Gonçalo de Badajoz, e deu-lhe oitenta soldados, partiram de Dariem, e foram a Nombre de Dios, onde chegou a eles Luiz de Mercado com cinquenta homens mais que o Governador mandava. Em sua ajuda assentaram descobrir da parte do Sul, por dizerem que era terra mais rica, tomaram índios por guias, foram ao longo daquela Costa, onde viram escravos ferrados, como nós acostumamos, depois de passarem assaz terras, e trabalhos, ajuntaram muito ouro e quarenta escravos para seu serviço, o Casique palisa [Cacique Palisa] deu sobre eles, e tomou-lhes tudo.

Sabendo o Governador esta nova no mesmo ano de 515 mandou a vingar por seu filho Ioã ayres Davila [Juan Arias Davila], e descobrir por mar e costa, o Alcaide Gaspar de Espinosa, que era passagem mui frequentada do Peru, e Nicaraga [Nicarágua], daqui foram ao Ponente ao Cabo da Guerra, que está em pouco mais de seis graus da parte do Norte, e daí à ponta de Borica, e o Cabo Branco que está em oito graus e meio, descobriram duzentas e cinquenta léguas, segundo eles diziam, e povoaram a cidade de Penama [Panamá]. 

No mesmo anno de 515 e mês de Maio mandou Afonso dalbuquerque [de Albuquerque] Governador da Índia, da cidade Dormuz [de Ormuz] Fernão Gomes de Lemos com embaixada ao xequismael [Xeique Ismael] senhor da Pérsia, e dizem que atravessaram por ela trezentas léguas, e que é uma bela França; o Xeque Ismael andava à caça, e pescaria de trutas que há aí muitas, e as mais formosas mulheres da Redondeza, e assim o aprova o grande Alexandre quando dizia por elas - que as Persianas eram dor dos olhos.

Exemplo - Iranian girls

3 comentários:

  1. Prezados e prezadas, saudações; este importante trabalho termina neste número 8? Não encontro a sequência, se há uma poderiam por gentileza me indicar onde encontrá-la?

    Muito obrigado pelo excelente e útil trabalho e a atenção de vossas senhorias.

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    1. Prezado anónimo, termina no nº8, porque foi iniciativa pessoal e gratuita.
      Experimente-se perguntar às entidades que recebem muitos milhares, ou milhões de euros, para nada fazerem, nem receberem queixa alguma pela sua incompetência.

      Além disso, em Portugal, passou a vigorar uma lei de Censura, desde 8 de Maio de 2021,
      contra pessoas singulares, de jure ou de facto, que produzam, reproduzam ou difundam narrativa considerada "desinformação"

      Ora, "informação" é entendida pelas entidades oficiais, como uma história de crianças, de príncipes e princesas, de heróis e vilões, há muito consagrados, e divididos entre bons e maus da fita.
      Por isso, só lembrar este livro de António Galvão, comentar e dar-lhe significado, já é uma heresia, que quebra a narrativa do status-quo, que não é apenas ditado pela ordem em Portugal, mas sim por toda a desordem maçónica internacional, em que a deslavada incompetência e a insidiosa corrupção são sinónimos.

      Obrigado pelo comentário.

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  2. Saudações prezados e prezadas, fico enormemente decepcionado que um trabalho importante e útil, sobre uma obra ainda mais importante e útil, tenha sido interrompido pela censura pura e simples.

    Sou aluno da disciplina de História Ibérica do curso de bacharelado em História da Universidade de São Paulo (USP), esta obra é uma das três que nos foram recomendadas pela professora que ministra a citada disciplina para ser analisada criticamente em um trabalho acadêmico que servirá para a composição da nota final.

    Como podem ver, aqui no Brasil não entendemos este livro como sendo desinformação, muito pelo contrário, é tido em conta de uma obra valiosa para a percepção do processo de colonização de nosso país, e para além disso, o entendimento da dinâmica histórica que levou a constituição do Brasil como, ao menos em teoria, um país independente.

    Só nos resta lamentar e repudiar vivamente tal censura que bloqueia informação sem pejo nem reprimenda, e agradecer mais uma vez a iniciativa e a disposição deste blog em divulgar informação muito útil - indispensável mesmo - sem outra intenção que não seja instruir.

    Obrigado mais uma vez, contem com meu modesto apoio, é pouco, mas é sincero.

    Um criado e admirador de vossa senborias;

    Wilson Sangiorgi Filho.

    PS:Redigi uma mensagem antes desta, mas por alguma razão ela desapareceu antes de ser enviada, caso a recebam peço desculpas pelo inconveniente da repetição, mas é muito importante para mim que fique bem claro o que acima foi exposto, ou seja, meu repúdio a toda forma de censura e meu apoio a iniciativas úteis e concretas como esta.

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