sábado, 14 de dezembro de 2019

Descoberto e Encoberto (3)


O Encoberto e o Descoberto
Aspectos da História dos Descobrimentos

(continuação) 

Capítulo 3 - Cartas de Marear

Para além da Carta de 1485 (já mostrada), na Biblioteca de Munique está a Carta “Pedro Reinel a fez”, com data atribuída de 1504, que apresentamos conjuntamente com a cópia de Cantino, um mapa cuja data é confirmadamente 1502.

Carta "Pedro Reinel a fez" (1504?)  

Cópia de Alberto Cantino (1502) - espião do Duque de Ferrara


- O que faria Reinel dois anos depois publicar uma Carta de inferior qualidade?... se não houvesse segredos no seu mapa? - Na Carta de Reinel é ignorada a Gronelândia, onde teria havido expedições conjuntas em 1472 com os Dinamarqueses, no reinado de Afonso V, que se podem ter estendido à Passagem Norte, pelo Canadá, conforme a tese de Sofus Larsen (apresentada em 1925). No mapa do espião Cantino, e depois de novas viagens pelos irmãos Corte-Real em 1500, temos este contorno para a Gronelândia:

Detalhe da Gronelândia, no mapa de Cantino e no Google...

Não parece fazer sentido Reinel piorar a sua carta do "Atlântico Norte" em 1504, havendo essa informação mais detalhada em 1502. 

Ora, uma possível hipótese é que a carta "Pedro Reinel a fez" tenha sido a "carta de trabalho" para o Tratado das Tordesilhas... toda a ênfase está colocada no(s) meridiano(s), e assim a datação 1494 é a mais provável. Este formato de Reinel parece ter feito escola, havendo uma repetição posterior de Lopo Homem em 1550, que deverá já incluir um maior conhecimento, por exemplo, na extensão escandinava (antes omitida). 

Sendo uma carta referente a 1493-94, como explicar a bandeira adicional em Melilla? Poderá ter sido uma cópia do próprio Reinel, posterior a 1497 (data de conquista espanhola de Melilla). Por isso Reinel escreve "a fez" (passado) e não "me fez" (presente). 

Eventualmente o original teria sido escondido... nem o próprio D. Manuel saberia onde estava, e terá pedido então a nova cópia, provavelmente em 1497-98, ou talvez mesmo em 1504... mas a carta não se reportará a essas datas.  

3.1. “Pedro Reinel a fez” 
A Carta de Reinel levanta ainda outras questões: 
- Como vimos, começa pela datação: 1504... mas aparece uma Ilha Brasil. Que sentido faria isso? 

- Depois há pormenores minuciosos correctos simultaneamente com erros grosseiros, na Europa e não só, mesmo na zona do Labrador! Na Europa é talvez mais “escandalosa” a representação da península dinamarquesa enquanto ilha. Pedro Reinel foi considerado o maior cosmógrafo do seu tempo, recebeu uma proposta milionária de Carlos V, e portanto estes “erros” não devem ser considerados como tal. 

- Há dois meridianos, que sugerem uma tentativa de deformação para uma projecção Mercator, mas que não é acompanhada pelas linhas paralelas constantes do mapa. 

- Múltiplos sinais de "ilhas artificiais" e "pontilhados artificiais"... que permanecem noutras cartas posteriores (e não se referem necessariamente a baixios ou recifes). Vemos nomes inscritos para leitura norte-sul, mas também sul-norte, etc... 

- Há um aparente detalhe do Labrador, mas porquê saltar a Terra Nova, por onde se deveria passar ao largo antes de chegar ao Labrador? Conforme vimos no Tratado da Ilhas Novas, de 1570, a Terra Nova seria habitada por descendentes portugueses e como tal foi omitida.

As "terras verdes" junto ao Labrador, no canto superior ocidental, cumpriam outro propósito!
De facto, rodando a carta, obtemos como detalhe (a parte norte aparece agora a sul):

Detalhe da Carta de Reinel, após inversão e rotação, comparação com detalhe no Mapa de Cantino. 
(Zona da Bacia Amazónica, assinalada de forma semelhante - baía com ilhas internas)

Ou seja, é preciso inverter o mapa, para ver o Brasil, e não falo da Ilha Brasil... O importante em discussão no Tratado de Tordesilhas seria ver que terras seriam cortadas pelo meridiano. Na imagem no quadrado (à direita) vemos parte do Brasil no mapa de Cantino, e comparamos com uma parte da “terra verde” inclusa no quadrado preto. A semelhança geométrica do contorno poderia ser perfeitamente acidental, mas a isso acrescenta-se em ambos os casos uma enseada com várias ilhas, e um Meridiano de Tordesilhas (que ao longo dos anos foi sendo reajustado). Isto serve apenas para levantar a hipótese de que terá sido uma carta semelhante que o copista do mapa Cantino viu.

Assinalada num losango verde, está uma outra perspectiva do mapa, com base no outro meridiano mais pequeno... esse meridiano tem no topo uma "Ilha Santa Cruz" (conforme referido no Tratado das Ilhas Novas) que assim só existirá para designar as Terras de Santa Cruz, ou seja, a América do Sul.

A outra ilha mítica, a "Ilha Verde", designaria (em posição correcta, face à América) o Cabo Verde: 
Após rotação do mapa de Reinel (norte-sul acertando o meridiano de Tordesilhas): 
à esquerda: inclinação das "Antilhas" em ambos os mapas, Cantino e Reinel; 
à direita: posição relativa de Cabo Verde no mapa Google, face à ilha Verde de Reinel

Ou seja, as Ilhas Míticas - nunca encontradas, poderiam não passar de marcações em mapas! 

Há mais detalhes, mas bastará notar que as Antilhas apresentam na cópia de Cantino uma inclinação próxima à que encontramos em Reinel, se considerarmos que Reinel coloca as Antilhas coladas ao "Labrador". 

A escolha do meridiano torna-se mais evidente com os Açores. Aí não faz sentido considerar o meridiano principal, já que algumas ilhas apareceriam sob território espanhol... No mapa de Cantino isso está já corrigido, e um "Labrador artificial" e toda a Gronelândia aparecem do lado Português, conforme conviria às pretensões portuguesas!

Pedro Nunes explica melhor os problemas e vantagens das cartas de marear:
(...) a carta não é nenhum planisfério; que nos faça quanto a vista aquela imagem e semelhança do mundo, que fazem os de Ptolomeu e outros que aí há, nos quais há somente paralelos e meridianos. Porque se bem olharmos, que releva a quem navega para saber por onde andou, ou onde está, que uma ilha ou terra firme esteja pintada mais larga do que é, se os graus forem tantos quantos devem ser de leste a oeste. Porque a mim, que faço a conta, me fica resguardado : saber que esses graus são na verdade menores do que a carta por ser quadrada amostra, e ver quanto menos léguas contém, e isto por tábuas de números ou instrumento, como é o quadrante que para isto costumo fazer. De forma que quero concluir: que mais proveito temos da carta por serem os rumos equidistantes, do que prejuízo, porque sendo assim fique quadrada, e quem por isto a repreende não sabe o que diz (...)

3.2. Ilha Brasil 
Falta explicar a razão de uma Ilha Brasil junto à Irlanda, e também das Ilhas Maydas... começamos por apresentar uma Carta Catalã (da "escola judaica" de Maiorca) de 1439: 

Carta catalã de Gabriel Valseca (1439), colocando ênfase na rotação de um círculo com a Eurásia –África (castanho-branco).

Isto serve apenas para enfatizar que já nessa "escola judaica", de onde Cresques é suposto ter chegado a Portugal no final do Séc. XIV, haveria uma ideia de esconder informação numa carta, através das suas várias possibilidades de rotação, conforme parece ser explícito na Carta de Valseca. Ou seja, em grande medida só algumas coisas na Carta de Marear serão uma originalidade portuguesa, como aliás Pedro Nunes reconhece. 

Neste mapa de Valseca aparece também a Ilha Brasil - um círculo junto à Irlanda. Vejamos o que acontece com o Portulano de Pizigano, 1424 (1ª figura seguinte), quando consideramos essa ilha como uma marcação para centros de onde partem meridianos locais. Para o caso da ilha Brasil há um centro que permite projectar essa localização para uma zona próxima da bacia amazónica (conforme vemos na 2ª figura seguinte), através da linha cor-de-rosa. Situação semelhante para o caso da outra ilha assinalada como uma lua, no prolongamento azul na direcção da península maia. 

Para o caso dos agrupamentos de ilhas, assinalados no mapa a azul escuro (Satanazes) e a vermelho (Antilhas), se usarmos o centro colocado no interior da península ibérica, obtemos direcções que nos levam à zona das ilhas da Terra Nova e Nova Escócia (delimitada a azul, conforme 2ª figura), e por outro lado à zona das Antilhas (delimitada a cor-de-laranja, conforme 2ª figura).

Portulano português, feito por Pizzigano (1424) ao serviço do Infante D. Henrique. 
As nossas linhas artificiais são colocadas também no mapa seguinte.
As inclusões dos pontos de referência no Google Maps, mostram as
direcções correspondentes no continente americano.

A escolha do centro não é a priori justificável... mas é interessante um centro corresponder a Madrid (o que se verifica pelas posições relativas face à Costa da Gasconha e posição das Ilhas Baleares). Ainda que aqui a coincidência seja essencialmente geográfica...

Neste caso há menos informação neste portulano, poderá ser mais fácil interpretar esta Carta mais antiga... conforme refere Pedro Nunes, o que interessava aos navegadores era saber a direcção a tomar, e depois definir o rumo até encontrar terra!

Isto coloca a datação para a descoberta portuguesa destes territórios americanos, pelo menos antes de 1424... Mas, conforme o Tratado das Ilhas Novas, será mesmo anterior às invasões mouras. No entanto, só depois, após Gil Eanes, e com o Infante Dom Pedro, houve uma boa cartografia, um comércio regular com este novo mundo, usando as rápidas caravelas, o que levou a um efectivo desenvolvimento português no quadro europeu.


Capítulo 4 - Hespera Mundi
As armas, as divisas, os motos, procuraram resumir os grandes objectivos perseguidos pelos seus detentores. Desde o “por bem” de D. João I, seguiram-se várias divisas que têm algum relevo na história seguinte.

4.1. Talant de bien faire
O Infante D. Henrique usava esta frase como divisa (antes de Tanger, terá usado IDA... iniciais de Infante Dom Anrique, pela sua vontade de conquistar - Tanger... ou melhor, Jerusalém?). 
Divisa do Infante D. Henrique 

Frei Luís de Sousa (séc. XVII) classificou os símbolos como "duas pirâmides dos antigos reis do Egipto", e encontram-se no livro perdido de Zurara (só recuperado no séc. XIX, em França...).

Talant de bien faire, significaria vontade de bem fazer, mas o "e" falta em talent. Há de facto dois hemisférios... poderá ver-se uma pirâmide em cada um deles. Considerando as inscrições como anagramas (o que não era invulgar):
 TALANT >> ATLANT       ||       FAI'RE >>AFRI'E 

Num hemisfério, uma pirâmide atlântica, no outro uma africana. Mas, para o Infante Dom Henrique, o bien era simbolizado pela opção Oriental, pelo lado da Cruzada, contornando África. 

4.2. Désir
O irmão, Infante Dom Pedro, grande promotor das Ordenações Afonsinas, durante a sua regência (1439-1449), deixou-nos como divisa uma Balança, equilibrada... e um desejo - DÉSIR...

Havia uma motivação ambivalente entre um projecto oriental, de cruzada, e um projecto ocidental, mais evangelizador. Portugal dividia-se entre estas opções no seu tempo. Os feitos orientais seguiram o seu rumo, mas os prováveis grandes feito ocidentais foram encobertos.

O Infante Dom Pedro é motivado por um sonho ocidental, “americano”, colonizador... tendo deixado esse nostálgico sentimento, que o povo foi cantando ou mantendo em tradições (tão antigas como a tradição da espiga). Tradições que se vão perdendo, alienando património importante de forma quase irremediável. Teria existido uma fonte com o seu nome em Coimbra, pelos amores que lhe tem, conforme dirá Camões, que a isso adicionou ninfas do Mondego;

Moto do Infante Dom Pedro, com a balança

4.3. Pro Lege, Pro Grege
D. João II tentou seguir o projecto do seu avô, o Infante D. Pedro, procurando algum equilíbrio. De um lado, para equilibrar a balança estaria o seu sangue de Pelicano, que retira do corpo, para alimentar os seus filhos, a grei, o povo... o seu moto será “Pro Lege, Pro Grege”, pelas leis, pelo povo. Ao seu sucessor D. Manuel irá legar uma divisa com duas esferas armilares, uma com a inscrição Mundi, virada a ocidente, e outra com a inscrição Spera (já usada por D. Manuel, antes de ser rei), virada a oriente:
Divisa que D. João legou a D. Manuel, com as duas esferas armilares, 
das quais apenas se manteve a virada a Oriente.

Também aqui se invoca um equilíbrio, mas para que esse equilíbrio seja reposto a nomeação Mundi Spera, antes proposta, deveria passar a Hespera Mundi. De facto, o que nos foi mostrado foi o lado oriental, onde uma estória ocidental terá ficado oculta. Apesar de múltiplos sinais, temos sido incapazes de ver o lado ocidental, do Jardim das Hespérides, conforme designa Camões. Por isso mais que uma Espera, o désir do Infante D. Pedro deveria transformar-se numa Hespera. 

4.4. Serena Celsa Favent 

Serena ~ tranquilidade/esclarecimento, Celsa ~ grandeza, Favent ~ favorável 
Moto d’el rey Dom Sebastião 

Camões, nuns tercetos incluídos no livro de Pêro de Magalhães de Gandavo invoca o mítico espartano rei Leónidas. Aparentemente são dirigidos a Lionis Pereira, pela sua vitória em Malaca contra o Rei do Achém, mas seria mais adequado a Dom Sebastião, que tal como Leónidas, terá lutado contra um adversário incomensuravelmente superior:  

Vos Ninfas da Gangética espessura, Cantai suavemente em voz sonora Hum grande Capitam, que a roxa Aurora Dos filhos defendeo da noite escura. Ajuntou-se a caterva negra & dura, 
Que na Aurea Chersoneso afouta mora, Pera lançar do caro ninho fora Aquelles que mais podem que a Ventura. 
Mas hum forte Lião com pouca gente, A multidam tam fera como necia, Distruindo castiga, & torna fraca. Pois ô Ninfas cantay que claramente Mais do que fez Leonidas em Grecia O nobre Lionis fez em Malaca. 
Neste breve apontamento, de uma Estória maior, "o Encoberto" contrário "do Descoberto", é ainda a mensagem que fica presa a um nevoeiro, de onde só nos chegam pequenos sinais... 
Há só uma História?.. ou há apenas a Estória que deixa e apaga registos. 

São pontas soltas, até que apareça alguém a assinalar, depois voltando-se tudo a colar, durante mais alguns séculos. Neste momento, será importante reenquadrar a História, colando as coincidências de forma mais verosímel. 


Referências Bibliográficas: 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Descoberto e Encoberto (2)



O Encoberto e o Descoberto
Aspectos da História dos Descobrimentos

(continuação) 

Capítulo 2 - Os paralelos como referência

Havendo todo este secretismo nacional, o que serviria de referência para diferenciar Descobertas vs. Encobertas?... Normalmente, nas descrições de Gomes Eanes de Zurara e de Duarte Pacheco Pereira, podem ser os paralelos, entre África e a América, da seguinte forma:

Resumo do possível paralelismo nas descrições de Duarte Pacheco Pereira e Zurara.

Ou seja, a cada descrição em África, corresponderia uma descrição na América, podendo haver sobreposições. Há até uma subida de latitude (que pode ir até 6º) nas cartas de marear, a que Pedro Nunes se refere:
(...) convém a saber Roma, que está a 41 e meio, fica na carta a 46, e Veneza que está em45 fica na carta a 50. Rodes que está em 36 fica em 42 (...)
Com este pressuposto, é possível seguir as descrições dos autores, sem preconceitos, e sem préjulgamentos, de localização geográfica. Percebe-se que pode haver algo diferente que os autores nos queriam transmitir, de forma encriptada. 
A organização é de tal forma complexa, que D. Afonso V achou bem oferecer uma cópia das Crónicas da Guiné de Zurara, ao Rei de Nápoles, seu familiar. Duarte Pacheco Pereira, é mais explícito... mas igualmente intrincado, já que a certa altura é mais difícil perceber quando fala de África ou da América. 

Alguns nomes vão mudando... uma designação para Zurara, não é necessariamente a mesma de Pacheco Pereira, pois o nome já é outro. É preciso abstrairmo-nos de preconceitos, pegar num  mapa, e ir descendo a Costa Americana, de acordo com as latitudes. Não é assim um exercício tão difícil, e é surpreendente!

A propósito da Crónica de Zurara, o Visconde de Sacavém relata que Frei Luis de Sousa (na sua História de S. Domingos) teria visto a divisa do Infante num “livro que o Infante mandara escrever do sucesso destes descobrimentos, em que usava com a mesma letra diferente corpo de empresa, mas muito avantajado em agudeza de significação e graça”. Ou seja, também Frei Luís de Sousa invocava essa dupla interpretação.

2.1. Cabo Bojador
Começamos pelo Cabo Bojador. Qualquer cabo só constituiria uma dificuldade a navegações mais primitivas, onde seria necessário seguir a linha costeira para orientação. A partir do momento em que se fazem (oficialmente) carreiras frequentes com a Ilha da Madeira (desde 1419), ou com os Açores (desde 1432), em alto mar, não há qualquer razão para uma dificuldade em ultrapassar um cabo costeiro. Muito menos que tal tenha tomado 12 anos de tentativas infrutíferas, até 1434, conforme se lamentava o Infante D. Henrique (na Crónica de Zurara)!

Esses 12 anos simbolizam algo diferente, e o cabo a ultrapassar não seria uma dificuldade de navegação costeira, mas mais naturalmente, uma dificuldade de navegação política.
Assim, podemos conjecturar que "dobrar este cabo de trabalhos", o Bojador, começa depois de Gil Eanes ter coordenado uma grande expedição - exploratória da América - até 1434.
Quando os portugueses perceberam que passar o continente não era possível, dentro de latitudes razoáveis, o Infante Dom Henrique terá tido luz verde para avançar com outro projecto, o projecto Oriental, com consentimento do seu irmão, o Rei D. Duarte. O cabo Bojador estava dobrado!

Dito doutra forma, uma vez passado o Cabo Bojador, em 1434, que sentido faria parar as navegações e atacar Tanger de seguida, em 1437? - Apesar de Tanger ser costeira, a invasão vai ser por terra, partindo de Ceuta. Porquê? Qual a razão desta estratégia do Infante Dom Henrique?

D. Manuel, sucessor político do Infante D. Henrique, insistiu sempre num ataque à península arábica, no sentido de terminar com o poder islâmico e recuperar Jerusalém. Seguiria assim um velho ideal templário, herdado desde a fundação da nacionalidade, e acentuado com o estabelecimento da Ordem de Cristo. Uma possível motivação para o desenvolvimento das navegações no seio das ordens, seria um plano militar de Cruzada, contornando o continente africano, e surpreendendo os mamelucos do Cairo com um desembarque, colocando bases europeias no Mar Vermelho, no sentido de recuperar Jerusalém. Com D. Manuel, o centro de poder passou para Istambul, mas a ideia manteve-se, e levou à conquista de algumas praças na península arábica. No entanto, no tempo de D. Manuel, há duas (ou mesmo três) perspectivas distintas. Por um lado, mantem-se essa perspectiva de Cruzada, que D. Manuel preconiza, mas por outro lado há uma perspectiva mais comercial, que favorece o comércio com os novos territórios, e que é seguida por uma boa parte dos Vice-Reis da Índia (Afonso de Albuquerque será talvez a maior excepção). A este propósito citamos o Cardeal Saraiva:
He portanto fora de duvida, que o sábio Infante levou na gloriosa empreza de seus descobrimentos hum fim mais alto e mais importante do que a mesquinha idéa de colher os Mouros pela retaguarda, idéa da qual se não diz uma só palavra na vida do Infante, nem de seu augusto pai, nem tão pouco em historia alguma dos descobrimentos Portuguezes. (Cardeal Saraiva, Obras Completas, 1875) 
Assim, a ideia do Infante D. Henrique poderá ter sido usar Tanger como simulação para mostrar que seria perfeitamente possível, a partir de um ponto terrestre marchar por um terreno difícil, e atingir Jerusalém. Precisava do apoio dos aliados europeus... e assim julgaria convencê-los.

Acaba por não conseguir, sendo derrotado!... Tem apenas uma escapatória, o apoio por mar do irmão Fernando, que escolhe como refém, e será esse “Infante Santo” sacrificado para manter Ceuta. Há um claro trauma nacional, durante o cativeiro do Infante Santo, e faz-se ainda uma tentativa armada de resgate... mas sem sucesso. Pouco depois D. Duarte morre e há um problema na regência, pela menoridade de D. Afonso V, a mãe aragonesa é rapidamente exilada (havia demasiados segredos em jogo, para qualquer conhecimento de Aragão)! É nessa altura que se definem três irmãos nos vértices do triângulo político nos descobrimentos:

- Infante D. Henrique, pelo projecto oriental de cruzada;
- Infante D. Pedro, pelo projecto ocidental de colonização e comércio;
- D. Afonso, Duque de Bragança, por um projecto político ibérico.

O Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra, assume a regência em 1439, e é o primeiro período de ouro, que marcará os desenvolvimentos seguintes. Inicialmente há uma colaboração com o irmão Henrique, nesta nova empresa. É literalmente o primeiro período de ouro, já iniciado no reinado de D. Duarte. É o tempo das caravelas... rápidas na ligação com a América. Se as expedições de Gil Eanes se teriam preocupado com a passagem ocidental, sem entrar no continente, navegando pela costa, a partir daí vão começar os contactos comerciais.

Logo de início, antes de 1440, há expedições por Gil Eanes e Afonso Baldaia - os registos começam aí com Zurara (que escreve "sob orientação científica do Infante Dom Henrique", já depois do Infante Dom Pedro morrer). Observa-se uma sucessão de nomes em África, de locais desérticos que nenhuma importância aí parecem ter, mas que se percebe terem importância - à mesma latitude - na América, por exemplo - o Rio do Ouro (pequeno rio, em África), poderá ser associado ao Rio Bravo. A costa vai descendo, Arguim, Tider, Ergim, invocando povos em ilhas que não passam de bancos de areia... em África. Do outro lado, na América, é só difícil saber exactamente que ilhas se tratam.

É aqui que se começa a atribuir a chegada do ouro a "mercadores do deserto"... é a necessidade de fazer uma Feitoria em Arguim. Há contactos com Azenagues, de língua desconhecida. Mas... onde se passará tudo isto?
Porque não do outro lado, no mesmo paralelo, no México, com os Aztecas?
O Infante Dom Pedro pode ter sido um excelente governante (a nível interno e externo), mas também poderá ter beneficiado desse proveitoso comércio aurífero!

2.2. Cabo Verde e Antilhas 
Seguimos a descida da costa usando a descrição de Duarte Pacheco Pereira, e chegamos ao Cabo Verde (actualmente em Dakar). Essa pequena península do Cabo Verde, será associada por distorção (que se vê nos vários mapas) à grande península do Iucatão. Qual seria a razão para essa escolha? À mesma latitude, a Costa Africana continua a descer, mas a Costa Americana tem essa enorme península do Iucatão, que será diminuida (e assim seriam também ignorados os contactos com os Maias...). As ilhas de Cabo Verde seriam associadas a Grandes Antilhas, enquanto ilhas que surgem dessa grande península do Iucatão. Assim, poderá corresponder São Tiago a Cuba (essa designação consta ainda do mapa de João de Lisboa).

Com maiores dúvidas, surgem os nomes de outras ilhas. Essa diferença de designações pode ainda ser vista nos mapas constantes do Livro de Marinharia e do Planisfério de Jorge Reinel (figuras seguintes). Há algumas curiosidades, talvez a mais interessante é a actual ilha Mayaguana nas Bahamas (que foi ilha de piratas) ser anteriormente designada Triamgo. Inagua mantém o nome, mas a ilha adjacente perdeu o nome anterior Sabaio. No mapa de Jorge Reinel usa-se a designação Hispaniola, mas no Livro de Marinharia aparece como S. Domingos (em Duarte Pacheco Pereira poderia ser designada Santo Antão). Há uma sucessiva confusão de nomes, invocando nuns casos nomes de ilhas cabo-verdianas (como Ilha de Mayo em Reinel, e Santa Luzia ou São Vicente no Livro de Marinharia), e só em poucos casos mantendo designações: Guadalupe, Antigua, etc. Todas estas ilhas e zona tropical paradisíaca poderia ser aquilo que Camões designava como Jardim das Hespérides.

A península do Iucatão (cujo nome poderá advir da confusão colombiana de Cipango|Japão com Cuba e dessa terra com Cathay|China), surge assim com um correspondente Cabo Verde africano, exagerado nos mapas da época e associado a um zénite polar, para justificar a distorção. É ainda aqui que Pacheco Pereira faz a distinção entre Etiópia Superior e Etiópia Inferior... e havendo ainda uma outra, a Etiópia Sob-Egipto.
Esta confusão de etiópias, pode ser justificada ainda na perspectiva do paralelismo. De facto, não havendo o continente americano, uma circum-navegação por paralelos nas latitudes superiores da costa brasileira, faria prever encontrar do outro lado a Etiópia no continente africano. Ou seja, esta confusão que Colombo terá cometido, e que levou à designação de Índias Ocidentais, pode ter estado presente previamente, nas primeiras navegações portuguesas, onde foi encontrado o pau Brasil (que é até referido por Chaucer nos Contos de Canterbury, 1387).

2.3. Nicarágua e Canágua 
A próxima latitude, compatível com outras latitudes no continente africano, é já localizada nas Honduras, na "Etiópia Inferior". Teremos aí outros pontos de referência, já que há rios com características semelhantes às descrições, por exemplo o Rio Patuca ou o Coco. No entanto, o nome mais importante em África é o Rio Canágua... que depois é renomeado convenientemente:
Canágua >> Çanaga >> Senegal 
conforme vai constando nas cartas, e temos ainda o Rio Gambea.
Do outro lado a nessa latitude temos, exactamente a Nicarágua.
O nome aparentemente deriva da designação do chefe Nicarao... e da palavra água, mas não deixamos de notar que Canágua está também foneticamente muito próximo da capital Manágua.

Para além disso, na descrição desta região Duarte Pacheco Pereira fala de uma lagoa com "32 por 12 léguas", falamos de aproximadamente 188 Km por 72 Km... dimensões que se ajustam ao Lago da Nicarágua. Não encontramos nada semelhante a isso na costa ocidental africana (o lago Guier é muito mais pequeno). Convém ainda notar que na zona Honduras/Nicarágua a resistência à colonização espanhola foi muito prolongada, e por isso não terá sido possível uma imediata renomeação.

Comércio na Gambea: Sobre o comércio de escravos tido perto do Rio Gambea, Duarte Pacheco Pereira faz a seguinte descrição do comércio que os mandiguas faziam:
(...) todo aquele que quer vender escravo ou outra cousa se vai a um lugar certo para isto ordenado & ata o dito escravo a uma arvore & faz uma cova na terra daquela cantidade que lhe bem parece & isto feito arreda-se fora um bom pedaço & então vem o rosto de cam & se é contente de encher a dita cova d’ouro enche-a & se não tapa-a com a terra & faz outra mais pequena & arreda-se a fora & como isto é acabado vêem seu dono do escravo & vê aquela cova que fez o rosto de cam & se é contente aparta-se outra vez fora & tornado o rosto de cam ali enche a cova de ouro & este modo tem em seu comercio & assim nos escravos como nas outras mercadorias & eu falei com homens que isto viram (...) 
Duarte Pacheco Pereira in Esmeraldo de Situ Orbis (1506-09). 

Para além da curiosidade trágica, o ponto em trazer aqui esta descrição será salientar que não havia apenas uma compra de escravos pelos portugueses. Desta transcrição, concluímos que os escravos eram vendidos em troca de ouro. Ou seja, transportando esta descrição, tida em África, para a América Central, isto poderá sustentar a hipótese de que os portugueses levariam escravos africanos para trocar por ouro com as culturas da América. A este propósito, Duarte Pacheco Pereira refere que Gambea tem nome Guabú na língua mandígua, e o fonema “gua” é comum na toponímica da América Central.

2.4. Panamá e Sagres 
À mesma latitude da cadeia montanhosa do Panamá, que liga a América do Sul à do Norte, encontra-se a Serra Leoa, em África. Essas montanhas são o obstáculo natural que impede a passagem para o Oceano Pacífico, só contornado no século passado com a abertura do Canal do Panamá. Mais uma vez a Costa volta a subir, e o contorno americano não acompanha o africano... é aqui que encontramos um Cabo Sagre no Panamá, conforme o mapa do Livro de Marinharia.
Cabo Sagre no mapa do Livro de Marinharia (assinalado no quadrado verde).

Haveria assim 3 cabos Sagres em 3 continentes distintos (um em Portugal; outro, menos conhecido, em África, na Guiné-Conacri; e finalmente este no Panamá, que foi renomeado Nõbre de Dios, e actualmente é denominado Graças a Dios). É interessante notar (ver figura do paralelismo) que:

  •  (i) os cabos americano e africano estão ~ sobre o mesmo paralelo;//
  • (ii) os cabos português e africano estão ~ sobre o mesmo meridiano; 
  • (iii) aí terminam as "navegações" atribuídas ao Infante D. Henrique. 


2.5. Colômbia e o Castelo da Mina 
A Mina está normalmente associada à fortaleza existente em Elmina, no Gana. Mais longe, mas ainda no Gana, após a cidade de Acra, encontra-se a foz do Rio Volta. Toda a descrição feita por Duarte Pacheco Pereira envolve um largo rio navegável, cuja descrição se pode assemelhar também ao Rio Atrato, na Colômbia. A foz destes rios está aproximadamente no mesmo paralelo (a foz do Atrato a 8ºN e a foz do Volta a 5ºN), correm ambos na direcção norte-sul, ainda que o sentido do rio Atrato seja sul-norte.

A ligação Atlântico-Pacífico através do Rio Atrato chegou a ser considerada como alternativa ao Canal do Panamá. A navegabilidade do conjunto dos rios Atrato e San Juan (o Rio de São João, que desagua em Buenaventura, está assinalado no Livro de Marinharia) passa por uma pequena cidade chamada Istmina (próximo de Quibdó). No lado africano, no Gana, temos a cidade de Elmina, por outro lado na Colômbia temos Istmina. A diferença principal é que não há nenhum rio próximo de Elmina que corresponda à descrição feita por Duarte Pacheco Pereira. A melhor hipótese seria o Rio Volta, que está bastante afastado de Elmina, e até mesmo de Acra.

Encontramos finalmente uma possível justificação para os castelos com bandeira portuguesa na Colômbia... seria talvez aí o Castelo de S. Jorge da Mina.

Há ainda coincidências menores. O navegador português Pêro Escobar esteve associado às navegações da Mina, e à descoberta de São Tomé, sob serviço do comerciante lisboeta Fernão Gomes. Esse serviço requeria efectivamente muita mão de obra, de origem africana. Para além de Escobar ser um nome comum na Colômbia, este é também o país hispânico do continente americano que tem mais população de origem africana. Uma hipótese é que essa mão de obra seria usada no serviço da Mina. Quando Portugal abandonou esses locais para a Espanha, os escravos ficaram e só mais pontualmente foram usados pelos espanhóis noutros locais. Algumas das ilhas das Antilhas, como é mais evidente no Haiti, têm também uma grande população de origem africana, provavelmente devido a esse uso de mão de obra em plantações. Essas populações podem assim também ter resultado de um cruzamento de população africana e portuguesa, que posteriormente foi abandonada, em consequência da evolução política internacional.


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Descoberto e Encoberto (1)

Passam agora 10 anos sobre a publicação do primeiro material na internet, na altura no knol da Google. Houve muita coisa que simplesmente não publiquei, ou acabou por ficar esquecida. 
Raramente repito a publicação de textos, mas vou pegar num PDF resumo publicado há quase dez anos e fazer quatro postais.

Para quem já leu será uma repetição, mas é sempre interessante ir revisitando o que foi escrito antes, mesmo se em alguns detalhes (poucos) já não voltássemos a escrever o mesmo, ou da mesma forma.


O Encoberto e o Descoberto
Aspectos da História dos Descobrimentos

(versão de apresentação baseada na Tese de Alvor-Silves) 

[30 de Janeiro de 2010]

Introdução
Sempre me pareceram inverosímeis as descrições das navegações portuguesas com grandes delongas, que mais demorariam a chegar ao ponto anterior de descoberta, do que a descobrir novas terras. Todo esse processo é descrito de forma razoavelmente coerente, invocando medos, erros, e tantos outros perigos que dificultariam a progressão das descobertas portuguesas, até 1495, ano da morte de Dom João II. Depois, subitamente no reinado de D. Manuel, e num espaço de 3 anos, os portugueses descobrem e cartografam paragens tão distintas quanto a Índia (1498), Brasil (1500) e Gronelândia (1500).
Até aqui estamos apenas naquela suspeição subjacente, mas sem outros dados, apenas levamos connosco a nossa dúvida sobre o conhecimento português no Tratado de Tordesilhas, sobre a identidade de Colombo, etc. Porém, ao juntar diversas fontes será possível formar uma outra estória igualmente, ou até mais coerente. Aquilo que D. Manuel fez poderá ter sido apenas a decisão política de declarar explorações prévias, por todo o globo, reivindicando rapidamente o hemisfério que lhe era atribuído pelo Tratado de Tordesilhas.
Aqui é apenas apresentada uma parte que concerna a cartografia e descrições de viagens.
Sobre este assunto, poderá enviar o seu comentário para o email: alvorsilves@gmail.com

Encoberto
"o Encoberto" enquanto oposto "ao Descoberto"

Colombo pôs a descoberto a América à Europa. No entanto, des-cobrir não teria o mesmo significado que lhe damos hoje. Quando Colombo chegou, foi por onde os portugueses tinham carreiras regulares... esse foi o perigo da sua viagem – efectuá-la sem ser Descoberto no caminho pelos Portugueses! Mesmo assim não conseguiu... as rotas estavam bem controladas!

1. Mapas - sem erros, mas com segredos
Examinando a Carta Portulana de Pedro Reinel de 1484-85, conforme figura em baixo, imediatamente reconhecemos parte da Europa e África!
No entanto, ao rodar esse mapa, notamos outras semelhanças:

Será coincidência esta semelhança com a costa mexicana que a linha artificial permite?
Pedro Nunes avisa-nos sobre outras informações nas cartas de marear:
"O outro género de informações é dos que notaram algumas alturas. Mas isto somente fizeram, nos lugares que estavam num mesmo paralelo, e isto também aproveitava pouco. O terceiro género é o dos mareantes: os quais diz que não sabiam mais que as distâncias dos lugares, que a eles lhes parecia estarem norte-sul donde partiam; e os que estavam leste-oeste sabiam muito mal porque isto era outrossim muito incerto (...)"
Pedro Nunes - Tratado em Defensam da Carta de Marear (1537)
(publicado depois de Carlos V de Espanha mandar queimar todas as Cartas Náuticas)

A capacidade náutica portuguesa poderá ter sido menosprezada.
A coincidência da representação com a Costa Mexicana não significa nada por si só. Com a rotação
de norte-sul para leste-oeste, há coisas que parecem estar mal na coincidência com a costa mexicana... mas, para melhorar teriamos que retirar a Península Ibérica, tirar o contorno de Tunis, etc... e isso não faria sentido!

Assim, há bandeiras que podem servir para delimitar a zona de validade do contorno, para além de permitir uma datação... a bandeira moura em Espanha permite datar o mapa como anterior a 1492 - seguramente, e até como anterior a 1485 - data da conquista de Marbella (1485 é aliás a datação constante dos Arquivos de Bordéus, onde foi encontrada).

A múltipla informação nos mapas não deve ser encarada apenas como decorativa, ou fruto de erro, deve ser compreendida. A informação nos mapas, não é apenas a que está a descoberto... há tanto, ou muito mais que está encoberto, e que já na época era tomado por erro - é aliás isso que Pedro Nunes tenta explicar!

Havendo tal secretismo, como foi possível a Pedro Nunes passar informação, sob olhares inquisitores minuciosos? - Primeiro é notado que os textos mais sensíveis são em português, depois Pedro Nunes tem a protecção do esclarecido Infante D. Luís, irmão de D. João III, mas mais tarde acabará por ter mesmo que sair da Corte e de Lisboa! Regressa, num pequeno período áureo, sob protecção de Dom Sebastião e, já velho, morre em 1578, logo após a partida de Dom Sebastião (ver "Batalha de Alcazar na Barbária" denominação para a Batalha de Alcácer-Quibir, numa peça teatral anónima inglesa, atribuída a George Peele).

Convém notar que o escrutínio inquisitório não seria necessariamente religioso, a maioria das inquirições não proibiam textos com referências pagãs, como acontece nos Lusíadas, mas muito mais procuravam evitar revelar informações de estado, em obras científicas ou artísticas.

Há outros mapas interessantes na Torre do Tombo. Por exemplo na Biblioteca Nacional Digital é possível encontrar mapas do Livro de Marinharia, atribuídos a João de Lisboa, a quem são reportadas viagens até 1506, e morte em 1525. Pelas designações constantes dos vários mapas, é de colocar a hipótese desses mapas terem sido realizados entre 1520 e 1525.

Iremos analisar alguns desses mapas.

 (1) Representação polar semi-clássica
Nesta representação planar do globo há um quadrante vazio, na parte superior... havendo claras indicações para a união nos 270º restantes. Notamos que há nomes repetidos que coincidem de ambos os lados (p.ex. Japão).
Ignorando o quadrante vazio, este globo é muito próximo do que conhecemos hoje!

Ora, de acordo com as datações oficiais, haverá uma inconsistência ou há uma nova coincidência.
Se João de Lisboa morre em 1525, como o Japão só foi oficialmente descoberto em 1543, ou há um bom palpite, um problema de datação do mapa e do autor, ou há um conhecimento prévio à descoberta oficial. Não há apenas coincidência na representação do Japão, toda a costa americana aparece bem definida, exceptuando as partes polares do Canadá e Alasca.
Fica por justificar o espaço em branco de 90º, que só torna mais difícil executar o mapa. Talvez esse detalhe queira significar que ainda ficava por marcar no globo 1/4 do restante conhecimento...

E qual seria o conhecimento que já se tinha à época?
Deixamos Pedro Nunes falar por nós, pois não saberíamos fazer melhor.
Começa o Tratado em Defesa da Carta de Marear assim:
Eu fiz senhor tempo há um pequeno tratado sobre certas dúvidas que trouxe Martim Afonso de Sousa, quando veio do Brasil. (...)
Mas queira Deus suceder-me isto de sorte, que não seja necessário outro comento a este comento.
Não já para Vossa Alteza [Infante Luís] a quem é tudo claro e tão notório (...)
Não há dúvida que as navegações deste reino, de 100 anos a esta parte são as maiores, mais maravilhosas, de mais altas e discretas conjecturas que as de nenhuma outra gente no mundo.
Os Portugueses ousaram cometer o grande mar Oceano. Entraram por ele sem nenhum receio. Descobriram novas ilhas, novas terras, novos mares, novos povos e o que mais é novo céu e novas estrelas.
E perderam-lhe tanto o medo que nem há grande quentura da torrada zona, nem o descompassado frio da extrema parte do sul, com que os antigos escritores nos ameaçavam lhes poder estorvar, que, perdendo a estrela norte e tornando-a a cobrar, descobrindo e passando o temeroso Cabo da Boa Esperança, o mar de Ethiopia, de Arabia, de Persia, puderam chegar à India. Passaram o rio Ganges tão nomeado, a grande Trapobana, e as ilhas mais orientais. Tiraram-nos muitas ignorâncias e amostraram-nos ser a terra maior que o mar, e haver aí Antípodas, que até os Santos duvidaram, e não  há região, que nem por quente nem por fria se deixe de habitar. E que num mesmo clima e igual
distância da equinocial: há homens brancos e pretos e de muitas diferentes qualidades.
E fizeram o mar tão chão que não há hoje quem ouse dizer que achasse novamente alguma pequena ilha, alguns baixos, ou se quer algum penedo, que por nossas navegações não seja já descoberto.
Ora manifesto é que estes descobrimentos de coisas, não se fizeram indo acertar, mas partiam os nossos mareantes muito ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geometria, que são coisas que os cosmógrafos hão-de andar apercebidos, segundo diz Ptolomeu no primeiro livro da sua Geografia. Levavam cartas mui particularmente rumadas e não já as que os antigos usavam, que não tinham mais figurados que doze ventos e navegam sem agulha.
(in Tratado em Defensam da Carta de Marear, 1537)
... a transcrição foi baseada na Revista de Engenharia Militar – 1911 (F. M. Esteves Pereira) 

Foram destacadas algumas passagens:
  • (i) Passados muitos anos... "Deus deu-nos a sorte" do comento ter resistido até hoje! Mesmo assim note-se que Pedro Nunes não escreve livremente e, como já referimos, está sob escrutínio inquisitório. O Infante Luís só o protegerá até onde possível, e será difícil saber quem teria controlo sobre o problema... por um lado o Rei Dom João III, mas também o imperador Carlos V, e toda uma política internacional
  • (ii) Dificilmente se poderá dizer que há um descompassado frio na extrema parte sul de África, mas o mesmo não se poderá dizer da extrema parte sul da América... onde está o Cabo Horn.
  • (iii) Depois, Pedro Nunes, em 1537, reclama um descobrimento absoluto... de toda a Terra, antes desconhecida. Estamos em 1537... e de facto, não é fácil encontrar "grandes descobridores" nomeados e honrados por isso no Séc. XVI. A questão colocou-se principalmente depois... Os territórios não explicitamente declarados, seriam considerados "encobertos", e assim poderiam ser "descobertos". Demorou algum tempo... Seguindo os registos até Cook, no final do séc. XVIII ainda havia territórios por descobrir, e devemos excluir as viagens polares, já no séc. XIX. Terá demorado 300 anos a declarar o que de acordo com Pedro Nunes (... nem me atreveria a tanto!), teria sido explorado pelos portugueses em 100 anos. Não havendo razões para não acreditar em Pedro Nunes, essa memória essa perdeu-se... e é preciso reencontrá-la, para definir novo caminho na História.
  • (iv) Finalmente, Pedro Nunes desmistifica a ideia propagandeada de que se descobriam coisas acidentalmente. Não houve descobertas acidentais! Menciona mesmo cartas da antiguidade que teriam ajudado na exploração dos novos territórios. 
Estranhamente, este tratado nunca teve divulgação adequada.
Foi publicado oficialmente numa Revista Militar de 1911... mas até hoje não parece ter tido a divulgação merecida, ao contrário da restante obra de Pedro Nunes. Para além disso, a figura de Pedro Nunes não parece ter merecido o devido reconhecimento internacional.

(2) Representação da América Central
Ainda, no Livro de Marinharia, encontramos outro mapa interessante. 

Este mapa da América Central é antigo, ao ponto de assinalar possessões nacionais, com bandeiras em castelos na Colômbia e no Perú, junto à zona atribuída ao Império Inca!
A marcação parece ainda mais estranha, pois não há qualquer registo de contactos com essas civilizações.
No entanto, se acreditarmos na afirmação de Pedro Nunes – se em 1537 os portugueses tinham descoberto todas as ilhas ou penedos na Terra – então seria natural existirem contactos muito antigos com as civilizações incas, aztecas e maias.
Para dar crédito a esta Tese, teremos que admitir uma versão bastante diferente dos descobrimentos portugueses. Para isso, começamos com uma referência que aponta para viagens ainda anteriores, ainda antes da independência portuguesa.

Tratado da Ilhas Novas (Francisco de Souza, 1570)
Num pequeno tempo de luzes, sob reinado de D. Sebastião, apareceu um Tratado escrito por Francisco de Souza, que pode ser encontrado aqui (foi publicado nos Açores, em 1877).

Coloco aqui um extracto do texto de 1570 (com alguns sublinhados):
No tempo que se perderam as Espanhas, que reinava El-Rei Dom Rodrigo, que vai para quatro centos annos[1] que com as sêcas se despovoaram as gentes, e pereceram com a grande esterilidade e da entrada dos Mouros, como mais largamente se trata nas Escripturas antigas, por a qual causa do Porto de Portugal os mareantes e homens Fidalgos tendo noticia que para o Ponente havia terra que até então não fora descoberta, sómente pelas informações dos antigos e dos Espiritos tinham d'ella informação, determinarão de se embarcarem em sete náos com toda sua familia, e de hirem correndo ao Ponente confiados na misericordia de Nosso Senhor navegarão; e pela altura do Porto que está em 41 gráos correrão tanto que forão por barla-vento das Ilhas dos Açores, que inda não erão descobertas, e forão aportar na Ilha de S. Francisco que está pela dita altura, onde dizem as informações que tenho, que foram n'ella dar: e eu por rasão da nevegação acho ser sua derrota assim; queira Nosso Senhor permittir se descubra esta Ilha como atraz fica dito onde ella demora; e por irem em sete náos disem as informações que cada capitão com sua náo, tanto que aportarão, se repartirão cada um em sua parte da Ilha, e os antigos lhe chamão a esta Ilha as sete Cidades; mas outros por via de França lhe chamão a Ilha de S. Francisco, o qual, por quem é, queira rogar a nosso Senhor dêmos com ella para valermos á salvação da gente que n'ella está, pois procede de Christãos: e achei mais que é terra de boa habitação por ser grande e de muito proveito; e por rasão da virtude dos climas acho está situada no 5.o clima, que dado que seja mais frio que as Ilhas dos Açores não o é tanto como França, Inglaterra, porque é Ilha do mar a que o mar aquenta, e mais, que nas faces do sul é habitavel os dois terços d'ella debaixo de boas zonas.
[1] - Nota: Há um aparente erro na datação da invasão árabe,
mas que é reforçada pela citação do Rei Visigodo D. Rodrigo,
e é aparente pois annos (escrito com dois "n") pode referir 2 anos.

Este extracto do texto revela-nos um relato quinhentista da ida, no séc VIII, de Portugueses/Galegos para o Canadá... até mesmo antes da invasão moura (ou seja, uma migração sueva/visigoda antes de 711). Essa população foi depois reencontrada, no tempo da expansão portuguesa e depois voltou a ser abandonada por causa dos tratados internacionais e da nova ordem mundial. O pedido feito a Dom Sebastião é de reencontrar esta gente, que estaria para ficar sob domínio francês ou inglês... de facto, o rei reclama o território, e provavelmente granjeia novas inimizades (Jacques Cartier já havia desembarcado no Canadá em 1534, e os franceses reclamaram esse território... os ingleses haviam aportado simbolicamente em 1498, no Labrador, com G. Cabotto).
A denominada Ilha de S. Francisco, ou das Sete Cidades, poderia ser a Ilha da Terra Nova. Essa terra seria habitada por cristãos. Este segredo ficou por isso durante gerações e gerações, tal como provavelmente já poderia acontecer antes (antes... no período obscuro do Reino Suevo, mesmo antes no tempo dos romanos, no tempo do porto cale do rio d’ouro).

Observação: Convém notar que este texto tem outras menções que se podem considerar hoje em dia bizarras, como a presença de uma “Ilha de Santa Cruz dos Reis Magos” a 65 ou 70 léguas a oeste da Madeira. Há menções a Santa Cruz noutros mapas, onde pode associar-se a uma possível referência ao Brasil, conforme veremos na carta “Pedro Reinel a fez”.

Assim, o registo de navegações atlânticas na antiguidade, mencionado por vezes nas navegações fenícias de Hanno, pela rota do cabo Arsinário (arsinário ~ de cor dourada, cabo identificado ao actual Cabo Verde), é verosímel, bem como navegações costeiras que não se resumiam a contornar a Europa. Mais facilmente, as navegações costeiras acompanhariam a costa africana, e não serão de estranhar as referências que Duarte Pacheco Pereira faz (no Esmeraldo de Situ Orbis) a essas navegações de contorno da costa africana, atribuídas ao fenício Hanno e ao grego Eudoxo.

São Jorge da Mina
Encontram-se dois registos para a Mina.
Por um lado temos o Castelo de São Jorge da Mina, e por outro lado temos a Fortaleza da Mina.
A Fortaleza da Mina seria em África, mas poderia servir de entreposto, para um correspondente comercial na América, na Colômbia, à mesma latitude. Seria aí o Castelo de São Jorge da Mina, assinalado no mapa do Livro de Marinharia?
Esta hipótese poderá parecer estranha, mas a sua negação também tem alguns problemas.
Para além de múltiplas interrogações, que parecem tornar pouco consistente a chegada do ouro por comércio em África, a que se torna mais evidente é a decadência desse abastecimento aurífero, após o reinado de D. Manuel. O início do período de ouro espanhol é quase simultâneo com o fim do período de ouro português, quando aparentemente as descobertas declaradas teriam sido disjuntas.

Coloca-se uma hipótese do Tratado de Tordesilhas ter uma cláusula de transição, que só favoreceu Dom Manuel, até 1520... Nesta hipótese os portugueses abandonariam as suas possessões no hemisfério ocidental aos espanhóis, já preparados para reivindicar os territórios nessa data. Todo este secretismo ibérico e quebra de anteriores acordos secretos europeus acabaria por legitimar as figuras de corsários de outras potências europeias (por exemplo, ingleses e franceses).

Nota sobre a Carta de Reinel
É ainda importante notar que na Carta “Pedro Reinel me fez”, a linha artificial, que foi usada para mostrar a semelhança com a Costa Mexicana, permite também fazer um prolongamento da Costa Africana, começando na Feitoria da Mina e terminando no Rio Zaire. É esse prolongamento por simples translação que associa a carta às descobertas de Diogo Cão, até ao Congo, ficando bem situada na datação 1484-85. No entanto, essa associação parece perder também algum sentido ao colocar bandeiras “mouras” em território próximo do Congo.
Convém referir que é possível fazer muitas associações com simples pedaços de curvas. Por isso, não deixo de referir uma outra reconstrução, usando o contorno delimitado pelas bandeiras que vão de Ceuta a Tunis.

Com isto, não se pretende mostrar que Pedro Reinel pretenderia usar as semelhanças de contorno até à exaustão. Não deixa de ser notável a semelhança neste caso.
Muito pelo contrário, o excesso destas coincidências, e possíveis associações, permite não só a especulação num sentido, mas torna mais fácil usar especulação como argumento no sentido conservador. Por isso, o foco da semelhança de contornos foi primeiramente restrito à associação de rodar o mapa, já que tal é mencionado por Pedro Nunes, no seu Tratado (ou até na obra setecentista de António José da Silva, “Guerras de Alecrim e Manjerona”).
A associação habitual, prolongando só o contorno para completar a costa africana da Mina até ao Congo, parece também arbitrária, ainda que ela faça todo o sentido.

domingo, 1 de dezembro de 2019

dos Comentários (58) Ninigret e Newport

Em novo comentário de José Manuel Oliveira é referido o Forte Ninigret, a que se juntam na mesma região de Rhode Island, as estruturas Newport Tower ou Dighton Rock.

Como creio que nunca falei aqui destes assuntos, é ocasião de o fazer.

(1) Dighton Rock

O grande calhau estava no meio do rio Tauton, antes de ser levado para o museu.
É claro que se notam inscrições de origem humana, mas dificilmente se consegue concluir alguma coisa sobre o que lá está escrito, a menos que a pessoa esteja munida de grande fé. Durante algum tempo, as inscrições estiveram mesmo marcadas a tinta, o que pré-condicionava a leitura.
O assunto foi ligado à presença de Miguel e Gaspar Corte Real, por Edmund Delabarre em 1912.
Há outras interpretações que vão desde inscrições índias, fenícias, nórdicas, ou até chinesas...
Um grande entusiasta da teoria da origem portuguesa das inscrições foi o médico Manuel Luciano da Silva, que também foi promotor do museu que contém a pedra.

Há quem considere muito relevante este achado, e deu-se grande importância ao assunto.
A principal razão da sua fama é que dali não se vai concluir coisa alguma, o que é excelente para quem quer deixar tudo como está, deixando algum espaço de mistério aos curiosos. Podem se perder anos e anos a discutir sobre o que está, esteve, ou poderia ter estado escrito.
Como se entenderá, nunca mencionei o assunto, porque nada dou por ele...

A chamada Newport Tower é uma peculiar construção antiga, que foi ficando como monumento de Newport. As suas origens eram antigas, descrita em 1741 como um antigo moinho.
Também Edmund Delabarre e depois Luciano da Silva consideraram que este era mais um monumento de origem portuguesa, nomeadamente referindo-se as semelhanças da estrutura à charola do Convento de Tomar.
Ora acontece que existe um moinho inglês em Chesterton, que data de 1632 e é bastante semelhante na estrutura à Torre de Newport.
  
Torre de Newport. Moinho de Chesterton. Charola do Convento de Tomar. 

As semelhanças são de tal forma grandes, que a partir do momento em que vi o moinho inglês, deixei de pensar noutra hipótese.
Poderá argumentar-se que o material usado num caso e noutro são bastante diferentes, podendo aí haver semelhanças com algumas construções portuguesas feitas de xisto, mas nem há construções portuguesas semelhantes à torre de Newport (com possível excepção da charola de Tomar).

Qualquer comparação minimamente objectiva dará uma clara vantagem à teoria do moinho inglês.
Não quer isto dizer que seja uma conclusão definitiva, mas também sobre este assunto passei a dar pouca atenção à hipótese de se ter tratado de uma construção portuguesa.

Ainda em Rhode Island, Charlestown, foram feitas escavações sobre a existência de um forte. A área poderia ter sido habitada pela população indígena, mas depois nota-se uma clara  presença europeia.
A hipótese de ter sido presença portuguesa, é abordada no site (indicado por J.M. Oliveira):
In 1812 a large study was conducted by archaeologist H.H. Wilde and he found many artifacts of Dutch origin. The Dutch in the 1500s were based in New York and could have built a trading post here but there is another intriguing possibility.
Archaeologist William Goodwin, excavating at the fort, found a piece of blue pottery with the letter “R” on it. Some experts believe this might have been the logo belonging to two Portuguese brothers, the explorers Gaspar and Miguel Corte-Real.
In 1500, King Manuel of Portugal encouraged Gasper Corte-Real, the younger brother, to search for lands in America for which he would be granted extended rights. Unfortunately, Gasper disappeared in 1501 while on his voyage. A year later Gasper’s older brother, Miguel Corte-Real, set out to search for his missing brother but he also disappeared.
Fort Ninigret’s mystery deepened in 1921 when an ancient cannon and rusted sword were discovered not far from Fort Ninigret. Along with the cannon several skeletons were also discovered, at least one of which was headless. The cannon identifies as a “cão” meaning dog and was only made by the Portuguese and dated from the 1500s. The sword was of Spanish origin and dated to the late 1400s.
De facto, a semelhança entre o canhão encontrado e os canhões portugueses é grande:
Canhão encontrado em Charlestown (esquerda) e canhão no Museu da Marinha (direita).

Acresce que não haveria razão para um canhão antigo (séc. XVI) ser encontrado em escavações do tempo da presença holandesa ou inglesa (séc. XVII). A espada sendo considerada portuguesa, pode ter tido fabrico espanhol.

Assim, o caso do Forte Ninigret e do canhão encontrado na sua proximidade, é substancialmente diferente dos casos da Torre de Newport e da Pedra de Dighton. Neste caso existe uma possibilidade assinalável de ser um registo português na América do Norte.

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Comentário resposta de José Manuel Oliveira (3.12.2019):
A Torre de Newport com os seus oito arcos e um nicho interior, sem janelas para o exterior, lembra algo idêntico feito em Portugal, as análises à argamassa das pedras prova ser anterior à ocupação inglesa (1500+- 50 anos), fica por se saber quem a construiu, mas que não serve para moinho isso está provado, e é bem diferente da Chesterton que tem seis arcos e várias janelas.
Esse Chesterton com seis arcos, certamente não foi construído para ser um moinho, ambos têm aspeto de miradouros, para mim foram o início dum templo religioso do género de Tomar, ou dum forte militar que não acabaram,
Dighton Rock esteve centenas de anos dentro de água, as inscrições foram quase apagadas pela subida das águas, o que é que hoje pode lá ver claramente? pouco ou nada, mas na época de Delabarre era clara a gravura de: MIGUEL CORTEREAL v[oluntate] DEI hic DUX IND[iorum] 1511, para mim não será uma prova cabal da presença portuguesa na América do Norte, há outras melhores…

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

dos Comentários (57) Lisboa em Nova Iorque

Num comentário ao texto Livro de Fortalezas nas Índias, José Manuel Oliveira (remetendo para livro de Manuel Mira) trouxe um interessante e bizarro erro num mapa de Nova Iorque, à época holandesa nomeada Nova Amesterdão.
O mapa nada tinha a ver com Nova Iorque, era sim um mapa de Lisboa, com os nomes mudados.

Vejamos o mapa de Nowel Amsterdam en L'Amerique, de Gérard Jollain (1672).

Com efeito, à excepção dos barcos, e das legendas, todo o desenho é igual ao mapa de Georg Brun, incluído na compilação Civitates orbis terrarum (5º volume) terminada em 1617.


Como os ingleses conquistaram a cidade em 1664, o mapa feito em 1672 já deveria ter o nome Nova Iorque, pois o nome da cidade foi mudado imediatamente. Além disso designações como "Chateau Nassau" podem referir-se a fortificações nomeadas pelos holandeses, ex: Fort Nassau (norte e sul).
Mais estranha é a referência a um "Quebec"... ou Bikerque.

O erro de colocar o mapa de Lisboa no lugar de Nova Iorque, é demasiado grotesco.
Não parece ser um mero descuido, ou uma propositada preguiça de cópia - se assim fosse, qual o interesse em mudar o desenho dos barcos, colocando até um a disparar?

Porquê confundir com Lisboa, especificamente?
Não havendo outra informação, voltamos ao assunto do Livro de Fortalezas nas Índias, ou seja, que não é de excluir que Nova Iorque, ou antes Nova Amesterdão, tivesse sido uma primitiva colónia portuguesa, com um forte semelhante ao de Diu, instalado em Manhattan.

sábado, 23 de novembro de 2019

Ser humano. Ser anjo.

Agios é uma palavra grega que significa "santo", e que é foneticamente próxima de "anjos", ainda que essa seja suposta derivar de "angelos" (mensageiro). Quando se viaja pela Grécia, há cidades e vilas que invocam um nome santo, tal como Agios Nikolaos, Agia Pelagia, ou Agia Marina em Creta.

Creta (2004) - Agia Pelagia - igreja perto do Museu El Greco em Fodele.

A palavra grega αγία deve ler-se como "a guia", e não como "águia", nem como "agia".
No entanto, quer o significado de "a guia", enquanto ser que guia, ou de "águia", enquanto ser alado, ajustam-se bem à palavra grega.

Este tema surge por uma razão histórica simples e principal.
A razão da existência humana, além do aspecto animalesco. A razão da alma além do corpo.

Podemos pegar numa matilha de lobos e traçar a sua história por gerações.
Haverá uma linhagem real, de chefia da alcateia, podemos enumerar quem foram os seus lobos alfa e os beta, durante dezenas ou centenas de anos... mas qual seria o propósito disso?
Qual seria o propósito de fazer a árvore genealógica de uma alcateia de lobos?
- Nenhum, a menos de estudo genético.

Se listarmos a sucessão de reis ou chefes de uma nação, também o interesse é reduzido ou nulo, se não entendermos um propósito, alguma linha condutora. Se essa linha condutora se resumir a enaltecer algum maior domínio territorial, ou anos de melhor abundância para a população, então veremos que os objectivos dessa nação se resumem praticamente a uma feliz sobrevivência, tal como a alcateia de lobos.

Como os lobos não se preocupam em demasia com os aspectos políticos, de igual distribuição da riqueza alimentar, e conseguem sem problemas ter uma alcateia funcional, sem lobos mendicantes, não vemos propriamente qual seria o propósito não animalesco numa sociedade humana.

Com efeito, até ao advento dos primeiros aspectos culturais, a sociedade humana teria pouco de útil a transmitir. A sua brutalidade só seria maior, por uma falha natural de colocar um limite à ambição territorial, um limite à vontade de mandar e especialmente um limite à vontade de obedecer.

O advento da sociedade moderna, baseada numa lógica de "feliz sobrevivência", em que o maior objectivo dos seus líderes parece ser não ter qualquer outro objectivo, que não seja esse - o bem estar económico, foi de certa forma iludido com uma sociedade baseada no avanço científico.
O avanço científico foi sempre entendido como útil pelas nações como uma forma de supremacia tecnológica, até ao ponto em que começou a ser globalmente partilhado. Na forma de supremacia técnica, não serviria outro propósito que não fosse a "sobrevivência dos mais aptos", e de novo voltaríamos ao aspecto animalesco.
A grande diferença na partilha do conhecimento foi estabelecer um outro inimigo - a ignorância.
Nesse aspecto, a ignorância da outra tribo deixaria de ser um bem (na competição animalesca), para passar a ser um mal (numa competição global contra a ignorância). Isto será um visão cândida, e é melhor encarar que a partilha de conhecimento será sempre estimulada por aqueles que não revelam a sua parte. Este ponto mesmo sendo preocupante é indiferente, porque as vantagens de partilha acabaram por ficar de sobremaneira evidenciadas, independentemente da intenção.

Anjos
Que o moto principal da existência humana será a compreensão do universo, é um ponto que já abordei (ver Princípio Antrópico, por exemplo). Outra questão seria saber se isso implicaria uma necessidade de sofrimento, conforme discutido em texto anterior. Como uma parte do sofrimento passa pela ligação ao corpo, pode-se colocar a questão:
- Necessita a inteligência de suporte físico?

Não há nada de físico que se possa ligar directamente à inteligência, ainda que seja por demais evidente que a inteligência é suposto estar ligada a ligações neuronais no cérebro. Isso é manifestamente insuficiente porque as noções que desenvolvemos ultrapassam a finitude do corpo, começando pela própria noção de finitude que só existe por oposição à infinitude. Se a nossa inteligência se reduzisse à finitude do corpo, não poderia aí estar a noção de infinitude.

As noções abstractas que desenvolvemos são partilhadas praticamente por todos os humanos, e só podem ter origem inversa. Desenvolvemos números tão grandes que ultrapassam todos os grãos de areia do universo físico, ou mesmo todos os átomos, electrões ou protões, a origem desses números não tem qualquer correspondente físico... ultrapassam toda a física. Isso só pode ser justificado porque o universo (mas não o físico) terminou uma parte da sua formação dando origem a uma quantidade de invariantes que nós assimilámos enquanto palavras.

A junção dessas palavras seria possível de forma gratuita, e não há parece haver nada que impeça o desenvolvimento de ideias além da sua existência física... aliás a isso chamamos imaginação. E há uma grande diferença entre o mundo antes e depois da imaginação, porque há uma grande diferença entre as criações artísticas e a realidade.

O grande problema seria apenas um... não haveria diferença entre realidade e ficção.

Suponhamos assim que os primeiros seres existentes teriam sido anjos, capazes de pensamentos, de juntar e formar novas ideias, mas sem qualquer realidade para definirem quais ideias seriam válidas e quais ideias seriam inválidas.
Não teriam qualquer condicionante, porque nada daria mais valor a uma ideia do que a outra.
Um anjo poderia dizer formar a mais brilhante ideia e o outro poderia juntar palavras numa frase sem sentido. Um anjo poderia dizer que 3 e 1 são o mesmo, o outro poderia dizer que entre 3 e 1 há o 2.
Como nada haveria para confrontar as ideias, todas as frases teriam o mesmo valor.
No tédio angelical, os anjos mais populares poderiam ser os diabretes que mais seguidores arranjavam para verem os seus disparates.

Sem qualquer critério, como poderia ser desenvolvido nesse universo uma verdade?
Como poderia ser percebido que ideias seriam correctas ou incorrectas? Tudo não passaria de um jogo de popularidade, de canções de escárnio e maldizer, sem qualquer possibilidade de se atingirem verdades fundamentais.
Porém sendo esses anjos inteligentes, haveria um pequeno problema que os afligiria... da mesma forma que tinham aparecido do nada, poderiam desvanecer-se no nada? Mesmo sem corpo, ou qualquer substrato que os condicionasse, não poderiam garantir que não iriam desaparecer...

Assim, tornar-se-ia quase indispensável para o universo, ou mesmo para os próprios anjos, definirem uma situação bem diferente... um pequeno jogo em que o entendimento do mundo envolvente fosse decisivo. Nesse jogo os anjos poderiam continuar a dizer o que quisessem, poderiam mentir, se assim desejassem, poderiam até ignorar a realidade, mas isso pagar-se-ia caro... com a vida.
Bom, mas os anjos não poderiam morrer. Certo, mas a questão é que nasciam para este mundo sem saberem desse pequeno detalhe. E haveria uma condicionante presente - o desaparecimento do mundo físico. Sob essa ameaça bem real, constatada diariamente pelo desaparecimento de muitos outros, poderiam ainda assim concluir da sua imortalidade?

Portanto, a questão é que no mundo dos sonhos tudo é possível, e é indiferente que faça muito ou pouco sentido... tem um sentido próprio. Agora será esta realidade o sonho que permite concluir sobre os outros sonhos? Será este o universo que não permite a existência de multiversos, onde o ser e o não ser podem ocorrer em simultâneo.

Se assim fosse, mesmo quem estivesse fora de jogo seria tentado a jogar... só que haveria um pequeno problema, a consistência desta realidade iria levar ao desaparecimento da realidade dos anjos. A sua intervenção neste mundo seria medida apenas pela probabilidade ou improbabilidade de certas coisas ocorrerem. Para ganharem existência real, esses anjos teriam que morrer no seu mundo para renascerem neste, sem nada saberem do anterior. Para todos os efeitos é como se nunca tivessem existido, e não se distinguiriam de qualquer um acabado de nascer.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Livro de fortalezas nas Índias

Um livro que contém um registo razoavelmente extenso de fortalezas portuguesas na Índia, bem como de algumas outras regiões é:

António Bocarro (1635)

Interessou-me o caso particular da fortaleza de Diu, porque tem uma disposição muito parecida com a que teria a fortaleza de Nova Iorque em Manhattan, conforme desenhada pelos holandeses em 1660:

Mapa de 1660 de Nova Amsterdão (Nova Iorque, Manhattan) com forte e muralha de Wall Street (à direita).

Mapa de Diu (na Índia) também com forte e uma muralha à direita.

Plano actual de Diu (Google Maps) onde a amarelo está destacada a muralha (ainda existente).

As semelhanças são muito evidentes.
O tipo de fortaleza que encontramos no mapa holandês poderia ser bem uma fortaleza portuguesa, que simplesmente teria sido abandonada ou perdida para os holandeses, durante o período de ocupação espanhola. Há diversos fortes portugueses do mesmo tipo, e a delimitação por uma muralha exterior, separando a ilha em duas partes, parece ser exactamente a mesma solução que os portugueses seguiram em Diu.

O continente norte-americano ficou praticamente por colonizar até à chegada dos ingleses, holandeses, e franceses. Não se conhecem registos de fortalezas portuguesas ou espanholas naquelas paragens, exceptuando alguns fortes espanhóis na Florida. Se não fossem os portugueses, pelo menos os espanhóis teriam tido oportunidade para colonizar aquela região, e não o quiseram fazer além da Florida. Porém, é quase certo que a principal razão seria o resto de uma presença portuguesa naquelas paragens, tendo ficado semi-abandonada de ligação ao reino. O nome latino de Nova Iorque corresponder a Nova Eboraca (York seria Eboraca em latim) seria um sinal interessante para especular numa certa colónia "Nova Évora", mas tal nome nunca parece ter constado dos nossos registos coloniais.   

O aproveitamento que os holandeses fizeram das fortalezas portuguesas por si conquistadas, é extenso e claro. Ainda hoje ocorrem casos em que se fala do "forte holandês", quando se tratou de um "forte português" conquistado pelos holandeses. Ainda que os holandeses depois pudessem naturalmente fazer alguns melhoramentos, o projecto e execução inicial era quase sistematicamente português.

É naturalmente especulativo, e até talvez gratuito (dada a escassez de indícios), pensar que poderia já existir uma estrutura militar portuguesa na ilha de Manhattan, tal como tantas outras que existiam ao longo dos oceanos Atlântico (Brasil e África) ou Índico (África, Índia, Indochina). 
Dada a "facilidade" que os portugueses tiveram em erguer uma enorme quantidade destas fortalezas, graças à experiência adquirida em Marrocos (onde as tinham que erguer sob ameaça inimiga constante), também nada impede, e parece-me até razoavelmente provável que os portugueses tivessem fortificado alguma parte da costa norte-americana, até à Terra Nova.

Deixamos 5 imagens de outras fortalezas portuguesas, das 42 constantes no livro de Bocarro, que evidenciam a variedade de estruturas defensivas usadas:


Fortaleza de São Caetano de Sofala (Moçambique) - ver fortalezas.org

Fortaleza de São Sebastião (ilha de Moçambique) - ver fortalezas.org

Fortaleza de Mombaça (Quénia) - ver fortalezas.org

Fortaleza de Curiate (Omã) - ver fortalezas.org

Fortaleza de Mascate (Omã) - ver fortalezas.org