domingo, 6 de junho de 2010

Academia dos Humildes e Ignorantes

O nome Academia dos Humildes e Ignorantes é sugestivo... e pode levar-nos longe!
Começámos com um excerto musical da Academia dos Singulares... que recria aqui "Salve Regina", tema de um compositor português Filipe da Madre de Deus (1630-1687), do final renascentista - início do barroco, obra provavelmente dedicada à Rainha Luísa de Gusmão.
É um bom exemplo actual de recuperação de legados quase esquecidos...

No Séc. XVII e XVIII apareceram em Portugal academias com nomes talvez bizarros como Academia dos Generosos (1647), Academia dos Singulares (1667), e depois em 1717, por iniciativa do Conde de Ericeira, a Academia de Portugal, e a de História (1720), fixando-se uma única em 1780 a conhecida Academia das Ciências de Lisboa.

Até aqui não há grande novidade, e não haveria razão para este artigo. 
O facto curioso ocorre em 1758, na altura do Processo dos Távoras, com uma série de conferências de uma outra academia de anónimos, cujo nome é notável:
Academia dos Humildes e Ignorantes

A única identificação serão as iniciais: D.F.J.C.D.S.R.B.H. que aparece na obra:
Diálogo entre um Teólogo, um Filósofo, um Ermitão e um Soldado
dividida em 8 volumes, com quase 50 conferências cada, num total que se aproxima das 4000 páginas.
Um nome manuscrito na versão copiada da Biblioteca do Michigan é Joaquim de Santa Rita, que é associado como autor... mas poderá ser apenas o nome de proprietário (Nota: Frei Joaquim de Santa Rita Botelho, é um bispo de Cochim, mas em período posterior).

Sendo pouco conhecida, houve alguma alma generosa que se deu ao trabalho de disponibilizar os 8  volumes nos Google Books. Foi aí que a encontrei, e este link
permite aceder ao primeiro e restantes volumes (links no final dessa página).

É talvez o primeiro grande projecto enciclopédico português, pensado na base de reconstruir a informação perdida após o Terramoto de 1755. Os personagens encontram-se na Praia da Consolação, perto de Peniche, e perante uma audiência que vai aumentando, enunciam os seus conhecimentos.

Há uma descrição mais detalhada da história do Rei Tubal e parte inicial, cf. Tomo 1 (Conf. XII, pág.89), que depois é continuada, cf. Tomo 2 (Conf. XVII, pág. 129).


A obra é de tal forma vasta, que não ouso avançar desde já no seu conteúdo...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Por Tubal

O título será um pouco provocatório, já que "Por Tubal" se presta a uma semelhança a "Portugal", ainda que não haja qualquer dado objectivo nesse sentido.
A origem do termo Portugal sempre esteve ligada Portus Cale, o porto da cidade Cale, que seria o Porto. Daí a sua evolução de Portucale para Portugal, por evolução do C em G, como é suposto ter acontecido com outras palavras sob o domínio godo, neste caso suevo.

Este texto versa a sequência descrita por Damião Castro acerca dos reis no seu "tempo fabuloso", no prefácio do seu livro (ver post anterior). Apesar de denegrir essa versão que classifica de fábula, dá-nos várias pistas, que constituem um bom resumo dos múltiplos trabalhos anteriores.
Convém notar que em nenhum destes textos antigos aparece referência a nenhum culto a Endovélico, ou a outras entidades cujo nome foi popularizado, na transição do Séc. XIX/Séc. XX, por Leite de Vasconcelos.
Há um busto conhecido, com características de escultura grega, que tem sido associado a uma representação de Endovélico:
Com as precauções que já tomo nestas coisas, parece-me que a troca dos V pelos B, pode levar a:
EndoBélico
ou seja, literalmente a uma guerra interna. Na minha opinião, este nome pentassilábico e composto, parece-me ainda pouco normal para o tratamento comum a um deus.
Por outro lado, a referência tardia encontra-se bem justificada na sequência do fim da mitologia fabulosa, definitivamente encerrada por Herculano. Dos partidários de Tubal deixou de se ouvir falar, e foi rapidamente substituído por uma mitologia mais moderada, associada então a Endovélico.

Tomando o lado que deixou de ter voz, talvez encontremos aqui uma estátua com origem no período de influência grega na Lusitânia... também não é de negligenciar as várias estátuas de guerreiros, para evocações ainda anteriores (ver também blog Portugalliae):


Retomando a ordem cronológica de Damião Castro, enunciamos os vários reis, a partir do Dilúvio de Ogiges - nome associado a um Rei de Tebas, mas também a uma ilha Atlântica. Convirá desde já notar que os antigos historiadores portugueses e espanhóis procuraram associar, para além das referências toponímicas, alguns nomes da mitologia grega e egípcia.
Isto é curioso, pois é começando justamente em Tebas que encontramos o primeiro nome repartido pelo Egipto e pela Grécia - em ambos os casos encontramos uma cidade de Tebas, o que sempre se terá prestado a naturais confusões.
De Tebas segue-se este nome Tubal, cuja construção fonética não é muito diferente.
  • 0. Dilúvio de Ogiges (Tebas)
  • 1. Tubal e Tarsis chegam à península.
  • Fundação da "República de Setúbal"... a primeira República.
  • 2. Hibero, filho de Tubal, de onde viria o nome Ibéria
  • 3. Jubaldo, o astrónomo
  • 4. Brigo, o povoador, que teria fundado Lacobriga~Lagos, Medobriga~Portalegre
  • 5. Tago, de memória imortal
  • 6. Beto, associado a Bétis, no Guadalquivir.
De acordo com Damião Castro, os antigos historiadores apontavam aqui a entrada de um rei impostor, de nome Gerião, que teria morto Beto. Por sua vez Gerião teria sido morto por Júpiter Osíris... um rei herói (externo) disposto a irradicar tiranos.
O nome Júpiter Osíris associa num único rei as duas principais divindades dos Panteões Romano e Egípcio. Isto parece claro exagero, mas pode ser explicado por diversas razões, talvez a mais plausível será haver uma necessidade cristã de invocar uma origem humana para os cultos de Júpiter/Osíris, o que se enquadrava nesta versão de historiadores posteriores.

Independentemente disso, o nome Júpiter Osíris será seguido pelo filho Hórus Hércules Líbico, que vingará a morte do pai às mãos dos Lomínios, filhos de Gerião. Mais uma vez mistura-se a descendência (de facto, Hércules descende de Júpiter, tal como Hórus descende de Osíris), misturando com uma parte diversa humana, que envolve Gerião e os filhos.
  • 7. Gerião, rei impostor
  • 8. Júpiter Osíris, rei herói, que depõe tiranos, matando Gerião na sua vinda à Ibéria
  • 9. Lomínios, filhos de Gerião, matam Júpiter Osíris
  • 10. Hórus Hércules Líbico, filho de Júpiter Osíris, mata os Lomínios
  • - funda em Sagres (Promontório Sacro), um Templo a Tubal
  • - parte para Itália, deixando Hispalo como sucessor
  • 11. Hispalo, funda Hispalis~Sevilha
  • 12. Hispano, de onde viria o nome Espanha
  • 13. Hespero, renomeia Espanha como Hesperia
  • 14. Atlante Italo, irmão de Hórus Hércules
De acordo com Damião Castro, o primeiro historiador romano, Fabio Pictor (Séc. III BCE), apontaria a filha de Atlante Italo, de nome Roma, como fundadora da cidade.
  • 15. Sicoro, sucede a Atlante Italo
  • 16. Sicano, forma uma colónia na Sicília
  • 17. Siceleo
  • 18. Luso, o memorável, de onde se teria originado o nome Lusitânia
  • 19. Siculo, o último rei antes de um breve período de anarquia.
Aproveitando esse período de anarquia, surge Baco, considerado impostor, que conseguirá que o seu filho Lísias seja aceite... fazendo crer que transporta a alma do defunto Luso.
  • 20. Baco, impostor, filho de Semele (e de Jupiter, de acordo com a lenda romana)
  • 21. Lísias, filho de Baco, renomeia a Lusitânia como Lisitânia
  • 22. Licínio Caco, capitão de Baco
  • 23. Trogo Pompeo - Justino
  • 24. Gorgoris, o Rei à Época da Guerra de Tróia
Gorgoris é suposto ser o pai e avô de Abidis, e também o pai de Calipso. Abidis, crescido abandonado numa mata de Santarém, será o último rei da Lusitânia no "tempo fabuloso".
De acordo com Damião Castro, é Gorgoris que irá ceder a sua filha Calipso a Ulisses, rei de Ítaca, após a Guerra de Tróia.
  • 25. Ulisses
  • 26. Diomedes
  • 27. Teucro
  • 28. Mnesteo
  • 29. Coleo de Samos
  • 30. Abidis
Ulisses é o fundador de Lisboa, de acordo com vários historiadores antigos (Platão, Marciano Capela, Solino, Asclepíades, ... ), ainda que Damião Castro insista numa possível confusão entre Olisipo (atlântica) e uma Ulisipo (mediterrânica, mas perto de Málaga). Diz ainda que o próprio Heródoto coloca viagens de Ulisses fora do Estreito de Gibraltar, visitando ilhas de Aea e Ogigia. Por outro lado, diz que é natural que tenha partido num navio fenício saído de Smirna, já que a sua armada teria sido destruída por Telemon, rei de Salamina, pai de Ajax (que perdendo para Ulisses as armas de Aquiles, se suicida na Guerra de Tróia).

Diomedes e Teucro, também elementos da Guerra de Tróia são apontados em expedições ao Minho e à Galiza. Aponta ainda como rei Mnesteo, que é normalmente considerado um troiano, companheiro de Eneias.
Apontando os relatos anteriores como pouco credíveis, acaba ainda assim por ir contra a opinião de Gouguette (historiador francês, comissionado por Luis XIV) que recusava qualquer presença grega na Península Ibética.
Para isso diz não poder ignorar essa presença grega pelo menos em Cadiz pelas viagens de Coleo de Samos, referido por Heródoto, dizendo ainda que nessa altura haveria um comércio com hebreus em Tiro, no tempo do Rei Salomão.
Aceita ainda um contacto com Fenícios e Gregos de Focea e de Rodes, por esta altura.
Com os Fenícios, no tempo do Rei Hirão, refere ainda uma diferença entre Paletiro (a Tiro libanesa) e a ilha de Tiro, que faz corresponder a Medina-Sidonia, ou seja a Cadiz. Nesse tempo haveria um culto de Hércules no Promontório de Sagres. Por outro lado, pela parte dos gregos de Focea, associa Sagunto (Valência) e a ilha de Zacinto, e pela parte dos gregos de Rodes, a fundação de Roda, na Andaluzia.

Após o último rei lusitano, Abidis, neto de Gorgoris, que é associado ao mito de ter sido criado selvagem numa mata de Santarém por uma cerva, apresenta um período de Anarquia, a que se teriam seguido, só então, as invasões celtas, por Ambigato. Teria havido uma divisão entre Turdulos e Turdetanos, exceptuando-se a parte norte, da Galiza aos Pirinéus.
- Um pormenor curioso será associar o nome de Elvas a uma fixação de Celtas Helvéticos, citando André Resende (1500-73).

Não deixa de dizer que ignora, por achar que nem merecem referência, histórias fabulosas (no tempo escuro, antes do Dilúvio) sobre Tritões, as suas viagens a Ocidente e Oriente, e batalhas que fariam tremer a terra, com Gigantes e Deuses, e ainda com um despótico Rei Tártaro, que teria vindo dos infernos...

Observação 1: Por tudo aquilo que afirma no Prefácio que irá omitir no Livro, Damião Castro acaba no entanto por ser uma das referências mais sólidas sobre estas lendas, parecendo querer passar esses registos fabulosos, criticando-os mas com argumentos pouco convincentes.
Observação 2: É ainda interessante ver esta associação romana/egípcia entre deuses e personagens históricos, sabendo-se que em ambas as culturas essa deificação de antepassados era um ponto cultural comum. A duplicação de nomes é ainda interessante, já que se repete por homónimos noutros casos, para além de Tebas, há o exemplo do Monte Ida - em Creta é o local do nascimento de Júpiter; já na Turquia, o outro Monte Ida seria a origem de Páris.
Observação 3: Para além desta referência à presença grega na península ibérica, é ainda de considerar em que consiste a ligação a Tróia, não devendo ser excluída a hipótese de Tróia ser uma cidade ibérica. Para isso, um candidato óbvio e natural será ainda Setúbal e a sua península de Tróia (ainda que nada seja sugerido a esse respeito por Damião Castro).
Observação 4: A presença cartaginesa na península é actualmente quase consensual. Podemos ir um pouco mais longe? Porque não considerar os Fenícios como nome alternativo para os originários da península ibérica... que se estabeleceram em Tiro e Cartago, reparando numa composição do nome, partida de Tago ou Tagus:
Car-Tago, Car-Tagus

Observação 5: Por sugestão de um comentário [Maria da Fonte, no blog Portugalliae], as siglas poveiras (que ainda hoje são usadas pelos pescadores da Póvoa de Varzim), por exemplo:

fazem em muito lembrar inscrições em estelas lusitanas (estela da Abóbada)

Por outro lado, esta forma de escrita não se afasta muito de uma primitiva escrita fenícia, tendo até semelhanças com eventuais inscrições fenícias encontradas no Brasil.
Mais, estas inscrições não são muito diferentes das que constituem símbolos de pedras rúnicas, fazendo uma ligação cultural, por via marítima, que uniria toda a costa Atlântica à América (dir-se-ia quase uma ligação NATO...)
Esta pista, sempre dentro do "tempo fabuloso", levar-nos-ia para eventuais ligações remotas por via Atlântica. Afinal a "ilha que era do tamanho de um continente" conforme Platão descreve a Atlântida, foi por várias vezes identificada à América - até que toda essa convicção se voltou a perder nos Séculos XVIII, XIX e XX.
Todas essas hipóteses foram excluídas e consideradas fantasiosas.
No entanto essa recusa de conhecimento anterior, levanta "enigmas históricos", como é o caso dos Povos do Mar, cujas invasões são referidas por diferentes culturas na bacia mediterrânica, ajustando-se à descrição que Platão tenta fazer de uma tentativa de conquista atlante repelida por Atenas, conforme os sacerdotes egípcios tinham contado a Sólon.
Porém... que credibilidade dar a Platão, e a tantos outros, comparando com os mais sábios historiadores franceses e ingleses da Idade Moderna que formataram a história actual?

domingo, 23 de maio de 2010

Damião Castro

Fruto da evolução dos tempos, parece-nos ser transmitida a mensagem de que antes de Alexandre Herculano mais nenhuns historiadores teriam existido em Portugal...
Está longe de ser assim! A sugestão de leitura no comentário ["Calisto": 28 de Abril 2010], leva-nos a Damião de Lemos Faria e Castro, e à sua História apresentada à Rainha D. Maria I.

Alexandre Herculano, apenas menciona a Monarquia Lusitana de Frei Bernardo Brito como um "livro altamente ridículo", e apesar de reconhecer que é baseado em fontes muito antigas, Herculano parece estar provido do alto de uma cátedra revisionista, suprimindo sem qualquer referência essa "parte mitológica". Até aqui estaria no seu direito de historiador, seleccionando as fontes que considerava credíveis. Parece-nos no entanto, destrutivo e não inocente, a completa supressão desses mitos, quando decide publicar as suas "Lendas e Narrativas". Para Herculano e seguidores, Portugal parecia não ter direito a história anterior à formação da nacionalidade com o Condado Portucalense. Seria o equivalente a suprimir à História Inglesa os míticos Rei Artur, Lancelot, Merlin ou Parseval. Um Herculano inglês teria suprimido Avalon e Excalibur... Por culpa dessas cátedras patrocinadas, fomos reduzidos na capacidade de sonhar, sendo-nos apenas autorizado um pastor Viriato, terror dos romanos, e o eterno Desejado!

A abordagem de Damião Castro, algumas décadas antes é diferente, e ainda assim tem que ser enquadrada numa corrente de influência iluminista francesa crescente, e ao mesmo tempo no contexto da sua ligação aos jesuítas, que recobravam influência junto à filha de D. José, após a perseguição movida pelo Marquês de Pombal.
Castro critica ferozmente a parte mitológica da História nacional, recorrendo-se habitualmente às opiniões lapidares de historiadores franceses, mas não deixa de mencionar detalhadamente essa mitologia, sendo por isso uma fonte muito interessante.

Breve menção à História de Damião Castro
Castro divide a História em três tempos:
  • Identifica o Tempo Escuro ao da criação de Adão, dizendo o seguinte:
    "Ponto luminoso marcado pela Escritura Santa em que só brilha a luz da verdade na História Sagrada, quando toda a Política, e Profana estava envolvida no Caos tenebroso da maior escuridade". Faz terminar este Tempo no Dilúvio, que diz de Ogiges, lendário Rei de Tebas, dizendo tratar-se de "22 séculos de sombras impenetráveis e trevas imensas".
  • Identifica depois o Tempo Fabuloso começando do Dilúvio, até à primeira Olimpíada no ano 776 antes da Era Vulgar (com a duracao de aproximadamente um milénio). Justifica a designação, pela "confusão , e miscelânea de verdades e mentiras com que os Poetas organizaram os seus escritos".
  • O Tempo Histórico seria começado depois dessa 1ª Olimpíada, a partir da qual, considerava haver relatos fidedignos, ou conforme diz "das Olimpíadas em diante principiou a brilhar na História a verdade dos sucessos sem as tisnas da escuridade, sem as manchas da fábula".
Sobre Heródoto chega a ser radical ao ponto de dizer "em lugar de lhe darmos com Cícero o nome de Pai da História, lhe chamaremos um dos Progenitores da Fábula".
É mesmo mais cáustico dizendo que a "luz histórica" nos permitia agora ver os pais das patranhas referindo-se a fontes antigas: Aunio, Filo, Beroso, Manethon e Metastene.

Por outro lado, é interessante notar a sequência pela qual ele diz que poderia ir buscar fontes fidedignas (através do contacto entre gerações):
- da sua geração até D. Pedro II, dessa geração até D. Filipe IV, depois até ao Cardeal D. Henrique... saltando depois até D. Afonso Henriques.

As escolhas Pedro II, Filipe IV, Cardeal D. Henrique, seriam as piores possíveis que eu nomearia para fontes sem pressões circunstânciais... dificilmente pode ser escolha acidental de reis. Mais, diz irá faz aquela História para evitar uma certa humilhação de se traduzir outras histórias...
Damião Castro alinha no jogo, mas não o esconde, e por isso acabará por ser necessário mais tarde um Alexandre Herculano.
Renega começar no Tempo Fabuloso o princípio da História Antiga de Portugal, como teriam feito "Frei Bernardo de Brito, Manoel de Faria e Sousa, Padres João de Mariana, José Moret, o Arcebispo D. Rodrigo Ximenes, Gabriel de Henão, e quase todos os Historiadores das Hespanhas". Esta informação não serve para refutar "quase todos os historiadores" anteriores, é um elemento importante para identificar documentação que seria menosprezada ou perdida.
Muito mais do que uma mensagem de superioridade face aos precedentes, parece-nos ser uma tentativa de passar informação, tanto mais que aproveita o Prefácio para fazer aquilo que diz que não irá fazer...

Alguns raciocínios são elucidativos:
(i) Para justificar que seria inverosímel que Tubal e o sobrinho Tarsis tivessem migrado para as Hespanhas, diz que o horror às águas após o Dilúvio os desmotivaria para tal viagem.
(ii) Chamando "sectários" a Florião do Campo, Garibay, Beuter e Vazeo, que "beberam na fonte impura de Beroso", diz-nos que quer esses, quer "o novo engenho vasto" de D. José Pellicer não teriam conseguido tirar dos "cofres da sua erudição" motivos que tornassem a história susceptível a "engenhos menos vulgares" de Diaristas de Sotelo, que teriam conseguido derrotar uma opinião favorável a Tubal e Tarsis. A escolha de adjectivos para os vencedores e para o vencido será elucidativa do partido que é seu, mas que não pode tomar.
(iii) Escarnece assim da ideia de uma República de Setúbal formada por esses netos de Noé, do nome do filho Hibero (de onde viria o nome Ibéria), de Tago (de onde viria o nome Tejo), de Beto (de onde viria o nome Bética), de Hispalis e Hespero (de onde viria o nome Hespanha e Hespérides), e também dos mitos associados de Osíris, Hércules, dos filhos de Gerião, Baco, de Luso (de onde viria o nome Lusitânia).
Acaba por parar, dizendo que foi um autor estrangeiro, Quien de la Neufville, que lhe fez ver tudo isso necessitaria de indagação crítica, judiciosa e severa. E é genial dizendo que o eminente autor francês resolve a questão em dois parágrafos, resumidamente porque: Tubal nunca veio à Espanha; que os seus descendentes iberos são os vindos da Ibéria na Geórgia; que eram uns "brutos, incapazes de religião e política"; que sempre foram os mesmos até que estrangeiros, como egípcios, gregos, cartagineses, e gauleses, "adoçassem o seu ar bárbaro e a dureza dos seus costumes". Dificilmente não se ficaria convencido com tal profundidade e elogio nos argumentos dos historiadores franceses...
(iv) Mais à frente, aludindo a que a marinha Grega seria "das mais fracas", e "não poderiam ter passado o Mediterrâneo", cita outro francês, Bochart. Este teria argumentado a origem fenícia de diversos locais, evitando associações com nomes gregos, já que nunca poderiam ter chegado a terras portuguesas. Por exemplo, Minho viria do fenício Manin (quiçá querendo evitar talvez a associação de Minho ao grego Minos), Tejo de Dagi, Lisboa de Alis-ubbo, etc... ao ponto de Damião Castro dizer que fez um tal "dilúvio de conjecturas" que ninguém tomaria Bochart "como fiador" nesta última. Mas é moderado, dizendo apenas que, devido ao grande número, "se algumas coisas acertou, noutras podia errar".

Se há algo que se nota imediatamente é este cuidado em seguir, e não hostilizar demasiadamente as "opiniões dos estrangeiros". Porém o trabalho de Damião Castro acabará esquecido, face à versão mais politicamente correcta que Alexandre Herculano tomará em mãos, evitando talvez estes conflitos pouco sustentáveis com um passado remoto.

Sem entrar já nos detalhes do livro de Damião Castro,
História Geral de Portugal e suas Conquistas
que pode ser consultado aqui:
não deixamos de notar como interessante a referência às Torres Altas(**) de Tróia (no Prefácio, página XXXI), bem como uma referência à chegada da Armada de Ulisses no Tejo, a fundação da cidade Ulyssipo que o Rei Gorgoris teria consentido, cedendo a Ulisses a mão da sua filha Calipso. Asclepíades teria assegurado que aí Ulisses fundara um Templo de Minerva, onde teria ainda visto (no seu tempo, séc. II-BCE) destroços dos seus navios.

(**) Comparar com as Torres de Shetland (ver 2ª notícia Abril/2010 no blog Portugalliae). Essas torres são de origem desconhecida, segundo a reportagem da BBC, estando subjacente um comércio marítimo na Idade do Bronze que talvez envolvesse um antigo comércio marítimo na Europa Ocidental.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A espiga e o alecrim



Começo pelo verso de Camões (inspirado no de Petrarca), dito pelo soldado Leonardo:


- Tra la spica e la man, qual muro è messo! (Entre a espiga e a mão que muro se levanta!)

Maia e Maio
O dia da espiga é uma tradição de Maio, perdida nos tempos... por um lado relacionada muitas vezes com cultos pagãos associados à primavera, pode ter sofrido alterações na sua colocação no calendário, relativamente a Março.
O nome Maio, Maia, foi ficando... nalgumas regiões de Portugal ainda subsiste a tradição de fazer uma boneca de palha, chamada Maia!

Maia seria uma deusa filha de Atlas, e de uma ninfa oceânica da Arcádia, figura como uma das sete estrelas nas Plêiades. Será dos raros casos em que o seu nome não sofre grande alteração ao longo dos tempos, e é sonoramente idêntico em várias línguas. Numa pequena variação, Ésquilo terá aparentemente tentado associá-la a Gaia!
Por outro lado, teve com Zeus/Júpiter um filho que seria Hermes/Mercúrio, e protegeu Arcas de Hera (que tinha transformado a mãe Calisto num urso, no céu ficando a Ursa Maior, e Arcas como a Ursa Menor).

Já na tradição romana, Maia é muito associada aos ritos de primavera e assim há uma ligação a esta tradição da espiga em Maio e a uma boneca com o seu nome. Este dia de descanso em Maio, tradição milenar, está na origem de tradições mais recentes que o estabelecem a 1 de Maio.
Se por um lado o dia de espiga foi ligado à quinta-feira de Ascensão, por influência católica, está também ligado ao movimento laboral.

O nome Maia é ainda indissociável de outras particularidades...
- Os Senhores da Maia, estiveram na fundação de Portugal. Começando com Trastamiro Aboazar (cujo nome é de origem desconhecida, talvez árabe), temos talvez o mais marcante Gonçalo Mendes da Maia, "o Lidador", amigo próximo de D. Afonso Henriques.
- Os Maias, o romance de Eça de Queirós...
- Os Maias, povo que "curiosamente ostentou este nome, do outro lado do Atlântico...
- Ilha de Maio, que é nome de ilha em Cabo Verde, mas também foi nome de ilha nas Caraíbas.

Porém, regressando à espiga, a tradição de Maio, junta-lhe outras "flores":
- malmequeres, papoilas, alecrim, oliveira, videira...
Cada uma destas "flores" parece ter um certo significado, mas nem sempre unânime.
Por exemplo, foi-me dito ouro/prata para malmequeres amarelos/brancos, liberdade pela papoila, e o alecrim parece estar relacionado com a saúde...

Alecrim
Há é claro a célebre canção popular... mas há mais!
De António José da Silva tivémos as Guerras de Alecrim e Manjerona onde, logo de ínicio e um pouco a despropósito, diz o personagem Semicúpio:
- Já fica assinalada na Carta de Marear toda a costa de leste a oeste, com seus cachopos e baixios!
É claro que é uma referência semelhante à de Pedro Nunes, quando se refere às cartas de marear, e à maior ignorância na leitura de leste a oeste... que a tal rotação do portulano de Pedro Reinel parece associar ao México. Talvez por este tipo de impertinências, António José da Silva acabou por dificuldades na aceitação do seu trabalho, e acabou por terminar à mão da Inquisição.
Talvez por causa de um acréscimo de impertinências o terramoto de 1755 não seja apenas um sismo, seja também um incêndio que delapidou a nossa memória documental, e um período ilustrado pelas inúmeras execuções e autos-de-fé subsequentes:

Fez hoje 561 anos que, a 20 de Maio de 1449, o Infante Dom Pedro foi morto na Batalha de Alfarrobeira, e proscrito da história nacional (excepto no breve período de seu neto, D. João II). Olhando para o seu eterno semblante jovem, aqui:


... não podemos deixar de ler Camões, a despropósito (Canto 7, §77) de um velho de aspecto venerando:

Cujo nome não pode ser defunto
Enquanto houver no mundo trato humano:
No trajo a Grega usança está perfeita,
Um ramo por insígnia na direita.

Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego!
Eu, que cometo insano e temerário,
Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
Por caminho tão árduo, longo e vário!
Vosso favor invoco, que navego
Por alto mar, com vento tão contrário,
Que, se não me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.

E a partir desse ponto, e por muitos séculos, quero crer que novos ramos foram adicionados à espiga... até que do nevoeiro se descobrisse o encoberto, e o mundo desejado voltasse.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Teatro dos Descobrimentos



Em múltiplos sites aparece este "mapa de descobrimentos", sem que eu tenha encontrado nenhuma referência a quem teria sido o Autor ou a Data em que foi realizado...

Pela exactidão do contorno, somos imediatamente levados a pensar que se trata de uma reprodução realizada pelo menos no Século XX, já que só nessa altura haveria conhecimento para um tal grau de precisão! Especialmente se olharmos para a Costa Norte do Canadá.

No entanto, não deixa de ser curioso que quem terá feito este mapa, insiste nalgumas (im)precisões, típicas da época dos descobrimentos, especialmente nas ilustrações internas.

A reprodução poderá até ter alterações posteriores, mas todo o estilo do mapa, o destaque a ser "Projecção Mercator" (... que outra haveria de ser depois do séc. XVII ?), induz uma resposta curiosa:
... este mapa tem todas as características das cartas do Séc. XVI

Certamente que haverá uma resposta, e um eventual culpado (recente) de tal finura, mas vou colocar a questão de uma forma diferente...
- Quando Pedro Nunes, em 1537, afirma: "E fizeram o mar tão chão que não há hoje quem ouse dizer que achasse novamente alguma pequena ilha, alguns baixos, ou se quer algum penedo, que por nossas navegações não seja já descoberto",
e num "esboço autorizado", no mesmo Tratado da Sphera, é capaz de fazer mapas destes:
... seria de esperar que, sem outras restrições, apresentasse um mapa semelhante para ser consistente com a sua afirmação!
Notas adicionais sobre o mapa:
O mapa tem uma inscrição no canto inferior esquerdo, que o parece associar ao Museu da Marinha (**).
No entanto, não se enquadra num típico mapa histórico, porque:
(i) Não aparecem as designações dos continentes America ou Australia, nem aparece o Havai.
(ii) Na Australia não há qualquer nome, apenas desenho de paisagem, que nem será o mais ajustado face ao conhecimento após o Séc. XIX.
(iii) Na América as designações referem-se apenas a Canada, Nova Granada, Nova Espanha, Terra Florida, Terra de Corte Real, e Terra dos Bacalhaos.
(iv) As restantes designações e bandeiras são apropriadas para um mapa da época de D. Sebastião.
(v) A referência à Projecção Mercator também seria apropriada para a época de D. Sebastião, depois do Séc. XVII tornou-se de tal forma comum, que seria redundante referi-lo num mapa.
(vi) Há uma bandeira portuguesa e outra espanhola nas Filipinas, o que se ajustaria ainda à época de D. Sebastião, tal como a reclamação da Terra de Corte Real para Portugal.
(vii) Se o mapa pretendesse só invocar historicamente os descobrimentos portugueses seria redundante colocar as bandeiras espanholas (não coloca francesas ou inglesas), e não faria sentido colocar as bandeiras de outras nações à época de D. Sebastião. Aliás D. Sebastião seria talvez o único monarca com a coragem de aceitar a publicação de tal mapa.
(viii) Se a linha costeira não tem quase nenhum erro, o mesmo não podemos dizer do Rio Amazonas e do Rio da Prata, que são ilustrados conforme era habitual no Séc. XVI.
(ix) Independentemente da datação, o autor coloca diferentes tipos de embarcações no mapa. Podemos ver algumas bem primitivas na direcção da Terra dos Bacalhaos. Isso é ainda uma informação adicional sobre a época das viagens.
(x) Na Gronelândia aparecem pinguins... algo estranho de se confundir já no Séc. XIX ou XX.
(xi) São assinaladas algumas trajectórias de viagens históricas:
-- (a) Vemos as rotas das viagens de Dias, Gama, Cabral ou Magalhães (esta terminando nas Filipinas), mas não de Colombo...
-- (b) São apresentadas viagens que saem dos Açores. Uma dirige-se para Gronelândia-leste, e deverá ser uma viagem dos Corte-Real. A outra é mais difícil de identificar, saindo dos Açores, atinge a Flórida, e depois sobe a costa americana até à Nova Escócia.
-- (c) Há ainda uma viagem, também não identificada, que saindo do Perú em direcção ao Pacífico atinge as Ilhas Salomão, e regressa pelo Pacífico explorando a costa Mexicana.
Estes são alguns dos indícios suficientes para supor que este mapa pode até ter sido feito posteriormente, mas reflectiria um eventual mapa à época de D. Sebastião. Com uma outra versão, com maior resolução, talvez se conseguissem ainda retirar muito mais conclusões.

(**) Actualização em 10 de Maio de 2010

Após KTemplar ter disponibilizado ontem algumas fotografias de uma cópia que possui, em
são interessantes as conclusões:
(C1) - A inscrição diz
"Executado pelo pessoal técnico do Museu da Marinha. Maio de 1970"
(C2) - A viagem Açores-Flórida-Nova Escócia é atribuída a Gaspar Corte-Real (1501-02). A viagem Açores-Gronelândia é atribuída a João Fernandes Labrador (1495).
(C3) - A viagem Perú-Ilhão Salomão-México é atribuída a Pedro Fernandes Queirós (navegador já aqui referido por JM-CH). A outra parte da exploração Californiana é atribuída a João Rodrigues Cabrilho (1542).
(C4) - Curiosamente, na cópia de KTemplar, não aparecem os pinguins na Gronelândia!!

Portanto, há mais do que uma versão do mapa... com ou sem pinguins!
As perguntas que ficam são:
- o que leva o "pessoal técnico" do Museu da Marinha a decidir ou não colocar "pinguins na Gronelândia"?
- de onde vem esta inspiração para um mapa comemorativo, próprio para o Séc. XVI, com nomenclatura própria dessa época específica (reinado de D. Sebastião)?
- de onde vem a inspiração para desenhos pouco informados de animais, como tigres ou cangurus?
Para além das outras questões já mencionadas em cima...


quinta-feira, 6 de maio de 2010

Theatrum Mundi

No final do séc. XVI aparece um mapa com a designação "Theatrum Mundi", atribuído inicialmente a João Lavanha em 1597 (e a Luis Teixeira com eventual conclusão c. 1612, de acordo com a Portugaliae Monumenta Cartographica), mas provavelmente baseado num mapa português muito anterior:
Theatrum Mundi (cópia) - João Lavanha, Luis Teixeira (c. 1597-1612)

Apesar de aparentar algumas presumíveis incorrecções demasiado evidentes (a sempre oculta Austrália, propositadamente confundida com a Antártida e com o nome Nova Guiné), este é talvez um dos exemplares portugueses mais interessantes dos que restam intactos, apresentando todo o mundo.
Em particular apresenta o Estreito de Anian, que não se chamava Estreito de Bering, pois quem "descobriu" esse Estreito - o explorador Vitus Bering (1681-1741) - ainda não era tampouco nascido...
Apresenta de forma muito rigorosa toda a Passagem Noroeste (realizada por Amundsen em 1906), e também a Passagem do Nordeste que deverá ter sido navegada por David Melgueiro em 1660-62, mas que é atribuída a Nordenskjold em 1878-79.
O mapa português insiste em não usar a projecção de Mercator, e tirando esse aspecto, não será muito diferente de um mapa anterior (c. 1570) do famoso Abraham Ortelius:

Também Ortelius apresenta uma possibilidade para ambas as passagens, e a representação sugere o Estreito de Anian (onde está o Anian Regnum)... no entanto, não é a mesma coisa!
A representação do continente americano era, no final do Séc. XVI, muito melhor do que em mapas posteriores. Damos como exemplo, um mapa c. 1630, de Hondius, talvez um dos melhores do Séc. XVII, mas onde já desapareceu o Estreito de Anian... e qualitativamente inferior até ao mapa de João de Lisboa (o do logotipo alvor-silves) publicado um século antes.

Até à viagem do "Captain Cook" em 1768-71, a parte ocidental da América do Norte foi-se desvanecendo dos mapas. A Austrália seria pontualmente representada, apenas na sua parte ocidental, após as viagens de Tasman (1642-44). Ver, por exemplo, G. Delisle (c.1700).
Após a restauração de independência, praticamente deixam de se encontrar mapas relevantes, de origem portuguesa. Será um caso de estudo em que uma nação evolui no tempo, mas perde toda a sua capacidade intelectual para as gerações seguintes.

Análise do Mapa Theatrum Mundi
O mapa Theatrum Mundi de João Baptista Lavanha é provavelmente um último grito abafado, realizado a pedido de Catarina de Bragança.
Nele encontramos uma distorção provocada por duas rosas-do-vento polares, alguma imprecisão nos contornos dessa parte americana (tal como em África), mas que retrata fielmente os detalhes e contornos na "parte obscura" da América: Alasca e Canadá. Se seguirmos a linha de costa encontramos correspondentes em (quase) todos os casos (p. ex. Baía de Hudson - 1611, Baía de Baffin-1616) , o que não se verifica sempre com o mapa de Ortelius. Também clara é a diferença no contorno da Rússia setentrional. Em Lavanha, já é possível nomear Nova Zembla, descoberta por Barents em 1597, que aí morre.
A realização de tal mapa só seria justificável por uma coincidência muito para além do razoável, e como tal este mapa não faz parte da "colecção oficial", encontrando-se ainda assim na Portugallia Monumenta Cartographica, de 1960.
É actualmente quase desconhecido, pois mais uma vez foi concedida à nova geração o privilégio de se esquecer da anterior.
Terras na América Setentrional no Theatrum Mundi (de oeste-leste, norte-sul):
- Mendocino, Quiuira Regio, Anian Regio, Bergi Regio,
- Agama, Canaoga, Tolm,
- Chiugigua, Cogibel, Albardos, Zubgara, Sete Cidades, Nova Granada,
- Avanares, Capaschi, Florida, Cossa, Tagil
- Saguena, Ochalaga, Apalache n,
- Canadaa, Norumberga
- Stotilano, Aratoris, Terra Nova dos Bacalhaos

Há dois lagos nomeados:
- Conibas (provavelmente a entrada do Mar Beaufort na Baía Amundsen)
- Mar Doce (provavelmente a baía de Hudson)
Talvez o mais interessante seja ainda o nome:
- Mar Vermelho: actualmente o Golfo da Califórnia
Esta designação encontra-se noutros mapas. Convém notar que o outro mar vermelho seria então designado Mar Arábico (havendo ainda o Mar Pérsico).
Não vou entrar em detalhes sobre toda a confusão que pode existir quando se referem coisas que se passaram no Mar Vermelho, confundindo Califórnia com Arábia... Não deixo de salientar que a Califórnia foi também vista como uma terra prometida, e que no prolongamento do Rio Colorado encontramos a inscrição Ceuola e depois Sete Cidades (referindo-se provavelmente às Sete Cidades de Cíbola... ou será Cebola?)
Quanto às outras designações também muito há a dizer... por exemplo, Agama é entendida como uma palavra em sanscrito referindo-se a um dos vedas. Há um Canaoga Park na Califórnia, etc... mas uma parte destes nomes estranhos perdeu-se nos mitos dos tempos.
Encobrimentos...
Como é fácil concluir, a política de encobrimentos manteve-se mesmo após as descobertas portuguesas, e até à viagem de Cook. A viagem de Cook, quase contemporânea da Revolução de Independência Americana marcou definitivamente o fim da ocultação de uma parte considerável do mundo.
De c. 1600 até 1771, o mundo que era "descoberto", ou melhor, não era "encoberto", não incluía metade da Austrália e Nova Zelândia, Havai, ou ainda a parte norte da América, acima da Califórnia.
O que se passou nessa parte "encoberta", e perfeitamente habitável, durante mais de dois séculos? O que determinou o seu fim, caso tenha havido "fim"?

domingo, 25 de abril de 2010

Tagus Aureo

Juvenal, Decimus Iunius Iuvenalis (~60-127) nas suas Sátiras menciona por duas vezes o Rio Tejo...

Ah! Let not all the sands of the shaded Tagus, and the gold which it rolls into the sea, be so precious in your eyes that you should lose your sleep, and accept gifts, to your sorrow, which you must one day lay down, and be for ever a terror to your mighty friend!
Juvenal (Sátira 3)

The man for whose desires yesterday not all the gold which Tagus and the ruddy Pactolus rolls along would have sufficed, must now content himself with a rag to cover his cold and nakedness, and a poor morsel of food, while he begs for pennies as a shipwrecked mariner, and supports himself by a painted storm!

Juvenal (Sátira 14)


Portanto, concluímos desta pequena referência que no Séc.I/II era do comum conhecimento romano que o sítio que forneceria a maior parte do ouro que chegava a Roma, vinha essencialmente do Rio Tagus. César foi quaestor da Lusitânia, e parte do seu sucesso está ligado às moedas de ouro com que pagava às suas legiões...

Não é completamente clara a referência de Juvenal ao "ouro que rola" pelo "sombrio Tejo", parecendo já querer aludir a algum mistério. Sobre o "ruivo" Rio Pactolus, apurei que seria na Lídia... região já por si também sombria, e que como tal uma boa parte de "regiões sombrias" foram sempre situadas na Ásia Menor. Nessa península turca, couberam muitos reinos poderosos, muitas vezes contemporaneamente, sem que se percebesse o que delimitaria fisicamente as suas fronteiras e como se processaria a sua convivência.

É num mundo contraído por uma História reescrita, que encontramos também demasiadas semelhanças de nomes.

À força de querer limitar as navegações gregas a paragens próximas, nomes como Iberia ou Albania, aparecem associados a reinos do Cáucaso, próximos de uma Cólquida, no Mar Negro, associada à viagem do intrépido Jasão e dos Argonautas.
Não será porém de considerar que esse Mar Negro, o Pontus Euxinus, não foi renomeado pela escuridão medieval que se associou ao Oceano Atlântico... e que a viagem de Jasão foi para além do Estreito de Dardanelos, servindo como alias do Estreito de Gibraltar.

Afinal não será natural que o Rei Dardanus (filho de Zeus e Electra, neto de Atlas) tenha casado com Batea (associando-a à Baetia, região romana do Guadalquivir ~ Baetis Fluvius)?
Isto coloca-nos na zona de Tróia....

Mas, afinal, não será natural que Olissipos-Lisboa, derive de Ulisses por alguma razão?
Seria assim justificável o nome de Tróia para a península... que sempre teve esse nome.
Setúbal, antiga cidade do Rei Túbal teria talvez sido a antiga Tróia, após o Dardanelos?
O Rio Sado, era pelo Romanos denominado Calipos Fluvius. Não será também de associar esse nome à ninfa Calipso, filha de Atlas, que reteve Ulisses por 7 anos? Qual seria a ilha... uma ilha onde há uma Orquídea cuja variedade se chama Calipso?

Por que razão limitar as grandes navegações gregas à Asia Menor?
Se Duarte Pacheco Pereira cita Estrabão, e diz que Menelau, marido de Helena de Tróia, contornou toda a África, por onde teria andado Ulisses que mereceu de Homero um poema muito maior, uma Odisseia?

Teria Ulisses ficado perdido num Mar Mediterrâneo que os Gregos conheciam tão bem, ou terá Ulisses ficado perdido no grande Oceano Atlântico?... quiçá, no meio de sereias que os portugueses voltaram a encontrar!
Se as ilhas gregas estavam mais distantes entre si do que Micenas estava da Tróia na Anatólia, faria sentido embarcarem todos numa longa viagem, que afinal era tão próxima? Não faria mais sentido que essa viagem visasse uma distante Tróia, situada após o Mar Mediterrâneo?

Será demasiado nacionalismo?... há falta de objectividade, ou depois de um Tejo Mahalay, teremos agora uma Helena de Tróia, raptada por um Páris setubalense...

É difícil distinguir as influências, mas seguindo esta linha, aparece ainda como consistente a ideia de Poliziano - Roma enquanto colónia Lusitana... É que segundo Virgílio, Afrodite terá sugerido a Eneias partir de Tróia, e fazer reviver a glória de Tróia numa outra parte... em Roma.

É nesta parte difícil distinguir o aproveitamento da lenda para interesse próprio... os portugueses do Séc. XV podem ter descoberto documentos nesta linha, ou podem ter seguido a linha de reescrever a história a seu belo prazer, associando alguns nomes convenientemente!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Navegações islandesas

O mapa seguinte (obtido aqui) reporta as navegações de Nicolo Zeno e Antonio Zeno, à Islândia e Gronelândia, no final do Séc. XIV, mais concretamente em 1380.
O carta deve ser italiana (mesmo muito posterior à descrição do neto Catarino Zeno, provavelmente do Séc. XVII), mas reporta-se a essas viagens anteriores, conforme se vê na legenda superior do mapa:

É interessante saber que os italianos chamavam Tramontana à parte Ártica. Neste caso o meridiano zero passaria ao largo da Escócia, pela Irlanda e pela costa portuguesa.

Outros nomes relevantes:

  • habituais: Grolandia, Islanda, Norvegia, Svecia, Gocia, Dania, Scocia;
  • menos habituais: Engronelant, Estotiland, Drogeo, Icaria, Frisland;

Candido Costa, em 1896, relata uma versão dos descobrimentos medievais da América, em muito referindo-se à tese do antiquário Carl Christian Rafn (1795-1864):

Em 861 a Islândia terá sido descoberta por um pirata norueguês que a denominou "Sneeland", a que se seguiu um outro, de nome Floko que lhe deu o nome actual. Candido Costa não deixa de anotar que os piratas escandinavos visitariam a Gronelândia desde o Séc. VI.

Em 863 há ainda relato de uma viagem à Islândia de Gardar, normando de origem sueca. Logo de seguida, em 868, alguns aristocratas descontentes com o reinado do rei Harald da Noruega terão decidido formar governo na Islândia, sob regência de Ingolf. Em 928 a colónia florescia, e a partir da Islândia em 982, Eric "o Ruivo" estabelece uma outra colónia na Gronelândia.

Em 985, Bjorn Hieriolfson terá navegado nas costas da América e comunicado isso ao filho de Eric, que ficou conhecido como Leif Ericson. A viagem de Leif é colocada em 1001, estabelecendo colónias em Helleland (Terra Pedregosa), Markland (Terra de Mato) e Vinland (Terra do Vinho), a primeira das quais Candido Costa associa à Terra Nova, e as seguintes a partes do continente americano.

O sucessor de Leif é apontado como Thorfinn Harbefeue, que se casou na Gronelândia e teve um filho, já na América, em 1008, de nome Snorr. Desse Snorr descenderiam os bispos da Islândia: Thorlak, Bjoern e Brand.

Para confirmar esta presença, pelo menos na Gronelândia, C. Rafn apontou uma pedra rúnica descoberta por Pelinut em 1824, a 73ºN de latitude, que diria:

Erling Sigvalson, Bjorn Hordeson e Endride Addon, sábado antes de Gagnday (25 de Abril), levantaram este montam de pedras e limparam este lugar no ano de 1135.

Ou seja, estamos em latitudes acima do Estreito de Davis (1587), na Baía de Baffin (1616), com a diferença de 500 anos. As dificuldades surgidas 500 anos depois podem estar relacionadas com um "arrefecimento global" do planeta, que tornou impraticáveis viagens a latitudes tão elevadas. E este apontamento tem alguma relevância para as concepções actuais de "aquecimento global".

Acrescenta Candido Costa que a igreja de Hamburgo já reconheceria em 834 a Gronelândia, havendo mesmo menção numa Breve de Gregorio IV, papa em 827. Em 1383 chegou notícia de ter falecido 6 anos antes um bispo de terras americanas. Houve notícia em 1121 de um bispo Eric ter sido transportado da Gronelândia para Vinland, para conversão dos compatriotas que ainda seriam pagãos. Mesmo em 1443 o Papa Eugénio IV terá designado um bispo para a Gronelândia, e esse conhecimento é confirmado na Bula Exinjuncto de Nicolao V.

A reportada a viagem à Islândia e Gronelândia, dos irmãos Antonio e Nicolao Zeno, conforme o mapa, em 1380, em serviço de um princípe das Ilhas Faroé, passa assim por novidade apenas nalgumas latitudes.

Em 1418 a Gronelândia sofre uma invasão e destruição completa da colónia. Isso é atribuído a um Princípe Zichmni (que alguns associam a um Conde de Orkney, Henry Sinclair, pretensamente templário... o nome parecerá mais árabe).

Há ainda a lenda do princípe de Gales, Madoc, que teria viajado com a sua corte para a América, no Séc. XII, e uma eventual relação linguistica com índios brancos, que falavam uma língua que estaria entre o Galês e o Português, de acordo com os primeiros colonos...

Mas talvez a parte mais interessante no trabalho de Candido Costa é ele centrar o seu trabalho na data da descoberta do Brasil (22 de Abril, corrigido pelo calendário a 3 de Maio). Apenas como trabalho de rodapé surge toda a restante descrição histórica... diz assim:

"Além do que fica exposto, este livro contém elementos que comprovam o conhecimento que tinham da América antigos povos do Oriente e da Europa, antes que Colombo houvesse aventurado à empresa da qual resultou a sua maior glória. Nesse contexto não se revela a forma elevada dos que se abalançaram com a filosofia da história a tornar sumptuoso e aprimorado o assunto, que descrevo pela rama, sem fitar as altitudes a que os mais competentes possam atingir. (...) Não entro tão pouco nos complicados meandros da lei geral da evolução para formar o conjunto de apreciações filosóficas, até à época do grande acontecimento pelo qual se tornou conhecido definitivamente o continente americano."

domingo, 18 de abril de 2010

Jerusalem no Livro de Marinharia

Na sequência de resposta anterior, coloco aqui Jerusalém no Mapa do Livro da Marinharia (João de Lisboa, m. 1525)




O Livro de Marinharia é uma fonte de surpresas...


No detalhe do mapa podemos ver Jerusalém com as "5 quinas" como bandeira...
(e no mapa geral podemos ver uma possível localização do Lago Vitória, nascente do Nilo)

Nem se trata de caso isolado, há outros mapas, de fonte diversa, como o Mapa de Cantino, que evidenciam bandeiras cristãs em Jerusalém (há também em Jaffa - actualmente Tel Aviv), e por todo o Mar Vermelho.

Jerusalém. O domínio do Mar Vermelho, Mar Pérsico, e da Península Arábica é efectivo no tempo de Afonso de Albuquerque, que conquista Suez, junto ao Sinai. Invencível, em 1515, ameaça a conquista de Meca para em troca do corpo do Profeta Maomé, obter as cidades santas. Nesse mesmo ano, é urgentemente substituído por Lopo Soares de Albergaria... Consta oficialmente que o "César do Oriente" terá então morrido, "combalido com o desgoto".

- Poderá ter acontecido que Jerusalém não precisasse de ser conquistada? Que a prerrogativa de paz/guerra que D. João II tinha auferido, e que Poliziano menciona, lhe permitisse ter o acesso de Jerusalém, a troco do acesso dos muçulmanos a Meca?...

Afonso de Albuquerque terá feito demasiadas conquistas em pouco tempo... Talvez seja por isso que D. Manuel irá insistir com o filho, Brás de Albuquerque, para que adopte o nome do pai, e assim lhe sejam tardiamente assacadas parte daquelas conquistas extemporâneas. Porém, o filho não terá aceite! No pequeno tempo de luzes posterior, com D. Sebastião, consegue uma publicação corrigida das cartas do pai.

Lago Vitória. Apesar de oficialmente o interior de África não ter sido explorado nesta altura, etc, etc... podemos ver neste mapa uma localização razoável para o Lago Vitória, enquanto nascente do Nilo, onde até se notam ilhas internas ao lago.

Tejo Mahalay. Após o post anterior, recebi uma mensagem [de Knight-Templar], assinalando que se discutia que o monumento "mais belo do mundo" teria efectivamente o nome do Rio Tejo.
De facto, pode-se seguir uma discussão corrente num fórum da BBC.... gerada por um livro de 1965 de Shri P. N. Oak, que o associa a um Templo de Shiva, hindú. No entanto, julgo que ninguém procurou associar nada à presença portuguesa. Terá sido obra dos "senhores de Agra"...
Parece ninguém estranhar o facto de Agra ter sido fundada (ou refundada) em 1504... numa altura em que Francisco de Almeida era Vice-Rei da Índia. Francisco de Almeida que dizia justamente ser melhor política colocar/apoiar "marajás colaborantes", do que andar permanentemente em guerra.
Terá sido isto a continuidade da política de paz, de D. João II, que tanto Poliziano elogiava?
Acras. Não será também estranho haver:
  • Acra (Terra Santa),
  • ..... e surgirem na transição de 1500:
  • Accra (África, perto da Fortaleza da Mina), e
  • Agra (na Índia)...
A bandeira portuguesa alternou entre 7 e 8 castelos, durante os reinados de D. João II/D. Manuel. As arquitecturas octogonais estão presentes na Charola do Convento de Cristo (de origem no início templário), na Cúpula da Rocha em Jerusalém, e também de forma mais discreta no tal "Tejo Mahalay", conforme parece que os senhores de Agra lhe chamavam:

Tejo Mahalay
... que tal como uma estória camoniana, ficou imortalizado como um monumento ao amor.

domingo, 11 de abril de 2010

Correspondência de D. João II

Na obra "Portugal e os Estrangeiros", de Manoel Bernardes Branco (1879), encontramos um relato de uma troca de cartas entre o humanista italiano Angelo Policiano (1454-1494) e El-Rey D. João II... (a tradução do latim é de Teófilo Braga):


De Angelo Policiano a D. João II

Angelo Policiano a D. João por graça de Deus rei invictissimo de Portugal e dos Algarves, d'aquém e d'além mar em África e senhor de Guiné, saúde !

Comquanto nem a minha condição nem o meu saber nem merecimento algum meu sejam tais que eu julgue ser-me lícito escrever-vos, rei invicto, todavia a vossa grandeza, lustre e glória, os vossos louvores, espalhados já por toda a terra, têm-me assombrado de modo que, de si mesma, a própria pena arde em desejos de apresentar-vos letras minhas, atestar-vos os meus sentimentos, exprimir-vos a minha simpatia e, finalmente, render-vos graças em nome de todos quantos pertencemos a este século, o qual agora, por favor dos vossos méritos quasi-divinos, ousa já denodadamente competir com os vetustos séculos e com toda a antiguidade.

De feito, se a brevidade de uma carta ou a consideração do tempo o consentira, a mesma verdade me dera ousadia para que tentasse mostrar que nem lauréis nem dourados carros de nenhum antigo herói podem ser comparados às vossas glórias e imortais feitos.
Sim: — deixando atraz os combates que, ainda em tenros anos, empenhastes contra os povos Ímpios da insofrida Africa, os poderosíssimos exércitos de inimigos apartados uns dos outros que derrotaste, as praças que rendeste, as prêas que fizeste, as leis que impuseste a nações barbaras e indómitas, passando não menos em silêncio os brazões pacíficos, que não cederiam a palma às glórias guerreiras, — que grandioso e vasto quadro de proezas apenas acreditáveis se me não oferecia, se eu fosse comemorar as vagas do túmido e soberbo oceano, antes intactas e sem carreira aberta, provocadas e quebrantadas pelos vossos lenhos, as balizas de Hércules desprezadas, o mundo que havia sido mutilado, restituído a si mesmo, e aquela Barbaria, d'antes nem por vagas notícias de nós assaz conhecida, selvagem, feroz, vivendo sem organização regular, sem figura de lei, sem religião, quasi ao modo de brutos animais, agora trazida à policia humana, à brandura de trato, suavidade de costumes e, até, aos sentimentos religiosos!

Que lugar tão azado não teria eu então para recontar os preciosos benefícios que os habitantes do nosso continente d'ali receberam, os abundantes recursos que de lá vieram para nos melhorar e opulentar a existência, o engrandecimento que até à história antiga coube, a fé que adquiriram antigas narrativas que outr'ora escassamente se podiam acreditar; e, por outro lado, a quebra que tiveram na admiração? Então haveria eu também de absolver de toda a suspeita de falsidade o grande Platão e os annaes seculares do Egipto, que, sem prestarem crédito, fizeram menção d'esse Oceano por ti subjugado com poderosos exércitos.

De maneira que também confessaria que razão teve Alexandre de Macedónia em se amesquinhar lamentando que ainda restassem outros mundos às suas vitórias.
Na verdade que outra coisa nos fizestes vós, preclaro príncipe, senão — achar seria expressão inadequada — trazer de trevas eternas e, quasi diria, do antigo caos, para a luz que nos ilumina, outras terras, outro mar, outros mandos e, em cabo, outros astros?
— Mas a que fim veio espraiar-me agora n'este assunto?
Foi para vos rogar em nome não só do presente século, senão também de toda a posteridade e de todos os povos, que não sofrais que de tão sublimes obras feneça ou se perca a memória que deve ser eternizada, mas antes ordeneis lhe alce um padrão a voz dos varões doutos, à qual nem o dente roedor do tempo no seu curso silencioso vale a consumir.
E, se dais favor ao merecimento, porque não o haveis de dar à glória, companheira do merecimento? E se ganhais por mão a todos os monarcas em generosidade de brios e grandeza de ânimo, esta vida humana tão breve, tão instável, que de tão escassas e minguadas esperanças depende em tão angustiados limites é estreitada, porque a não haveis de prolongar com a carreira imortal de inacessível glória?

Por que não há-de a memória de feitos grandiosos transmitir-se aos vossos successores mesmos, para que essas illustres façanhas que jamais encontrarão segundas, lhes aproveitem servindo-lhes também de ensinamento e norma?
Porque não haveis de deixar um como typo a vossos filhos e futuros netos, para que nenhum degenére jamais da perene e abonada virtude dos seus maiores e a tenham diante dos olhos como traslado para se lhes formar o caracter e educar o coração segundo a príncipes convém?
Finalmente porque não hão-de também os outros reis que nascerem sob os desvairados climas do mundo, haver de vós, senão que imitar, ao menos que admirar?
Ora fazer extremadas proezas e não lhes dar realce e luz com as letras o mesmo vale que procriar filhos de peregrina gentileza e não lhes dar sustentação. Não aconteça, não, rei excelso, que essas vossas glorias, tão credoras da imortalidade fiquem escondidas n'aquele vasto acervo da nossa fragilidade, em que jazem sepultados os trabalhos de todos quantos não houveram os sufrágios dos varões de saber prestante.
Acordai-vos de Alexandre, acordai-vos de César, os dois nomes principais que a fastosa antiguidade nos alardeia. De um, assaz memorada é a exclamação que soltou ao pé do túmulo de Aquiles, chamando afortunado ao mancebo por ter encontrado em Homero o pregoeiro das suas glorias. O segundo, ainda quando estava apercebido para travar combate, e quasi que até no meio do estrondo das pugnas, com tal esmero compunha as memórias dos seus feitos, que nenhuma obra a crítica julga por tão bem trabalhada que a puríssima elegância d'aquele autor lhe não leve a palma.
A estes, logo, vós deveis, ao menos imitar, a estes a quem nos outros respeitos desmesuradamente vos avantajais. O que vos acabo de dizer, compreendereis que é a expressão da verdade e não a linguagem da adulação, quando para vós mesmo volverdes os olhos da vossa inteligência soberana e tiverdes atentamente examinado os formosos títulos da vossa glória, magestade e poderio, e considerado reflectidamente a que fastígio estais subido nas cousas humanas.

De feito, ver-vos-eis rei da Lusitânia, isto é (para resumir em uma palavra o que entendo), de um povo de romanos de que outr'ora numerosas colónias, segundo a história refere, se achavam disseminadas n'esta região mais do que em nenhuma outra. Vereis em vós o libertador da Africa, essa terceira divisão do orbe, que desde já, pelos vossos esforços, solta dos ferros dos bárbaros, exulta cada vez mais com a esperança de completa liberdade. Vereis em vós também o domador d'aquelle vasto e indignado oceano, a cujos primeiros embates o mesmo Hércules, o subjugador do mundo, enfiou.

Reconhecereis em vós o defensor da santa fé cristã e da verdadeira religião, e o mais potente arbitro da paz e da guerra contra a perfídia de Mahomé, alagando só com a vossa magestade, aquela pestilencial fúria e acabando as guerras mais consideráveis só com o terror do vosso nome, só com a maravilha do vosso valor. E ao mesmo tempo, senhor das chaves de um novo mundo, como que abrangeis em um punhado os seus numerosos golfos e os promontórios e as praias e as ilhas e os portos e as praças e as cidades à beira-mar, e quasi tendes nas vossas mãos nações inúmeras, aonde, contudo, nem a própria fama com as suas azas tão velozes havia até então chegado.
E quão grandioso não é ver os reis mais ignotos arderem em desejos de vos visitar, venerar as vossas pisadas, e correrem açodados a ajoelhar aos vossos pés e a receberem à porfia das vossas mãos tão poderosas pela fé como pelas armas as águas purificadoras do baptismo?! e ver, espertados pelo amor de uma virtude jamais ouvida dos antigos séculos, os habitantes dos mais apartados confins da terra acudirem apinhados à vossa presença, e já todo o meio-dia, arrancado do fundo das suas moradas, dar-se pressa a correr venerabundo ante vós, para de mais perto contemplar esse semblante celestial, a auréola de gloria que vos adorna a régia fronte, essa magestade, fiel transumpto da divina?!

Com tais grandezas venha alguém pôr em parallelo a tomada de Babilónia, bem que ufana dos seus muros de tijolo, a rota dos bárbaros do oriente, já do próprio natural tão fugazes! Venha pôr em parallelo a provocação, não muito esforçada das iras do Scytha nómada, vagando por dilatadas campinas, contanto que não lance também à conta de louvor o assassinato, em meio dos festins, dos mais caros amigos, nem a adopção de estrangeiros costumes e desdourosas adulações! Ponha em parallelo também o vencimento das Gálias a custo subjugadas ao cabo de dez annos, ou outros feitos inferiores a este contanto que não tenha encómios para o sangue de concidadãos e parentes barbaramente vertido por todo o orbe!
— Assim que, rei sem par, vós sobre todos (estoure embora a inveja), vós sobre todos sois digno de eternas honras. A vós, primeiro do que a ninguém, devem de ser consagradas as nossas vigílias, quero dizer, as de todos quantos somos sacerdotes das Musas. Por tal razão (se, homem desconhecido, mas a vós mui dedicado, encontro alguma fé junto à vossa pessoa), seja incumbido, eu vos conjuro, a sujeitos idóneos o encargo de pôr em memória (sem duvida que interinamente), em qualquer língua, em qualquer estilo o assunto tão ubertoso dos feitos praticados por vós e pelos vossos, obra que, mais tarde, tanto os outros em quem ferve o mesmo entusiasmo, como também nós mesmos, envidando todas as forças, hajamos de polir e aperfeiçoar. Na verdade, pedi, não há muito, a estes súbditos vossos que estão aqui, mancebos de subido talento e elevado carácter, os filhos de Teixeira, vosso Chanceller-mór, que por sua intervenção me fossem aí copiadas as memórias (se é que existem) dos vossos feitos: prometeram eles desempenhar-se cuidadosamente no encargo em respeito da obrigação que devem ao seu preceptor; todavia não quiz eu faltar a mim próprio, mas assentei de vos endereçar eu mesmo esta carta, rei mui indulgente e clemente, a quem já posso dar também o nome de meu, querendo antes poder ser arguido de arrojado, se escrevesse, do que de apoucado de ânimo, se me conservasse silencioso.

— No que respeita a minha pessoa, não é, certo, ordinária a minha condição, mas, na profissão das letras, também alguns crêem que não é de todo inferior a minha reputação. Quasi de menino fui ou criado (e porventura que esta circunstância virá a propósito) no seio da honesta família d'aquele varão illustre, o primeiro personagem na sua tão florente república, Lourenço de Medícis. Não cedendo a ninguém em dedicação à vossa pessoa, soube ele, falando-me de vós, acender em mim entusiasmo tão ardente pelos vossos merecimentos, que dia e noite eu não largo de pensar no pregão dos vossos feitos, e o mais fervoroso voto que eu agora faço é que mo seja outorgada força, poder e finalmente ensejo, para que o vosso nome tão digno de divinos elogios, os testemunhos da vossa piedade, integridade, rectidão, temperança, prudência, juízo, os da vossa justiça, fortaleza, providência, liberalidade e grandeza de alma, e enfim os de tantas obras, tantas e tão exímias façanhas vossas, tenham monumentos fiéis levantados, ainda que seja por mim, na lingua latina ou grega, de modo que não haja vicissitude de humanos acontecimentos, nem assalto da varia e inconstante fortuna nem vetustade de séculos que valha a extingui-los.

Resposta de D. João II
D. João por graça de Deus, rei de Portugal e dos Algarves, d'áquem e d'além mar em África, e senhor de Guiné, ao mui douto varão e prezado amigo, Angelo Policiano, saúde !

A vossa agradável carta, que já há muito li, e, sobretudo o que amiudadas vezes nos tem referido o nosso querido Chanceller-mór João Teixeira, me deu cabal conhecimento de quanto vos interessa a nossa glória (se em cousas humanas alguma existe) e quanto desejais salvar do olvido com as vossas letras o nosso nome e feitos. Tal vontade, ainda que é uma prova assaz clara de entranhado afecto e summa deferência, todavia parece-nos que nasce ainda mais da bondade do vosso coração, da agudeza de engenho e da copia de saber, que miram a alvo mais remontado.

Assim que nos sentimos grandemente penhorados de vós, e, quando o tempo e as circunstâncias o demandarem, testemunharemos mais amplamente o nosso agradecimento, esperando que não hajais de vos arrepender da afeição que nos dedicais. Respondendo em breves termos ao assunto da vossa carta, dir-vos-emos que somos gratos sobremaneira ao oferecimento que tão frequentemente nos fazeis dos vossos serviços e affectuosa diligencia para nos alcançardes a imortalidade, e estimamo-lo. E para pôr em efeito o intento, teremos todo o cuidado de ordenar que a nossa crónica, que, seguindo o uso do nosso reino, mandamos escrever era língua vernácula, seja composta no idioma toscano ou pelo menos no latim comum, enviando-vo-la depois, o mais depressa que ser possa, para que vós, sem vos afastardes do caminho da verdade, assegurando a nossa memória, a adorneis com as graças e gravidade do vosso estilo e com a vossa erudição, e a aperfeiçoeis de forma que, ao menos com o auxílio da vossa eloquência, se torne digna de ser lida.
Com efeito, muito releva (e melhor o sabeis) o estilo em que é recontado cada feito, embora ilustre. Porquanto, assim como a experiência mostra que as comidas melhores de natureza, se houve menos asseio em as guisar, são avisadamente engeitadas, assim a história, se lhe falecem as devidas galas e donaire próprio, havemo-la por sem mérito e merecedora de que a enjeitem.

Defeitos d'esta ordem, porém, não há que receá-los, se fordes vós, sujeito de tão subidas partes e tão versado em todas as boas letras, quem haja de tomar a peito a história dos nossos feitos. Esta é pois a nossa intenção. Resta, Angelo amigo, que aos filhos do nosso Chanceller-mór, fidalgos da nossa casa, consagreis os maiores disvelos. Sem duvida que a vossa bondade não havia mister recomendação para assim o fazerdes espontaneamente, contudo, encarecidamente vos rogamos que por nosso respeito tenha ainda algum aumento vosso zelo. E na verdade a eles deveis toda a gratidão, porque o pai e os filhos, aquele com os louvores, estes com os testemunhos provadíssimos do vosso saber, não cessam de vos exaltar, falando-nos de vós, e de fazer chegar até estes confins da terra, a fama do vosso nome, o que não faz pouco era prole da vossa glória e reputação. Mas aos próprios mancebos nós damos os emboras, por lhes ter cabido o viver em tempo em que da fonte abundante da vossa ciência possam beber alguma instrução, para que, servindo primeiro a Deus, e depois a nós, hajam de merecer e conquistar tanto a bem-aventurança celeste, como a terrestre.

De Lisboa, aos 23 dias do mês de Outubro de 1491.

sábado, 13 de março de 2010

Presença Islâmica na América

Imagem parcial de um mapa de 1550.
(clique na imagem para aumentar)



Na sequência da publicação dos textos no Knol foi indicada a referência para um texto da Duquesa de Medina Sidonia. Esse texto atestava a presença árabe na América.
Com efeito, num mapa do Livro de Marinharia isso é já suspeito, pela bandeira triangular vermelha num Castelo, entre os dois Castelos com bandeira das quinas, na zona do Peru/Equador/Colombia.

Este mapa Anónimo, na Bodleian Library - Oxford, de 1550, de acordo com a datação constante na Portugaliae Monumenta Cartographica, indicia muito mais:

(i) Tem uma costa americana muito bem delineada da Florida até à Terra Nova.

(ii) Coloca nessa costa, alternadamente, bandeiras quadradas (nacionais?), com bandeiras triangulares com um crescente. Ou seja, uma eventual presença alternada portuguesa/islâmica em toda a costa ocidental da América do Norte.

(iii) O mapa sinaliza a Terra Nova com uma bandeira diferente, cristã, indicando a presença de algum território autónomo, de origem cristã, conforme atestado no texto de Francisco de Souza, de 1570. Acresce a isso o desenho de um "barco a remos" próximo da Terra Nova, talvez para sinalizar que a viagem descrita por Souza teria ocorrido mesmo em tempos visigodos, no séc. VIII.

(iv) O mapa continua, colocando mais bandeiras islâmicas na zona da bacia Amazónica.

À parte o texto surpreendente de Medina-Sidónia, que coloca a presença islâmica na América Central e do Sul, não encontrámos nenhuma outra fonte que justifique mais esta presença de bandeiras islâmicas em território americano, especialmente no norte da América.

A estória da História continua mal contada, e a precisar de muitos ajustamentos!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Passagem Noroeste

No mapa de Lopo Homem (Atlas Miller, 1519), surge um contorno da península Escandinava, que nada tem a ver com o contorno existente...
No entanto, do outro lado do mundo, no Canada, a latitudes muito a norte, acima do Labrador e da Terra Nova, encontramos uma ilha cujos contornos se assemelham em muito aos que vemos no mapa de Lopo Homem. Ao contrário de 1502, o contorno da Gronelândia, presente no mapa de Cantino, não aparece neste Atlas... talvez aqui encontremos a explicação.
Assinalamos com linhas vermelhas as semelhanças dos contornos.Seguindo pela mesma latitude, a partir desta ilha aqui apresentada, estava a Passagem Noroeste, só descoberta no século XX, conforme http://pt.wikipedia.org/wiki/Passagem_do_Noroeste