Alvor-Silves

quinta-feira, 21 de abril de 2011

São Vicente de Fora

Os painéis de S. Vicente de Fora foram um dos primeiros temas que abordámos, há mais de um ano atrás.
Não vejo necessidade de grandes alterações ao que foi dito na altura... as correcções face à nova informação seriam entretanto pequenas e pontuais.
Talvez um dos aspectos a merecer alguma reflexão é ter D. Afonso Henriques empreendido uma viagem (em 1173) ao Cabo de S. Vicente, atendendo a que o Algarve estaria sob domínio mouro... S. Vicente estaria fora do território nacional. O historiador árabe Al-Idrisi salientava a presença de corvos no local da sua sepultura, designada igreja dos corvos: Kanīsah al-Ghurāb.

Para além da tradição acrescentar dois corvos, companheiros da embarcação que transportava os restos do santo, e que ficaram no símbolo de Lisboa... a tradição dizia ainda que nesse Promontório Sacro estariam os restos do Templo de Hércules. A conotação "sacro" perdia-se na memória até aos tempos de Hércules. Afonso Henriques define aí um novo ponto sagrado - as relíquias de S. Vicente. Esta substituição obliterou essa memória antiga, substituindo-a por uma outra, mais católica.

Somos depois levados ao templo de S. Vicente de Fora. Dizia a Ilustração Portuguesa de 1867:
Representamos hoje na nossa estampa o templo de "S. Vicente de Fóra", que foi erecto em tempo de El-Rei D. Sebastião, no local onde existia a ermida que memorara a primeira glória de Portugal: - queremos dizer, onde, na conquista de Lisboa, em tempo de El-Rei D. Afonso Henriques sagrando o terreno que serviu de cemitério aos soldados dedicados a Cristo, e ao levantamento de um novo reino, que tanto se há ilustrado na História.
 A estampa de S. Vicente de Fora, que se encontra no periódico, é a seguinte:
o que mostra que não houve propriamente grandes alterações face ao seu estado actual:
A estampa ilustrava o funeral de D. Pedro V, acontecimento particularmente sentido pela população.
Porém, se o relato da revista coincide com a história de D. Afonso Henriques e o cemitério dos Cruzados, já é muito menos concordante ao atribuir a construção ao reinado de D. Sebastião...
A afirmação é feita casualmente, como se fosse facto bem conhecido, não tendo em conta que a arquitectura não parece ser típica do Séc. XVI, sendo por isso hoje considerada a construção terminada 50 anos mais tarde, já no Séc. XVII, e sempre sob reinado filipino. Ter sido mausoléu da dinastia de Bragança talvez invocasse uma construção pela casa de Bragança no período de ocupação filipina.
Trata-se portanto de mais uma, das muitas obras executadas no reinado de D. Sebastião, rei que normalmente não é considerado pela sua faceta construtora.

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