quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Globo de João de Lisboa

Num dos mapas do Livro de Marinharia, de João Lisboa (que faleceu em 1525), está a imagem mais pormenorizada de um globo terrestre numa projecção polar centrada no pólo norte, e tem servido de logotipo a este Blog. 
Este globo é talvez a compilação mais clara do seu conhecimento na época, reunido noutros mapas. 
[clicar para aumentar]
Globo de João de Lisboa (1514)

A atribuição que consta na Portugalia Monumenta Cartographica faz datar o mapa para 1560, já muito depois da morte de João de Lisboa, sendo claro que há de facto inserções posteriores, que levam a essa datação. 
Porém, para inconveniência natural, o Livro de Marinharia começa dizendo 
"feito por João de Lisboa em 1514"
As poucas incongruências apontadas por Armando Cortesão em 1960 são referentes a inserções noutros mapas constantes do Livro de Marinharia, que colocam por exemplo um banco de D. João de Castro (escrito de forma diferente), e que só poderiam levar a essa datação tardia de 1560, pela clara corrupção do original. Ainda que se admitisse essa datação tardia, o mapa mundo revela pormenores notáveis, como um extenso conhecimento da América, só admitido muito posteriormente.

De facto, o mapa deve ter sido feito logo em 1514. Apesar de apresentar o Estreito de Magalhães, não o designa como tal. Isso é natural, pois a passagem de Magalhães é feita 7 anos depois... não seria natural estar ausente num mapa de 1560.
Os pontos fundamentais assinalados são:
- na América: a Terra Nova, Nuova Espanha, Peru, Brasill,
- na Europa/Médio Oriente: a Alemanha, Turquia
- em África: o Cabo da Boa Esperança, Preste João, Guiné(?)
- na Ásia/Oceânia: a Pérsia, a China, o Japão, Java, Maluco, Nova Guiné
(esta identificação de nomes está sujeita a algum erro, sendo difícil na resolução disponível)

Colocar-se-ia ainda a questão do Japão, sendo representado muito antes da sua descoberta oficial. No entanto reparamos que não existe nenhuma bandeira associada. Há duas bandeiras associadas a Java e Timor, que poderiam ser aceites desde 1512, e mesmo na China, com a chegada em 1513.
Sendo um mapa de 1514 é ainda natural que não coloque bandeiras na península arábica, numa altura em que Afonso de Albuquerque procurava estabelecer o domínio completo no Índico. Num mapa posterior, de 1560, essa escolha de bandeiras seria injustificável em vários locais, como por exemplo, em Ormuz ou no Ceilão.
Não há quase dúvidas que este mapa só pode ser anterior à circum-navegação de Magalhães, revelando no entanto um profundo conhecimento de toda a costa americana. Tem aliás o cuidado de não colar a parte americana à parte asiática, revelando um conhecimento do Estreito de Bering, quase 200 anos antes de Bering, e que na altura seria denominado Estreito de Anian.

O mapa usa uma representação polar única, com centro no pólo norte, algo particularmente adaptado a uma navegação pela bússola, da qual trata o seu Tratado da Agulha de Marear.
É possível converter esse mapa num planisfério, que leva aliás a uma representação consistente com os outros mapas inclusos no Livro de Marinharia. Apresentamos na figura seguinte essa conversão, tendo em atenção a adicional distorção que corta um dos quadrantes (a desproporção de 3/4 é corrigida com expansão de 4/3 centrada no meridano de Tordesilhas):

Planisfério obtido, a partir da representação polar no globo de João de Lisboa de 1514.

A partir desta projecção em planisfério, é possível encontrar claras semelhanças com a parte correcta do mapa Theatrum Mundi de João Lavanha (excluindo a parte aparentemente fantasiosa do continente antártico aí representado a sul):


Conforme já referido anteriormente, o mapa de João de Lisboa de 1514 não é significativamente muito diferente de alguns mapas feitos dois séculos depois. A parte mais significativa talvez seja a habitual omissão da Austrália (e também da Gronelândia... que tem a sua melhor representação na cópia de Cantino, de 1502), apresentando apenas uma mal definida Nova Guiné e Maluco.

Só depois da viagem de Cook, mais de 250 anos depois, foi possível apresentar mapas com informação global superior, incluindo a Austrália completa. 
Por que razão se regrediu no conhecimento, e se procurou redatar ou ignorar estes mapas? Por que razão se aceitou que Magalhães ou Colombo tivessem sido os protagonistas de façanhas bem conhecidas, e muito mais antigas? 
Pois esses são segredos que devem alimentar outros segredos e instituições secretas... aqui apenas vamos apontando algumas estórias mal contadas.

Ver também:

domingo, 10 de outubro de 2010

Magos (2)

(continuação de post anterior)

Zaratustra pode ter sido contemporâneo de Moisés (c. 1500 a.C), mas é normalmente tido como vivendo por volta de 1000 a.C. De acordo com os registos míticos, foi considerado como aquele que tudo percebeu, acabando por questionar uma hierarquia de uma casta de sacerdotes - Magos. Só séculos depois, a Pérsia Aqueménida, a grande rival grega, terá enveredado pela filosofia do Zoroastrismo até à chegada de Alexandre Magno. 
A Batalha de Gaugamela (Mosaico de Alexandre, na Casa do Fauno em Pompeia)

Qual a estranha situação por essa altura do milénio? As terras férteis situadas na Europa, por exemplo em Espanha ou França, estariam a salvo de incursões das diversas majestosas civilizações que se foram desenvolvendo... De acordo com a História conhecida, essas terras nunca mereceram atenção particular de egípcios, mesopotâmicos ou outros. As terras da Hispânia foram exploradas pelo comércio Fenício (talvez Hebreu), merecendo pouca atenção pelos gregos, egipicios ou persas. À excepção dos cartagineses, todas estas civilizações mais antigas desconsideraram a Itália, e a crescente presença romana. Os gregos apenas se estabeleceram no Sul de Itália e Sicília, na chamada Magna Grécia, nunca ousando caminhar para os territórios mais a norte, muito mais férteis. Os Gregos estabelecem-se em terrenos acidentados, próprios da pastorícia, mas inóspitos para a agricultura... os legados gregos parecem difusos na Hispânia mediterrânica, e mesmo no sul de França.

Independentemente de algumas alterações climáticas, é quase indiscutível que a civilização Egípcia se estabeleceu nas margens do Nilo, beneficiando de alguma fertilidade. Por outro lado isso dá a entender que não se aventuraram para terrenos longe do Nilo, nem são conhecidos registos significativos para além dessa circunscrição. Apesar de se conhecerem navegações egípcias e projectos de conquista, a antiquíssima civilização egípcia não parece ter-se afirmado para além do Nilo. 

O que condicionou antigas civilizações... a não procurar uma colonização noutras paragens, mesmo mediterrânicas... deixando os terrenos de Espanha, Itália, ou França, para povos pouco civilizados?
O que faz Alexandre Magno prosseguir a sua invasão para Oriente e não Ocidente, mesmo depois de derrotados Egípcios e Persas? 

Já no Séc. I a.C., o próprio Tito Lívio questiona como teria sido Roma capaz de se defender de Alexandre... isto ao mesmo tempo que é suposto Júlio César ter ficado frustrado com as proezas de Alexandre quando chegado à Hispania para o seu consulado. Depois de Alexandre ter derrotado o fenício rei de Tiro, o que impediria retaliações ou guerra com Cartago? O que teria deixado Alexandre com fama de conquistador mundial, se nem tão pouco se aventurou a ocidente da Grécia?

É mais atrás que começa a nossa estória... e com uma pergunta de Esfínge:
- quantos 3 séculos teve a humanidade para sair de carroças e entrar em foguetões?
Só seria possível nestes últimos 3 séculos e não noutros?
Ou antes, por que razão o conhecimento de máquinas, de Héron, de leis mecânicas, de Arquimedes, retrocedeu, ou foi perdido, por um povo altamente técnico e pragmático, como os Romanos?
Que sentido faz o achado arqueológico da Pilha de Bagdad, que funcionava como bateria eléctrica primitiva?
Pilha de Bagdad

De acordo com os dados arqueológicos, a inteligência criadora existe há vários milhares de anos, e houve muitos 3 séculos em tantos milhares de anos!
- Isso coloca a questão noutro ponto... haveria ou não a possibilidade de uma civilização antiga ter atingido o ponto de uma Atlântida?... Com as devidas condições de estabilidade, não é difícil aceitar que podem ter havido civilizações muito antigas, que tivessem evoluído para graus de desenvolvimento impensáveis, ao longo de milénios, enquanto numa determinada parte do mundo, uma parte esquecida, mais primitiva, continuaria em estado de subdesenvolvimento. 
Basta aliás pensar o choque civilizacional na altura dos descobrimentos, para entender que visitantes humanos bastante mais evoluídos poderiam ser vistos como deuses! Autênticos Gods/Gotts, palavras similares a Goths... ou seja, aos tais Godos que António Galvão quis como responsáveis pela estagnação civilizacional da Idade Média?


Quando vimos anteriormente as incongruências na datação de descobrimentos, que constavam em mapas anteriores (p.ex. Estreito de Bering), vemos que houve condicionantes para retenção das navegações.
Só a partir de certa altura, após Cook, houve licença para redescobrir o que faltava do mundo (a América a Norte da Califórnia e Austrália). 
Essa condicionante de rejeição, só encontra explicação em causas externas. Causas externas que condicionavam o desenvolvimento de civilizações humanas, a menos que um certo apaziguamento aos deuses, entidades externas, fosse apaziguado.
Era uma casta de sacerdotes, de magos, que se encarregava de comunicar a vontade desses deuses... deuses esses que poderiam não ser mais do que representantes de uma civilização mais avançada tecnologicamente.

As mudanças nas civilizações, o domínio de uma relativamente a outras, coincidiria com uma agenda externa. Progressos seriam admitidos quando autorizados, quando não autorizados, a religião e os seus magos encarregar-se-iam de suspender progressos civilizacionais.
Quando Akhenaton (ou Sócrates) questionam os deuses, e o seu poder, são os próprios magos a remediar essa dúvida. A ira desses deuses externos poderia ser medida na forma como foi destrutiva a intervenção por pilhagens dos Povos do Mar, eternos desconhecidos na sua origem.
É neste contexto que fica relevante uma chancela prévia dada pelos Reis Magos, ao nascimento de Cristo... é uma maneira de outorgar que essa mensagem civilizacional estaria pronta para ser difundida, pelo interior de um império bélico - o Império Romano. Todos os progressos são estagnados, havendo uma auto-censura de desenvolvimento, seria esse o acordo com a invasão dos godos.

Só muito mais tarde, após as navegações portuguesas, é autorizado um novo desenvolvimento, com a autorização de navegar a Colombo. Nessa fase, haveria um desfasamento de 1000 anos entre uma civilização que tivesse prosseguido o caminho técnico-científico que foi retomado no renascimento.
Essa autorização de navegação é limitada.... não permite alguns territórios proibidos, como a América do Norte, especialmente na sua Costa Oeste, ou toda a Austrália ou Nova Zelândia.
A partir da autorização de navegação a Cook dá-se o um novo progresso civilizacional que culmina na era industrial, e na exploração de mundos para além do nosso planeta. Mais uma vez, após o desígnio de navegar mais longe, de atingir a Lua, lançado por Kennedy, as explorações são interrompidas ou tímidas... 

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Magos

As referências a Reis Magos (Gaspar, Melchior, Baltazar) levam-nos imediatamente ao registo do Novo Testamento, sobre o seu fugaz e misterioso aparecimento aquando do nascimento de Jesus Cristo. Seguindo uma estrela, encontraram o filho de Maria, e entregaram presentes na forma de ouro, incenso e mirra. Este é o registo bem conhecido que aprendemos desde crianças, notando ainda que em Espanha é no dia 6 de Janeiro que se distribuem os presentes natalícios.

As referências a Magos aparecem noutro contexto dos descobrimentos portugueses. Por exemplo, no Livro dos Três Místicos, a que tive apenas acesso a esta página:

encontramos nas margens laterais os possíveis místicos/magos (à esquerda, um vestido de castanho e outro de verde; à direita, um vestido de vermelho e outro de azul). Do lado direito contrasta, uma representação cadavérica, com a estilizada, do lado esquerdo. O livro é de D. Manuel, tratado como César Manuel.

Na obra de Francisco de Souza (1570) encontramos esta referência a uma ilha Santa Cruz dos Reis Magos, a oeste da Madeira:
A oeste da Ilha da Madeira 65 ou 70 legoas, está uma grande Ilha que se chama Santa Cruz dos Reis-magos, que tem de comprido trinta legoas, e de largo no mais estreito quinze legoas, e pola banda do sul está em 32 graos, e corre athé 34 ao norte, e corre-se noroeste susueste, e tem por todas as faces grandes Bahias e enseadas, grandes arvoredos, e Ribeiras, e boas agoas, como d'isto mais largamente tenho informações dos antigos, e se arruma pola maneira aquy posta em uma carta Franceza, que tenho onde está aluminada, e presumesse que tem gado.
Tal ilha não existe, e a melhor descrição para possível localização será na zona referenciada aqui, onde há assinaláveis baixios... a menos que a Ilha da Madeira fosse outra, ou que o livro tivesse uma especulação falsa, não censurada pela Inquisição. 
Na Madeira, acabamos por encontrar afinal uma outra referência, à Praia dos Reis Magos, em Santa Cruz, é ainda na Madeira que encontramos o profundo Canhão da Calheta, tal como o Canhão da Nazaré.

No Brasil, na cidade de Natal, encontramos a Fortaleza dos Reis Magos, edificada em 1598:

Natal, Belém, Reis Magos, na mesma zona nordeste do Brasil, acabam por estar associadas na toponímia ao nascimento de Cristo... acidentalmente, ou não, já que as habituais explicações se mostram com a fortuitidade da cidade, ou do forte, ter sido erigido em data natalícia.

Ainda em Portugal, acabamos por ter uma antiga localidade pré-histórica, cujo nome Salva-Terra de Magos, tem origens desconhecidas, mas consta prender-se com uma origem associada a magos persas.

Continuando por essa associação persa, vamos aos antigos registos de magos, mais precisamente recuamos ao tempo de Zaratustra, e a Ka'ba-ye Zartosht:

(continua...)

sábado, 18 de setembro de 2010

Teogonias (1)

A Teogonia de Hesíodo (séc. VIII a.C) é talvez um dos relatos mais interessantes da criação do mundo. 
Do Caos, surge a Terra (Geia) e o Céu (Úrano/Celus), mas também alguns deuses primevos mais estranhos, como o Amor (Erébo) que dá origem ao Dia e à Noite... ainda antes da criação do Sol. O relato judaico bíblico da origem da luz, também separa o dia da noite (1º dia), antes da criação do Sol e estrelas (4º dia).
Não havendo registo único e claro da Teogonia grega, nesse tempo inicial Hesíodo considera ainda Pontos (mar primevo) e Tártaro (mundo inferior).
Durante muito tempo ficou a designação de Ponto Euxino para o Mar Negro, ambas as designações sugerindo que o mar primevo seria aquele espaço. A essa visão circunscrita à região, juntamos a designação de Tártaros aos habitantes da região que seria também depois dos Medos. É ainda aí, na Cólquida (vizinha da Ibéria caucasiana), que se situam muitos dos mitos gregos... e também é comum associar aí o mito diluviano (resultante duma eventual abertura do estreito do Dardanelos).

O mapa de Heródoto - reconstrução na Biblioteca do Congresso (Washington DC)
põe em evidência a importância do Mar Negro (Pontus Euxinus), do Mar Cáspio (Kaspion Pelagus/Caspium Mare), e do Mar de Azov (Maiotis Limne/Palus Maeotis), estes últimos considerados mares verdes. 
Notamos que o mar Vermelho (Eritreu) é associado ao Índico e o outro é denominado golfo Arábico; outro facto que se evidencia é a notação Celta, para uma larga região hispânica após as colunas de Hércules.
Talvez o mais importante é notar uma tripla divisão continental: Europa, Ásia e Líbia... o nome África é muito posterior - e nunca foi claro que designasse apenas a África actual (... poderia incluir a América).

Neste primeiro apontamento sobre Teogonias, o que importa deixar claro é que estas efabulações parecem ser ridículas face ao nosso entendimento científico, mas não o são necessariamente.
Porquê? Porque envolvem uma formação progressiva, e não simultânea.

Não há nenhuma razão para dissociar o dia/noite do aparecimento do Sol... isso seria óbvio para qualquer entendimento, por mais primitivo que fosse. Essa separação vai contra o nosso bom senso!
Qual a razão de uma Teogonia que vai contra o mais elementar bom senso? 
- A única razão plausível parece ser reportar-se a uma realidade diferente.
Ou seja, os relatos antigos parecem levar-nos a uma realidade temporal onde poderia haver Luz sem Sol.
Isso não faz nenhum sentido...
- pois, mas também não faz nenhum sentido Deus criar o homem à sua imagem (na versão bíblica), ou falar-se em deuses gregos antropomórficos. 

Tratam-se de mitos claramente antropocêntricos, e colocam necessariamente a Terra na origem da criação. 
Ou seja, a concepção planetária, com a inclusão do Sol, só poderá ser uma versão posterior de uma construção universal, que se inicia na Terra. 
Digamos que a construção divina não teria ficado completa numa única fase...
- talvez numa fase inicial, tivesse havido uma Terra plana, com um mar circundante, e um céu delimitador;
- talvez só numa fase posterior, tivesse sido criado um Sol como fonte de luz;
- só ainda em fase posterior, aparece a presença humana, distinta da presença divina, num mundo essencialmente diferente daquele que conhecemos hoje!
- só numa fase mais recente a Terra foi definida como esférica, e só depois a rotação solar passou a heliocêntrica... e da mesma forma, só posteriormente foram definidas estrelas semelhantes e galáxias.

Em suma, descreve-se aquilo que é normalmente entendido como a evolução da compreensão humana, por deficiência de conhecimento... Mas por força da relatividade do conhecimento, tanto podemos aceitar que isso foi deficiência humana, como poderá ter sido constatação humana, sem deficiência especial. Tudo depende se a crença é científica nos moldes actuais, ou se credita alguns fundamentos míticos.

O outro ponto especial, onde os relatos míticos concordam, sem razão histórica aparente, é na existência de uma "idade de ouro", associado a um tempo de felicidade e imortalidade humana, antes do estabelecimento da Idade do Cobre.
É o tempo de supremacia de Cronos/Saturno, filho de Úrano e Gaia, ceifador da genitália paterna que ao cair no Oceano produz Afrodite. Cronos é implacável para os seus filhos deuses, mas é tido como exemplar para os humanos... os romanos dedicavam a Saturno/Cronos, as Saturnálias - que podem ter motivado a celebração posterior do Carnaval... onde os papéis escravo/senhor eram invertidos.
Prometeu levando o fogo aos humanos.

Associar-se-à o tempo feliz de Cronos a um eventual tempo do Jardim do Paraíso... antes dos mitos da tentação do conhecimento de Eva e de Pandora-Prometeu. Altura em que alguns homens procuraram imitar os deuses, e definindo escravos passaram a assumir o destino destes, quais deuses. 
É nessa terceira fase que aparece o mundo de Zeus, o filho de Cronos, que depõe o pai (Saturno é visto no seu exílio divino como um rei humano do Lácio), e que se inicia a construção do mundo como o conhecemos... um mundo pós-diluviano! 
Os mitos/relatos antigos mantêm-se, mas deixam de fazer sentido na nova construção universal... a Terra deixou de ser plana e rodeada por água! 
Os humanos passam a estar sujeitos aos caprichos do Dodekatheon (o Conselho dos 12 deuses do Olimpo, comandados por Zeus)... as lembranças de Cronos, do Paraíso Perdido, passaram a fazer parte do passado!

Como apontamento final, ligando ao post anterior sobre a Moeda, notamos que não há propriamente nenhum Deus ligado ao dinheiro... o que demonstra de alguma forma que esse aspecto civilizacional, ligado ao aspecto social do comércio, embebeu a sua importância no tempo muito mais recente (após Alexandre).
Mesmo Hermes/Mercúrio, era um deus mais ligado à comunicação, mensagem, conexão que só parcialmente se aplicava no comércio.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Contos de reis

A moeda é o maior e mais extenso acordo social, que actualmente cobre todo o planeta Terra.
Se houver desacordo constante entre a valoração dos bens, a moeda é ineficaz.
Actualmente (*) a moeda tem um suporte em ouro, mas isso pressupõe que o próprio ouro é reconhecido como material valioso por todas as sociedades... coisa que estava longe de ser comum há 500 anos atrás. A civilização ocidental acabou por exportar essa valoração de um metal precioso que era banal em civilizações pré-colombianas.
A maior difusão da moeda, conforme a conhecemos, começou especialmente com Alexandre Magno, período do qual restam ainda muitas moedas, de ouro, prata, etc.
Moeda de ouro de ALEXANDROU (Alexandre Magno) [imagem]

A utilização de moedas foi depois extensa no período Romano, usando os mesmo moldes... uma cara do governante, e uma coroa que outorgava. O ouro passou a ser indubitavelmente o metal precioso de eleição.
Esta influência foi transmitida aos povos bárbaros, existindo mesmo cópias celtas de moedas gregas.

Independentemente dos análogos noutras culturas, nomeadamente na chinesa, a influência do mundo greco-romano fez-se ainda pelo acordo social que uniu diversos povos numa convenção de valoração da moeda, e especialmente do ouro, enquanto sistema de troca.
Ao longo da Idade Média essa convenção social foi-se solidificando, mas esse período era ainda marcado pela diferença explícita entre castas sociais aristocratas, onde as trocas eram maioritariamente directas - as populações viajavam pouco. O reconhecimento do poder do dinheiro, acabou por ser selado a partir do fim da Idade Média, pelas Cruzadas e início das Descobertas, ao fazer aparecer um poder de sedução popular nas mãos de uma classe burguesa, não aristocrata. 
O valor da moeda nas transacções deu um poder à burguesia na cativação do povo, e o estatuto de servidão podia ser inato, mas também passou a ser comprado por adesão à riqueza implícita na troca aceite de bens. O reconhecimento progressivo da moeda acabou por comprometer o ascendente militar, nas relações humanas, e a ascenção da burguesia na Alta Idade Média. 

O período de Descobertas no séc. XVI é extremamente interessante pois marca o início do choque valorativo. Uma Europa sedenta de ouro encontraria civilizações que menosprezavam essa mais valia.
A produção de moedas de ouro, começa a ser extensa em Portugal, a partir de D. Duarte, denunciando já implicitamente contactos com paragens onde o ouro é abundante...
Meio Real (D. Duarte) [imagem

O Infante D. Henrique terá talvez sido o grande artífice dessa economia à escala global.
A transacção efectuada sob segredo das diferenças culturais, permitia lucros fabulosos, e o próprio início da escravatura em África terá tido como motivo, não apenas a mão-de-obra gratuita, mas também como moeda de troca civilizacional, conforme descreve Duarte Pacheco Pereira (Esmeraldo Situ Orbis, pag. 50):

(...) os quaes no modo do seu comercio tem esta maneira. Todo aquele que quer vender escravo ou outra cousa se vai a um lugar certo para isto ordenado & ata o dito escravo a uma árvore & faz uma cova na terra daquela quantidade que lhe parece bem & isto feito arreda-se fora um bom pedaço & então vem o Rosto de Cam & se é contente de encher a dita cova de ouro, enche-a & senão tapa-a com a terra & faz outra mais pequena & arreda-se fora & como isto é acabado vem seu dono do escravo & vê aquela cova que fez o Rosto de Cam, & se é contente aparta-se outra vez fora & tornado o Rosto de Cam ali enche a cova de ouro & este modo têm em seu comercio & assim nos escravos como nas outras mercadorias & eu falei com homens que isto viram & os mercadores Mandiguas vão às feiras de Bétú & Bambarraná & Dabahá comprar este ouro que hão daquela monstruosa gente & tornado o Rio de Guambea (...)

O segredo da diferença de valores foi uma moeda bem explorada pelo comércio português... como é sabido, bugigangas eram trocadas por metais preciosos (ou outras raridades na Europa e Islão).
Afinal, acima da moeda, ainda imperavam os segredos de regime como maior valia. O acesso à corte poderia ser facilitado por dinheiro, mas não assegurava o conhecimento dos códigos que regiam a aristocracia.
Apesar da ascenção da burguesia, esse poder permaneceu em grande parte intocável na aristocracia. Houve revoltas, revoluções burguesas... por exemplo com Cromwell, mas só a partir da Revolução Francesa a burguesia começa a tomar efectiva parte visível na governação europeia. O período industrial será determinante.

Uma das designações mais antigas para a moeda nacional é o Conto de Reis, remontando ao séc. XIV.
Um conto é suposto ser equivalente a um milhão, mas podemos ir mais longe na especulação sobre a origem da palavra... mais concretamente aos Contos das Mil e uma Noites
É bem conhecida a história de Xerazade com o califa Xariar, que a troco de uma estória todas as noites vai sendo poupada da morte anunciada. Para além das instrutivas estórias que aí se encontram compiladas, e que fazem parte da nossa juventude, é especialmente interessante a valoração do entretenimento do monarca.
Ou seja, numa corte despótica e dominante onde o tédio só era interrompido por sinais de batalhas, os simples contos instrutivos teriam um efectivo valor como moeda de troca. 
Não será assim de estranhar uma possível relação entre a designação monetária "conto de reis", com uma efectiva estória - um conto para reis. Idealmente seria um conto instrutivo para a plebe, mas com um significado implícito, secreto, acessível apenas pela elite.

O poder pode ser exercido explicitamente pela força, ou pela manifestação implícita de um factor dissuasivo no inimigo. A aristocracia valeu-se sempre muito mais da dissuasão do que da manifestação repressiva explícita, com o intuito de não incendiar revoltas. 
A moeda, enquanto cativador dos desejos materiais do povo, ao ser imposta como convenção social unificadora pela burguesia, permitiu-lhe uma efectiva arma dissuasora e assim ascender por direito próprio a um patamar mais elevado, aristocrata, onde só lhe estariam interditos alguns códigos e segredos milenares.

Apesar de quase indiscutível, a fragilidade desse poder, da moeda, baseia-se numa convenção social que pode ser abalada pelos valores que representa. Ou seja, uma sociedade alternativa pode ser constituída por simples substituição, ou recusa, da moeda actual. O descrédito da actual moeda, e dos valores associados, representaria o fim desta ascensão da actual burguesia, e dos laços que estabeleceu com a aristocracia anterior.
O valor da moeda reside numa fé de que ela será reconhecida como troca em qualquer transacção social. Serve razoavelmente as pretensões materiais, mas tem ainda como ameaça os valores espirituais ou morais, embebidos na sociedade, através da cultura e religião. Não é aí capaz de servir como moeda eficaz, vai contando apenas com a progressiva menorização desses valores, ao edificar uma sociedade materialista.

________
(*)… o suporte ouro desvaneceu-se desde Bretton Woods e Nixon (1973).

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Cores (2)

As obras de arte que nos chegaram da Grécia Antiga, no seu período áureo, têm uma característica pouco mencionada - a ausência de cor! É claro que há suposições de que não seria assim, e podemos ver uma magnífica tentativa de reconstrução computacional do Parténon, com os seus frisos pintados:
Podemos acreditar que sim, mas o facto é tanto mais notório, quanto as próprias cerâmicas aparecem em tons monocromáticos (e.g. wiki).
Mas, há que distinguir períodos... um inicial dórico, ou anterior, contemporâneo da "colorida" civilização cretense, onde abundava os temas multi-cromáticos como ainda se vislumbram em Cnossos... 
Essa abundância de cor era ainda visível nas civilizações do Egipto e da Mesopotâmia.

Em Roma volta a notar-se a ausência de cor... podemos falar nos vários mosaicos coloridos, por exemplo de Pompeia... mas para além da cidade vitimada pela ira de Vulcano, os diversos mosaicos podem reportar-se a períodos mais tardios do Império Romano.

No seu período áureo, de feitos inauditos e celebrados, a cultura greco-romana aparenta ser monocromática!
Será que na mesma altura, isso se passaria com outras civilizações? Ou será apenas uma coincidência do legado cultural mais importante, que nos chegou?

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mapas de Dieppe


Nos Mapas de Dieppe (ver, por exemplo, descrição em portugalliae) encontramos, para além de possíveis representações da Austrália... assunto sobre o qual não vale a pena insistir (é quase inquestionável que à época, c. 1547, a Austrália era já bem conhecida), encontramos nos frisos circundantes cenas evocativas de cariz mitológico. Neste primeiro friso, um governante Rei entrega a Hermes/Mercúrio uma mensagem que entrega a uma deusa dos mares, provavelmente Tétis. O pormenor mais interessante é a representada cidade com altas torres, envolta num certo cinzentismo, que seria mais apropriado para representa uma cidade industrial, 3 séculos depois. Nota-se ainda um sol poente sobre o mar habitado por ninfas...
No outro friso, a cena mitológica repete-se, com a entrega da mensagem a Diana/Artemisa, passando eventualmente por Marte e Vénus... Diana está numa quadriga!

A referência a este frisos com motivos mitológicos prende-se com os fados mitológicos que regressaram no Séc.XVI, sendo bem ilustrados nos Lusíadas de Camões.

Numa corte que durante um milénio negou o transporte por meio da roda, pode perceber-se até que ponto as condicionantes regressivas embebiam as políticas decididas. Essas políticas implícitas, secretas, que condicionaram o transporte, que condicionaram o conhecimento, só transpareciam subrepticiamente nas obras artísticas.
Podemos falar em condicionantes tenebrosas do obscurantismo religioso, mas é surpreendente o ressurgimento de toda a mitologia greco-romana no período renascentista.
À parte as variações na nomenclatura, os romanos adoptaram a mitologia grega. A conquista da Grécia/Corinto (146 BCE) está ligada a dois nomes que também tiveram relevância na Hispania:
- Quinto Cecílio Metelo, que derrotou os celtiberos e combateu Viriato,
- Lúcio Múmio Acaico, que foi pretor na Hispania.

Coincidência ou não, o mundo estagnou durante o milénio medieval em que se omitiu a mitologia greco-romana, ainda que prevalecesse o calendário juliano.

As navegações seriam retomadas oficialmente para as Américas quando houve uma chancela papal obtida por Colombo para navegar. Em Natal, Brasil, encontra-se uma coluna romana, denominada "capitolina"... (supostamente oferecida por Itália para comemorar um acto de aviação - fica o registo, abstendo-me de comentar o estranho presente da Itália nacionalista de Mussolini). 

Se em 1492 houve uma autorização de estender o território conhecido para as Américas, houve uma parcela significativa do mundo que permaneceu obscura. Compreendia basicamente toda a costa oeste americana, acima da Califórnia, e a Austrália. Só após 1775, quando os EUA se libertavam do jugo inglês, as viagens de Cook permitiriam abrir esse Novo mundo, reconhecido, visitado, mas oculto.
Cândido Costa, no final do Séc.XIX chega a falar em 5000 monumentos que atestariam evidências de presença pré-columbiana.

Será difícil de determinar se os jogos cortesãos eram produto de uma corte enfastiada, desejosa de mostrar a sua prevalência divina, ou se ainda acima disso, estariam sujeitos a determinações externas, para além das cortes europeias. Estariam os territórios ocultos abandonados, ou sob domínio civilizacional anterior?

Ou seja, tanto podemos crer que os territórios eram silvestres, abandonados sem propósito, ou albergavam um eventual paraíso terrestre, dominado por uma civilização tão antiga que controlaria as restantes, de tal forma superior, que seriam vistos como deuses. Afinal, o que distingue o homem actual do homem do Séc.XVIII senão pouco mais de dois séculos de civilização. 
Do mundo dos coches ao mundo dos foguetões pareceram bastar dois séculos de progresso... quantos dois séculos houve na história da humanidade? Quantas vezes houve oportunidade de dar o salto para um avanço tecnológico significativo? Desde egípcios, babilónios, gregos, hindus, chineses, houve inúmeros avanços da ciência interrompidos para só serem retomados após o renascimento. Estagnações de milénios para rompantes avanços num par de séculos... Estagnações de facto, ou induzidas?

Termino com o mote para o próximo post:


... porque, para além das cortes europeias, estes Magos, de barretes frígios, quais portadores da revolução republicana, foram intervenientes pontuais em várias Estórias.
Figuraram em histórias, em nomes de ilhas, praias, terras, fortes, mas a sua proveniência foi sempre misteriosa e aclamada.

domingo, 1 de agosto de 2010

Cores (1)

Estamos habituados a ver cores em bandeiras, em clubes, em logotipos, e sabemos que nalguns casos há algumas tradições associadas a essas cores.

Um episódio interessante que colocou em evidência uma importância das cores na conjuntura política foi a Revolta de Nika. Ocorreu em 11 de Janeiro de 532, em Constantinopla, após um incidente desportivo, com quadrigas no hipódromo, entre facções Azuis e Verdes.
Já seria tradição que o Azul estaria ligado a uma alta classe, aristocrática, cristã ortodoxa, enquanto o Verde estava ligado a uma pequena burguesia em crescendo, cristã monofisista. Era habitual alguns tumultos entre os grupos (onde se incluiriam ainda Vermelhos e Brancos), que se agravaram por aliança nesta ocasião entre Verdes e Azuis, o que colocou em causa o poder de Justiniano. Em situação de pressão, Justiniano conseguiu chamar Belisário para terminar com a revolta que pretendia colocar Hypatius no poder. A revolta terminou num banho de sangue, e Hypatius foi morto. 
Associado ao nome Hypatia está a lenda acerca da destruição da Biblioteca de Alexandria, no século anterior. Facto essencialmente simbólico, mas que representa a perda inestimável de todo o conhecimento antigo, durante os mil anos seguintes. Isto complementa a perda de conhecimento, e o retrocesso ou estagnação civilizacional... pelo lado oriental do Império Romano.

- Será de notar que no Séc. XV ainda se considerava a definição do início temporal pela Era de César e não pelo nascimento de Jesus Cristo.
- A questão teológica associada aos partidos Azul e Verde, insere-se numa querela entre as Naturezas de Cristo, discutida no Concílio de Calcedônia em 451, que excluiu o monofisismo, tendo ficado aceite a dualidade.


terça-feira, 20 de julho de 2010

Cola do Dragão

Por vezes, convém colocar as coisas nos termos que foram usados, e sobre os quais não restam dúvidas que foram usados, antes das designações actuais.
Já falámos no Estreito de Anian (hoje de Bering), é evidente a designação Monte Prasso (para o Cabo da Boa Esperança), que consta até no mapa de Cantino, e que (conforme reparou KT) é a designação usada na correspondência de D. João II com o Papa.
Falamos hoje da Cola do Dragão, depois Estreito de Magalhães, e para que fique claro, colocamos em mapa estes 3 pontos:

Fazemos a propósito de saudar a edição online da Biblioteca Nacional da obra de António Galvão (1490-1557), trata-se do

Ler António Galvão e o prefácio do seu contemporâneo Francisco de Sousa Tavares, é mais um passo para perceber o inexplicável... a razão de tanta omissão, ao longo de tanto tempo. A propósito deste assunto diz António Galvão (pág. 22):
No ano de 1428 diz que foi o Infante D. Pedro a Inglaterra, França, Alemanha, à Casa Santa, e a outras daquela banda, tornou por Itália, esteve em Roma, e Veneza, trouxe de lá um Mapamundo que tinha todo o âmbito da terra, e o Estreito de Magalhães se chamava "Cola do Dragão", o Cabo de Boa Esperança: "Fronteira de África", e que deste padrão se ajudara o Infante D. Henrique em seu descobrimento. Francisco de Sousa Tavares me disse que no ano de 1528 o Infante D. Fernando lhe mostrara um Mapa que se achara no Cartório de Alcobaça que havia mais de cento e vinte anos que era feito, o qual tinha toda a navegação da India, com o Cabo de Boa Esperança, como as de agora, se assim é isto, já em tempo passado era tanto como agora, ou mais, descoberto.
António Galvão diz muito mais... damos um exemplo:
No ano de 1353, em tempo do Imperador Frederico Barba Rossa, diz que foi ter a Lubres, cidade da Alemanha uma nau com certos Indios numa canoa, que são navios de remo, parecem-se aos tones de Cochim, porém esta canoa devia ser da Costa da Florida Bacalhaos, e aquela terra por estar na mesma altura da Alemanha, que os Tudescos ficaram espantados do tal navio e gente, por não saberem de onde eram, nem entenderem sua linguagem, nem terem notícia daquela terra, como agora, porque bem os podia ali levar o vento e água, como vemos que trazem as almadias de Quiloa, Moçambique, Sofala, e Ilha de Santa Elena, que é um ponto de terra que está naquele grão mar daquela Costa, e Cabo de Boa Esperança, tão separada.
Mas não dará todas as respostas...
Fala das origens em Tubal, Ibero, das navegações de gregos, fenícios, cartagineses, egípcios, chineses!
É especialmente notável ele referir viagens chinesas e romanas... completamente esquecidas!

É um herói português de proezas militares ímpares em Maluco que acaba desgraçado num Hospital durante 17 anos... (Maluco - relembramos ser uma zona que incluía as Ilhas Molucas...)
Não é acidental a conotação Maluco, pois isto é um jogo mental que é levado às últimas consequências.

Porquê?
Começamos pelo "Museu dos Coches", ou antes, citamos a Wikipedia sobre o tema Carruagem:
As carruagens surgiram, inicialmente no século XIII a.C, inventado pelos Hititas com uso militar e não civil, posteriormente as carruagens apareceram na Roma Antiga, no séc I a.C.. No entanto não circulavam na sua maioria dentro das cidades, pois o movimento era tanto que iriam gerar muitos problemas. Estas podiam apenas circular durante a noite dentro das cidades para transporte de mercadorias. Após a Queda do Império Romano do Ocidente a técnica de fazer carruagens desapareceu.
Só já no séc.XVI as carruagens começaram a ser utilizadas. As classes mais ricas eram as únicas que se podiam dar ao luxo de possuir um veículo destes. No séc. XVII as suspensões melhoraram e por conseguinte as carruagens também. 
Depois cito o próprio António Galvão:
Depois que os Romanos senhorearam a melhor parte do mundo se fizeram muitos, e notáveis descobrimentos, mas vieram os Godos, Mouros e outros Bárbaros, e destruiram tudo porque no ano 412 AD tomaram a cidade de Roma, (...)  
E no ano de 474 AD se perdeu o Império de Roma e depois disto vieram os Longobardos a Itália no qual tempo andavam os demónios tão soltos pela terra que tomaram a figura de Moisés, e os Judeus enganados foram muitos no mar afogados. E a seita Ariana prevalecia.
E Merlim em Inglaterra foi neste tempo. E no ano 611 AD foi Mahamede e os de sua seita que tomaram por força África e Espanha. 
Assim que segundo parece nestas idades todo o Mundo ardia, por onde dizem que esteve 400 anos tão apagado e escurecido que não ousava nenhum Povo andar de uma parte para outra, por mar, nem terra, tão grande abalo e mudança se fez em tudo que nenhuma cousa ficou em seu ser, e estado, assim Monarquias como Reinos, Senhorios e Religiões, Leis, Artes, Ciências, Navegações, escrituras que disso havia, foi tudo queimado, e consumido segundo consta porque os Godos eram tão cobiçosos da glória mundana, que quiseram começar em si outro Novo Mundo, e que do passado não houvesse nenhuma memória.

Tal como depois D. Sebastião, António Galvão é um herói que procura ir longe de mais... é claro que os portugueses já tinham ido longe de mais no Século XV.

Em nossa opinião, António Galvão tem uma visão parcialmente acertada, mas devemos ir ainda mais atrás para procurar a origem do problema... e não será difícil.
O dragão colou o seu rasto... no post anterior começámos no Império Romano, mas deveríamos ter recuado ainda um pouco mais!

Aquilo que cola o dragão é o seu apego histórico - é por aí que encontramos o registo. 
Tudo foi apagado? 
Qual o registo histórico elevado ao máximo expoente, e nunca beliscado pelos tempos conturbados?
  • Começamos pela Guerra de Tróia?
  • Começamos por Platão, pela "alegoria da caverna", pela Atlântida, ou pelo destino de Sócrates?
  • Começamos pelo discípulo de Aristóteles, Alexandre Magno e pela conquista ocultada da Hispania?
A herança greco-romana, elevada ao máximo expoente por Alexandre Magno, nunca foi beliscada!
Porquê?

quinta-feira, 24 de junho de 2010

West-fall

A influência que as obras de Bernardo de Brito e Florião do Campo (ou Floriano de Ocampo) tiveram na cultura portuguesa e ibérica é importantíssima.
Mito ou não, a lenda do fundador Tubal, neto de Noé, influenciou a cultura ibérica durante toda a Idade Moderna, e só foi abandonada, diria mesmo anulada, já na Idade Contemporânea.
Qualquer historiador sério não pode estudar a literatura e a mentalidade entre os séculos XV a XVIII sem ter em atenção os mitos que se fortaleciam com a afirmação da identidade ibérica, fruto da expansão dos descobrimentos. 
Hoje temos ainda algumas obras que referem Floriano de Ocampo como um propagandista ao serviço de Filipe II e dos Habsburgos... é natural que sim, mas uma coisa é analisar criticamente a obra, outra coisa é ignorar qualquer referência, como se o assunto não tivesse existido. Ainda hoje os registos evidenciam que tocar nesse assunto tem aspecto de "doença contagiosa" que se evita, ou se toca com muita precaução e desdém!
10º Trabalho: Hércules contra Gerião (monstro de 3 corpos)
[os 3 corpos seriam os filhos de Gerião]
[imagem]

Com a derrota dos Habsburgos na Guerra dos Trinta Anos, e com o Tratado de Westphalia (1648), para além da balcanização da Alemanha (a chamada Deutsche Welle), a Espanha dos Habsburgos acabou por ceder o seu papel de grande potência mundial para a França, Holanda, Suécia e Dinamarca... Após o Tratado dos Pirinéus (1659), esta paz entre França e Espanha deixou o restaurado Portugal numa situação de fragilidade perante as novas potências, depois de 80 anos sem autonomia militar.
Esta situação foi ainda sentida internamente em Portugal, traduzindo-se numa procura de apoio na Inglaterra, com o casamento de D. Catarina de Bragança e Charles II de Inglaterra, e também numa guerra interna entre os irmãos D. Afonso VI e D. Pedro II. 
Tal como o Infante Duarte de Bragança foi sacrificado, também D. Afonso VI acabou por morrer em cativeiro, sendo mais uma vítima dessa Paz de Vestfália, decidida a reescrever a História mundial. 
A partir de D. Pedro II, seria claro que Portugal não iria arriscar de novo a sua perda de independência com guerras desnecessárias. Contaria com a diplomacia e com uma política de alianças europeia, que foi especialmente fortalecida com o Tratado de Methuen (1703), mas nunca mais teve uma armada capaz de ser ofensiva, limitando-se a gerir com dificuldade a defesa dos já imensos territórios.
O aspecto mais sinistro desta história não terá sido tanto o fim da independência, mas muito mais o fim da memória colectiva... Não foi uma alteração significativa, no sentido em que essa perda de memória ocorrera já no acordo de D. Manuel com os Reis Católicos, e depois com os Habsburgos espanhóis... a América perdera-se progressivamente, e só D. Sebastião terá tentado restaurar essa independência, de forma intempestiva, com as consequências conhecidas.

Após a queda do Império Romano, a História tinha sido reescrita pelos sucessores Godos, incapazes de aceitar o legado cultural dos ocupados, superior ao dos ocupantes. Esta terá sido a primeira Revolução Cultural, para um apagamento da memória. A situação parece de tal forma caricata, que a roda era uma invenção menosprezada para a locomoção da nobreza e combate, sendo usada mais pelo povo nos seus trabalhos.
O Renascimento, iniciado na Alta Idade Média, especialmente após as Cruzadas, e a influência árabe peninsular, levou a alguma mudança de mentalidades, e a um reencontro com toda a mitologia e herança cultural deixada pelos Romanos e Gregos. Esse reencontro foi tímido, lento, e algo escondido do poder e valores culturais instituídos... Terá tido talvez a maior expressão em Portugal após o Infante D. Pedro até D. João II, mas depois a influência dominante abafadora manteve-se pelo apoio generalizado ao papado, e pelo chancelado poder dos Habsburgos. 
A Paz de Vestfália irá terminar isso, parecendo haver uma decisão de reescrever a História... mas no sentido também de omitir parte dos legados do Renascimento, ibéricos, e de outras culturas orientais, distribuindo as descobertas pelos diversos novos vencedores. Apesar de tudo, entra em curso mais uma Revolução Cultural do Esquecimento, de apropriação de conhecimento alheio, chancelado sob a forma de descoberta, quando aceite e divulgada pelos demais. Terá sido assim com uma parte das navegações portuguesas (e da antiguidade), mas também com outras descobertas técnicas e científicas orientais. 
Até hoje essa história foi assim colada, mantendo-se esse acordo de omissão!

A escravatura surge aqui como elemento condutor perturbante. Sendo característica da antiguidade, será de perguntar em que altura da História os descendentes dos escravos romanos se libertaram dessa sua condição de classe inferior?
A República Romana sofreu três revoltas de escravos, sendo a de Spartacus, a que teve a mais profunda influência, por ter sido a última e a que mais ameaçou a solidez da República. A revolta acabou por ser contida e reprimida de forma exemplar, com a crucificação dos milhares de sobreviventes ao longo da Via Ápia. Essa decisão de Marco Licínio Crasso, é na minha opinião a verdadeira razão para a expressão "Erro Crasso". Porquê? Porque a cruz passou a ser um símbolo entre as centenas de milhares de escravos, que viam de forma revoltada o destino que Roma lhes reservava. A situação deverá ter passado a ser muito instável... pequenas cruzes passariam de mão em mão, simbolizando uma nova revolta iminente. Exactamente ao mesmo tempo a República precisou de poderes ditatoriais, conferidos ao triunvirato com César, e depois seguir-se-à a época Imperial. A república acaba por sucumbir a essa necessidade de mão forte, e os imperadores acabam por instituir a filosofia do "pão e circo".
A sociedade romana torna-se mais violenta, para conter a possibilidade de nova revolta. Mas, ao mesmo tempo, por via da universalização da religião cristã por Paulo de Tarso (São Paulo), os escravos acabam por aceitar uma filosofia completamente diferente que se irá impor como estratégia inteligente. A cruz representando a ira, contra a chacina da Via Ápia, passa a representar uma cruz de abnegação, de uma religião que promove o sacrifício e a submissão... o ideal para uma religião de escravos! Não será acidental que a Via Ápia contenha muitas das sepulturas dos primeiros cristãos. A filosofia cristã estabiliza o Império e acaba por impor-se dentro da sua estrutura a partir de Constantino. Será talvez por isso que a revolta de Spartacus será a última revolta significativa de escravos, esse pilar base da sociedade romana resignara-se culturalmente à sua condição, por influência da religião.

O fim do Império Romano terminou com a Escravatura, mas substitui-a de facto pela Servidão. Uma forma dissimulada de escravatura generalizada que imperou na Idade Média, com uma pequena aristocracia dominante. O crescimento do comércio simbolizado pelas Repúblicas italianas (Veneza, e também Génova, Florença...), por Portugal (com a Rés-pública), e depois pela Holanda, fez crescer uma pressão da nova burguesia sobre a aristocracia europeia.
O problema da República acabou por ser de novo colocado, primeiro com Cromwell na Inglaterra, mas tal como com Napoleão em França, e com as jovens repúblicas do Século XX, todas acabaram por evoluir no sentido de guerras civis, seguidas de poder despótico (outros casos são - Lenine na Rússia, Mussolini na Itália, Salazar em Portugal, Hitler na Alemanha, Franco em Espanha). Os "jovens" republicanos ao chegar ao poder não têm hipótese de segurar os jogos de bastidores, com toda a rede de segredos e cumplicidades na aristocracia estabelecida. Só o conseguirão fazer após a 2ª Guerra Mundial com o apoio de uma grande república (os E.U.A.), que floresceu fora da influência directa da Europa, e com o apoio necessário de uma "organização de bastidores iluminista", que retomou a herança secreta dos templários, e que foi aprendendo com os erros da Revolução Francesa e sucedâneos.
A consequência foi também o final da época mítica da tradição da cavalaria, os registos antigos e as tradições populares foram sacrificados ao pragmático sucesso da Revolução Industrial. Como Wagner ilustrou de forma épica, ficariam enterrados no Crepúsculo dos Deuses, os mitos antigos, como Artur e a Távola Redonda, Parseval e Lohengrin, Tristão e Isolda, e tantos outros conhecidos, e outros depois desconhecidos, como Tubal, Ibero, Hércules, Luso, etc... bem como todo o registo de navegações oceânicas de Ulisses, Salomão, Ptolomeu, etc...
É essa pesada herança de ocultação que pesa ainda sobre o mundo contemporâneo!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Brito & Bluteau

O padre jesuíta Raphael Bluteau (1638-1734), de ascendência francesa, viveu quase sempre em Portugal, e independentemente doutras considerações, tem uma obra notável:
que é talvez uma das primeiras enciclopédias, e claramente anterior à celebrada obra de Diderot e d'Alembert.
[Só alguns volumes estão disponíveis online: encontrei para as letras: A; B,C; O,P; T,U,V,X,Z]
Acerca da palavra Briga diz o seguinte:
BRIGA. Palavra gótica, que significava ajuntamento de gente, porque os Godos se ajuntavam em certos lugares, para consultarem sobre o modo de se defender sobre os que quisessem agravar. E daqui veio o verbo "Abrigar-se". Cresceram depois estas Brigas e vieram a compor cidades, conservando este mesmo nome, como Meróbriga, Flaviobriga, etc. E por quanto estes ajuntamentos ou Brigas se faziam sem cabeça, e sem pessoa de maior autoridade, à qual se obedecesse, havia nelas confusões (e pendências), que depois foram chamadas Brigas, não só em Hespanha, mas também em Itália, França, Inglaterra, etc. como se pode ver em papéis antigos, com que alega Ch. du Fresne no seu Glossário, explicando a palavra Briga. Diz o P. Fr. Bernardo de Britto, Tom. I da Monarchia Lusitana (fol. 14) que alega com Beroso, e outros antigos autores, que todas as cidades de Portugal e outras de Espanha, cujos nomes acabavam em Briga, como Lacobriga, no Algarve junto donde está agora a Vila de Lagos, Cetobriga, perto de Setuval, Medrobriga, junto a Portalegre, etc., adquiriram este nome em memória de Brigo, filho d'el Rey Jubalda, o qual sucedeu no Reino a seu pai, foi Senhor de Hespanha, e teve particular amor aos Lusitanos. Hoje entre nós Briga vem a ser o mesmo que Peleja. Pugna, Fem. Cic. Concertatio,onis. Fem. Terent. Houve uma grande briga: Magna pugna faita est.  (...) Briga de palavras: Rixa (...)

Esta descrição de Bluteau é particularmente interessante. Para além da variada informação, que chega a ser curiosa nos conceitos "briga", "rixa", "abrigar", mostra já a concepção jesuíta francesa de du Fresne que confrontava a versão portuguesa de Bernardo de Brito na sua monumental:
Bluteau não subtrai a informação de Brito, como acontecerá posteriormente. Nesta fase, início do Séc. XVIII, há ainda lugar às duas informações, mas nota-se já que o processo de "Revolução Cultural" está em curso... e passado pouco mais de um século, Alexandre Herculano terminará a tarefa, ignorando por completo qualquer informação baseada nos antigos cronistas.
Vejamos ainda como a tese de Du Fresne tem falhas óbvias... se o sufixo "briga" tivesse a sua origem nos Godos, então não se compreenderia a sua presença no nome de cidades na Hispânia, nomes adoptados pelos romanos, muito antes da chegada dos Godos. Poderia haver uma mistura entre as noções de Celtas e Godos sob uma mesma designação, mas Bluteau identifica distintamente os Celtas, colocando-os na Gália, também no Alentejo e Andaluzia, e dizendo que os Romanos lhes chamavam simplesmente Gallos.
Conclui-se assim que, por altura de Luis XIV, foi iniciada uma tentativa de história alternativa, identificada nesta passagem. Não muito sólida inicialmente, como constatamos nesta simples incoerência, mas que foi progressivamente corrigida, substituindo as versões anteriores.
Centocellas (perto de Belmonte)
Raphael Bluteau fala ainda de Centum Cellas.
CENTOCELLAS. Lugar da Lusitânia, tão antigo que dele faz menção Luitprando (c. 960) nos fragmentos (num. 255). Segunda a imemorial tradição este lugar é do Bispado da Guarda, junto ao rio Zêzere, perto de Belmonte, onde permanece a antiquissima Ermida de S. Cornélio, vizinha a uma Torre Quadrada de obra Romana, rasgada em muitas janelas, e acompanhada de várias e antigas ruínas, célebres vestígios de uma grande povoação. A cujo sítio chamam ainda hoje os vizinhos Centocellas, e afirmam, que este foi o lugar do desterro de São Cornélio (c. 250), e aquela Torre é aonde esteve preso, em cuja memória se erigiu a Ermida de seu nome. Vide Mon. Lusit. tom. 2. fol. 116.
De facto, Bernardo de Brito diz basicamente isso, no segundo volume (pág. 159) constante na Torre do Tombo:

... No Bispado da Guarda, junto ao Rio Zêzere, está uma Ermida antiga deste Santo, e junto dela uma torre de obra Romana, cercada de muitas janelas, onde há pedras de grandeza considerável, e havia outras que dali têm levado para várias partes, a qual obra se chama até hoje Centocellas, e querem afirmar os moradores daquela terra, que de tradição imemorial de seus antepassados, lhe ficou, ser aquela torre a própria em que S. Cornélio esteve desterrado e preso. Refiro o que há, que afirmar isto com certeza não mo consente a pouca evidência da História.

Para aqueles que denegriram sempre a fundamentação de Bernardo de Brito, a última frase é bastante elucidativa do trabalho cuidadoso e sustentado que levou a cabo. Nos excertos que li nota-se o cuidado em citar, nas margens laterais das folhas, as obras anteriores que usava, algo notável para o Séc. XVI.  

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago (1922-2010)

Caminho de Salomão (Fundação José Saramago)

José Saramago terminou o seu caminho de mortal, deixando-nos um valioso legado... descobri hoje este Caminho de Salomão, e como diria a sua mulher Pilar, um caminho pelo "Portugal Profundo" que é um profundo Portugal. 
Começa o caminho com Camões, quiçá complemento ao Ensaio sobre a Cegueira...
Faltou a Saramago escrever o Ensaio sobre a Mudez... ou se calhar escreveu, mas por naturalidade do título, ninguém o ouviu.

domingo, 13 de junho de 2010

Mapa com Sto. António

Mapa de João Teixeira Albernaz (1600-60)

No mapa de Juan de La Cosa de 1500, talvez o primeiro mapa espanhol (após a escola catalã), aparece uma imagem de São Cristovão, aludindo a uma relação entre as viagens do outro Cristovão - Colombo, e o santo padroeiro dos viajantes, cuja imagem era associada a transportar o menino Jesus. 
Muitos mapas dos Séculos XVI (fins) e XVII aparecem decorados com figuras de Nossa Senhora e do menino, resultado da crescente da afirmação do catolicismo, que invocava uma devoção à Imaculada Conceição, tornando-se uma característica acentuada elevada a padroeira nacional em 1646. Na devoção nacional e espanhola, como marca distintiva de implantação do catolicismo no povo, Nossa Senhora vai substituir progressivamente o papel de Jesus Cristo, a ponto da maioria das procissões e festas populares lhe serem dedicadas, sendo talvez uma assinalável excepção as festas do Senhor Santo Cristo nos Açores.  
É interessante que em paralelo começa a desenvolver-se em Portugal um culto a Santo António, associando-o também à imagem do menino Jesus, talvez por iniciativa dos franciscanos. 

Nesse sentido, é curioso apresentar aqui um mapa de João Teixeira Albernaz, que coloca uma imagem de Nossa Senhora, central, mas o menino Jesus está ao colo de Santo António... a poente.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Lusíadas - Canto IX (91)

Luis Vaz de Camões (1524-80)
[
quadro de José Malhoa]
Lusíadas (Canto IX)
91
Não eram senão prémios que reparte
Por feitos imortais e soberanos
O mundo com os varões, que esforço e arte
Divinos os fizeram, sendo humanos.
Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,
Eneias e Quirino, e os dois Tebanos,
Ceres, Palas e Juno, com Diana,
Todos foram de fraca carne humana.


92
Mas a Fama, trombeta de obras tais,
Lhe deu no mundo nomes tão estranhos
De Deuses, Semideuses imortais,
Indígetes, Heróicos e de Magnos.
Por isso, ó vós que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai já do sono do ócio ignavo,
Que o ânimo de livre faz escravo.


- No dia da morte de Camões, que começou por ser feriado em Lisboa, por iniciativa de Anselmo Braamcamp Freire, e que depois, em 1933, foi estabelecido como feriado nacional, fica aqui um registo apropriado ao tema dos posts anteriores.
No canto IX, nas estrofes 91 e 92, Camões explicita que alguns deuses mitológicos teriam sido humanos que a Fama elevara à condição divina... continua com um apelo heróico, que Dom Sebastião poderá ter levado demasiado a peito.   

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Ulyssippo

Um poema notável, esquecido, que reporta a origem de Lisboa a Ulisses, foi o composto por António de Sousa Macedo (1606-1682)... talvez mais conhecido pelo seu "Flores de Espanha, Excelências de Portugal". Mais uma vez fomos encontrar Ulyssippo por digitalização da Biblioteca do Michigan... numa reedição de 1848.

A edição original será contemporânea da Restauração da Independência, notando-se que a chancela dos últimos inquisidores, para autorização de publicação, é já de 31 Outubro de 1640.
António de Sousa Macedo 
[imagem]

António de Sousa Macedo, seria nomeado Barão de Mullingar (Irlanda), por Carlos II de Inglaterra, tendo integrado a comitiva que acompanhou D. Catarina de Bragança. Foi ainda embaixador na Holanda. É justamente nesta altura que a Inglaterra, dá novo ímpeto à iniciativa Mayflower (... Flor de Maio), peregrinação que motivou os Estados Unidos da América. A influência da corte portuguesa de D. Catarina ficou homenageada no bairro Queens de Nova Iorque.

Curioso ainda, é o título dado a seu filho (Luís de Sousa Macedo): Barão da Ilha Grande de Joanes (identificada à Ilha de Marajó, na foz do Amazonas). A que Joanes se referiria essa Ilha Grande, na linha de demarcação do meridiano de Tordesilhas, se não a D. João II?

Colocamos aqui a primeira estrofe que é denominada Argumento, e nove outras primeiras estrofes, onde se torna claro que o mito da fundação de Lisboa por Ulisses, e toda a mitologia subjacente, estaria bem presente desde o fim do Séc. XV ao Séc. XIX. Não parece sério fazer qualquer História de Portugal, sem mencionar estes mitos que influenciavam o pensamento português. É até secundário saber da veracidade do mito, o que interessa é que esse mito influenciou, e muito, o pensamento português.

Não se trata de um estilo camoniano, mas permite entender completamente o verso dos Lusíadas 
"Cessem do Sábio Grego e do Troiano" ficando claro que o Sábio Grego era indiscutivelmente Ulisses...

Argumento
  O Rei Tartareo destruir procura
  Do sábio Ulysses a famosa armada; 
  E defendendo-a o Céu nela assegura 
  A cidade ab eterno decretada: 
  Infausta sombra ao Grego em noite escura 
  Dissuade da empresa começada 
  Mas animado com celeste auspicio 
  Porto lhe dá no Tejo o mar propício. 

(ver outras primeiras estrofes no comentário anexo)