segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

In-convenientes

Há pistas e despistes... quando se fabrica uma História, e pela própria experiência ocasional, vão sendo rematados alguns pontos aglomeradores de atenção, destinados aos espíritos curiosos.

Esses pontos de atenção são chamados "Últimos Mistérios da História, do Mundo, do Universo, etc..."
Nalguns casos são verdadeiros e incontornáveis pela sua presença persistente na História, mas isso não se deve aplicar indistintamente, nem necessariamente aos casos mais conhecidos.
Vamos apenas dar alguns exemplos, para ilustrar do que falamos.

a) Stonehenge
Fala-se muito de Stonehenge e do seu admirável alinhamento estelar. Excelente!
Como teria sido possível com tecnologia pré-histórica produzir tal monumento notável, de grande precisão astronómica... talvez só possível no Séc. XX.
Acontece que Stonehenge foi alvo de remodelação no Séc. XX (ao que vimos, em 1901, 1920 e em 1958). Aquilo que vemos hoje não é exactamente o que existia no Séc. XIX... ou seja, de acordo com um desenho de John Constable em 1835, houve alguma mudança na localização das pedras:

A alteração feita em Stonehenge: desenho em 1835 e foto no Séc. XX.

A partir daqui, falamos do alinhamento estelar conseguido com a remodelação do Séc. XX, ou falamos de uma posição original?...
Para percebermos melhor Stonehenge, fomos encontrar uma Crónica de Reis de Inglaterra, de Richard Baker (Séc. XVII), que fala de Stonehenge... e ao mesmo tempo percebem-se melhor as novas versões que vão aparecendo sobre o Rei Artur e Merlim.
To this Ambrosius is ascribed the admirable Monument in Wiltshire, now called Stonehenge, in the place were the Britains had been treacherously slaughtered and interred; and of whom the Town of Ambersbury bears its name.
Richard Baker diz que a planície foi renomeada Salisbury, antes sendo "Plain of Ambrii", assim relacionada com Ambrosius Aurelianus e com esse local de fatídica traição saxónica. Entretanto Ambersbury já passou a Amesbury... vai havendo cuidado em alterar ligeiramente as coisas. 
Baker fala de como Ambrosius  usando "fogo dos céus" eliminou o rival Vortigern. Fala da sua sucessão por Uter Pendragon, que depois foi sucedido por Artur, por esquema de Merlim (conselheiro de Vortigern).
A recuperação cinematográfica (King Arthur, ou ainda melhor The Last Legion) de uma história de Inglaterra sob invasões Saxónicas e de um salvador Romano no cerne da lenda Arturiana, não é fruto de uma teoria alternativa histórica recente... é mais fruto de uma miscelânea com estórias de vários séculos. 

Em suma, Stonehenge é um notável monumento circular... 
... mas pode ter sido apenas um monumento associado à Távola Redonda, seguindo o relato de Baker que o associa à lenda Arturiana.


b) Abu Simbel
Não é preciso procurar muito para encontrar exemplos recentes.
De facto, Abu Simbel é um exemplo notável de deslocação monumental, bem conhecido. Apesar disso, tudo se passa turisticamente como se o monumento não tivesse mudado de sítio, devido à barragem do Assuão, que Nasser decidiu construir:
Foto de Abu-Simbel no seu local original

Propositadamente ou não, esta deslocação maciça ilustra à presente geração como a alteração histórica é efectuada e como a população continua a visitar Abu Simbel da mesma forma como se nada tivesse ocorrido. As fotos antigas de Abu Simbel já nem sempre são mostradas (é o caso da Wikipedia), e não demorará muito a que se torne num mero detalhe conhecido por especialistas. Quando se perder essa memória, o alinhamento do templo será referido face à localização actual... e talvez também dê para especulações descontextualizadas.

c) Galápagos
Falamos agora de um exemplo razoavelmente diferente na forma, mas semelhante no conteúdo.
Quando se fala das ilhas Galápagos é habitual associar às tartarugas de Darwin...
Acontece que há uma tese oficial de origem espanhola que coloca a sua descoberta ao Bispo Tomás de Berlanga, por volta de 1535...
Não é de estranhar a causa - foi acidental, numa viagem para Lima, afastou-se muito da rota!
Falámos dos acidentes convenientes, para resolverem os in-convenientes.
João de Lisboa, e o seu Livro de Marinharia é um grande inconveniente!
Assinalamos num quadrado verde, a localização das Galápagos 
no mapa de João de Lisboa (c. 1514)

Inconvenientes, os mapas de João de Lisboa são convenientemente inexistentes na literatura histórica.
Quando se diz que as Galápagos aparecem em mapas, fala-se de Mercator ou Ortélio, mapas posteriores mesmo com a pior das datações colocada no Livro de Marinharia (inferior a 1560).

Outro exemplo notável é o mapa do almirante turco Piri Reis de 1513... muito se tem escrito acerca desse mapa, assim escrevendo-se pouco acerca de outros mapas!
Há uma forçada propaganda superlativa que pretende uma possível representação da Antártida...
Ora, é bem sabido que nada de original está no mapa de Piri Reis (acho que o próprio assume ter sido baseado em mapas portugueses), e que não estivesse já na bem conhecida representação do globo no Atlas Miller (assim chamado o mapa atribuído a Lopo Homem e aos Reinéis, em 1519):

Globo de Lopo Homem, Pedro e Jorge Reinel, 1519
a Lua, o sonho ocidental & o Sol, a alvorada oriental

O mapa de Piri Reis é extremamente conveniente... sendo uma provável cópia não terá inclusa informação invisível, normalmente colocada pelos cartógrafos portugueses. Essa informação invisível permite descobertas acidentais, como já aqui referimos... no caso do mapa de 1485 de Pedro Reinel, e não só!

Quem quiser seguir a main-stream, levantar alguma teoria "pseudo-inconveniente" sobre Stonehenge, Abu Simbel, ou sobre o mapa de Piri Reis, pois é natural que tenha conveniente receptividade editorial.
Sobre esses assuntos, dificilmente falarei mais do que escrevi neste texto.

Quem quiser trilhar outro caminho, fora dos circuitos de distribuição, da fama, procurando alguma verdade no meio de tanta informação contraditória, a maioria pouco fiável, pois tem muito mais caminho solitário e inglório a percorrer.
Cito a este propósito Frutuoso, nas Saudades da Terra... "Em que a Verdade diz à Fama quem é":
Muitos me buscam mais em vaidade que em verdade, mas só aos humildes me manifesto. E, algumas horas, saio à luz, quando não sou buscada; sendo impugnada, mais fermosa resplandesço. Mais seguramente sou ouvida que pregada, e, quase como em deserto, pregada sou antre os mentirosos. 
Afinal, a Verdade será apenas o que aceitamos quando se identificam as mentiras pelas suas contradições insanáveis... Apenas podemos esperar identificar as contradições, e ir pouco a pouco eliminando as camadas de mentiras.

A "verdade" manifesta-se como uma questão de fé social, propagandeada por um grupo dominante. Atinge o topo por cooptação, propaga-se por contágio de rumores na base, através das relações pessoais.
Ocasionalmente essa "verdade" é atingida por contradições e manifestações físicas impossíveis de ignorar... aí o grupo tem que reorganizar-se e inventar uma nova "verdade", ou procurar de uma vez por todas a Verdade.
É uma questão de escolher lados... os agentes inventores das verdades ocasionais terão cada vez mais dificuldade de credibilidade num processo de procura da Verdade.
É uma questão de escolher lados, e assumir essa escolha!

domingo, 26 de dezembro de 2010

Uma humanidade sem mapas

Talvez por educação, talvez por falta de atenção, somos levados a certas convicções notáveis.
Se tivermos que explicar a alguém um caminho complicado, o que fazemos?
- Podemos dar direcções, 1ª à esquerda - depois em frente - 2ª à esquerda - frente - 2ª à direita.
No entanto, até mesmo crianças (e sem serem ensinadas na tarefa) sabem fazer um esboço de mapa!

Por razões inexplicáveis, certamente explicáveis com sapiência erudita, o Homem manteve-se incapaz de esboçar direcções, num simples traçar de linhas, durante milénios e milénios.
  • Os Romanos fizeram imensas estradas, mas foram incapazes de nos presentear com um mapa delas! Tinham um imenso Império, mas era mental. Não seriam capazes de colocar num esboço em pedra que a Hispania ficaria a oeste, que os Partos ficariam a leste, a Germânia a norte, e a Líbia a sul. Exércitos inteiros deslocavam-se sem mapas.
  • Os Gregos fizeram avanços conceptuais a nível da Geometria que colocaram problemas milenares, de regra e compasso, mas foram incapazes de traçar um mapa da sua linha costeira, ou das suas ilhas. Eram marinheiros experimentados, uniam as estrelas em constelações, mas eram incapazes de unir cidades em mapas. Nas suas vastas obras arquitectónicas, cerâmicas, documentos, etc... não são encontrados vestígios de mapas.
    Creta: uma das raras imagens onde se vê uma cidade e contorno marítimo anexo.
  • Problema similar se teria passado com as civilizações egípcias ou mesopotâmicas. Faz-se grande gala de um pretenso mapa babilónico (~ 600 a.C) incrustado numa tábua de barro:
Foram apenas estes registos que restaram... ou havia incapacidade de orientação?
A nível erudito isso seria tese insustentável... havia geógrafos, que tinham mapas, como Ptolomeu e Eratóstenes.
- Afinal, o problema é só que nada disso nos chegou?
- Ou, o problema é maior, e nem sequer temos qualquer esboço de mapa, da Europa, à India e China... já para não falar de outras culturas, como Incas e Aztecas.

Chegaram-nos registos detalhados, de discursos romanos, de tratados gregos, mas nem um único mapa!

Aparentemente, só devemos dar como certo um primeiro mapa do mundo num esboço de Isidoro de Sevilha (séc. VII), que coloca os três continentes Ásia, Europa e África, rodeados por um Mar Oceano, num canto de uma página:

Dos mapas que é suposto terem existido na Geografia de Ptolomeu não nos chegou nenhum exemplar, e tal como de Heródoto ou Eratóstenes, apenas podemos julgar as interpretações no séc. XIV ou posteriores:

Interpretações: no Séc. XIV de Ptolomeu, e no Séc. XIX de Eratóstenes.  

Qual é o panorama que nos é oferecido?
- Milhões de seres pensantes, incapazes de traçar um esboço, um mapa, que tivesse resistido alguns milhares de anos, fosse gravado numa rocha, numa escultura, numa decoração cerâmica, num documento que não tivesse desaparecido...

Porém, tudo desapareceu até à Alta Idade Média, idade em que temos os primeiros portulanos mediterrânicos.
- É suposto ser isto uma situação normal?

sábado, 25 de dezembro de 2010

Anno Domini

O dia 25 de Dezembro e a Era Cristã  (Anno Domini) foram popularizados apenas no império de Carlos Magno, após trabalhos pascais do monge Dionísio Exiguo (Séc.VI) e pela influência do Venerável Beda (Séc. VIII). 
Beda escreveu um De natura rerum, 
tal comoa antes Isidoro, usando o título de Lucrécio 

Os cálculos de Beda, apontavam a criação do mundo para uma data muito precisa:
- 18 de Março de 3952 a.C.  (e seria dia 25 de Março, a criação de Adão) [fazendo 6000 anos, em 2048]
Esta opção de datação pelo ano de criação do mundo (Anno Mundi) foi usada por judeus, que atribuem 5771 ao ano actual, havendo ainda um interpretação maçónica (Anno Lucis) similar, mas ainda assim diferente nos cálculos - adicionando apenas 4000 anos à actual datação [actualmente estaríamos em 6010]. 

A influência de Beda foi importante e condicionou a adopção do modelo de Dionísio no império de Carlos Magno. Por isso, Carlos Magno foi coroado Imperador no AD 800, no dia de Natal. As ulteriores mudanças de calendário gregorianas (1582, poucos anos depois de Portugal tombar sob Filipe II), permitiram ainda assim, que essa celebração natalícia da coroação de Charlemagne se mantivesse.

Essa extensão foi propagada pela Europa ocidental, mas não na península Ibérica, que usava a "Era Hispânica".
Esta é a parte interessante... sendo que Portugal foi o último reino a ceder à mudança, em 1422, com D. João I.
Na Península Ibérica, usou-se depois do tempo de Octávio Augusto, a Era Hispânica, com início em 38 a.C., data em que Octávio não tinha começado as guerras que levariam ao fim da República e à sua consagração com Imperador Augusto.
As razões para adoptar esta efeméride são deveras estranhas, e dificilmente justificáveis apenas por um isolamento ibérico. Quando em toda a Europa se adoptava o Anno Domini, a península ibérica manteve sempre até 1180 a Era Hispânica, e depois em 1383 é Juan de Castela que antes de tentar invadir Portugal, adopta também o Anno Domini. Restará por quase 40 anos a mudança pelo seu arqui-rival, o João da Boa Memória.

Em 1422 (1460 da Era Hispânica), D. João I decide finalmente alinhar com o resto da Europa, e abandonar esse calendário que tinha sido usado, desde o tempo Visigodo, e durante toda a reconquista.
No Mosteiro da Batalha, na Capela do Fundador, ainda é possível ler as referências em ambas as cronologias 
(usando o Ano do Senhor, ou a Era Hispânica, a que se acrescentavam 38 anos).

domingo, 19 de dezembro de 2010

Gillray & Aragão

Algumas caricaturas de Gillray colocam numa outra perspectiva a ameaça que Napoleão constitui para o "Teatro Real Europeu":
James Gillray: Um Jorge III como Gulliver, 
e um Napoleão como liliputiano...

Esta imagem de um feroz Napoleão, não ciente da sua impotência face à conjuntura, parece-me muito semelhante à própria imagem anterior de D. Sebastião. Partiram para combates onde veriam apenas a frente de batalha, desconhecendo a extensão e poderio do opositor. O próprio sucesso inicial pode não ter sido inocente... as sucessivas mudanças de Alexandre I da Rússia,

mostram ainda outro interveniente directo que, tal como Pitt, Liverpool e Metternich, usaram os progressos e recuos napoleónicos para construir uma Europa feita à sua medida, o que no caso russo incluiu a Polónia.

Menos conhecidas, mas igualmente reveladoras e significativas são as caricaturas de Joaquim Pedro Aragão (uma já foi publicada no blog OdeMaia), como também estoutra sobre Napoleão:
a gravura tem uma particularidade 
(muito explorada por Escher)
... ao inverter, vemos e lemos "burro":

Pouco está disponível sobre a vida de J. P. Aragão, mas há toda uma sequência na BNP de
que revelam uma provável ligação à causa miguelista, nomeadamente à linha de José Agostinho de Macedo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Lucerna

Rafael Bluteau, num preâmbulo à renovação da Academia dos Generosos, em 1717, diz o seguinte:
Maravilhosas, mas tristes, inúteis, e sempre fúnebres foram as tão celebradas lâmpadas ou lucernas inextinguíveis dos Egípcios. Que maior maravilha, do que luz perene de uma incombustível matéria, sempre ardendo e sempre luzindo, sem socorro de novo alimento, porque sem consumo do primeiro?
De que lâmpadas fala Bluteau, que seriam inextinguíveis?


Quando olhamos para estas representações podemos não querer ver as ampolas, e percebe-se que até ao Séc.XX, antes da generalização das lâmpadas, ninguém visse nada de especial. Porém, quando vemos cabos ligados à extremidade fica difícil não fazer a associação. Mas de onde viria a energia eléctrica? Essa resposta já foi mencionada aqui, foram encontradas as Pilhas de Bagdad, com mais de 2 mil anos, descobertas em 1936, que funcionavam como baterias eléctricas primitivas:

Juntando o registo de Bluteau a estas representações e descobertas arqueológicas, torna-se plausível a hipótese de que os antigos egípcios, sumérios, conheciam a electricidade e faziam uso dela semelhante ao uso corrente - por exemplo, iluminação.
A principal diferença face aos tempos actuais seria que tal tecnologia seria do estrito conhecimento da elite dominante, e por isso de uso e acesso muito restrito, tendo-se mantido assim durante milénios.

Outra prova deste avanço civilizacional, de que se perdeu registo, ou melhor, cujo registo não é publicado ou publicitado, é o caso da Máquina de Anticítera (assunto já abordado por JM no blog Portugalliae)
Vestígios do mecanismo encontrado em Anticítera.
A complexidade do mecanismo foi estudada, por Raio-X, em vários artigos científicos,
concluindo tratar-se de um relógio astronómico, similar em complexidade aos do Séc. XVIII,
modelando os movimentos da Lua, Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno.

Este achado arqueológico do Séc I a.C, recolhido de um navio naufragado, em 1901, confirma outras referências em textos antigos sobre mecanismos deste género (p.ex. Cícero). Está aí gravado o nome ΙΣΠΑΝΙΑ que seria a primeira referência ao nome Hispania (os gregos usavam a designação IBEPIA : Iberia). Outros mecanismos como os de Al-Jazari (1205) podem ter seguido alguma tradição árabe recuperada deste legado perdido dos gregos.

É claro que da literatura árabe chegou-nos ainda a fábula de Aladino e o génio da lâmpada
e estas histórias acabam sempre por revelar um outro significado.
Como um novo olhar para o mesmo quadro...
Afinal, há um mago que persuade Aladino a entregar-lhe o génio escondido na lâmpada. 
O segredo escondido na lâmpada revelou um Génio eléctrico que permitiu um progresso tecnológico sem precedentes. Estará na altura do mago reclamar de Aladino a lâmpada, e voltar a encerrar o nosso génio?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A batalha dos Três Reis

Em terra de mouros, ficou assim conhecida a batalha de Alcácer-Quibir... a razão seria simples, os três reis envolvidos teriam perecido em batalha. Apresentamos a conhecida (e única?) ilustração da batalha, feita por Miguel de Andrada, um dos sobreviventes:
Batalha de Alcácer Quibir, 1578
Ilustração de Miguel de Andrade (1629)

Aproveitamos mencionar Miguel de Andrade, para falar de um excerto (seleccionado na wikipedia - Segundo Diálogo, Miscelâneas) acerca de uma ponte em Lisboa "há muitos mil anos".  A certa altura dizem os personagens de Andrade:
Devoto: (...) Pois vemos que quando Lisboa era nada, em comparação do que hoje é, tinha aqui ponte de pedra, segundo agora se parece nos pedaços de pilares que dela ali vedes, desta banda e da outra.
Galácio: Isso seria há muitos mil anos, em tempo que este rio seria mais estreito, e menos fundo.
Devoto: A largura é a mesma, segundo mostram os vestígios dos pilares que vedes, que chega o rio a eles e não passa; e quanto a profundidade, ainda que seja mais, o que não sabemos, contudo, bem se pudera refazer de pedra, que no fundo devem estar os alicerces ou bases dos pilares; quanto mais, que a arte da arquitectura com dinheiro muito alcança e pode, para se fazer de hum só arco: pois dizem, que é infinita esta arte sem termo. E vemos que naquele tão famoso rio Danúbio, está ainda em pé a ponte que nele mandou fazer o Imperador Trajano, com quase todos os pilares inteiros por cima da água cento e cinquenta pés, os vinte deles, que se parecem, e cada hum de sessenta pés de grossura, e o vão de cada arco de cento e sessenta pés. […] Por onde digno era da grandeza de Lisboa, haver aqui uma famosa ponte de pedra, ainda que se fintasse para isso todo o reino.
Galácio: Já nos contentáramos com ela de barcas.
Danúbio - desenho com a ponte de Trajano, supostamente destruída no séc. III,
o que contradiz a afirmação "está ainda de pé a ponte..." que Andrade coloca em Devoto.

Mais uma vez, pequenos registos soltos... Miguel de Andrade, que acompanhou D. Sebastião, fala de uma ponte que se perdeu o rasto, o rasto dos pilares, e pior, perdeu-se mesmo o mito desse rasto. Uma ponte, com milhares de anos ligando Lisboa e outra margem... que margem? Será fácil argumentar que é a  ponte de Sacavém, relatada por Francisco de Holanda (1571, Da fábrica que falece a cidade de Lisboa), mas há um problema... ou falamos de pequenas pontes - inferiores a 30 metros (sobre o Trancão), ou falamos de pontes superiores a 3000 metros (sobre o Tejo)! Fala-se em mudanças da paisagem por consequência do terramoto de 1755... após isso bastaria uma ponte de madeira sobre o Trancão (... se falarmos da mesma Sacavém).
Afinal há sempre explicações, mesmo que infundadas, e a destruição de 1755 aparece sempre como explicação de recurso às diversas perdas nacionais. O panorama de partilha mundial precisou ainda de incursões mais cirúrgicas para readaptar a paisagem a uma estória consistente.

As caricaturas de Gillray explicam muito... (Jorge III/Pitt e Napoleão)
... mas este problema não foi só externo, é interno e anterior.

Voltamos a Alcácer, na Barbaria, e à peça (1591) de George Peele sobre a batalha.
É uma das poucas peças estrangeiras que trata de um assunto marcante para Portugal, e se arrisca a nunca ser conhecida publicação em português. O bolo estava partido entre Portugal e Espanha, os Habsburgos tentaram com a chancela papal ficar com todo o bolo, mas Vestfália e depois Viena acabarão por trazer uma partilha mais estável.

A figura central da peça é Thomas Stukeley, sobre o qual Peele no seu Farewell (sobre a expedição de Drake e Norris, a chamada Contra-Armada), diz o seguinte:
Bid theatres, and proud tragedians, Bid Mahomet's Poo, and mighty Tamburline, and the rest. King Charlemagne, Tom Stukeley, and Adieu !
Dificilmente se colocaria numa mesma frase Maomé, Tamerlão, Carlos Magno e o quase desconhecido Stukeley... porém os seus contemporâneos dão-lhe algum relevo crítico, talvez suspeitando ser filho de Henrique VIII. Afinal, o título da peça acaba por colocar quase ao mesmo nível a morte dos três reis e a morte de Stukeley. Esse será um moto de interesse para o público inglês, já que Stukeley teria procurado depor a rainha Isabel.

Como diria Fuller, a propósito de Stuckeley, mas referindo-se à batalha de Alcácer:
A fatal fight, where in one day was slain, Three Kings that were, and One that would he fain
O resultado da batalha foi favorável a Filipe II e também ao império Otomano, mas a pressão sobre este "domínio filipino", omnipotente agora com os dois hemisférios de Tordesilhas, tornava a partilha ineficaz no quadro Europeu. A partir da derrota da Armada Invencível, a Guerra dos Trinta Anos terminará com o domínio espanhol Habsburgo, e com o fim do Vaticano como centro de arbitragem.
Os próximos tratados de paz dispensarão por completo a chancela ou até a presença papal... o mundo Charlemagne estava a modificar-se mas já era demasiado vasto para desaparecer.

NOTA: Há um ano atrás, quando comecei esta publicação, comecei com D. Sebastião, abordando algumas inconsistências que foram transparecendo a partir da cartografia antiga, com que acidentalmente me deparei. A partir daí, tratou-se de tentar desmontar e montar um gigantesco puzzle com milhares de anos, começando com a parte em que é evidente que as peças não encaixam - os descobrimentos marítimos. Fica o obrigado a quem foi seguindo este percurso, e não me deixou a falar sózinho - Maria da Fonte, José Manuel, Calisto, KTemplar.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Os dois Reis Magnos

Alexandre Magno e Carlos Magno tornaram-se figuras incontornáveis na historiografia internacional, tendo sido executores de impérios que se prolongaram na memória até hoje. Em ambos os casos, os grandes impérios que instauraram terminaram após a sua morte, subdividindo-se em vários estados que, apesar dessa divisão, mantiveram o legado civilizacional que transportavam. 
Batalha de Poitiers (732), Carlos Martel derrota a invasão muçulmana,
o seu neto, Carlos Magno será o primeiro Sacro Imperador.

De Alexandre segue uma herança cultural grega a que os próprios romanos se submeteram, e a partir de Carlos Magno, o primeiro imperador do Sacro Império Romano, a Europa definiu-se como uma grande aliança cultural de estados, independentemente das guerras internas entre os reinos independentes. 
A designação "Magno" envolve duas revoluções que mais do que conquistas territoriais, foram revoluções educacionais, formadoras de carácter e mentalidades. Nenhum é fundador dinástico... são antes filhos de conquistadores - Alexandre III é filho de Filipe II da Macedónia, Carlos é filho de Pepino o Breve e neto de Carlos Martel.
A influência de Carlos Magno é tal sobre a nobreza, que as genealogias procuravam (procuram, ainda hoje...) estabelecer a ramificação sanguínea que levava apenas e só até Carlos Magno.
As cortes europeias transformaram-se no resultado da grande prole de Charlemagne... cujo maior feito teria sido conseguido submeter a Saxónia, que tinha escapado aos imperadores romanos, como Augusto ou Marco Aurélio.

O final desta hegemonia singular da aristocracia acaba por definir-se no Tratado de Vestfália, na Deutsche Welle, que pulverizará a Alemanha em centenas de pequenos estados/principados. O Sacro Império Germânico dissolve-se e a França emerge como grande potência europeia, numa altura em que a Inglaterra estava submersa na sua guerra civil interna (e posta à parte da realeza, com a "república" de Cromwell).
Triunfo da paz (Vestfália, 1648)

A derrota dos Habsburgos, para a qual foi decisivo o empenho de Richelieu, e de Gustavo II da Suécia, estabeleceu o fim da influência papal, e a derrota da supremacia espanhola.
Morte de Gustavo II na batalha de Lutzen

É já no contexto de uma Europa de estados-nação, ligados para além da consaguinidade da realeza, que Napoleão surge como uma ameaça a Vestfália... surgindo notícias da coligação de Vestfália contra o Corso. É neste contexto que a Vestfália do Cardeal Richelieu perdurará e será solidificada, sem que a França sofra pela audácia do "corso". A Inglaterra emergirá como potência singular, e caberá à Rainha Victoria levar a glória concedida no Victoria's Secret (que talvez incluisse o genocídio dos "aborígenes" da Tasmânia).

Uma Europa mais forte sobreviverá a Napoleão, tal como uma Roma mais forte sobreviveu a César...
Apesar de serem honrados como generais, nenhum foi Magno... nenhum foi definido como promotor de uma revolução cultural. A ambivalência europeia conviveu posteriormente entre a linha absolutista de Metternich e a contaminação liberal que se propagara nos ideais da revolução francesa, mas a cumplicidade já estava definida para estabelecer uma ordem mundial no Congresso de Viena... impassível mesmo perante o breve ressurgimento de Napoleão no palco europeu.
Congresso de Viena (1815). Wellington sairá para derrotar Napoleão em Waterloo... uma formalidade!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

António Galvão (2)

 (continuation from here)

We proceed with the account of Galvano's text:  Tratado dos descobrimentos antigos e modernos (1563)

Chinese sailing. In the beginning of his text Galvão brings the dispute on the first sailing achievements. In 1560 he has no problem in giving some credit to Indians or Chinese (and Taibencos - a name now lost, it may be associated to Thailand and other Southeast Asian cultures). In fact he states that the weather is so warm and the seas are so calm, that even in a canoe discoveries could be made.

Jason and Alceus. Galvão places the legend of Jason (and Alceus) with the Argonauts, around the same time. The voyage was from Crete (or Greece) to the Pontus through St. George to the Euxinus. Then Alceus continued traveling by land until North Germany, and proceed by the coast of Saxonia, Frisia, Nederlands, France, Spain reaching again the Peloponnesus and Tracia - this he calls the “discovery of most part of Europe”.
Jason's voyage to Colchis with the Argonauts - "ancient" names of Caucasian provinces.
... one should ask - an epopee reporting a short voyage - almost a fishing trip! 

Menelaus. Like Duarte Pacheco Pereira, Galvão quotes Strabo (that cites Aristonico) to credit the voyage of Menelaus around Africa (counterclockwise) , and almost offers no doubt about it. He emphasizes that the Mediterranean Sea was called Adriatic, Aegean, or Herculeo... according to different times. Like Pacheco Pereira, it is now Galvão that diminishes this 15th century Portuguese achievement of Gama, crediting it to Menelao, after Troy.
We now have two accounts of ancient sailing… Menelao embarked on a journey around Africa, Ulysses was lost sailing on unknown seas (… probably the Atlantic) at the time of Troy. 
Previously, when Galvão mentions Troy, he says that it was founded (around 800 years after the Deluge) by the Dardanes “who brought from the Indies to Europe spices, drugs, and so many other things that are scarce now”. He also says that their main port was called Arsinoe (complaining that it was renamed Suez), and the trade continued in caravans of camels to the Eastern Sea, to a town called Cazom, all this before Pharaoh Senusret.

Solomon. Galvão gives credit to King Solomon travels, in the years 1300 after the Deluge. Solomon made an army that embarked on a three year sailing journey to lands called Tarcis and Ophir. As they brought many gold, silver, cypress and pine, he then assumes that the only possibility is that they had sailed to Luzon (Philippines: Luções), Okinawa (Japan: Lequios) or China. Galvão deliberately misses to justify the gold… it may seem he is avoiding to identify Tarsis with Spain or to locate Ophir in America, where these materials were common.  

Spanish Carthaginians. Around 600 BC, Galvão also accounts a voyage of Carthaginians merchants that departing from Spain, going west, discovered islands (attributed to be the Antilles), and found land that Gonzalo de Oviedo considered to be Nova España.
This just means that even Gonzalo de Oviedo (1478-1557), the Spanish historian, was diminishing the pioneer voyage of Columbus, crediting a similar accomplishment by Carthaginians 2000 years before… Why?
At the time of Gonzalo Oviedo it was clear that Columbus voyage only served political purposes. Portuguese, had been there before, and it was somehow important to show that Spanish were there even much earlier, even if at the time they were Carthaginians.

Hanno. This is perhaps the most common name associated to Carthaginian sailing. It is reported that him and his brother Himelion were rulers of Andalucía and each one went on separate sailing trips in 440 BC. 
  • Himelion went upwards until France, Germany, probably Sweden and even Iceland. Galvão associates it to the Iceland island Thule (66º N), so cold that he calls it “St. Patrick’s Purgatory”, and describes the volcanoes, one of which was called Ecla (~Katla?). He goes even further, saying that the fish were so big that a church was made from the bones (this might sound not so surprising today, as we are acquainted with whales dimensions… but it could sound bizarre at the time. Reports sound strange and fabulous if you are not familiar with them, and when you are instructed to reject them).
     
  • Hanno went along the Coast of Africa, finding the Fortunate Islands that Galvão associates to the Canaries, and other archipelagos: Dorcadas, Hesperias and Gorgonas. Concerning these islands he just says that others associate them to the Cape Verde archipelago. Like Duarte Pacheco Pereira, both based on Strabo’s account, state that Hanno made the whole tour of Africa until Guardafuy Cape, previously called Aromatic Cape. Of course he says that others pretend that he never went further than Sierra Leona, and that he was followed by Publio only until the Line (?~Equator Line). However Galvão argues that it took 5 years to Hanno to return to Spain, and this would have been too much time for such a travel... probably meaning (in an implicit fashion) that Hanno’s visit to the Hesperides and other islands was in the American continent.

Persians. Galvão also states that previously to Hanno, in the year 485 BC, the Persian emperor Xerxes sent his nephew Sataspis to make the same contour of Africa.

The most impressive conclusion that one gets while seeing all the list made by Galvão is that Atlantic navigations were quite common in all times, and were reported by different civilizations. 
Nowadays, since the celebrated Kon Tiki and other solitary navigations in small boats, it was made clear to the general audience that the major difficulty in ancient sailing was orientation, which was not a problem for sailors with some knowledge of the stars and sun movements... it could be a problem only to produce exact charts. 
  • Despite the evidences, people are led to believe that a short voyage from Greece to the Black Sea could justify the writing of Jason's epopee... knowing that it is more difficult to sail between greek islands.
  • Or even more ridiculous... we are led to believe that the Greeks would gather in a voyage to Troy that it was in the nearby shore, Troy would be closer to Mycenae/Athens than to other greek cities like Miletus...
  • Le coup de grâce, we are led to believe that Ulysses adventure, 10 years lost in the sea, was held in the Mediterranean... as if it was possible to a Greek sailor to be that lost in the Mediterranean.
As a consequence, if we are led to believe in all this, since we were young, it is easy to control our mind and the way we think.

(to be continued)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Garrett

Uma obra pouco conhecida, mas quase de leitura obrigatória, é o texto de Almeida Garrett (1830):


A propósito de Napoleão, Garrett consegue ser bastante elucidativo:
"A França e o mundo agradecido se prostraram ante ele, e o adoraram como ao salvador da espécie humana." (...) 
"[Napoleão] viu os homens e as nações curvadas diante de si, e da altura onde estava escorregou-lhe o pé sobre as cervizes que se lhe inclinavam. A Europa já era escrava de Bonaparte e ainda duvidava da sua servidão - os povos tinham perdido a liberdade, independência, glória, honra - e ainda lhes custava a crer que fosse seu tirano, quem havia sido seu libertador."
Da glória e da esperança republicana
à decadência e ridículo sob o "Teatro Real da Europa":
A questão Napoleónica é ainda um marco simbólico, até na sua ascendência corsa. A primeira Constituição moderna não é a americana, pois essa foi inspirada na primeira:
Constituição da Córsega de 1755, de Pasquale Paoli

A Córsega com Pasquale Paoli não era uma república... pois a rainha declarada era a "Virgem Maria". Essa breve independência republicana de Génova foi quebrada com a venda da ilha à França que a conquistou. Apesar dos esforços de Paoli, exilado em Inglaterra, a Córsega não voltou a obter a independência... e perdeu o motivo - afinal o maior espírito de França, Napoleão, teria nacionalizado a Córsega pela sua própria origem. A questão perdeu o impacto, e o curto movimento independentista corso foi-se dissipando.

O Teatro Real Europeu conseguiu de novo assegurar o domínio da oligarquia. Conforme explica Garrett:
"As legiões francesas só foram odiadas e acometidas da indignação popular (que ao cabo as venceu), depois que o seu chefe, já legitimado por reis, já amigo federado deles, como eles enganou e zombou das nações nas suas promessas" (...)
"E esse homem, que havia saído das falanges do povo, e de quem todos esperavam liberdade, não só pejorou e atraiçoou a causa que defendera (...) desprezou o apoio de quem o alevantara, e quis firmar-se nos abusos e no erro, que já haviam precipitado os seus antecessores: chamou as classes inúteis para redor do seu trono, federou-se com os reis e potentados contra as nações e os povos, retrogradou a civilização e cuidou de aniquilar a liberdade"

E sobre a ingratidão da realeza para com os povos, Garrett vai mais longe:
"[os reis] ligaram-se, pelejaram contra o soldado da fortuna enquanto ele trajou as roupas da liberdade, e desembainhou a espada em prol da humanidade. Venceu ele (...) forjou um ceptro como o deles, e desde esse momento foi ídolo e adoração dos reis, o que havia sido dos povos. Solicitaram a sua aliança, pagaram-lhe páreas e tributos, receberam assentamento de criados seus, prostituiram-lhe as suas filhas!..."     (...)  
"Porém quando o povo indignado sacudiu o jugo alheio, e meteu ombros à reconquista da independência, qual deles apareceu à frente dessas legiões denodadas e generosas?"
A análise de Garrett é profunda mas muito contemporânea, recorrendo aos exemplos clássicos, é ainda notável ao invocar um conflito de classes, que prevê ocorrer na Rússia:
"Em suma, a guerra dos povos é aos privilégios exclusivos, incertos, vagos e arbitrários, como a vontade de um só homem de cujo capricho emanam: ela é por toda a parte a mesma, unânime. Se entre uma nação esta classe se empenha mais na guerra, entre essoutra, outra classe; as circunstâncias particulares, a particular natureza ou constituição das sociedades produz essa diferença, não a natureza da contenda, não o objecto dela, não o fim, não a causa. 
Onde há opressão há revolução, onde a administração se opõe ao espírito do século, à opinião dos povos, o estado de guerra entre governante e governado existe; onde as classes que possuem e produzem trabalham só, as que só consomem governam só, por horas ou por dias está a peleja aberta entre elas."

Poderia parecer que Garrett estava a ser influenciado pelas ideias de Karl Marx... mas há uma diferença temporal - quando Garrett escreve este texto, Marx teria apenas 12 anos.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Acadia

Num quadro constante do arquivo da BNP, entitulado "descida dos franceses à ilha da Terra Nova" (1701-15), podemos observar uma cidade razoavelmente sofisticada, e uma violenta batalha com componente naval, onde estão presentes elementos de vários exércitos (vê-se por exemplo uma bandeira escocesa):
"descida" dos franceses à Terra Nova (1701) http://purl.pt/5230/ 

É nesse ano de 1701 que é "assinada" a denominada Paz de Montreal, onde seria suposto terminarem as guerras com "os Iroquois e Algonquins". No entanto, talvez por imaginação artística, nesta "descida" a cidade alvo de ataque francês na Terra Nova, está longe de ser um "acampamento índio".
Lembramos que após Cabotto (1487), a Terra Nova é assinalada sucessivamente até 1578, sob bandeira de D. Sebastião, altura em que deixa de ser referida. Começam aí as "descobertas dos outros", por Drake - a perdida "New Albion" (Califórnia?), e cabe a Gilbert a menção como iniciador da colonização contínua da Terra Nova (1583), o que colide com a suposta presença francesa.

Não longe, estava a Acádia. Tratava-se da designação francesa para a actual Nova Escócia (e territórios próximos), com capital em Port Royal. Também esta colonização francesa começaria c.1600 e manter-se-ia até 1755 (ano do terramoto de Lisboa), em que também se dá a "deportação dos Acadianos", que são aparentemente levados para outros territórios, perdendo-se o rasto:
deportação dos Acadianos (1755)

Aprendemos que o extermínio de populações e civilizações foi obra incauta de conquistadores espanhóis, dificilmente algo semelhante poderia ter tido lugar na época da luzes com outros países?...

Pouco depois, em 1756 aparece em Lisboa um movimento literário conhecido como a Arcádia Lusitana, onde se incluirá Bocage (Nova Arcádia). A Arcádia é uma referência mítica do séc. XVIII, na linha da Utopia de Thomas More, referente a um paraíso perdido... A sua localização na Arcádia grega, seria invocada nas Bucólicas de Virgílio.

O nome "Acádia" leva-nos a distantes paragens espaciais e temporais - a Acádia, de Sargão, c. 2300 a.C.
O império Acadiano que Sargão protagonizou, estendeu-se até às paragens fenícias, tendo lançado as bases para Babilónia, lendo-se num texto sumério:
Os povos de cabeça negra eu comandei, eu governei; poderosas montanhas, com machados de bronze eu destruí. Escalei as montanhas superiores, e passei pelo meio das montanhas inferiores. O país do mar eu sitiei por três vezes; Dilmun eu capturei. Até o grande Durilu eu fui (...)
Qual teria sido o país do mar sitiado, e a ilha mítica Dilmun? 
Talvez sem razão particular, invocando o tal paraíso Arcadiano, sem "r", o nome é de novo escolhido, para ainda depois ser alterado para Nova Escócia. De Sargão não restará talvez registo tão foneticamente idêntico quanto o próprio mar... Sargaço.

Esta confusão de nomenclatura, tão frequente, tem um exemplo engraçado.
Para combater o tédio das tropas franceses em 1804, na Austerlitz holandesa, o general Marmont decidiu entreter os soldados com a construção de uma pirâmide artificial, ligeiramente mais pequena que a de Miquerinos - e terá demorado menos de um mês (29 dias) a sua execução pelas tropas.
Pirâmide de Austerlitz (1804), na Holanda

O nome Austerlitz é ainda dado a Slavkov-u-Brna, a Austerlitz na república checa, onde se teria dado a famosa batalha que Napoleão venceu em 1805. Esta pirâmide cortada, símbolo massónico comum à época, é ainda coroada com uma torre (com um mirante no topo), e servirá de monumento à vitória em Austerlitz, mas a milhares de quilómetros de distância.
É um caso raro em que o monumento comemorativo foi construído antes da própria batalha ter ocorrido!


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Fusang

Começamos pelo princípio do fim, ou seja pelos Tratados de Nanquim e Tianjin (1842, 1860), que marcam o final das guerras do ópio, após o primeiro ataque comercial britânico com ópio (hoje seria chamado "tráfico de droga"), que enebriava a população chinesa:


Tratado de Nanquim, 1842

As potências ocidentais, principalmente Inglaterra, EUA, Rússia, França, iriam definir tratados desiguais que manteriam a China, Coreia e Japão sob controlo aliado. Mudou muita coisa, houve as revoltas dos Boxer passadas algumas décadas, a revolução cultural de Mao, passados cem anos, mas estes países são ainda os detentores do direito de veto no Conselho de Segurança da ONU. A China acabou por trilhar um caminho em que evitou sempre qualquer conflito directo com os restantes, e aparece agora em posição desafiante.

De 1851 a 1880 aparece na História dos EUA uma população de 229 000 imigrantes chineses dispostos a trabalhar, em particular no Transcontinental Railroad, que ligaria o Atlântico e o Pacífico. Não conheço registo dos detalhes que justificariam uma imigração chinesa sem precedentes e tendo como destino único os EUA. Grande parte deste período ocorre em plena Guerra da Secessão (1861-65), e também no momento posterior à anexação da Califórnia ao México (1846-48), a que seguiu uma explosão de registo populacional californiano, de 10 mil antes de 1848, passaria a mais de 100 mil em 2 anos, quando em 1850 passa a ser o 31º estado americano. É ainda neste contexto que surge a imposição americana do comandante Perry e o Tratado de Kanagawa (1854):

Puccini - Mme Butterfly (1904), por M. Callas (1954) 

Após a viagem de Cook, em 1770, e a partir do estabelecimento da "colónia penal" australiana de Nova Gales do Sul, em 1788, ou seja à época da Revolução Francesa, o domínio no Pacífico passa a ser britânico.
Como sabemos, a História deita o véu de 250 anos sobre a época 1520-1770, desde a viagem de Magalhães até à viagem de Cook. Os mapas ignoram a Austrália, o Havai, a costa Pacífica da América do Norte, acima da Califórnia. Admite-se hoje, em surdina, as viagens em 1642 de Tasman à Austrália ocidental, mas  Cook continua como "descobridor" nomeado, tal como Colombo o foi antes.

Pouco antes, aparece em mapas, a norte da Califórnia, a chamada Ilha Chinesa de Fusang (ou Fou-sang), por exemplo num mapa de Ph. Buache
 
Mapas (1753, 1792) onde Fusang - Terra Chinesa - é identificada com parte da costa Pacífica americana.

A ocultação de descobertas, até à viagem de Cook, teria assim uma razão - impérios asiáticos no Pacífico:
- um império marítimo chinês que ocuparia parte da costa ocidental americana,
- um provável império marítimo japonês que controlaria parte da Austrália, Polinésia e Havai (basta seguir o rasto de conquista seguido pelo Japão na 2ª guerra mundial).

A ocultação desses territórios é uma expressão de não reconhecimento da capacidade marítima ou tecnológica dos povos orientais. Não era considerado descoberto, apenas porque não estava sob domínio de potência ocidental...

O aparecimento súbito de 230 mil chineses tem assim uma explicação - não são imigrantes, são muito provavelmente o que restaria de uma população chinesa estabelecida em Fusang.
- É a partir da 2ª metade do séc. XIX que começam os registos de populações que se estabelecem na costa oeste americana, quer pela parte britânica na British Columbia, quer a norte da Califórnia.
- Apesar das notícias de Eldorados ou paraísos a norte da Califórnia, desde o séc.XVI, a febre do ouro só tem lugar nessa altura, passados 300 anos. Não há outra justificação plausível para que os mexicanos, ou quaisquer outros, não avançassem para norte.
- As lutas de guerrilha com índios em tendas, munidos de arcos e flechas, ganham um outro significado, e mais dramático, quando se supõe a existência de um reino prestes a sucumbir. A fossanguice impele os conquistadores a não deixar rasto do passado.
- Grandes batalhas, como as napoleónicas, inúmeras perdas humanas numa parte do globo justificariam perdas em lugares completamente diferentes.
- O domínio europeu segue duas vertentes expansionistas, primeiro a russa, que domina o norte da Mongólia, a península Kamchatka, e o Alasca; por outro lado, a americana/britânica que segue em direcção ao Pacífico, as eventuais colónias americanas de origem chinesa ficam encurraladas. A venda do Alasca, a participação russa na batalha de Pequim, a guerra com o Japão, são vários aspectos dos entendimentos a larga escala.
- Quando as populações colonizadoras chegam, já seriam raros os vestígios das populações anteriores, e os que existissem estariam em processo de extermínio. Os territórios tomados eram tidos como não-civilizados, virgens, e a completa violentação seria guardada, ou perdida, nos confins da memória.

A Guerra da Secessão americana iniciada em 1861 surge nesta perspectiva num contexto completamente diferente. Mais uma vez a questão da ocultação estaria colocada em cima da mesa, e o problema da escravatura não seria apenas a libertação da população afro-americana, seria uma continuação da Guerra do Ópio, em que a opinião pública seria enredada numa alienação dos factos.

(assim, a questão Gaia começa quase pelo fim)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A questão Gaia

Quando falamos de Gaius Julius Caesar, transformamos o I de Iulius em Julius, não o fazemos com o I de Gaius, se o fizéssemos ficaria Gajus Julius Caesar.
A língua sofreu muitas torturas, até falar mentira... mas amparou-se com uma tradição semi-popular resistente. O Gajus não ficou em César, mas ficou na língua que não se atreve a ser escrita... de forma selvagem, ficaram gajos e gaiatos.

Falamos, é claro do culto a Gaia, à deusa primordial no panteão greco-romano, que empresta o prefixo "geo" a tudo o que se refere à Terra. Falar de GAJA seria rasca, falar de GAIA, não. A simples curva final na letra que transforma o I em J, altera a nossa percepção da semelhança, por vício educacional. 

Já não choca escrever MAJA com significado de MAIA, mas tudo se altera quando há conotação pejorativa enraízada... um raciocínio sujeito a troça, é educacionalmente auto-censurado. As semelhanças são exactamente as mesmas - num caso nem notamos, noutro caso recusamos a associação... é tudo um ardil educacional. Os maiatos são habitantes da Maia, mas os habitantes de Gaia passaram a gaienses e não a gaiatos. Caminhos diferentes para os filhos da mesma Terra, em fases diferentes. Junte-se-lhe a nossa Raia fronteiriça, para adicionar Reia ao mais primevo panteão feminino greco-romano.
La Maja desnuda y vestida (antes e após 1800), de Goja

No aspecto masculino, Majo terá associado Maio, mas do folclore de transmutações que se escondeu na letra G (que dá para Caius/Gaius ou Caia/Gaia) não me surpreenderia a associação Majo a Mago... (ou então, com o tratamento "ch" que damos ao "j" poderia bem ler-se Macho... já o castelhano cumpriu melhor o disfarce com o som "rr" para o "j").

Um bom exemplo de tortura da nomenclatura está documentado na evolução do nome Senegal.
Duarte Pacheco Pereira identifica-o escrevendo Canágua, algumas décadas depois a tortura fonética tinha levado à seguinte transformação sucessiva: Canágua, Çanágua, Çanaga, Senegal (conforme vai constando de registos e mapas).

Dir-se-à que invocando trocas de letras, as associações não têm fim e tudo é permitido... mas não é bem assim! Há registo causal suspeito nuns casos, enquanto noutras situações, sem o nexo causal, poderá ser considerado acidental. A escrita pode violentar mais facilmente a tradição fonética oral, que é bem menos controlável que a escrita.

Exércitos de eruditos e documentações indubitáveis podem dizer que a ligação Maja/Maia nada tem a ver com a alteração similar Gaja/Gaia... Sim, se fosse apenas essa a coincidência, poderíamos bem seguir sempre a voz do altifalante, mas não abdiquemos do nosso próprio escrutínio.
Quando se alimenta o absurdo por séculos, a credibilidade efectiva é pouco mais que nada... e a troça recai sobre a postura dos anões sobreviventes, guardadores do anel de Saturno, o gaiato, filho de Gaia e Úrano.
Saturno devorando os filhos, de Goya.

GUA
A linha das analogias na nomenclatura, que a Duquesa de Medina-Sidónia procurou seguir, na sua conexão África-América, foi diferente da nossa, mas chegou a paralelismos semelhantes, que obtivemos seguindo a cartografia e a descrição dos cronistas.
Há no entanto um ponto revelador que abunda nas atribuições feitas às línguas indígenas americanas e que tem uma conexão fonética directa com a cultura andaluza... o termo GUA, que pura e simplesmente deveria querer significar Água. Podemos assumir que a origem é o latino Aqua, mas parece mais indicado encarar o inverso, e aceitar a raiz de uma simples indicação directa: "a gua" - a água. A diferença fonética entre "qua" e "gua" pode ser imperceptível.

É óbvio que esta livre suspeita tem dupla raiz nos rios Guadiana e Guadalquivir, que leremos como:
Gua de Ana, e Gua del Quibir... e ficamos por aqui, apenas salientando que a palavra árabe para água é almaa (havendo certamente alternativas...).
Na América Central e Antilhas, multiplicam-se os nomes que usam "Gua", pelo que dispensamos a enumeração exaustiva, por exemplo: Guatemala, Nicarágua, lago Manágua, Guarumal, Guálan, rios Motagua, Águan, as ilhas Mayaguana ou mesmo Guadalupe... Guadalcanal, Guam, Guadalajara, Guana, Gualala, Guayteca, Guantanamo, etc... encontramos mais designações em mapas primitivos, antes das convenientes alterações posteriores.

É claro que isto pode nada significar, mas pode também significar a presença de uma cultura com fonética semelhante que influenciaria o Atlântico, desde a zona do Estreito de Gibraltar a toda a América Central (e sul).

A "Questão Gaia" começa aqui, e esta é a sua introdução.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Fénix e Fenícia

Na arte pictórica, a Fénix é representada como uma ave mitológica com penas douradas e vermelho-arroxeadas (... e esta côr purpúrea é reveladora), com capacidade de auto-regeneração, ao renascer das cinzas em que se consome por auto-combustão. Esta representação não é muito diferente da que D. João II usava para o seu Pelicano:
Fenix avis unica (crónicas de Nuremberga, 1493), e o "pelicano" de D. João II.

O sacrifício do pelicano, que se auto-flagelava para alimentar os filhos, não é muito diferente do mito da fénix, que antecipando a morte, renasce num filho que depositaria depois as cinzas no templo de Heliopolis. 
Há várias Heliopolis (cidades do sol), uma das quais era a fenícia Baalbek

A escolha desta cidade Fenícia para a Fénix, é claramente fonética... é difícil não associar fénix e fénice... e a palavra servia para identificar em grego a cor púrpura com que caracterizavam os fenícios, pelo comércio associado, e também as palmeiras de tâmaras.

Até que ponto será adequado associar uma fénix à fenícia, no sentido em que se tratava de uma cultura que renascia dos seus próprios apocalipses? Neste sentido, a herança fenícia ultrapassava um povo particular situado na cidade de Tiro, ou nas suas colónias Cartago e Cartagena... esses seriam já renascimentos de civilizações anteriores, eventualmente de uma possível cultura atlântida.

Quando D. João II retoma o tema, com o pelicano, e atendendo a que própria Fénix seria vista como um moto da ressurreição de Cristo, poderá estar a reivindicar parte dessa herança antiga.

A restauração da independência nacional foi um projecto ligado à casa Medina-Sidónia, e à influência que Ana de La Cerda (e o marido português Rui Gomes da Silva) tiveram na política herdada pela Casa Medina-Sidónia e também pela herança de Luis de La Cerda (que reclamou em 1344 as Canárias para Castela).

Ana de la Cerda, o Escudo da Casa Medina-Sidónia, Luísa de Guzman (bisneta).

Simultaneamente, a família Medina-Sidónia lança um ataque interno ao império de Filipe IV, procurando a independência do seu ducado em Cádis (... a fenícia Gades), de Portugal (através de Luísa de Gusmão), e da Catalunha. Apenas a independência portuguesa será bem sucedida, e temporariamente... o tratado de Vestfália (8 anos depois, 1648) mostraria uma agressividade da restante Europa contra o império espanhol, e a singularidade portuguesa não seria excepção. A ténue restauração nacional foi sustentada com uma aliança britânica, consolidada com o casamento da filha Catarina de Bragança (... mais uma mulher), e depois com o desastroso Tratado de Methuen... que só mostrou que passados 400 anos Portugal continua a abdicar da sua produção interna, e independência, em troca de uma subsídio-dependência europeia.

Esse desígnio de restauração, de procura da verdade, manteve-se na Casa Medina-Sidónia, através da chamada "duquesa vermelha", Luísa Isabel Alvarez de Toledo, historiadora nascida em Portugal e recentemente falecida. Tentou em 1992 publicitar a outra história dos descobrimentos, no seu livro
... mas só em Marrocos conseguiu ter uma aceitação e divulgação aceitável. Na Europa, ninguém quer ouvir falar em documentação que prova a presença portuguesa e árabe nas Américas, muito antes de Colombo.