quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Afonso Henriques e Ourique (2)

A independência portuguesa tem aspectos de acidente circunstancial.
Do ponto de vista das populações não é muito natural a quebra de ligação à Galiza, ainda que as dioceses de Braga e Santiago se definissem por conventos territoriais distintos. A Galiza e Minho não faziam parte da Lusitania romana, mas praticamente definiram em conjunto o reino suevo que sucedeu.
O reino de Leão seria um natural sucessor dessa junção, e a independência portuguesa acaba por mergulhar mais numa questão de heranças e no sucesso de Afonso VI, rei de Leão, avô de D. Afonso Henriques, que conquistando os tronos aos irmãos se consagra Imperador da Hispânia.
O final do Séc. XI é o tempo de Afonso VI, mas também do lendário Cid, o Campeador, e do início das Cruzadas que levam Godofredo de Bulhão à conquista de Jerusalém.
A luta contra os muçulmanos assume aspectos decisivos que conquistam grande adesão das populações e torna-se assim numa época lendária, com duas frentes bem definidas - uma na Península Ibérica e outra directamente na Terra Santa.

Afonso VI, então já rei de Leão e Castela desde 1072, para além de anexar Toledo e a sua taifa, em 1085, chega mesmo a conquistar Lisboa e Sintra. A posição das taifas muçulmanas ibéricas fica fragilizada, o que origina uma resposta com auxílio árabe do norte de África, na Batalha de Zalaca, em 1086, onde Afonso VI defronta quatro reis árabes, e onde nem mesmo o lendário Cid evitará a derrota cristã. Grande parte dos territórios conquistados, inclusive Lisboa, regressará a mãos muçulmanas.

Neste final de século inicia-se um movimento dirigido contra os reinos muçulmanos, onde uma boa parte da nobreza europeia, especialmente das regiões francesas, irá procurar a sua glória. Se Cid tinha conquistado a sua quota de fama nas canções populares, apesar da derrota em Zalaca, o estatuto de Godofredo de Bulhão, ao reconquistar Jerusalém em 1099, foi elevado quase a uma segunda vinda de Cristo.
Os irmãos de Bulhão, do condado de Bolonha (Boulogne-sur-mer, Bouillon), tinham a sua mãe colocada como Santa Ida... e a Ida era a reconquista da Terra Santa. Após Godofredo, seria o irmão Balduíno o primeiro rei de Jerusalém. O nome Balduíno seria usado pela Casa da Bélgica para afirmar essa filiação a Bouillon, ou seja, ao Bulhão e a tais heróis da reconquista cristã. A empresa que o Infante D. Henrique lançará contra Tanger terá a designação de "Ida", suficientemente ambígua para invocar a filiação ao Bulhão.

É nesta parte da história que entram os condes Raimundo e Henrique, que irão casar com Urraca e Teresa, filhas do imperador Afonso VI. Teresa é a mãe de D. Afonso Henriques, e Urraca, mais velha é a sucessora do pai na herança imperial. Dado esse estatuto imperial, Teresa podia mesmo assinar como rainha de Portugal, mantendo vassalagem à irmã.
D. Urraca ao centro, com a irmã Teresa (à direita) 
e o posterior amante Fernão Peres Trava.

Raimundo e Henrique são tidos como borgonheses, porém Damião de Goes vai fazer a sua investigação pessoal, concluindo que Henrique seria afinal descendente da linhagem do Bulhão. Já abordámos a sustentabilidade dessa tese (com a colaboração de Calisto) aqui:


O casamento de Teresa com Henrique é em 1093, dois anos antes da partida de Godofredo que irá liderar a 1ª Cruzada com sucesso em 1099. Portanto, seria algo natural que Teresa, filha ilegítima de Afonso VI tivesse um casamento com menor importância do que o de Urraca, herdeira do trono. Raimundo poderia ser  filho do Conde da Borgonha, mas a documentação de Goes aponta para que Henrique não fosse seu primo.
Esse casamento de menor importância de Teresa, revelar-se-ia afinal, pouco depois, como uma herança significativa para D. Afonso Henriques se o pai Henrique fosse sobrinho dos reis de Jerusalém.

Pode assim perceber-se que a situação ficasse incómoda para D. Urraca e para o filho Afonso Raimundes, futuro Afonso VII, primo de Afonso Henriques, que iria consagrar-se como Imperador da Hispânia. O casamento de Teresa, passava a ter uma importância que transcenderia o de Urraca, e é natural que esses factos tivessem procurado ser abafados à época. Isto iria no sentido de confirmar a tese de Damião de Goes, e a versão dos dois primos borgonheses seria um remendo conveniente à história.

O Conde D. Henrique, para além de se ter notabilizado numa efémera conquista de Sintra em 1109, terá mesmo visitado o Reino de Jerusalém, onde supostamente reinaria o tio Balduíno. Esse seria um trunfo de Teresa, uma filha ilegítima, que passa a assinar como "rainha", ainda que mantivesse vassalagem à irmã.
Quando o problema passa para os filhos, D. Afonso Henriques vai mesmo recusar a vassalagem ao primo imperador, Afonso VII.

É assim neste contexto que a Batalha de Ourique assume uma importância significativa.
Afonso VI tinha conseguido conquistar territórios até Lisboa e Sintra, e o Conde D. Henrique teria mesmo recuperado Sintra, só que muito provavelmente de forma diferente.
Repare-se que a incursão não é a Leiria, que seria o castelo mais próximo, vai mais longe, a Sintra.

Tal conquista efémera sugere uma abordagem naval. Um desembarque em território inimigo.
Esta seria a mudança que se iria introduzir nas conquistas portuguesas. Está bem documentado que a conquista de Lisboa se deveu a um auxílio com cruzados estrangeiros que rumavam à Terra Santa.
Essa deve ter sido a estratégia tomada pelo Conde D. Henrique no ataque a Sintra e seguida pelo filho Afonso Henriques no ataque que o levou a Ourique.
Há vários dados que sugerem essa abordagem, e que expusemos no primeiro texto sobre este tópico:


A isso acresce uma preciosa informação que nos foi facultada agora pelo comentador apostolo, e que passo a citar:
Nos almanaques alentejanos dos anos 1950-60 o arqueólogo Prof. Abel Viana, põe a hipótese, segundo lendas locais, que D. Afonso Henriques subiu o Rio Mira e atacou o Castro da Cola - Marachique, vindo os seus soldados dissimulados com estevas - notar que nessa altura os Cruzados ajudaram os portugueses com os seus barcos e armas, na conquista de Lisboa, Santarém, etc. Havendo provas muito recentes de que Ricardo Coração de Leão levou os seus barcos até Odemira - para abastecimento, na passagem para o Médio Oriente. (Até aos anos de 1950 os veleiros de 2 mastros atracavam no cais de Odemira).
Portanto, por outras razões, o Prof. Abel Viana chegou praticamente à mesma conclusão, ou seja que o ataque a Ourique teria começado por Odemira, através de iniciativa naval.
Isto não deve surpreender, porque a novidade trazida pelo movimento dos Cruzados em direcção à Terra Santa iria fazer-se sobretudo por via marítima e implicaria algum domínio dos mares.

Esse era o contributo novo que Afonso Henriques trazia com o novo reino de Portugal, o que se for acrescido à eventual descendência do Bulhão, lhe daria razões suficientes para reclamar para si um reino independente que respondesse apenas perante o papa, e não no quadro peninsular, de vassalagem ao primo. Em 1143, ainda antes da conquista de Lisboa, Inocêncio II reconhece o título de rei, mas é só em 1179, pouco antes de morrer, que Afonso Henriques verá reconhecida a dependência exclusiva pelo Papa Alexandre III, numa altura em que o primo morrera, e já não havia imperador da Hispânia.

Tem-se procurado questionar ou desvalorizar a Batalha de Ourique, porém parece pouco verosímil que Afonso VII de Leão e Castela impondo-se como imperador ibérico tivesse anuído à constituição de um novo reino sem nenhuma batalha ou facto decisivo. Sem a importância de Ourique, ou a ascendência, os feitos de Afonso Henriques não justificariam um Tratado de Zamora, onde surge como igual perante o imperador, ainda antes da conquista de Lisboa. Para a consolidação dessa independência será importante as concessões feitas às ordens religiosas, nomeadamente à Ordem de Cister do Mosteiro de Alcobaça.
Estátua de D. Afonso Henriques no Arco da Memória
Actualmente junto ao Castelo de Leiria. [foto]

A própria invocação de S. Vicente, e da barca com os corvos, do brasão lisboeta, sugerem uma extensão de domínio naval que se estendia até ao Cabo de S. Vicente, e que teria como figura principal o almirante D. Fuas Roupinho. As incursões de resposta muçulmana que se seguiram vieram pela parte terrestre, e a linha marítima esteve desde essa altura consolidada, com o apoio das rotas dos Cruzados que se dirigiam à Terra Santa por via marítima. O reino português seria constituído por essa ligação à reconquista de Jerusalém, tema que seria perseguido como motivação militar nos descobrimentos - a táctica da cunha no ataque pelo Suez por via do Mar Vermelho.
Acabava por resultar dessa proeza dos Cruzados liderados pela família do Bulhão, Godofredo e Balduíno, prováveis tios-avôs de Afonso Henriques... mas também da aceitação natural de um reino no contexto imperial ibérico. A península só voltaria a ter imperadores com Carlos V e já no contexto europeu.
A tentativa anterior de colocar a península ibérica sob controlo do Sacro-Império Germânico tinha sido derrotada em Roncesvalles, quando os exércitos de Carlos Magno foram derrotados pelos bascos nos desfiladeiros dos Pirinéus. Curiosamente, a Canção de Rolando ou a saga Orlando Furioso, iriam contar uma história diferente, de guerra entre o exército de Carlos Magno e os sarracenos, quando na realidade tinham sido os próprios ibéricos, os bascos, a repelir a invasão. A península afinal só cederia a uma invasão externa com os exércitos de Napoleão.

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