terça-feira, 13 de dezembro de 2016

de Calisto ao contrário Pólo (2) ... a uma velocidade incrível

Passam hoje 7 anos de que comecei a publicar na internet aquilo a que chamei tese de Alvor-Silves, e que eram essencialmente algumas das evidências contra a tese dos descobrimentos como nos foi (e ainda é) ensinada e divulgada. Curiosamente foi nestes últimos dias que o blog disparou em número de visitas... primeiro americanas, depois russas.
Adiante. 
É entretanto o dia em que a Google lembra o 105º aniversário da chegada de Amundsen ao Pólo Sul, e portanto, calha bem com o tema que se tem discutido!

"El Mercurio", um jornal chileno, dá conta desta notícia em 5/3/1947, 
  • Adm. Byrd declared today that it was imperative for the United States to initiate immediate defence measures against hostile regions. The admiral further stated that he didn’t want to frighten anyone unduly but that it was a bitter reality that in case of a new war the continental United States would be attacked by flying objects which could fly from pole to pole at incredible speeds. Admiral Byrd repeated the above points of view, resulting from his personal knowledge gathered both at the north and south poles, before a news conference held for International News Service.
- Portanto, o Almirante Byrd dava conta de "objectos voadores", que poderiam viajar de Calisto ao contrário pólo... a uma velocidade incrível, usando a expressão de Camões.
- Por outro lado, há 4 anos atrás, o primeiro-ministro russo Medvedev, respondendo a uma pergunta sobre a visita de ET's ao nosso planeta, disse que bastava ver o conhecido filme "Men in Black". 

Alguém notou que, não há apenas a charada do filme americano, há também o documentário russo (de 2001), que apresentei no blog Odemaia, que também se chama "Men in Black"... e que trata da questão dos nazis poderem ter desenvolvido discos voadores na Antárctida.

Tendo visto isso, fiquei a pensar melhor como se poderiam conjugar as diversas informações... ainda que parecessem meio desconexas.
Tendo em atenção as linhas de campo magnético terrestre:
podemos ter uma ideia do que se pode passar, se usarmos um magneto invertido, face ao campo magnético terrestre. 
Ou seja, conforme ilustrado na figura, se imaginarmos o "ovni" como um imã (o pequeno pentágono), sendo oposto a outro imã (o campo magnético terrestre), ele é repelido, enviado para fora, e pode seguir a linha magnética, entrando em órbita, indo parar ao pólo oposto, por atracção. 
Portanto, de Calisto ao contrário Pólo... a uma velocidade incrível.
Porém isso só seria praticável se o "ovni" desenvolvesse um campo magnético semelhante ao da Terra. 
Vendo o bom documentário do Canal História sobre Magnetismo, ficamos a saber que hoje são desenvolvidos, em laboratório, campos magnéticos um milhão de vezes superiores ao da Terra.
Não seria certamente preciso tanto... bastaria gerar um campo magnético da ordem de grandeza do terrestre para gerar uma grande repulsão, e empurrar um "ovni" de um pólo ao outro.

O princípio é básico... mas como é óbvio, é apenas uma suposição da minha parte.
Sendo básico, poderia ter sido pensado e desenvolvido à época. 
Como é dito no documentário russo, os discos voadores, voando apenas por princípios aerodinâmicos, nunca atingiriam grandes velocidades na horizontal... porém usando uma impulsão na vertical, e a ajuda do campo magnético terrestre, contra elecroimãs que seriam controlados pelo piloto, poderiam aproveitar as linhas do campo magnético, para entrarem em órbita, e aparecer no pólo oposto.
Que outra indicação há disto?
No documentário russo "Men in black", há uma foto de um piloto que estaria num disco voador nazi Haunebu (que é dito não usar combustível convencional), indicando que poderia estar equipado para vôos espaciais:
Piloto do disco Haunebu com um estranho capacete (vídeo 28:00-29:00)
Esta hipótese faz ainda sentido, porque o equipamento espacial não seria porque os nazis estivessem naquele momento interessados em viagens espaciais, mas porque tinham que seguir o rumo das linhas magnéticas, que estava para além da atmosfera terrestre, sendo necessário o respectivo capacete hermético. 
Em resumo, o aparelho tinha um dispositivo electromagnético, que funcionava especialmente bem próximo dos pólos. Electricamente era gerado um campo magnético em que a parte inferior do disco ficava com carga em oposição à do pólo terrestre. Isso catapultava-o para o espaço, pela linha magnética, indo cair no pólo oposto... 
Partindo da Nova Suévia, não seria de Calisto ao contrário Pólo, seria o oposto, do Austro ao contrário Pólo. Justificava-se o interesse da base antárctica, porque colheria de surpresa os inimigos pelo lado do pólo norte, com a base colocada no pólo sul.
E, como temia o Almirante Byrd, poderiam fazer esse percurso, em órbita, a uma velocidade incrível. 
Talvez não seja por acaso que os avistamentos ocorriam especialmente em zonas mais setentrionais, ou em zonas mais meridionais, ou seja, onde pudessem mais facilmente usar a repulsão magnética, contra o campo terrestre.
Não é a única explicação, mas supondo que a informação que "anda por aí" tem algum substrato verdadeiro, parece-me conjugar as diferentes informações numa coisa com algum sentido, que não exija ET's, portais, ou a hipótese da Terra Oca.

Não deixa de ser curioso ainda que João de Lisboa, uma das principais fontes, nos mapas que usei há 7 anos atrás, tenha publicado o Tratado da Agulha de Marear, onde era apresentada a primeira explicação consistente do uso das variações do magnetismo terrestre na navegação... ou ainda que Bartolomeu de Gusmão argumentasse que o seu balão usava o magnetismo terrestre, e que ao mesmo tempo Alexandre de Gusmão sugerisse que a sua Passarola poderia ser usada para navegar nos Pólos.
Ou seja, não é de excluir que houvesse uma ideia antiga, talvez ligada às Vimanas (que a sociedade nazi VRIL estudou, nas suas pesquisas esotéricas do hinduísmo e arianismo), que preconizasse o uso do campo magnético terrestre como forma de realizar viagens.

domingo, 11 de dezembro de 2016

de Calisto ao contrário Pólo

A propósito da Nova Suévia (NeuSchwabenLand) a província inventada pelos nazis na Antárctida, (de que falei no blog odemaia, no contexto as expedições do Almirante Richard Byrd), convém notar que esse território se encontra praticamente ao sul de África.
Mais precisamente, encontra-se a 69º ou 70º de latitude sul, lembrando que o Cabo da Boa Esperança está a 35º S. Ou seja, a viagem para sul, de São Tomé ao Cabo da Boa Esperança, teria a mesma extensão de latitude, do que uma viagem desse cabo até às paragens antárcticas da Nova Suévia.
A questão remanescente é muito simples...
... teriam tido os navegadores portugueses a capacidade de fazer a viagem para sul, atingindo a Antárctida, no mesmo ponto onde os nazis desembarcaram em 1938-39?

Como não há registo, e o consenso será que não, "porque sim", inventando razões com o mar alto, o clima frígido, etc, vamos contextualizar.
Falamos de uma viagem de 35º para sul. Os espanhóis tiveram carreiras regulares entre as Filipinas e o México, ao longo do Pacífico, sem escalas, que correspondiam a 130º. Isto para não falar em Fernão de Magalhães, que terá ido do Sul do Chile até às Filipinas, numa distância muito maior, e também sem escalas (reconhecidas). Portanto estamos a falar de extensões 4 a 6 vezes superiores, em mar alto, sem escalas, e onde pelo menos no caso de Magalhães, não podemos dizer que não tivesse experimentado o frio antárctico.
Todas as dificuldades de orientação no imenso Pacífico parecem desaparecer para Fernão de Magalhães, como que por magia. E se no Oceano Atlântico ele parece obrigado a seguir a linha da costa argentina até ao Estreito de seu nome, depois a viagem (muitíssimo mais complicada) ao longo do Pacífico, não tem orientação costeira, mas parece ter sido um passeio no parque, que ninguém comenta. Ora o mais natural seria seguir na direcção da Nova Zelândia, que ficaria a 110º de diferença em longitude (com menor distância do que o grau equatorial), ou da Austrália, caso soubesse da sua existência, ou então na direcção da Nova Guiné. Seja como for, durante o Séc. XVI houve uma extensa terra a sul, chamada Terra Magallanica.

Porém, interessa-nos aqui apenas tornar evidente que nada tinha de "dificuldade assombrosa" atingir a costa Antárctica, quando se navegava pela Patagónia, ou pela Terra do Fogo, e depois se faziam grandes extensões no Pacífico, sem linha de costa, nem escalas.

Já sabemos que não é politicamente correcto citar Ramusio (1560) que, conforme já referimos dizia o seguinte (traduzindo):
... [o Rei de Portugal] não quer que saiba nem esta nem muitas outras coisas. E sobretudo, é proibido navegar para além do Cabo da Boa Esperança, em linha direita para o Pólo Antárctico, onde é opinião expressa de todos os pilotos portugueses que se vê um grandíssimo continente de terra firme, o qual corre nascente e poente, sobre o Pólo Antárctico. E dizem que doutra vez um excelente homem florentino, dito Amerigo Vespuccio, com certos barcos do dito Rei a encontrou e correu por um grande espaço, mas que depois foi proibido que algum aí possa andar.
Portanto, só restam dúvidas para quem as quer ter.
Conforme dizia Ramusio, os portugueses seguiram a linha da costa da Antárctida, e cartografaram-lhe o contorno. Depois, por causa das insanas proibições, começaram na confusão habitual de misturar o continente austral - Austrália, com o continente mesmo austral - Antárctida.
Vespúcio deu com a língua nos dentes, e falou demais, e em vez de ficar com fama ligada à Antárctida (o continente não cartografado pelos Antigos), ficou com fama ligada à América (que supostamente, também não era conhecida dos Antigos... pois!)

Agora, como o continente antárctico aparece à navegação com enormes paredes glaciares, com mais de 10 metros de altura, nalguns casos... a sua exploração interna foi sendo adiada, e os portugueses nem seriam os melhores para paragens geladas. Porém convém notar que até ao Séc. XVI a temperatura era mais alta, e não haveria provavelmente o mesmo contorno da costa, podendo haver até algumas partes "verdes" no continente antárctico.

Qual a razão da proibição?
Para os que não acreditam nas proibições, e acham que a história vendida, é uma História séria, teriam aqui mais um problema sério, em explicar «navegações proibidas», mas o assunto terá uma explicação simples... simplesmente a Antárctida (tal como a Austrália), teriam vistas, que não era bom serem vistas. Ou seja, vestígios claros de presença antiga naquelas paragens!
Pior, no caso da Antárctida, poderia haver mesmo pessoas congeladas, em excelente estado de preservação, tal como se poderá ainda hoje encontrar algum desgraçado explorador português congelado na Antárctida. Nesse sentido, todo o degelo, "todo o aquecimento global" aparece como muito incomodativo, porque nem sempre é fácil conter todo o pessoal desbocado, que veja alguma coisa que não devia ter visto.

Damos como exemplo, uma notícia que apareceu este ano (26 Julho 2016):
Ou seja, uma suposta equipa do Smithsonian teria descoberto três crânios enlongados na Antárctida.... mas com efeito a notícia apareceu mais vezes, havendo questões sobre a existência do investigador Damian Waters, que é mencionado no vídeo, podendo o vídeo ser uma simples fraude... ou não.

Voltando ao relato de Ramusio de 1560, lembramos que D. Sebastião ainda não tinha começado o seu reinado, e se há menino que poderia ter vontade de completar a exploração cartográfica (que Pedro Nunes tinha classificado como "nem sequer deixar de fora um rochedo, um ilhéu, ou baixio") seria "o desejado".
Como vimos sobre a Passarola o projecto de visitar "as regiões mais vizinhas dos Pólos", continuava bem presente no reinado de D. João V, pelo que é natural que D. Sebastião não tivesse conseguido a proeza, ou não conseguisse tê-lo feito saber às gerações posteriores.

Terminamos com uma referência ao décimo canto dos Lusíadas, onde se fala do pólo sul.
Camões coloca Tétis a revelar ao Gama o futuro passado, num presente ainda mais passado, dizendo:

» Vês a grande terra que, contínua, vai de Calisto ao seu contrário pólo?
» Que soberba fará a luzente mina, do metal, que a cor tem do louro Apolo?
» Castela vossa amiga, será digna de lançar-lhe o colar ao rude colo
» Várias províncias tem de várias gentes, em ritos e costumes diferentes

... que é como quem diz: - Vês a América, que continuamente vai do pólo norte ao pólo sul? - a soberba humana será acesa pela sua Mina, de ouro. Castela irá lançar-lhe uma coleira ao rude pescoço, aos vários povos, rituais e costumes diferentes.

» Mas que onde mais se alarga ali tereis parte também com pau vermelho nota
» De Santa Cruz o nome lhe poreis, descobri-la-á a primeira vossa frota 
» Ao longo desta costa que tereis, irá buscando a parte mais remota
» O Magalhães, no feito com verdade português, porém não na lealdade

... e Tétis continua: - Ficareis com Santa (ou Vera) Cruz, na parte onde a América mais se alarga, com o seu pau brasil, e ao longo desta vossa costa, vereis o Magalhães buscando a parte mais remota, um feito português, excepto na lealdade.

» Desde passar a via mais que meia, que ao Antartico pólo vai da linha
» Duma estatura quase Giganteia, homens verá de terra ali vizinha
» E mais adiante o estreito, que se arreia, com nome dele agora, o qual caminha
» Para outro mar e terra, que fica onde com suas frias asas o Austro a esconde


Passando mais de metade (45º) do caminho que do Equador vai ao Pólo Sul, verá os Patagões, quase gigantes, E mais abaixo, o Estreito de Magalhães, que leva a outro mar (Pacífico) e terra (Austrália? Antárctica?), que com frias asas o Austro (ou Austríaco) a esconde.

______________
Nota (12.12.2016) 
- Foi corrigido o texto (parte relativa à equipa ser do Smithsonian não é fiável).
- Uma planta feita pelos alemães, onde se vêem os postos nazis em NeuSchwabenLand (a direcção do pólo sul é para cima).
A planta nazi da "Nova Suévia" (território antárctico entre longitude 5ºW e 25ºE) (ampliar) 

- Outros links, fornecidos por Bate-n-avó, com material de interesse 
(nomeadamente sobre o livro "Dos Açores à Antárctida" de Rainer Dahenhardt):
- Links adicionais (por J. Manuel)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Restauração da Restauração

De um dicionário:
flipar: Perder a calma ou o juízo (ex.: o sujeito flipou).
... e é atribuído com origem inglesa de flip (virar, saltar).
Que os portugueses podem ter flipado com a viragem governativa que ocorreu em 1580 não será uma novidade, e temos uns certos Filipes relacionados com o assunto, começando com este:
Filipe II de Espanha, o primeiro dos três flips que nos fliparam.
Já falei abundantemente sobre a perda de independência, e não vou repetir o assunto.
Uma das marcas da anterior governação foi um ataque à Restauração... curiosamente em dois aspectos diferentes - o serviço de restauração teve imposto acrescido, e o feriado da Restauração foi cortado do calendário. Depois, de o novo governo restaurar o anterior imposto da restauração, finalmente foi hoje restaurado o feriado da Restauração. Já não era sem tempo!

Poderíamos supor que a palavra inglesa "flip" seria antiga, de raiz germânica, ou algo semelhante. Porém, não é bem assim... indo ao dicionário de etimologia inglesa, vemos que a origem desta "viragem" está apontada para 1590-1610, altura em que Filipe II reinava, e tinha forma mais antiga como "fillip" ou ainda como "fyllippe".
flip: (1590s) "to fillip, to toss with the thumb," imitative, or perhaps a thinned form of flap, or else a contraction of fillip (q.v.), which also is held to be imitative. Meaning "toss as though with the thumb" is from 1610s. Meaning "to flip a coin" (to decide something) is by 1879. (...)
fillip: (mid-15c.) philippen "to flip something with the fingers, snap the fingers," possibly of imitative origin. As a noun, from 1520s, fyllippe.
Um problema inglês com Filipe II, ainda antes da ameaça de invasão pelo ataque da Armada Invencível, tinha sido desde logo o casamento em 1554 com a rainha inglesa Maria Tudor, famosa como "Bloody Mary", pelo catolicismo fervoroso e perseguição aos protestantes ingleses.
Este casamento é ilustrado na moeda seguinte:
Moeda inglesa de 1 xelim de 1554, comemorando Filipe II casado com Maria Tudor, rainha inglesa.
Portanto, bastava virar a moeda para se entender que a Inglaterra poderia passar a ser incluída num dos vastos domínios que Filipe II, ou um sucessor de ambos, poderiam herdar. Em 1554 Filipe ainda não é Imperador, só será com a abdicação do pai, Carlos V, em 1556.
No entanto, quando Maria Tudor morre em 1558, sem filhos, a sucessão inglesa cairá em Isabel I, com quem Filipe II tentará ainda casar, mas sem sucesso, começando depois as hostilidades entre Inglaterra e Espanha. 

No espaço de 60 anos em que Portugal fica sob domínio Filipino, Lisboa nunca consegue tornar-se na capital do alargado império espanhol, como era pretensão da maioria da sua nobreza. O império espanhol é atacado de forma decisiva pela Guerra dos Trinta Anos. Quando atinge a sua máxima extensão é também quando entrará em rápido declínio. O casamento por interesse e sem interesse, das duas potências ibéricas, provocou um divórcio irremediável. Nunca mais foram completamente independentes, suplantadas pela crescente força francesa, inglesa, e até holandesa.
A Holanda que não existia formalmente em 1580, passou a ser uma ameaça em 1640 a todo o império português, procurando substituir-se aos portugueses em todas as colónias.
Mas o caso talvez mais significativo é o da Espanha, passados dois séculos. No Séc. XIX, quando as potências europeias partilham o mundo colonial, a anterior grande Espanha estava reduzida praticamente ao seu território europeu, após a libertação colonial de Bolivar e San Martin.

Após 17 anos da Guerra da Restauração, em 13 de Fevereiro de 1668, a Espanha finalmente abdica da tentativa de recuperar o território português. Terá sido a última vez que Portugal, com o Marquês de Marialva, teve um exército capaz de defender um estado independente.
Marquês de Marialva, D. António Luís de Meneses

A independência de Portugal será, depois de Afonso VI, e especialmente depois de D. João V, uma dependência da Inglaterra, e toda a conjuntura maçónica irá reduzir as potências ibéricas à sua impotência, perante o crescimento das novas potências, especialmente inglesa e francesa (e após Napoleão, a alemã).

Ter a visita de Filipe VI de Espanha na véspera da restauração do feriado da Restauração, não deixa de ser caricato, quando ambos os países reduziram a sua independência, a uma quase total dependência das políticas económicas da União Europeia.

domingo, 27 de novembro de 2016

Atapuerca, uma acta pouco limpa

Para o grandioso processo, da evolução humana, existe em Espanha, perto de Burgos, um local - Atapuerca - que poderá ser considerado como uma Acta de evolução humana, concatenando ossadas, quase continuamente, desde remotos tempos - anteriores a Neandertais, datados de ~ um milhão de anos, até à época medieval. 
Sierra de Atapuerca - escavações arqueológicas, onde foram encontradas as mais antigas ossadas europeias.
Foi neste local que se definiu uma nova espécie humana, denominado Homo Antecessor, considerado como ancestral do Homem de Neandertal, ou do Homo Heidelbergensis (até então considerado o mais antigo na Europa).

O aspecto menos limpo dos achados relativos a estes hominídeos primitivos, é que terão sido encontradas provas concludentes de que praticavam canibalismo, especialmente de crianças e jovens, e não seria algo relacionado com nenhuma "justificação" ou "necessidade"... simplesmente fazia parte da sua dieta alimentar:
Esta prática foi encontrada em mais do que um nível de ossadas, revelando que foi uma prática que perdurou durante esses tempos antigos.

Outros registos de canibalismo têm sido encontrados, relativamente a Neandertais, que mostram que houve famílias sujeitas a uma prática canibal. Algo que é habitualmente pouco mencionado, e que como é óbvio, também foi (e ainda é...) praticada pelo Homo Sapiens.
Neanderthals darkest secret - El Sidrón
(produção: Terra Mater Factual Studios)

Casos de canibalismo ocorrem entre primatas, nomeadamente orangotangos, bonobos, ou chimpanzés, eventualmente por disposição do corpo por morte, mas no caso de chimpanzés, é de notar que a maior parte da dieta alimentar consiste em macacos mais pequenos.
Portanto, não será de estranhar por completo, que primitivos hominídeos usassem a prática canibal.
Já mencionei isso, num outro postal "O Tonante (2)" (... dieta paleolítica), e não vejo como se possa excluir que a prática de domesticação animal, que depois se seguiu, não pudesse ter começado antes por uma "domesticação" interna à espécie, para fins alimentares.

Uma outra questão pré-histórica associada, será a de saber se, durante a Idade do Gelo, existiu alguma forma de escravatura instituída. Podendo ainda considerar-se que uma separação de descendência, entre escravos e não-escravos, poderia ainda ter levado à formação de subespécies ou raças aparentemente diferentes.
Os primeiros registos históricos conhecidos - por exemplo, sumérios, são registos que envolvem desde logo uma contabilização de escravos, pelo que a escravatura é muito anterior. Sendo admissível pensar que poderia ter sido uma sociedade agrícola, neolítica, a necessitar de produção baseada em escravos, o registo poderá ser bem mais antigo, e mergulhar em tradições do paleolítico.

No entanto, há aqui uma curiosidade factual.
Havendo vontade expressa de uma certa elite se destacar, cuidando que apenas fosse conservada na elite uma raça pura, ou apurada, caso fosse possível, em sinal contrário, às raças escravizadas, poderem continuar a cruzar-se entre si, então o resultado ao fim de algum tempo seria previsível.
Ou seja, a raça apurada tenderia a tornar-se infértil, e mais sujeita ao desaparecimento, do que as raças que continuavam a permitir cruzamentos indiscriminados.
Aliás, no momento em que essa raça purificada se viesse a extinguir, só restariam elementos das restantes raças, que permitiam uma maior diversidade de cruzamentos. Por exemplo, durante a Idade Média, quando as famílias reais tenderam a ser bastante elitistas nos cruzamentos, os problemas genéticos começaram a aparecer no sangue real, mostrando como a natureza não autorizava ser ultrapassada na selecção natural, por uma selecção humana, artificial.

Em conclusão, podemos considerar suspeita natural que aquilo que levou o Homo Sapiens a impor-se perante as diferentes subespécies de hominídeos terá sido uma capacidade reprodutiva muito alargada, entre subespécies muito diferentes, que terá determinado depois uma certa normalização.
E se no caso de muitos animais, uma antiga pequena mudança de aspecto terá determinado espécies completamente diferentes, isso não terá ocorrido da mesma forma no caso humano.

O que restou de tradições canibalistas, com origem pré-histórica, foi ficando reduzido a pequenas tribos isoladas, e cada vez mais isoladas, ao ponto de serem ignoradas. Não é até de excluir que algumas exigências alimentares religiosas - proibição de alimentação com carne de porco, pudessem ter origem num repúdio longínquo de qualquer cheiro que pudesse lembrar práticas de antropofagia.
Atapuerca poderá ter assim enterrado, um dos últimos processos menos limpos da evolução humana, quando a dieta alimentar não estava minimamente ligada a nenhuma dieta moral.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

dos Comentários (25) - conspiração veneziana?

Surge este texto a propósito do comentário de MBP a um outro comentário de Maria da Fonte, que coloquei nesse postal, e que de certa forma falava de uma possível "conspiração" financeira veneziana, que poderia estar ainda na origem da maçonaria internacional.

Em particular, MBP destacou um vídeo:
«Gostaria também de partilhar as fontes que recentemente tenho usado para analisar o enquadramento deste período (mas não só) que se resumem ao trabalho realizado pela fundação La Rouche. Deste enorme trabalho destaco para já este vídeo do historiador Webster Tarpley, e que teve ressonância na minha pessoa pelo facto de colocar a Epistemologia como alvo prioritário do "ataque" à verdade, coisa que o Jung também defendia mas de outra forma.» 
"The Venetian Conspiracy" by Webster Tarpley

Como não é muito habitual ver um trabalho de fundo sobre os bastidores, do que é publicitado e divulgado como verdades inquestionáveis, questionando o trabalho científico de dois "monstros consagrados da ciência", como foram Galileu e Newton, é especialmente interessante ver Webster Tarpley reduzir estas duas figuras a papéis menores, de simples agentes a soldo dos conspiradores venezianos. Mais notável, dá nomes, segue os registos, e aponta culpados para essa conspiração veneziana que transferir o poder para o Império Britânico, então em processo de formação, com a rainha Isabel I. 
Desses vários nomes apontados, destacam-se especialmente dois - Paolo Sarpi (1552-1623), e depois Antonio Conti (1677-1749). 
Quanto a Sarpi está documentado que foi patrono de Galileu, e quanto a Conti terá defendido Newton na disputa que houve com Leibniz, mais tarde, sobre a invenção do cálculo diferencial e integral.
Mas Tarpley não fica por aqui, diz algumas coisas que eu já sabia e outras que foram novidade. Vou enumerar alguns casos, que são suficientemente elucidativos, como se não soubéssemos já de tantos outros (... que vão das máquinas a vapor, às baterias eléctricas, presentes desde a Antiguidade). 

Galileu e o Telescópio
Por exemplo, começando com Galileu, Tarpley questiona a "sua" invenção do telescópio, algo que já é aceite, pois sabe-se da existência de telescópios na Holanda em 1608, em pelo menos três casos (um Hans Lippershey, outro Zacharias Janssen, fabricantes de óculos em Middelburg, e ainda de Jacob Metius of Alkmaar). No entanto, para preservar o mito diz-se que Galileu melhorou os aparelhos holandeses, com o propósito original de observar os planetas.
No entanto, Tarpley aponta Leonardo da Vinci como já tendo usado um telescópio para estudar planetas, como aliás podemos ler aqui:
Isaac Newton developed the design for his reflecting telescope in 1668. Newton's idea of building telescopes using mirrors instead of lenses was not new. The magnifying effect of concave mirrors had been put to practical use as reading aids by medieval monks centuries before (c. 1300). Leonardo da Vinci had used concave mirrors to study the planets more than a century earlier (1513). 
A referência é a Newton e não a Galileu, porque se fala do telescópio reflector, que é normalmente creditado a Newton, 60 anos mais tarde, mas que é aqui atribuído a Leonardo da Vinci, um século antes de Galileu, e 155 anos antes de Newton.
Acreditar que Leonardo da Vinci era um génio, é uma simplificação do problema... tal como Leonardo se "inspirou" em tantas coisas de Vitrúvio, é bem natural que estivesse apenas a transcrever outros tantos trabalhos "perdidos" no incêndio da Biblioteca de Alexandria. 

Não é fácil entender como foi possível a humanidade ter ficado presa durante mais de mil anos, com conhecimento encerrado em "livros proibidos", mas esta particularidade foi ilustrada por Umberto Eco no romance/filme denominado "Nome da Rosa".
Com efeito, como diz MBP, não é difícil concluir que o problema é essencialmente filosófico (ou epistemológico), como tinha dado conta o Padre Agostinho de Macedo, ao criticar a maçonaria (ver os textos "de natura deorum", que escrevi no Odemaia).
Tendo esse antecedente, depois as "descobertas", ou melhor "redescobertas", foram convenientemente creditadas a alguns "génios", que pouco mais foram do que serviçais úteis, para tentar libertar o conhecimento guardado pelo Vaticano, durante milénios.

Não haverá muitas dúvidas que, dada a qualidade da produção vidreira romana, seria muito estranho que os Romanos não tivessem telescópios de grande qualidade. Ou, como diria Lewis Carroll, de forma enigmática, na sua Alice no País das Maravilhas: 
«I must be shutting up like a telescope.»
(Devo-me estar a calar/fechar como um telescópio.)
... e foi isso que se terá feito, toda a gente se calou, como se calaram os telescópios durante milénios.

A gravidade do problema
Tarpley é especialmente incisivo na crítica a Newton, sendo sabido e reconhecido que o seu interesse especial era pela Alquimia - o que leva Tarpley a classifícá-lo como herdeiro da Magia Negra dos antigos magos da Caldeia ou Babilónia. 
Tal como Copérnico e Galileu, ao defender o heliocentrismo, não estavam a dizer nada que não tivesse sido dito por Aristarco de Samos, quase dois milénios antes, e que Pedro Nunes terá classificado de "irrelevante" para a Geografia (conforme é); também a Newton a única maçã que lhe terá caído na cabeça terá sido uma maçã dada por maçãos. Que Kepler tinha enunciado as leis do movimento planetário, e a diferença é pequena, não há grande dúvida... mas se Kepler se socorreu das observações cuidadas de Tycho Brahe, essas observações seriam disponíveis desde a Antiguidade, pelo mesmo desde o tempo dos Caldeus.
As considerações sobre a queda dos graves, começadas por Galileu, eram especialmente graves porque a gravidade era ter o assunto arrumado e esquecido, ainda que muito antes Duarte Pacheco Pereira faça considerações similares a Galileu.

Integrar e diferenciar
Outra polémica a que Tarpley dá destaque é a da disputa de Newton com Leibniz, que terá sido Antonio Conti a resolver favoravelmente a Newton.
Convém lembrar a este propósito que o cálculo matemático ficou durante dois milénios preso a construções com régua e compasso... ainda que outras abordagens tivessem sido propostas, nomeadamente por Arquimedes, ou pelo seu antecessor Eudoxo. Se essa linha tivesse sido seguida então pelos gregos, todo o cálculo redescoberto por Descartes, Leibniz e Newton, pertenceria à Antiguidade. 
No entanto, para diferenciar a malta, foram colocados problemas "milenares", como a famosa "quadratura do círculo", cujo interesse era muito mais causar uma dificuldade excessiva, com interesse limitado. Esse problema só foi resolvido no Séc. XIX, e estou convencido que demorou mesmo muito tempo a ser resolvido... Não sei se foram problemas resolvidos pelos próprios a que são creditados, ou foram resolvidos algum tempo antes por outros anónimos, caídos convenientemente no esquecimento.  
A resolução desses problemas milenares corresponde ainda a um desenvolvimento ímpar da tecnologia a nível mundial. Subitamente, o que estava escondido apareceu, umas coisas atrás das outras, sendo particularmente notável as décadas de transição antes e após 1900. A paragem desse desenvolvimento terá ocorrido com a 1ª Guerra Mundial, e especialmente com a 2ª Guerra Mundial, dado que a Alemanha não respeitou a paragem, e continuou a libertar o "génio" da garrafa, contrariando outras ordens... integrando não apenas o génio, mas também se diferenciando pelo mau génio!
Portanto, também me parece que, no máximo, Leibniz estaria a repisar descobertas antigas, mesmo que não o soubesse. Ou seja, se Tarpley salienta a fraude de Newton, não me parece que Leibniz esteja isento de suspeição similar. Convém ainda notar que há conclusões que Pedro Nunes apresenta, e que muito dificilmente seriam deduzíveis sem conhecimento do tal cálculo, que só seria descoberto no século seguinte.

A conexão Veneziana
A relação deste assunto com uma conexão veneziana, que eu saiba, é mérito de Tarpley, dado que estabeleceu até quais os personagens venezianos que serviram de promotores, nomeadamente de promotores da ascendência do Império britânico. Por outro lado, também pelo lado de Veneza temos todo um historial da banca, ligado a acontecimentos chave, que a Maria da Fonte relatou. Portanto, essa conexão poderá estabelecer-se.

Mas podemos ir um pouco mais longe, notando que a região do Veneto, era anteriormente conhecida como Gália Cisalpina, onde Celtas se impuseram a Etruscos. E esta ligação aos Venetos, é tanto mais particular, já que os Venetos habitavam ainda a região da Normandia, e segundo Júlio César, eram hábeis navegadores (ver Conan-o-bretão). Não é ainda de excluir que estes mesmos Venetos não fossem mais que uma remniscência fenícia, resultado de navegações ao longo da costa atlântica e mediterrânica.
Essa é a parte mais antiga, de conexão mais dúbia, mas já é mais claro que no decurso das invasões bárbaras, e a pretensa queda de Roma, uma variante do poder cortesão romano tivesse feito de Veneza um ponto estratégico para combater uma Roma que seria o centro de um obscurantismo cristão. As frequentes disputas internas em Itália pelo controlo papal, entre Génova e Veneza, foram outro desses aspectos.

No entanto, nesta conexão não há propriamente uma ligação que se prenda à região de Veneza. Ou seja, não se exporta facilmente um controlo com base numa cidade estrangeira. Por isso, se outros reinos acabaram por adoptar essa influência veneziana, não foi por comungarem de ideias para uma pátria em Veneza. O que se parece encontrar é um ponto comum de filosofia/região, que usou Veneza como posto de influência, mas terá origem noutro lugar.

Aditamento (18/11/2016):
Coloco nos comentários um texto integral de Webster Tarpley, que aborda os mesmos assuntos, e cujo PDF pode ser lido aqui: Schiller Institute (Archive, 1995).

terça-feira, 1 de novembro de 2016

dos Comentários (24) - abalos

Na História Universal dos Terramotos de Joaquim José Moreira de Mendonça... obra de 1758, cujo título completo é:

História Universal dos Terramotos que tem havido no mundo, de que há notícia, desde a sua Criação até ao Século Presente: com uma narração individual do Terramoto do 1º de Novembro de 1755, e notícia verdadeira dos seus efeitos em Lisboa, todo Portugal, Algarves, e mais partes de Europa, África, e América, aonde se estendeu: e uma dissertação física sobre as causas gerais dos terramotos, seus efeitos, diferenças e prognósticos, e as particularidades do último.

Mendonça, para além de descrever parte do que se tinha passado em 1755, vai buscar uma extensa lista de ocorrências. Se não estava já compilado, o trabalho seria enorme, mesmo para os 2 ou 3 anos que demorou a escrever a obra, após o sismo de 1755.

Ora, já falámos abundantemente do golpe maçónico, engendrado pelo Marquês de Pombal, na ocasião do sismo, dos fogos que consumiam a cidade, perante uma inoperância total, e presumida propositada, bem como das notícias de um maremoto, que verdadeiramente teria ocorrido no grande sismo de 1531, altura em que se construiu o Bairro Alto. O mesmo sismo de de 26 de Janeiro de 1531 que terá servido descrições falseadas de 1755, ao ponto de se ter ocultado da memória o registo de 1531 até reaparecer em documentação trazida a lume na revolução republicana. Trazida a lume... é a expressão quase certa, porque da mesma forma que foi trazida, voltou a ser "queimada", e ainda hoje o sismo de 1531 é ensombrado pelas descrições convenientes transportadas para o de 1755. 
Porque, só tolos, académicos crédulos, ou coniventes, podem recusar que o Bairro Alto tinha já o famoso planeamento em quadrícula, e que o natural em caso de maremoto seria a população habitar um "bairro alto", e não insistir em habitar a "baixa pombalina".   

A propósito dos sismos em Itália, que depois de Áquila voltaram a ocorrer em Amatrice, e agora de novo, Olinda sinalizou-nos então por email, a notícia de um sismo em 382 d.C. que teria submergido algumas ilhas ao largo do Cabo de S. Vicente.

Mendonça refere esse sismo da seguinte forma (página 26):
382 d.C.  Neste ano houve um Terramoto por quase toda a orbe, no qual padeceram muito as terras marítimas de Portugal,. Subverteram-se ilhas, de que ainda ao presente aparecem algumas eminências defronte do Cabo de S. Vicente. Laymundo (Livro 6), segundo Bernardo de Brito, se conforma muito com o que refere Eutropio. Talvez, que fosse nesta ocasião que desapareceu a Ilha Eritreia que esteve na Costa da Lusitânia, segundo Pompónio Mela (Livro 3) e outros.
... e no blogue Montalvo e as Ciências do Nosso Tempo, podemos ler um extracto de um livro de Luis Mendes Victor, sob o título "Sismologia e a dinâmica planetária", que acrescenta:
A existência de ilhas ao largo de S. Vicente é assinalada por Estrabão nos seguintes termos: o litoral adjacente ao promontório sagrado (Cabo de S. Vicente) forma o começo do lado ocidental da Ibéria até à boca do Tejo e o começo do lado meridional até à foz de outro rio chamado Anas (Guadiana)... Este cabo (promontório Sagrado) marca o extremo ocidente não só da Europa, mas de toda a terra habitada... Artimidoro, que diz ter estado naquele sítio, compara-o na forma de um navio; segundo ele, o que ainda mais faz lembrar um navio é a proximidade das três ilhotas de tal modo colocadas, que uma figura o esporão, e as outras duas com o duplo porto assaz considerável que formam, figuram epótides do navio. São estas as ilhas que, segundo Eutrópio, desapareceram em consequência do sismo e maremoto. No que se refere à ilha Eritreia que frei Bernardo Brito conjectura que tenha desaparecido por ocasião deste terramoto, não pode ser localizada com precisão, pois parece ter havido mais do que uma com o mesmo nome. (Moreira, 1991)
Como referi então, a coisa que mais se aproxima com possíveis ilhas próximo do Cabo de S. Vicente será o Banco de Gorringe (mapa de detalhe)... sendo que há outros bancos que meteram água em negócios submersos, dada tendência a afundar as poupanças dos contribuintes.  
Banco de Gorringe, imagem com uma raia eléctrica.
Como curiosidade adicional, Mendonça refere igualmente um grande sismo em 33 d.C, dizendo o seguinte:
33 d.C. O Terramoto sucedido na morte de Cristo, foi o maior, que tem experimentado o Mundo. Foi sentido em todo o Globo terráqueo. Ainda que Orósio, seguindo Plínio (Livro 2, cap. 84) pretende que fosse neste a destruição referida das cidades de Ásia, Tácito e Dion põem aquela fatalidade no consulado de Celio Rufo, e Pompónio Flaco, que foi no ano 20 d.C., segundo Eusébio no seu Chronicon. Neste violentíssimo terramoto, diz Santo Agostinho, que foram subvertidas onze cidades na Trácia. Também dizem que se abriram o monte Alvernia na Toscana, e o promontório de Gaeta em Nápoles. É muito provável que no mesmo terramoto se precipitou no mar uma parte da cidade de Tyndarida. Desta fatalidade escreve Plínio, atribuindo-a só às águas, que tinham cavado o monte em que estava fundada. Laymundo diz que foi muito formidável em Portugal, porque se mostravam rochas abertas desde aquele tempo. 
Como não me ocupei dos diversos relatos, e apenas fiz referência a alguns terramotos listados após a fundação da nacionalidade, junto agora os outros terramotos listados por Mendonça, e que afectaram território nacional.

Começa o relato de um sismo que teria dado origem ao mito grego do Dilúvio de Ogiges, e do Deucalião, e que teria ocorrido em 1815 a.C. Sobre Espanha começa por dar conta da grande seca, ocorrida cerca de 1030 a.C, e que poderia ter durado 26 anos, afectando menos a zona da Galiza, Astúrias e Cantábria. Adiciona que em 880 a.C. teria ocorrido um grande incêndio dos Pirinéus, tendo chegado ao ponto de fundir metais. Mas o primeiro registo que dá em Espanha é de um terramoto ocorrido cerca de 500 a.C. que abrira rochas e descobrira metais, e antes disso tem o cuidado de dizer (pág. 8):
Das Berlengas, ilhas e rochedos, fronteiros à Costa de Portugal, há tradição que foram Terra Firme deste Reino. Algum dos antigos Terramotos fez baixar a terra na parte, que cobriu o mar, como sucedeu noutras regiões do mundo. É muito provável que estas Ilhas e as chamadas Strinia, e Ophiusa, que ainda existiam defronte do Cabo de Espichel, quando Hamilcon veio a Espanha, e depois se submergiram, foram as famosas Ilhas Fortunadaas, e a dos Deuses, que celebraram tanto os Antigos, entre as quais foi muito conhecida a Erithia, Ao erudito Marinho pareceu, que todas estas ilhas foram antes Costas de Portugal, e que separadas por algum terramoto foram depois de muito séculos de existência, ilhas submergidas por outro. O que parece sem dúvida é que o Continente de Portugal era muito extenso para a parte do Ocidente. O promontório chamado dos geógrafos antigos de Magnum é hoje pouco metido ao mar, para merecer por antonomasia, o nome de grande. Devemos supor com Marinho que o mar roubou dele muita terra. 
Se as ilhas Strinia e Ofiúsa eram vistas ao tempo de Hamilcon, será talvez nos registos dos terramotos de 245 a.C. e de 216 a.C., que afligiram a Espanha, ou ainda no grande terramoto em 60 a.C, que se poderá ter alterado a situação, dizendo a este propósito "o mar excedendo os seus ordinários limites cobriu muitas terras (...) a gente se retirou a habitar campos e montanhas". Não era ainda tempo do Marquês que conseguia convencer o pessoal a habitar a Baixa, apesar do grande maremoto...
Ainda que tenhamos que dar o devido desconto a estes relatos mais antigos, normalmente há aqui muita névoa da época, que teria também uma alguma sinalização de faroleiro.
Numa parte parece claro que Mendonça estava certo - "sem dúvida é que o Continente de Portugal era muito extenso para a parte do Ocidente", e diríamos mais, entre 30 a 60 Km ou mais para ocidente.

A razão não terão sido os terramotos, como abundantemente Mendonça refere, mas hoje já se começa a aceitar, pelas "conversas do clima", que durante a Idade do Gelo, a extensão territorial era muito maior, em particular fazendo entrar a Costa ocidental europeia no Oceano Atântico.

Foi ficando sempre na população alguns mitos de ilhas perdidas no tempo, submergidas por fenómenos naturais, desde a submersa Atlântida até à perdida Avalon, ou ainda as Hespéridas, dos pomos de ouro, confundidas talvez com as Caraíbas.
Curiosamente em português, usa-se a expressão "abalar" com o significado duplo de estremecer, ou de partir.
Como ainda não mencionei muito Avalon, cito a wikipedia sobre a etimologia do nome:
All are etymologically related to the Gaulish root *aballo- (as found in the place name Aballo/Aballone, now Avallon in Burgundy or in the Italian surname Avallone) and are derived from a Common Celtic *abal- "apple", which is related at the Proto-Indo-European level to English apple ...
Portanto, poderá haver uma raiz do nome Avalon que se relaciona com "maçãs", o que tendo em atenção que as ocidentais Hespérides tinham o moto das "maçãs de ouro", também entendidas como "laranjas", não deixa de ser curioso.
Seja por causa de um "abalo" sísmico que motivou um "abalar" para outras paragens, seja porque as maçãs caíam por abalar ou abanar a árvore, há uma diferença significativa entre maçãs que abalam, e pêros ou pêras que esperam... porque pêras, adequam-se mais às Hesperas, às Esperas, moto de D. Manuel, que juntou à Esfera, enquanto SPERA, na esfera armilar. E a seu tempo acabou a Spera e foi feita a Sphera na circum-navegação por Magalhães. As Hespérides puderam então ser associadas às ilhas ocidentais paradisíacas das Caraíbas, e tudo parecia correr bem, se não houvessem sempre novas Hesperas e Esperas a cumprir. As maçãs ligam ainda ao deus celta Abellio, identificado ao grego Apolo, afinal o deus solar, quando os pomos eram de ouro. Apolo que se ligava ao culto da Pítia, pela morte da famosa serpente. Fica assim o encobrimento, o cobre da cobra, dos cobres que cobram, e o abalo das maçãs.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Mitologia e Mintologia

Ao contrário do que se poderá pensar, a História não deve ter como primeiro intuito saber a verdade do passado, deve sim recusar a mentira que seja plasmada em qualquer contradição ou absurdo.

Pode parecer a mesma coisa, mas não é.
O exemplo mais gritante é a versão oficial da descoberta da Austrália, onde nem é preciso falar dos portugueses... Simplesmente é escrito que os holandeses declararam a descoberta da metade ocidental da ilha, levando então o nome de Nova Holanda, e esteve assim, em banho-maria, durante mais de 100 anos, até Cook ter cozinhado a descoberta da metade restante.
Se houvesse uma justificação minimamente credível para esse desinteresse, por exemplo, uma proibição de navegações, etc... poderia fazer algum sentido. Mas não, somos simplesmente levados a aceitar que os Holandeses nunca se interessaram pela parte australiana oriental... porque sim!
Importa para isso a falta de documentação, de provas, de achados, etc... e mostra como esse processo histórico, é um processo exclusivamente burocrático. Ora, foi isso que a Academia instituiu - uma história feita pela burocracia, que obviamente nada tem a ver com o que entendemos como História.

Esta História que é ensinada aos petizes está assim cheia de contradições, absurdos, inconsistências, mas passa por reflectir uma realidade passada, que é apenas uma ficção burocrática conveniente, porque é essa a documentação disponibilizada.
Desde o início que pensámos em explicações alternativas, tendo em atenção o reequilíbrio de poderes na Europa Ocidental, com a derrota ibérica na Guerra dos Trinta Anos, o que levou a um reescrever da história. O mais natural é que os territórios por declarar estivessem por definir entre os novos competidores "autorizados" - especialmente França e Inglaterra. Com a futura prevalência inglesa, pela vitória na Guerra dos Sete Anos, e a derrota final de Napoleão, no Séc. XIX foi instituída essa versão oficial, que dava aos ingleses o mérito oficial de descobrirem o que faltava declarar no Oceano Pacífico - não só a Austrália e Nova Zelândia, mas também toda a Costa Ocidental Americana, acima da Califórnia.
Sim, o ridículo e absurdo foi tão grande, que ao contrário dos mapas do Séc. XVI, os mapas dos dois séculos seguintes chegaram a apresentar a Califórnia como ilha. Mesmo sendo oficialmente desconhecida, a California manteve os nomes hispânicos, de Los Angeles a San Francisco.

Repare-se que não estamos a falar de navegações complicadas - essas eram feitas inúmeras vezes todos anos, das Filipinas ao México, cruzando o enorme Pacífico, em carreiras regulares, pelo menos desde 1550... e isso está bem documentado.
Estamos a falar do simples reconhecimento costeiro, acima da Califórnia (inclusive), que impediu um desenho fidedigno da América, durante os 200 anos seguintes. Não precisaria de barcos... poderia fazer-se caminhando a pé, pela costa, num percurso que demoraria menos de um ano. Certamente que foi feito, mas sobre isso não existe qualquer documentação...

A ausência de documentação não é um problema do passado, é ainda um problema do presente, porque só a teimosia imbecil de não querer reconhecer o óbvio, insiste em inventar histórias para ocultar uma História verosímil.

E o que é uma História verosímil?
Ora, o único caminho para a verdade é a recusa da mentira, porque ao recusar todas as contradições, todas as mentiras, o que resta é inevitavelmente aquilo que poderemos dar como verdadeiro, até melhor hipótese. Certamente que o caminho não é dar como fidedignas documentações parciais, que fazem uma história da carochinha conveniente aos poderes instalados.
Não haveria nenhum problema com isso... se não fossem inconsistentes entre si, ou absurdas para o bom senso. Não o são tanto, quando os historiadores se centram em pequenos aspectos históricos, e normalmente ignoram, ou fazem por ignorar o contexto global.

Talvez porque os nossos antepassados tenham visto tantas vezes a História ser trucidada pelas historietas convenientes aos "vencedores", prefiram usar a Mitologia, onde a história é assumida como parcialmente ou totalmente inventada. É melhor isso do que a Mintologia, em que a mentira impera no registo histórico, fazendo-se passar por verdade.

Aliás, a diferença entre "História" e "história", é apenas ilusão académica de que ao escrever História com "H" maiúsculo, ganha maior dignidade... mesmo sendo ausente de uma credibilidade, que perdeu.
- História tornou-se num simples "Isto, ria"!
Porém, não há distinção na língua portuguesa entre histórias.
Verdadeiras, ou inventadas, todas são  "histórias", e essa é uma opção correcta.
É opção correcta, e a credibilidade da história mede-se sempre pela sua consistência.
Numa mera novela, um personagem órfão pode aparecer nos últimos episódios acompanhado dos pais... sem necessidade de justificação.
Tudo depende do critério do espectador, se é exigente ou não!
Só que a História tem um propósito auxiliar, que é servir de orientação para o futuro.
Se aceitarmos contradições e arbitrariedades na descrição do passado, mais facilmente seremos confrontado com as mesmas contradições e arbitrariedades no futuro.

Conforme vimos, as revoluções usaram apoio popular, mas não tiveram génese popular... foram na maior partes das vezes "uma encenação de mudança para manter tudo na mesma". Além disso, devido à falta de conhecimento histórico consistente, os mesmos erros são repetidos, vezes sem conta. E não será "primeiro como tragédia e depois como farsa", como terá dito Marx, quase sempre é como tragédia, ainda que nos bastidores se encene a enorme farsa.
É a falta de conhecimento e compreensão do processo histórico que permite alimentar revoltas, vinganças, e todo o tipo de animosidades, que vão mantendo a população entretida, entre ficção e realidade.
Cada indivíduo preocupa-se mais com o número de chicotadas que leva, relativamente aos vizinhos, e assim estão longe de questionar tão pouco a escravatura a que todos estão sujeitos.

Por exemplo, em 1930, no meio de uma recessão enorme, em que a economia parecia definhar, Keynes, que fez bastantes previsões correctas, fez uma previsão completamente incorrecta:


Keynes, em 1930 previu
15 horas como semana laboral do final do Séc. XX 

No entanto, quando até o MRPP, esse partido de perigosos revolucionários, pede em outdoors a passagem da semana de 40 horas para a semana de 35 horas (e muitos acham isso irresponsável), vemos como os escravos se habituaram às chicotadas e sentem falta dessa dedicação que os capatazes colocam nas suas costas.
A previsão de Keynes estava absolutamente correcta, tendo em atenção a conquista das 40 horas semanais, ainda no Séc. XIX, nos EUA.
Depois tudo foi regressão... ou talvez como veio a dizer:
- Capitalism is the astounding belief that the most wickedest of men will do the most wickedest of things for the greatest good of everyone

De facto, num desregrado sistema capitalista, é natural que vençam os mais perversos, fazendo as coisas mais perversas, e não será certamente para benefício da humanidade, mas exclusivamente para benefício local, próprio. Mas não é só isso...
O artigo do The Guardian culpa os workhaolics... ou seja, as pessoas preferem receber mais, trabalhando mais, do que usufruir do descanso. Esse é um lado da questão, mas a principal razão parece-me ser outra - o problema principal é que os capatazes não controlariam tão bem os escravos, dando-lhes descanso. 
Porque o objectivo do escravo não é partir pedra, é estar ocupado a partir pedra... para nem sequer ter tempo para pensar em revoltar-se da sua condição. E como os capatazes não querem que a pedreira seja uma colónia de férias, de trabalho leve, nem saberiam como controlar tanto escravo, sem os pôr a trabalhar, reduzem-se à sua ignorância, e insistem na única receita que conhecem... a do chicote, que funciona, e onde são bons. Basta eleger o melhor escravo pedreiro, colocar o seu nome em parangonas na pedreira, todos os outros vão invejar aquele modelo de escravo, que poderá até ser um dia capataz.
Tudo o que há a fazer é culpar os escravos preguiçosos, da falta de produção, mesmo que num terreno em anexo, longe dos olhares, a produção de pedra acumule em pirâmide... porque a produção é simplesmente dez ou vinte vezes maior que as necessidades.
E não interessa aqui saber se na pedreira, os capatazes são pedreiros livres, e os outros são escravos, porque todos acabam por ser escravos do sistema tradicional que conhecem. O que interessa mesmo aos senhores são as gemas preciosas, e por ignorância, nem capatazes, nem escravos, percebem quais elas são. Todos estão entretidos demasiadamente entre si. Os escravos não concebem um mundo sem a pedreira e as chicotadas, e o máximo que ambicionam é ter umas costas menos carregadas que os outros. Outros querem ser capatazes, e é o mais longe que conseguem ver, porque nem tão pouco puseram os olhos nos senhores, que mantêm todo o sistema. Para esses desconhecidos, é indiferente se os escravos se revoltarem e depuserem os capatazes... a única coisa que interessa é manterem-se na sombra, para não serem alvo de represálias, mesmo que sejam forçados a mudar os capatazes. 
Só que todo este sistema, que agrada ao escravo feliz, ao perverso capataz, e aos instalados senhores, baseia-se numa ilusão de realidade, reduzida à pedreira... e o mundo é muito mais que uma simples pedreira, na posse de uma meia dúzia de senhores, cheia de escravos dominados por uns tantos capatazes.
E o problema das ilusões é que são muito engraçadas, até que um dia a realidade bate à porta... e se nada aparenta prever que nada vá mudar, há umas pequenas coisas que indiciam que não será bem assim. Porque... o universo é como é, e para ser como é, precisa de ser consistente, e isso não se compadece com ilusões perenes. A pequena grande diferença é que há agora quem saiba disto... e por consequência, o universo sabe disto.


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Estado da Arte (11) - Antelas, e antes elas que o meu

Para entendermos melhor a diferença entre o que se passa do lado de cá da fronteira (onde são raros os vestígios rupestres), e o que se passa do lado espanhol (onde abundam), basta atender ao que se passou em Ribeiro das Casas.

Resumindo a história (que se encontra descrita num artigo de M. V. Gomes e N. Neto de 2010)... em 2002 foi reportada a seguinte pintura rupestre, do que aparentava ser um cavalo em corrida:

Poucos anos depois, a pintura foi destruída, conforme explicado pelos autores:
A destruição da pintura zoomórfica que referimos, ocorrida em 2009, dada a completa indiferença demonstrada perante o seu achado, tanto pelos órgãos de poder local como pela tutela do património, deu então lugar a diversas notícias na imprensa regional e nacional, tendo mesmo chegado aos jornais televisivos, onde ingloriamente se atribuiu significativa importância àquele testemunho arqueológico, apesar de sem quase se dizer porquê, ou só porque teria cerca de 5.000 anos.
(...)
Muito próximo dos painéis com pinturas existe exploração de pedra, que tem aberto extensas crateras no terreno e em muito alterado a paisagem, conferindo-lhe aspecto desértico.
Segundo se julga, foi no intuito de não prejudicar aquela actividade económica que a principal imagem pintada ali existente foi irremediavelmente destruída, sendo primeiro esfregada, com gasóleo (?), e depois bujardada.
Portanto, para além de outras razões, menos claras, há o simples interesse económico de particulares, que vêm nestes achados milenares um possível empecilho para a sua negociata desregrada.
Se for para desaparecer "antes elas que o meu..." é a lógica que tem prevalecido no espaço nacional, com toda a complacência e desinteresse, dir-se-ia mais que suspeito, dos poderes, locais e centrais.

Dado que neste país o poder judicial condena mais facilmente quem acusa eminências pardas, do que quem destrói património histórico, a situação aconselha que quem descobrir alguma coisa faz melhor em guardar a descoberta para si... ou especialmente, a não revelar o local onde encontrou, sob pena de alguns anos depois nada restar... seja pelo método de esfregar com gasóleo e bujardar, seja por outro método qualquer.

O referido artigo ainda revela outras inscrições, não apenas as de Ribeiro das Casas, mas também alguns petróglifos da zona do Vale do Tejo. Para esse efeito, ver por exemplo o site:
Petroglifo circular no topo da rocha, em São Simão - Vale do Tejo.
Melhor sorte parece ter tido Anta Pintada de Antelas (indicada em comentário do José Manuel), cuja inscrição rupestre terá aguentado milénios sem nenhuma ordem destruidora, e apresenta até um bom estado de conservação
Anta pintada de Antelas - pintura rupestre num dolmen em Portugal.
Neste caso de Antelas, e ao contrário de Ribeiro das Casas, voltamos a ver os motivos geométricos, e não a representação de figuras animais. Nestes casos é ainda mais difícil uma possível interpretação do significado, ainda que não seja de excluir de novo a hipótese de poder ser um mapa local.

Igualmente significativo, e também pouco conhecido, é o caso da Lapa dos Louções, que tal como a Lapa dos Gaivões está situada em Arronches:
Lapa dos Louções em Arronches
Há uma pequena catalogação de diversos locais com pinturas rupestres, num total de 65, a maioria dos quais descobertos nos últimos 20 anos (ver publicação de Andrea Martins), o que mostra que apesar de todas as bujardas e gasóleo, não são assim tão escassos os vestígios que se conseguiram encontrar.

No final de contas, dada a má vontade dos poderes centrais, e de alguns poderes locais, o que será talvez mais notável é que ainda existam pinturas rupestres e petróglifos para serem vistos...
Talvez com a moda do interesse turístico, e dada a pobreza nacional comparada com Espanha, se vislumbre futuro numa negociata mais virada para a preservação das pinturas do que para a sua destruição corriqueira.


domingo, 2 de outubro de 2016

Estado da Arte (10) - pintas nacionais

Há uma questão relativa aos Neandertais que é razoavelmente estranha - não se encontrarem ossadas suas em paragens africanas. A questão é tanto mais estranha, porque como o nível da água estaria uns 200 metros mais baixo, permitiria uma passagem facilitada do Estreito de Gibraltar, podendo mesmo supor-se que a passagem pode ter chegado a estar fechada. 
No entanto, apesar de Gibraltar ter sido um dos primeiros locais onde se encontraram Neandertais, falando-se mesmo em "Neandertais de Gibraltar", é curioso que não tivessem dado um pequeno salto que os levaria ao Norte de África.
Convém recordar que nessa altura da Idade do Gelo, é considerado que a região do Saara seria bastante fértil, e com comida abundante, ou seja, muito diferente do deserto que se tornaria depois.

Uma hipótese possível é que os Neandertais não fossem adeptos de aventuras aquáticas... algo que acontece com todos os grandes primatas, excepto os humanos, ou melhor, os Sapiens. 
Como o Estreito de Gibraltar tem uma profundidade que varia entre 200 e 400 metros, poderia estar no limite de passagem, e bastaria sofrer algumas oscilações para permitir ou vedar a ligação. Se os Neandertais não se aventurassem em expedições aquáticas, isso seria justificação suficiente, mesmo que a margem oposta fosse bem visível.

Mas queria juntar aqui algumas pinturas rupestres que se encontram em Portugal, e que fazem parte de outra particularidade, que já referimos - a abundância de cavernas com pinturas em Espanha, parece que termina misteriosamente, ao passar-se a fronteira para Portugal.
Os exemplos são muito escassos, e agradeço que quem souber de mais, os indique.

Lapa dos Gaviões
Sobre a Lapa dos Gaviões já falámos, e juntamos aqui apenas para não a esquecer no conjunto.

São as três seguintes, que não conhecia, que foram alvo de uma publicação "recente", associada à tese de mestrado da arqueóloga Luísa Teixeira, natural de Alijó.
Já sabemos que o passado não tem vida fácil em Portugal, mas algumas destas pinturas rupestres foram identificadas há muito tempo... e para o mal e para o bem, foram deixadas como estavam, com a degradação natural de estarem expostas ao tempo.

Cachão da Rapa
Uma grande laje de pedra está no Cachão da Rapa, junto ao rio Douro, bastante próximo da linha de caminho de ferro. Os seus desenhos foram transcritos em 1735 pelo padre D. Jerónimo Contador de Argote, ou seja, há quase 300 anos... mas apesar desse interesse, depois da lavagem cerebral imposta pelo Marquês de Pombal, praticamente passam por desenhos desconhecidos da população, ainda hoje.
Estas pinturas chegaram a ser dadas como desaparecidas, vindo depois a ser reencontradas c. 1930,
Também assim podemos ver que o caso das figuras de Foz Côa foi um caso singular na preservação e divulgação do passado histórico em Portugal. 
Ainda assim, em 1943 foram classificadas como Monumento Nacional, caso diferente do que veremos de seguida.
Quanto às inscrições, estão agora muito esbatidas, mas ainda se nota uma invulgar composição de cores em padrões geométricos, que não sendo escrita, é muito provável que se trate de uma planta de antiga aldeia pré-histórica (com datação atribuída ao 2º ou 3º milénio a.C.). 
No entanto, esta hipótese de ser uma planta é mera suposição minha, já que como é óbvio, oficialmente não é dada qualquer interpretação às figuras desenhadas.

Cachão da Rapa pelo Contador de Argote e reencontro das inscrições nos anos 30.

 
Fotografias actuais das pinturas (ver).



Pala Pinta (no concelho de Alijó)
Neste outro caso houve também uma proposta recente de classificar o Abrigo rupestre de Pala Pinta como Monumento Nacional. Porém, conforme se lê na página da Direcção Geral do Património Cultural (a que remete o primeiro link): 
"Despacho de 20-02-2012 da subdiretora do IGESPAR, I.P. a determinar a reanálise da categoria de classificação pelo órgão consultivo, por considerar a classificação como MN desadequada "
Portanto, em vez de Monumento Nacional, Pala Pinta foi classificada apenas como "Sítio de Interesse Público". 
No entanto, podemos ver que as inscrições são notáveis, únicas em Portugal (que eu saiba), revelando aquilo que pode ser considerado representações solares, ou a isso se assemelhando.
Abrigo rupestre de Pala Pinta - inscrições que se assemelham a "sóis".
Penas Róias (na área do Castelo Templário de Penas Róias)
Terminamos com inscrições rupestres que estão num abrigo próximo do antigo Castelo Templário de Penas Róias, um dos castelos que se encontra desenhado no Livro de Fortalezas de Duarte d'Armas.
Será especulativo fazer a associação que a presença de um Castelo Templário naquelas paragens, fora de perigo de incursões árabes, estivesse ligada à presença dos vestígios rupestres. No entanto, convém não esquecer que os principais locais templários, antes da sua extinção, estavam localizados no sul de França, zona especialmente rica em vestígios rupestres.
Sobre este local não encontrei nenhuma tentativa de classificação - nem como monumento, nem como sítio de interesse público... aparentemente o que parece haver notoriamente é uma total falta de interesse dos responsáveis. A única coisa que fazem para proteger os locais, parece ser mantê-los fora de qualquer divulgação ao público.
As formas desenhadas, em vermelho ocre, podem ter alguma interpretação como figuras antropomórficas, mas também podem tratar-se de símbolos complexos.
Ruínas do Castelo Templário de Penas Róias
Pinturas rupestres num abrigo de Penas Róias. (imagens)
Haveria ainda que fazer pelo menos referência à Gruta do Escoural que se mantém como o único caso de vestígio de pinturas rupestres dentro de uma gruta, e não apenas como inscrições em abrigos, ao ar livre, havendo ainda notáveis inscrições nos menires e nalgumas pedras de antas. 
Se foram encontrados outros vestígios em grutas, parece que ao contrário de Espanha, deste lado da fronteira não se encontra sinal de vida.

Finalmente deixo um vídeo feito por Luísa Teixeira, relativo a estes: