Alvor-Silves

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Descobrimentos em diversos anos e tempos (5)

Infante D. Pedro, das Sete Partidas... é uma designação bem conhecida entre nós.
Por outro lado,
Afonso X, das Sete Partidas... é uma designação alternativa de Afonso X, o Sábio, rei de Leão e Castela, avô de D. Dinis, e pretendente espanhol ao Sacro-Império Germânico. 

Este nome deriva de um famoso corpo legislativo "espanhol", denominado "Sete Partidas", dividido em sete partes. Cada uma das partes começaria com uma das sete letras do nome ALFONSO.

A palavra "partida" tem vários significados, e é claro que poderá referir-se a uma partida para uma viagem, a uma partida de brincadeira, ou também a uma quebra, ou a uma partição. No caso de Afonso X, estas sete partidas ajustam-se à obra legislativa que foi usada nos territórios espanhóis, entre os Séc. XIII e XIX, portanto durante mais de 500 anos. Alguns espanhóis chegaram a dar-lhe uma importância legislativa similar ao código de Hamurabi
Assim, se em Espanha a designação "Sete Partidas" se ligava à obra de Afonso X, em Portugal tal obra não era decerto desconhecida, mas a designação "Sete Partidas" passou agora até a entender-se associada ao número de viagens efectuadas pelo Infante D. Pedro, quando a expressão "as sete partidas do mundo" se associava de certa forma a uma partição de locais mais assinaláveis, ainda que exóticos e distantes, como "as sete maravilhas do mundo".

Como já referimos várias vezes, António Galvão dá aqui conta de que o Infante D. Pedro em 1428 teria trazido dessas viagens uma Mapa Mundo com o Estreito de Magalhães e o Cabo da Boa Esperança. 
Mencionámos até o nome Cola do Dragão, no contexto da criação da Ordem do Dragão pelo Imperador Segismundo, de que fizeram parte o Infante D. Pedro e o famoso Vlad III Dracula (*).

O Infante D. Pedro tendo ficado como regente durante a menoridade de D. Afonso V, ganhou os Bragança como inimigos em Portugal, e também contou com os inimigos em Espanha, nomeadamente por via dos Infantes de Aragão, irmãos da deposta rainha-mãe D. Leonor de Aragão. Nesse sentido, aliou-se ao controverso Álvaro de Luna, influente personagem na corte de D. Juan II de Castela, tendo mesmo enviado o seu filho Pedro, Condestável de Portugal, em seu auxílio. 

Esta história está bastante bem descrita por Teófilo Braga na obra 
Poetas Palacianos  (cap. III),
e se o Infante D. Pedro conseguiu ter a sua filha D. Isabel casada com o sobrinho D. Afonso V, e o seu filho Pedro como Condestável de Portugal, o destino do seu filho acabou também por terminar por via dos Infantes de Aragão. Com efeito, na Guerra Civil Catalã, uma rebelião de Barcelona contra o rei de Aragão, D. Joan II (sim, no Séc. XV o nome João II foi usado por um rei de Portugal, outro de Aragão, e ainda outro de Castela-Leão), o conselho de Barcelona acaba por eleger o filho Pedro, condestável no exílio, como novo Rei de Aragão, D. Pedro V
O reinado do filho não chega a durar 3 anos, mas emitiu moeda nova denominada "Pacific", e deixou na Catedral de Barcelona a sua espada, considerada uma das mais belas do mundo:
Moeda de Pedro V de Portugal, rei de Aragão, filho do Infante D. Pedro
(Petrus Dei Grati Rex, Civitus Barchnona)

Espada de Pedro V - uma das "mais belas" do mundo.
Portanto toda a envolvente em torno do Infante D. Pedro, não se desliga de Espanha, pela via de Aragão, e se o filho se vê a defrontar em batalha os mesmos infantes aragoneses, será o filho de D. Joan II, o rei católico D. Fernando II, quem D. João II, neto do infante D. Pedro, irá defrontar na Batalha de Toro.... mais uma outra vez, sem sucesso.   

Portanto, dadas as diversas circunstâncias, de guerras sucessórias, tão habituais naquele período, que incluem ainda esse apoio de Afonso V à disputa da Beltraneja, sua sobrinha, era mais que natural que as "Setes Partidas" fossem o documento mais consultado, para procura de legitimidade nas aspirações ao trono.
16.02.2016

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DESCOBRIMENTOS 
em diversos anos & tempos, 
& quem foram os primeiros que navegaram.
por António Galvão (1563)

continuação de (4) (3) (2) (1) 


Segundo os nossos coronistas [cronistas] deixaram escrito, depois da Encarnação de Christo 1411 ou 16 anos, no mês de Julho partiu el rey Dom Ioam o primeiro [D. João I ] de Portugal da cidade de Lisboa, & o príncipe dom Duarte, e o ifante dõ Pedro, & dõ Anrique seus filhos, & outros senhores & nobres do reino para Africa, e tomaram a gram cidade de Ceyta [Ceuta], que está da parte do norte em trinta & cinco até seis graus d'altura, que foi uma das principais cousas, alargarem-se os termos Despanha [de Espanha].
Vindos de lá, o ifante D. Anrique desejoso de acrescentar este Reino, e descobrir outro mundo novo, se assentou no Algarve ao cabo de Sã Vicente, donde começou a mandar descobrir a Costa de Mauritânia, porque naquele tempo nenhum Português passava do cabo de Não, que está em xxix graus [29º] d'altura. E para isto se pôr em efeito, mandou o Ifante aparelhar certos navios: & deu aos capitães por regimento que deste cabo por diante fosse seu descobrimento: eles assim o faziam, mas como chegavam a outro que se chama Bojador, nenhuma pessoa ousava aventurar a vida: de que o Ifante andava assaz agastado. 

No anno de 1417 reinando em Castela dom Ioam o ij [D. Juan II] &, governando sua mãe dona Caterina, um Mossem Rubem de Bracamonte que fora almirante de França, lhe pedira a conquista das ilhas Canárias, com titulo de rei para um seu parente, que se chamava Mossem Iam Betancort, & que a Rainha lhas dera, & o ajudara. Partiu de Sevilha com boa armada, & querem ainda que a principal causa que a isto o movera era descobrir a ilha da Madeyra, que Machim achara: Mas foram ter às Canárias, levando consigo um Frey Mendo para Bispo dela, concedido pelo Papa Martinho V. Saídos em terra ganharam Lançarote, Forte vëtura, Gomeyra, e o Ferro, donde mandaram a Espanha muitos escravos, Mel, cera, cãfora [canfora], couros, orchiga, figos, sangue de dragão, e outras mercadorias, em que fizeram bom dinheiro, porque esta Armada diz que descobriu a ilha do Porto Sancto e assentaram em Lançarote, onde fizeram um Castelo de pedra, e barro, com que sustiveram o que tinham ganhado. 

No anno de 1418. Vendo Ioam gonçalvez ho Zarco [João Gonçalves Zarco], & Tristam vaz teixeyra [Tristão Vaz Teixeira], cavaleiros da casa do Ifante, os desejos que ele tinha de descobrir terra: & eles de o servirem na tal empresa, lhe pediram um navio, & licença em que foram a este descobrimento, & junto da costa de Africa lhes deu tal tormenta que se não puderam juntar a ela, e se perderam de todo se os Deus não socorrera com lhes amostrar uma terra & porto a que puseram nome Sancto, onde se salvaram; & estiveram aqui dois anos. No ano de 420 [...1420] descobriram as ilhas da madeira, e se passaram a ela, onde ainda acharam a hirmida [ermida] & pedra que contava como Machim ali estivera. Outros dizem que vendo um Castelhano os desejos que o Ifante tinha de descobrir novo mundo, lhe dera conta como eles acharam a ilha do Porto sancto, & por ser cousa pequena não faziam dela estima. Que foi causa de mandar lá o Ifante a Bertolameu perestrelo [Bartolomeu Perestrelo], Ioam gonçalvez o Zarco, Tristam vaz teixeyra: & pelos sinais, & derrotas que o Castelhano dera do porto sancto, foram ter a ele, e depois de ali estar dous annos, no de 420 se passaram à ilha da madeyra, onde acharam como Machim ali estivera. 

Estando assim Mossem Ioam Betancort na conquista das Canárias (como é dito) dizem que o mataram, & deixara por seu herdeiro um parente que se chamava Mossem Menante, e que este as vendera a um Pero Barba de Sevilha. Outros querem dizer que Mossem Ioam Betancort se fosse a França refazer de novo para esta Conquifta, & deixara ali um sobrinho, & como nunca mais de lá viera: vendo o parente que não podia sustentar a guerra, vendera as Canárias ao Ifante dom Anrique por certa cousa que lhe dera na ilha da Madeira. 

No anno de 424 [... 1424] diz que mandou o Infante fazer uma armada para conquista destas ilhas, ia por capitão mor dela dom Fernando de castro, e como as gentes delas eram belicosas, defenderam bem suas casas. E vendo dom Fernando o grande gasto que fazia se tornou, e depois o Ifante alargou [a largou] esta terra à coroa de Castella pelas ajudas que Abetãcor [a Betancort] dera.  Mas os Castelhanos contam isto doutra maneira, que nem os reis de Portugal, nem o Infante dom Anrique as quiseram alargar, até chegarem a direito diante do Papa Eugenio quarto [IV] Veneziano, o qual vendo isto deu a conquista daquelas ilhas por sentença a el Rey D. Ioam de Castella, no ano de trinta & um [1431], por onde cessou esta contenda das Canarias entre os Reis de Portugal, & Castella. 

Estas Ilhas das Canárias diz que são sete, e que se chamavam as Beatas, ou bem Afortunadas, estão em vintoito [28] graus da parte do Norte, têm o maior dia de treze horas, & a noite de outras tantas, estão de Espanha duzentas léguas, & da costa de Africa dezassete. Em tempos passados adoravam os ídolos, comiam carne crua, por falta de fogo, não tinham ferro, semeavam sem nada, lavravam a terra, com cornos de bodes, & cabras, cada Ilha falava sua linguagem, casavam-se com muitas mulheres, e primeiro que as conhecessem as davam aos senhores: tinham outros diversos costumes, agora todos são da Lei de Christo, têm muito trigo, cevada, açucares, vinhos, e uns pássaros que chamam canários, que em Espanha são estimados. Na Ilha do Ferro não há outra água senão a que de noite deita uma árvore, sobre que está uma nuvem, desta bebem as gentes, & gados, coisa a todos muito notória. 

No ano de 1428 diz que foi o Infante dom Pedro a Inglaterra, França, Alemanha, à casa sancta, e a outras daquela banda, tornou por Itália, esteve em Roma, & Veneza, trouxe de lá um Mapamundo que tinha todo o âmbito da terra, & o estreito do Magalhães se chamava Cola do dragam [Cauda do Dragão], o cabo de Boa esperança, fronteira de Africa, e que deste padrão se ajudava o Infante dom Anrique em seu descobrimento. Francisco de sousa tauarez [Francisco de Sousa Tavares] me disse que no ano de 528 [... 1528] o Infante dom Fernando lhe amostrara um Mapa que se achara no cartório Dalcobaça [de Alcobaça] que havia mais de cento & vinte anos que era feito, o qual tinha toda navegação da Índia, com o cabo de Boa esperança, como as de agora, se assim é isto, já em tempo passado era tanto como agora, ou mais descoberto. 

Com todo o trabalho, & gasto que o Ifante dom Anrique tinha feito, nunca desistiu de seu propósito, e descobrimento, e para isso mandou a ele Gilianes [Gil Eanes] seu criado, que foi o primeiro que passou o Cabo Bojador, tanto por todos arreceado [receado], & trouxe nova não ser tão perigoso como se dizia, da outra banda saiu em terra, & como quem tomava posse, pôs uma Cruz de pau nela por marco: e no ano de 1433, no mês de Agosto faleceu el Rey dom Ioam [D. João I] e alevantaram [e levantaram] por Rei dom Duarte seu filho. 

No ano de 434 [... 1434] mandou o Ifante dom Anrique a Afonso gonçalvez baldaya, [Afonso Gonçalves Baldaia] capitão de um navio, & Gilianes que descobriu o cabo, em outro cabo além dele; saídos em terra conheceram ser povoada, & como sabiam que o Infante desejava haver dela língua foram ter a uma ponta sem ver nenhuma cousa, donde se tornaram, & no ano de 1438, faleceu el Rey dom Duarte: & pelo Príncipe dõ Afonso ficar menino governou o Infante dom Pedro seu tio. 

No anno de 441 mandou o Infante dom Anrriq dois navios, capitães deles Nuno tristam & Antam gonçaluez [Nuno Tristão e Antão Gonçalves], saíram na costa & fizeram presa, & chegaram ao cabo Branco, que está em vinte graus, informado o Infante das cousas daquela terra pelos mouros que estes trouxeram, mandou Fernã lopes Dazeuedo [Fernão Lopes d'Azevedo] dar conta ao Papa Eugenio IV do que passava, e como esperava resultar grande proveito à santa Madre Igreja, o Papa lhe concedeu indulgência, e doação perpétua, e tudo o mais que pedia aos que nesta empresa falecessem. 

Depois disto no ano de 1443 mandou o Ifante, a Antam Gõçaluez, resgatar os escravos que trouxera, e os Mouros deram por eles negros de cabelos revolto, e algum ouro: donde ficou nome rio do Ouro, e mais acrescentou o desejo ao descobrimento; e por isto foi logo lá Nuno Tristam, & chegou às Ilhas Darguim [de Arguim], donde fez presa, e se tornou com ela no ano seguinte de 1444. Lançarote, moço de câmara do Ifante, Gilianes e outros, armaram certos navios, foram por costa até às ilhas da Garça, e tomaram perto de duzentas almas, que foram as primeiras que até então de lá vieram. 

No ano de 1445 foi por Capitão de um navio Gonçalo de Sintra, escudeiro do Infante; saídos em terra numa Angra, que se agora chama de seu nome, tomaram os Mouros com seis, ou sete companheiros, foi esta a primeira perda que recebeu Portugal desta empresa, e no ano seguinte mandou o Ifante três caravelas, capitães delas Antã Gõçaluez, Diogo Afonso, Gomez Pirez, a quem deu regimento que não entrassem no rio do Ouro: & assentassem pazes, & fizessem quantos Christãos pudessem: & sem nada disto se tornaram. 

No ano de 1446 um escudeiro del Rey dõ Afonso, que se chamava Diniz fernandes da cidade de Lixboa, foi a este descobrimento, mais por honra que proveito; chegou ao rio à Sanaga, que está em quinze, ou dezasseis graus d'altura da parte do norte, & extrema os mouros dos Ialophos, onde tomou alguns negros: não contente disto, diz que passou avante, e descobriu o Cabo verde, que está em catorze da mesma parte, & posto sua Cruz de pau nele, tornou contente.  

No ano de 1447 tornou Nuno Tristã em uma caravela, e passou o Cabo verde, & rio Grãde [Rio Grande]: e saiu em outro que está além dele em vinte graus, onde o mataram com dezoito Portugueses, e com quatro ou cinco se tornou o navio em salvamento. Contam mais que neste meio tempo vindo uma nau de Portugueses pelo estreito de Gibaltar fora, lhe dera tal tormenta, que correra a loeste muito mais do que quisera, & foram ter a uma ilha em que havia sete cidades, e falavam a nossa língua, e perguntaram se tinham os Mouros ainda ocupado Espanha donde fugiram pela perdida del rey dõ Rodrigo. O contramestre da nau diz que trouxe uma pouca darea [de areia], e que a vendera a um ourives em Lisboa de que tirara boa quantidade douro [de ouro]: sabendo isto o Infante dõ Pedro que ainda governava, diz que o mandou escrever na casa do tombo. E alguns querem que essas terras, e ilhas que os Portugueses tocaram, sejam aquelas que se agora chamam as Antilhas & nova Espanha, & alegam muitas razões para isso, em que não falo por não tomar isto à minha conta, mas com tudo toda a cousa de que não sabiam dar razão era dizer, é a nova Espanha

No ano de 1449 El Rey D. Afonso V deu licença ao Ifante D. Anrique seu tio para mandar povoar as Ilhas dos Açores que havia dias que eram descobertas: e no ano de 1455 passou este Rei a África, e tomou a Vila Dalcacere [de Alcácer Ceguer], e no de 1461 mandou Soeiro Mendes Fidalgo de sua Casa fazer o castelo Darguim [de Arguim] a que deu Alcaidaria. 

No ano de 1462 vieram a este reino de Portugal três Ianoeses [Genoveses] pessoas nobres, o primeiro deles era Antã de Noly [António da Noli], e um seu irmão, e sobrinho, cada um em seu navio, pediram licença ao Infante para descobrir as ilhas do Cabo Verde, a ele lhe aprouve: alguns querem dizer que fossem aquelas que os antigos chamaram Gorganas, Esperidas, Orcadas, mas eles lhes puseram nome a Maya [ilha do Maio], Sanctiago [ilha de Santiago], Sam Felipe [ilha do Fogo], por as verem em seu dia, outros lhe chamam as ilhas Dantão [de Antão], ou Dantonio [de António]. Neste mesmo ano, ou no outro seguinte faleceu este Infante dom Anrique, deixando descoberto do cabo do Não até a Serra Lioa, que está desta nossa banda em oito graus d'altura. 

No ano de 469 [... 1469] arrendou el rey dom Ioão [um lapso, era D. Afonso V], o trato de Guiné a Fernam Gomes [Fernão Gomes], que se depois chamou da Mina, por cinco anos, a razão de duzentos mil reais cada um ano, e que mandasse em cada um deles descobrir cem léguas além das descobertas. No ano seguinte de 470 passou este Rei, e o príncipe dom Ioão seu filho, em Africa, e tomaram a villa Darzilla [de Arzila], e a cidade de Tangere se despejou com medo, tendo muito custado, parece que permitiu Deus isto, por amostrar que os ousados são dele favorecidos. 

No anno de 1471 mandou Fernam Gomez descobrir a Costa como se obrigara, e foram a isso, Iohão de Santarem [João de Santarém], & Iohão Descouar [João de Escobar], e em cinco graus d'altura acharam a Mina. E no ano seguinte de 1471 descobriu Fernão do poo [Fernão Pó] a ilha que se chama como ele, e neste mesmo tempo foram descobertas as ilhas de Sam Thome & príncipe que estão na Linha, & na terra firme o reino de Benij [Benim] até ao cabo de Caterina [Cabo de S. Catarina] que está da parte do Sul em três graus, e o que fez esse descobrimento era criado de S. A [Sua Alteza?], chamava-se Siqueira. Muitos querem dizer que neste tempo fossem terras, e ilhas descobertas, de que já não há memória, que será de Noé até agora. 

No ano de 1480 faleceu este magnânimo, e esforçado Rei dom Afonso, deixando muitas cousas feitas dignas de memória, e começou logo a reinar dom João seu filho, que no ano de oitenta & um, mandou por Diogo Dazambuja [Diogo de Azambuja] fazer a fortaleza da Mina, & ficou por Capitão dela. 

No anno de 1484 foi mandado por este Rei dom Iohão a este descobrimento Diogo cão, cavaleiro de sua Casa: chegado ao rio de Manicõgo, que está da parte do Sul, em sete, ou oito graus d'altura, pôs nele Padram [padrão] de pedra com armas, e letras reais que denunciavam que o mandava, e o ano, e Era em que se puseram as Cruzes de pau daqui foram ter ao rio Pico de Capricórnio, pondo padrões, onde lhe pareceu ser necessário, tornando a Manicõgo viu-se com el rey dele, e mandou Embaixador, e homens de crédito a este Reino, e no ano seguinte, ou no outro depois dele chegou Ioão Alonso Daveiro do Reino de Benij com pimenta de rabo, que foi a primeira que se viu nesta terra. 

No ano de 486 mandou el Rey dõ Ioam a este descobrimento Bertholameu diaz [Bartolomeu Dias] cavaleiro de sua casa com três velas, indo assim ao longo da terra puseram Padrões de pedra, e descobriu o cabo de boa esperança, e além dele até ao rio do Infante, que se pode dizer que via terra da Índia, mas não entrou nela, como Mouses [Moisés] na terra de promissam [terra prometida]. 

No ano de 487 [... 1487] mandou el Rey dom Ioã [D. João II] descobrir a Índia por terra, foi a isto um Pero de couilhãa [Pêro de Covilhã] seu criado, & Afõso de Paiua [Afonso de Paiva] por saberem a língua Arabia [língua arábica], partiram no mês de Maio do mesmo ano, e na cidade de Nápoles embarcaram. Chegaram à ilha de Rodes, pousaram em casa dos comendadores portugueses, passaram à cidade Dalexandria [de Alexandria], daí foram ao Cayro, e ao porto do Toro em caravanas, e em recovas de mouros, onde embarcaram no mar Roxo, chegaram à cidade Dadem [de Adém], onde se apartaram Ioã de Paiva para Thiopia [Etiópia], e Pêro de covilhãa à Índia, e foi ter à cidade de Cananor, Calecut, & tornou a Goa, onde embarcou para Sofalla, costa Dafrica, a ver aquelas Minas cousas tão nomeadas. 

De Sofala tornou a Moçambique, e à cidade de Quiloa, Bombaça [Mombaça], Melinde, até a cidade Dadem donde Afonso de Paiva se apartara dele, e foi pelo mar Roxo à cidade do Cairo, onde ficaram de se ajuntarem, mas achou nova como aí falecera, & cartas del Rey dom Ioam, em que mandava que se visse com o preste Ioã da Índia [Preste João].

Vendo Pero de covilham este recado, partiu do Cairo ao porto do Toro, & daí à cidade Dadem onde já duas vezes estivera, e tendo noticia de tamanha cousa era, e quão próspera a cidade Dormuz [de Ormuz], determinou de ir à vela, e foi ao longo da costa Darabia ao cabo de Resalgate que está no Trópico de Cancro, e daí a Ormuz, que está situada em vinte sete graus da mesma banda. Informado do estreito da Pérsia, e daquela terra, se tornou ao mar Roxo, e passou-se ao Reyno do Abexim, que vulgarmente se chama Preste Ioam da india, onde esteve até o ano de 1520 que o achou lá o embaixador dom Rodrigo de Lima. Este Pero de Covilhãa foi o primeiro Português que eu saiba que viu as Índias, & seus mares, & outras cousas a nós mui remotas. 

No ano de 1490, mandou el Rey a Manicongo com três navios Gonçalo de Sousa homem fidalgo, tornou em sua companhia o embaixador de Manicongo, que Diogo Cam trouxera, tendo já tomado água de bautismo [baptismo], & outros que com ele vieram, Gonçalo de Sousa faleceu no caminho, e elegeram por Capitão mor a seu sobrinho Ruy de Sousa, chegado a Manicongo, fez-lhe El Rey muito gasalhado, & baptizou-se logo com a mor parte de sua terra, que foi grande louvor, & honra ao Reyno de Portugal, & sua Coroa. 

(continua)

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(*) Nota (10.07.2016):
Suprimi a frase seguinte 
tendo ainda sido notado (na wikipedia) que as insignias dessa ordem Draconis Equitas Societas Imperatur et Regis, envolviam as letras DESIR, moto pessoal do Infante D. Pedro.
que entretanto foi também suprimida da Wikipedia (ver porquê aqui)
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3 comentários:

  1. Não estou a ser exaustivo no que diz respeito a comentar os diversos temas que nos traz Galvão.
    Neste caso, demasiado cansado, acabei por não mencionar o episódio das "Sete Cidades", mas tinha ideia de o fazer no contexto da designação "Sete Partidas".

    Tratava-se do ano de 1447, e conforme nos diz Galvão, o Infante D. Pedro ainda governava, quando chega a notícia de uma nau que tinha encontrado uma ilha onde havia 7 cidades, e onde se falava português... voltando à história dos portugueses fugidos no Séc. VIII, quando os mouros conquistavam a Península Ibérica - história que será várias vezes repetida, por outros escritores.

    Tratando-se de uma viagem para Oeste, e considerando que Açores e Madeira já estavam por essa altura a começarem a ser povoadas, um candidato natural seria uma das Antilhas, ou ainda a Terra Nova.

    Que o Infante D. Pedro o deixasse escrito na Torre do Tombo, e que aparentemente se tenha perdido o rasto a esse registo, é um hábito que não espanta, tal como não espanta os nossos historiadores oficiais acharem sempre tudo normal, e por dogma religioso desconsiderarem tudo o que não bate certo com a história da carochinha oficializada... como se esta tivesse algum nexo!

    Porém, é a partir daqui que vemos Galvão não se afastar muito de toda essa história da carochinha, que começa no transpor dos "cabos de trabalhos", Não e Bojador.
    Optei por deixar estar a maior parte dos nomes conforme Galvão os escreve, o que também permite ver como havia uma certa despreocupação na escrita. Tanto poderia escrever Infante, como Ifante, ou então escreve Gonçalves como Gonçaluez ou ainda Gõçaluez. Umas vezes escreve Cão outras Cam... e isso é bastante instrutivo, como remédio a dar a comichosos da gramática. Não é apenas ele, são praticamente todos os escritores daquele tempo, porque a língua portuguesa não estava ainda selada numa cela, e havia coisas mais importantes a tratar, do que dar valor a embirrentos inúteis.

    A descrição que Galvão faz do modo de vida dos "Canários", os primitivos guanches, que nem fogo teriam, pode mostrar como o abandono das regiões atlânticas foi efectivo durante milhares de anos.
    Não seria esse modo de vida primitivo que tornaria os "Canários" menos aptos para defender a sua terra, já que a conquista das ilhas Canárias teve múltiplos fracassos, e só o prolongamento no tempo acabou por definir o fim da independência daqueles povos.

    Outras coisas interessantes... o nome Escobar seria provavelmente Escovar!... o nome do rio do Infante, é supostamente ligado a um João Infante. Sim, porque quando se falava "do Infante" a primeira pessoa que vinha à cabeça era mesmo o companheiro de Bartolomeu Dias.

    De resto, Galvão é nesta parte menos interessante, por não querer mexer nos segredos nacionais recentes, e usa assim a versão institucionalizada, tanto quanto outra versão pudesse comprometer a sua publicação.
    Mesmo assim ao falar no Mapa Mundo que tinha a "Cola do Dragão", o Estreito de Magalhães, se o coloca trazido pelo Infante D. Pedro em 1428, diz também que o Infante D. Fernando (filho de D. Manuel) teria revelado outro em 1528, que teria mais de 120 anos, ou seja seria anterior a 1408, estava no cartório de Alcobaça... e esse mapa continha mais do que a navegação "descoberta" até à data em que escrevia Galvão.
    Mas, o que é que isso interessa, não é?

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Este sim é o link certo

      https://www.youtube.com/watch?v=OigfEaxZRs4

      Sobre embarcações Portuguesas nos Descobrimentos, muito interessante!

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