Alvor-Silves

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A questão dos qu'estão (3)

Qual o nosso papel nesta peça?
... ou dito de outra forma, qual é o sentido da vida?

Numa perspectiva hedonista, que tem sido dominante no último século, o objectivo humano será alcançar uma certa "felicidade", mal definida. Como assim visa o auto-prazer, trata-se quase de uma motivação erótica, aplicada ao indivíduo, ou menos egocentricamente, à humanidade. 
A perspectiva hedonista, que se associa a um materialismo, é quase um desejo orgásmico, semelhante ao das criaturas que perecem imediatamente depois de se reproduzirem (p.ex. o polvo)... no entanto, sem estar ligado ao aspecto de uma reprodução sem limites, a perspectiva hedonista só encontra sentido na ausência de sentido da existência, um certo nihilismo.

Numa perspectiva mais religiosa, o papel humano está intrincadamente ligado à divindade, e no caso católico, à salvação no julgamento divino, conduzindo a um paraíso, em vez de purgatório, ou pior um irremediável inferno. Escondido, está o mesmo objectivo final, de chegar a uma felicidade eterna, como se fosse um regresso à infância, com um Pai protector a zelar pela brincadeira no recreio (aliás praticamente só é garantida entrada directa no paraíso a inocentes criancinhas).
 

Ora, acontece que é nulo o interesse universal em definir seres felizes, ou satisfeitos consigo mesmo.

Aqui, voltamos ao princípio antrópico. Há necessidade lógica de um universo formado conter a explicação da sua existência em si mesmo... porque não há mais parte nenhuma onde ela possa estar.

Para haver existência é preciso "olhos" que vejam o existente. 
Mas aqui é preciso perceber o que são estes "olhos"... não se trata de fazer uma reprodução do já existente. Aliás para esse efeito, desde logo a natureza teve sempre réplicas perfeitas, começando pelo processo de mitose, na divisão celular. 
Quando o que vê é igual ao que é visto, ambos vêem o mesmo, ou seja, nada... 
Os "olhos" de que aqui falamos trazem uma interpretação inteligente.
Só quando conseguimos classificar o que vemos a alguma forma abstracta, quanto mais não seja pelo número, só aí lhe estamos a dar existência. 
Porquê?, porque noções abstractas, como os números, são eternas, intemporais e universais, quando identificamos algo a essa noção abstracta será como dar-lhe uma "benção eterna", neste caso a benção da existência, que também é representada pelo número 1, na sua individualidade.

Há imensas coisas que não conseguimos individualizar... esse tem sido um progresso constante de conhecimento. Individualizar não é sempre dissecar no específico, é muito mais vezes agrupar numa categoria, tipo ou conjunto. Só quando conseguimos reconhecer uma unidade em coisas distintas é que lhe conseguimos dar existência, por vezes através de uma palavra simplificadora. Por exemplo, as ondas de rádio terão sido algo completamente imperceptível ao olhar humano, que estava apenas sintonizado para captar a luz visível. Quando se conseguiu juntar todas as ondas electromagnéticas numa única teoria da luz, de Maxwell, os olhos foram mais longe, e pouco depois entrámos nesta era de telecomunicações.

Assim, percebemos que há um interesse universal subjacente à nossa existência.
No entanto, para granjearmos existência a outrém, precisamos de assegurar a nossa existência, e só foi conseguido quando o primeiro hominídeo reflectiu sobre si mesmo. Quando? Não sei, mas aparentemente antes do "conhece-te a ti mesmo" ser afixado no Templo de Delfos.

Para vermos que não estamos sozinhos nesta matéria, basta reparar que procurar a verdade pode ser tortuoso, mas sabê-la, ou pelo menos encontrar um nexo nas coisas, é recompensador e satisfatório.
Haverá quem procure afastar-se da realidade, com ou sem alucinogénios, mas isso traz um preço pesado associado. As situações absurdas podem ser trágicas, mas é também inerente aos humanos rirem-se do absurdo... não tanto por ocorrer, mas por se darem conta da impossibilidade, ou da improbabilidade, associada.

Acresce que, ainda que a sociedade reprima o humor negro, ou de certa forma uma capacidade de transformar dor em prazer, coisas vistas como tendências sado-masoquistas, há um capacidade de entendimento que vai além do expectável na nossa natureza, que normalmente será vista como absurda... mas também é aquilo que nos permite contornar situações quase incontornáveis.

Assim, e respondendo à questão inicial, o nosso papel é o de espectadores, que inevitavelmente são chamados a ser actores, porque não há distinção entre o palco e a plateia. A dor é normalmente o que nos chama ao palco, mas em qualquer circunstância, é possível distanciarmo-nos o suficiente de nós mesmos, para vermos o nosso personagem apenas como mais um elemento da peça. Fazendo isso, despindo todo o pesado contexto envolvente, é mais fácil relativizar ou inverter as coisas.

No entanto, ainda que nos saibamos espectadores, temos um papel único... que é ser críticos da peça em cena. Convém não esquecer que o objectivo supremo, e inalcançável, será o entendimento dentro do próprio universo. Nesse aspecto somos elementos importantes para discernir esse nexo. Podemos dizer que a apreciação de cada um é igualmente importante, mas isso seria o mesmo do que considerar que a apreciação crítica de um trabalho complexo não depende do conhecimento que se tem sobre o assunto em causa. 

Podemos assim ver o papel da humanidade como testemunha da obra criadora do universo, visando uma melhor compreensão da sua perfeição. Ao fazê-lo, dominará cada vez melhor as suas peças, e poderá contornar limites antes impostos naturalmente, em direcção a um mundo mais moldado à sua medida, e menos à sua condição nata. Sempre que o fizer afastando-se da realidade envolvente, da visão de si mesmo e dos outros, estará trilhando um purgatório, cujo inferno é o absoluto isolamento. Digamos que temos direito ao recreio, se aprendermos a criá-lo e partilhá-lo em conjunto.
Por inevitabilidade, uma espécie inteligente está condenada a isso, só não é claro que seja a nossa.

Sem comentários:

Enviar um comentário