Alvor-Silves

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Fernão de Magalhães (2) Saturno

Este postal começa com uma imagem de Saturno. É supostamente uma imagem tirada por um amador (Steve Hill), pois para efeitos de alguma relação com a realidade, prefiro isso, a usar imagens da NASA.

A questão é - por que razão haveria de colocar a imagem de Saturno num postal sobre Magalhães?

Numa versão simbólica, poderia dizer-se que representaria a volta ao mundo feita pelo português.
Afinal, o anel assenta bem numa ilustração dessa viagem, à volta ao globo.
Porém não é assim tão simples... e também não estou a insinuar que Magalhães foi até Saturno!

Por estranho que pareça, depois de ter feito o primeiro postal sobre Fernão de Magalhães, tinha pensado fazer o segundo postal agora, já que daqui a uma semana comemoram-se 500 anos da sua chegada ao Estreito que tem o seu nome, mais precisamente ao Cabo das 11 Mil Virgens, conforme lhe chamou.
Provavelmente poderia até me esquecer, mas as sonantes comemorações, as tais que ninguém vê nem ouve, talvez me fizessem lembrar mais tarde. 

No entanto, foi Sanchoniato que fez o favor de me lembrar... ou melhor, a tradução que já reencontrei, de Carlos Oliveira e Silva, feita em 1931, e publicada na revista "O Instituto" no seu número 82. Bom, e o que diz Sanchoniato (versão do latim de F. Wagenfeld):

  •  At vero Saturnus, dum orbem lustrat universum, Minervæ filiæ totius Atticæ regnum tradit. 
com o meu latim, que é rudimentar, não chegaria à tradução que Carlos Oliveira e Silva faz:
  • Foi após esta circunstância que Saturno doou toda a Attica a sua filha Minerva por ocasião duma viagem de circum-navegação da terra.
A tradução não é literal, e assim fui directamente ao grego que estava em Wagenfeld, que supostamente seria o lido do texto grego de Filo de Biblos, encontrado no convento português:

Sublinhei as palavras que são fáceis de perceber: 
  • "Kai" significa "E"; "Kpóvos" lê-se Cronos, ou seja, Saturno; "nepiïwv" lê-se "perion", como em périplo; "oikoumévnv" será ecúmena, ou seja, o mundo habitável. Depois vem "A&nva", que se lê Atena, etc... "Attixns" que será a Ática, e a última palavra é "basileia", que será rainha. 
Convém entender que a passagem para latim introduz uma série de lixo na tradução, mas do grego percebe-se que Cronos teria feito um périplo pelo mundo... se era habitável ou não, será mais uma interpretação actual, e Wagenfeld escolhe "universum", ou seja, o mundo. A tradução portuguesa para "circum-navegação" parece-me puxada, pois ainda que o prefixo peri seja similar a circum, não vejo a sugestão de navegação... ainda que não fosse imaginada doutra forma.

Portanto, este texto não fala propriamente de Magalhães, fala de Saturno, Cronos, ou ainda do correspondente fenício El (que é o nome judaico para Deus). 
Ainda que possa ser disputado qual o significado efectivo de tal afirmação, no contexto de divindades, convém notar que as divindades fenícias em Sanchoniato estavam associadas a reis humanos, a quem posteriormente foi declarado culto. Aliás essa mesma visão pode ser encontrada em Eumero de Messena, (ou Evêmero) que atribui a "circum-navegação" do mundo, por 5 vezes, a Zeus, filho de Cronos... talvez porque duas vezes não fossem suficientes para suplantar o pai.

Por coincidência, ou não, o planeta Saturno é quem tem o anel, o que meu ver representa bem a ideia de circum-navegação. 
Dir-se-à que quando os antigos atribuíram o nome ao planeta, não poderiam saber que este tinha um anel, já que mesmo Galileu não o conseguiu descortinar, e só Huyghens em 1655 atribuiu um anel a Saturno. 

Pois, mas isso é seguindo a velha filosofia de que os burros eram os outros, e os espertos somos nós.
À conta dessa historieta de cordel, já se podem ter acabado e recomeçado 12 mundos... sempre dizendo aos mais novos que antes o pessoal vivia na Idade de Pedra, depois veio a Antiguidade, etc. 
"Ah, e tal, mas os pais e os avós não deixariam que isso acontecesse" - sim, se restassem pais e avós.
"Que horror, quem poderia congeminar tal coisa?..." - dou um exemplo - quem quisesse tecnologia do Séc. XXI para brincar como se fosse faraó no Antigo Egipto.
O problema não é eu escrever isto, o problema é não ter já sido escrito por mais alguém...

Bom, mas deixando isso de lado, não havia vidro de grande qualidade na Roma Antiga?
Portanto, qual era a dificuldade de produzir lentes? 
Não sabia Arquimedes da focagem de espelhos, para queimar a frota romana? 
Por que razão não haveriam de se deparar com lupas, mesmo que não quisessem?
É claro que não nos chegaram estátuas de romanos com óculos.
Como é que isso haveria de entrar na narrativa?

A questão é que é perfeitamente natural que o nome de Saturno, Cronos ou El, esteja ligado ao primeiro rei que fez, ou mandou fazer, a primeira circum-navegação, mesmo que fosse atravessando pelo Panamá e não pelo Estreito de Magalhães. Só depois disso, poderia garantir que dominava de facto todo o mundo, e não apenas o cantinho que conhecia. 

Os Aztecas podem ter tido a ilusão de que dominando o seu cantinho no México, estavam com a situação sob controlo, até que... 200 anos depois apanharam com os espanhóis em cima. 
Podem ter havido tantas outras civilizações pré-colombianas que... subitamente, desapareceram. 
Será que já tinham crescido o suficiente, e achou-se ser precisa uma purga? 
Não é nada que os romanos não pudessem pensar.

O que é certo é que as civilizações mais antigas na América, Incas e Aztecas, estavam consolidadas há pouco tempo, tinham 100 ou 200 anos, quando apareceram os espanhóis. 
As civilizações americanas só se lembraram de aparecer nessa altura? 
As anteriores auto-destruiram-se? Ninguém sobrou para as reconstruir?
É lamentável dizer isto, mas creio que podemos não estar imunes de culpas...

Bom, da próxima vez falarei mesmo de Magalhães.
Aqui só achei interessante esta referência à circum-navegação de Saturno, que veio a propósito.

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