Alvor-Silves

domingo, 23 de dezembro de 2012

Fretum trium fratrum

Tive conhecimento apenas há dias da morte de Manuel Luciano da Silva, que passou de forma mais discreta que José Hermano Saraiva, ambos falecidos neste ano de 2012. O meu conhecimento dos dois resumiu-se ao que divulgaram, cada qual à sua maneira e contexto. Há três anos quando começava a pesquisar sobre estes assuntos, o site DightonRock foi talvez dos primeiros onde vi alguma contestação mais consistente às versões oficiais. Nessa altura foram ainda importantes:
- Portugalliae de José Manuel Oliveira, 
- Ilhas Míticas do Atlântico de Rui P. Martins, 
- Causa Mérita de Rui Duque. 

É reveladora a frase que Rui P. Martins tem no final da sua página:
Fica já agora um agradecimento a todos os editores que rejeitaram os meus livros por não ter já publicado (o chamado ciclo vicioso) e por não ser um descendente de alguém famoso. Bem hajam! (e que ardam todos no Inferno)
Esta é uma pura informação de marinheiro, que serve de aviso à navegação seguinte. É um aviso de baixios, onde encalharam tantos esforços de divulgação.
Para que conste, acho que são tudo esforços infantis contra-a-corrente, e refiro-me apenas aos dos editores e seus mentores encobertos. 
A parte não tem nenhum poder sobre o todo. 
Por isso, toda a ilusão de domínio, controlo, poder, etc... não passa disso mesmo, de uma ilusão temporária. No máximo, as dificuldades levantadas, os dramas vividos, cumprirão a posteriori uma justificação de apuramento da consciência.

Um ponto comum nos autores que citei foi dar relevo à exploração dos Corte-Real, e nesse sentido junto mais alguma informação sobre o
Fretum trium fratrum (Estreito dos Três Irmãos)
Esta designação é comummente atribuída aos três irmãos Corte-Real, na expedição de 1500, a mando do Rei D. Manuel, e que já aqui referimos muitas vezes.

No livro "Voyages in Search of the North-west Passage", de Richard Hakluyt (1552-1616) é elucidativa a menção:
And the King of Portugal, fearing lest the emperor would have persevered in this his enterprise, gave him, to leave the matter unattempted, the sum of 350,000 crowns; and it is to be supposed that the King of Portugal would not have given to the emperor such sums of money for eggs in moonshine.
It hath been attempted by Corterialis the Portuguese, Scolmus the Dane, and by Sebastian Cabot in the time of King Henry VII.
And it hath been performed by the three brethren, the Indians aforesaid, and by Urdaneta, the friar of Mexico.
Portanto, temos uma compra do Rei de Portugal (provavelmente D. João III) no valor de 350 mil coroas, dadas ao Imperador de Espanha, que teriam o objectivo natural de silenciar a Passagem Noroeste.
Como Hakluyt diz ironicamente, tal valor não seria dado para "ovos ao luar" (uma receita da época)... seria naturalmente para manter a exclusividade da Rota das Índias.
Por isso, a ocultação de que nos podemos queixar hoje, foi também, como é óbvio, resultado da política comercial que privilegiava "o segredo do negócio".

Hayklut refere-se à tentativa de João Vaz Corte Real e de John Scolvus (John Scolmus, ou ainda Jan Kolna), que teriam participado na expedição comum organizada por Afonso V e Cristiano I da Dinamarca, em 1473, que teria ainda Didrik PiningHans Pothorst (tidos como piratas), bem como Álvaro Martins. Estes exploradores foram recompensados, com capitanias (Corte Real e Álvaro Martins) e com o governo da Islândia (Pining)... e como diria Hakluyt não teria sido devido a "ovos ao luar".
Hakluyt inclui ainda na lista de tentativas falhadas Sebastião Caboto, filho de João Caboto, que teria sido forçado a regressar pela tripulação, ao tentar a Passagem Noroeste.

Mais notável é que Hakluyt não parece ter dúvidas que teria sido conseguida pelos três irmãos Corte-Real, sendo conhecida a história de Gaspar, que desaparece em 1501, do irmão Miguel que desaparece no seu encalce, e do irmão Vasco, que é proibido de os procurar por ordem de D. Manuel.

No entanto, aqui é preciso relativizar, e não cair no mesmo erro que criticamos (aceitar documentos sem olhar às intenções de quem os produz)... há intenções em Hakluyt - uma clara pretensão de convencer a Rainha Isabel I de Inglaterra a patrocinar as viagens pela Passagem Noroeste. Chega aliás a comparar a sua proposta, à proposta de Colombo à outra Isabel, a Católica. O objectivo era atingir o Oriente por essa Passagem Noroeste. 
Vai mais longe, e aqui vemos o problema de quem está fora do controlo da situação:
These things considered and impartially weighed together, with the wonderful commodities which this discovery may bring, especially to this realm of England, I must needs conclude with learned Baptista Ramusius, and divers other learned men, who said that this discovery hath been reserved for some noble prince or worthy man, thereby to make himself rich, and the world happy(...)
Ou seja, Hakluyt citava Ramusio (e "outros") para considerar que a descoberta estaria reservada para alguém devidamente "escolhido"... um autêntico "teórico da conspiração", este conselheiro de Isabel I. No entanto, é seguindo estes "teóricos da conspiração", que achavam que a Inglaterra estava a ficar "fora da submersa jogada" internacional, que Isabel I vai lançar as bases para a ascenção inglesa.
Richard Hakluyt (vitral na Catedral de Bristol)

Como já dissemos foi Hakluyt que traduziu António Galvão e o considerou uma preciosidade... tal como Galvão foi repudiado e acabou na miséria, Hakluyt cita outro exemplo:
Nevertheless, to approve that there lieth a way to Cathay at the north-west from out of Europe, we have experience, namely of three brethren that went that journey, as Gemma Frisius recordeth, and left a name unto that strait, whereby now it is called Fretum Trium Fratrum.  We do read again of a Portuguese that passed this strait, of whom Master Frobisher speaketh, that was imprisoned therefore many years in Lisbon, to verify the old Spanish proverb, “I suffer for doing well.”  Likewise, An. Urdaneta, a friar of Mexico, came out of Mare del Sur this way into Germany; his card, for he was a great discoverer, made by his own experience and travel in that voyage, hath been seen by gentlemen of good credit.
"Sofro por fazer bem...", é o ditado espanhol que Hakluyt usa para descrever a situação de um português que teria sido aprisionado muitos anos, por ter passado esse Estreito dos Três Irmãos, segundo Martin Frobisher. As explorações portuguesas pararam por decreto, e quem o desrespeitasse arriscava o cárcere. Hakluyt cita ainda o globo de Gemma Frisius que diz:

Fretum trium fratrum, per quod Lusitani ad Orientem et ad Moluccas nauigare e conati sunt

Esta afirmação de Frisius "Estreito dos Três Irmãos, pelo qual os Lusitanos navegaram e procuraram o  Oriente e Molucas" (assinalada por R.P.Martins), é uma das provas que Hakluyt usa para fundamentar a existência dessa mesma passagem. Ora, não são conhecidas razões que levassem o holandês Frisius a querer atribuir a navegação aos irmãos portugueses, a menos que ela tivesse de facto ocorrido. Para além disso, quer Ortelius, quer Lavanha, nos seus Theatrum Mundi, tinham contornos da zona ártica demasiado bons para serem apenas um mero acaso.
Há ainda uma curiosa menção ao frade e navegador espanhol André de Urdaneta, que também teria realizado a Passagem Noroeste, no sentido oposto. Porém, a partir daí, a partir do Séc. XVII, essa passagem irá revelar-se um plano falhado. A Inglaterra apostará nessa demanda, seguindo o conselho de Hayklut, e muitos dos nomes acabaram substituídos pelos nomes dos exploradores ingleses. Haveria um Promontório Corte-Real, perto de um rio Polisacus (referindo-se a Jan Scolvus), mas esses nomes foram convenientemente substituídos:
Moreover, the passage is certainly proved by a navigation that a Portuguese made, who passed through this strait, giving name to a promontory far within the same, calling it after his own name, Promontorium Corterialis, near adjoining unto Polisacus Fluvius.
Curiosamente, ainda hoje se mantém o nome "Labrador", referindo-se João Fernandes (Lavrador), que tem sido misturado na expedição de Caboto à Terra Nova. Injustamente parece que o nome de Caboto foi ignorado, e só permaneceu o nome do "lavrador"... Houve, é claro, um anterior João Fernandes ao serviço do Infante D. Henrique, mas não seria "lavrador". Até porque sabemos que as navegações do Infante iam sempre no contorno africano, e as do Atlântico resumiam-se a encontrar os Açores. Descobertos os Açores, que sentido é que fazia continuar para Ocidente? Parece que nenhum, parece que toda a exploração ocidental começara e terminara na descoberta dos Açores. Ora bem, nada mais lógico para a inteligência nacional.

O problema posterior, explica-se com um gráfico de alteração da temperatura:
Variação de Temperatura nos últimos 1000 anos (de john-daly.com)

Ao contrário do que tem sido propagandeado, o aumento de temperatura recente nada tem de tão artificial... e com isto ninguém está aqui a dizer que não há óbvios cuidados a ter com o meio-ambiente e poluição.
O que se passa é que há alguns ciclos naturais de temperatura (talvez pela actividade solar). A temperatura começou a aumentar no final da Idade Média ("Medieval Warm Period") atingindo o máximo no início das Descobertas, e depois vai começar a diminuir sucessivamente. No final do Séc. XIX terá atingido o seu mínimo global ("Little Ice Age").

Qual o problema disto? Os marinheiros dos Séc. XV e XVI estavam ainda a beneficiar desse período quente, as zonas árticas e antárticas não estavam tão inacessíveis à navegação quanto iriam ficar nos séculos seguintes. A Passagem Noroeste seria possível para os irmãos Corte-Real, mas começaria a ser quase impraticável para os exploradores que se seguiriam.

Talvez uma das mais dramáticas ocorrências é a de Hudson, que acabará abandonado pela tripulação, que se recusará a prosseguir na demanda pela Passagem Noroeste. A baía de Hudson que tomou o seu nome aparecia já sinalizada nos mapas de Ortelius e Lavanha. A concretização da passagem é atribuída a Amundsen, já no Séc. XX. 
No entanto, durante todo o Séc. XX a passagem esteve bloqueada pelos gelos, só sendo possível com quebra-gelos. Terá abrido recentemente com o degelo, que se atribui ao "aquecimento global", esquecendo o registo histórico da variação de temperaturas.
Ainda que haja uma nova passagem para os navios entre a Ásia e a Europa, parece que são preferidas as temperaturas mais frígidas, e o eventual perigo de desinteresse no Canal do Panamá é relativo, dada a cessão de controlo pelos EUA desde 1999.

O gráfico anterior é ainda instrutivo se atendermos a que se evidencia um ciclo de circa 500 anos, que colocaria a outra "pequena idade do gelo" no início da Idade Média, e um período mais quente na época romana, algo que já tínhamos sinalizado. Essa temperatura poderia ser de tal forma quente que os romanos consideravam as terras abaixo do Trópico de Cancer como inabitáveis.

Coloquei aqui apenas algumas citações do livro de Hakluyt relevantes para o tema, há ainda uma menção à chegada de índios na época do Império Romano e na época medieval, que Hakluyt associa à Passagem Noroeste. Provavelmente retira parte dessa informação de Galvão, conforme já mencionámos, mas o seu objectivo é forçar a via noroeste, negligenciando a rota nordeste, que depois será tomada por Melgueiro. A viagem de Melgueiro será especialmente notável, pois em 1660 os gelos já tornariam a navegação na Passagem Nordeste uma proeza única.

Nota: Hakluyt tem o nome numa Sociedade "The Hakluyt Society" onde se podem encontrar alguns textos que navegam contra a corrente oficial dos descobrimentos. Curiosamente tem também o nome associado a uma firma de "inteligência" que saiu do MI6 inglês -  Hakluyt Company.

2 comentários:

  1. Dizia Paolo Emilio Taviani que era simplesmente impossível de fabricar documentos falsos em 1904.... dizia...
    http://christo-colon.blogspot.com/2012/12/false-documentation-and-forgeries-in.html

    Ver também Como Se Faz Um Pombo De Um Membro:
    http://colombo-o-novo.blogspot.com/2012/06/como-colon-tornou-se-colom-depois.html

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    1. Acho que a falsificação documental deve datar da mesma altura em que apareceram os primeiros documentos... e igualmente o interesse em deturpar registos e a história (é habitualmente contado aos turistas o caso da supressão das referências à faraó Hatchepsut atribuídas ao sucessor Tutmés III).
      Por isso, no caso de Colombo, nem acho que as falsificações tenham que ser "recentes". Houve interesse imediato à época para fazer documentação relativo à história que viria a ser contada. Para além disso, a tecnologia existente em cada época é sempre (bastante) maior do que aquela que é conhecida pela população.

      Não dei ainda grande relevo à questão dos Cólons... "membros", tal como se diz da Rainha D. Leonor, e outros, devido à sua assinatura com o ":" (colon) final.

      - Se o fizesse, não ignoraria a relação de "colon" (a parte terminal do sistema digestivo) com "cola" que é "cauda" no espanhol/português antigo.
      Sobre a "Cola"... do Dragão, já falei aqui:
      http://alvor-silves.blogspot.pt/2010/11/la-cola-del-dragon-draco-cola.html

      - Não ignoraria também a relação de "colon" com "colono", que vem do latim "colonus".

      Isto para não referir outras coisas.
      Agora se tudo "cola" ou não, depende mais do "colo" que se encontra para embalar a música.

      Sobre como o membro Cólon foi visto como um pombo Colombo, já escrevi aqui várias vezes, por exemplo:
      http://alvor-silves.blogspot.pt/2011/08/puto-de-venus.html
      http://alvor-silves.blogspot.pt/2012/05/tabula-peutingeriana.html

      Se o Manuel Rosa se dedicasse mais a investigar os falcões, e não tanto a nacionalidade de um pombo, acho que teríamos verdadeiros progressos.

      Cumprimentos, e obrigado pelos links.

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