domingo, 31 de outubro de 2010

Main Facts (1)

First thing: Common Sense
... to believe or not the Official "Columbus" Version?
Official dates for the discoveries (1434-1500)

Official facts:
1434-1488: Hundreds of navigations, first lead by Prince Henry "the Navigator" arrive to Sierra Leone, then lead by King John II, arrive at Congo, and at most at Cape of Good Hope (South Africa). Not a single voyage to the west... excluding the regular voyages to Azores (<1432), in the middle Atlantic.
1492 - A single voyage lead by Columbus, from Cadis arrives at the Antilles.
1498 - A single voyage lead by Gama, from Lisbon arrives at India.
1500 - A single voyage lead by Cabral, from Lisbon arrives at Brazil.
1500 - A single voyage lead by Corte-Real arrives at Greenland and Newfoundland/Labrador.

After the Tordesillas Treaty (1494), when the Pope divided the world between Portugal and Spain, King Manuel set the limits of his Hemisphere - on the north: Greenland/Labrador, on the south: Brazil, on the east: India. When he took power within 3 years (1498-1500) he uncovered... say "discovered", his part of the deal.

Why? - well, of course... the main stream version:
- People believed that the Earth was flat... of course, and surely they were falling while crossing the Equator, while Columbus was still a child. They were then enlightened by Columbus... LOL!
- The main stream version is quite nice as a joke like "Columbus egg" - it is so obviously false, but people are lead to believe in what they are told.

Why are we led to a wrong version? - don't ask me, although I have my answers (which are not nice)!

Map of the discoveries/possessions in 1515
King Manuel with Almeida and Albuquerque set the Indian Ocean as a Portuguese ocean, expelling the turkish domination and arrived to China (1515). At the same time the turks were invading eastern Europe, assaulting the fleets in the Mediterranean sea, the Portuguese were menacing Mecca, and conquered Suez.
The spanish Emperor Charles V was consolidating a considerable small domination in the Mexican Gulf, while the portuguese were establishing the biggest naval domination in History, as we may see in this map:
Discoveries until 1515. Portuguese (blue dots), Spanish (yellow dots).

Despite the portuguese arrival at Timor in 1514, Australia was only discovered by Cook in 1770... of course! - It makes a lot of sense, and all those that tried to prove otherwise had some trouble in publishing the proofs.

Well, since (almost) all maps before 1500 disapeared, it is time to present some main contradictions that have been left behind. 

1. Turning a Reinel Map (1485)
Reinel's map of 1485 was found in a library in France, only in 1960. Some people tried to date it after 1500, however there is Moorish flag in Granada, that only fell in Spanish hands in 1492, the year Columbus departed... This is only inconvenient if you turn the map around, since you might see a nice Central America contour, some years before Columbus voyage...
Surely this is just a remarkable coincidence... as this knowledge would only be possible according to the official version, until at least 50 years after. Is it so?

2. Map of part of America - João de Lisboa (died 1525)
In a partial map of central/south America, João de Lisboa decided to put some Portuguese (and moorish) flags in Peru/Colombia... however since the spanish Pizarro expedition to the Incas occurred in 1529-32, this is also an inconvenient map. Despite the book where these maps are, called "Livro de Marinharia", was signed by João de Lisboa saying "made in 1514", the official cartography dates this as 1560... after the author was dead! Even so, this does not justify Portuguese or Moor castle in the Incas territory. 
A map by João de Lisboa, in a book signed 1514.
(magenta squares show the portuguese/moor flag castles)

This is also a complementary proof to the Duchess Medina-Sidonia theory that the Moors were sailing to America before the Spanish... This was presented in the 500 anniversary of Columbus arrival, but kept aside from the general public! We believe that a Portuguese castle was the Castle of Saint George of the Mine - confusing itself with a similar name of a fortress in Africa. This was a general strategy - mixing african and american names.

3. Map of the World - João de Lisboa (died 1525)
In the same book by João de Lisboa, we find a remarkable world map:
World map by João de Lisboa, in a book signed 1514.
(yellow triangle is to be skipped and glued by the blue line spots)

Even if we accept the 1560 official date, this maps shows a very good world map, superior to most maps until Cook (1770). It has a contour of the western part of North America, that was "not allowed" after 1600... the contour does not close America to Asia, assuming an opening at the Bering Strait (Bering was born in 1680).
This map could never been dated to 1514, because it also shows the Magellan Strait, only crossed in 1521, and Japan, only uncovered in 1543. Unlike any other map around 1560 it does not mention the Magellan Strait, only the Cape of Good Hope... this is now justified, also Galvão (a portuguese hero of the XVI century) reports there were maps signaling Magellan Strait around 1428 - at that time it was called Dragon Cola (Dragon's Tail).
Furthermore, all small flags in this map are perfectly justified in a 1514 map, but not afterwards - for instance, Albuquerque conquests of 1515, in the Arabian peninsula, are not signaled.

(... to be continued)

sábado, 30 de outubro de 2010

Matusalém e Santarém

No blog Portugalliae, há mais de um ano, foi evidenciada a complexidade da cerâmica encontrada na Civilização de Santarém (no Brasil) e Alter-do-Chão (também no Brasil...). José Manuel indicou ainda um artigo do Science Daily que revela as surpresas dessa Terra Preta do Índio.

Regressemos a Santarém, mas em Portugal...
Em vários blogs escabilitanos encontramos a chamada "Lenda de Abidis" (por exemplo, aqui ou aqui), em que se fala do Rei Gorgoris (que teria o cognome Melícola, por ter recebido dos deuses o segredo do mel), da sua filha Calipso e do filho que esta teve com Ulisses de Ítaca. Esse filho era Abidis, recolhido por uma loba (ou cerva), num local onde aí  fundou a cidade Esca-Abidis (manjar de Abidis), de onde viria o nome romano Scabili-castrum (castelo de Abidis). A variação e contracção faz-se de abidis para habilis. É ainda interessante a semelhança do mito de Abidis com a história de Rómulo e Remo, também alimentados por uma loba. Já aqui falámos dessa tradição mítica nacional associada a Noé e a Tubal, que fazia parte de qualquer história nacional, até ao século XVIII, e depois de Alexandre Herculano nem tão pouco sobreviveu como mito.

No entanto, esta Esca-Abidis acabou por permanecer Santarém.
Não longe de Santarém, há antigos registos romanos que situam Matusarum ou Matusalum. 
Não se chamava Matusalém, mas sim Matusarum... Duarte Nunes de Lião (séc. XVI) na sua Orthographia explica esta subtileza... os portugueses consideravam mais másculo o som do "R" em vez do "L", e por isso ao contrário de várias línguas, fizemos variações em que desapareceu o L: - em vez de "doblar" passou a "dobrar", "plaga" passou a "praga", etc... (pag.26 da Orthographia).
Fica aqui notada essa existência romana de Matusarum, próximo de Ponte de Sôr, num local que será agora Foros do Arrão, perto da barragem de Montargil. Prosseguindo na mesma direcção encontramos Alter do Chão, a portuguesa... a chamada terra do cavalo lusitano.

Matusalém seria, de acordo com o Genesis, o homem com maior longevidade, filho de Enoque e avô de Noé, o ano da sua morte teria coincidido com o Dilúvio.

Mais uma vez vamos encontrar o registo mítico bíblico associado à Hispânia, neste caso próximo de Santarém. Cidade que contava com uma especial atenção real, na época dos descobrimentos, nomeadamente por D. João II, e que é bem conhecida pelas suas Portas do Sol, viradas a nascente.
Santarém - Portas do Sol
É claro que as muralhas existentes no parque das Portas do Sol são bem mais recentes que outras Portas do Sol, como a de Tiahuanaco, ou tantas outras notáveis civilizações americanas pré-colombianas...
Tiahuanaco - Porta do Sol
No entanto, não deixa de ser interessante ter-se mantido este conjunto de mitos, e associações, numa cidade situada numa colina sobre um Rio Tejo navegável.

Centum Cellas (por Calisto)

A propósito de Egitânia, é de recordar o texto sobre Centum Cellas num antigo comentário por Calisto, que deveria ter aparecido como post na altura, ilustrado com algumas figuras.

Torre de Centum Cellas

Sobre Centum Cellas vou tentar ser sucinto. Das poucas escavações que por lá se fizeram (presumo que Aurélio Ricardo Belo), é de registar um pote de barro com ossos de criança calcinados.


Sem avançar nas explicações técnicas a existência de rasgos para encaixe de aros nas 3 janelas cimeiras que dizem respeito a um terceiro andar levam a colocar fora de dúvida a adaptação do edifício primitivo, a funções diferentes daquelas para que foi construido.


Origem de enormes furos que atravessam as paredes laterais e a do fundo, que alguns autores tomam como portas pode-se prender com a lenda da existência de um boi de ouro enterrado...logo andaram uns poucos à procura do dito boi.


As ruinas situam-se a 11km em linha recta do cabeço das Fráguas.

Inscrições em Cabeço das Fráguas

A zona tem possantes jazigos de cassiterite, e o Zêzere descrevia uma curva de maior amplitude do que aquela que agora descreve "(...) recebia a ribeira da Gaia no sítio dos Catraios, em frente a Centum Cellas (...)"


Edifício composto de um nucleo com anexos ligados às paredes laterais. Núcleo tinha 2 pavimentos os anexos 1. A planta do conjunto é rectangular e este era absolutamente simétrico a 1 plano axial.
Fachada principal virada para o nascer do sol nos maiores dias do ano.


Nas ombreiras de todas as portas do R/ch, há rasgos horizontais, junto das vergas, onde se encaixavam os tabuões. As portas giravam sobre 2 espigões fixos. Rasgos semelhantes existem nas ombreiras de vão de portas de certos templos do antigo Egipto.
Ignora-se o significado das 3 janelas rectangulares e desiguais (vê-se na foto que incluiu no artigo) que assentam nas vergas das portas exteriores, em Efeso a pia baptismal tem um grupo de 3 rectângulos que dizem ser símbolo da trindade...

Éfeso: pia baptismal

De acordo com o autor, Vitrúvio não aplicou a secção dourada e não refere na sua obra Arquitectura, se a conheceu, guardou segredo.
Das relações geométricas, vou deixar 2 ou 3 apontamentos para não me tornar muito extenso.
  • Sala do 2º pavimento (abrangia totalmente o 2º pavimento e cujs aberturas davam para uma varanda que a contornava, provavelmente o motivo principal do edifício). Parede (que se vê) que fica à esquerda na foto, composta de porta pequena, janela, porta grande, janela, porta pequena. Portas menor dimensão: a relação entre as 2 dimensões (altura, largura)é a dimensão da planta do partenon (rectangulo do partenon), a razão entre a diagonal e o segmento que une um dos vértices ao ponto médio do lado maior, oposto, é igual ao número de ouro.
  • A parede de topo que aparece na foto de frente (1 porta de maior dimensão ladeada por 2 janelas que parecem quadradas):o arquitecto procurou inscrever 2 secções douradas, justapostas pelos lados menores, num rectangulo de comprimento igual à largura da sala e altura igual à distancia que vai do pavimento às vergas da janela, a mesma em 12 vãos da sala. Porem para manter a medida de 2,18m e conservar a razão entre as 2 dimensões da secção dourada perfeita, o arquitecto foi obrigado a aumentar ligeiramente o lado maior destas. Assim este lado ultrapassa, de perto em 11mm , a metade da largura da sala. Na grande piramide de Gizé existe um corredor com 2,18m de altura. Mero acaso?
Tudo o que escrevi (e muitas mais relações, realmente impressionante) encontra-se no livro que referi, o que achei notável e fascinante foram as relações arquitectónicas/geométricas que o autor encontrou. Desculpe a extensão, mas foi a forma que encontrei para mostrar que as relações realmente existem.


Autor: Calisto (texto em comentário sobre Brito Bluteau, com algumas ilustrações incorporadas)

domingo, 24 de outubro de 2010

Egitânia

Egitânia era o nome dado pelos suevos e visigodos à população de Idanha, significativamente diferente do que permaneceu, e ainda do romano Civitas Igaeditanorum. O novo acordo ortográfico tem destas surpresas no sentido oposto ao objectivo de perder ligação às raízes das palavras...
Agora devemos escrever Egito, e se Lusitânia deriva de Luso, pois Egitânia parece agora derivar de Egito...
Surge este texto a propósito do comentário[de Maria da Fonte] que fala do achado de um escaravelho egípcio numa escavação arqueológica romana em Alcácer do Sal, da época do faraó Pasmético (sec. VII a.C).
Pode sempre dizer-se que se tratou de uma peça trazida do Egipto, na altura romana... sabendo-se que encontrar o obelisco na Place Concorde também não significa que os egípcios tenham estado em Paris. Aliás, pela mesma ordem de ideias, encontrar as pirâmides no Egipto, também não significa que tenham sido feitas pelos egípicios... poderiam apenas ter sido transportadas (afinal, as pedras nem são originárias das redondezas).
Quando falamos de registos históricos, temos que guardar a devida distância de certezas...

Voltando a Egitânia, na Idanha portuguesa, encontramos alguns registos interessantes.
Estão a céu aberto algumas inscrições em pedras significativas:

umas parecerão mais romanas que outras... mas é já de alguma forma habitual o pouco cuidado que se tem na preservação destes registos. É significativo o registo monumental, de várias origens em Idanha, incluindo uma igreja visigótica que parece ter tido várias fases de construção. Várias fotos interessantes podem ser encontradas, e incluem uma estrada antiga (romana... certamente, como é suposto serem todas as estradas antigas!), uma denominada "torre templária", uma casa com a cruz de cristo , etc...
A entrada de Idanha-a-Velha é uma construção maciça com notáveis enormes pedras, que também parecem ter origem em tempos de diferente reconstrução (figura à esquerda), bem como um típico arco "episcopal" (à direita).

Apresentamos ainda uma ponte com um arco diferente, que procura ser mais triangular, característica partilhada com a porta lateral da catedral episcopal (de tal forma pronunciada, que passa o telhado).
Idanha (que não dista muito de Cento Cellas) é apenas mais um dos vários casos em que houve necessidade de haver uma Nova e uma Velha, sendo próximas neste caso, às vezes chegam a estar separadas por centenas de quilómetros, como é o caso de Montemor...

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Globo de João de Lisboa

Num dos mapas do Livro de Marinharia, de João Lisboa (que faleceu em 1525), está a imagem mais pormenorizada de um globo terrestre numa projecção polar centrada no pólo norte, e tem servido de logotipo a este Blog. 
Este globo é talvez a compilação mais clara do seu conhecimento na época, reunido noutros mapas. 
[clicar para aumentar]
Globo de João de Lisboa (1514)

A atribuição que consta na Portugalia Monumenta Cartographica faz datar o mapa para 1560, já muito depois da morte de João de Lisboa, sendo claro que há de facto inserções posteriores, que levam a essa datação. 
Porém, para inconveniência natural, o Livro de Marinharia começa dizendo 
"feito por João de Lisboa em 1514"
As poucas incongruências apontadas por Armando Cortesão em 1960 são referentes a inserções noutros mapas constantes do Livro de Marinharia, que colocam por exemplo um banco de D. João de Castro (escrito de forma diferente), e que só poderiam levar a essa datação tardia de 1560, pela clara corrupção do original. Ainda que se admitisse essa datação tardia, o mapa mundo revela pormenores notáveis, como um extenso conhecimento da América, só admitido muito posteriormente.

De facto, o mapa deve ter sido feito logo em 1514. Apesar de apresentar o Estreito de Magalhães, não o designa como tal. Isso é natural, pois a passagem de Magalhães é feita 7 anos depois... não seria natural estar ausente num mapa de 1560.
Os pontos fundamentais assinalados são:
- na América: a Terra Nova, Nuova Espanha, Peru, Brasill,
- na Europa/Médio Oriente: a Alemanha, Turquia
- em África: o Cabo da Boa Esperança, Preste João, Guiné(?)
- na Ásia/Oceânia: a Pérsia, a China, o Japão, Java, Maluco, Nova Guiné
(esta identificação de nomes está sujeita a algum erro, sendo difícil na resolução disponível)

Colocar-se-ia ainda a questão do Japão, sendo representado muito antes da sua descoberta oficial. No entanto reparamos que não existe nenhuma bandeira associada. Há duas bandeiras associadas a Java e Timor, que poderiam ser aceites desde 1512, e mesmo na China, com a chegada em 1513.
Sendo um mapa de 1514 é ainda natural que não coloque bandeiras na península arábica, numa altura em que Afonso de Albuquerque procurava estabelecer o domínio completo no Índico. Num mapa posterior, de 1560, essa escolha de bandeiras seria injustificável em vários locais, como por exemplo, em Ormuz ou no Ceilão.
Não há quase dúvidas que este mapa só pode ser anterior à circum-navegação de Magalhães, revelando no entanto um profundo conhecimento de toda a costa americana. Tem aliás o cuidado de não colar a parte americana à parte asiática, revelando um conhecimento do Estreito de Bering, quase 200 anos antes de Bering, e que na altura seria denominado Estreito de Anian.

O mapa usa uma representação polar única, com centro no pólo norte, algo particularmente adaptado a uma navegação pela bússola, da qual trata o seu Tratado da Agulha de Marear.
É possível converter esse mapa num planisfério, que leva aliás a uma representação consistente com os outros mapas inclusos no Livro de Marinharia. Apresentamos na figura seguinte essa conversão, tendo em atenção a adicional distorção que corta um dos quadrantes (a desproporção de 3/4 é corrigida com expansão de 4/3 centrada no meridano de Tordesilhas):

Planisfério obtido, a partir da representação polar no globo de João de Lisboa de 1514.

A partir desta projecção em planisfério, é possível encontrar claras semelhanças com a parte correcta do mapa Theatrum Mundi de João Lavanha (excluindo a parte aparentemente fantasiosa do continente antártico aí representado a sul):


Conforme já referido anteriormente, o mapa de João de Lisboa de 1514 não é significativamente muito diferente de alguns mapas feitos dois séculos depois. A parte mais significativa talvez seja a habitual omissão da Austrália (e também da Gronelândia... que tem a sua melhor representação na cópia de Cantino, de 1502), apresentando apenas uma mal definida Nova Guiné e Maluco.

Só depois da viagem de Cook, mais de 250 anos depois, foi possível apresentar mapas com informação global superior, incluindo a Austrália completa. 
Por que razão se regrediu no conhecimento, e se procurou redatar ou ignorar estes mapas? Por que razão se aceitou que Magalhães ou Colombo tivessem sido os protagonistas de façanhas bem conhecidas, e muito mais antigas? 
Pois esses são segredos que devem alimentar outros segredos e instituições secretas... aqui apenas vamos apontando algumas estórias mal contadas.

Ver também:

domingo, 10 de outubro de 2010

Magos (2)

(continuação de post anterior)

Zaratustra pode ter sido contemporâneo de Moisés (c. 1500 a.C), mas é normalmente tido como vivendo por volta de 1000 a.C. De acordo com os registos míticos, foi considerado como aquele que tudo percebeu, acabando por questionar uma hierarquia de uma casta de sacerdotes - Magos. Só séculos depois, a Pérsia Aqueménida, a grande rival grega, terá enveredado pela filosofia do Zoroastrismo até à chegada de Alexandre Magno. 
A Batalha de Gaugamela (Mosaico de Alexandre, na Casa do Fauno em Pompeia)

Qual a estranha situação por essa altura do milénio? As terras férteis situadas na Europa, por exemplo em Espanha ou França, estariam a salvo de incursões das diversas majestosas civilizações que se foram desenvolvendo... De acordo com a História conhecida, essas terras nunca mereceram atenção particular de egípcios, mesopotâmicos ou outros. As terras da Hispânia foram exploradas pelo comércio Fenício (talvez Hebreu), merecendo pouca atenção pelos gregos, egipicios ou persas. À excepção dos cartagineses, todas estas civilizações mais antigas desconsideraram a Itália, e a crescente presença romana. Os gregos apenas se estabeleceram no Sul de Itália e Sicília, na chamada Magna Grécia, nunca ousando caminhar para os territórios mais a norte, muito mais férteis. Os Gregos estabelecem-se em terrenos acidentados, próprios da pastorícia, mas inóspitos para a agricultura... os legados gregos parecem difusos na Hispânia mediterrânica, e mesmo no sul de França.

Independentemente de algumas alterações climáticas, é quase indiscutível que a civilização Egípcia se estabeleceu nas margens do Nilo, beneficiando de alguma fertilidade. Por outro lado isso dá a entender que não se aventuraram para terrenos longe do Nilo, nem são conhecidos registos significativos para além dessa circunscrição. Apesar de se conhecerem navegações egípcias e projectos de conquista, a antiquíssima civilização egípcia não parece ter-se afirmado para além do Nilo. 

O que condicionou antigas civilizações... a não procurar uma colonização noutras paragens, mesmo mediterrânicas... deixando os terrenos de Espanha, Itália, ou França, para povos pouco civilizados?
O que faz Alexandre Magno prosseguir a sua invasão para Oriente e não Ocidente, mesmo depois de derrotados Egípcios e Persas? 

Já no Séc. I a.C., o próprio Tito Lívio questiona como teria sido Roma capaz de se defender de Alexandre... isto ao mesmo tempo que é suposto Júlio César ter ficado frustrado com as proezas de Alexandre quando chegado à Hispania para o seu consulado. Depois de Alexandre ter derrotado o fenício rei de Tiro, o que impediria retaliações ou guerra com Cartago? O que teria deixado Alexandre com fama de conquistador mundial, se nem tão pouco se aventurou a ocidente da Grécia?

É mais atrás que começa a nossa estória... e com uma pergunta de Esfínge:
- quantos 3 séculos teve a humanidade para sair de carroças e entrar em foguetões?
Só seria possível nestes últimos 3 séculos e não noutros?
Ou antes, por que razão o conhecimento de máquinas, de Héron, de leis mecânicas, de Arquimedes, retrocedeu, ou foi perdido, por um povo altamente técnico e pragmático, como os Romanos?
Que sentido faz o achado arqueológico da Pilha de Bagdad, que funcionava como bateria eléctrica primitiva?
Pilha de Bagdad

De acordo com os dados arqueológicos, a inteligência criadora existe há vários milhares de anos, e houve muitos 3 séculos em tantos milhares de anos!
- Isso coloca a questão noutro ponto... haveria ou não a possibilidade de uma civilização antiga ter atingido o ponto de uma Atlântida?... Com as devidas condições de estabilidade, não é difícil aceitar que podem ter havido civilizações muito antigas, que tivessem evoluído para graus de desenvolvimento impensáveis, ao longo de milénios, enquanto numa determinada parte do mundo, uma parte esquecida, mais primitiva, continuaria em estado de subdesenvolvimento. 
Basta aliás pensar o choque civilizacional na altura dos descobrimentos, para entender que visitantes humanos bastante mais evoluídos poderiam ser vistos como deuses! Autênticos Gods/Gotts, palavras similares a Goths... ou seja, aos tais Godos que António Galvão quis como responsáveis pela estagnação civilizacional da Idade Média?


Quando vimos anteriormente as incongruências na datação de descobrimentos, que constavam em mapas anteriores (p.ex. Estreito de Bering), vemos que houve condicionantes para retenção das navegações.
Só a partir de certa altura, após Cook, houve licença para redescobrir o que faltava do mundo (a América a Norte da Califórnia e Austrália). 
Essa condicionante de rejeição, só encontra explicação em causas externas. Causas externas que condicionavam o desenvolvimento de civilizações humanas, a menos que um certo apaziguamento aos deuses, entidades externas, fosse apaziguado.
Era uma casta de sacerdotes, de magos, que se encarregava de comunicar a vontade desses deuses... deuses esses que poderiam não ser mais do que representantes de uma civilização mais avançada tecnologicamente.

As mudanças nas civilizações, o domínio de uma relativamente a outras, coincidiria com uma agenda externa. Progressos seriam admitidos quando autorizados, quando não autorizados, a religião e os seus magos encarregar-se-iam de suspender progressos civilizacionais.
Quando Akhenaton (ou Sócrates) questionam os deuses, e o seu poder, são os próprios magos a remediar essa dúvida. A ira desses deuses externos poderia ser medida na forma como foi destrutiva a intervenção por pilhagens dos Povos do Mar, eternos desconhecidos na sua origem.
É neste contexto que fica relevante uma chancela prévia dada pelos Reis Magos, ao nascimento de Cristo... é uma maneira de outorgar que essa mensagem civilizacional estaria pronta para ser difundida, pelo interior de um império bélico - o Império Romano. Todos os progressos são estagnados, havendo uma auto-censura de desenvolvimento, seria esse o acordo com a invasão dos godos.

Só muito mais tarde, após as navegações portuguesas, é autorizado um novo desenvolvimento, com a autorização de navegar a Colombo. Nessa fase, haveria um desfasamento de 1000 anos entre uma civilização que tivesse prosseguido o caminho técnico-científico que foi retomado no renascimento.
Essa autorização de navegação é limitada.... não permite alguns territórios proibidos, como a América do Norte, especialmente na sua Costa Oeste, ou toda a Austrália ou Nova Zelândia.
A partir da autorização de navegação a Cook dá-se o um novo progresso civilizacional que culmina na era industrial, e na exploração de mundos para além do nosso planeta. Mais uma vez, após o desígnio de navegar mais longe, de atingir a Lua, lançado por Kennedy, as explorações são interrompidas ou tímidas... 

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Magos

As referências a Reis Magos (Gaspar, Melchior, Baltazar) levam-nos imediatamente ao registo do Novo Testamento, sobre o seu fugaz e misterioso aparecimento aquando do nascimento de Jesus Cristo. Seguindo uma estrela, encontraram o filho de Maria, e entregaram presentes na forma de ouro, incenso e mirra. Este é o registo bem conhecido que aprendemos desde crianças, notando ainda que em Espanha é no dia 6 de Janeiro que se distribuem os presentes natalícios.

As referências a Magos aparecem noutro contexto dos descobrimentos portugueses. Por exemplo, no Livro dos Três Místicos, a que tive apenas acesso a esta página:

encontramos nas margens laterais os possíveis místicos/magos (à esquerda, um vestido de castanho e outro de verde; à direita, um vestido de vermelho e outro de azul). Do lado direito contrasta, uma representação cadavérica, com a estilizada, do lado esquerdo. O livro é de D. Manuel, tratado como César Manuel.

Na obra de Francisco de Souza (1570) encontramos esta referência a uma ilha Santa Cruz dos Reis Magos, a oeste da Madeira:
A oeste da Ilha da Madeira 65 ou 70 legoas, está uma grande Ilha que se chama Santa Cruz dos Reis-magos, que tem de comprido trinta legoas, e de largo no mais estreito quinze legoas, e pola banda do sul está em 32 graos, e corre athé 34 ao norte, e corre-se noroeste susueste, e tem por todas as faces grandes Bahias e enseadas, grandes arvoredos, e Ribeiras, e boas agoas, como d'isto mais largamente tenho informações dos antigos, e se arruma pola maneira aquy posta em uma carta Franceza, que tenho onde está aluminada, e presumesse que tem gado.
Tal ilha não existe, e a melhor descrição para possível localização será na zona referenciada aqui, onde há assinaláveis baixios... a menos que a Ilha da Madeira fosse outra, ou que o livro tivesse uma especulação falsa, não censurada pela Inquisição. 
Na Madeira, acabamos por encontrar afinal uma outra referência, à Praia dos Reis Magos, em Santa Cruz, é ainda na Madeira que encontramos o profundo Canhão da Calheta, tal como o Canhão da Nazaré.

No Brasil, na cidade de Natal, encontramos a Fortaleza dos Reis Magos, edificada em 1598:

Natal, Belém, Reis Magos, na mesma zona nordeste do Brasil, acabam por estar associadas na toponímia ao nascimento de Cristo... acidentalmente, ou não, já que as habituais explicações se mostram com a fortuitidade da cidade, ou do forte, ter sido erigido em data natalícia.

Ainda em Portugal, acabamos por ter uma antiga localidade pré-histórica, cujo nome Salva-Terra de Magos, tem origens desconhecidas, mas consta prender-se com uma origem associada a magos persas.

Continuando por essa associação persa, vamos aos antigos registos de magos, mais precisamente recuamos ao tempo de Zaratustra, e a Ka'ba-ye Zartosht:

(continua...)

sábado, 18 de setembro de 2010

Teogonias (1)

A Teogonia de Hesíodo (séc. VIII a.C) é talvez um dos relatos mais interessantes da criação do mundo. 
Do Caos, surge a Terra (Geia) e o Céu (Úrano/Celus), mas também alguns deuses primevos mais estranhos, como o Amor (Erébo) que dá origem ao Dia e à Noite... ainda antes da criação do Sol. O relato judaico bíblico da origem da luz, também separa o dia da noite (1º dia), antes da criação do Sol e estrelas (4º dia).
Não havendo registo único e claro da Teogonia grega, nesse tempo inicial Hesíodo considera ainda Pontos (mar primevo) e Tártaro (mundo inferior).
Durante muito tempo ficou a designação de Ponto Euxino para o Mar Negro, ambas as designações sugerindo que o mar primevo seria aquele espaço. A essa visão circunscrita à região, juntamos a designação de Tártaros aos habitantes da região que seria também depois dos Medos. É ainda aí, na Cólquida (vizinha da Ibéria caucasiana), que se situam muitos dos mitos gregos... e também é comum associar aí o mito diluviano (resultante duma eventual abertura do estreito do Dardanelos).

O mapa de Heródoto - reconstrução na Biblioteca do Congresso (Washington DC)
põe em evidência a importância do Mar Negro (Pontus Euxinus), do Mar Cáspio (Kaspion Pelagus/Caspium Mare), e do Mar de Azov (Maiotis Limne/Palus Maeotis), estes últimos considerados mares verdes. 
Notamos que o mar Vermelho (Eritreu) é associado ao Índico e o outro é denominado golfo Arábico; outro facto que se evidencia é a notação Celta, para uma larga região hispânica após as colunas de Hércules.
Talvez o mais importante é notar uma tripla divisão continental: Europa, Ásia e Líbia... o nome África é muito posterior - e nunca foi claro que designasse apenas a África actual (... poderia incluir a América).

Neste primeiro apontamento sobre Teogonias, o que importa deixar claro é que estas efabulações parecem ser ridículas face ao nosso entendimento científico, mas não o são necessariamente.
Porquê? Porque envolvem uma formação progressiva, e não simultânea.

Não há nenhuma razão para dissociar o dia/noite do aparecimento do Sol... isso seria óbvio para qualquer entendimento, por mais primitivo que fosse. Essa separação vai contra o nosso bom senso!
Qual a razão de uma Teogonia que vai contra o mais elementar bom senso? 
- A única razão plausível parece ser reportar-se a uma realidade diferente.
Ou seja, os relatos antigos parecem levar-nos a uma realidade temporal onde poderia haver Luz sem Sol.
Isso não faz nenhum sentido...
- pois, mas também não faz nenhum sentido Deus criar o homem à sua imagem (na versão bíblica), ou falar-se em deuses gregos antropomórficos. 

Tratam-se de mitos claramente antropocêntricos, e colocam necessariamente a Terra na origem da criação. 
Ou seja, a concepção planetária, com a inclusão do Sol, só poderá ser uma versão posterior de uma construção universal, que se inicia na Terra. 
Digamos que a construção divina não teria ficado completa numa única fase...
- talvez numa fase inicial, tivesse havido uma Terra plana, com um mar circundante, e um céu delimitador;
- talvez só numa fase posterior, tivesse sido criado um Sol como fonte de luz;
- só ainda em fase posterior, aparece a presença humana, distinta da presença divina, num mundo essencialmente diferente daquele que conhecemos hoje!
- só numa fase mais recente a Terra foi definida como esférica, e só depois a rotação solar passou a heliocêntrica... e da mesma forma, só posteriormente foram definidas estrelas semelhantes e galáxias.

Em suma, descreve-se aquilo que é normalmente entendido como a evolução da compreensão humana, por deficiência de conhecimento... Mas por força da relatividade do conhecimento, tanto podemos aceitar que isso foi deficiência humana, como poderá ter sido constatação humana, sem deficiência especial. Tudo depende se a crença é científica nos moldes actuais, ou se credita alguns fundamentos míticos.

O outro ponto especial, onde os relatos míticos concordam, sem razão histórica aparente, é na existência de uma "idade de ouro", associado a um tempo de felicidade e imortalidade humana, antes do estabelecimento da Idade do Cobre.
É o tempo de supremacia de Cronos/Saturno, filho de Úrano e Gaia, ceifador da genitália paterna que ao cair no Oceano produz Afrodite. Cronos é implacável para os seus filhos deuses, mas é tido como exemplar para os humanos... os romanos dedicavam a Saturno/Cronos, as Saturnálias - que podem ter motivado a celebração posterior do Carnaval... onde os papéis escravo/senhor eram invertidos.
Prometeu levando o fogo aos humanos.

Associar-se-à o tempo feliz de Cronos a um eventual tempo do Jardim do Paraíso... antes dos mitos da tentação do conhecimento de Eva e de Pandora-Prometeu. Altura em que alguns homens procuraram imitar os deuses, e definindo escravos passaram a assumir o destino destes, quais deuses. 
É nessa terceira fase que aparece o mundo de Zeus, o filho de Cronos, que depõe o pai (Saturno é visto no seu exílio divino como um rei humano do Lácio), e que se inicia a construção do mundo como o conhecemos... um mundo pós-diluviano! 
Os mitos/relatos antigos mantêm-se, mas deixam de fazer sentido na nova construção universal... a Terra deixou de ser plana e rodeada por água! 
Os humanos passam a estar sujeitos aos caprichos do Dodekatheon (o Conselho dos 12 deuses do Olimpo, comandados por Zeus)... as lembranças de Cronos, do Paraíso Perdido, passaram a fazer parte do passado!

Como apontamento final, ligando ao post anterior sobre a Moeda, notamos que não há propriamente nenhum Deus ligado ao dinheiro... o que demonstra de alguma forma que esse aspecto civilizacional, ligado ao aspecto social do comércio, embebeu a sua importância no tempo muito mais recente (após Alexandre).
Mesmo Hermes/Mercúrio, era um deus mais ligado à comunicação, mensagem, conexão que só parcialmente se aplicava no comércio.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Contos de reis

A moeda é o maior e mais extenso acordo social, que actualmente cobre todo o planeta Terra.
Se houver desacordo constante entre a valoração dos bens, a moeda é ineficaz.
Actualmente (*) a moeda tem um suporte em ouro, mas isso pressupõe que o próprio ouro é reconhecido como material valioso por todas as sociedades... coisa que estava longe de ser comum há 500 anos atrás. A civilização ocidental acabou por exportar essa valoração de um metal precioso que era banal em civilizações pré-colombianas.
A maior difusão da moeda, conforme a conhecemos, começou especialmente com Alexandre Magno, período do qual restam ainda muitas moedas, de ouro, prata, etc.
Moeda de ouro de ALEXANDROU (Alexandre Magno) [imagem]

A utilização de moedas foi depois extensa no período Romano, usando os mesmo moldes... uma cara do governante, e uma coroa que outorgava. O ouro passou a ser indubitavelmente o metal precioso de eleição.
Esta influência foi transmitida aos povos bárbaros, existindo mesmo cópias celtas de moedas gregas.

Independentemente dos análogos noutras culturas, nomeadamente na chinesa, a influência do mundo greco-romano fez-se ainda pelo acordo social que uniu diversos povos numa convenção de valoração da moeda, e especialmente do ouro, enquanto sistema de troca.
Ao longo da Idade Média essa convenção social foi-se solidificando, mas esse período era ainda marcado pela diferença explícita entre castas sociais aristocratas, onde as trocas eram maioritariamente directas - as populações viajavam pouco. O reconhecimento do poder do dinheiro, acabou por ser selado a partir do fim da Idade Média, pelas Cruzadas e início das Descobertas, ao fazer aparecer um poder de sedução popular nas mãos de uma classe burguesa, não aristocrata. 
O valor da moeda nas transacções deu um poder à burguesia na cativação do povo, e o estatuto de servidão podia ser inato, mas também passou a ser comprado por adesão à riqueza implícita na troca aceite de bens. O reconhecimento progressivo da moeda acabou por comprometer o ascendente militar, nas relações humanas, e a ascenção da burguesia na Alta Idade Média. 

O período de Descobertas no séc. XVI é extremamente interessante pois marca o início do choque valorativo. Uma Europa sedenta de ouro encontraria civilizações que menosprezavam essa mais valia.
A produção de moedas de ouro, começa a ser extensa em Portugal, a partir de D. Duarte, denunciando já implicitamente contactos com paragens onde o ouro é abundante...
Meio Real (D. Duarte) [imagem] 

O Infante D. Henrique terá talvez sido o grande artífice dessa economia à escala global.
A transacção efectuada sob segredo das diferenças culturais, permitia lucros fabulosos, e o próprio início da escravatura em África terá tido como motivo, não apenas a mão-de-obra gratuita, mas também como moeda de troca civilizacional, conforme descreve Duarte Pacheco Pereira (Esmeraldo Situ Orbis, pag. 50):

(...) os quaes no modo do seu comercio tem esta maneira. Todo aquele que quer vender escravo ou outra cousa se vai a um lugar certo para isto ordenado & ata o dito escravo a uma árvore & faz uma cova na terra daquela quantidade que lhe parece bem & isto feito arreda-se fora um bom pedaço & então vem o Rosto de Cam & se é contente de encher a dita cova de ouro, enche-a & senão tapa-a com a terra & faz outra mais pequena & arreda-se fora & como isto é acabado vem seu dono do escravo & vê aquela cova que fez o Rosto de Cam, & se é contente aparta-se outra vez fora & tornado o Rosto de Cam ali enche a cova de ouro & este modo têm em seu comercio & assim nos escravos como nas outras mercadorias & eu falei com homens que isto viram & os mercadores Mandiguas vão às feiras de Bétú & Bambarraná & Dabahá comprar este ouro que hão daquela monstruosa gente & tornado o Rio de Guambea (...)

O segredo da diferença de valores foi uma moeda bem explorada pelo comércio português... como é sabido, bugigangas eram trocadas por metais preciosos (ou outras raridades na Europa e Islão).
Afinal, acima da moeda, ainda imperavam os segredos de regime como maior valia. O acesso à corte poderia ser facilitado por dinheiro, mas não assegurava o conhecimento dos códigos que regiam a aristocracia.
Apesar da ascenção da burguesia, esse poder permaneceu em grande parte intocável na aristocracia. Houve revoltas, revoluções burguesas... por exemplo com Cromwell, mas só a partir da Revolução Francesa a burguesia começa a tomar efectiva parte visível na governação europeia. O período industrial será determinante.

Uma das designações mais antigas para a moeda nacional é o Conto de Reis, remontando ao séc. XIV.
Um conto é suposto ser equivalente a um milhão, mas podemos ir mais longe na especulação sobre a origem da palavra... mais concretamente aos Contos das Mil e uma Noites. 
É bem conhecida a história de Xerazade com o califa Xariar, que a troco de uma estória todas as noites vai sendo poupada da morte anunciada. Para além das instrutivas estórias que aí se encontram compiladas, e que fazem parte da nossa juventude, é especialmente interessante a valoração do entretenimento do monarca.
Ou seja, numa corte despótica e dominante onde o tédio só era interrompido por sinais de batalhas, os simples contos instrutivos teriam um efectivo valor como moeda de troca. 
Não será assim de estranhar uma possível relação entre a designação monetária "conto de reis", com uma efectiva estória - um conto para reis. Idealmente seria um conto instrutivo para a plebe, mas com um significado implícito, secreto, acessível apenas pela elite.

O poder pode ser exercido explicitamente pela força, ou pela manifestação implícita de um factor dissuasivo no inimigo. A aristocracia valeu-se sempre muito mais da dissuasão do que da manifestação repressiva explícita, com o intuito de não incendiar revoltas. 
A moeda, enquanto cativador dos desejos materiais do povo, ao ser imposta como convenção social unificadora pela burguesia, permitiu-lhe uma efectiva arma dissuasora e assim ascender por direito próprio a um patamar mais elevado, aristocrata, onde só lhe estariam interditos alguns códigos e segredos milenares.

Apesar de quase indiscutível, a fragilidade desse poder, da moeda, baseia-se numa convenção social que pode ser abalada pelos valores que representa. Ou seja, uma sociedade alternativa pode ser constituída por simples substituição, ou recusa, da moeda actual. O descrédito da actual moeda, e dos valores associados, representaria o fim desta ascensão da actual burguesia, e dos laços que estabeleceu com a aristocracia anterior.
O valor da moeda reside numa fé de que ela será reconhecida como troca em qualquer transacção social. Serve razoavelmente as pretensões materiais, mas tem ainda como ameaça os valores espirituais ou morais, embebidos na sociedade, através da cultura e religião. Não é aí capaz de servir como moeda eficaz, vai contando apenas com a progressiva menorização desses valores, ao edificar uma sociedade materialista.

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(*)… o suporte ouro desvaneceu-se desde Bretton Woods e Nixon (1973).

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Cores (2)

As obras de arte que nos chegaram da Grécia Antiga, no seu período áureo, têm uma característica pouco mencionada - a ausência de cor! É claro que há suposições de que não seria assim, e podemos ver uma magnífica tentativa de reconstrução computacional do Parténon, com os seus frisos pintados:
Podemos acreditar que sim, mas o facto é tanto mais notório, quanto as próprias cerâmicas aparecem em tons monocromáticos (e.g. wiki).
Mas, há que distinguir períodos... um inicial dórico, ou anterior, contemporâneo da "colorida" civilização cretense, onde abundava os temas multi-cromáticos como ainda se vislumbram em Cnossos... 
Essa abundância de cor era ainda visível nas civilizações do Egipto e da Mesopotâmia.

Em Roma volta a notar-se a ausência de cor... podemos falar nos vários mosaicos coloridos, por exemplo de Pompeia... mas para além da cidade vitimada pela ira de Vulcano, os diversos mosaicos podem reportar-se a períodos mais tardios do Império Romano.

No seu período áureo, de feitos inauditos e celebrados, a cultura greco-romana aparenta ser monocromática!
Será que na mesma altura, isso se passaria com outras civilizações? Ou será apenas uma coincidência do legado cultural mais importante, que nos chegou?

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mapas de Dieppe


Nos Mapas de Dieppe (ver, por exemplo, descrição em portugalliae) encontramos, para além de possíveis representações da Austrália... assunto sobre o qual não vale a pena insistir (é quase inquestionável que à época, c. 1547, a Austrália era já bem conhecida), encontramos nos frisos circundantes cenas evocativas de cariz mitológico. Neste primeiro friso, um governante Rei entrega a Hermes/Mercúrio uma mensagem que entrega a uma deusa dos mares, provavelmente Tétis. O pormenor mais interessante é a representada cidade com altas torres, envolta num certo cinzentismo, que seria mais apropriado para representa uma cidade industrial, 3 séculos depois. Nota-se ainda um sol poente sobre o mar habitado por ninfas...
No outro friso, a cena mitológica repete-se, com a entrega da mensagem a Diana/Artemisa, passando eventualmente por Marte e Vénus... Diana está numa quadriga!

A referência a este frisos com motivos mitológicos prende-se com os fados mitológicos que regressaram no Séc.XVI, sendo bem ilustrados nos Lusíadas de Camões.

Numa corte que durante um milénio negou o transporte por meio da roda, pode perceber-se até que ponto as condicionantes regressivas embebiam as políticas decididas. Essas políticas implícitas, secretas, que condicionaram o transporte, que condicionaram o conhecimento, só transpareciam subrepticiamente nas obras artísticas.
Podemos falar em condicionantes tenebrosas do obscurantismo religioso, mas é surpreendente o ressurgimento de toda a mitologia greco-romana no período renascentista.
À parte as variações na nomenclatura, os romanos adoptaram a mitologia grega. A conquista da Grécia/Corinto (146 BCE) está ligada a dois nomes que também tiveram relevância na Hispania:
- Quinto Cecílio Metelo, que derrotou os celtiberos e combateu Viriato,
- Lúcio Múmio Acaico, que foi pretor na Hispania.

Coincidência ou não, o mundo estagnou durante o milénio medieval em que se omitiu a mitologia greco-romana, ainda que prevalecesse o calendário juliano.

As navegações seriam retomadas oficialmente para as Américas quando houve uma chancela papal obtida por Colombo para navegar. Em Natal, Brasil, encontra-se uma coluna romana, denominada "capitolina"... (supostamente oferecida por Itália para comemorar um acto de aviação - fica o registo, abstendo-me de comentar o estranho presente da Itália nacionalista de Mussolini). 

Se em 1492 houve uma autorização de estender o território conhecido para as Américas, houve uma parcela significativa do mundo que permaneceu obscura. Compreendia basicamente toda a costa oeste americana, acima da Califórnia, e a Austrália. Só após 1775, quando os EUA se libertavam do jugo inglês, as viagens de Cook permitiriam abrir esse Novo mundo, reconhecido, visitado, mas oculto.
Cândido Costa, no final do Séc.XIX chega a falar em 5000 monumentos que atestariam evidências de presença pré-columbiana.

Será difícil de determinar se os jogos cortesãos eram produto de uma corte enfastiada, desejosa de mostrar a sua prevalência divina, ou se ainda acima disso, estariam sujeitos a determinações externas, para além das cortes europeias. Estariam os territórios ocultos abandonados, ou sob domínio civilizacional anterior?

Ou seja, tanto podemos crer que os territórios eram silvestres, abandonados sem propósito, ou albergavam um eventual paraíso terrestre, dominado por uma civilização tão antiga que controlaria as restantes, de tal forma superior, que seriam vistos como deuses. Afinal, o que distingue o homem actual do homem do Séc.XVIII senão pouco mais de dois séculos de civilização. 
Do mundo dos coches ao mundo dos foguetões pareceram bastar dois séculos de progresso... quantos dois séculos houve na história da humanidade? Quantas vezes houve oportunidade de dar o salto para um avanço tecnológico significativo? Desde egípcios, babilónios, gregos, hindus, chineses, houve inúmeros avanços da ciência interrompidos para só serem retomados após o renascimento. Estagnações de milénios para rompantes avanços num par de séculos... Estagnações de facto, ou induzidas?

Termino com o mote para o próximo post:


... porque, para além das cortes europeias, estes Magos, de barretes frígios, quais portadores da revolução republicana, foram intervenientes pontuais em várias Estórias.
Figuraram em histórias, em nomes de ilhas, praias, terras, fortes, mas a sua proveniência foi sempre misteriosa e aclamada.