sábado, 9 de julho de 2016

dos Comentários (21) da Coca à Cola

Coca é um nome que faz parte do folclore português e pode ser representada como Dragão, em luta contra São Jorge. Essa tradição parece estar ainda bem presente no rio Minho, quer em Monção, do lado português, quer em Santa Tecla, do lado galego.
Festa da Coca - Dragão contra São Jorge, em Monção (img)
Sendo o nome desse dragão "Coca", se falei na Cola do Dragão, enquanto Draco Cola, ou mesmo Dracola, seria uma falha imperdoável não ter associado directamente o Dragão à Coca, em suma 
o Estreito de Magalhães à Coca Cola...
Na nomenclatura tradicional, um Dragão é a Coca.
Assim, a Cola do Dragão seria Cola da Coca... ou Coca Cola.
Bom, é verdade que o assunto da Cola do Dragão, segundo o mapa de que falava António Galvão, dado pelo Infante D. Pedro ao irmão Infante D. Henrique, tomou aqui um espaço especial, por se tratar de uma localização do Estreito de Magalhães, antecipada de um século... ou mais!
Referimos que "cola" tinha aqui o significado hispânico de "cauda", ou conforme escrevi há mais de 5 anos:
A referência ao nome Cola do Dragão, em mapas antigos, onde também aparecia muitas vezes a eclíptica (como é o caso da esfera armilar adoptada no final do séc. XV), onde a Cauda Draconis  representava o Sul (e a Caput Draconis  , o Norte), pode ainda ser uma justificação adicional para o nome visto nesse mapa antigo que o Infante D. Pedro teria oferecido ao irmão, Infante D. Henrique.
Ainda no blog Odemaia, quis juntar o assunto à marca "Coca-Cola" por duas vezes (aqui e aqui)... mas convenhamos, foi uma associação sem efectiva ligação directa.
Como tantas vezes vemos fazer, seria fácil dizer agora, a posteriori, que esta ligação da Coca, ao nome de Dragão, sempre a tive presente... simplesmente não a tinha escrito. Mas isso não foi verdade, tanto quanto me lembro... e as menções à Coca-Cola sem o referir, apenas acentuam que procurei uma ligação, mas simplesmente não a vi! Simplesmente não dei especial atenção a esse mito da Coca, o que certamente não aconteceria se tivesse nascido em Monção.

Assim, foi apenas agora que liguei os dois pontos, a propósito de um comentário de Fernanda Durão, que remetia para o seu site:

que trata do mito de Ofiússa, Terra de Serpentes, relatada no poema romano Ora Maritima de Avieno (Séc. IV), uma terra que se situaria acima do estuário do Sado.

Citando Fernanda Durão, sobre o Culto da Serpente:
Rufio Festo Avieno informa que os Oestremínios, isto é, os antigos habitantes do extremo ocidente da Península Ibérica, terão sido expulsos do seu território pelos Saefes e pelos Draganos, povos conhecidos pelo "adoradores de serpentes", os quais deixaram marcas em Portugal e na Galiza que continuam a ser visíveis e palpáveis.
(...)
No Alentejo, o famoso Castro da Cola está situado sobre um monte com a forma de uma serpente que entra pelo Rio Mira, como uma península. Do mesmo modo em Monção, onde ainda se vêem os restos de um geoglifo com a forma de um enorme lagarto inscrito ao longo da margem sul do Rio Minho, ainda hoje se comemora a antiquíssima Festa da Coca, um enorme dragão que, na sua luta eterna contra S. Jorge, sem a orelha, perde a força...
Portanto, ainda que considere que uma boa parte das associações de "geoglifos" possam ser associadas a uma disposição para as ver (fenómeno que é desigando como "Pareidolia"), acaba por ser interessante também a autora ter ido cair no Castro da Cola. Eu sigo mais "a orelha", e foi pelo som da Cola, e do Colo, que ali caí. Bom, e não foi preciso "estar à coca", para a Coca aparecer assim na conversa. E já há muito que entendi que não é uma questão de procurar, é muito mais uma questão de estar disposto a encontrar, ou a não ignorar.

Coca e Coco
O artigo da Wikipedia sobre a Coca está bastante instrutivo sobre este aspecto, e praticamente limito-me a resumi-lo. O artigo cita João de Barros (Década Terceira, Livro III, pág. 309)
Esta casca por onde aquele pomo recebe o nutrimento vegetal, que é pelo pé, tem uma maneira aguda, que quer semelhar o nariz posto entre dois olhos redondos, por onde ele lança os grelos, quando quer nascer: por razão da qual figura, sem ser figura, os nossos lhe chamaram coco, nome imposto pelas mulheres a qualquer cousa, com que querem fazer medo às crianças, o qual nome assim lhe ficou, que ninguém lhe sabe outro
para explicar afinal como o nome do fruto "coco" resultava desta tradição da coca e do coco. 
Acresce que o se remetia isso a uma tradição celta-ibera, de suscitar medo, colocando as cabeças dos inimigos espetadas em lanças. Menos agreste, seria o medo era incutido às crianças com abóboras esculpidas como caveiras, que eram (e são) chamadas "cocas". 
Coco - cabeça galaico-lusitana. O fruto Coco. Abóbora em forma de Coca.
Portanto, quando parece que estamos a importar uma tradição americana do Halloween, isso poderá reportar-se a uma tradição ibérica bem mais antiga, ou pelo menos é isso que defende o galego Rafael Loureiro, acerca da festa do Samain na época de Todos-os-Santos. A descrição de João de Barros sobre o "coco" concorda perfeitamente com essa tese.

Assim, a designação Coca Cola pode ser vista como oposição entre Cabeça (coca) e Cauda (cola). Uma oposição, ou então uma junção... se atendermos à representação da Ordem do Dragão
Símbolo da Ordem do Dragão 
(continua)

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