sexta-feira, 8 de abril de 2016

Druidas, segundo Pinho Leal

Quando Roma procurava ainda expandir-se na península itálica, a parte norte dessa península esteve sob longo poder dos gauleses, de tempos bem anteriores à fundação de Roma, e a região do norte de Itália era mesmo conhecida como Gália Cisalpina, incluindo o vale do Rio Pó, até aos montes Apeninos. Mesmo quando Roma assegurou a parte sul grega, da Apulia e Calabria, ao tempo das primeiras Guerras Púnicas com Cartago, Roma ainda não tinha assegurado a parte norte de Itália, pela qual Aníbal avançou contra Roma, com a complacência dos gauleses aí estacionados.

Um dos episódios marcantes de Roma foi a sua invasão pelos gauleses de Breno, c. 390 a.C., após a vitória na Batalha de Ália, quando Breno passou o Rubicão e saqueou praticamente toda a cidade, à excepção do monte Capitólio, onde os romanos aguentaram o cerco, e procuraram negociar uma paz em troca de um pesado resgate de ouro. Ao protesto de que a balança não se alterava por mais ouro que os romanos juntassem, Breno terá respondido "Vae victis" - algo como "ai dos vencidos"... pois o seu peso só era medido na balança dos vencedores.
O quinhão de Breno nos despojos romanos (Paul Jamin, 1893)
Assim, é bastante simbólica a conquista da Gália por Júlio César, exorcizando o fantasma de Breno, ao contrapor a famosa frase "Veni, vidi, vici".
Os gauleses, ou celtas (segundo a designação grega), estenderam-se por um território europeu enorme, bastante superior à França, e se fizeram também a sua incursão por território ibérico por um lado, por outro lado ameaçaram toda a Grécia, derrotando os gregos nas Termópilas, e avançando até à região turca da Anatólia onde se fixaram, ficando aí conhecidos como Gálatas (aliás, ainda hoje existe o clube turco Galatasaray).
Sendo as Termópilas o local mítico da resistência grega "dos trezentos" contra os persas, ficou bem menos famosa a derrota grega contra os gauleses de Breno - um líder com o mesmo nome do que antes havia saqueado Roma (ou eventualmente a palavra "breno" designaria o líder).
Foram finalmente travados por Átalo, Rei de Pérgamo, do que restou simbolicamente a notável estátua do "gaulês moribundo" - que depois os romanos reproduziram, talvez aí já comemorando as vitórias de César na Gália.
"O gaulês moribundo", estátua do Séc. III a.C. - cópia romana.
No peso distorcido da histórica balança gaulesa de Breno, se os romanos preservaram algumas partes da história dos seus inimigos, apagaram uma boa parte da memória dos vencidos... vae victis!
Assim, pelo lado gaulês, desse seu grande império europeu que foi da Bretanha até à Turquia, praticamente restou um mesmo nome - Breno - para dois líderes diferentes. Depois disso, ficou essencialmente o nome do líder derrotado por César - Vercingetorix.

Aliás, uma boa parte do que restou sobre os gauleses/celtas foi a descrição feita pelo seu conquistador - Júlio César, que em particular apontava a grande superioridade naval dos Venetos sobre os Romanos, na navegação atlântica (Venetos, que estavam na Gália, mas que antes tinham também estado na região de Veneza).

No entanto, uma grande atracção que se veio a verificar na cultura francesa no Séc. XIX, procurou recuperar a memória cultural pela tradição antiga, nomeadamente foi recuperado um fascínio sobre os seus sacerdotes - os druidas - capazes de notáveis poções mágicas, conforme ilustrado nos álbuns de banda desenhada "Asterix".

Recuperamos aqui um informativo texto de Pinho Leal sobre esses druidas, que seguirá certamente alguma leitura francesa da época, onde ele se deverá ter baseado.

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DRUIDAS E SUA RELIGIÃO, 
LEIS, USOS, COSTUMES, GERARCHIAS, etc

por Augusto Pinho Leal

em Portugal Antigo e Moderno, Vol. 2 (pág. 482)

César (nos seus Comentários) diz que a religião druidica teve origem em Inglaterra; porém Tácito (nos seus Anais) diz que os gauleses aportando a esta ilha aí tinham levado as suas crenças.
Parece que Tácito tem razão, mas os druidas ingleses (ou do Norte) conservaram com mais pureza a sua religião e tradições.
A religião dos gauleses foi sempre mais esclarecida que a dos outros povos de então. Suas ideias sobre a divindade eram muito mais justas e mais espirituais do que as dos gregos e as dos romanos.
Tácito, Máximo de Tyro e outros historiadores nos dizem que os druidas estavam convencidos de que se deve honrar o Ser Supremo, pelo respeito e o silêncio tanto como pelos sacrifícios; mas esta simplicidade primitiva se foi perdendo pouco a pouco e já não existia ao tempo das conquistas dos romanos.
Os druidas, esquecendo as suas primeiras tradições, se deram à adivinhação e à magia e toleravam os horrorosos sacrifícios de vítimas humanas, em honra de Esus e Teutatés. Tácito Lactancio e Lucano aos testificam esta degradação.
As conquistas de Júlio César introduziram novos deuses nas Gaulas, fundando-se então os primeiros templos, enquanto que os druidas da Inglaterra continuaram o exercício da sua religião no centro das florestas, que para eles eram sagradas.
Os gauleses tinham no interior dos bosques espaços consagrados ao culto e às ceremónias religiosas. Era ali que eles enterravam os tesouros tomados aos inimigos, e que imolavam os prisioneiros. Fechavam-nos em grandes gaiolas feitas de vimes, cercados de matérias combustíveis e lhes lançavam fogo.

Diferentes classes de druidas — Sua maneira de viver — Seus vestidos e funções.
A palavra druida vem incontestavelmente do substantivo céltico deru, que quer dizer - carvalho.
Estes ministros se dividiam em diferentes classes.
Os druidas formavam a primeira, e eram os supremos chefes, tão respeitados que os demais deviam arredar-se quando eles apareciam e não podiam chegar à sua presença sem terem obtido licença para isso.
Os ministros inferiores eram:
  • os bardos,
  • os saronides,
  • e os eubages ou vacerres.
Os bardos, cujo nome céltico quer dizer cantor, celebravam em verso as acções dos heróis, cantando ao som das suas harpas.
Ligava-se tanto valor aos seus versos que eles bastavam para imortalizar. Ainda que menos poderosos que os druidas, gozavam tamanha consideração que, apresentando-se no momento em que dois exércitos estavam a ponto de combater, ou já tinham mesmo principiado a batalha, depunham as armas para ouvirem as suas propostas.
Não se limitavam a cantar as acções dos heróis, tinham também o direito de censurar as acções dos particulares que se apartavam do cumprimento dos seus deveres. Os saronides instruíam a mocidade, inspirando-lhe sentimentos virtuosos.
Os eubages tinham o cuidado dos sacrifícios e se aplicavam à contemplação da natureza.
A origem dos druidas se perde na mais remota antiguidade. Aristóteles, Phocion e muitos outros escritores que os precederam, os descrevem como os homens mais esclarecidos em matérias de religião. Tinha-se tão grande crença no seu saber, que Cícero diz que eles foram os inventores da mitologia.
Os druidas, ocultos em suas florestas, viviam na maior austeridade. Era ali que as nações os iam consultar. Eles formavam diferentes colégios nas Gaulas; o mais célebre de todos era o do país de Chartrain; o chefe deste colégio era o soberano pontífice das Gaulas.
Seus vestidos diferiam alguma coisa segundo as províncias em que viviam ou os graus que exerciam.
A cerimónia da profissão se fazia recebendo o abraço ("accolade") dos velhos druidas. O candidato, depois disto, deixava o vestido ordinário para vestir o dos druidas, que era uma túnica, chegando apenas ao joelho. As mulheres não podiam ultimamente ser admitidas ao sacerdócio.
Era muito grande a autoridade dos druidas. Presidiam aos estados, decidiam da paz ou da guerra; castigavam os culpados, depunham os magistrados e mesmo os reis, se eles não observavam as leis do país. Sua gerarchia era superior à dos nobres. Nomeavam anualmente os magistrados que deviam governar as cidades, podendo elevar qualquer deles à dignidade de vergobret, que igualava à dos reis; mas este vergobret nada podia fazer sem consentimento dos druidas, que, decidiam também, sem apelo nem agravo, as contendas e demandas dos particulares, cujo vencido se devia submeter às suas decisões, sob pena de ser ferido de anátema, e desde então todo o sacrifício lhe era interdito, toda a nação o considerava ímpio e ninguém ousava comunicar com ele.
Eram dispensados de ir à guerra, e de pagar tributos. Já se vê que o numero dos aspirantes a druidas era imenso, jamais porque admitia todos os estados e profissões; mas tinha os inconvenientes de um diuturno noviciado e da indispensável necessidade de decorar mui prodigioso número de versos, que continham as máximas sobre a religião e a politica.
As mulheres gaulesas podiam antigamente ser admitidas na gerarchia dos druidas (ser druidesses) e gozavam então todas as prerrogativas da ordem; porém exerciam as suas funções separadas dos homens. Suas adivinhações as tinham tornado mais célebres do que aos próprios druidas.
Quando Aníbal passou às Gaulas, ainda elas exerciam o direito supremo, e tanto que se estipulou em um tratado que ele fez com os gauleses, que «se algum cartaginês prejudicar por qualquer modo a um gaulês, a causa será levada ao tribunal das mulheres gaulesas».
Com o andar do tempo, os druidas despojaram as mulheres desta autoridade, mas ignora-se a época desta usurpação.

Doutrina dos druidas — Suas superstições 
Ceremonia do gui [agarico, cogumelo parasita] do carvalho.

Toda a doutrina druidica tendia a tornar os homens sábios, justos, bravos e religiosos.
Os pontos fundamentais desta doutrina se reduziam a três:
  • adorar os deuses,
  • não prejudicar o próximo,
  • e ser valoroso.
Pompónio Mela diz que a ciência dos druidas consistia em conhecer a forma e grandeza do Ser Supremo, o curso dos astros e das revoluções do globo.
Criam firmemente na imortalidade da alma e consideravam a morte como um seguro meio de irem gozar uma existência mais venturosa.
Os que morriam em paz, no centro das suas famílias eram enterrados sem pompa e sem elogios e sem as canções compostas em honra dos mortos; porém os que perdiam a vida em serviço da pátria tinham tudo isto; porque acreditavam que eles sobreviviam a si mesmos e transmitiam seus nomes às gerações futuras, acreditando-se que eles iam gozar a felicidade eterna no seio da divindade. Só eles tinham túmulos e epitáfios.
Os que não tinham ilustrado a sua vida com alguma acção guerreira, brilhante ou útil ao bem geral, eram condenados a um completo e eterno esquecimento.
O génio belicoso dos gauleses e dos outros celtas dava razão a estas crenças, pois que eles nada prezavam tanto como a profissão das armas.
Os druidas ensinavam que um dia a agua e o fogo destruiriam todas as coisas.

Criam na metempsychose
(Todos sabem que a metempsychose é a transmigração das almas de uns para outros corpos), 
e não a adoptaram da doutrina de Pitágoras, pois quando este sábio grego viajou nas Gaulas, já esta máxima era ali adoptada havia muito tempo.
De tempo imemorial tinham o costume de sepultar os mortos ou de guardar suas cinzas em urnas funerárias. Nos seus túmulos se guardavam suas armas, seus moveis preciosos e as cédulas do dinheiro que haviam emprestado. Os vivos lançavam nas sepulturas cartas dirigidas aos seus amigos falecidos, na certeza de que elas iam ao seu destino.
Nunca escreviam as suas máximas ou ciências. Era em versos que eles conservavam os seus conhecimentos e era necessário aprende-los de cor.
Estes versos eram em tão grande número, que levavam de 15 a 20 anos a decorar.
Segundo Júlio César, a doutrina dos druidas era misteriosa e só deles conhecida. Também cultivavam a medicina, no que eram considerados peritíssimos.
Estes sábios tão respeitados e respeitáveis durante muitos séculos, principiaram depois a degenerar, dedicando-se à astrologia, à magia e à arte de adivinhar, na esperança de aumentarem o seu crédito e o seu poder.
Tinham bastantes conhecimentos sobre botânica, porém misturavam-lhe muitas práticas misteriosas, sobretudo na colheita das plantas medicinais.
Plínio, o naturalista, diz o meio de que se serviam para colher o selage (planta medicinal, espécie de aipo silvestre). Devia ser arrancado sem instrumento cortante e com a mão direita inteiramente coberta com uma parte da roupa. Passavam depois a planta para a mão esquerda, com muita rapidez, como se fosse um roubo que se pretendesse esconder. Deviam os apanhadores estar vestidos de branco, ter os pés nus e oferecer um sacrifício com pão e vinho.
verbena colhia-se antes de nascer o sol, no primeiro dia da Canícula, depois de se ter oferecido à Terra um sacrifício de expiação, no qual se empregavam frutos e mel.;
Atribuíam a esta planta as maiores virtudes, e bastava esfregar-se com ela para se obter o que se desejava. Curava todas as doenças e tinha o poder de reconciliar os corações que a inimizade havia separado. Quem tocasse esta planta milagrosa sentia instantaneamente a paz e a alegria nascer nos seus corações.
Criam que a morte dos homens notáveis suscitava tempestades. O trovão, os terramotos, os meteoros, os eclipses, etc. anunciavam a morte de um personagem importante.
Os druidas deixaram acreditar ao povo que eles podiam mudar de forma, ou viajar pelos ares, segundo a sua vontade; mas a mais bárbara das suas superstições era imolarem vítimas humanas, uso que só terminou com a extinção do druidismo. Os numerosos éditos dos imperadores romanos contra este crime, mostra quanto ele estava em uso nas Gaulas e quanto custou a exterminar.
A mais solene das suas cerimónias era a colheita do Gui du Chêne (agarico do carvalho). Esta planta parasita nasce sobre algumas árvores; mas os druidas criam que Deus tinha principalmente escolhido o carvalho para lhe confiar esta preciosa planta.
Percorriam as florestas com o maior cuidado e se felicitavam entre si quando, depois de longos e peníveis trabalhos e buscas, descobriam uma certa quantidade de agarico.
Não se podia colher esta planta senão no mês de Dezembro, no 6º dia da Lua.
Este mês e o nº6 eram sagrados para os druidas. Era sempre no 6º dia da Lua que eles faziam seus principais actos religiosos.
Chegados ao pé do carvalho que o agarico envolvia, o chefe dos druidas subia à árvore e cortava a planta com uma foicinha de ouro e os druidas a recebiam com um grande respeito no sagum (espécie de saia branca.) Depois imolavam-se dois touros brancos e um festim se seguia, findo o qual se invocava a divindade para que ligasse à planta recém-colhida uma felicidade experimentada por todos os circunstantes, a quem se distribuía uma pequena parte do agarico. Era no 1.° dia do ano que se sagrava o gui, que se distribuía ao povo.

Principais máximas dos druidas 
(Estas máximas só as relatamos pela tradição que delas chegou aos nossos dias, visto que os druidas nunca as escreviam)
  • 1. É indispensável ser instruído nos bosques sagrados, pelos sacerdotes.
  • 2. O agarico deve ser colhido com um grande respeito, sempre que seja possível, no 6º dia do ano, e só com uma foicinha de ouro se pôde cortar.
  • 3. O céu dá origem a tudo que é criado.
  • 4. Não se deve confiar o segredo das ciências á escritura, mas sim à memoria.
  • 5. É indispensável ter grande cuidado com a educação dos meninos.
  • 6. Os desobedientes não podem assistir aos sacrifícios.
  • 7. As almas são imortais.
  • 8. As almas passam a outros corpos depois da morte dos que elas animaram.
  • 9. Se o mundo vier a destruir-se, será pela agua ou pelo fogo.
  • 10. Em ocasiões extraordinárias é preciso imolar um homem : poder-se-á predizer o futuro, regulando-se pelo modo de sair do corpo do sacrificado, pelo correr do seu sangue, ou pela ferida que o ferro lhe abrir.
  • 11. Os prisioneiros de guerra devem ser imolados sobre os altares, ou serem fechados em cestos de vime para se queimarem vivos em honra dos deuses.
  • 12. Não se deve permitir o comércio com os estrangeiros.
  • 13. O último que chegar à assembleia dos Estados deve ser punido com a morte.
  • 14. Os meninos devem ser criados até à idade de 14 anos fora da presença de seus pais e mães.
  • 15. O dinheiro emprestado nesta vida, será restituído aos credores, no outro mundo.
  • 16. Há um outro mundo, e os amigos que se matam para acompanhar os seus amigos mortos, viverão com eles eternamente no outro mundo.
  • 17. Todas as cartas entregues ao cadáver, ou lançadas nas suas fogueiras, serão fielmente entregues a quem pertencera, no outro mundo.
  • 18. O desobediente seja expulso, que ele não receba nenhuma justiça, nem seja admitido em nenhum emprego.
  • 19. Todos os pais ou chefes de família são reis em suas casas : têm o poder de vida e morte sobre suas mulheres, filhos e escravos.
Das druidessas
Já disse que toda a moral dos druidas se reduzia a três pontos principais: honrar os deuses, não prejudicar o próximo e ser corajoso. Como conciliar com estas máximas sublimes, a que dá aos pais o direito de vida e morte sobre a sua família?
O abade Banier porém, diz que esta ilimitada autoridade paterna não era fundada em lei alguma positiva, mas somente no amor e respeito,
Júlio César e Tácito descrevem com prazer o respeito que os gauleses e os germanos tinham a suas mulheres: as dos druidas partilhavam a autoridade com seus maridos: eram consultadas nos negócios políticos e religiosos. Havia mesmo nas Gaulas templos erectos depois da conquista dos romanos, nos quais as druidessas exclusivamente ordenavam e regulavam tudo o que dizia respeito à religião, e dos quais a entrada era interdita aos homens,
Mr. Mallet, na sua excelente Introdução à Historia da Dinamarca, diz que os celtas e gauleses se mostravam superiores aos orientais, que passam da adoração ao desprezo e dos sentimentos de um amor idolatra aos de um ciúme desumano ou aos de uma indiferença, mais insultante ainda que o ciúme. Os celtas consideravam suas mulheres como iguais e companheiras, cuja estima e ternura não podiam ser gloriosamente adquiridas senão por esforços de amor e coragem.
As poesias de Ossian provam que os habitantes das Ilhas Britânicas sempre levaram estes respeitos e estas atenções além de outra qualquer nação do mundo. Fieis à beleza que seu coração tinha escolhido, nunca tiveram simultaneamente várias mulheres, e muitas vezes suas esposas seguiam, vestidas de homem, seus maridos à guerra.
Existiam três classes de druidessas:
  • as primeiras, viviam no celibato ;
  • as segundas, ainda que casadas, residiam nos templos que elas serviam, e não viam seus maridos senão um só dia em cada ano;
  • as terceiras não deixavam seus esposos e tinham o cuidado do interior de suas casas.
Apesar destas diferenças, as druidessas não formavam verdadeiramente senão duas classes. A primeira era composta de sacerdotisas, e as mulheres de segunda classe eram apenas ministras das sacerdotisas, de quem cumpriam as ordens.
A habitação mais ordinária das druidessas era nas ilhas que bordam as costas das Gaulas e da Grã-Bretanha. Os druidas também habitavam algumas destas ilhas; mas nas que eram residência dos druidas de um sexo, não havia de outro.
Eram os druidas, de ambos os sexos, que habitavam estas ilhas, que mais se davam à magia, e os povos das Gaulas e da Inglaterra criam geralmente que eles podiam excitar ou aplacar os furacões e tempestades.
Os druidas por fim abandonaram às druidessas a arte de adivinhar, segundo a influência dos astros, na convicção de que elas teriam, mais do que eles, o dom de fazer persuadir os povos da verdade das suas predições; por isso as encarregavam de todas as perguntas sobre o futuro. Elas davam respostas tão habilmente combinadas, que a sua reputação sobre oráculos se espalhou por todo o mundo, vindo-as consultar de todas as partes e as suas decisões inspiravam infinitamente mais confiança que os célebres oráculos da Grécia e da Itália.
Os próprios imperadores romanos as mandavam muitas vezes consultar, enquanto dominaram as Gaulas. A história, todavia tem conservado muitas das respostas das sybillas, e não faz menção especial de nenhuma das druidessas.
Suetónio, Aurélio-Victor e Séneca sustentam que a religião druidica foi abolida sob o império de Cláudio; mas, como os druidas subsistiram muito mais tempo, parece que estes autores não quiseram falar senão nos sacrifícios humanos, que este imperador proibiu expressa e severamente. O que é certo, é existirem ainda no país chartrense até ao meiado do século quinto. Parece certo que a ordem druidica só deixou de existir quando o cristianismo triunfou inteiramente das superstições dos gauleses e este triunfo só se conseguiu mais tarde em algumas províncias, e a religião druidica custou muitíssimo a desarreigar nas Gaulas e na Grã-Bretanha.
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09/04/2016

sábado, 26 de março de 2016

Fio de Brabante

No postal da semana anterior mencionámos a lenda de Lohengrin, na sua embarcação em forma de cisne, e por virtude dessa lenda ser colocada em Brabante - antigo ducado da região belga de Bruxelas, deixamos a sequência que iremos seguir na continuação do anterior: 
  • Âncoras suiças 
    • Cisne de Lohengrin e Elsa de Brabante
    • Cisne de Bolonha (Boulogne-sur-mer) e Bulhão
  • Ducado de Brabante, Condado de Bolonha
    • Godofredo de Bulhão, Conde D. Henrique
  • Ducado da Borgonha
    • Infanta D. Isabel e Filipe o Bom
    • Ordem do Tosão de Ouro
      • Palácio Coudenberg em Bruxelas
      • Abdicação de Carlos V em 1555
  • 1830 e a invenção belga
Na boa tradição das histórias medievais, como a dos Doze de Inglaterra, em que cavaleiros portugueses partem para Inglaterra para defender a honra de donzelas britânicas em apuros; também Elsa de Brabante, sob falsa acusação de fratricídio, sonha que um cavaleiro a virá defender... que será Lohengrin, chegando numa embarcação em forma de cisne (ou puxada por um cisne), cujo nome é Helias.
 

A lenda do Cavaleiro do Cisne tem diversas variantes, e convém não esquecer a própria mitologia grega, que colocava personagens centrais da Guerra de Tróia como resultado da gestação de Zeus, disfarçado em forma de Cisne... e daí o nome do Cisne vindo de Helios ser uma variante de divindade solar.
Zeus teria seduzido Leda (ou Nemesis) e dessa união teriam surgido dois pares de gémeos em dois ovos: Helena e Clitemnestra, que casariam com Menelau e Agamémnon, e ainda os irmãos Castor e Polux. Outra aventura amorosa de Zeus é o conhecido disfarce como touro branco, raptando Europa.

O cisne que traz Lohengrin a Elsa de Brabante, será o irmão... o irmão que supostamente teria morto, e que era apenas vítima de feitiço. O nome Elias liga-se a Helias, o nome do cisne, pela perda do insonoro H.
Wagner fará de Lohengrin uma das suas obras primas, seguindo essencialmente a versão do Séc. XIII, de Wolfram Eschenbach:
Lohengrin de Richard Wagner - Opera de Viena  (conduzida por Claudio Abbado) 

Um dos aspectos centrais desta história é uma ligação do herói Lohengrin a Godofredo de Bulhão, que irá conquistar Jerusalém na 1ª Cruzada.
Ora, um requisito que é feito por Lohengrin a Elsa de Brabante, e comum às histórias do Cavaleiro do Cisne, seria não perguntar pelas suas origens familiares. A quebra dessa promessa fará com que Lohengrin abandone Elsa, após se ter casado com ela (Wagner compõe aqui a célebre marcha nupcial, como prelúdio ao Acto III).

As origens de Godofredo do Bulhão estão ligadas ao Condado de Bolonha, e de Brabante, mas ainda assim ofereceriam algumas dúvidas, tal como aconteceria com o Conde D. Henrique... supostamente seu irmão mais novo, segundo Damião de Goes, conforme vimos antes, tendo em atenção o brazão de Bolonha (Boulogne-sur-mér), com o cisne e com 3 bezantes.
Numa variante da história do Cavaleiro do Cisne, com o nome Elias, a defesa da condessa do Bulhão leva ao nascimento de Ida, que seria a mãe de Godofredo do Bulhão. Wagner terá preferido considerar Godofredo como o irmão de Elsa.

Já referimos que IDA era o moto inicial do Infante D. Henrique, e Bernardo de Brito dá como certo que o Conde D. Henrique não só parou em Portugal quando se dirigia para a Terra Santa, mas acabou mesmo por participar na Cruzada seguinte à Terra Santa, com custos pessoais consideráveis, por ter sido preso e resgatado.

Por outro lado, aparece aqui a ligação à irmã, a Infanta D. Isabel, casada com o Duque de Borgonha, Filipe o Bom, uma das mulheres mais influentes na Europa. É nessa altura que o ducado anexa Brabante, e assim o centro da história de Ida, Godofredo de Bulhão, estão no centro da vida da Infanta D. Isabel e do seu filho, Carlos o Temerário. É o tempo da criação da Ordem do Tosão de Ouro, e de provavelmente inventar convenientemente muitas histórias de cavalaria.
Essa ligação é marcante, porque é Margarida, a filha de Carlos o Temerário, neta de Isabel, que ao casar-se com os Habsburgos, junta mais aquele domínio à casa austríaca.
Ora, quando a casa austríaca se liga à espanhola com Carlos V, os seus territórios são demasiado vastos, e o imperador opta por dividir o império entre o filho Filipe II de Espanha, e o irmão Fernando, que controlará o lado austríaco, mantendo o poder sobre a região de Brabante até às invasões napoleónicas.

Carlos V já usava Bruxelas como centro político e a sua abdicação será mesmo feita em 1555 no Palácio Coudenberg de Bruxelas (este palácio desapareceu num incêndio no Séc. XVIII).
Abdicação de Carlos V - para o irmão Fernando e para o filho Filipe II, em 1555.
Olhando para esta imagem, veremos que quer o imperador, quer o irmão e o filho, todos ostentam o colar da Ordem do Tosão de Ouro, e aliás o palácio de Coudenberg era o centro de funcionamento dessa ordem de cavalaria, ainda que esta divisão de poder tenha constituído dois ramos - o ramo espanhol, de que é sucessor Filipe VII, por via de Filipe II, e um outro ramo, o ramo austríaco, que não tem funções oficiais, dado a Áustria ter passado a ser república. Portanto, também o legado do Tosão de Ouro passou por Bruxelas (onde há aliás um cinema UGC Toison d'Or).

Quando caiu o poder napoleónico foi inventado o Reino da Bélgica, procurando uma herança histórica nessa parte de Brabante, dos duques de Borgonha, mas talvez mais no legado de Godofredo do Bulhão, e do seu irmão Balduíno, enquanto Reis de Jerusalém.
A Bélgica, um país tão recente quanto todos os que foram inventados nas revoluções independentistas patrocinadas pela maçonaria, entre 1815 e 1848, ganhou a sua independência em 1830, após pertencer brevemente à Holanda... e a vontade da França em anexar o território contíguo acabou por levar à invasão prussiana que terminou humilhantemente com a conquista de Paris por Bismarck.
Essa sobrevivência belga mantida por equilíbrios geoestratégicos, permitiu-lhe ainda tomar parte no bolo colonial, cabendo-lhe o Congo Belga, com a benevolência familiar da Rainha Vitória, uma das regiões onde a barbárie colonialista tomou aspectos mais gritantes - estimando-se em 5 milhões de mortos, no reinado de Leopoldo II da Bélgica.

Assim, desde o tempo do ducado de Brabante, passando pelos ideais de cavalaria da Távola Redonda, com Parseval e o seu filho Lohengrin, ou com 12 estrelinhas distribuídas por igual, mantidos como apóstolos de um colonialismo iluminado, Bruxelas acabou por se tornar num centro de consenso de equilíbrios geoestratégicos europeus... sempre com grande vontade de interferir no mundo, mas com grande dificuldade em digerir consequências das assimetrias que a sua gula de poder produz.

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Nota: Acerca deste assunto, sugiro a leitura de uma sequência de textos:
que usa o título da obra de Joseph Conrad (que inspirou o filme de Coppola, Apocalipse Now), e onde se fala do funcionamento de várias organizações secretas na Europa, nomeadamente nas actividades altamente subversivas da Loja Maçónica P2, em Itália, e da Operação Gládio, ou ainda da Aginter Presse (sediada em Portugal, com o apoio da PIDE), numa grande estratégia da CIA contra a influência comunista da época.
A Aginter Presse, pretensa agência de imprensa internacional, era uma
fachada de agência secreta com actividades terroristas, ou subversivas,
contra a influência comunista, e esteve sediada em Portugal até 1974. 
Aditamento (29/03/2016)
O número de vítimas dos Assassinos de Brabante (1982-85) foi de 28 mortos e 40 feridos, um número elevado em termos de mortes, mas não chegando ao ponto dos 39 mortos e 600 feridos ocorridos no Heysel Stadium, em Bruxelas, número ainda superior ao dos recentes atentados bombistas (38 mortos e 300 feridos). 
Ainda hoje está "por resolver" o caso dos assassínios em Brabante, e conforme é escrito na wikipedia:
One theory was that the communist threat in Western Europe was taken as justifying Operation Gladio being activated. However, the Belgian parliamentary inquiry into Gladio found no substantive evidence that Gladio was involved in any terrorist acts or that criminal groups had infiltrated the stay-behind network. The Belgian Gendarmerie were abolished in reforms that came as a result of a perceived lack of satisfactory performance in the Brabant killers case, and that of Marc Dutroux.
O caso de Marc Dutroux foi o primeiro caso largamente divulgado de pedofilia, especialmente porque libertado após cumprir apenas 3 anos de prisão, voltou a reincidir, mostrando largamente a ineficácia do sistema policial e judicial belga. Só após este caso, julgado em 2004, é que houve uma larga atenção aos casos de pedofilia, a nível internacional, que envolveram também acusações à estrutura da Igreja Católica.

Quanto à não resolução dos casos de assassínios de Brabante que se prolongaram durante 4 anos, digamos que... ou era mesmo matéria classificada de serviços secretos, como a Operação Gládio (o que deixou a polícia belga longe da herança do detective Poirot), ou então talvez uma reportagem do Canal História mostre que seriam apenas manifestação de fenómenos alienígenas, coisa também muito comum naquelas paragens...

quinta-feira, 17 de março de 2016

Âncoras suiças (4)

Na sequência do texto antigo Basiliscos de Basileia e Medos de Medusa, e de outros dois sobre âncoras suiças (1) e (2), onde se relatava a descoberta numa mina suiça de restos de um barco antigo afundado, acrescentamos alguns elementos.
Antes de prosseguir, notamos que a Suiça tem Marinha, porque apesar de não ser evidente o contacto com o mar, os suiços são precavidos.

A descoberta dos restos do navio foi tornada pública em 1460, e a mina foi descrita como sendo próxima de Basileia. 
Precisamente nesse ano será fundada a Universidade de Basileia, e curiosamente, num postal de Ano Novo de 1460 (também de Basileia), é apresentada esta figura:
(imagem)
Até aqui nada de especial, ainda que seja estranho o destaque dado à âncora, e a forma da proa do navio ser em forma de "pato, ganso ou cisne"... iremos optar por pensar que é um cisne galináceo, e já explicaremos porquê. É claro, maior coincidência é ser no exacto ano em que saem as notícias do achado do navio, na mina de Basileia... adiante!

Não há muitas imagens de navios fenícios, tirando as várias representações em moedas, normalmente vemos duas mais habituais, uma será de um vaso de guerra (num alto-relevo que está partido), e outra é uma representação num sarcófago, identificada como "navio fenício":
(imagem)
Ora, foi esta que nos despertou a atenção, tendo considerado que poderia ser um "cisne" a encabeçar a proa do navio... e só depois encontrámos o postal de ano novo de 1460 em Basileia. Para além da cabeça do pato, ou cisne, as imagens são muito semelhantes, até na forma como caem as cordas do mastro principal que segura a vela.

A partir de certa altura, a forma mais comum que se encontra a encabeçar a proa, nas moedas fenícias, não é nenhum cisne, mas sim um hipocampo (ou seja, um grande cavalo marinho... nome que é usado também para a sede da memória no cérebro). No entanto, restou-nos ainda uma lenda germânica, de Lohengrin, filho de Parseval, um dos cavaleiros da Távola Redonda do Rei Artur. 
A estranha embarcação onde segue Lohengrin é justamente encabeçada por um cisne... 
Lohengrin é conduzido num barco com um cisne.
Como já vimos anteriormente, o símbolo de Basileia, não é nenhum cisne, mas sim um galináceo com grande pescoço, temível pela sua capacidade de petrificar pessoas, como Medusa. Esse galináceo, chamado Basilisco, está representado numa moeda comemorativa dos 500 anos da Universidade de Basileia (a mais antiga na Suiça):
O basilisco de Basileia, numa moeda, e no seu verso uma possível
alusão a uma passagem bíblica - talvez do dilúvio, ou da criação
do mundo (devido aos símbolos binários usados) - (imagem)
Ora, sobre essa capacidade de petrificar pessoas, trazemos um texto que ilustra bem o problema:
"Organic Remains of a Former World"  - James Parkinson
(June 1805, Monthly Review)
Conforme se poderá ler, dá-se conta do relato de vários autores sobre a descoberta de 1460, mas explicitando mais. 
Foi encontrado o navio inteiro, com as suas âncoras, mastros partidos, e 40 marinheiros, bem como a sua mercadoria. O barco estava a cerca de 100 metros de profundidade (50 fathom - 300 pés), e aqui é referida a proximidade a Berna e não a Basileia (mas a distância entre ambas é só 100 Km).
O relato prossegue com outros casos de "petrificação", falando em cidades inteiras - poderia ser referente a Pompeia e Herculano (primeiras escavações em 1738-48, pelo espanhol Alcubierre), mas as outras não encontrei traço. O registo de cavaleiros hispânicos petrificados, por exemplo, parece-me desconhecido hoje. 

Porém, o registo que vi originalmente refere um comentário de Sabinus às "Metamorfoses" do escritor romano Ovídio, que aqui deixo sublinhada a referência a "âncoras encontradas em montanhas"... ou seja, sugeria Sabinus que já seria do conhecimento dos romanos este tipo de achados, que surpreenderam alguns em 1460, mas que não seriam surpresa para o Bispo de Basileia que ostentava o báculo com o formato condicente ao achado.

(link)

sábado, 12 de março de 2016

Geografia antiga da Lusitania (2), com consulta a Pinho Leal

Caldeirão entornado
No ano de trinta e quatro,
Lá se foi o Caldeirão,
Só nos ficou por memória,
Um visconde... e a inscrição.
Recorremos a Pinho Leal, para informações suplementares, porque Bernardo de Brito não assistiu aos trágicos capítulos seguintes, mas teve um grande sucessor no final do Séc. XIX, para o relatar.

Ora, o que diz Pinho Leal sobre a destruição "interna" feita em Portugal, em 1834?
Dá-nos como exemplo, o Caldeirão de Alcobaça... diz ele que durante 449 anos foi guardado no Mosteiro de Alcobaça o famoso caldeirão de cobre (..."onde se podiam cozer 4 bois de cada vez!"), um caldeirão apanhado apanhado por Gonçalo Rodrigues em 14 de Agosto de 1385, à logística do rei D. Juan I de Castela, na Batalha de Aljubarrota. 
Se Gonçalo Rodrigues ganhou o apelido de Caldeira, por tomar aos espanhóis o caldeirão; também um nosso contemporâneo (hoje titular!!!) ganhou o apelido de Caldeirão de Alcobaça por conquistar o pobre caldeirão em 1834!  
Escapou este testemunho das nossas glórias, aos surripiantes Filipes, aos rapinantes franceses e a outros que tais, e não escapou à ignóbil voracidade de um português!... Merecia bem que lhe puséssemos aqui o nome por inteiro, para ser conhecido da posteridade; mas... deixá-lo.
Quem Pinho Leal citava, sem nomear, era o membro da Loja 14 de Rennes (França), o Visconde de Seabra: ou seja, o maçon António Luís de Seabra, que em 1834 seria o corregedor nomeado para caos que ficaria lançado sobre o espólio do Mosteiro de Alcobaça. O nome foi fácil de localizar, porque o queixoso acabou por mover um processo ao jornal Braz Tisana, que o acusara.

Pinho Leal continua, explicando em breves palavras o que se teria passado em 1834:
Quando Aben-Jacob, miramolim de Marrocos, invadiu Portugal com um grande exército, em 1195, tomou o castelo de Alcobaça de assalto, mandando degolar todos os frades. (Estes, sequer ao menos, mataram-nos logo, e os frades foram mártires; mas os marroquinos de 1834, fizeram-nos morrer lentamente à fome e nem sequer foram mártires, porque muitos faleceram no desespero, à força de toda a qualidade do suplícios). 
A livraria do mosteiro era uma das melhores do reino. Como aconteceu a todas as das ordens religiosas em 1834, os melhores livros e manuscritos foram roubados & o resto, o refugo, foi para biblioteca pública de Lisboa. Até a mobília e as estantes da biblioteca cisterciense foram roubadas!... 
Portanto, a partir de 1834 estava a modernidade "histórico-científica" pronta para afirmar da inexistência de algumas obras que Bernardo de Brito citava, exemplares únicos pertencentes à Biblioteca do Mosteiro de Alcobaça. Se dúvidas houvessem (e certamente havia), esta foi uma forma simples de acabar com elas... digamos que nesta época o requinte dos pedreiros no seu esculpir da história, era ainda mais tosco do que hoje.

Só falta a albarda...
A descrição seguinte é a que me interessa mais aqui trazer:
ALBARDOS ou ALVADOSAlguns escrevem Alvados mesmo por quererem escrever errado, para não dizerem Albardolos; por julgarem que vem de albarda.
Deve só escrever-se Albardas que é o seu verdadeiro nome e muito próprio, pois o sitio é frio. (Vide, sobre etimologia, Albardos, freguesia.) Serra, Estremadura, na comarca de Leiria. Faz parte da notável cordilheira de Monte-Junto (o Tagrus dos romanos.)
É nos confins da vila de Truquel. Nasce junto á Vila de Porto de Mós e finda em Rio-Maior, com 30 kilometros de comprido e 6 de largo. É áspera e fragosa.
Do alto desta serra (dizem os frades bernardos) fez D. Afonso I doação a S. Bernardo de todas as terras que daqui se avistassem até ao mar, em 1147.
No sitio onde o rei fez a doação se erigiu depois, para memoria dela, um arco de pedra, que ainda lá está, com uma inscrição comemorativa.
Chama-se ao sitio da serra onde está a memoria Arrimal (Vide esta palavra.) (É provavelmente obra dos frades bernardos.)
Este facto (a doação) é contestado e contestável. Em 1793, fr. Joaquim de Santo Agostinho (Mem. sobre os códices de Alcobaça) prova que este voto é uma invenção dos frades bernardos. Vide Dicc. Chron. e Crit. de J. Pedro Ribeiro, tomo 1.°, pag. 54. Quadros Hist., de A. F. de Castilho, nota à tomada de Santarém.
Esta serra lança um braço para o concelho de Truquel, chamado Cabeço de Truquel.
Nele existe uma extensa gruta, formada por grandes rochedos, feita pela natureza e aumentada pela arte, em eras remotíssimas, para habitação dos povos daquele tempo, segundo é tradição, o que é provável, visto que os povos primitivos não tinham outra casta de habitações.
Em 1869, o sr. Joaquim Possidonio Narciso da Silva, distincto arquitecto da casa real, fundador da Associação dos Architectos Civis Portuguezes, e do Museu Archiologico, que está na egreja gothica do Carmo em Lisboa, inteligente e zeloso amador das antiguidades pátrias, fez aqui uma viagem, de propósito para investigar todas as particularidades da gruta, e se a sua existência pertencia a épocas pré-historicas, como parece provável.
Viu que a entrada da gruta está meio escondida pela rama de espessos arbustos e é baixa e estreita. A primeira gruta é uma espécie de vestíbulo, bastante alta; mas pouco espaçosa; porém, por uma abertura, praticada no rochedo, se passa a outra gruta muito mais vasta, tendo ambas, nas rochas que lhes formam a abobada, uns buracos por onde penetra o ar e a luz. Achou o sr. Silva, a pouca profundidade, uma camada de cinza (com alguns ossos misturados) de bastante espessura e ocupando todo o centro da gruta. Por baixo desta camada de cinza achou uma de areia e por baixo desta outra de cinza e ossos, como a superior.
Em vista disto, é de supor que esta gruta fosse destinada para necrópoles, ou jazigo dos restos mortais desses povos primitivos.
Já era muito; mas o sr. Silva tinha fundadas esperanças de vir a descobrir instrumentos e outros vestígios dos tempos pré-históricos.
Como era noite, interromperam-se os trabalhos. No dia seguinte, quando o sr. Silva chegou á gruta com os criados e trabalhadores para continuar as investigações, viu que dos respiradouros da gruta saiam densas espirais de fumo. Foram os pastores da serra, que julgando lhes iam roubar tesouros, que reputavam seus (apesar de na véspera, o sr. Silva lhes dizer que, se aparecesse algum ouro ou prata, lhe dava tudo a eles) tinham enchido a gruta de mato (para o que tinham trabalhado toda noite) e lhe haviam lançado fogo.
No dia seguinte voltou o sr. Silva, mas o fumo e o calor não deixaram penetrar na gruta; pelo que reservou a continuação dos trabalhos para o dia seguinte ; mas recebendo um telegrama para regressar a Lisboa, ficaram, por enquanto, suspensas as suas investigações.
Por essa ocasião, mostraram também ao sr. Silva na mesma serra, a distancia de coisa de um kilometro da gruta, um dolmen, perfeitamente conservado.
Foi um óptimo achado, porque não havia conhecimento, nem memoria escrita, deste monumento céltico naquela localidade.
Nascem nesta serra três rios, o Alcobaça, o Alcobertas e o de Rio-Maior. Ha nesta serra uma famosa quinta chamada de Vale-ãe-Ventos, que foi dos frades de Alcobaça.
• Esta serra é toda minada por algares. Tem muitas e boas pedreiras de belo mármore, produz muito alecrim, rosmaninho e pimenteira. Cria-se aqui bastante gado e tem muita caça e lobos.
• No braço que lança para Truquel, ha uma lagoa que nunca seca e cria muitas sanguessugas. Há nesta serra uma extensa mata de carvalhos, que também foi dos frades bernardos.
Os povos vizinhos desta serra lhe chamam geralmente Serra de Rio-Maior, por ficar próxima d"esta vila. Ao arco chamam Rei da Memoria, e nutrem fabulosas, e até disparatadas opiniões sobre a origem deste monumento. 
Eu resumiria esta descrição dos eventos que sucederam ao arqueólogo Possidónio da Silva, na Serra dos Candeeiros, perto de Turquel, da seguinte forma... Vem o experto de Lisboa a descobrir o que nós sempre soubemos que existia, e põe-se a falar de um tesouro como ouro, mostrando que pouco sabe da história que é memória... Então quem guardou os segredos durante milénios, mostrou-lhe como ainda o sabia fazer - e se o "explorador" soube como foi fumegado, não terá percebido como foi à pressa chamado a Lisboa.

Possidónio não desistiu de Turquel, e mesmo assim levou o pelourinho da vila para o Museu Arqueológico da capital:
O seu velho pelourinho, que é uma curiosidade archeologica, foi pedido pelo sr. Joaquim Possidonio Narcizo da Silva, e levado era 1869 para o Museu Archeologico do Carmo, em Lisboa.
Se o Sr. Possidónio achava que o lugar de um pelourinho de "estilo manuelino" era no Museu Arqueológico, o que falar então de todos os que eram anteriores ao reinado de D. Manuel?
Ora, o que me parece claro é que o arqueólogo tinha opinião diferente, ainda que tenha deixado registo diverso. O pelourinho só voltou a Turquel passado quase um século, e exibe o sinal de tempos antigos, como tantos outros em Portugal:
Pelourinho de Turquel
Oferece-se aqui uma breve descrição do que têm sido as aventuras dos "expertos da capital" por territórios indígenas nacionais. Ainda que os nativos se mostrassem receptivos e colaborantes com as sumidades da capital, trataram sempre de evitar ao máximo que as antiguidades que guardavam fossem surrupiadas pelos expertos.
Por outro lado, Pinho Leal fala de um dólmen em Turquel, que nem se sabia existir... e tirando o símbolo da vila que o mostra... parece que o último dólmen a ser destruído foi a Anta da Barbata ("segundo a mesma fonte local, os monumentos teriam sido destruídos quando do arroteamento dos terrenos" - www.turquel.com -  ou ainda "desmantelada há muitos anos por pessoas que ali fizeram escavações, na esperança de encontrar uma cabra e um cabrito de oiro a que certa lenda se referia - o que eles afirmam terem encontrado foram restos humanos."):
Anta da Barbata (Turquel) - destruída num "arroteamento de terrenos"
Ali próximo há o conhecido dólmen das Alcobertas, que ficou a fazer de capela junto à Igreja, numa interessante convivência entre passado e presente religioso:
Dolmen na Igreja das Alcobertas.
Portanto, na arqueologia nacional, em contraponto às "Descobertas", temos as "Alcobertas"... toponímia que certamente aponta para origem árabe, visto começar com "AL".
Um pouco o mesmo se passa com "Alquimia", que é sem dúvida de origem árabe, mas que se parece com "Al-química"... e seja isto talvez porque a palavra árabe importou o termo "quimia" de outra língua, ou seja, bem se vê, da raiz grega!
Já com "Al-cobertas", não se vislumbrando no árabe ou no grego o termo "cobertas", ficamos sem hipótese alguma de entender o que a palavra "coberta" poderá querer dizer. Deixamos esse mistério para os expertos...

Sobre as grutas em Turquel que Possidónio da Silva terá explorado, na zona do Cerro de Turquel, pois está aqui um breve relato (que fala essencialmente das explorações no Séc. XIX). Depois de serem chamados a Lisboa, parece que o expertos já nem saíram da capital, e os velhos métodos fumegantes dos pastores deram resultado - ou melhor, um resultado que permitiu que uma boa parte dos vestígios fosse só destruída no final do Séc. XX, quando os descendentes dos pastores já tinham outros interesses.

E se estou a ser irónico, é porque é para mim um total espanto este mapa ibérico de registos rupestres:
Mapa de registos rupestres pré-históricos na Península Ibérica
Passada a fronteira e os registos ficam escassos ou inexistentes...
E mesmo que este mapa tenha sido feito por espanhóis, não revelando algumas inscrições em pedra, que sabemos existir também em menires no Alentejo... o que é espantoso é praticamente estarmos reduzidos à gruta do Escoural, não foram as gravuras do Côa (mesmo na fronteira), para não dizer que não existe nenhuma gruta com inscrições rupestres em Portugal, quando comparamos com Espanha.
__________________

Nota (13-03-2016)Texto editado, tendo em conta o destino reportado à Anta da Barbata (provavelmente destruída nos anos 1980) - www.turquel.com.


sexta-feira, 11 de março de 2016

Base Cartográfica

A Cartografia Portuguesa está muito dispersa na internet, e apenas uma pequena parte está na Wikipedia, não sendo sempre fácil colocar mapas aí, devido à política de rigoroso controlo de direitos legais que a wikipedia respeita.

Fomos contactados por David Jorge, que decidiu compilar uma grande base de dados cartográfica, especialmente focada na cartografia nacional:
e que tem mapas com elevada resolução.

Foto anterior - a localização foi mudada - está agora em Mega.nz

Em particular, David Jorge interessou-se pelo planisfério atribuído a Sebastião Lopes e Pedro Lemos (com datação atribuída de 1590):
Planisfério de Pedro de Lemos e Sebastião Lopes, datado 1590.
(download
Este mapa com datação tardia tem vários detalhes curiosos, nomeadamente na parte da Terra Nova e Labrador, onde se focou o David Jorge - sendo de 1590 não menciona posses francesas, evidenciando as portuguesas... ou qual seria a correcta interpretação da bandeira azul listada?

Mas não só. Há ainda uma cartografia de toda a parte Árctica com razoável precisão, especialmente se notarmos que a posição das bandeiras e indicará uma datação de c. 1530, ou seja, 60 anos anterior à atribuição oficial. Este mapa seria uma provável cópia de mapa anterior, também onde se poderá ter inspirado o Theatrum Mundi de Lavanha e Teixeira.

O Instituto Hidrográfico usa como símbolo uma Rosa dos Ventos, atribuída ao mesmo cartógrafo Sebastião Lopes, nesta outra carta de 1558:
Carta de 1558 de Sebastião Lopes, com a Rosa dos ventos,
usado no logotipo do Instituto Hidrográfico. (download do mapa)
_________________________________________________
Nota - Actualização de 25/02/2017
- actualização do site para Mega.nz, conforme comentário de David Jorge.

Ver nova actualização (11.06.2018):
https://alvor-silves.blogspot.com/2018/06/dos-comentarios-37-ligacoes.html

segunda-feira, 7 de março de 2016

Revolta Lamacena

No Livro V, Cap. XI, da 2ª Parte da Monarchia Lusytana (página 76), de Bernardo de Brito, dá-se conta de uma revolta que teria ocorrido na Hispania romana, em tempo do imperador Trajano, e que teria sido apenas suprimida com o envio de 14 legiões romanas. 

Revolta hispânica e destruição de Laconi Murgi
Em consequência, diz Brito, que muitas das antigas cidades da Lusitânia eram antes fortificadas, mas foram completamente arrasadas pelos romanos nesta época, sendo reconstruídas em local vizinho, mas já sem qualquer protecção murada. 
Terá sido esse o caso de Lamego.
(...) diz Santo Isidoro, Vaseu, e o Gerundense [Bispo de Girona], que houve uma notável rebelião de muitas cidades de Espanha contra o Império Romano, sem especificarem a causa, nem darem razão dos meios por onde o negócio correu, só conformam em que mandou Trajano quatorze Legiões para reprimirem o levantamento, e atemorizarem os naturais da terra, que segundo se deixa entender, estavam deliberados de negar a sujeição devida aos Romanos, e pelo que li em algumas Epístolas de Plínio, o menor, deviam nascer estas inquietações das tiranias e exortações que cometiam os Governadores Romanos, que fiados nas mudanças ordinárias do Império, e vendo a brevidade com que mudavam senhor, atendiam mais a enriquecer-se, que a governar com justiça & inteireza, como por este tempo se viu em Cecilio Classico, Governador da Andaluzia, cujos excessos foram tão feios e exorbitantes, que foram muitos espanhóis a Roma, queixar-se no Senado, e sem dúvida que lhe dera satisfação na pessoa do delinquente, se ele próprio se não matara por evitar as afrontas de se ver em poder de justiça; mas o que não pagou em pessoa, satisfez sua fazenda, à custa da qual se mandaram pagar alguns dos roubos que tinha feitos, e saíram condenados em degredo todos os oficiais que o ajudaram no pro-consulado, cada um deles conforme à maior ou menor culpa que se lhe provava.
Também foi acusado por roubos e injustiças outro governador a quem Plínio chama Berbio Massa, & advogaram no Senado por parte dos Espanhóis, Herenio Senecion, & o mesmo Plínio, donde venho a conjecturar que a Rebelião de que os autores fazem menção, seria por se livrar das tiranias destes pretores e oficiais da República & deveria ser o levantamento notável, pois se mandou tão grande poder para o quietarem; mas como não há quem dê notícia do que passou nesta guerra, convém-me a passá-la em silêncio, com dizer só o fim dela, que foi o que ordinariamente têm todas as que começam sem fundamento, nem cabeça que as governe, rendendo-se tão sem ordem, como se levantaram sem fazerem boa paz, nem prosseguirem a guerra, por onde seriam exemplares os castigos que se fizessem nas pessoas de importância, quando o que fez nas pedras foi tão grande, que as mais das Cidades fundadas em lugares fortes, foram arrasadas por terra, & mandadas edificar de novo em sítios abertos, sem muros nem Fortalezas, em cuja confiança se tornassem a rebelar de novo. 
Foi este um lastimoso estrago, em que Espanha perdeu as Cidades de mais lustre & antiguidade que tinha. O Bispo Gerundense lamenta a ruina de Lamego, chamada antigamente Laconi Murgi (como já contei na primeira parte da Monarchia) & ele chama cidade dos Lamacenos, afirmando ser em fortaleza de sítio, grandeza de muros, & frequência de povo, maior que todas as outras de Espanha, & porque suas palavras mostram melhor sua grandeza, referirei as próprias: 
Prima itaque omnium Lusitanae erit urbs Lamacenorum, quindam opulentissima, grandi murorum ambitu circunsepta, inter flumina Doriam, & Liminum vulgus ungium vocat, colapsa vero refertur, Trajani imperatoris temporibus propter rebellionem. Erat autem ipsa urbs Dorio flumini satis propinqua, vivina Portugalliae regno. Erat praeterea maior omnibus urbibus hispaniae secundum Claudium Ptolomeum.
Quasi dizendo que a primeira e principal cidade que havia entre todas as da Lusitania, era a dos Lamacenos, que fora em tempo antigo opulentissima, & cercada de grandes muros, situada entre os rios Douro & Limino, a quem os moradores da terra chamavam Ungio, & deve ser o que hoje se chama Balsamão, ou Borosa. Foi esta cidade destruída nos tempos de Trajano, por causa de certa rebelião: estava esta cidade muy propínqua [próxima] ao Rio Douro, & comarcã ao Reino de Portugal: era além disto a maior cidade que havia em toda a Espanha, segundo Cláudio Ptolomeu.
As quais palavras declaram bastantement, e o sítio da terra, a grandeza da cidade, o tempo de sua destruição, e a causa pela qual foi assolada: & creio sem dúvida, ou ao menos com bastante probabilidade, que nesta conjunção se mudou Lamego de seu primeiro sítio, que foi onde agora se chama S. Domingos da Queimada, muy arriscado & forte por natureza, para este em que ao presente está fundada, que por ser mais chão e menos defensável, o mandariam edificar nele os Romanos: onde floresceu andando o tempo, se não tanto como no primeiro assento, todavia de modo que sempre foi Cidade Episcopal, como veremos no discurso desta história.
Entre as Legiões que vieram nesta ocasião a Espanha, foram a segunda Augustal, e a terceira chamada Italica, & assim nestas, como em todas mais, militavam muitos Portugueses, valorosos nas armas e que nesta ocasião foram de muito proveito às cidades e terras de onde eram naturais, intercedendo com os pretores e capitães (...)
Brito continua com um recado "filipino", pelo relato de alguns lusitanos, ao serviço de Roma, que pela sua intervenção impediram que a insurreição tivesse sido pior castigada nas suas vilas, falando ainda do caso de Arouce (ou Araucitana), donde teria surgido a vila de Moura.

Esta história, que Brito encontrou registada pelo Bispo de Girona, aparece associada a lendas locais, como em Gentil, Marques: "Lendas de Portugal" (Círculo de Leitores, 1997 [1962], Vol. II, pp. 303-308). que parece associar o episódio ao nome da freguesia de Queimada:
— Salvé, Trajano! Trago-te boas notícias.
— Que fizeram dos revoltosos?
— Mortos. Todos mortos!
— E a terra?
— Queimada! Liconimargi e os seus arredores são um montão de cinzas. Mas a rebelião findou!
 
e outra menos extensa que se liga à Ermida de São Domingos da Queimada... falando apenas dos amores de um oficial romano com uma "moira" de Queimada, mas coincidindo pelo menos com a atribuição das tribulações ao tempo do imperador Trajano.

Sobre as razões... 
Bernardo de Brito que, segundo os detractores vindouros, estava sempre pronto a falsificar tudo e mais alguma coisa (... "pela mente de ladrão, todos o são"), não tinha aqui mais nenhuma informação e adianta como possível explicação um despotismo generalizado dos pretores ao tempo de Trajano... que teria originado uma revolta por toda a Hispania.

Vou tomar o relato de Brito como plausível, porque simplesmente não alcanço o "sinistro plano" do monge de Alcobaça para inventar esta e outras histórias, citando para o efeito o Bispo de Girona... está visto, outro dos "inventores de grande imaginação"... que não agradaram à clientela histórica posterior, por razões muito mais fáceis de enumerar.

Tratando-se do tempo de Trajano, imperador nascido perto da actual Sevilha (Hispalis), podemos notar que a regência do primeiro imperador romano "não romano", se notabilizou por uma grande construção monumental. São muitas e impressionantes, as pontes atribuídas a Trajano, e das mais variadas formas e feitios! Não causa comichão ver tanto monumento atribuído a Trajano, mas causava muita dúvida ver uma parte desses monumentos atribuídos a Hércules, pela população inculta.

Pois. Trajano estaria muito longe de ser o primeiro, e igualmente longe de ser o último, se tivesse decidido atribuir a si mesmo obras anteriores.
Agora, é muito natural que uma decisão desse tipo tivesse levado a uma insatisfação generalizada da população. Renomear a Ponte Salazar como Ponte 25 de Abril é algo diferente de renomeá-la como Ponte "Durão Barroso", ou qualquer coisa do género.
Uma homenagem a esbirros ao serviço de poderes externos, empenhando a memória pátria a troco do protagonismo pessoal, seria facilmente pouco compreendida, e poderia desencadear um processo de revolta por toda a Hispania... nesses tempos passados, bem entendido.  

É ainda interessante a observação de que as ruínas de cidades romanas nos aparecem sem muralhas defensivas, característica mais adequada às que estavam na península itálica... o que depois facilitou a conquista bárbara, com o abandono dessas cidades sem protecção, e o regresso às vilas muradas por castelos.

Cortes de Lamego
Falando de Lamego, e como Bernardo de Brito ficou com as costas quentes de ter "inventado" as Cortes de Lamego, pena foi que não tivesse tido imaginação para ligar as duas coisas. Ou seja, o que impediria o monge de Alcobaça de inventar a história de que as cortes foram proclamadas em Lamego, com o simbolismo de comemorar a revolta ocorrida no tempo de Trajano?... 
Se não havia nenhum registo histórico, como pretendeu Alexandre Herculano, e vários outros, por que razão foi o monge lembrar-se de colocar essas cortes em Lamego?

Porém, a questão pode ser mais simples de compreender, havendo vontade disso.
Primeiro convém notar que se Bernardo de Brito menciona as "Cortes de Lamego" na sua Crónica Cistersence, o texto é transcrito pelo cronista-mor seguinte: António Brandão, em 1632. 
É o mesmo António Brandão que introduz o assunto com toda a cautela, dizendo que o documento que dispõe não deve ser tomado como fonte absolutamente segura.
Portanto, quando se apontou a origem da desconfiança a Alexandre Herculano, é simplesmente ignorar a leitura do original, onde a transcrição é feita com o devido aviso.

Os documentos em causa teriam vindo transcritos de Toledo, relacionando-se isso com a deposição de D. Sancho II pelo irmão D. Afonso III, no primeiro golpe de estado interno, coordenado por "poderes de bastidores".  Ora, o texto das Cortes de Lamego dispunha claramente contra essa deposição arbitrária, e por isso não haveria qualquer interesse em guardá-lo pelos sucessores de D. Afonso III e D. Dinis. Isso também justificaria a razão pela qual não se ouviu falar do documento aquando da crise de 1383-85... por essa altura estava convenientemente esquecido, e só D. Sancho II teria tido interesse em guardá-lo no seu exílio em Toledo.
A sua recuperação, usada depois para justificar a coroação de D. João IV, seria obra do monge de Alcobaça, que tão maltratado tem sido no seu desejo independentista.

Agora, o mais ridículo... Independentemente de Bernardo de Brito, e monges acólitos, terem forjado tal documento, no desejo de libertação dos soberanos espanhóis, interessa perceber a razão pela qual era tão conveniente declará-lo como falso no início do Séc. XIX, e não antes... porque antes deu jeito.
No início do Séc. XIX, D. Pedro IV pretendia colocar a filha, D. Maria II como herdeira da coroa portuguesa, casando-a com D. Miguel... num processo paralelo ao que tinha ocorrido com a rainha D. Maria I casada com o tio D. Pedro III. 
Porém, ou porque a beleza de D. Maria II não fosse resplandecente, ou porque se juntasse em redor de D. Miguel muita gente contrária aos planos da maçonaria, que D. Pedro IV seguia à risca, gerou-se o clima das "Guerras Liberais"... tendo como desfecho final a imposição de D. Maria II casada em 1836 com um príncipe estrangeiro - D. Fernando II, de Saxe-Coburgo-Gotha. 

O texto das Cortes de Lamego, verdadeiro ou falso, mas que tinha interessado ser verdadeiro desde 1640, dizia a este propósito: "Dure esta lei para sempre, que a primeira filha do Rei nunca case senão com português, para que o Reino não venha a estranhos, e se casar com Príncipe estrangeiro, não herde pelo mesmo caso;". 
Portanto, a situação era mais confusa, mas certamente que a Alexandre Herculano, adepto da causa de D. Pedro IV, não interessava nada encontrar qualquer referência às Cortes de Lamego, e era muito mais cómodo ver aquela lei como invenção conveniente de Bernardo de Brito, que já tinha as costas quentes, por esta altura... mesmo que tivesse sido António Brandão a publicar o documento.

Ora, o que é fácil, muito fácil mesmo, é encontrar razões de sobra para que os historiadores vindouros, epitetados de "científicos", tivessem procedido a uma mutilação histórica, muito do agrado da nova estória que seria contada em francês e inglês, e desprezando por completo a história ibérica anterior. E se é perfeitamente compreensível que fosse anulado o registo histórico assente no Velho Testamento, é absolutamente incompreensível que fossem anulados outros registos, cuja invenção não teria servido para nada aos autores... que aliás se baseavam em historiadores gregos e romanos, tidos como credíveis, desde Heródoto a Plínio... mas cuja supressão servia antes uma certa narrativa conveniente, que queria anular a todo custo uma história ibérica anterior aos Romanos.   

Ainda que haja necessariamente as dúvidas que o próprio Brandão assinalara na transcrição, as Cortes de Lamego, não se podem julgar pela opinião de Alexandre Herculano e contemporâneos, por maior razão de dúvida sobre si, do que a dúvida sobre as intenções de Bernardo de Brito.

__________________________________________
Cortes de Lamego
(texto traduzido do latim pelo cronista-mor António Brandão,  na sua
3ª Parte da Monarquia Lusitana, 1632, Livro X, Cap. XIII, folhas 141-145 ) 

domingo, 6 de março de 2016

Alvo de Maia (Volume 7, nºs 1 e 2)

Ficam aqui os links para os números 1 e 2 do Volume 7, correspondente a este ano 2016.
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